quarta-feira, outubro 28, 2009

Frost/Nixon, de Ron Howard ***


Mesmo distante dos bons tempos de obras divertidas como “Splash – Uma Serei em Minha Vida” (1984) e “O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra” (1985), de vez em quando Ron Howard consegue emplacar um filme interessante. É o caso de “Frost/Nixon” (2008). Por mais que se pretenda colocar uma aura séria de thriller político para essa produção, a verdade é que o que se tem é uma trama de tendências maniqueístas (apesar do Frost de Michael Sheen transbordar vaidade e oportunismo), em que o ex-presidente republicano é retratado fortemente como uma entidade quase maquiavélica (ainda que emane uma aura carismática de Frank Langella na pele de Nixon). Mas isso não chega a ser um grande problema, pois a dinâmica narrativa consegue criar uma tensão permanente usando por base um roteiro muito focado em diálogos.

“Frost/Nixon” também pode soar como um pedido antecipado de crédito por parte de Howard, tendo em vista que posteriormente ele lançou “Anjos e Demônios”, forte candidato a uma das grandes bombas cinematográficas de 2009.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Contratempo, de Malu Mader e Mini Kerti **1/2


Um documentário que trata sobre questões como a exclusão social e dirigido por uma estrela de novelas globais não parece ser um indício promissor de algo bom para se ver no cinema. “Contratempo” (2008), entretanto, obra de estréia na direção de Malu Mader, acaba sendo uma surpresa. O filme mostra o cotidiano de alguns jovens que fizeram parte do projeto social Villa-Lobinhos, programa que visa difundir a música clássica em comunidades carentes. Mesmo preso num formato excessivamente “quadradão”, a produção se destaca por evitar o tom de conto de fada ou de pura exaltação. Até pelo contrário: Mader e a co-diretora Mini Kerti abordam experiências individuais diversas em relação ao impacto que o Villa-Lobinhos teve na vida das pessoas enfocadas no filme, o que oferece à “Contratempo” uma considerável carga dramática. Dos gêmeos que conseguem bolsas para estudar em uma prestigiada escola de música norte-americana até o rapaz que se volta para as drogas e acaba assassinado, tem-se uma obra que não apresenta soluções fáceis ou róseas realidades.

No final das contas, “Contratempo” mostra uma Malu Mader bem mais inquietante artisticamente como cineasta do que como atriz....

Che - O Argentino, de Steven Soderbergh ***1/2


Algo deve ficar bem claro em relação a “Che – O Argentino” (2008): não vai ser com esse filme que vamos entender o que é o socialismo ou vamos compreender quem realmente era Che Guevara. Ou seja, detratores não se converterão à causa do protagonista e admiradores da sua figura não mudarão de opinião. Narrando a saga da revolução socialista em Cuba, partindo do planejamento inicial e chegando até a tomada final de Havana, a produção dificilmente pode se enquadrar no gênero “político”. O que se tem, enfim, é um filme de guerra que tem como pano de fundo o evento histórico mencionado, sendo que nesse quesito “Che – O Argentino” se revela uma obra de respeito. O cineasta Steven Soderbergh comanda com habilidade ótimas seqüências de ação, tanto nas seqüências angustiantes nas florestas, retratadas como um opressivo e úmido inferno verde, como nas eletrizantes cenas de guerrilha urbana, usando até mesmo, em alguns momentos, um registro de tons quase documentais, mas sem apelar para câmeras tremendo. A narrativa de Soderbergh é dinâmica e objetiva como poucas, não dando muitas pausas para reflexão. Já Benicio Del Toro obtém uma eficiente composição dramática no papel de Guevara: apesar de dispensar maiores nuances de interpretação, ele mimetiza com precisão trejeitos e poses do mito.

O Visitante, de Thomas McCarthy **

A trama de “O Visitante” (2007) é simples: um professor universitário de meia-idade e solitário visita seu apartamento em Nova Iorque e descobre um casal de imigrantes ilegais vivendo no local, sendo que se afeiçoa aos dois e isso modifica sua vida para melhor. Pois é, a coisa é realmente bem previsível, mas provavelmente deve encantar a alguns espectadores pelo seu charme politicamente correto. O diretor Thomas McCarthy conduz a produção sem maiores ousadias e sobressaltos, resultando numa obra bem acabada, mas totalmente esquecível. O filme até chama atenção em alguns momentos por determinadas tomadas de Nova Iorque e também pela valorização do papel da música no desenrolar da trama, mas isso acaba sendo pouco diante da sua narrativa estéril.

terça-feira, outubro 20, 2009

FilmeFobia, de Kiko Goifman ***


Assim como “Jogo de Cena” (2007) e “Juízo” (2008), “FilmeFobia” (2008) é uma obra que se pretende como uma terceira via entre o documentário e a ficção. O diretor Kiko Goifman organizou o filme de forma episódica, em que cada parte focaliza um indivíduo que é exposto ao seu maior medo. Entremeando os episódios, há seqüências em que a fobia e a sua relação com o cinema são discutidas, além de haver um questionamento sobre o próprio processo das filmagens. Em um determinado momento, a estrutura de “FilmeFobia” não aparenta ser tão complicada: as histórias das pessoas ali filmadas são fictícias, mas o registro escolhido é o formato de um documentário. Quando se acha que está entendo essa esquematização dramática da produção, há mais uma surpresa que torna o processo novamente difuso: o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet, interpretando a si mesmo, começa a trazer para a ficção elementos reais da sua vida.

Os métodos de exposição dos fóbicos aos seus temores podem evocar algo na linha de “Jogos Mortais”, mas os interesses de Kiko Goifman são diversos. O detalhamento dos modos de estudo/tortura e a reação apavorada das “cobaias” trazem uma perturbadora relação entre o cruel e o cômico e também revelam dúvidas: as questões levantadas pelo filme são para serem levadas a sério? Mas se é uma piada, por que se fica angustiado com a mesma? E faz parte da brincadeira Bernardet mostrar alguns dos duros detalhes da sua rotina de portador do vírus da AIDS? É justamente nesse campo de dúvidas e contradições que se revela o fascínio de “FilmeFobia”, mesmo com as eventuais irregularidades do seu ritmo narrativo.

domingo, outubro 18, 2009

X-Men Origens: Wolverine, de Gavin Hood **


Talvez a melhor fase nos quadrinhos do personagem Wolverine tenha sido aquele período em que John Byrne era o desenhista e também participava dos argumentos da série dos X-Men. O motivo era bem simples: as histórias traziam uma aura de mistério para o invocado e baixinho mutante. Simpatizava-se com o jeito durão e agressivo do herói, ao mesmo tempo que o desconhecimento do seu passado sugeria uma série de possibilidades que povoavam o imaginário dos leitores. É claro que a crescente popularidade dele fez com que a Marvel tratasse de dar um jeito de esclarecer esse obscuro passado, ainda mais que com o tempo Wolverine acabou ganhando uma revista própria (hoje em dia tem duas séries, mais uma série de especiais e minisséries). O problema é que o esclarecimento dos fatos nebulosos da vida do personagem, ainda que tenham rendido algumas boas HQs como “Arma X” e a minissérie “Origem”, tiraram um pouco do seu encanto. Além disso, diversos roteiristas fizeram uma miscelânea na trajetória pregressa do mutante, a um ponto que não se sabe distinguir se determinados fatos realmente aconteceram com ele ou não passam de memórias implantadas.

Agora pensem no seguinte: como tentar concentrar toda essa confusão de histórias num roteiro para um filme de duas horas? Nesse sentido, era melhor que não se fosse tão fiel aos quadrinhos. Pois é justamente essa “fidelidade” que transforma “X-Men Origens: Wolverine” em uma das grandes decepções de 2009. A tentativa de juntar elementos de várias tramas importantes das HQs do herói em apenas uma história rendeu um filme confuso e mal costurado. Além disso, Gavin Hood não se mostra muito afeito a produções de aventuras escapistas: com algumas poucas exceções, as cenas de ação de “Wolverine” padecem de um burocratismo frustrante. O filme não é só um total desperdício pela ótima seqüência dos créditos de abertura, onde Wolverine é focalizado em várias batalhas históricas, e na excelente e assustadora caracterização de Liev Schreiber como o vilão Dentes de Sabre (em contraposição a um insosso Hugh Jackman no papel título).

Na verdade, o que “Wolverine” precisava era de um roteirista nerd como Kevin Smith e um Michael Mann na direção para fazer jus ao potencial do personagem.

Muriel ou O Tempo de Um Retorno, de Alain Resnais ***1/2


Depois do desfile de diversos recursos estéticos em “Hiroshima Meu Amor” (1959) e “O Ano Passado em Mariembad” (1961), “Muriel” (1963) parece uma desacelerada em termos de ousadias formais por parte do cineasta francês Alain Resnais. O diretor aparenta estar muito mais focado na trama em si do que em experimentos narrativos. Isso até pode ser frustrante para aqueles que esperam constantes inovações de Resnais, mas “Muriel” está bem longe de ser uma obra puramente convencional. Tem-se o característico choque entre o olhar distanciado do diretor e um roteiro de tons intimistas, o que provoca no espectador uma fascinante sensação de estranhamento. O olhar da câmera de Resnais é discreto e elegante, ajudando a compor uma narrativa que parte de um rigoroso drama familiar e que chega a momentos fina ironia.

quarta-feira, outubro 14, 2009

O Chefão do Gueto, de Larry Cohen ***


Mesmo estando longe daquilo que pode ser considerado como o melhor da produção do veterano cineasta Larry Cohen (o mesmo diretor do brilhante “Foi Deus Quem Mandou”, de 1976), “O Chefão do Gueto” (1973) é um belo exemplar do talento de Cohen como competente artesão de filmes B. O filme obedece àquele tradicional formato de filmes de gângster com uma trama focando a ascensão, apogeu e queda de um violento e carismático bandido. Um dos atrativos que torna essa obra particularmente curiosa é o fato da mesma estar enquadrada no gênero blackexploitation, tendo em vista trazer um negro como protagonista, além de alguns dos cacoetes do gênero. Mesmo não tendo a classe de um “Shaft” (1971), por exemplo, “O Chefão do Gueto” é um filme policial bem dirigido, e que traz como bônus essencial, e que acaba o tornando um programa imperdível, a trilha sonora baseada em longos temas dançantes e climáticos do grande James Brown.

domingo, outubro 11, 2009

Valsa Com Bashir, de Ari Folman ***1/2


Tentar reconstituir fatos do passado através de um registro preciso e realista é uma missão árdua e complexa, além de poder ser limitador em termos de criatividade e até em termos de entendimento de tais fenômenos. Já uma leitura sobre esses mesmos fatos sob a luz de uma impressão pessoal, marcada pelas possíveis distorções e sentimentos que esse tipo de abordagem traz, acaba sendo muito mais reveladora e ousada para a compreensão de determinados acontecimentos. Esse raciocínio me veio à mente ao assistir “Valsa Com Bashir” (2008), insólita produção que combina documentário e animação ao narrar uma dramática passagem da vida do diretor Ari Folman que ele bloqueou na sua mente, o que faz com que não se recorde com clareza do que realmente aconteceu. O recurso da animação permite que se entre, inclusive, dentro do universo onírico que habita a mente de Folman, bem como vejamos o passado dele sob um prisma subjetivo e que se apropria do irreal e do lisérgico para enquadrar nebulosos fatos.

O que perturba Folman a ponto de involuntariamente sufocar certas lembranças é a sua participação em conturbados episódios ocorridos quando era soldado do exército israelense. A investigação que Folman faz do próprio passado é sufocante: a cada momento que a trama avança, fica evidente que os motivos das suas amnésias são perfeitamente compreensíveis, com o horror das mortes e violência que advém do conflito bélico entre judeus e árabes crescendo numa proporção assustadora.

De certa forma, a utilização de recursos de animação permite uma suavizada na visão sobre um tema tão espinhoso, mas Folman, de forma precisa, abandona por breves momentos os traços desenhados quando na conclusão da investigação e mostra em live action os sangrentos resultados de um massacre em um campo de refugiados palestinos promovido por judeus. Independente da causa com que o espectador possa se identificar, é difícil o mesmo ficar impassível diante de uma exposição tão crua dos efeitos de um conflito bárbaro como esse.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Heavy Traffic, de Ralph Bakshi ***1/2


Tentar decifrar a trama de “Heavy Traffic” (1973) não é o que efetivamente interessa nessa inquietante animação. Na realidade, o filme é uma verdadeira viagem sensorial em termos visuais e sonoros. O diretor Ralph Bakshi abusa de uma estética psicodélica, típica em produções da época, ao mesmo tempo que incorpora elementos da cultura black, principalmente no que se refere aos quesitos comportamentais e musicais. Aliás, a trilha sonora de “Heavy Traffic” é uma preciosidade: além de trazer alguns sucessos da época (incluindo até mesmo Sérgio Mendes), os temas incidentais misturam levadas rítmicas lânguidas com uns climas lisérgicos que contribuem para manter o tom surreal do filme. No final das contas, dá para resumir a obra como um pequeno épico onírico soul psicodélico ambientado em uma Nova Iorque imaginária, servindo como um excelente prenúncio estético para outras excepcionais obras realizadas por Bakshi, como “American Pop” (1981) e “Fogo e Gelo” (1983).

Evocando Espíritos, de Peter Cornwell **1/2


Apesar de “Evocando Espíritos” (2009) ser o seu longa metragem de estréia nos Estados Unidos, Peter Cornwell não é um nome tão desconhecido no meio dos interessados no gênero fantástico. Ele é o diretor do curta de animação em stop-motion “Ala 13” (2003), um insano e alucinado conto de horror sobre um pobre coitado que vai parar em um hospital tomado por médico que fazem experiências nada amenas com seus pacientes, auxiliados por enfermeiros psicóticos e monstros bizarros. Essa pequena obra-prima é um primor na combinação de horror e humor negro, o que tornou Cornwell um nome tremendamente promissor. Dessa forma, “Evocando Espíritos” acaba se revelando uma obra decepcionante. Não que seja um filme ruim. Há algumas boas seqüências envolvendo assombrações, sangue e tensão, mas no geral o puro horror sucumbe a um drama familiar pouco convincente e superficial, igual a tantas outras produções de terror assépticas que seguidamente aparecem nos cinemas. Faltou aquele espírito ousado e sem concessões de “Ala 13”.

terça-feira, outubro 06, 2009

Stavisky, de Alain Resnais ***1/2

Na superfície, “Stavisky” (1974) parece mais “normal” do que boa parte da cinematografia de Resnais. O filme pode até ser realmente mais convencional na comparação com filmes como “Hiroshima Meu Amor” (1959) ou “O Ano Passado em Marienbad” (1961), mas a narrativa cerebral e o distanciamento emocional tão característicos do diretor estão lá presentes. Resnais alterna sobriamente tanto rigor como inventividade formais para focar a derrocada de um picareta e envolvente homem de negócios (Jean Paul Belmondo, em atuação ultra cool). Mesmo não estando entre as obras mais expressivas de Resnais, “Stavisky” é uma obra de peso.

As Estátuas Também Morrem, de Alain Resnais ****


Assim como em “Noite e Nevoeiro” (1955), o cineasta Alain Resnais faz de “As Estátuas Também Morrem” (1953) um documentário que parte de uma abordagem distanciada e ilusoriamente didática para retratar uma situação fortemente dramática. Na obra em questão, a visão antropológica sobre estátuas africanas traz uma amarga e contundente reflexão sobre o colonialismo e o racismo. A câmera passeia pelas obras de arte com um estilo que varia do registro falsamente frio até um olhar apaixonado sobre tais objetos. Não à toa, esse embate entre o cerebral e o emocional pautou boa parte da filmografia posterior de Resnais.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Noite e Nevoeiro, de Alain Resnais ****


A II Guerra Mundial foi o evento mais importante e marcante do século XX. É claro que isso não é novidade para ninguém, mas também não dá para esquecer que esse conflito serviu como inspiração para uma infinidade de filmes, memoráveis ou não. Por isso, é até complicado tentar afirmar qual seria a melhor obra cinematográfica envolvendo o tema. Creio, entretanto, que “Noite e Nevoeiro” (1955) chega bem perto desse título. Esse documentário dirigido por Alain Resnais é um retrato impressionante sobre os famigerados campos de concentração nazistas. Resnais adota uma narrativa distanciada e aparentemente fria, que parece anteceder a sua particular concepção formal para “Hiroshima Meu Amor” (1959) e “O Ano Passado em Marienbad” (1961). A câmera serena e objetiva registra o já abandonado campo de Auschwitz em vários detalhes e nuances, acompanhada de um texto preciso e quase impessoal, falado em tom vago e etéreo, que descreve uma boa parte dos horrores e atrocidades cometidos naquele nefasto local. E o que era na superfície um relato visual e textual desprovido de sentimento aos poucos e sutilmente ganha uma carga dramática feroz. É nessa abordagem ambígua que se concentra o poder de fogo de “Noite e Nevoeiro” – é como se Resnais nos lembrasse da impossibilidade de ficarmos impassíveis diante de lembranças tão dolorosas sobre a crueldade humana, mesmo que se tente buscar uma visão puramente histórica e isenta de emoções.

Hiroshima Meu Amor, de Alain Resnais ****


“Hiroshima Meu Amor” (1959) é aquele tipo de produção que causa certos receios para algumas platéias. Afinal, é considerado um dos momentos chaves da história do cinema, além da já ter recebido uma infinidade de artigos escritos que realçam os seus aspectos herméticos/complexos. É claro que não dá para assistir ao mesmo esperando aquela linguagem comum e linear que a maioria das obras que se assiste costuma oferecer. O diretor Alain Resnais faz de seu filme um intrigante quebra-cabeça narrativo. Há uma trama de forte teor simbólico e emocional, mas que é embalada por um difuso aspecto formal: diálogos quase literários que parecem distanciados das imagens, enxertos de cenas documentais, alternâncias de espaços temporais. Resnais confronta também uma narrativa intimista com a força esmagadora da própria História. O que torna “Hiroshima Meu Amor” uma experiência cinematográfica definitiva é justamente a consistente unidade formal que se obtém dessa insólita combinação de elementos estéticos.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Rio Congelado, de Courtney Hunt ***


Produção característica do atual cinema independente norte-americano, “Rio Congelado” (2008) é o tipo de filme pronto para ganhar o Festival de Sundance. Sem maiores ousadias formais, concentra-se em um roteiro intimista, mas com fortes teores de crítica social, ao mesmo tempo que apresenta uma rigorosa e sóbria direção de fotografia que consegue extrair belas imagens das geladas e áridas paisagens das fronteiras do local onde se desenrola a trama. Além disso, a cineasta Courtney Hunt obtém seqüências de forte tensão nos momentos em que focaliza a protagonista Ray (Melissa Leo) fazendo a transposição ilegal de imigrantes.

Território Restrito, de Wayne Kramer **


“Território Restrito” (2008) até que é um filme bem feito em alguns termos técnicos, mas ao mesmo tempo causa pouca empatia por ser derivativo e oportunista. Afinal, essas narrativas mosaicos com temática politicamente correta já foram utilizadas à exaustão em outras obras como “Babel” (2006) e “Crash” (2004). E ter como modelo filmes que nem ao menos são bons não é um promissor prenúncio... A produção tem a ambição de abarcar uma série de questões relevantes (imigração ilegal, terrorismo, corrupção, racismo, intolerância religiosa) numa mesma trama envolvendo diversos personagens que ao longo da trama se entrecruzam, mas a junção desses elementos é pouco orgânica. O cineasta Wayne Kramer parece buscar legitimidade pela importância do “conteúdo” que aborda, mas esquece de dar um estofo formal de peso para que o seu filme seja memorável.

domingo, setembro 27, 2009

Rififi no Harlem, de Ossie Davis ***


“Rififi no Harlem” (1970) é um dos mais conhecidos filmes do auge da blackexploitation. Apesar do título em português fazer pensar em uma produção no gênero policial, o que predomina mais é a linha humorística de uma comédia de erros. Na trama, enfoca-se uma série de elementos da cultura black norte-americana, numa visão crítica sobre algumas das mazelas típicas da comunidade (repressão pela policia, exploração de picaretas líderes religiosos), mas sem nunca esquecer o lado cômico com uma série de qüiproquós bem divertidos. Mesmo não tendo a excelência artística de obras como “Shaft” (1971) e “Sweet Sweetback's Baadasssss Song” (1971), “Rififi no Harlem” é um belo exemplar do gênero blackexploitation.

Baadasssss Cinema, de Isaac Julien ****


Esse documentário norte-americano de 2003 é uma aula apaixonada e esclarecedora sobre o movimento cinematográfico blackexploitation. O cineasta Isaac Julien combina de forma objetiva e com tremenda sensibilidade trechos das principais obras, imagens de arquivos e depoimentos, compondo um belo panorama sobre o gênero que, apesar de marginalizado como menor, tem uma considerável legião de fãs e ainda consegue exercer uma influência estética sobre o cinema atual. Julien explora muito bem o lado didático do seu filme, buscando explicações econômicas e sociológicas para refletir sobre a ascensão, apogeu e queda dessas produções setentistas voltada para o público negro (mas que acabava evidenciando um apelo universal), sem nunca esquecer um lado bem humorado ao revelar algumas anedotas e fofocas de bastidores. O diretor não adota uma postura de pura exaltação do gênero, procurando também mostrar as contradições que contribuíram com o fim da blackexploitation. No mais, não dá para deixar de destacar momentos antológicos como a entrevista com Tarantino, em que ele esmiúça a sua visão muito pessoal sobre o gênero além de relacionar o mesmo com a realização do extraordinário Jackie Brown, sua homenagem a esse universo. E é claro que num filme com uma temática como essa não poderia faltar uma arrasadora trilha de black music, com algumas das pepitas sonoras que iluminaram boa parte dessas películas.

quinta-feira, setembro 24, 2009

The Darker Side of Black, de Isaac Julien ***1/2


Mesmo se utilizando de um convencional formato de documentário televisivo, o diretor Isaac Julien consegue um resultado impressionante e contundente em “The Darker Side of Black” (1995) ao focalizar o universo de cantores de rap e reggae que fazem do homofobia um dos tópicos principais das letras. Concentrando-se basicamente em entrevistas e vídeos musicais, Julien constrói um assustador retrato sobre o preconceito. Os artistas não têm quaisquer receios em justificar os seus motivos, indo de preceitos religiosos até a simples repulsa. O filme é perturbador no sentido de que mesmo que se fique espantado com as opiniões de alguns dos entrevistados, há também um grau de atração pelo encanto rústico e agressivo de algumas dessas canções que são verdadeiras odes ao ódio. Não há como não fazer o paralelo com outros gêneros como o samba, o rock e o blues que por um bom tempo tiveram, por exemplo, a misoginia como um dos seus motes criativos.

Foxy Brown, de Jack Hill ***1/2


Dentro do gênero blackexploitation, “Foxy Brown” é uma das obras mais bem acabadas e representativas. A trama de vingança da personagem título é o pano de fundo ideal para um filme recheado de muita ação, violência e sensualidade em seqüências orquestradas com habilidade pelo cineasta Jack Hill, e claro que temperado por aquele espírito fuleiro típico das produções B dos anos 70 (aliás, isso não é de se estranhar, pois Hill havia aprendido muito com o mestre Roger Corman, com quem havia trabalhado nos anos 60). Pam Griem podia não ser uma grande atriz na época, mas mesmo assim ela tem uma presença de cena exuberante na pele da protagonista pela sua beleza e carisma. E como todo bom filme da era blackexploitation, “Foxy Brown” conta com uma trilha sonora climática e cheia de balanço, dessa vez a cargo do excelente soulman Willie Hutch.

O Retorno de Sweetback, de Mario Van Peebles ***


“O Retorno de Sweetback” é a recriação dramática dos bastidores da realização de “Sweet Sweetback's Baadasssss Song” (1971), de Melvin Van Peebles, o clássico filme que deu o pontapé inicial no gênero blackexploitation. Mario Van Peebles, filho de Melvin e que participou como ator mirim em “Sweet Sweetback’s....”, narra de forma empolgante e bem humorada todas as peripécias financeiras e artísticas que Melvin fez para conseguir transformar uma produção independente e recheada de temas tabus (sexo, violência, racismo) em um grande sucesso comercial e artístico. Ao contrário da obra que homenageia, “O Retorno de Sweetback” não prima por uma linguagem experimental ou inovadora, mas sua narrativa clássica e bem ajustada oferece uma visão fascinante sobre o lado B do universo cinematográfico e honra com sensibilidade a figura fascinante de Melvin Van Peebles

segunda-feira, setembro 21, 2009

Nome Próprio, de Murilo Salles ***1/2


Confesso que nunca gostei dos escritos de Clarah Averbuck. A impressão que tenho assistindo a “Nome Próprio” (2008), produção brasileira baseada nos livros “Máquina de Pimball” e “Vida de Gato”, é que Murilo Salles também tem a mesma opinião... O interesse do cineasta não é exatamente pelo texto em si da obra literária de Averbuck, mas na conexão que se dá entre esse texto e a própria vida da autora. Vemos a vida desregrada de Camila, alter ego da escritora, e a forma com que esse caos se transforma em literatura.

Salles explora ambigüidades ao extremo. Vai do hedonismo sensual da intensa vida íntima da protagonista até momentos de profunda solidão e abandono. Camila também consegue ser selvaticamente sexy e encantadora em determinadas seqüências e em outras se converte em uma deprimente e neurótica desmiolada que enche o saco de todo mundo. A dicotomia atração e repulsa parece ser a força motriz do que Camila escreve e também é a base conceitual de “Nome Próprio”. Salles administra essa verdadeira montanha russa de sensações e sentimentos com maestria, indo do registro simples e de tons naturalistas do quotidiano atribulado de Camila até a uma busca por uma linguagem experimental, principalmente quando procura fundir cinema e literatura ao dar visibilidade às palavras sendo tecladas diretamente no que está enquadrado pela câmera. Sua narrativa é envolvente e também perturbadora: parece questionar constantemente o modus operandi de Camila, além de progressivamente, através de pequenos detalhes cênicos, confundir o próprio espectador sobre a “verdade” daquilo que estamos assistindo – será que Camila realmente viveu tudo aquilo ou é apenas ela se transformando cada vez mais em ficção??

Salles também foi particularmente feliz ao escolher Leandra Leal para o papel de Camila. A atuação da atriz é de uma dimensão quase de possessão: intensa e feroz, mas também transpirando fragilidade emocional, Leal busca a naturalidade a qualquer preço – sua expressividade não é apenas facial, mas totalmente corporal (poucas vezes se viu uma atriz ficar tanto tempo nua como se fosse algo tão natural). A impressão é que ela conseguiu ser mais Clarah Averbuck que a própria Clarah!

Por falar nela, dizem que Averbuck ficou descontente com o resultado final de “Nome Próprio”. Ora, ela devia agradecer ao Salles por ter sua obra revigorada de forma tão extraordinária!

Jacquot de Nantes, de Agnès Varda ***


Essa produção francesa de 1991 é uma criativa cinebiografia do realizador Jacques Demy dirigida pela esposa do mesmo, Agnès Varda. Concentrando-se na juventude de Demy, o filme enfoca de forma esparsa e fragmentada alguns episódios desse período da trajetória do cineasta, ao mesmo tempo que insere trechos de algumas da principais obras dele como “Os Guardas-Chuva do Amor” (1964) e “Pele de Asno” (1970), com Varda fazendo uma conexão poética entre a vida e a cinematografia de Demy. Essa relação acaba se revelando essencial no sentido em que capta a tensão artística que sempre marcou a filmografia do diretor: uma dicotomia entre o real e a fantasia, em que a música poderia irromper de forma inusitada no meio do mais corriqueiro e banal quotidiano.

Blacula, de Willian Crain ***1/2


Opiniões mais preconceituosas e rasteiras costumam rebaixar “Blacula” (1972) apenas como uma mera curiosidade trash do movimento blackexploitation, o que é na verdade um equívoco. É claro que o filme, mesmo se inspirando na figura de Drácula, está muito distante de ser um filme de horror, estando mais enquadrado no gênero comédia. E nesse estilo cômico, funciona que é uma beleza. O diretor Willian Crain domina com habilidade tanto a ação altamente movimentada de algumas seqüências quanto os momentos irônicos de tiração de sarro com clichês das obras clássicas de terror ou de estereótipos do comportamento dos blacks. E para completar, a trilha sonora movida a soul e funks faiscantes é extraordinária e já valeria por si só o preço do ingresso.

Marco Ferreri - O Diretor Que Veio do Futuro, de Mario Canele ***


Tentar enquadrar a figura de Marco Ferreri, cineasta afeito ao bizarro e ao surreal, em um simples documentário não é das tarefas mais fáceis. A produção italiana “Marco Ferreri – O Diretor Que Veio do Futuro” (2007) cumpre essa missão com considerável sucesso. O diretor Mario Canale consegue narrar a vida e a obra excêntricas de Ferreri através de depoimentos preciosos de colegas, amigos e do próprio biografado e de imagens antológicas de alguns de seus melhores filmes. Canale estabelece a conexão precisa da estranha visão de mundo e de cinema que vem das palavras de Ferreri com o resultado final de tais concepções em seus filmes. Tanto para velhos admiradores como para neófitos, o documentário é esclarecedor sobre a obra de Ferreri, assim como diverte pelo tom bem humorado de algumas seqüências.

Tandoori Love, de Oliver Paulus **1/2


Essa produção suíça de 2008 apresenta uma insólita e divertida combinação de comédia romântica tipicamente ocidental com musical desvairado de Bollywood. Por mais indigesta que possa parecer essa mistura, o filme cativa justamente pelo enquadramento da sisudez e falta de molejo tipicamente europeus em meio a uma ambientação exageradamente colorida e irreal das produções indianas, o que acaba rendendo alguns momentos hilariantes de dramas ingênuos e comicidades desajeitadas. “Tandoori Love” está longe de ser uma obra-prima, mas também transcende a simples curiosidade cultural.

A Era da Inocência, de Denys Arcand ***1/2


O cineasta canadense Denys Arcand deve ter ficado de saco cheio de ser levado tão a sério com o superestimado melodrama humanista “As Invasões Bárbaras” (2003). Em “A Era Inocência” (2007), permanece a sua visão crítica sobre a sociedade contemporânea, mas dessa vez moldada em uma forma mais irregular e sardônica. Prevalece no filme um tom que varia entre o surreal e o jocoso sobre a vida fútil e frustrante do homem moderno, geralmente pontuado também pelo gosto pelo politicamente incorreto. As melhores seqüências do filme são justamente aquelas que investem pesadamente nesse lado irônico mais ofensivo, principalmente nos delírios misóginos que o protagonista Jean-Marc LeBlanc (Marc Labrèche) tem com as mulheres que o oprimem (esposa, sua chefe executiva, suas colegas de trabalho, uma possível amante pirada que acha que é uma lady da Idade Média). O ponto fraco de “A Era da Inocência” é justamente quando Arcand ameniza a sátira para tentar passar alguma “lição de vida” para LeBlanc. Mesmo assim, é uma obra que serve como um bem vindo refresco humorado e sacana para Arcand depois daquele excessivo incensamento da crítica e do público pós-“As Invasões Bárbaras”.

A Princesa de Nebraska, de Wayne Wang ***


Aqueles que se recordam do cineasta chinês Wayne Wang pelo melodrama “O Clube da Felicidade e da Sorte” (1993) levarão um susto com “A Princesa de Nebraska” (2007). Wang abandonou o tom lacrimoso e o formato acadêmico de sua obra mais conhecida e adotou um estilo seco e uma visão mais amarga para retratar a trajetória de uma garota chinesa grávida e misteriosa percorrendo recantos sórdidos de uma cidade norte-americana. O tom granulado da fotografia e os enquadramentos simples e eficientes nas cenas reforçam a abordagem do diretor que oscila entre o real e o poético.

Santos e Demônios, de Dito Montiel ***


O escritor Dito Montiel não se fez de rogado e tratou dele mesmo adaptar para o cinema algumas passagens autobiográficas de sua adolescência e da sua vida adulta, indo das confusões que se envolvia com o seu grupo de amigos delinqüentes num violento bairro novaiorquino até o seu difícil relacionamento com o pai. Montiel não cai em auto-indulgências fáceis: sua visão sobre a sua vida é crua e dramática, sem que o autor se poupe das suas responsabilidades. A forma dinâmica com que filma tanto as seqüências mais agitadas de brigas e encrencas quanto os momentos mais intimistas faz com que “Santos e Demônios” não caia num monótono e lamentoso relato sobre as agruras de um adolescente rebelde sem causa. Outro destaque da produção é o seu elenco, tanto pelas atuações vibrantes dos atores mais jovens quanto pelas interpretações sanguíneas e cheias de nuance de Robert Downey Jr., Chaz Palminteri e Diane Wiest.

Pablo e Virginia vão à Lujan, de Lilian Saura Ivachow **


Essa produção argentina de 2008 apresenta um tratamento quase documental para uma história singela e banal. Pablo e Virginia se conhecem durante uma peregrinação para a cidade Lujan, falam sobre coisas corriqueiras e sobre as suas vidas, trocam impressões pessoais, separam-se no outro dia e voltam a se encontrar no retorno a suas casas. A diretora Lilian Laura Ivachow filma com competência, a trama encanta de vez em quando pela sua simplicidade, mas o filme não tem maiores arroubos formais e aborrece em várias seqüências. No final das contas, “Pablo e Virginia vão à Lujan” vale mais como curiosidade pelas suas limitações de produção barata do que necessariamente pelas suas qualidades artísticas.

domingo, setembro 06, 2009

Terra Mãe, de Ermanno Olmi ***1/2


A primeira metade desse documentário italiano de 2009 chega a parecer quase um vídeo institucional. O veterano cineasta Ermanno Olmi concentra sua lente em fóruns, debates e entrevistas tendo por tema a questão ambiental. Isso não quer dizer, entretanto, que “Terra Mãe” é uma coletânea de aborrecidos depoimentos politicamente corretos. A dinâmica cinematográfica que Olmi consegue obter é notável, enfatizando muito a contundência da complexidade das discussões ecológicas. É na metade final do filme, contudo, que estão reservadas os melhores momentos. O diretor dispensa os diálogos e apenas enfatiza as imagens bucólicas de uma fazenda no interior da Itália. Focalizando uma natureza naquilo que ela tem de mais misteriosa e bela, num registro seco e direto, mas também apaixonado, as cenas concebidas por Olmi são a prova incontestável da verdade de todos os discursos bradados no início de “Terra Mãe”. Por mais que alguns possam acusar o documentário de panfletário ou ingênuo, a realidade é que a sua engenhosa arquitetura narrativa é cativante e eficiente na defesa do seu ponto de vista.

9 mm., de Taylan Barman ***1/2


A cena de abertura de “9 mm.” (2008) é seca e objetiva: no corredor de um prédio, a câmera focaliza uma porta de apartamento e um tiro é ouvido. A partir desse instante, a trama do filme retroage algumas horas e daí os motivos que levaram ao disparo da arma aos poucos serão esclarecidos. Essa descrição da narrativa dessa produção belga pode levar a crer que a mesma se trata de um filme policial. E é justamente aí que está um dos grandes méritos do filme: o que se assiste é um drama sobre a desintegração de uma família formatado numa estrutura de filme policial. Não há como não lembrar da declaração de Truffaut sobre Hitchcock em que ele dizia que o velho mestre inglês dirigia histórias de amor como filmes de suspense ou realizava produções de suspense como filmes de amor. O diretor estreante Taylan Barman surpreende ao conduzir sua trama com uma dinâmica tensa e meticulosa. Sua câmera é investigativa, parecendo não querer perder nenhum detalhe da trajetória descendente de seus personagens. Na maior parte dos momentos, pai, mãe e filho são apresentados em ações isoladas, mas que refletem sutilmente a relação desestabilizada entre eles. Quando interagem, a naturalidade dos seus atos é brutalmente coerente, fazendo da tragédia anunciada no início do filme a conseqüência inevitável de uma convivência degradada.

Home, de Ursula Meier ****

“Home” (2008) é uma verdadeira jornada dentro da loucura humana. A trama é altamente insólita: uma família de desequilibrados e que tinha tudo para ser disfuncional vive isolada em estranha harmonia em uma casa que fica à beira de uma auto-estrada abandonada. Jogando hockey no asfalto deserto, tomando banhos coletivos ou com a filha mais velha se bronzeando nua no jardim, nada parece perturbar a rotina do esquisito grupo. No momento, entretanto, que a auto-estrada em questão é reativada, a desordem mental de todos parece aflorar. Incapazes de abandonar a residência, começam a entrar em eternas discussões e conflitos. Chega-se ao ponto de emparedar todas as aberturas da casa para evitar o contato externo. A cineasta Ursula Meir adota o tom certo na direção, criando uma atmosfera de demência que vai se tornando progressivamente sufocante. A fotografia se alterna vertiginosamente entre a luminosidade ensolarada das belas paisagens bucólicas onde a casa está encravada até os interiores escuros e opressores da residência. Isabele Huppert mostra uma variação interpretativa impressionante no papel da matriarca, indo da serenidade contemplativa até o comportamento maníaco assustador, enquanto o notável elenco juvenil envereda por atuações similares.

Absurdistão, de Veit Helmer ***


“Absurdistão” (2008) tem as características típicas daquelas produções “artísticas” que alguns cinéfilos tanto gostam: paisagens exóticas, realismo mágico, narrativa alternada entre a fábula e a comédia. Mas apesar dos clichês, o filme é realmente envolvente e tem o seu encanto. Reciclando a velha história mitológica da greve de sexo das mulheres de Atenas, transposta para um vilarejo de um país imaginário, o filme tem uma eficiente direção de fotografia que valoriza as inóspitas paisagens áridas que pontificam como cenários. Além disso, a trama é marcada por um humor ora ingênuo ora malicioso em perfeita sintonia com o caráter irreal da narrativa.

sábado, agosto 29, 2009

Vacuum, de Maria Tereza Curzio **1/2


Esse documentário de 2008 sobre a ditadura militar no Uruguai durante o período de 1974 a 1984 não traz nenhuma novidade para o gênero. A diretora Maria Tereza Curzio se prende a todos os macetes mais genéricos, fazendo a velha combinação de depoimentos com imagens de arquivo. Mesmo assim, é inegável a força narrativa e emocional do filme. Curzio conseguiu obter uma interessante dinâmica cinematográfica, sendo que se acompanha com interesse a dolorosa busca de desaparecidos e seus descendentes por parte de parentes e a evocação das duras lembranças de torturas e perseguições durante àquela época de totalitarismo. Por mais que para alguns o filme possa parecer panfletário demais, dificilmente não se fica impressionado com tais relatos.

Pequeno Crime, de Christos Georgiou **1/2


Uma co-produção entre o Chipre e a Grécia não é o tipo de filme que se assiste seguidamente. Mas “Pequeno Crime” (2008) consegue transpor o mero interesse de curiosidade geográfica. Num misto de comédia, policial e a singela crônica de costumes, a obra se sustenta no roteiro bem humorado, na bela fotografia que focaliza as bucólicas paisagens de uma ilha cravada no meio do Mar Egeu e no exotismo dos costumes e línguas dos personagens. No final das contas, não é nada de parar o trânsito, mas consegue distrair na boa o espectador por uma hora e meia.

Feliz Natal, de Selton Mello ***1/2


Se como ator Selton Mello consegue ser irritante em alguns dos seus maneirismos, no seu lado como cineasta ele consegue ser bem mais fluente e interessante. “Feliz Natal” (2008), seu de estréia na direção, é a prova natural disso. Logo nas primeiras cenas já se fica surpreendido com a paixão de Mello pela imagem cinematográfica: as tomadas do ferro velho, com enquadramentos magníficos sob iluminação naturalista e saturada, têm um impacto fortíssimo. Esse gosto pelas imagens, e não palavras, que traduzem idéias e concepções paira por todo o filme. O estilo de filmar pode ser seco e objetivo, mas também tem um corte elegante: não se cai na armadilha fácil de câmeras que tremem ou que ficam fora do foco da ação principal. A lente do diretor é contemplativa e curiosa. Acompanha de forma detalhada a desintegração psicológica e emocional da família do protagonista Caio (Leonardo Medeiros), com a câmera investigando toda a sordidez e falta de esperança que emanam das situações e dos personagens. Mello, todavia, não esquece de pingar sobre a trama um pouco de um senso de humor agudo e perverso. Nesse sentido, é inesquecível a cena em que o cunhado bonachão e desempregado fica devorando pernil e farofa durante a ceia de Natal enquanto patriarca e matriarca (Lúcio Mauro e Darlene Glória) discutem da forma mais áspera e bagaceira possível.

Outro ponto alto de “Feliz Natal” são as atuações dramáticas que Selton Mello consegue extrair do seu elenco. Leonardo Medeiros atinge o seu auge como ator ao compor sutilmente um Caio imerso em fragilidade e culpa. Lúcio Mauro, de rosto pétreo e gestos econômicos, é o retrato perfeito da amargura, enquanto Darlene Glória oferece uma interpretação completamente over mas adequada a uma idosa mergulhada na loucura e no alcoolismo. Já Paulo Guarnieri surpreende ao caracterizar uma imensa melancolia apenas no seu olhar triste e apagado. Graziella Moretto sai do seu registro cômico habitual e oferece o retrato muito bem delineado da mulher frustrada em todos os sentidos.

Mesmo não sendo uma obra-prima, “Feliz Natal” é aquele tipo de produção que cria uma tremenda expectativa sobre o que seu autor pode oferecer no futuro, além de dar vontade de pedir ao Selton Mello que largue a carreira de ator e se concentre só em fazer filmes (tudo bem, estou exagerando: em “Lavoura Arcaica” e “O Cheiro do Ralo” ele teve atuações extraordinárias).

Jardins de Outono, de Otar Iosseliani ***


Essa produção francesa de 2006 é uma bela reciclagem do cinema surrealista de Luis Bunuel. Apesar de não ter a mesma excelência artística do velho mestre espanhol, o cineasta Otar Iosseliani elabora com habilidade uma estranha e agradável atmosfera onírica que reveste uma trama cômica sobre políticos corruptos e mazelas familiares. O espectador se sente envolvido por um tom nostálgico e bucólico, como se sentisse saudade de algo indefinível, obscuro, mas ao mesmo tempo vagamente reconhecível, numa sensação típica de devaneio.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Breton é um Bebê, de Arturo Sotto ***


Nesse documentário de 2008, o diretor Arturo Sotto e sua equipe percorrem o interior de Cuba na intenção de fazer um registro do imaginário mágico do país. O resultado é uma obra perturbadora, em que a visão pretensamente objetiva que se poderia ter sobre o assunto se dissolve no olha fascinado sobre os rituais de religiões afro-americanas que prevalecem na nação. A violência dos ritos e a fé dos devotos são retratados num formato cru e sem concessões, mas ao mesmo tempo há um tom entre o onírico e o surreal que tornam estranhamente atraentes tais práticas.

terça-feira, agosto 18, 2009

California Dreamin', de Cristian Nemescu **1/2


Essa produção romena de 2007 é uma sátira política que oscila entre a ironia e a ingenuidade. A trama, que mostra um pelotão norte-americano em missão internacional preso numa cidadezinha romena pela burocracia estatal, tem um caráter evidentemente simbólico, trazendo uma crítica ao velho imperialismo ianque e ao caráter corrupto e subverniente dos países de terceiro mundo. O problema do filme é que o seu lado farsesco é tão acentuado que acaba tirando o impacto dramático de algumas seqüências que pretendiam um tom mais sério. No mais, “California Dreamin’” é envolvente e simpático, sendo que os seus melhores momentos se concentram nas engraçadas cenas do baile oferecido pela cidade aos soldados, que na verdade estão loucos para transar com as mais belas garotas da localidade. Como se pode observar, as metáforas no filme são mais que óbvias...

quinta-feira, agosto 13, 2009

Segredos, de Alice Nellis **1/2


Essa produção tcheca de 2007 é um drama intimista mostrando uma dona de casa em um dia de crise, onde vários problemas de sua vida (casamento abalado, adultério, desilusões existenciais) convergem para que uma série de questionamentos pessoais venha à tona. A diretora Alice Nellis revela uma certa sensibilidade para retratar as angústias das mulheres burguesas nesse começo de milênio, apesar de cair em alguns momentos num ranço de esquematismo psicológico de almanaque. O que realmente garante o interesse por “Segredos” é que as situações limites vividas pela protagonista recebem um bem vindo filtro de bom humor, o que acaba tornando mais agradável a uma hora e meia de duração do filme.

Os Escritórios de Deus, de Claire Simon ****


A estrutura narrativa e formal de “Os Escritórios de Deus” (2008) lembra bastante o extraordinário “Entre os Muros da Escola” (2008). A trama focaliza a rotina em um órgão público responsável por aconselhamentos para planejamento familiar, mas o que se enfatiza principalmente é a questão do aborto. O filme se divide em episódios que retratam várias situações que levam uma mulher a optar pelo aborto, sendo que cada um dos casos é baseado em histórias reais colhidas num desses órgãos. A junção de todos esses casos oferece um amplo panorama não só sobre a questão do aborto na França, mas da própria sociedade, ao refletir as diferentes formas com que a situação é encarada tanto por diferentes classes sociais quanto geracionais. Para a diretora Claire Simon, não há explicações e nem soluções fáceis para essa questão: o aborto tanto pode ter uma causa que vem da condição social e econômica da mulher quando de um aspecto insondável da sua natureza humana. Nesse sentido, impressiona a perspicácia de Simon ao selecionar cada um desses casos mostrados no filme, da adolescente inconseqüente de periferia até a veterana prostituta que engravida mais de uma vez de um homem por quem é apaixonada.

É claro que em vários momentos do filme a cineasta privilegia um registro que se utiliza de uma estética quase documental, mas isso não quer dizer que “Os Escritórios de Deus” se resuma a atores depondo para as câmeras. Fotografia e edição são inquietantes, valorizando e detalhando ambiente e a própria expressão corporal dos atores, obtendo uma atmosfera que varia do angustiante e desolador para até mesmo uma certa leveza, alternando tensão e bom humor.

Assim como “Entre os Muros da Escola”, “Os Escritórios de Deus” reafirma uma tendência no atual cinema francês em combinar engajamento social temático com admiráveis criatividade e ousadia artísticas.

As Noivas de Alá, de Natalie Assouline *



Esse documentário retrata a rotina de mulheres palestinas presas por atividades de guerrilha contra Israel. Os depoimentos impressionam por conciliarem os dramas pessoais delas com as suas visões sobre a guerra que travam. Como registro histórico, é uma obra de interesse por focar com crueza um dos grandes conflitos mundiais dos últimos anos, evidenciando uma das suas mais nefastas conseqüências. Pelos seus méritos cinematográficos, entretanto, “As Noivas de Alá” deixa muito a desejar: a narrativa é truncada, focalizando-se basicamente em entrevistas, parecendo mais um vídeo institucional de propaganda. Faltou ao filme ousadia e inspiração.

domingo, agosto 09, 2009

A Caixa de Pandora, de Yesim Ustaoglu ***1/2


Não sei se a produção turca “A Caixa de Pandora” (2008) é uma obra tão representativa do seu país de origem. Afinal, não vejo tantos filmes turcos assim... Mesmo assim, é um belo cartão de visitas do cinema daquelas bandas. O diretor Yesim Ustaoglu faz uma interessante contraposição entre as paisagens rurais e urbanas, sendo que em ambas predomina um registro seco e opressivo. O ambiente da cidade parece ser tão ameaçador quando a natureza pouco hospitaleira. Os cenários estão perfeitamente adequados ao contexto da trama, repleto de conflitos familiares mal resolvidos e melancolia. Ustaoglu pode não trazer nada de revolucionário em “A Caixa de Pandora”, mas impressiona pela concisão formal e pela forte impacto emocional de seu filme, fazendo do mesmo uma pequena perola a ser descoberta.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Ill Divo, de Paolo Sorrentino ****


“Gomorra” (2008) é um correto drama policial, mas está muito longe de ser “o” grande filme de máfia recente. Esse título é, inquestionavelmente, de “Ill Divo” (2008). A realidade, entretanto, é que tal produção italiana não é somente um drama sobre mafiosos. Esse é apenas um dos seus fascinantes aspectos, em um filme que também envolve intrigas políticas, comédia farsesca e uma ácida visão social da Itália contemporânea. Tendo como mote principal a biografia do Primeiro Ministro italiano Giulio Andreotti, focalizando principalmente o apogeu do seu poder político e a sua derrocada devido a escabrosos escândalos, o cineasta Paolo Sorrentino oferece um sombrio e sarcástico retrato dos bastidores da classe política italiana. Seu estilo de filmar barroco impressiona por variar dos tons realistas documentais até momentos quase surreais que beiram o grotesco. Sorrentino instaura no filme um ambiente de paranóia e pesadelo, temperado por um venenoso humor negro, ao mostrar os jogos de gato e rato entre Andreotti e seus asseclas com seus adversários, o que acaba deixando o espectador em constante tensão. As seqüências de ação que envolvem atentados e ataques da Máfia trazem aquela velha e bem vinda grandiloqüência operística tão características de obras como “O Poderoso Chefão” ou “Era Uma Vez na América”. Além disso, a interpretação de Toni Servillo no papel principal está em perfeita sintonia com o espírito do filme, numa composição dramática que dispensa o naturalismo e enfatiza o caricatural.

Evocando o excelente cinema político de cineastas como Elio Petri, “Ill Divo” é o melhor filme italiano que assisto em anos. Pode parecer exagero, mas é provável que qualquer um que assista a essa obra-prima possa ter essa impressão....

De Mão Para Filha, de Andrea Zambelli *


Esse documentário italiano de 2008 trata sobre a tradição dos cantos folclóricos das colhedoras de arroz da região de Vercelli, ambiente esse que já havia sido retratado no clássico “Arroz Amargo” (1948). O filme combina antigas imagens de arquivo com depoimentos pessoais das cantoras, indo de veteranas senhoras até as mais moças que batalham para perpetuar essa expressão cultural. É claro que é uma história interessante, sendo que os maiores atrativos do filme estão no carisma de algumas dessas mulheres e no encanto pela beleza bruta da música que vem da tela. O resultado final, entretanto, é enfadonho, pois a direção é tão burocrática e o roteiro tão raso ao abordar os aspectos históricos que se acaba ficando com uma impressão constante de se assistir a um vídeo institucional sobre o coro feminino em questão.

Belle Toujours, de Manoel Oliveira ***


Confesso que a minha expectativa para “Belle Toujours” (2006) não era das maiores. Afinal, nunca fui muito fã do cineasta português Manoel de Oliveira. Além disso, querer fazer uma continuação da obra-prima “A Bela da Tarde” (1967) de Luis Bunuel pode soar pretensioso demais. Mas o resultado final é surpreendente. Oliveira sabe que seria quase impossível fazer uma obra à altura do original, sendo que dessa forma prefere concentrar sua narrativa em uma visão sarcástica sobre a velhice dos principais personagens do clássico de Bunuel. A trama oscila entre o monótono e até mesmo um certo tom mágico, fazendo com que “Belle Toujours” funcione como uma discreta e bem humorada homenagem a um dos grandes momentos da história do cinema.

Canções de Amor, de Christophe Honoré ****


“Canções de Amor” (2007) parece começar justamente de onde parou “Em Paris” (2006), produção também dirigida por Christophe Honoré. O cineasta aprofunda as suas experimentações formais, pendendo ainda mais para a linguagem irreal do musical. Mas as intenções estéticas de Honoré não são simplesmente escapistas. Seu objetivo é justamente fazer o confronto do anti-naturalismo do gênero musical com a pungência e a dureza emocional que emanam de um roteiro que fala sobre perdas e paixões desencontradas. É como se o “cinema total” de Jean-Luc Godard encontrasse o intimismo romântico dolorido e desiludido típico da obra de Truffaut. Essa conexão com a Nouvelle Vague está presente de forma marcante em várias seqüências de “Canções de Amor”, mas Honoré está bem distante do mero revivalismo. Seu filme transpira vivacidade e naturalidade impressionantes, embalado por uma trilha sonora repleta de canções memoráveis. É extraordinária a maneira fluida com que a música irrompe em cenas de alto teor dramático. A sensação inicial em tais momentos é de estranhamento, mas ao poucos essa insólita combinação começa a fazer totalmente sentido. A grande força criativa de “Canções de Amor” está justamente nessa conjugação entre o estranho e o encantador.

Antonioni sobre Antonioni, de Carlo Di Carlo **


Esse documentário sobre a carreira do cineasta italiano Michelangelo Antonioni não traz muitos atrativos no seu aspecto formal. O grande foco de seu interesse está mesmo nos depoimentos colhidos do diretor biografado. Antonioni não fala muito sobre a sua vida, preferindo fazer comentários sobre alguns de seus filmes. O mais fascinante na visão que oferece sobre sua obra é que ele não procura explicar o sentido da mesma, preferindo se concentrar em pequenos detalhes quanto ao seu estilo de filmar. “Antonioni sobre Antonioni” não é um documento definitivo sobre o grande diretor que foi Antonioni, mas rende alguns momentos preciosos para os admiradores não só do cineasta, mas também do cinema em geral