quinta-feira, janeiro 26, 2017

Manchester à beira-mar, de Kenneth Lonergan ***1/2

O longa-metragem mais recente do diretor norte-americano Kenneth Lonergan, “Manchester à beira-mar” (2016), mostra-se como uma extensão coerente de “Conte comigo” (2000), extraordinário filme anterior do mesmo cineasta. Ambas as obras têm como temática relacionamentos familiares disfuncionais, focando, inclusive, na relação entre tio e sobrinho, e possuem estruturas narrativas clássicas e elegantes, além de abordagens emocionais sóbrias, indicando um claro traço autoral por parte de Lonergan. A diferença entre os dois trabalhos é que no mais antigo a narrativa era mais enxuta e de certo viés irônico, enquanto “Manchester à beira-mar” se formata como um dolorido épico existencial que transita de maneira atribulada entre passado e presente, beirando por vezes o melodramático. Mas isso não quer dizer que o filme em questão descambe para o dramalhão – Lonergan tem um domínio rigoroso da narrativa, e a carrega com uma profunda carga metafórica pelo subtexto de seu roteiro. O uso de idas e vindas no tempo tem um sutil sentido na construção psicológica de situações e personagens, em que questões como religiosidade e relações humanas mal resolvidas são expostas com crueza e pungência, e mesmo alguns truques narrativos que poderiam soar óbvios e apelativos acabam recebendo um tratamento contido e de resultado eficaz, vide o belo uso de temas de música clássica em cenas cruciais do filme. Dentro de tal visão artística-humanista, a estética naturalista de “Manchester à beira-mar” cai como uma luva na narrativa, em que a dureza imagética da direção de fotografia e a serena edição realçam de maneira contundente as sensações de melancolia e de impossibilidade de redenção que pairam sobre a trama da obra. A direção de atores, uma das grandes qualidades características de Lonergan, é primorosa e se mostra em perfeita sintonia com a concepção estética-temática da produção, com destaque absoluto para Casey Affleck no papel do protagonista Lee Chandler, em uma interpretação repleta de notáveis nuances (é de se reparar as variações de composições dramáticas de Affleck de acordo com as mudanças de planos temporais ao longo da narrativa), e a sequência com a conversa final entre Lee e a ex-esposa Randi (Michelle Williams) é antológica na intensidade e delicadeza nas interpretações de Affleck e Williams e na própria encenação elaborada por Lonergan.

quarta-feira, janeiro 25, 2017

Moana - Um mar de aventuras, de John Musker e Ron Clements ***

A síntese artística/temática de “Moana – Um mar de aventuras” (2016) obedece a uma fórmula já testada com eficácia em outras animações da Disney: heroína decidida de tinturas levemente feministas, roteiro combinando lendas regionais e dilemas familiares dramáticos, muita ação frenética, traço e estética que evocam exotismos, números musicais melosos. Ainda que careça de maiores novidades, a obra em questão junta os elementos citados de maneira competente e tem os seus momentos memoráveis. O terço inicial do filme demora bastante a engrenar e é francamente chato no tom melodramático de delinear a trama e no excesso de cantorias grandiloquentes. O filme engrena realmente quando a protagonista Moana embarca na sua viagem marítima e encontra o semideus fanfarrão Maui. A partir daí, a animação se converte numa convincente sucessão de sequencias de aventura alucinada, aliada a uma boa caracterização de personagens e a detalhes gráficos de forte encanto imagético (é de se reparar, por exemplo, como as tatuagens de Maui se integram na narrativa com notável criatividade).

terça-feira, janeiro 24, 2017

A criada, de Chan Wook Park ****

O diretor sul-coreano Chan Wook Park faz um jogo de aparências desconcertante em “A criada” (2016). Aqueles acostumados com a violência gráfica impactante e as atmosferas doentias de obras extraordinárias como “Old boy” (2003) e “Sede de sangue” (2009) podem estranhar a opção do cineasta pelo gênero filme de época nesse seu trabalho mais recente. O primeiro terço da narrativa até sugere uma abordagem formal mais tradicional e algo suntuosa, alem da trama enveredar por alguns truques típicos do melodrama. Com sutileza, entretanto, Park envenena o filme com o seu habitual viés autoral, fazendo com que aquilo que inicialmente parecia uma convencional narrativa de suspense, ainda que muito bem executada na sua dinâmica e concepção visual, vá se convertendo numa obra de simbologia perversa e libertária e cuja estética revela uma impressionante criatividade imagética. As sequencias de sexo entre as protagonistas, por exemplo, são antológicas pela forma com que combinam crueza erótica, desenvoltura cênica e grandiosidade barroca. A edição tem um talhe clássico em sua execução e valoriza com sensibilidade as idas e vindas temporais na trama, ressaltando dessa forma as insólitas e engenhosas nuances irônicas de tais truques narrativos. Dentro desse conjunto de soluções artísticas, fica evidente que a grande jogada criativa de Park em “A criada” está na sutil desconstrução dos ditames ocidentais da estrutura narrativa de um gênero para os recriar sob um olhar vigoroso e sardônico.

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Neruda, de Pablo Larrain **1/2

O chileno Pablo Larrain é um diretor que apresenta um certo grau de teor autoral e ousadia em sua filmografia. Em seus melhores momentos, como “No” (2012) e “O clube” (2015), conseguiu obter uma expressiva síntese de formalismo inquietante e temática de forte teor contestatório. Dessa forma, sua obra mais recente, “Neruda” (2016), acaba parecendo frustrante diante de seus trabalhos anteriores. Não que seja propriamente um filme ruim. Dá para perceber em algumas passagens da produção ideias estéticas bem sacadas, como a estilização da narrativa carregada de simbologias, o uso insólito de truques digitais e a atmosfera hedonista e algo delirante de determinadas sequências, e mesmo uma perspectiva histórica sobre o tema, a fuga do poeta e político Pablo Neruda (Luis Gnecco) durante o período em que o seu partido comunista foi declarado ilegal no Chile, que tem um certo aprofundamento psicológico e existencial. O grande problema do filme, entretanto, é que esses aspectos positivos não se integram de maneira orgânica diante de um teor indulgente na execução dessa concepção intrincada. Faltou um rigor artístico mais contundente na condução da narrativa por parte de Larrain, o que faz com que o filme em alguns momentos descambe para o melodrama brega e barato, o que fica evidente na caracterização canastrona de Gael Garcia Bernal como o antagonista Oscar Peluchoneau e na preguiçosa plasticidade de várias cenas.

domingo, janeiro 15, 2017

Animais noturnos, de Tom Ford ***

O fato do diretor Tom Ford ser também um estilista renomado está evidente em cada fotograma de “Animais noturnos” (2016). A sequência inicial de créditos, por exemplo, faz um contraste perturbador entre o grotesco da dança de obesas mórbidas seminuas com a ambientação requintada que as cerca, marcando a oposição visual entre a beleza e a feiura. Mesmo quando a trama envereda nas passagens com os rednecks “feios, sujos e malvados” há um forte grau de estilização da sordidez. Dentro dessa sua concepção artística, Ford constrói uma narrativa ambiciosa e irregular. Num primeiro momento, o filme parece emular uma espécie de síntese bizarra de David Lynch e Federico Fellini, em que a edição fragmentada e a caracterização bizarra e caricata de personagens e situações insinuam uma atmosfera onírica/delirante. Aos poucos, entretanto, roteiro e encenação se estabilizam para uma direção oposta, com o filme se convertendo para um melodrama barroco que se desenvolve em duas frentes temporais (passado e presente) e mesmo dimensionais (com a história do romance que é lido pela protagonista Susan se entrecruzando com a “realidade” da personagem). Há pontos positivos nas escolhas artísticas de Ford – a conotação de perversa parábola moral do roteiro, a expressiva beleza plástica de algumas sequências, trilha sonora de temas marcantes, ótimas atuações no elenco. O problema é que todas essas qualidades por vezes esbarram numa narrativa exageradamente bombástica e pouco sutil, e que em alguns momentos até resvala no francamente brega e novelesco, não havendo aquele contraponto de ironia que fazia “A garota exemplar” (2014), obra de temática e estética semelhantes, transcender como obra extraordinária. Ainda assim, boa partes de tais equívocos são frutos de ousadias formais e textuais de Ford e juntamente com os já aludidos acertos da produção credenciam “Animais noturnos” como uma inquietante experiência cinematográfica.

sábado, janeiro 14, 2017

As confissões, de Roberto Andò ***

Assim como ocorre em “Eu, Daniel Blake” (2016), a produção italiana “As confissões” (2015) mostra contundente ressonância com o cenário sócio-político contemporâneo mundial. O diretor Roberto Andò já havia mostrado uma queda para a sátira política em “Viva a liberdade” (2013), mas nessa obra recente a sua abordagem se revela mais sombria e complexa. A trama tem na sua superfície uma formatação tradicional para o suspense. Ocorre, entretanto, que a história de mistério envolvendo o suicídio do presidente do FMI durante o encontro num imenso hotel luxuoso e isolado com os ministros da economia dos países mais ricos do mundo na verdade vai se configurando aos poucos como uma ácida parábola moral a refletir o descaso do Estado neoliberal e a ganância de grandes corporações e bancos diante do interesses de sobrevivência da maioria da população mundial. Mesmo a figura do protagonista, o monge Roberto Salus (Toni Servillo), tem o caráter simbólico de servir como uma espécie de consciência existencial, parecendo uma homenagem ao papel desempenhado atualmente pelo Papa Francisco. A direção de Andò demonstra segurança e até uma certa ousadia na forma com que contrasta a opulência visual dos cenários com a podridão ética dos personagens e algumas situações, além de algumas sequências mostrarem uma expressiva síntese entre a ironia e o fantástico. É de se destacar também as ótimas composições dramáticas nas interpretações de Servillo e Daniel Auteuil. Alguns detalhes do roteiro e determinadas nuanças estéticas fazem lembrar filmes italianos clássicos no gênero político como “Juízo final” (1976) e “Saló ou os 120 dias de Sodoma” (1976), o que pode até causar alguma frustração, pois Andò está bem distante de mostrar a mesma profundidade psicológica e formalismo peculiar de Elio Petri e Pier Paolo Pasolini. Ainda assim, “As confissões” é uma obra capaz de inquietar os espectadores pela força de sua narrativa e pela lucidez crítica de sua visão de mundo.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Eu, Daniel Blake, de Ken Loach ****

Este blog tem a intenção primordial de falar sobre filmes, mas para comentar uma obra como “Eu, Daniel Blake” (2016) é inevitável para este que vos escreve fazer um pequeno aparte sócio-político. É que na minha visão, um regime previdenciário que prevê concessão de proventos integrais somente após 45 anos de trabalho e idade mínima de 65 anos aliado a uma radical flexibilização de direitos trabalhistas, conforme deseja o usurpador Temer e seus asseclas políticos e empresários, tem fins bastante específicos: matar pobre e humilhar a classe trabalhadora, jogando milhões de pessoas no mercado informal e na marginalidade. O diretor britânico Ken Loach parece também concordar com tal previsão pessimista, pois a trama de seu filme mostra justamente a trajetória de degradação e angústia morais e existenciais pelo qual o protagonista do título passa ao ter de deixar de trabalhar por problemas de saúde e recorrer aos programas de auxílio a desempregados da Inglaterra. Loach conduz a sua narrativa com rigor e precisão, optando por um registro cru e detalhista, sem apelar a truques melodramáticos excessivos, para mostrar o absurdo e desumano inferno tecnoburocrático no qual Daniel (Dave Johns) se afunda em busca de uma ajuda para a sua subsistência básica. O roteiro tem uma profundidade e síntese dialética notáveis, o que se revela em nuances contundentes como a ausência de moralismo hipócrita ao mostrar amigos do personagem principal recorrendo à prostituição e ao descaminho para poderem sobreviver e na arrasadora e coerente conclusão da saga de Daniel. A sobriedade na construção narrativa da produção não sacrifica o forte aspecto emocional inerente a uma história como essa – pelo contrário, pois amplifica ainda mais a dimensão humanista da obra e o caráter desafiador da visão de mundo de Loach.

segunda-feira, janeiro 09, 2017

A lenda do pianista do mar, de Giuseppe Tornatore ***

No melhor e no pior de sua filmografia, o cinema do diretor italiano Giuseppe Tornatore é marcado por uma conturbada síntese entre barroquismo pomposo e exagerado e uma forte carga sentimental (que por vezes cai no cativante, por vezes afunda na breguice). “A lenda do pianista do mar” (1998) é um dos seus trabalhos em que essa sua habitual fórmula se revela melhor acabada. A partir de um roteiro repleto de alegorias e melodrama, a produção apresenta estética e atmosfera que evocam o delírio e o onirismo que marcaram algumas das produções mais emblemáticas de Federico Fellini (nesse sentido, “E la nave va”, por sua ambientação igualmente marinha, seja a conexão mais próxima). O encantador tom artificialista da fotografia e a música exuberante de Ennio Morricone colaboram nessa atraente orientação irreal da narrativa. Por outro lado, há um excesso de teor caricatural na caracterização de personagens e situações e soluções convencionais em demasia no roteiro, o que retira muito do potencial de tensão dramática do filme. Mas ainda que fique esse gosto de inconsistência, o saldo final é positivo por algumas já aludidas ousadias na construção de sua linguagem, e por ser, de certa forma, um enfático exemplar dos dilemas artísticos de Tornatore.

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Chico - Artista brasileiro, de Miguel Faria Jr. **1/2

Depois de assistir a “Chico – Artista brasileiro” (2015), uma impressão inicial logo fica evidente – está muito longe de ser o desastre que foi “Vinicius” (2015), equivocada cinebiografia de Vinicius de Moraes também dirigida por Miguel Faria Jr. Dessa vez, o cineasta soube valorizar melhor a vida e arte de seu protagonista, não recorrendo a constantes e inconsistentes truques sentimentais e narrativos. Por outro lado, a complexidade artística e existencial de uma figura como Chico Buarque exigia uma concepção estética-temática menos previsível e mais ousada. A dinâmica da narrativa é correta, boa parte dos números musicais tem os seus atrativos na coerência da escolha de canções e intérpretes e a própria “matéria prima” original já configura um atrativo à parte (farto material de arquivo visual, depoimentos repletos de informações e erudição de Chico e, é claro, o seu expressivo cancioneiro). No final das contas, entretanto, essa mera competência formal e textual não se mostra em sintonia com o caráter inquietante que marca a produção cultural e a própria trajetória de Chico Buarque na sua síntese de tradição e transgressão. Por vezes, o documentário se mostra tão bem-comportado que faz beirar o institucional, não sabendo explorar com mais sensibilidade e perspicácia os dilemas, as contradições e a beleza singular que provém de tudo aquilo que Chico está envolvido (música, teatro, literatura e mesmo sua vida).

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Sing, de Garth Jennings ***

Essas recentes franquias televisivas no estilo “caça-talentos musicais”, como The Voice ou X-Factor, não passam de uma versão reciclada de tranqueiras divertidas como o Show de Calouros do Silvio Santos ou da Discoteca do Chacrinha, com a diferença de que se levam muito a sério ao acrescentarem dicas de profissionais da área e conselhos de autoajuda. Ou seja, é um negócio francamente ridículo. Dessa forma, a única forma de gostar desse tipo de coisa é quando se assiste a uma inteligente paródia como esse “Sing” (2016), um desenho animado em que os candidatos a estrelas são animais antropomorfizados. Nesse sentido, o diretor Garth Jennings atinge uma síntese artística bastante eficiente, conciliando ironia espalhafatosa nos números musicais, melodrama cômico na medida certa na caracterização dos personagens e até um senso de ação cinematográfica por vezes alucinante (as sequências de perseguições, em particular, tem um afiado teor de tensão e grafismo rebuscado). Ao lado de “Zootopia” e “Pets”, o filme de Jennings acaba fechando em 2016 uma involuntária e memorável tríade de animações com bichos!

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Capitão fantástico, de Matt Ross ***

Por vezes, o diretor Matt Ross se rende a algumas convenções melodramáticas e a alguns óbvios truques narrativos que tiram um pouco da força sensorial de “Capitão fantástico” (2016). Ainda assim, o filme tem um resultado final memorável, principalmente por algumas ousadias de forte empatia. A começar pela síntese entre crueza e forte plasticidade na forma com que o seu registro visual retrata uma natureza selvagem e a interação dos personagens com esse cenário, chegando a lembrar o estilo do alemão Werner Herzog nesse tipo de concepção cênica. É admirável também o trabalho de direção de atores, em que a fluidez e expressividade das interpretações de Viggo Mortensen e do elenco de adolescentes e criança rendem cenas antológicas pela dinâmica da interação entre eles. O roteiro do filme também configura um ponto alto para a narrativa, no sentido do inusitado de algumas passagens, na complexidade psicológica e existencial na caracterização de alguns personagens, na verve irônica e contestadora de boa parte dos diálogos e de um saudável teor libertário do subtexto – nesse sentido, “Capitão fantástico” apresenta sintonia artística e temática com uma das obras-primas da temporada, “A bruxa”, pela contundência e lucidez de um discurso anticristão. E para coroar os acertos da produção, há uma belíssima trilha sonora que combina com precisão temas etéreos encantadores, cortesia dos islandeses do Sigur Ros, e ótimas canções rock. Diante do obscurantismo e reacionarismo que tomaram conta do cenário sócio-político-cultural no mundo em 2016, o caráter sardônico e desafiador de “Capitão fantástico” acaba lhe dando uma efetiva transcendência artística.

terça-feira, janeiro 03, 2017

Rogue One - Uma história Star Wars, de Gareth Edwards ***1/2

O grande acerto de “Rogue One – Uma história Star Wars” (2016) é que há foco e conceito muito bem definidos – o fato de ser um spin-off faz com que a ênfase esteja numa abordagem mais sórdida e violenta tanto de seu roteiro quanto em sua própria encenação (nesse sentido, faz lembrar um dos melhores filmes da franquia, “A vingança dos Sith”). Ainda que a história se refira a eventos que afetam de forma decisiva toda a saga e tenha participação marcante de Darth Vader, o filme traz aquilo que seria o lado b do universo Star Wars, o que se reflete na caracterização de situações e personagens e numa propensão para um detalhismo gráfico perturbador. Nessa linha, é como se a produção resgatasse a atmosfera entre o sombrio e o fuleiro dos vários filmes b que surgiram no lastro da obra original de George Lucas e mesmo do universo expandido da série (quadrinhos, animações e afins), além de revelar influências temáticas e formais de filmes de guerra clássicos (impossível, por exemplo, não lembrar da missão suicida e das figuras trágicas da obra-prima “Os doze condenados”). Pode ser que tais referências sugiram uma espécie de colcha de retalhos narrativa, mas o diretor Gareth Edwards consegue sintetizar tais influências diversas com notável precisão, fazendo com que o que era para ser um aperitivo em relação aos filmes “principais” da franquia acabe ganhando uma dimensão artística bem mais ampla. Há em “Rogue One” qualidades que estavam ausentes em “O despertar da força” (2015) – cenas de ação com efetiva carga de tensão dramática e coreografadas de maneira memorável, personagens com carga psicológica mais complexa e delineada (o espião assassino em crise existencial interpretado por Diego Luna, por exemplo, é um personagem muito bem construído), roteiro bem equilibrado na delimitação dos dilemas dramáticos e da aventura alucinada. Diante de todos esses pontos positivos, “Rogue One” faz com que a retomada da franquia “Star Wars” se afaste bastante da mera picaretagem marqueteira que “O despertar da força” fazia supor.

segunda-feira, janeiro 02, 2017

Melhores filmes de 2016

1

1) Elle, de Paul Verhoeven
2)      Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
3)      Os oitos odiados, de Quentin Tarantino
4)      A bruxa, de Robert Eggers
5)      Demônio de neon, de Nicolas Winding Refn
6)      Boi neon, de Gabriel Mascaro
7)      Julieta, de Pedro Almodovar
8)      A vizinhança do tigre, de Affonso Uchoa
9)      Mãe só há uma, de Anna Muylaert
10)   Francofonia – Louvre sob ocupação, de Alexander Sokurov
11)   Dois caras legais, de Shane Black
12)   Tio Bernard: Uma antilição de economia, de Richard Brouillette
13)   Belos sonhos, de Marco Belllocchio
14)   Creed, Ryan Coogler
15)   Mogli – O menino lobo, de Jon Favreau
16)   Creepy, de Kiyoshi Kurosawa
17)   Mais forte que bombas, de Joachim Trier
18)   A assassina, de Hou Hsiao-Hsien
19)   Que viva Eisenstein, de Peter Greenaway
20)   Ave, César, de Ethan e Joel Coena
21)   A paixão de JL, de Carlos Nader
22)   Mate-me por favor, de Anita Rocha Silveira
23)   BR 716, de Domingos de Oliveira
24)   A grande aposta, de Adam McKay
25)   O vale do amor, de Guillaume Nicloux

sexta-feira, dezembro 30, 2016

O que está por vir, de Mia Hansen-Love ***1/2

O fato da protagonista de “O que está por vir” (2016) ser uma professora de filosofia se relaciona de maneira sutil com a própria estrutura narrativa da obra – a forma como a trama se desenvolve apresenta traços de um caráter didático, por vezes beirando uma síntese entre o esquemático e o dialético, na intenção de dissecar os meandros da vida pequeno-burguesa de Nathalie (Isabelle Huppert). Num primeiro momento, são expostas a contradição e a hipocrisia entre aquilo que é ensinado pela personagem e o seu cotidiano pessoal e profissional. No segundo momento, o foco está na dissolução dos pilares conservadores da vida de Nathalie para que ela possa entrar em sintonia com a natureza libertária do conhecimento ao qual se dedicou a estudar e propagar. Os truques do roteiro e sua simbologia podem até aparentar uma certa simplicidade na sua lógica, mas a grande força do filme está na encenação sóbria e repleta de nuances dramáticas e mesmo irônicas concebida pela diretora Mia Hansen-Love. Não há maiores concessões sentimentais na condução narrativa, com a cineasta se atendo a um formalismo de notáveis secura e objetividade, sem que isso, entretanto, sacrifique o aspecto emocional, que sempre irrompe com naturalidade e empatia. Colaboram ainda as contidas composições dramáticas do elenco, com óbvio destaque para Huppert, e a inteligência do roteiro que ressalta com sensibilidade a complexidade e a força desafiadora dos principais dilemas da trama.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

Belos sonhos, de Marco Bellocchio ****

A narrativa em “Belos sonhos” (2016) gira em torno de uma ideia de trama aparentemente até bem simples: a maneira como a precoce morte da mãe do protagonista Massimo (Valerio Mastandrea), quando ele ainda era criança, marcou o restante de sua vida. Só que com o velho mestre italiano Marco Bellocchio as coisas nunca são tão simples, com o cineasta convertendo tal história numa espécie de parábola moral de subtexto político-existencial fascinante. O fluxo temporal da trama corresponde a uma espécie de linha de memória marcada por traumas e esquecimentos. A sutil desconstrução da linearidade cronológica acentua a complexidade dos sentimentos e sensações que afloram com crueza e mesmo alguma ironia ao longo da narrativa. O passar dos anos para Massimo não corresponde exatamente a um amadurecimento do personagem, e nesse conceito perpassa uma síntese entre o sentimental e o intelectual a retratar tanto os aspectos intimistas quanto o caráter sócio-cultural do modelo do macho ocidental – nesse sentido, é brilhante a forma com que Bellocchio disseca na trajetória pessoal e profissional de Massimo seu envolvimento com o futebol, a política e o poder econômico, em que tais símbolos de masculinidade e prestígio social acabam não conseguindo esconder uma fragilidade inerente ao personagem. O registro estético para tal saga pessoal oscila com discrição entre a ambientação levemente estilizada do passado e a atmosfera de melodrama clássico do presente, em que as convenções do gênero são adulteradas com uma doce ironia perversa. Bellocchio “engana” com brilhante engenhosidade o espectador em seus truques formais-temáticos – em determinados momentos, ele insinua que a narrativa cairá em uma espécie de dramalhão novelesco edificante para logo depois revelar uma verve cáustica de encenação e texto. Dentro desse particular universo artístico, Bellocchio evidencia a sua indelével marca autoral e de lambuja faz um contundente e emotivo retrato psico-político da sociedade ocidental das últimas décadas.

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Sangue do meu sangue, de Marco Bellocchio ***1/2

O diretor italiano Marco Bellocchio mostra em “Sangue do meu sangue” (2015) que ainda é capaz de deixar as plateias desconcertadas. A trama do filme se situa em dois planos temporais, passado e presente, e faz uma reflexão intrincada sobre religião e poder. O viés estético e narrativo flutua dentro de uma estranha síntese que abarca drama de época, realismo fantástico e comicidade bufa, situando a obra numa encruzilhada artística-existencial difícil de precisar. Por vezes, o tratamento formal é tão insólito que faz tudo beirar o delirante. Bellocchio tem a sensibilidade de conciliar tais elementos diversos dentro de uma concepção rigorosa de filmar – ainda que a história se desenvolva por caminhos bastantes livres, em que ambientações solenes convivem de maneira natural com sensualidade à flor da pele, sempre dá para perceber a mão do cineasta dando um sentido personalíssimo para a narrativa. Dessa maneira, alguns truques melodramáticos de determinas cenas aos poucos são envenenados por uma atmosfera de puro absurdo, característica essa que é bem delimitada na figura de um chefão mafioso vampiro, que simboliza de maneira sardônica e melancólica uma certa concepção entre o irônico e o nostálgico de uma tradição secular decadente. Nesse bizarro jogo narrativo, não importa a existência de um final convencional que amarre todas as pontas da trama – para Bellocchio, importa mais traduzir em audiovisual um perturbador sentimento atávico que marca o imaginário coletivo de seu país.

terça-feira, dezembro 20, 2016

Sully - O herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood ***

Uma expressiva parte da filmografia do diretor norte-americano Clint Eastwood é composta de obras baseadas em fatos reais que estabelecem uma espécie de inventário histórico e cultural dos Estados Unidos. Em tais produções, o foco do diretor não se limita apenas a encenar eventos “verdadeiros”, mas também a procurar traduzir uma série de conceitos e valores caros para o país como o patriotismo, a moral e heroísmo. O processo artístico de Eastwood na elaboração de tais trabalhos passa por uma abordagem formal sóbria e clássica e uma visão temática madura que enfatiza a complexidade psicológica do contexto histórico recriado. Dentro desse método, destacam-se produções brilhantes como “A conquista da honra” (2006) e “Sniper americano” (2015). Ainda que não tenha a mesma qualidade estética e textual dos filmes mencionados, “Sully – O herói do Rio Hudson” (2016) dá continuidade ao projeto artístico-histórico de Eastwood de maneira contundente. Ainda que se renda por vezes a alguns truques narrativos melodramáticos convencionais, o filme consegue oferecer uma interessante dimensão humanista para o insólito caso do comandante Sully (Tom Hanks), que em uma situação de emergência, em janeiro de 2009,  pousou um avião lotado em pleno Rio Hudson, em Nova Iorque, e que devido à sua perícia fez com que não houvesse nenhuma vítima fatal. De maneira sutil, prevalece na ambientação da trama um tom de ambiguidade – mesmo ressaltando momentos de exaltação da coragem do protagonista, a história se permite um certo clima de ressaca moral do cenário pós-crise econômica de 2008. Nesse sentido, a forma com que Eastwood conduz a narrativa e o teor sócio-político da trama evocam uma atualização do cinema de Frank Capra, em que até a atuação de Hanks emula alguns maneirismos típicos de James Stewart.

segunda-feira, dezembro 19, 2016

Maresia, de Marcos Guttman **1/2

Existem filmes que cativam mais pelos conceitos que procura trabalhar do que pelo seu resultado final propriamente dito. “Maresia” (2015) é um caso exemplar disso. Dá para perceber algumas nuances interessantes no roteiro, principalmente no que diz respeito a relação que se estabelece entre o especialista em arte Gaspar e o seu objeto de estudo, o pintor falecido Emilio Vega, ambos interpretados com forte intensidade por Júlio Andrade, em que os detalhes obscuros da vida de Vega parecem determinar os tormentos existenciais de Gaspar. Além disso, o filme apresenta uma direção de fotografia expressiva, que sabe valorizar tantos as belas paisagens do Rio de Janeiro quanto criar uma atmosfera sombria. Esses elementos promissores, entretanto, não conseguem se conciliar dentro de uma narrativa satisfatória. O roteiro se perde em viradas novelescas, além de seu subtexto ser esmiuçado sem maiores sutilezas. O tom contemplativo da abordagem do diretor Marcos Guttmann cai no enfadonho em algumas sequências, faltando para o filme uma mecânica narrativa mais ágil e contundente.

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Elas me odeiam, mas me querem, de Spike Lee ***

Mesmo em um filme que não é dos mais expressivos de sua carreira, o diretor Spike Lee consegue deixar uma marca autoral indelével e capaz de suscitar alguns interessantes questionamentos artísticos e existenciais. Isso é o que fica evidente em “Elas me odeiam, mas me querem” (2004). A intenção do cineasta era fazer uma espécie de comédia farsesca a satirizar preconceitos raciais e valores comportamentais e sociais típicos da sociedade burguesa ocidental. O problema da obra, contudo, é que ela exigia uma abordagem mais ousada na construção de uma narrativa de tons libertários e de uma atmosfera que soubesse sintetizar erotismo e ácido sarcasmo. No geral, prevalece uma condução mais convencional de Lee, o que faz com que por vezes o filme caia no lugar comum. Ainda assim, o diretor consegue obter alguns bons momentos, principalmente por um notável virtuosismo na composição imagética de algumas cenas, no diferenciado trabalho de edição, na bela trilha sonora e em algumas passagens memoráveis do roteiro. Nesse último quesito, destaques para as sequências em que o protagonista Jack (Anthony Mackie) se torna um bem pago reprodutor para filhos de lésbicas, trazendo uma bem sacada combinação de ironia perversa e quente sensualidade (Spike Lee sempre teve ótima mão para filmar cenas de sexo).

quinta-feira, dezembro 15, 2016

Visões do passado, de Michael Petroni ***

O roteiro de “Visões do passado” (2015) está recheado dos clichês temáticos básicos dentro do gênero horror que sintetiza o sobrenatural e o psicológico: almas penadas, ambientação que junta o real e o metafísico no mesmo plano, segredos e traumas mal digeridos do passado. O diretor Michael Petroni tem a manha de saber conciliar tais traços óbvios da trama com uma narrativa enxuta, formalismo bem estruturado e atmosferas sombrias capazes de gerar alguma tensão para o espectador. Além disso, conta com um bom ator (Adrien Brody) no papel principal, dando uma certa profundidade existencial para o protagonista. Ou seja, no geral, não apresenta novidades e nem vai entrar para história dentro do gênero, mas é bem mais divertido e envolvente do que as produções “modernas” de horror que tanto apelam para a câmera subjetiva para esconder a sua incompetência narrativa.

quarta-feira, dezembro 14, 2016

Conspiração e poder, de James Vanderbilt **

Um gênero que tem cadeira cativa no cinema norte-americano nas últimas décadas é o dos dramas históricos-políticos. De certa forma, sempre há algum diretor com a pretensão de realizar uma obra no nível de importância artística e temática de um clássico como “Todos os homens do presidente” (1976). “Conspiração e poder” (2015) é mais uma produção que busca tal objetivo, ao mostrar o polêmico caso em que o programa televisivo “60 minutes” acusou o ex-presidente George W Bush de não servir durante a Guerra do Vietnã usando a influência política de seu pai e que depois não conseguiu sustentar suas alegações por falta de provas, com os jornalistas envolvidos caindo em descrédito perante o público. O assunto é interessante e complexo, refletindo muito do jogo de poder envolvendo a mídia e o Estado, mas o tratamento formal e narrativo proposto pelo diretor James Vanderbilt é tão desprovido de vigor e ousadia que acaba mais provocando uma sensação de enfado para o espectador do que alguma tensão ou mesmo indignação. Falta dinâmica e até alguma ironia dentro dos clichês melodramáticos nos quais o cineasta se afunda. É claro que o filme pode despertar uma certa curiosidade pelo seu lado informativo para aqueles que se interessam pelo cenário sócio-político contemporâneo. Como cinema, entretanto, é uma experiência bastante frustrante.

terça-feira, dezembro 13, 2016

De Palma, de Noah Baumbach e Jake Paltrow ***1/2

A filmografia do diretor norte-americano Brian De Palma é marcada por uma grande depuração da linguagem cinematográfica. Como ele mesmo declara em um determinado do documentário “De Palma” (2015), para ele o roteiro tem a função de preencher uma concepção estética e narrativa que vem em primeiro lugar na sua mente. Os cineastas Noah Baumbach e Jake Paltrow, realizadores da mencionada produção documental, se mostram em sintonia com tais preceitos artísticos do seu protagonista, fazendo com que o filme se baseie quase que exclusivamente em longos depoimentos de De Palma dissecando cada uma das produções que dirigiu. Além do detalhar o contexto histórico de realização delas, ele discute o seu método de trabalho, principalmente em termos de encenação, truques estéticos e concepção visual. Impressiona a autoconsciência que De Palma demonstra nessa entrevista em relação a sua carreira, no sentido de como depura as suas influências, principalmente no caso de Hitchcock, e discute com lucidez sobre a recepção de seus filmes por parte de público e crítica. Nesse último quesito, boa parte daqueles filmes que muitos consideraram fracassos artísticos e comerciais em suas respectivas épocas de lançamento com o tempo mereceram uma revisão mais cuidadosa e tiveram os seus vários méritos artísticos reconhecidos. Tal fenômeno se relaciona com a sofisticação da abordagem formal de De Palma, cuja apreensão sensorial por parte das plateias exige um olhar mais amplo do que o mero interesse por entretenimento rápido. Para incrementar esse panorama artístico sobre o ato de fazer cinema, Baumbach e Paltrow inserem trechos significativos de todos os filmes discutidos em cena, bem como de obras que influenciaram De Palma. Assim, o espectador entra numa atordoante viagem sensorial dentro da mente de pura lógica cinematográfica de De Palma.

segunda-feira, dezembro 12, 2016

Ninguém deseja a noite, de Isabel Coixet **1/2

No subtexto da trama de “Ninguém deseja a noite” (2015) há um forte teor de contestação dos valores sócio-culturais do mundo ocidental. As obsessões, caprichos e preconceitos da protagonista Joséphine (Juliette Binoche) sintetizam os interesses mercantilistas e opressores dos países europeus colonizadores em relação aos países explorados por tais nações, com tais intenções de dominação sendo mascarados por hipócritas máscaras de patriotismo, religiosidade e civilidade. O problema do filme é que a contundência desse discurso temático acaba tendo a sua força diminuída a partir de uma abordagem narrativa atrelada ao melodrama excessivamente convencional. A obra da diretora espanhola Isabel Coixet até consegue apresentar algumas belas sequências em termos plásticos diante de um conjunto eficiente de fotografia e direção de arte, mas falta uma atmosfera de tensão e violência mais convincente, que efetivamente consiga prender o interesse da plateia. Coixet se contenta em enveredar por facilidades narrativas, como uma trilha sonora pomposa e onipresente e exageros sentimentais, ao invés de apostar num registro mais sóbrio que conseguiria reproduzir com mais verdade e paixão o eterno embate entre o indivíduo dito “civilizado” e uma natureza inclemente que não se rende a uma suposta meritocracia.

sexta-feira, dezembro 09, 2016

Time will burn, de Marko Panayotis e Otávio Sousa ***

Para muita gente, o rock and roll significa bandas que vendem milhares de discos, que tem shows lotados em grandes espaços (arenas, estádios), que são famosas em termos midiáticos e outras amenidades afins. Na realidade, tal cenário representa uma exceção dentro da história desse gênero musical, pois grande parte do que se já fez de melhor no rock está vinculado a situações como a de tocar em muquifos para algumas dezenas, não ter vendagens expressivas de suas gravações, ser ignorado pela imprensa e pelo público “normal”. Ok, também é recorrente dizer que o rock foi absorvido pelo sistema, mas ele sempre trará dentro de si um certo aspecto de marginalidade e contestação. Por isso que o documentário “Time will burn” (2016) consegue ser tão cativante. O filme retrata um recorte temporal e territorial bem delimitado – o cenário underground de bandas paulistas e cariocas no período de 1990 a 1994 que se aventuravam dentro um som barulhento bastante influenciado por grupos estrangeiros como Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine e Stooges. Cantando em inglês e desenvolvendo suas carreiras dentro de um esquema independente envolvendo gravações em cassetes “demo” ou discos por selos alternativos, apresentações em pequenos bares e boates e divulgação por fanzines, cartazes e flyers xerocados, nenhuma delas atingiu o sucesso comercial ou entrou para os anais da história “oficial” do rock and roll, mas acabaram se tornando cultuadas e influentes para alguns de seus seguidores. Para contar essa história, os diretores Marko Panayotis e Otávio Sousa articulam uma narrativa eficaz e envolvente e um acabamento estético que sabe sintetizar requinte e o espírito “do it yourself”, concentrando-se basicamente na trajetória das quatros principais bandas desse movimento (Pin Ups, Killing Chainsaw, Mickey Junkies e Second Come) e sabendo valorizar a crueza e espontaneidade nas filmagens de depoimentos e os impressionantes registros de época com as apresentações de tais bandas. Além disso, o filme consegue amarrar um coerente conceito existencial e artístico que dá a devida dimensão histórica daquele fenômeno cultural, mostrando como ele ainda é ressonante na atualidade.

quinta-feira, dezembro 08, 2016

Animais fantásticos e onde habitam, de David Yates **1/2

É bem provável que o séquito de devotos da franquia “Harry Potter” esteja bem satisfeito com “Animais fantásticos e ondem habitam” (2016). Para que não houvesse muitas polêmicas, os produtores colocaram como diretor o britânico David Yates, que foi o responsável pelos últimos capítulos da série do jovem bruxo, para que fosse entregue justamente aquilo que o seu público esperava. Ou seja, é mais uma produção no gênero fantasia a manter um padrão estético/temático competente e asséptico feito para não chocar a grande maioria da audiência. Dentro dessa previsível fórmula narrativa dá até para dizer que há alguns destaques, como a beleza plásticas de algumas soluções visuais, movimentadas cenas de ação que por vezes divertem e um elenco de atuações carismáticas. Mas no geral o que predomina é uma sensação de um formalismo pouco imaginativo e de emoções plastificadas, algo como mais uma cópia pálida da ambientação e dos maneirismos típicos da trilogia “O senhor dos anéis”. Em alguns momentos, a trama mostra alguns vislumbres mais sombrios e interessantes, que até sugerem uma certa perspectiva de que a narrativa enverede por caminhos mais ousados. Essa impressão, contudo, é logo apagada pela pegada burocrática da direção de David Yates que retira as poucas possibilidades de uma atmosfera de tensão que efetivamente prenda a atenção do espectador. Pode ser que “Animais fantáticos...” renda algumas semanas de debates e discussões entre nerds, geeks e assemelhados, mas logo cairá no esquecimento quando entrar em cartaz  mais uma produção de “Star War”, “Jogos vorazes” ou afins. É assim as coisas seguem...

quarta-feira, dezembro 07, 2016

O filho eterno, de Paulo Machline *1/2

O que torna “O filho eterno” (2016) uma adaptação cinematográfica frustrante do romance original de Cristóvão Tezza não é simplesmente o fato de tal versão não ser fiel ao livro em questão, mas o fato de representar uma medíocre antítese da proposta artística contundente de Tezza. Afinal, a mencionada obra literária apresenta uma engenhosa combinação entre a ficção e o real para tratar da complexa relação entre o escritor e seu filho com Síndrome de Down, com sutilezas narrativas da prosa que apresentam uma carga simbólica e existencial desconcertante e que também versam sobre o confronto do conteúdo idealista e apolíneo da arte com a crueza emocional do cotidiano e dos sentimentos humanos. Nada disso está presente no filme de Paulo Machline, que se contenta em enquadrar a história do original literário numa formatação asséptica e previsível, diluindo a contundência dos conflitos e dilemas da temática numa fórmula de soluções fáceis e edificantes, fazendo tudo parecer uma novelinha global qualquer.

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Amnésia, de Barbet Schroeder ***

A trama de “Amnésia” (2015) estabelece uma insólita ponte entre a Alemanha nazista dos anos 30 e 40 com a ensolarada e hedonista praia espanhola de Ibiza nos anos 90, simbolizada no platônico relacionamento amoroso entre Jo (Max Riemelt), um jovem DJ, e Martha (Marthe Keller), uma retraída senhora de 70 anos, ambos germânicos “exilados” no paradisíaco litoral. O que poderia adquirir contornos de bizarrice melodramática ganha contornos bem mais sóbrios e profundos a partir da sutileza da abordagem narrativa do diretor Barbet Schroeder. A direção de fotografia valoriza com sensibilidade os belos cenários naturais de Ibiza, mas não cai no mero registro “cartão postal”, estabelecendo, na verdade, um inquietante contraponto entre essa ambientação agradável com o passado obscuro de Martha e a ambiguidade de sua relação com Jo. Outro ponto alto artístico é a maneira como a música se insere no filme, servindo como uma espécie de elo simbólico a retratar a cumplicidade entre o par de protagonistas e também o processo de reaproximação existencial de Martha com o mundo. Nesse sentido, os belos temas eletrônicos da trilha sonora realçam tanto o particular contexto cultural dos cenários da trama, afinal Ibiza é o grande ponto de convergência mundial da música eletrônica dançante, como um certo caráter libertário de “Amnésia” na exposição das relações humanas.

sexta-feira, dezembro 02, 2016

A chegada, de Denis Villeneuve ***1/2

Talvez o grande problema para que o canadense Denis Villeneuve se firmasse como um dos cineastas mais promissores a surgirem nos últimos anos é uma excessiva pretensão “autoral”. Não que ambição artística seja um problema, mas em seus filmes dava para perceber uma boa mão na encenação e um trabalho diferenciado na direção de atores e que por vezes falhavam como narrativa diante de um certo tom solene e excessivamente reflexivo que deixava o ritmo de suas histórias um tanto truncado, além dos seus respectivos roteiros se perderem em excessos novelescos. A ficção científica “A chegada” (2016) é o filme de Villeneuve que melhor consegue resolver esse nó criativo. Assim como em sua produção imediatamente anterior, “Sicário” (2015), fotografia e trilha sonora são grandes pontos altos da obra, ajudando a compor uma atmosfera melancólica e algo metafísica para uma trama versando sobre a chegada de alienígenas na Terra, apresentando algumas referências visuais e mesmo de ambientação que lembram Terrence Malick e Andrei Tarkovsky. A sofisticação de tais elementos estéticos consegue se encaixar com naturalidade dentro de uma lógica narrativa que se liga a uma estrutura de filme de gênero, ou seja, o tom contemplativo está em sintonia com uma dinâmica tradicional da ficção científica contemporânea. É de se ressaltar ainda a ousada concepção imagética dos efeitos especiais e um roteiro que consegue dosar de maneira equilibrada os clichês habituais da aventura fantástica com a pretensão e complexidade temáticas a envolver viagens no tempo, comentário sócio-político e utopia sci fi.

quarta-feira, novembro 30, 2016

Creepy, de Kiyoshi Kurosawa ****

O diretor japonês Kiyoshi Kurosawa tem uma forte vinculação com o cinema de gênero, principalmente na área de interligação entre o suspense e o horror, mas sua abordagem artística é bastante diversa daquela de produções nipônicas como “O chamado” (1998) e derivados. Isso fica bastante evidente em sua obra mais recente, “Creepy” (2016). Não há grandes inovações em termos formais e temáticos, e por vezes até pode haver um certo incômodo com algumas incongruências do roteiro. O forte de Kurosawa está na construção de uma atmosfera densa e perturbadora de tensão e terror, na caracterização bizarra de personagens e situações, na forte e sutil simbologia da trama e numa encenação desconcertante que varia do intimismo dramático ao puro horror gore. Os clichês narrativos tradicionais do gênero estão presentes de maneira constante, mas uma das grandes sacadas do cineasta está na sua criatividade e virtuosismo estéticos em manipular tais recursos e os colocar em cena sob uma perspectiva insólita e mesmo de caráter desafiador. Nesse sentido, a relação emocional que se estabelece no triângulo composto pelo protagonista Takakura (Yuko Takeuchi), sua esposa Yasuko (Hidetoshi Nishijima) e o asqueroso psicopata Nishino (Teruyuki Kagawa) revela nuances existenciais inquietantes, principalmente na forma com que questiona valores morais e comportamentais. A lógica e prática distorcidas de Nishino em induzir laços emocionais estimulando o vício em drogas pesadas e exterminar famílias parece evocar uma espécie de expiação das hipocrisias da sociedade moderna. Por trás desse discurso ambíguo há um complemento formal de coerência sensorial impressionante, vide a fotografia de tons sombrios, a trilha sonora de temas efetivamente assustadores e a edição que conduz a narrativa como se fosse um macabro conto gótico.

terça-feira, novembro 29, 2016

Menino 23: Infâncias perdidas no Brasil, de Belisário Franca ***

A premissa básica do argumento de “Menino 23: Infâncias perdidas no Brasil” (2016) pode fazer pensar até numa obra de cunho ficcional beirando o fantástico: nos anos 30, garotos negros órfãos são levados do Rio de Janeiro para uma grande fazenda do interior de São Paulo de propriedade de simpatizantes do integralismo e do nazismo e lá são submetidos a condições de escravidão. Ocorre, entretanto, que o filme dirigido por Belisário Franca é um documentário, ou seja, mostra fatos que realmente aconteceram, o que torna tudo ainda mais assustador e revoltante. A abordagem formal de Franca é simples e direta, utilizando depoimentos recentes, encenação discreta e registros audiovisuais de arquivo. A partir de tal recursos, o diretor consegue obter uma síntese narrativa eficiente e de impacto, conciliando de maneira precisa o aspecto histórico/didático, ao mostrar o contexto sócio-político do racismo naquele período, com o fator intimista/dramático, dando a palavra a dois homens que fizeram parte de tal “experimento” nefasto. A partir desse conjunto estético-temático, “Menino 23” traça um perfil complexo e contundente da trajetória do preconceito racial no Brasil, mostrando também como tal questão está intrinsecamente ligada aos mecanismos de opressão para perpetuação no poder de uma oligarquia econômica, evidenciando uma sintonia, dessa forma, com alguns fatos bem recentes da história do nosso país.

segunda-feira, novembro 28, 2016

Snowden - Herói ou traidor?, de Oliver Stone ***1/2

Parte significativa da filmografia do diretor norte-americano Oliver Stone é dedicada a fazer uma espécie de inventário sócio-político-cultural da história do seu país. Dentro desse nicho, seu maior acerto artístico foi “JFK” (1991), que apresentava uma combinação notável entre narrativa dinâmica e envolvente e um conteúdo aprofundado e inquietante sobre a temática que versava. Essa síntese também é o grande mérito de “Snowden – Herói ou traidor” (2016), obra mais recente de Stone, que foca a história do ex-agente da CIA que denunciou os mecanismos de espionagem virtual praticada pelos Estados Unidos. Ainda que o filme se renda a alguns convencionalismos narrativos, a noção de ação cinematográfica é muito bem trabalhada, vide a edição que incorpora com naturalidade e coerência efeitos digitais a simularem o mundo da virtualidade e a encenação vigorosa e bem coreografada que extrai uma tensão perturbadora nas sequências mais cruciais em termos dramáticos. O roteiro apresenta um certo traço panfletário, o que fica evidente na caracterização maniqueísta de personagens e situações, mas ao mesmo tempo sabe valorizar a complexidade dos dilemas morais e contradições de seu protagonista, além de mostrar detalhes das operações políticas e de segurança do governo norte-americano que geralmente são tratadas com superficialidade na mídia “oficial”. Para falar a verdade, é até provável que a falta de escrúpulos da CIA e do NSA a investigarem indevidamente cidadãos nativos e governos estrangeiros seja muito mais acentuada e cruel na realidade do que na simulação de uma obra para o cinema. E ainda que tais fatos retratados no filme sejam ainda relativamente recentes, a abordagem de Stone traz um traço atemporal ao deixar evidente mais um dos métodos da permanente opressão de governos e grandes corporações sobre os indivíduos.

sexta-feira, novembro 25, 2016

BR 716, de Domingos de Oliveira ***1/2

Alguns dos filmes mais recentes do diretor Domingos de Oliveira pecavam por um acabamento formal meio qualquer nota e um texto autoindulgente, vide “Juventude” (2008) e “Paixão e acaso” (2012). Em “BR 716” (2016), o cineasta corrige esse rumo criativo e entrega um dos seus trabalhos mais expressivos e cativantes. Para começar, ele conta com uma direção de fotografia de notável beleza plástica, num registro preto e branco que sublinha com sensibilidade uma atmosfera mista de nostalgia e onirismo. Por se tratar de uma obra de caráter memorialista e autobiográfica, marca de grande parte da filmografia de Domingos, a narrativa vem marcada por algo de difuso e exuberante, como se as lembranças viessem sob um prisma exagerado e sem um grande compromisso com o “real”. Essa preferência pelo subjetivismo acaba tornando o filme muito mais visceral e verdadeiro na forma com que retrata com crueza e carinho os dilemas e contradições existenciais do protagonista Felipe (Caio Blat), alter ego do diretor. Outro trunfo de “BR 716” é a uma encenação que sabe unir rigor e um teor libertário, havendo um dinamismo coerente tanto nas sutilezas dramáticas e cômicas dos momentos mais intimistas quanto na caracterização dionisíaca das festas constantes promovidas por Felipe. Por se tratar de um retrato geracional focado no Rio de Janeiro de 1964, há momentos que a produção assume alguns clichês narrativos um tanto ingênuos na sua contextualização histórica, mas isso na realidade se incorpora com naturalidade dentro do próprio espírito de melancolia nostálgica da obra. Domingos de Oliveira ainda acerta num dos pontos que costuma ser o seu forte, a direção de atores, fazendo com que o seu elenco mostre algumas atuações memoráveis, como a evocação de uma diva esfuziante de Sophie Charlotte, a caracterização alucinada de Glauce Glima e mesmo a intepretação de Blat, que faz uma verdadeira possessão incorporando os trejeitos e maneirismos típicos de Oliveira.

quinta-feira, novembro 24, 2016

Cinema Novo, de Eryk Rocha ***1/2

Seria um tanto incoerente fazer um documentário sobre o Cinema Novo utilizando uma linguagem convencional e acadêmica, tendo em vista o fato do movimento deflagrado por Glauber Rocha e outros inquietos cineastas ter procurado justamente romper com tradicionalismos mofados dentro da ordem cinematográfica. Por esse motivo, o cineasta Eryk Rocha adota uma via criativa e ousada em “Cinema Novo” (2016) – ao invés de simplesmente “contar uma história” utilizando os recursos mais óbvios nesse tipo de produção como se fosse uma reportagem, ele preferiu fazer o espectador entrar numa viagem sensorial dentro de um imaginário delirante e criativo para ter uma ideia do significado artístico e existencial das principais obras daquele período e de seus criadores. Nesse sentido, a citação visual direta de “O encouraçado Potemkin” (2016) não é gratuita, pois o enfoque na montagem, o grande legado de Serguei Eisenstein, é o principal mote criativo no documentário em questão. Praticamente todo o material audiovisual é composto de trechos documentais da época e cenas dos principais trabalhos do Cinema Novo e de obras que influenciaram, foram influenciadas ou simplesmente tiveram alguma sintonia com tais produções cinemanovistas. Eryk Rocha organiza as ideias sobre a sua temática dentro de uma linha teórica delimitada com precisão e sensibilidade, criando dessa forma uma trama sutil e complexa. Há o surgimento explosivo dos filmes, o momento em que os cineastas discutem suas criações e o contexto sócio-cultural que as envolvem, o impacto que os filmes causam no Brasil e no mundo e, por fim, os motivos que levam à implosão do movimento e a dispersão de seus principais diretores. É fascinante a forma com que o documentarista estrutura o seu caleidoscópio narrativo dentro dessa lógica histórica, fazendo com que um mosaico de conceitos, abordagens e discursos diversos e muito pessoais ganhem uma coerência intrínseca na leitura que fazem do Brasil e do cinema do passado, do presente e do futuro.

quarta-feira, novembro 23, 2016

Elle, de Paul Verhoeven ****

A produção francesa “Elle” (2016) é uma bela síntese das concepções autorais muito particulares do cineasta holandês Paul Verhoeven, combinando refinamento narrativo com um sensorialismo visceral. Estão lá boa parte dos clichês básicos do gênero suspense, mas eles são manipulados com uma elegância fenomenal e ao mesmo tempo também são pervertidos dentro de uma trama repleta de desdobramentos insólitos e um forte conteúdo simbólico (nesse sentido, é antológica a sequência do jantar de natal, em que a composição e dinâmica da mesa reflete as divisões sócio-econômicas-culturais da sociedade ocidental contemporânea). O roteiro em sua primeira metade até insinua um formato que evoca a atmosfera de algumas obras de Alfred Hitchcock, principalmente naquela fórmula “quem é o culpado”, mas esse direcionamento aparentemente convencional vai se tornado cada vez mais difuso, com Verhoeven transformando a narrativa numa espécie de perturbadora parábola moral. Os dilemas e contradições da protagonista Michèle (Isabelle Huppert) são complexos e por vezes até bizarros, mas exalam uma humanidade crua e contundente na forma plural com que as diversas facetas da personagem se expõem e interagem (sentimental/existencial/profissional). Esse contexto temático repleto de nuances recebe um tratamento formal bastante lapidado, com destaque para a encenação precisa na sua junção de naturalidade e detalhismo imagético, vide as intensas cenas de sexo e violências (aliás, na melhor tradição Paul Verhoeven), e as sequências em que os games eletrônicos se inserem na narrativa, guardando uma correlação irônica sensacional com aquilo que se passa no mundo “real” da trama, além da trilha sonora tensa e sedutora e o elenco de atuações antológicas (Huppert, por sinal, num dos grandes momentos de sua expressiva carreira).

terça-feira, novembro 22, 2016

Depois da tempestade, de Hirokazu Koeeda ***

Em suas obras mais recentes, o cineasta japonês Hirokazu Koeeda vem formatando seu estilo dentro do gênero do melodrama familiar. Nessa vertente, ainda que não apresente nada tão contundente quando o drama fantástico “Depois da vida” (1998) ou o suspense intimista “Ninguém pode saber” (2003), o diretor lançou trabalhos que se afastam de uma abordagem óbvia ou do sentimentalismo excessivo. Esse é o caso de “Depois da tempestade” (2016). A história do escritor e detetive Ryota (Hiroshi Abe) que se sente frustrado pelas dificuldades financeiras e pelo fracasso do casamento é enquadrada numa narrativa sóbria e num roteiro que não abre concessões fáceis. A caracterização de personagens e situações é delineada de maneira sensível e complexa, o que cria tanto tensão dramática para o filme quanto empatia com o espectador. A marca autoral de Koeeda é nítida de maneira sutil – a síntese entre formalismo e temática tem notável coerência artística e se mostra desafiadora ao não se adaptar às necessidades comerciais de se mostrar acessível, preservando a crueza dos sentimentos e sensações dos personagens e dispensando um final feliz e conciliador artificioso.

segunda-feira, novembro 21, 2016

Dr. Estranho, de Scott Derrickson ***

Por mais que haja uma coerência na forma com que os filmes interagem dentro do seu universo e uma competente qualidade narrativa nas suas realizações, a atual linha de produções cinematográficas da Marvel não permite grandes variações e ousadias dentro de sua fórmula artística – claro que com algumas honráveis exceções, como “Os guardiões da galáxia” (2014). Dentro dessa lógica, “Dr. Estranho” (2016) é um exemplar bastante sintomático de tal situação. Estão presentes boa parte dos preceitos formais e temáticos que já pautaram os demais filmes das outras franquias, principalmente no que diz respeito às obras que mostram as origens dos super-heróis, e que de certa forma também são característicos dos próprios quadrinhos que as inspiraram. O diretor Scott Derrickson segue tão à risca essa cartilha que por vezes temos a impressão de se estar assistindo a refilmagem de “O homem de ferro” (2008), só que por um prisma místico (as piadinhas bestas, por exemplo, são as mesmas). Ainda assim, o ritmo da narrativa tem uma desenvoltura cativante e as cenas de ação tem uma coreografia bem resolvida. E se por um lado o roteiro tem uma mecânica um tanto previsível em excesso e falte uma efetiva tensão dramática capaz de surpreender o espectador (culpa principalmente de um vilão sem graça, o que é recorrente nos filmes da Marvel), há de se destacar como a questão do misticismo é bem incorporada na trama, apresentando tanto alguns conceitos bem interessantes quanto rendendo algumas sequências de força imagética deslumbrante.

sexta-feira, novembro 18, 2016

Tio Bernard - Uma antilição de economia, de Richard Brouillette ****

O grande trunfo artístico de “Tio Bernard – Uma antilição de economia” (2015) está na ligação estético-existencial que se estabelece no discurso sócio-político-econômico do seu protagonista, Bernard Maris, economista e editor do periódico humorístico Charlie Hebdo, com a formatação concebida pelo diretor Richard Brouillette. A narrativa do documentário consiste basicamente num longo depoimento do citado intelectual, dado no ano de 2000, dissecando as contradições e hipocrisias do capitalismo moderno e também expondo os mecanismos de manipulação e opressão escondidos por trás dos discursos edificantes de livre mercado e prosperidade propagados por grande parte de economistas e tecnocratas. Para acompanhar tal diatribe lúcida e desafiadora, Brouillette utiliza uma abordagem que sintetiza urgência, contenção de recursos e um teor reflexivo sobre o seu próprio mecanismo de realização, em que mesmo detalhes de bastidores refletem uma atmosfera de contestação e ironia. A edição se efetiva nas trocas de rolos de película, detalhe esse que é incorporado dentro da própria encenação como recurso dramático-cômico (é de se reparar que nesses “intervalos”, em que a tela escurece, tio Bernard continua a falar sem parar e até acentua a acidez de suas tiradas). O talento oratório, a capacidade de fundamentação arguta e o carisma de Marin são aproveitados ao máximo diante dessa linguagem cinematográfica que combina com precisão sofisticação e fúria. Tais soluções narrativas afastam a obra do campo da simples reportagem e a configuram como um contundente libelo humanista-artístico contra um ordenamento social e político marcado pela injustiça e o absurdo e ajudam a entender como uma figura como a do tio Bernard pode perturbar tanto o status quo vigente. Não por acaso, ele estava entre as vítimas do lamentável atentado terrorista sofrido pelo Charlie Hebdo em janeiro de 2015.

quinta-feira, novembro 17, 2016

O plano de Maggie, de Rebecca Miller ***

A influência que talvez mais salte aos olhos ao se assistir a “O plano de Maggie” (2015) seria a filmografia de Woody Allen. A diretora norte-americana Rebecca Miller evoca algumas referências tanto do estilo de filmar quanto na concepção de roteiro típicos do estilo de Allen. Estão lá a concepção formal que por vezes emula uma espécie de documentário caseiro, o senso de humor que sintetiza leveza e amargura, a trama repleta de situações entre o inusitado e o embaraçoso, além de personagens confusos em termos sentimentais e existenciais. O resultado final, contudo, está longe do mero pastiche. Os truques dramáticos e cômicos da história são eficientes em suas cirandas amorosas e quiproquós familiares, além de condensarem com alguma crueza alguns dos principais dilemas e contradições de uma certa classe média intelectual contemporânea. A encenação proposta por Miller tem naturalidade e apresenta nuances que procuram fugir das soluções fáceis, tendência essa que é reforçada pela trinca principal do elenco em interpretações que trazem complexidade e ironia nas doses certas.

quarta-feira, novembro 16, 2016

Indignação, de James Schamus **1/2

Transpor o universo literário do escritor Philip Roth para o cinema é uma tarefa penosa. A produção norte-americana “Indignação” (2016) é um exemplo enfático de tal dificuldade. Estão lá na trama as habituais obsessões temáticas-existenciais do autor – o questionamento dos valores éticos e morais da sociedade norte-americana, a exposição dos preconceitos raciais e sociais, os tormentos sexuais de personagens complexos. O problema é que tais temas são trabalhados de forma artificial e solene tanto pelo roteiro quanto pela encenação, retirando, dessa forma, a verve e a ironia com que Roth costuma tratar esse material em seus romances. A linguagem literária também não consegue se consolidar em outro tipo de narrativa – a descrição oral em primeira pessoa do protagonista Marcus Messner (Logan Lerman) é excessiva e afetada, roubando um espaço essencial que deveria ser ocupada pela concepção imagética do filme. Assim, falta sutileza e uma efetiva profundidade na forma com que personagens e situações são desenvolvidos. Ainda que a fotografia e a direção de arte demonstrem alguma beleza visual na sua reconstituição dos anos 50 e a atuação de Olivia Hutton apresente um interessante encanto, “Indignação” tem um resultado final falho na sua proposta de dissecação sensorial das hipocrisias arraigadas dos Estados Unidos devido a uma abordagem estética e textual que carece de força e ousadia.

sexta-feira, novembro 11, 2016

Busca insaciável, de Milos Forman ****

Quando se fala na fase norte-americana da carreira do cineasta tcheco Milos Forman, logo vem à mente filme antológicos como “Um estranho no ninho” (1975), “O povo contra Larry Flynt” (1996) e “O mundo de Andy” (1999). Pouco se comenta, entretanto, sobre sua produção de estreia nos Estados Unidos, “Busca insaciável” (1971), o que é uma grande injustiça, pois se trata de uma obra que está, no mínimo, no mesmo nível artístico dos trabalhos mencionados. A formatação narrativa mantem muito da original abordagem de linguagem cinematográfica que Forman praticava em alguns de seus filmes mais marcantes realizados em seu país natal como “Os amores de uma loira” (1965) e “O baile dos bombeiros” (1967) – é de se reparar, por exemplo, que a sequência inicial de “Busca insaciável” em que vários jovens, num inventivo truque de edição, cantam a mesma música é semelhante à da jovem que canta ao violão na abertura de “Os amores de uma loira”. Assim, a visão de ironia ácida de Forman sobre os hipócritas valores sócio-culturais da sociedade norte-americana da época (e que se mantém até hoje, vide a recente eleição de Donald Trump) vem embalada por um sofisticado formalismo que combina uma direção de fotografia seca e objetiva e uma edição de cortes insólitos. A contundência de tal estética se alia a uma esquisita e sardônica atmosfera de distanciamento emocional, gerando um efeito desconcertante para o espectador – a aparente frieza da encenação esconde uma grande tiração de sarro do reacionarismo e visão obtusa do americano norte-americano médio. Nesse sentido, é particularmente brilhante a sequência em que respeitáveis pais de família fumam maconha num evento social para tentar entender os motivos dos filhos terem fugido de casa. No mais, é curiosa como essa reflexão sobre o período do flower power acaba se relacionando com outro filme de Forman que versava sobre temática semelhante, o musical “Hair” (1979), formando um expressivo e amargo panorama sobre a contracultura.

quinta-feira, novembro 10, 2016

O pecado de Hadewijch, de Bruno Dumont ***1/2

A filmografia do diretor francês Bruno Dumont é baseada numa síntese bastante particular de preceitos artísticos e existenciais que remetem a cineastas como Roberto Rossellini e Robert Bresson. Assim, seus filmes abarcam uma estranha combinação de conto moral e formalismo rigoroso e ascético, em que a exposição do mal estar e inquietações ético-religiosas da sociedade ocidental contemporânea vem acompanhada de uma linguagem estética contida e distanciada na configuração de seu modus operandi. “O pequeno Quinquin” (2014) é a representação mais expressiva das concepções insólitas de Dumont, mas “O pecado de Hadewijch” (2009) mostra que esse estilo já estava cada vez mais delineado em suas nuances de sensibilidade e esquisitice. A trajetória da protagonista Céline (Julie Sokolowski) em busca de redenção espiritual e de uma aproximação mais íntima com uma divindade superior é esmiuçada numa narrativa seca e sem concessões, em que elementos como a ironia e a sensualidade se manifestam com discrição perversa. No meio dessa jornada intimista, Dumont estabelece uma sutil amostragem sócio-cultural da Europa desse século, principalmente em questões conflitantes e contraditórias como o preconceito racial e o fanatismo religioso.