sexta-feira, julho 10, 2015

Meu verão na Provença, de Rose Bosch *


Na obra-prima “Sangue negro” (2007), o diretor Paul Thomas Anderson focava a sua narrativa na exposição crua e sem concessões de um indivíduo mesquinho e antissocial, mostrando que sua misantropia revelava diversos traços de comportamentos inerentes à condição humana. Não havia redenção ou alguma espécie de transcendência epifânica para o protagonista Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis em um trabalho de composição dramática que mais parecia uma possessão). Em “Meu verão na Provença” (2014), a trama também é centrada em um indivíduo bronco e com dificuldades de se relacionar com as pessoas, principalmente com a filha e os netos. Parte dessa personalidade pode se atribuir à sua atividade de fazendeiro – é como se a rudeza de sua atividade acabasse se refletindo na sua vivência social. A diferença entre a obra de Anderson e essa produção mais recente da cineasta de Rose Bosch, entretanto, é uma escancarada e abissal profundidade artística: enquanto “Sangue negro” é uma obra de grande rigor estético e temático, “Meu verão na Provença” é destituída de uma abordagem mais consistente. É possível dar um desconto para a competente fotografia, que valoriza bastante as belas paisagens campestres em que se desenvolve a sua história. Fora disso, é uma narrativa trôpega e banal, cuja encenação se baseia em clichês superficiais e sem uma efetiva densidade dramática. A transformação do carrancudo Paul (Jean Reno) em um senhor boa praça é apressada e artificial. Bosch se apóia exclusivamente em melosos e simplórios clichês sentimentalóides na resolução dos dilemas do roteiro. Elementos que poderiam configurar algumas doses de contradição e questionamento (conflitos de geração, alcoolismo, nostalgia em relação aos ideais dos anos 60) são esvaziados de interesse e tensão. O resultado final é um filme anódino e pouco memorável dentro da sua irrelevância formal e mesmo textual.

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