quinta-feira, março 13, 2014

Louca paixão, de Paul Verhoeven ****


No papel, a trama de “Louca paixão” (1973) pode parecer corriqueira – a trajetória de um relacionamento amoroso marcado pela luxúria. Só que com o diretor holandês Paul Verhoeven as coisas nunca são tão simples.... A perspectiva humanista do cineasta é notável, pois sua visão estética e temática é marcada por uma carnalidade intensa (a fotografia de pesados tons laranjas concebida por Jan De Bont é a expressão imagética perfeita dessa concepção). Poucos diretores trabalharam essa questão física com tanta veemência e de forma tão singular. No olhar de Verhoeven, não há espaço para a idealização de sentimentos. Por mais que o próprio casal de protagonistas Eric (Rutger Hauer) e Olga (Monique Van De Vem) não admita ou mesmo entenda, sua relação é marcado pela obsessão sexual, pelo culto a um ideal de beleza. Tal concepção acaba entrando em choque tanto com as noções de amor romântico da cultura ocidental quanto com os contemporâneos costumes pequeno-burgueses. Assim, o caráter de tal relação é da autodesintegração natural, o que fica evidenciado na estrutura narrativa não tão linear, que faz o filme começar pela metade, quando já se sabe que o casamento de Eric e Olga foi para o espaço. Essa abordagem de Verhoeven ganha uma dimensão libertária não só pela forma apaixonada e detalhista com que registra as ousadas cenas de sexo, mas também por essa lucidez e crueza com que disseca o relacionamento amoroso de suas personagens. E também é notável a constatação de que o diretor preservou todas essas particulares e perversas noções artísticas de “Louca paixão” quando migrou para Hollywood, mesmo transitando por diferentes gêneros cinematográficos como a ficção científica (“Robocop”, “Tropas estelares”), suspense (“Instinto selvagem”) e melodrama (“Showgirls”).

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