É claro que boa parte dos filmes que aparecem por aí obedece
a alguma fórmula. Afinal, é impossível inventar a roda todo dia. Talvez o que
diferencie tais obras uma das outras é a convicção e intensidade com que os
elementos das fórmulas sejam manipulados. Em “O exótico Hotel Marigold” (2011)
pode-se ver com clareza os mecanismos formais e temáticos que o diretor John
Madden aproveita para conceber uma produção que é francamente destinada a
agradar um determinado público cativo. Tentando catalogar tal concepção, daria
para dizer que seria um drama a retratar alguns dilemas típicos da velhice com
um verniz por vezes irônico e um pano-de-fundo exótico (a trama se desenrola
numa grande e populosa cidade da Índia). Por consequência óbvia, dos conflitos
e experiências vivenciados pelos personagens resultam algumas lições de vida
edificantes... Fora a fotografia e a trilha sonora a incorporarem algum traço
de insólito, “O exótico Hotel Marigold” acaba afundando numa mesmice, onde
possíveis complexidades se reduzem a lugares comuns e potenciais ousadias
estéticas se resumem a um visual de cartão postal. Mesmo um elenco de certo
peso também se conforma dentro do espírito amorfo do filme, entregando atuações
no estilo “piloto automático”.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quinta-feira, agosto 30, 2012
E aí... Comeu?, de Felipe Joffily
O diretor Felipe Joffily até de vez em quando consegue
disfarçar a origem teatral de “E aí... Comeu?” (2012) em alguns enquadramentos
e na montagem. No mais das vezes, entretanto, o que predomina é uma estrutura
narrativa um tanto truncada e superficial, em que os diálogos procuram emular
uma naturalidade coloquial de um bate papo a versar invariavelmente sobre sexo
e relacionamentos amorosos. Tal concepção geralmente esbarra num tom de manual
sentimental de botequim, revelando muito mais o ideário sentimental de um tipo
bem específico: o carioca classe média metido a malandro. As aventuras amorosas
do trio protagonista se pretendem ousadas ao
tentar focarem trepadas e encrencas sob uma atmosfera que deveria ser descontraída
e sem pudores. O resultado final é bem distante de tal pretensão, com Joffily
enquadrando personagens e situações dentro de uma lógica previsível de comédia
romântica. Por mais que se assuma um tom de ironia e questionamento sobre a
relação homem e mulher, tudo se encaminha para uma resolução esquemática, com
direito a lições de vida e a um final feliz romântico idealizado.
quarta-feira, agosto 29, 2012
Sombras da noite, de Tim Burton ***1/2
Se em sua versão de “Alice nos País das Maravilhas” (2010) Tim
Burton parecia ter enveredado por um cinema genérico e sem personalidade em
termos estéticos, em “Sombras da noite” (2012) ele volta a exercer um estilo mais
particular de filmar, ainda que trabalhando em uma refilmagem de um antigo
seriado televisivo e com um roteiro um tanto desconjuntado e superficial. A
premissa da trama, um vampiro do século XVI que ressurge nos anos 70 do século
passado, acaba sendo bastante propícia para que Burton exercite seus
característicos elementos formais e temáticos: personagens esquisitos e algo
neuróticos, atmosferas entre o sombrio e o irônico, estrutura narrativa que
remete a um tom fabular. Além disso, Burton propõe uma viagem estética
intrigante ao casar elementos da mitologia setentista (música, figurino,
comportamento) com uma ambientação gótica, formatando uma narrativa que trafega
de forma perturbadora entre a comicidade, o erótico (ainda que reprimido) e a
violência gráfica.
sábado, agosto 25, 2012
Albert Nobbs, de Rodrigo Garcia ***
É provável que detratores habituais de filmes de época
acadêmicos terão motivos suficientes para detestar “Albert Nobbs” (2011). Com
uma direção de arte asséptica e uma narrativa bastante convencional, o filme
realmente pouco surpreende em termos formais, e mesmo a sua temática, apesar do
insólito do tratar do homossexualismo e travestismo na Irlanda do século XIX,
traz um certo rigor classista ao elaborar suas soluções de roteiro. Mas apesar
da originalidade não ser o seu forte, é em outros aspectos que a produção acaba
cativando. Para começar, o elenco traz algumas interpretações expressivas, a
começar por Glen Close e Janet McTeer, em papéis de mulheres que se passam por
homens e que realmente conseguem passar uma sensação de ambigüidade
perturbadora. Brendan Gleeson também chama atenção ao compor um tipo que varia
com sutileza entre a ironia e o melancólico. E por falar nisso, é mérito do
filme também estabelecer uma constante atmosfera melancólica e tensa que consegue
manter o suspense mesmo quando fica mais que evidente que a trama só poderá
descambar em tragédia.
Amor impossível, de Lasse Hallström **
Quando o simpático “Minha vida de cachorro” (1985) foi
lançado, o nome do cineasta sueco Lasse Hallström ganhou uma considerável
projeção internacional, o que fez com que logo fosse recrutado por Hollywood.
Com algumas poucas exceções, sua direção mais ofereceu um verniz “sério e
europeu” para bobagens rotineiras e sem maiores inspirações. E é esse
exatamente o caso de “Amor impossível” (2011). A impressão é que o filme faz
uma força tremenda para mover, praticamente, nada... Olha lá: a trama se
desenrola em Londres e nos desertos da Ásia, a temática faz referência à
intolerância religiosa e à guerra no Afeganistão, o elenco traz nomes de peso
como Ewan McGregor e Kristin Scott-Thomas, a narrativa e fotografia até atingem
um tom épico. No final das contas, entretanto, tudo isso é mero pretexto para
uma história de amor bem chulé e previsível. Claro, por vezes o filme é
agradável, mas perfeitamente descartável em sua asséptica concepção formal e
temática.
Para sempre, de Michael Sucsy **
Em termos de gênero, “Para sempre” (2012) é dirigido a um
público bem específico – a de moças que adoram dramas românticos repletos de
momentos “enxuga lágrimas”. E até pode-se dizer que o filme cumpre o seu papel
nesse sentido. Mas o que faz despontar um sentimento de frustração é o fato do
roteiro fazer vislumbrar uma possibilidade de trama que fugisse do lugar comum.
O que “Para sempre” precisava era de uma abordagem mais ousada e crua ao focar
a história (baseada em fatos reais) da mulher casada que após bater a cabeça em
um acidente automobilístico acaba esquecendo da figura do marido, com esse
último se dedicando ao longo do filme a fazê-la se lembrar ou voltar a gostar
dele. O que poderia render uma reflexão sobre a natureza dos relacionamentos
amorosos acaba se convertendo numa previsível lição de vida do tipo “só o amor
constrói”. É claro que o filme é bem acabadinho em termos formais, mas o que
faz com que apenas ele caia na linha do não fede nem cheira. No mais, a figura
envelhecida e algo decadente de Jessica Lange, que já trabalhou de forma
memorável em tantos filmes antológicos, participando de uma produção medíocre
como essa faz a gente pensar que Hollywood realmente é um lugar assustador...
segunda-feira, agosto 20, 2012
Deus da carnificina, de Roman Polanski ***1/2
O fato de Roman Polanski ter adaptado uma peça teatral em “Deus
da carnificina” (2011) e de que boa parte do roteiro se desenvolva dentro de um
apartamento pode fazer imaginar que a obra em questão se trate de algo na linha
teatro filmado. Nada distante mais distante da realidade. A encenação proposta
pelo cineasta, assim como o ágil trabalho de edição e fotografia, dão uma dinâmica
narrativa bastante cinematográfica e envolvente. A atmosfera criada a partir de
um espaço físico limitado e da movimentação de seus atores é sufocante na sua
tensão e ironia. Na verdade, o uso de um apartamento como cenário principal não
é novidade na filmografia de Polanski., vide produções antológicas como “Repulsa
ao sexo” (1965), “O bebê de Rosemary” (1968) e “O Inquilino” (1976), onde o cenário
acaba sendo um elemento fundamental para gerar sensações de suspense, horror,
loucura e/ou delírio, principalmente pelos climas claustrofóbicos perpetrados
por Polanski. Em “Deus da carnificina”, os níveis de tensão não atingem o mesmo
grau de impacto dos filmes citados, mas mesmo assim ainda são capazes de gerar
um efeito perturbador nas plateias. Contribui para isso também as boas
interpretações que Polanski consegue extrair de seu elenco, principalmente por
parte de Kate Winslet, que em sua atuação repleta de nuances dramáticas
consegue captar com perfeição a síntese do roteiro do filme, em que as noções
de aparente civilidade e cultura aos poucos vão se degradando até atingir um
tom de fúria e ressentimento.
sexta-feira, agosto 17, 2012
À espera de turistas, de Robert Thalheim ***
Diante de um tema já revisto tantas vezes no cinema como o
Holocausto na 2ª Guerra Mundial, e também muito propício a receber uma abordagem
emocional, o diretor alemão Robert Thalheim até apresenta um certo grau de
ousadia em “À espera de turistas” (2007). Ao focar o relacionamento entre Sven
(Alexander Fehling), um jovem alemão que faz trabalho voluntário na Auschwitz
atual, com Krzeminski (Ryszard Ronczewski), um idoso sobrevivente de campo de
concentração, o filme evita o sentimentalismo fácil, preferindo retratar seus
personagens sob uma perspectiva mais crua e distanciada. Por mais que Sven
conheça mais o passado tenebroso da cidade, isso não representará necessariamente
uma edificante lição de vida ou que ele se tornará uma pessoa melhor. Por
vezes, o que fica mais evidente para o protagonista
é a hipocrisia e a amargura que envolvem os sentimentos e opiniões sobre o que
aconteceu na cidade. E por mais que Thalheim não adote um estilo formal
arrebatador na sua encenação, é inegável que tal estética seca e objetiva se
encontra em sintonia com a visão temática da obra.
quinta-feira, agosto 16, 2012
Madagascar 3, de Eric Darnell, Tom McGrath e Conrad Vernon **
Das franquias atuais de animações para o cinema, “Madagascar”
talvez seja uma das mais inconsistentes. As tramas dos respectivos filmes não
apresentam uma unidade temática em termos de situações interessantes e
personagens bem desenvolvidos, bem distante, por exemplo, das produções da série
“Toy Story”. É mais um acúmulo de cenas engraçadas, com algumas citações pop. Tanto
isso é evidente que a conclusão dessa terceira parte, no sentido de coerência
do roteiro, não se mostra em sintonia com os filmes anteriores: nas duas primeiras
partes, os animais fazem tudo para voltar para casa, com saudade do conforto de
suas jaulas no zoológico em Nova Iorque, para nessa terceira parte concluírem
que é melhor ser livre. Ora, então isso quer dizer que os filmes anteriores não
podem ser entendidos como obra fechada? Provavelmente o público infanto-juvenil
pouco ligue para essa anemia criativa do desenho e vá encher as salas de
cinema. E é claro que visualmente “Madagascar 3” (2012) é competente no seu
grafismo. No contexto geral, contudo, é um filme pouco memorável no sentido de
causar impacto para a platéia.
quarta-feira, agosto 15, 2012
Pina, de Wim Wenders ****
Mesmo que você não goste de documentário musical, ache balé
um saco, não saiba quem é Pina Bausch e/ou considere Wim Wenders uma mala sem
alça, terá de ver “Pina” (2011). Diferente do estilo de filmar objetivo e
simples que havia adota do em “Buena
Vista Socia Club” (1999), o diretor alemão não faz um mero registro de algumas
das principais coreografias da bailarina e dos depoimentos de seus discípulos e
parceiros. Wenders utiliza os recursos cinematográficos ao máximo, jogando o espectador
para dentro dos espetáculos, quase como se ele interagisse com os bailarinos.
Além disso, o filme dimensiona a equação cinema e balé para contextos que
extrapolam a mera relação câmera e palco – em boa parte das tomadas, as danças
se desenvolvem em ruas, dunas, jardins, riachos, como se os movimentos
buscassem uma naturalidade do simples andar. E se há uma associação imediata
que se faz entre o gênero documentário e a abordagem realista/naturalista no
que diz respeito ao aspecto formal, em “Pina” Wenders não se contenta com tal
relação e busca um estilo mais voltado para o expressionista. Isso fica
evidente, por exemplo, quando os depoimentos dos bailarinos mostram um
descompasso entre a imagem e o áudio, com os diálogos interagindo com
exercícios de ação interna dos artistas, num resultado desconcertante.
Talvez a descrição deste texto possa sugerir algum traço de
afetação de Wenders na sua direção. Ora, pode até ser que isso ocorra em
“Pina”, mas o resultado sensorial de tais opções estéticas do cineasta é
daqueles que dificilmente deixa impassível o espectador, reação essa que a arte
de Pina Bausch costumava causar em seus admiradores.
terça-feira, agosto 14, 2012
O corvo, de James McTeique **
As intenções temática e formal de “O corvo” (2012) até
parecem promissoras: uma narrativa de ficção que mistura fatos da vida escritor
Edgar Allan Poe com algumas das principais passagens de seus livros. O
resultado final, entretanto, acaba soando mais como uma picareta releitura pop
contemporânea, na linha das recentes produções da franquia “Sherlock Holmes”.
Por mais que se possa identificar as inúmeras referência à obra de Poe, o
roteiro mais parece uma colcha de retalhos superficial a tentar dar algum
estofo artístico ao roteiro genérico dentro do gênero “suspense com psicopata”,
cuja maior preocupação é descobrir quem é o assassino. A direção de arte e
fotografia têm uma certa competência, mas nada que transcenda em termos estéticos
e criativos. O fato de se usar a figura de Poe e a sua literatura só fica no
nome mesmo, pois a essência sombria, complexa e delirante dos melhores contos
do artista está ausente tanto no roteiro como na atmosfera do filme.
Diário de um jornalista bêbado, de Bruce Robinson **
Na transposição de uma obra literária para o cinema, é claro
que diretor e roteirista acabarão cometendo algumas licenças poéticas em nome
da formatação adequada de uma linguagem artística para outra. Afinal, há
detalhes que podem funcionar bem no livro e não fazer muito sentido na tela. O
que não pode acontecer é na versão cinematográfica a essência do texto original
se perder. Pois é justamente o que acontece em “Diário de um jornalista bêbado”
(2011): o romance (com toques autobiográficos) de Hunter Thompson é marcado por
uma visão cínica e pouco emocional da desastrada temporada de um jornalista em
San Juan, Porto Rico, na década de 50. Thompson constrói uma narrativa seca de
uma época e lugar marcados por inúmeras picaretagens econômicas e demais
amoralidades, e pontuada por muito sexo e álcool, estabelecendo uma atmosfera sórdida
e irônicas repleta de criaturas decadentes e perigosas. Nas mãos do diretor
Bruce Robinson, esse fascinante panorama acaba se resumindo a uma engraçadinha
(e por vezes até edificante) trama das desventuras exóticas de um protagonista
insosso e boa praça. Em termos formais o filme é competente, mas comportado
demais para uma produção ligada ao universo extremo de Thompson (é só lembrar
da extraordinária versão delirante de Terry Gillian para “Medo e delírio em Las
Vegas”, que, por sinal, também trazia o mesmo Johnny Depp no papel principal).
No cômputo geral, não dá para não cair numa típica frase de impacto: se
Thompson ainda estivesse vivo e visse “Diário de um jornalista bêbado”,
provavelmente sentiria náuseas (e não seria devido à ressaca...).
sexta-feira, agosto 10, 2012
Heleno, de José Henrique Fonseca ***1/2
Dentro do que se costuma fazer em cinebiografias no Brasil,
“Heleno” (2011) é uma surpreendente avis rara. É claro que para focar parte da
vida do polêmico jogador de futebol Heleno de Freitas o diretor José Henrique
Fonseca mostra relevantes fatos da trajetória do seu protagonista,
assim como há a preocupação em realçar o contexto histórico da época em que a
trama se desenvolve (basicamente as décadas de 40 e 50). Na essência,
entretanto, o filme se apresenta muito mais como uma obra de cunho sensorial do
que uma narrativa linear a contar a vida de Heleno. A ordem das cenas que se
desenrola na tela não apresenta uma ordem temporal “normal” – presente e
passado se entrelaçam sem cerimônia. Essa opção do roteiro não é aleatória: no
presente, temos um Heleno já com a saúde e a mente bastante debilitadas, com
ele se recordando do passado de forma desordenada. Assim, o que se está vendo
no filme é uma história vista pela ótica de um louco, onde a objetividade não é
o prisma principal a ser seguido. A visão do ex-craque sobre seu passado de
glória ganha uma dimensão épica, de visual bastante estilizado (o que a
brilhante fotografia em preto-e-branco ressalta ainda mais). Se por vezes o viés
da história é de cunho realista, em outros momentos, o apogeu e queda de Heleno
se apresentam dentro de uma ambientação que beira o onírico. A sua melancólica
rotina final na clínica onde está internado é brutalmente contrastante com o
seu passado repleto de conquistas, brigas e sexo, e é nessa diferenciação de
atmosfera que está um dos efeitos mais perturbadores da produção. E de bônus, a
própria interpretação de Rodrigo Santoro no personagem título evoca uma
verdadeira possessão dramática. No conjunto, todas essas opções formais podem
ter representado um suicídio comercial para “Heleno” (o que de fato ocorreu ao
observarmos a pífia bilheteria obtida pelo filme), mas também lhe deu um
impacto artístico acima da média do que vem sendo produzido no cinema nacional
nos últimos anos.
quinta-feira, agosto 09, 2012
Branca de Neve e o caçador, de Rupert Sanders **1/2
Essa onda de fazer releituras cinematográficas modernas e
ousadas de contos de fada na verdade mais revelam uma concessão a uma série de
fórmulas fáceis do que propriamente a algum exercício efetivamente transgressor
de tais histórias. Até Tim Burton caiu nessa armadilha na sua mediana versão
para “Alice no País das Maravilhas” (2010). Em “Branca de Neve e o caçador” (2012)
esses mecanismos pasteurizadores são evidentes: ambientação sombria, direção de
arte sujinha, personagens mais desmazelados, violência um pouco mais acentuada,
personagens traumatizados. Tudo isso buscando uma pseudo-seriedade, com toques
de um viés realista, como se houvesse necessidade que os contos de fada
necessitassem de uma atualização para ganhar legitimidade artística. No final
das contas, entretanto, tudo soa mais como algum velho truque mercadológico. O
que interessa é que a personagem título triunfe na conclusão e que a rainha má
recebe o seu devido castigo. Não há ambiguidades perturbadoras ou maiores
questionamentos sobre a moral dos personagens ou das situações do roteiro. É
claro que dá para dizer que o filme tem alguma credibilidade pela direção de
fotografia caprichada ou até mesmo pela atuação de Chris Hemsworth no papel de
caçador (parece que o cara está se especializando no tipo “durão com coração”).
Mas a impressão é mesmo de forçar a barra – o fato de querer no convencer que a
insossa Branca de Neve de Kristen Stewart é mais bonita que a gostosa rainha má
da sexy Charlize Theron é bem emblemático...
quarta-feira, agosto 08, 2012
Girimunho, de Helvécio Marins e Clarissa Campolina ***1/2
De concepção formal desconcertante, “Girimunho” (2011) vai
muito além do simples experimentalismo estéril. Seu roteiro é de ficção, mas a
rudeza de sua ambientação, o naturalismo das interpretações e o registro seco de
eventos e atos do cotidiano remetem a um estilo documental. Além disso, mesmo
que indícios da trama evidenciem a contemporaneidade da história, a encenação
perpetrada pelos realizadores Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina faz com
que a obra adquira um caráter fora do tempo e do espaço. O sotaque
carregado dos atores amadores torna seu linguajar sertanejo quase um dialeto,
fazendo primordial o uso de legendas. Esse acúmulo de “estranhezas” estéticas e
temáticas acaba configurando uma narrativa envolvente, que faz o espectador
penetrar em um universo à parte, em que pequenos fatos da rotina dos
personagens aos poucos adquirem um sentido de transcendência e de revolução
intimista. Os diretores também têm a boa sacada de incorporar elementos do
folclore do sertão mineiro para fazer a transição sutil da realidade para o
fantástico, como se ambos os planos dimensionais convivessem com a maior
naturalidade possível.
terça-feira, agosto 07, 2012
Flores do Oriente, de Zhang Yimou ***1/2
É inegável que Zhang Yimou abusa de alguns clichês
narrativos em “Flores do Oriente” (2011), principalmente no tom lacrimoso de
algumas seqüências e na trilha sonora de viés excessivamente sentimental. Ainda
mais que no gênero melodrama o diretor chinês havia obtido um equilíbrio artístico
notável em “A árvore do amor” (2010). Mesmo assim, esse filme mais recente de
Yimou se coloca muito acima da média. As cenas de guerra revelam um cuidado
formal extraordinário na sua combinação de crueza realista e sentimento épico,
com direito inclusive a uma seqüência antológica, em que um oficial chinês
enfrenta sozinho um regimento japonês, mostrando que Yimou continua mestre no
cinema de ação (afinal, é o mesmo cara que concebeu as aventuras alucinadas de “Herói”
e “O clã das adagas voadoras”). Seu lado esteta também aflora nos momentos mais
sutis da obra, ainda mais quando entram em cena as prostitutas em busca de refúgio
em uma igreja – no meio de uma ambientação cinzenta e de ruínas, as figuras
coloridas e delicadas das meretrizes atingem um ponto de contraste perturbador.
E por mais que se possa acusar que o roteiro possui viradas marcadas por um
certo grau de manipulação emocional um tanto ostensiva, é evidente que há genuínos
momentos comoventes em termos de melancolia e pungência.
segunda-feira, agosto 06, 2012
Homens de preto 3, de Barry Sonnenfeld ***
Confesso que não vi a tão mal falada segunda parte da
franquia “Homens de preto”. Assim, minha referência para comparação acaba sendo
a primeira produção lançada em 1997. Essa nova continuação de 2012 é inferior
ao filme inicial, mas mesmo assim traz alguns elementos interessantes. Um deles
é a forma com que o conceito de um mundo dominado por tecnologias
impressionantes e diversos alienígenas esquisitos convivendo com uma certa estética
retro, principalmente no que diz respeito à figura dos próprios agentes “homens
de preto”. Esse contraponto neste terceiro filme é ainda mais acentuado, no
sentido que a trama lida com viagens no tempo. Outro acerto do filme está na
escalação de Josh Brolin em um dos papéis principais – suas expressões de
frieza emocional realmente o remetem a uma versão rejuvenescida do personagem
de Tommy Lee Jones, e sua química com o estilo irreverente de Will Smith pode
ser manjada, mas acaba ganhando uma certa funcionalidade natural. No geral, a
obra dá a impressão de que a combinação de ficção científica estilo anos 50 com
o estilo retro policial poderia render mais em termos de ação e impacto se
fosse permitido uma abordagem menos família e mais violenta. Mesmo assim, “Homens
de preto 3” consegue extrair alguns bons momentos de aventura escapista.
sexta-feira, agosto 03, 2012
Uma longa viagem, de Lucia Murat ***1/2
Se por um lado “Uma longa viagem” (2011) representa uma
espécie de acerto de contas emocional da diretora Lucia Murat com o seu passado
de presa política durante a ditadura militar, por outro o filme também ganha a dimensão
de uma grande experiência estética por parte da cineasta. A princípio, a obra
poderia ser um documentário “normal”, daqueles que bastaria depoimentos e
imagens de arquivo para configurar o seu arcabouço formal. Murat, entretanto,
vai mais longe – além dos elementos tradicionais desse tipo de produção, há
também encenações dramáticas de passagens das delirantes correspondências
escritas na época pelo irmão da diretora, Heitor. No período em questão, ele
vivia no exterior, onde viveu diversas experiências, boa parte delas sob efeito
de drogas. A encenação proposta por Murat se esquiva da simples recriação
naturalista dos fatos; em sintonia com o próprio conteúdo intrincado da
correspondência, tais momentos adquirem uma concepção estilizada que beira o
onírico, com o ator Caio Blat declamando seus textos em meio a projeções de
imagens de época. O estilo de filmar e editar estabelecido pela diretora, além
de ousado, também é coerente com a natureza temática do roteiro, fazendo com
que a trajetória de Heitor, marcado por questionamentos complexos e viagens
lisérgicas, ganhe uma moldura formal sensível e em sintonia com o seu ideário.
Mr. Sganzerla - Os signos da luz, de Joel Pizzini ***1/2
Um documentário biográfico que tivesse o cineasta
RogérioSganzerla como protagonista não poderia
se contentar em seguir os modelos tradicionais do gênero. Partindo de uma
premissa elementar como essa, Joel Pizzini concebeu “Mr. Ganzerla – Os signos
da luz” (2011), elaborando uma obra que se encontra em perfeita sintonia
artística e emocional com o seu biografado. Na realidade, mais do que narrar
fatos da vida do diretor, o filme busca estabelecer uma conexão sensorial com
as ideias e a filmografia de Sganzerla. Assim, Pizzini abdica de uma narrativa
linear e convencional – depoimentos de amigos e colegas se sobrepõem em formato
aparentemente aleatório, trechos de áudio de entrevistas com Sganzerla filosofando
ou argumentando pontuam as cenas, imagens de arquivo ilustram seu ideário
(principalmente àquelas que se referem ao seu ídolo maior Orson Welles, naquele
período em que o norte-americano desenvolveu um projeto inacabado no Brasil), partes
emblemáticas de seus filmes mais importantes são reproduzidas, temas musicais
de Jimi Hendrix e Gilberto Gil oferecem uma moldura musical que traduz com
sensibilidade o seu criativo e caótico universo cultural. A junção formal
desses elementos pode ser traumática para os não iniciados, mas facilitar
demais as coisas para as plateias nunca foi exatamente o jogo de Sganzerla.
Esse caleidoscópio de imagens, sons e idéias de “Mr. Sganzerla – Os signos da
luz” jogam o espectador para dentro do imaginário perturbador e brilhante de um
autêntico gênio cinematográfico brasileiro.
quarta-feira, agosto 01, 2012
Além do infinito azul, de Werner Herzog ***1/2
O cinema do diretor alemão Werner Herzog costuma ser
dividido em duas vertentes – ficções e documentários. Em ambos, o cineasta mantém
a sua forte linha autoral, em uma abordagem formal e temática que varia
estranhamente entre o naturalismo e o barroco. Em “Além do infinito azul”
(2006), tal distinção fica difusa: há uma trama de ficção científica, de viés
humanista, mas Herzog utiliza uma concepção estética que se baseia muito na
montagem, misturando sem cerimônias uma encenação delirante com trechos de
documentários. Tomadas marinhas são mostradas como se retratassem um outro
planeta, resultando em seqüências de beleza perturbadora. Herzog sabe que o
poder de seu cinema não está no “contar uma história”, mas sim no nível
sensorial que suas imagens e sons podem alcançar. Nesse sentido, “Além do
infinito azul” acaba sendo uma experiência inquietante dentro do imaginário
cineatográfico.
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