terça-feira, outubro 14, 2014

Garota exemplar, de David Fincher ****


Pode parecer que se esteja forçando a barra, mas dá para se ter a impressão de que David Fincher completou uma espécie de “trilogia do suspense” com “Garota exemplar” (2014). Em “Seven” (1995), o cineasta definiu alguns preceitos que se tornaram, para o bem e para o mal, paradigmáticos para o que se fez no gênero nos anos posteriores (a franquia “Jogos mortais” talvez seja o exemplo mais evidente de tal influência). Já na década seguinte, Fincher lançou o extraordinário, “Zodíaco” (2007), obra de abordagem sóbria e mais realista que parecia renegar as “regras” formais e temáticas que o próprio diretor havia sugerido em “Seven”. Agora em “Garota exemplar” ele parte para um outro estágio – os cânones do gênero representam apenas o ponto de partida para um filme cuja verdadeira força está na notável simbologia que sua trama evoca. Nesse sentido, procurar lógica e verossimilhança rigorosas no desenvolvimento do roteiro seria um reducionismo inútil. Fincher se vale do exagero e de um tom operístico para compor um distorcido conto moral que ironiza sem piedade a vacuidade moral e existencial da sociedade ocidental contemporânea. A impressão que se tem é que o diretor usou uma estrutura dramática semelhante àquelas de antigos seriados televisivos na linha dramalhão como “Dallas” e “Dinastia” associada a sua habitual e apurada estética, sendo que o resultado disso é uma obra de atmosfera sombria e algo alucinada, como se fosse um pesadelo “kitsch”. Aliás, mesmo a referida estética de Fincher acaba sendo pervertida por um misto de barroquismo e brutalidade que faz lembrar o Dario Argento dos melhores tempos. A sequência, por exemplo, em que Amy (Rosamund Pike) assassina um antigo namorado (Neil Patrick Harris) é um primor sensorial na sua combinação de grandiosidade formal e mau gosto. Nesse sentido, em que o exagero e o caricatural são fundamentais na composição dramática do filme, mesmo o histrionismo de Rosamund Pike e o ar inexpressivo de Ben Affleck ganham um sentido desconcertante e coerente dentro do espírito sarcástico e bufão de “Garota exemplar”.

Nenhum comentário: