sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Blackfish, de Gabriela Cowperthwaite ***1/2


O que diferencia “Blackfish” (2013) dos inúmeros documentários televisivos sobre animais e natureza é a sua contundente concepção artística e existencial. Ao invés de fazer um simples libelo ecológico, o filme da diretora Gabriela Cowperthwaite apresenta uma visão sombria e pessimista sobre a própria natureza do comportamento humano, pois o que horroriza a quem assiste à produção em questão, na realidade, não são os episódios violentos em que as orcas “amestradas” de parques aquáticos mutilam ou matam seus treinadores. A verdadeira crueldade exposta na obra está no doloroso processo de captura e treinamento dos animais. O descaso e a ganância dos “proprietários” das orcas levam a um gradual e irreversível avanço de danos mentais aos animais, resultando em bichos transtornados e imprevisíveis em seus acessos de fúria. Cowperthwaite traça uma narrativa tensa, detalhista e repleta de um sutil subtexto crítico aos valores morais da sociedade ocidental. Em um dos momentos mais devastadores de “Blackfish”, cientistas explicam aspectos peculiares da psique das orcas, demonstrando que a estrutura de seus cérebros as tornam socialmente mais sensíveis que os próprios seres humanos e fazendo, por conseqüência, que os relacionamentos entre elas sejam mais complexos em termos de estruturas afetivas e familiares. Em contraponto desconcertante, o documentário também apresenta homens e mulheres, em sua maioria, bestificados por dinheiro, entretenimento fácil e alienação conveniente. Nessa oposição se encontra talvez o ponto de maior transcendência do trabalho de Cowperthwaite. Nem a aparente conclusão conciliatória e esperançosa de “Blackfish” consegue apagar essa incômoda impressão.

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