quinta-feira, abril 28, 2016

Phoenix, de Christian Petzhold ***1/2

Num primeiro momento, a premissa inicial e mesmo os desdobramentos da trama de “Phoenix” (2014) podem sugerir algo de novelesco. A história parece rocambolesca e um tanto exagerada: a judia Nelly (Nina Hoss), desfigurada por um tiro que recebeu em um campo de concentração, retorna para a Alemanha pouco após o fim da 2ª Guerra, faz uma cirurgia plástica que lhe dá um novo rosto, sai em busca do marido (Ronald Zehrfeld), que acredita que ela está morta, e ao encontrá-lo acaba descobrindo o seu verdadeiro e questionável caráter. O fascinante no filme é a forma com que o diretor Christian Petzhold transforma essa estrutura de melodrama em uma elegante narrativa, combinando um requintado formalismo com uma sobriedade emocional admirável. Mesmo que o roteiro possa sugerir em alguns momentos arroubos sentimentais, o rigor estético da produção é tão preciso que faz com que a narrativa permaneça equilibrada. Essa equação artística baseada na contenção e na sutileza gera uma obra de atmosfera repleta de nuances que se situam entre o perturbador e o encantador. Repare-se, por exemplo, como a canção “Speak low” se insinua em trechos chaves da trama e se transforma numa peça fundamental no desfecho da história, ou como as noções de sensualidade e tragédia convivem e se misturam dentro da encenação detalhista proposta por Petzhold. Essa abordagem do cineasta é tão rica em seus elementos e referências que faz com que mesmo aquela ideia inicial de uma trama de tons novelescos acabe se transportando para uma dimensão fortemente simbólica, a retratar um país em crise de identidade que se obriga a encarar as verdades cruéis de sua essência para poder seguir em frente.

quarta-feira, abril 27, 2016

Onde o mar descansa, de Fernanda Lippi e André Semenza ***1/2

Num primeiro momento, a equação artística de “Onde o mar descansa” (2015) pode parecer um pastiche que chama atenção apenas pelo insólito de sua combinação – as atmosferas fantasmagóricas das produções europeias de horror dos anos 60 e 70, a ambientação entre o onírico e o metafísico de Andrei Tarkovsky, o fluxo narrativo poético de Derek Jarman, a encenação repleta de coreografias de danças que remetem a algumas obras memoráveis de Carlos Saura. Com o desenvolver da narrativa, entretanto, essa junção de influências diversas vai dando uma liga surpreendente que faz com que o filme transcenda a simples curiosidade. O lirismo poético da narração, a intensidade dos bailados dramáticos das personagens, a direção de fotografia de tons esmaecidos e tenebrosos, a expressiva síntese entre melodias melancólicas e dissonâncias de trilha sonora e a edição sóbria colaboram na configuração de um singular conto gótico sobre o amor e a perda. O formalismo concebido pelos diretores André Semenza e Fernanda Lippi acaba por criar uma espécie de universo paralelo, onde até mesmo as regras morais pequeno burguesas cristãs se desvanecem sem a menor cerimônia (nesse sentido, não há como não fazer uma conexão com o recente e extraordinário “A bruxa”). As belas e lúgubres paisagens de florestas e rios congelados, que parecem se formatar como personagens dentro da trama, são incorporadas com naturalidade e coerência dentro dessa singular proposta artístico-existencial. Dentro dessa trinca de “cinema-dança-poesia”, fica o registro memorável de uma obra de impacto sensorial desconcertante.

terça-feira, abril 26, 2016

Sinfonia da necrópole, de Juliana Rojas ***

Talvez a melhor referência para se entender a particular concepção artística de “Sinfonia para necrópole” (2014) seja o clássico “Os Guarda-chuvas do amor” (1963). Embora não tão radical em sua estrutura quanto a obra de Jacques Demy, o filme da cineasta Juliana Rojas é inquietante em suas escolhas formais e temáticas. Para começar, o gênero ao qual pertence é bem pouco habitual em tempos recentes, ainda mais em se tratando de cinema nacional – qual foi o último musical brasileiro lançado em nossas telas? Além disso, Rojas vincula também sua obra ao fantástico. Sua abordagem é francamente cômica, com belas canções originais repletas de letras irônicas e coreografias desajeitadas de maneira simpática. Dentro de tais opções artísticas, esconde-se uma certa perversidade autoral por parte de Rojas. Ela brinca com clichês narrativos, sugere desenlaces típicos de uma comédia de tons românticos e sociais, a lá Frank Capra, mas aos poucos o desenrolar dos fatos do roteiro e mesmo a ambientação da obra vão se tornando mais realistas e até mesmo amargos, aí residindo sua principal conexão com a referida produção de Demy. A diretora atinge um equilíbrio admirável entre a atmosfera lúdica e uma visão bastante pessimista sobre as relações humanas dentro de uma sociedade marcada pelo mercantilismo e pelo cinismo. No final das contas, “Sinfonia da necrópole” acaba sendo uma obra bem emblemática dos tempos funestos que vivemos no Brasil.

segunda-feira, abril 25, 2016

A bruta flor do querer, de Dida Andrade e Andradina Azevedo ***

É bastante evidente em “A bruta flor do querer” (2013) um forte teor narcisista como um dos principais motes criativos da obra. A configuração da trama e da narrativa obedece a um fluxo memorialista e subjetivo dos diretores Dida Andrade e Andradina Azevedo. Se por um lado essa tendência de olhar para o próprio umbigo leva o filme por vezes para um viés artístico autocomplacente, é inegável também que representa um olhar autoconsciente de seus cineastas para sua arte e para suas próprias vida, rendendo para a produção aquilo que ela tem de mais memorável e vigoroso. Os parcos recursos de que Andrade e Azevedo dispõem são aproveitados quase ao máximo em suas possibilidades – tal precariedade se incorpora à narrativa como razão existencial, dando sentido ao filme tanto em termos temáticos quanto num formalismo que revela sensibilidade e sofisticação. Isso pode ser percebido em detalhes sutis como a direção de fotografia rústica e expressiva, as atuações maneiristas e intensas do elenco, as boas sacadas no uso de canções alheias e nos temas próprios da trilha sonora, os jogos metalinguísticos. Mesmo o manjado tripé sexo-drogas-rock and roll (com toques de MPB, jazz e música clássica) rende algumas sequências bastante perturbadoras e pungentes pela forma impactante e sincera com que são filmadas. Se com o tempo Andrade e Azevedo conseguirão amadurecer esse traço pessoal e autoral, apenas se adequarem a um formato mais convencional de fazer cinema ou simplesmente sumirem do mapa da produção nacional é algo a se conferir. O que se tem no presente é que com “A bruta flor do querer” conseguiram gerar uma obra capaz de grudar no imaginário do espectador de mente mais aberta, o que não deixa de ser uma façanha considerável.

sexta-feira, abril 22, 2016

Mogli - O menino lobo, de Jon Favreau ****

O diretor norte-americano Jon Favreau é aquele tipo de cara que quem gosta de cinema acaba simpatizando. Afinal, teve uma participação marcante como ator principal no clássico indie “Swingers” (1996), foi um coadjuvante simpático em outras produções (vide “Eu te amo, cara”) e como cineasta foi responsável pelas duas primeiras partes da franquia “Homem de ferro”. Mas é agora com “Mogli – O menino lobo” (2016) que ele cola o seu nome no imaginário cinematográfico de maneira definitiva. Trata-se de uma das mais felizes conjugações entre inspiração criativa e amplos recursos de grande produção dos últimos tempos. Pode parecer a princípio que seja mais uma maneira de Hollywood ter um lucro fácil em cima de uma história clássica e que já tinha rendido uma versão em animação magnífica pela mesma Disney que banca esse trabalho de Favreau. Ocorre, entretanto, que a obra em questão e uma atualização ousada da obra literária original de Rudyard Kipling, não no sentido de alterar a trama, mas na construção de uma ambientação sombria e visceral, além de personagens de caracterização psicológica mais complexa. Ainda que a beleza plástica da direção de arte e do traço das criaturas digitais impressione pela limpidez e realismo, é fascinante como o filme preserva algo de rústico e sujo em sua concepção visual e mesmo na sua atmosfera. Isso pode ser constatado na violência gráfica dos embates entre os animais e mesmo na caracterização de Mogli (Neel Sethi), que parece um verdadeiro garoto selvagem, nada asséptico e repleto de cicatrizes e manchas de sangue. Favreau também acerta na encenação alucinada e detalhista das sequencias de ação, além de valorizar com sensibilidade as nuances dramáticas do roteiro. É interessante ainda observar que o dilema principal da trama tem um desenlace bem diferente daquele da animação, fazendo com que a figura de Mogli se mostre até mais desafiadora dentro da relação homem e natureza. Diante de todos esses aspectos positivos, dá até vontade que Favreau volte a dirigir um filme da Marvel.

quarta-feira, abril 20, 2016

Fruitvale Station - A última parada, de Ryan Coogler **1/2

Obra de caráter biográfico, que mostra basicamente as últimas 24 horas de vida do ex-presidiário Oscar Grant (Michael B. Jordan) antes dele ser assassinado brutalmente por policiais, “Fruitvale Station – A última parada” (2012) tem uma abordagem narrativa bem coesa e seca, sem recorrer a excessivas apelações sentimentais. É mérito do diretor Ryan Coogler fazer com que a trama, da qual a conclusão já se sabe desde o começo, consiga gerar alguma expectativa e tensão para o espectador, aliado a um estilo de filmar e editar que mostra um certo rigor formal. É inegável também, entretanto, que falta para o filme uma centelha criativa capaz de oferecer alguma transcendência artística. Por vezes, tudo soa muito árido e previsível, sem qualquer cena que mostre algum arroubo criativo. Para aqueles que se impressionaram com o excelente “Creed” (2015), obra mais recente de Coogler, é provável que fiquem decepcionados com esse marasmo de “Fruitvale Station”.

terça-feira, abril 19, 2016

Elles, de Malgorzata Szumowska ***

Pode soar sexista ou sectário dizer que há obras cuja perspectiva existencial indica um autor de determinado gênero. Mas falar isso para um filme como “Elles” (2012) não pode ser considerado um reducionismo. O olhar do filme é feminino no sentido de contestar um ordenamento moral e ético que é típico de uma sociedade patriarcal. Nesse sentido, o trabalho da diretora Malgorzata Szumowska é bastante inquietante na sua formatação narrativa e nos questionamentos sociais que apresenta com sutil ironia. Quando a jornalista Anne (Juliette Binoche) mergulha no mundo das jovens prostitutas universitárias para escrever uma matéria, percebe aos poucos que deverá deixar de lado preceitos maniqueístas e pseudosociológicos para ter uma efetiva noção da real dimensão daquele universo. Com o desenrolar da trama, outros pontos entram em pauta – a subjetividade de cada uma das garotas de programa, a distorção das relações humanas dentro de uma sociedade capitalista baseada na exploração, o papel de submissão e anulação da protagonista dentro da sua própria família. O filme não apresenta soluções prontas ou fáceis para os dilemas que apresenta, e talvez esse nem fosse o seu objetivo. O que interessa para Szumowska é mais uma atmosfera ambígua na dicotomia entre atração e repulsa que aquele novo mundo representa para Anne, estabelecendo um encadeamento de cenas e situações que variam de forma desconcertante entre várias sensações e sentimentos (erotismo, desejos difusos, sordidez, culpa, delírios). O formalismo de “Elles” acompanha essa complexidade temática, tendo uma encenação que tanto se caracteriza em alguns momentos pela leveza sensual quanto por uma pesada solenidade dramática, enquanto a dinâmica da montagem cria um vórtice temporal hipnotizante na variação dos tempos narrativos e ambientações entre o real e o onírico.

segunda-feira, abril 18, 2016

Decisão de risco, de Gavin Hood ***

Boa parte das inovações tecnológicas das quais a sociedade já desfrutou (e ainda desfruta) tem por origem a descoberta para fins militares. Dessa forma, não deixa de ser irônico que aquilo que é usado pela maioria das pessoas como necessidade e prazer teve por fim primordialmente uma letalidade de caráter moral duvidoso. Esse dilema vem à mente quando se assiste à “Decisão de risco” (2015). Em termos temáticos, a obra do diretor Gavin Hood se propõe como uma visão crítica sobre as escolhas éticas a envolver danos colaterais (baixas civis, principalmente) em operações militares no combate ao terrorismo. É louvável nessa reflexão do roteiro do filme que não há uma procura por soluções fáceis e conciliatórias, com uma trama que expõe algumas expressivas nuances políticas e sociais que envolvem decisões sobre a vida e morte dos inimigos do ocidente, permitindo-se ainda até alguns toques irônicos surpreendentes (o general que pouco antes de comandar uma ação de captura está indeciso na compra de uma boneca para a filha ou o fleumático ministro das relações exteriores britânico que toma uma importante decisão militar sentado num vaso sanitário durante um desarranjo intestinal). Por outro lado, Hood demonstra um encanto com todos os brinquedos bélicos que são mostrados ao longo da história, principalmente com drones de multiusos (ataques devastadores, espionagem). Toda essa tecnologia é esmiuçada com um detalhismo esmerado, incorporando-se de forma fluida nas rigorosas encenação e montagem da produção. Nesse sentido, a dinâmica narrativa e o cuidado das composições cênicas fazem lembrar o extraordinário “Falcão negro em perigo” (2001). Ainda que talvez essa ambiguidade entre o olhar crítico sobre a guerra ao terror e a atração imagética pelo aparato militar não tenha sido a intenção inicial de Hood, ela acaba sendo emblemática dos tempos confusos em que vivemos e faz de “Decisão de risco” uma interessante obra a refletir alguns dilemas morais tortuosos contemporâneos.

sexta-feira, abril 15, 2016

Somos o que somos, de Jim Mickle **

O diretor norte-americano Jim Mickle tinha se mostrado como um nome promissor dentro do cinema fantástico quando lançou o ótimo “Stake Land” (2010), obra que combinava de forma eficiente horror e ficção científica. As boas expectativas da produção mencionada, entretanto, não se confirmam em “Somos o que somos” (2013). No filme em questão, o cineasta volta ao gênero terror, buscando uma abordagem dentro mais da tensão psicológica do que no escatológico escancarado. Ocorre que essa atmosfera de suspense nunca se mostra consistente de maneira efetiva. A encenação é rígida e esquemática, e, aliada a um roteiro excessivamente formulaico, faz com que a narrativa nunca engrene. Faltou uma caracterização de personagens e situações menos superficial e um elenco com intepretações mais carismáticas. Mesmo nas sequenciais iniciais, em que predominam as cenas mais sangrentas e explícitas, há uma impressão de estética asséptica e bem comportada. Para uma obra que versa sobre canibalismo e se pretende com um viés de conto gótico, fica a impressão da necessidade de uma maior ousadia formal e temática capaz de gerar para o espectador uma experiência audiovisual memorável e perturbadora.

quinta-feira, abril 14, 2016

Vida cigana, de Emir Kusturica ***1/2

Para aqueles habituados ao padrão artístico do diretor sérvio Emir Kusturica, não haverá grandes surpresas em “Vida cigana” (1988). Está lá a característica combinação de melodrama histórico, crítica social, personagens esquisitos, humor entre o grotesco e o poético, estética exuberante e uma trilha sonora repleta de temas regionais que transitam entre o dançante e o melancólico. Ainda assim, somente um cineasta criativo como Kusturica consegue dar uma liga tão coesa e impactante para tais elementos. A trama que narra a trajetória de um jovem cigano em busca de uma vida melhor pode soar por vezes clichê em algumas de suas soluções. Ocorre, entretanto, que perpassa sempre uma atmosfera de sarcástica ironia a demolir os valores pequenos burgueses da sociedade ocidental, principalmente na relação simbólica que se estabelece entre capitalismo e crime para evidenciar a tênue linha que os separas. Para embalar essa desiludida crônica sobre pequenos marginais e perdedores, Kusturica investe num formalismo que abarca por fezes o viés bufante operístico de Fellini e em outros momentos aquele misto de escrotidão e lirismo do clássico “Feios, sujos e malvados” (1976). Poucos anos depois, Kusturica aperfeiçoou esse particular estilo e entregou a sua obra-prima, “Underground” (1995).

quarta-feira, abril 13, 2016

O movimento, de Benjamin Naishtat ***1/2

Se Alceu Valença realizou uma espécie de inventário emocional e cultural da formatação existencial do sertão nordestino em “A luneta do tempo” (2014), em “O movimento” (2015) o diretor Benjamin Naishtat apresenta a sua visão sombria sobre a estruturação sócio-política da Argentina. Em ambas as obras as narrativas se adaptam dentro de abordagens que buscam uma síntese entre a linguagem naturalista e o viés delirante e estilizado. No caso da produção portenha, essa formatação se expande a partir da utilização de recursos típicos do teatro do absurdo e da evocação estilística dos gêneros do faroeste e do expressionismo alemão. O resultado dessa inusitada combinação de referências é perturbador. A encenação concebida por Naishtat valoriza os diálogos enigmáticos e repletos de estranhas simbologias e uma composição cênica icônica. A direção de fotografia em preto e branco cria uma ambientação sombria digna de um pesadelo na ênfase no uso de jogos de sombras (é extraordinária a forma com que os atores se movimentam dentro de uma densa escuridão, inclusive nas oníricas cavalgadas à noite). O elenco demonstra forte sintonia com as escolhas artísticas de Naishtat, com interpretações que incorporam de maneira fluente maneirismos típicos da vertente anti-naturalista. Todas essas soluções estéticas se mostram como a moldura ideal para um agudo roteiro que disseca de maneira impiedosa a violência e a hipocrisia que acompanharam o desenvolvimento da sociedade argentina, o que fica evidente no genial truque temático da conclusão “O movimento”, quando passado e presente se aproximam como se fossem uma coisa só.

terça-feira, abril 12, 2016

Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg ***1/2

Apesar das tramas pertencerem ao mesmo universo temático, há diferenças gritantes na formatação de “Cloverfield – Monstro” (2008) e “Rua Cloverfield, 10” (2016). Enquanto a primeira produção se vincula a estética da “câmera subjetiva”, com muitas cenas tremidas ou com a ação principal fora de foco, o filme mais recente se vale de uma abordagem estética mais tradicional. E dentro desse aparente convencionalismo, a obra dirigida por Dan Trachtenberg se mostra bem mais satisfatória e memorável. Vale ressaltar que essa preferência por recursos narrativos mais “óbvios” é executada com bastante elegância e precisão. As primeiras tomadas são exemplares dessa tendência – da partida apressada da protagonista Michelle (Mary Elizabeth Winstead) da casa que em que vivia numa metrópole modernosa populosa, passando por sua fuga pelo interior do país e chegando ao abalroamento de seu veículo na estrada, há um senso narrativo admirável, quase que exclusivamente visual e baseado no poder da sugestão, não havendo aquela necessidade de entregar tudo mastigado para o espectador. Quando a ação passa para os espaços reduzidos de um abrigo antiaéreo, em que Michelle é mantida em cativeiro pelo paranoico Howard (John Goodman), a ambientação e o suspense se tornam claustrofóbicos. Trachtenberg consegue dosar de maneira concisa tensão, ironia e violência gráfica, aproveitando muito das possibilidades criativas de um cenário reduzido e sombrio, além de contar com a atuação carismática de Winstead e um desempenho assustador de Goodman (o cara tem a manha para criar tipos psicóticos inesquecíveis, vide “Barton Fink” e “O grande Lebowski”). Durante boa de sua duração, “Rua Cloverfield, 10” se sustenta de forma equilibrada entre o suspense psicológico e a atmosfera de fantasia. Em suas sequências finais, entretanto, descamba para um misto de aventura e ficção científica alucinada, com cenas de ação dirigidas com intensidade e clareza notáveis. Essa oscilação de gêneros pode soar estapafúrdia, mas dentro da formatação criada por Trachtenberg soa natural e convincente, como se fosse uma atualização apaixonada dos trejeitos e maneirismos típicos de antigas produções B.

segunda-feira, abril 11, 2016

A luneta do tempo, de Alceu Valença ***

O cineasta Alceu Valença demonstra sintonia artística e existencial com o músico e compositor Alceu Valença. O longa-metragem ficcional “A luneta do tempo” (2014) pode ser entendido como uma extensão audiovisual das concepções estéticas de suas canções. O filme é um caleidoscópio delirante de ideias misturando faroeste, literatura de cordel, ópera-rock, crítica social e revisionismo histórico. Valença está mais preocupado em dar vazão às suas obsessões temáticas e estilísticas do que se adequar às regras formais cinematográficas. Assim, por vezes, chega a ser incômoda uma certa fuleiragem técnica do filme, principalmente em termos de edição. No final das contas, entretanto, isso acaba sendo um pequeno detalhe diante da encenação criativa e vigorosa da obra, com uma narrativa que não se vincula necessariamente ao realismo, mas sim a uma ambientação onírica e estilizada. Dentro dessa abordagem personalíssima do cineasta, pode-se perceber uma visão profunda e emocional da formação cultural do sertão nordestino, na sua combinação de fatos históricos, lendas e manifestações artísticas. O roteiro sugere um atavismo desconcertante tanto na caracterização dos personagens quanto das situações da trama, e que acaba se revelando bastante coerente ao se relacionar com o presente cenário conturbado político do Brasil (a tragédia que se repete como farsa...). E tudo isso vem sublinhado com uma bela trilha sonora composta e executada por Valença, em que a habitual mistura de regionalismo e influências universais (música árabe e rock) atinge uma síntese sonora impactante.

sexta-feira, abril 08, 2016

Permanência, de Leonardo Lacca **1/2

Há algo de anacrônico que permeia a atmosfera de “Permanência” (2014) de maneira constante. A direção glacial de Leonardo Lacca nunca arrebata o espectador, mas se revela discretamente sedutora pela elegância com que conduz a narrativa, impedindo que a obra caia em excessos sentimentais ou maneirismos formais óbvios. Os dilemas existenciais do protagonista Ivo (Irandhir Santos) não representam novidades ou algo de grande impacto, até porque há muito de sugestivo na encenação proposta por Lacca. Dá para perceber de leve que Ivo traz dentro de si alguma espécie de insatisfação, uma pendência mal resolvida ou mesmo um desconforto com as veleidades da vida pequeno-burguesa. Ao reencontrar um amor do passado, Rita (Rita Carelli), seu silencioso equilíbrio emocional parece se abalar. Nesse pequeno universo, tudo parece ter um ar blasé e distanciado, como se Lacca buscasse uma conexão com as situações e personagens de alguns dos melhores dramas existencialistas de Michelangelo Antonioni. Ainda que o diretor brasileiro não tenha a mesma classe artística do grande mestre do cinema italiano, “Permanência” até consegue ter um curioso encanto em determinadas sequências, principalmente nas cenas que envolvem um conteúdo erótico e na química interpretativa entre Irandhir Santos e Rita Carelli. O estilo passadista da produção por vezes impede que a narrativa efetivamente decole, mas também não deixa de ser um atrativo particular pelo seu caráter referencial.

quinta-feira, abril 07, 2016

A juventude, de Paolo Sorrentino **

É interessante perceber que há uma sintonia existencial e artística entre “A juventude” (2015) e o filme imediatamente anterior do diretor italiano Paolo Sorrentino, “A grande beleza” (2013). Ambas as obras se pretendem como uma espécie de síntese entre reinterpretação, atualização e homenagem a uma série de maneirismos estéticos e temáticos da época áurea do cinema italiano (algo entre as décadas de 50 a 70). Essa abordagem do cineasta se mostra pertinente ao se relacionar com a atualidade, tanto no panorama sócio-político quanto no cenário cinematográfico. A pretensão de Sorrentino é evidenciar em tais produções humanismo e erudição que se mostram cada vez mais ausentes nas relações humanas do mundo contemporâneo, além de adotar uma linguagem formal reflexiva e rebuscada que destaque um cinema distante do padrão frenético de Hollywood. Em “A grande beleza”, tais preceitos resultavam num filme envolvente e repleto de ironia refinada, ainda que no conjunto geral não tivesse o mesmo impacto sensorial de “O divo” (2008), a grande obra-prima de Sorrentino. Em “A juventude”, a aludida fórmula artística desanda de maneira fragorosa. Não que seja um filme ruim – é apenas anódino, sem alma. Por mais que haja uma grande pretensão intelectual nas elocubrações dos personagens, expressivos voos virtuosísticos em algumas soluções formais e um distanciamento emocional cool na atmosfera da produção, nada disso consegue fazer com que a narrativa cative ou encante. As referências culturais realmente são sofisticadas, como a evocação do onirismo de “Oito e meio” (1963) ou o decadentismo elegante de “Morte em Veneza” (1971), além é claro da ambientação remeter diretamente ao grande clássico literário “A montanha mágica”. Falta para Sorrentino, entretanto, a esfuziante criatividade de Fellini ou o senso operístico derramado e por vezes sórdido de Luchino Visconti. “A juventude” se perde em uma plasticidade fotogênica estéril, na redundância dos diálogos e situações do roteiro e na solenidade empostada das interpretações de seu elenco. Em alguns momentos, é até agradável de ver na sua confluência de belos cenários e mulheres bonitas, além da trilha sonora ser efetivamente brilhante. Mas no final das contas acaba sendo muito pouco para um diretor como Sorrentino.

quarta-feira, abril 06, 2016

Casamento grego 2, de Kirk Jone 1/2 (meia estrela)

Noite de 1º de abril de 2016, no teatro do Bourbon Country de Porto Alegre. Elza Soares apresenta com a sua banda o show “A mulher do fim do mundo”. Não é uma apresentação qualquer. Boa parte do público presente difere bastante dos frequentadores habituais do shopping em questão – são jovens vestidos de forma mais desleixada, com cabelos desgrenhados, sem dar muita bola para a grife do momento. Os ânimos estão exaltados, houve uma mudança na questão da meia-entrada para estudantes, e em função disso algumas pessoas têm a entrada barrada ou atrasada por questões burocráticas. Considerando que na noite anterior houve as manifestações contra o impeachment, e que provavelmente um número considerável dos espectadores estiveram lá também (inclusive este que vos escreve), dá para se ter uma ideia do ambiente tenso Antes de começar o show, proliferam gritos de “libera” por parte de vários jovens. Pode-se perceber que algumas senhoras aparentam preocupação, afinal estão lá na esperança de ver com tranquilidade a Elza cantando alguns tradicionais clássicos de Lupicinio Rodrigues. Quando começa efetivamente a performance de Elza, parece que temos a trilha sonora perfeita para essa atmosfera conturbada – uma brilhante síntese de samba, rock torto e ruído, com Elza sentada no trono como uma rainha soturna, a proferir um canto marcado pela sabedoria, ginga e contestação. Melodias sombrias, ritmos quebrados e letras perturbadoras encontram ressonância numa plateia que fica numa zona limite entre hipnotizada e ensandecida.

Dois dias depois, há uma sessão do filme “Casamento grego 2” (2016) em algumas das salas de cinema do mesmo Bourbon Country. As coisas parecem ter voltado ao “normal” no respeitável centro de consumo. Na plateia, senhoras e senhoritas vestidas dentro do seu esmero característico, com seus indefectíveis celulares de ponta sendo acionados a todo momento durante a projeção do filme. Na tela, simplesmente uma das piores produções dos últimos tempos. O diretor Kirk Jones dá a impressão de ter chutado o balde – como se trata de uma sequência de um grande sucesso, dirige de qualquer jeito e sem muitos critérios estéticos. Seu formalismo é uma junção de clichês narrativos de almanaque, o elenco no geral não faz muita força para entregar alguma atuação provida de vigor ou elaboração, o roteiro é um compêndio de imbecilidades e lugares comuns babacas e edificantes, em que idosos são retratados como criaturas fofinhas, o conflito de gerações é reduzido a lições de morais simplórias e os dilemas das mulheres se resumem a encontrar uma boa forma de agradar ao mesmo tempo seus pais e os seus maridos. A cada cinco minutos, o espectador é submetido à alguma cena em que algum personagem discursa lições de vida sublinhadas por uma trilha sonora melosa horrível. Esse conjunto pífio e asqueroso de obviedades e golpes sentimentais apelativos é recebido com ovação pela grande maioria do público. É claro que assim que começam os créditos, todos saem correndo, satisfeitos com essa boa dose de diversão escapista respeitável. É provável que assim que cheguem nos seus carros já tenham até esquecido tudo que viram nas últimas duas horas.


Pode-se achar que fazer um contraponto entre a apresentação abrasiva de Elza Soares e a sessão bem comportada de “Casamento grego 2” seja forçar a barra. Nos tempos tenebrosos em que vivemos, entretanto, em que setores da sociedade defendem um golpe de Estado em nome de valores confusos e questionáveis, as situações aqui descritas acabam sendo bem emblemáticas...

terça-feira, abril 05, 2016

Para minha amada morta, de Aly Muritiba **

Nas primeiras sequências de “Para minha amada morta” (2015), há elementos e indícios promissores para a produção – as premissas do roteiro sugerem caminhos contundentes para a trama, o formalismo apresenta algumas nuances interessantes em termos de atmosfera e tratamento visual, a abordagem narrativa revela uma certa sobriedade. Com o desenrolar da história, entretanto, essas boas impressões iniciais acabam se diluindo de maneira frustrante. O que era para ser tenso e perturbador acaba se configurando apenas como enfadonho. Faltou coragem artística para o diretor Aly Muritiba na forma com que acomoda suas soluções temáticas e estéticas. É claro que é complicado querer dizer como deveriam ser os rumos certos de um roteiro, mas a verdade é que para ter uma coerência existencial nos rumos da trama era necessário que as resoluções fossem mais extremas e menos conciliatórias. Deveria ter mais violência, sexo e sordidez para que os dilemas e contradições do protagonista Fernando (Fernando Alves Pinto) fossem mais palpáveis e efetivamente perturbadores. Mesmo no relacionamento entre os personagens não há uma concisão dramática e um aprofundamento na dinâmica entre eles, ficando tudo num nível muito superficial. A conclusão do filme espelha com fidelidade os rumos oscilantes da abordagem de Muritiba – a decisão de Fernando em deixar tudo para lá podia ter sido tomada logo no início do filme, fazendo com que toda a sua trajetória ao longo da trama pareça sem sentido e inútil, revelando ainda um moralismo incômodo. Se for para se comparar dentro do gênero suspense no âmbito nacional, falta para “Para minha amada morta” a tensão pelo inesperado de “Quando eu era vivo” (2014) e a ambiência de sensualidade exasperada e violência psicológica de “O lobo atrás da porta” (2013), ou seja, características que poderiam tornar o trabalho de Muritiba uma experiência memorável para o expectador.

segunda-feira, abril 04, 2016

A princesa da França, de Matias Piñeiro ***1/2

O diretor argentino Matias Piñeiro volta a usar em “A princesa da França” (2014) maneirismos estéticos e temáticos que já apareciam em obra anterior sua, “Viola” (2012). Só que nessa produção mais recente a impressão é de que ele aprofunda e radicaliza ainda mais a sua insólita proposta artística. A abertura do filme já deixa claro as suas intenções – num belo e longo plano-sequência, é mostrado uma partida de futebol-cinco numa quadra em que duas equipes de cores diferentes vão se tornando um time só. Ou seja, em “A princesa da França” é a vez do surrealismo dar às caras com força considerável. Nesse viés, a narrativa fica fragmentada, com Piñeiro filmando uma mesma situação do roteiro por diversas vezes, sendo que em cada tomada o direcionamento dos fatos é diverso, assim como as próprias atitudes dos personagens. É como se o cineasta burilasse soluções narrativas e ficasse com todas aos mesmo tempo. Tais escolhas formais podem parecem estranhas, mas acabam revelando forte sintonia com outros aspetos característicos da estética de Piñeiro como sua encenação livre e vigorosa, as caracterizações do elenco que primam por uma esquisita síntese entre o nonsense e a profundidade dramática, o cruzamento metalinguístico entre os ensaios de uma peça teatral e a vida pessoal dos seus atores, a direção de fotografia seca e elegante que evoca uma atmosfera quase documental. E talvez ainda resida boa parte da essência artística do cinema de Piñeiro: a impressão de se estar assistindo a um registro beirando o onírico do cotidiano.

sexta-feira, abril 01, 2016

Joe Strummer: O futuro está para ser escrito, de Julien Temple ***1/2

Numa entrevista recente para a televisão, o violonista Yamandu Costa disse algo bem interessante – a de que quando as pessoas supostamente conversavam sobre música com ele, na realidade elas falavam de tudo (fama, dinheiro e afins), menos sobre a música em si. O documentário “Joe Strummer: O futuro está para ser escrito” (2008) tem uma relação forte com esse pensamento de Yamandu. O filme tem como temática a trajetória artística e pessoal do líder da mitológica banda punk The Clash, mostrando os seus anos de formação antes do surgimento da banda, o período de criatividade intensa e grande sucesso comercial de quando o Clash estava na ativa, o longo hiato no ostracismo de Strummer após a dissolução do grupo, a retomada vigorosa da carreira solo e a morte repentina. O documentário não se limita a uma mera amostragem cronológica dos fatos – o diretor Julien Temple tem a bela sacada narrativa de deixar evidente boa parte do lado subjetivo, ideológico e criativo de Strummer, mostrando os dilemas e contradições que moviam a sua inspiração como músico e compositor, além de contextualizar com sensibilidade todo a rica ambientação cultural e social que o envolvia. Muito mais do que resumir a carreira de Strummer a um critério mercadológico e reducionista do quanto ele teve sucesso comercial ou não, Temple oferece um amplo e fascinante panorama do amadurecimento existencial tanto do artista quanto do ser humano, em que fica evidente de maneira pungente o jovem em busca de conhecimento e de uma linguagem artística própria, o indivíduo de ideias políticas radicais e emocionalmente imaturo que se enredeia nas armadilhas do showbusiness, o homem que longe dos holofotes adquire serenidade e sabedoria e o veterano músico que sintetiza suas influências e visões pessoais numa arte atemporal. A formatação criada pelo cineasta tem uma notável sintonia com o particular estilo cultivado por Strummer ao longo dos anos, abusando de colagens e outros truques de edição que dão a impressão de um fervilhante caleidoscópio de imagens e ideiais, intercalando ainda com recursos tradicionais no gênero (entrevistas e imagens de arquivo) e uma espécie de encenação em que amigos e admiradores de Strummer conversam ao redor de uma fogueira. Esse conjunto estético dá à produção uma atmosfera rústica e espontânea, como uma boa e velha canção do Clash.

quinta-feira, março 31, 2016

Cadillac Records, de Darnell Martin **1/2

A história da Chess Records é bastante emblemática da importância e influência da música negra-norte americana no século XX. Entre as décadas de 40 e 60, a gravadora ajudou a lançar nomes fundamentais do blues elétrico e do rock and roll (Muddy Waters, Little Walter, Etta James, Howlin’ Wolf, Chuck Berry), ajudando a tirar tais gêneros do rótulo preconceituoso de “race music” e universalizando seu público. Ao mesmo tempo, entretanto, reproduziu modelos de exploração econômica típicos da época – o dono da gravadora, o judeu branco Leonard Chess (Adrien Brody), ficou com boa parte dos lucros originários da arte de seus principais músicos negros. A complexidade dessa história e o poder cru e selvagem das canções e interpretações de tais artistas não encontram um tratamento de igual profundidade e interesse em “Cadillac Records” (2008). A abordagem do diretor Darnell Martin é superficial e convencional em demasia, com os principais eventos dramáticos da trama tendo uma encenação pouco inspirada e digna de uma novela televisiva. Faltou maiores ousadia e traquejo para conseguir traduzir a música sexy e violentamente rítmica dos músicos da Chess num conjunto imagético igualmente estimulante. Para aqueles que gostam de Waters e companhia e mesmo para outros que desconhecem esse rico acervo de sedutores ritmos e melodias e poderosas interpretações até vale assistir a “Cadillac Records” como um passatempo razoavelmente instrutivo e com alguns momentos prazerosos (mais “por culpa” da matéria bruta musical, diga-se de passagem...). No mais, o filme de Martin dá uma constante impressão de frustração.

quarta-feira, março 30, 2016

Dois disparos, de Martin Rejtman ***1/2

Logo no começo de “Dois disparos” (2014), o jovem Mariano (Rafael Federman) encontra um revólver por acaso ao remexer ferramentas na garagem de sua e como se fosse por mera curiosidade atira duas vezes em si. Sem maiores explicações, sobrevive. A partir dessa premissa, o esperado seria um denso drama a investigar as misérias existenciais do garoto e daqueles que o cercam que o levaram a praticar o ato tresloucado. Só que no universo do diretor argentino Martin Rejtman o direcionamento narrativo e temático parece obedecer a uma lógica bizarra e particular. O evento da tentativa de suicídio de Mariano desencadeia uma sucessão de fatos aleatórios, quase desconexos, em que o foco da trama a todo momento se desvia para caminhos estranhos e por vezes encharcados de um humor esquizoide. As regras tradicionais de um roteiro “arredondado” a todo momentos são subvertidas em nome de soluções criativas desconcertantes. Além disso, Rejtman cria uma constante atmosfera de distanciamento emocional perturbador, em que os personagens demonstram em diálogos, expressões e gestos uma apatia irônica em suas interações sociais. Nessa conjunção de insólitos maneirismos estéticos e narrativos resulta uma obra marcada por um extraordinário teor surrealista e também uma corrosiva e sutil crítica aos costumes pequeno burgueses, algo entre o ascetismo formal de Bresson e o onirismo sarcástico de Buñuel.

terça-feira, março 29, 2016

Batman vs Superman - A origem da justiça, de Zack Snyder *1/2

Assim como em outras adaptações para as telas de obras dos quadrinhos dirigidas por Zack Snyder, a impressão que se tem ao se assistir à “Batman vs Superman – A origem da justiça” (2016) é a de alguém que nunca leu uma HQ na vida, folheou apressadamente algumas histórias clássicas e emblemáticas do gênero e socou de qualquer jeito citações e referências do material que leu dentro de um roteiro. Por vezes, até dá para perceber algumas boas ideias absorvidas nessa pesquisa, mas quase todas elas não são muito mal aproveitadas e executadas. Não se trata apenas de uma questão de ter uma fidelidade ipsis literis na transposição daquilo que está nos quadrinhos para uma produção cinematográfica, mas simplesmente entender aquilo que torna único e carismático toda uma série de personagens e mesmo o contexto que os envolvem, ou seja, aquilo que os torna atraente de maneira perene por todas essas décadas de existência. Por mais que Snyder queira dar uma aura adulta e profunda dentro de sua abordagem pretensamente sombria e solene, a caracterização de personagens e situações é rasteira e de pouca densidade psicológica, caindo por vezes no francamente ridículo (nesse sentido, tudo em “Batman vs Superman” é tão grotesco que em alguns momentos a obra consegue até ser divertida...). Dessa forma, Batman (Ben Affleck) fica reduzido a um brutamontes impulsivo e francamente homicida, Superman (Cavill) é destituído de carisma e Lex Luthor (Jesse Eisenberg) é apenas um garoto debilóide e mimado. Já o roteiro é um cozido mal ajambrado de chupações sem critérios de sagas marcantes das HQs como “O cavaleiro das trevas” e “A morte de Superman”. Para compensar essa falta de consistência existencial, Snyder usa e abusa de explosões e porradarias diversas, mas tudo dirigido de forma tão genérica e despersonalizada que faz com que praticamente nenhuma cena traga algo de memorável para o imaginário do espectador. Do jeito que ficou, “Batman vs Superman” parece ser apenas um mero pretexto mercadológico para que no futuro saia um filme da Liga da Justiça (afinal, como explicar as participações estapafúrdias de Flash e Ciborgue na trama?). Quem sabe até lá Snyder tenha uma epifania e aprenda a dirigir um filme. Ou mesmo o estúdio tenha alguma iluminação e bote um cineasta com algum talento para se responsabilizar pela produção.

segunda-feira, março 28, 2016

O regresso, de Alejandro González Iñarritu ***

A sequência de abertura de “O regresso” (2015) é promissora – com edição de poucos cortes e encenação vigorosa, o diretor mexicano Alejandro González Iñarritu concebe tomadas de ação alucinada ao retratar uma batalha entre caçadores de pele e índios no interior selvagem dos Estados Unidos na primeira metade do século XIX. Se Iñarritu mantivesse seu filme nessa levada, haveria a forte possibilidade de se ter uma obra antológica no gênero aventura. Mas para as pretensões artísticas do cineasta em questão, talvez isso fosse muito pouco... O fato é que a narrativa do filme envereda em vários momentos por uma atmosfera reflexiva, por vezes até caindo no metafísico. E assim, dá-lhe tomadas com personagens olhando para o horizonte, narração em off de texto pretensamente poético, estética new age em algumas tomadas. Essa conjugação entre aventura de época e drama existencial não chega a ser exatamente uma novidade, vide, por exemplo, o extraordinário “O novo mundo” (2005). Ocorre, entretanto, que Iñarritu se mostra bem longe de atingir o equilíbrio formal e temático que Terrence Mallick obteve em sua mencionada obra. “O regresso” parece muito mais refletir uma espécie de indecisão criativa de seu criador entre o faroeste naturalista casca grossa e o épico existencialista, fazendo com que o casamento entre esses dois polos narrativo não atinja um ponto de fluidez satisfatório. Mesmo o fato da longa duração da produção não implica necessariamente em uma caracterização psicológica mais aguda de personagens e situações. Nesse sentido, os momentos em que se manifestam os delírios e devaneios oníricos do protagonista Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) são apenas enfadonhos e marcados por um simbolismo raso. A verdade é que “O regresso” mostra a que veio quando Iñarritu deixa o cerebralismo fajuto de lado e envereda em boas cenas de tiroteios, perseguições a cavalo e brutais duelos com facas e machadinhas, chegando até a fazer lembrar trabalhos marcantes no gênero como “O último dos moicanos” (1992) ou “Apocalypto” (2006).

quinta-feira, março 24, 2016

American Hardcore, de Paul Rachman ***

A estrutura narrativa de “American Hardcore” (2006) é básica como os poucos acordes que marcaram algumas das melhores canções do gênero musical ao qual radiografa. Para contar a história da cena dessa vertente do punk rock no período de 1980 a 1986, o diretor Paul Rachman se utilizou da velha combinação de depoimentos dos principais envolvidos no movimento com várias imagens de arquivos. Ok, não há grandes ousadias e inovações em tal estética, mas o fascinante contexto histórico e cultural que é focado e a paixão de Rachman e seus entrevistados em tratar do hardcore, assim como a maravilhosa música que há todo momento invade a tela, tornam esse documentário essencial e tremendamente divertido para quem tem interesse por contracultura e rock underground em geral. O hardcore norte-americano da primeira metade dos anos 80 foi ingrediente fundamental no rol de influências que ajudaram a fundamentar boa parte daquilo que os Estados Unidos tiveram de melhor em seu cenário musical nos anos seguintes até os dias de hoje, não só no aspecto musical como também na própria formatação de um cenário de pequenas e eficientes gravadoras independentes e um circuito de clubes e casas de shows fora da megalomania comercial de grandes arenas e estádios. Essa combinação entre selos e locais para tocar foi primordial para a divulgação de um produto cultural marcado pela radicalidade e desafio às instituições e costumes reacionários. E tudo isso numa época que marcava o renascimento com força total do conservadorismo político, econômico, social e cultural da Era Reagan. “American Hardcore” consegue captar essa atmosfera de conflito de maneira didática e empolgante, compondo um mosaico complexo e instigante de uma época. Talvez haja gente que não se interesse tanto pelo assunto em questão e ache o documentário de Rachman dispensável, mas provavelmente é aquele tipinho que acha o Maroon 5 o máximo em termos de rock ou o hipócrita travestido de revoltado que deseja a queda sem fundamentos legais e morais de um governo legítimo e voltado para questões sociais.

quarta-feira, março 23, 2016

Zootopia, de Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush ***1/2

Pelo menos em termos temáticas, as animações dos Estúdios Disney têm se mostrado diversificadas, conforme pôde ser visto em tramas versando sobre mitologia vodu (“A princesa e o sapo”), recriação de fábulas clássicas (“Enrolados”), homenagem/ironia com o universo dos video games (“Detona Ralph”), reconfigurações de princesas e príncipes (“Frozen”) e absorção de elementos de mangás e animes (“Operação Big Boy”). E com o importante detalhe de sempre preservar uma expressiva qualidade narrativa e estética que os coloca junto a filmes da Pixar num patamar diferenciado no gênero. Em “Zootopia” (2016), tanto esse padrão de qualidade quanto a escolha de uma temática insólita permanecem de maneira expressiva. Essa nova produção apresenta uma contundente síntese de personagens antropomorfizados, roteiro evocando elementos de cinema noir e sutil crítica social e comportamental, e de todas as produções recentes citadas da Disney talvez seja aquela que tenha uma abordagem mais universal na capacidade de agradar conjuntamente crianças e adultos (e sem precisar apelar para psicologismos de araque e autoexplicativos de “Divertida mente”). Além disso, o grafismo de “Zootopia” é espetacular na combinação entre uma estilização de conceituação visual “fofinha” e toques de animação realista, conseguindo configurar uma ambientação bastante particular no seu detalhismo cênico. Toda essa abordagem formal se mostra em fina sintonia com uma trama com ares de sofisticação na caracterização dramática de seus principais personagens e nos desdobres da história, especialmente em nuances de dilemas e conflitos que evocam questões espinhosas como preconceito e determinismo social. Há também as doses certas de sequências ação bem dirigidas e as citações culturais bem humoradas que dão aquele caráter de narrativa envolvente para a produção.

terça-feira, março 22, 2016

Jimmy's Hall, de Ken Loach ***

Há filmes que na mão de um diretor qualquer seriam obras medíocres e esquecíveis, mas que sob a batuta de um cineasta diferenciado acabam ganhando uma dimensão artística bem maior. Esse é bem o caso de “Jimmy’s Hall” (2014), produção que foca a história de um homem que volta para a sua cidadezinha no interior da Irlanda, abre um salão de diversão e conscientização política e desperta a ira das conservadoras autoridades do local, principalmente de setores da igreja católica. A estrutura narrativa é convencional e os desdobramentos do roteiro obedecem a uma ordem tradicional dentro de um gênero misto de melodrama e crítica sócio-política. Só que quem está por trás das câmeras é Ken Loach, para quem esse tipo de trama é quase inerente ao seu estilo. Ainda que “Jimmy’s Hall” não represente um dos pontos altos da carreira de Loach, estão lá aquelas habituais características formais e temáticas tão caras ao veterano diretor britânico e que ainda se mostram capazes de cativar o público – a envolvente fluência narrativa, a caracterização carismática dos personagens, o roteiro enxuto e de visão ácida sobre as autoridades opressoras, a encenação vigorosa que transcende qualquer tipo de clichê. Dentro dessa abordagem, mesmo sequências previsíveis em suas nuances ganham arrepiante força dramática. E em tempos conturbados como o que vivemos tanto no Brasil como no resto do mundo, onde velhas e tenebrosas ideias reacionárias ganham ares de novidades e vários adeptos, “Jimmy’s Hall” acaba se mostrando ainda pertinente e desafiador na sua contundente crítica ao poder repressor de determinadas alas da sociedade.

segunda-feira, março 21, 2016

Cemitério do esplendor, de Apichatpong Weerasethakul ***1/2

A filmografia do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul revela uma insólita coerência em suas concepções artísticas. Seus filmes se vinculam ao gênero fantástico, mas são quase que completamente destituídos dos clichês narrativos habituais a tais produções. De forma rara o cineasta se vale de algum efeito especial, fazendo com que as suas histórias versando sobre lendas e fantasmas se desenvolvam dentro de um formato naturalista, com direito inclusive a uma encenação que evoca o documental na sua crueza de caracterização de personagens e situações. O elemento fantástico se insere de forma fluente, como se fosse intrínseco àquele universo. Nesse conjunto de aparentes contrastes, resulta obras de rara beleza visual, narrativa poética e atmosferas hipnóticas no seu minimalismo. “Cemitério do esplendor” (2015) é um exemplar expressivo desse peculiar estilo de Weerasethakul. É provável que seja o menos hermético de seus trabalhos – ainda assim, não há concessões na sua abordagem que dispensa truques óbvios e baratos para contar a trama de soldados narcolépticos que são possuídos por antigos espíritos de guerreiros. Não há a necessidade de ambientações épicas ou reviravoltas dramáticas de roteiro. Mesmo quando o aspecto emocional se manifesta com mais força, é sempre dentro de limites sutis que impedem que se caia no sentimentalismo excessivo. A narrativa flui dentro de um misto de serenidade e estranheza, prevalecendo planos-sequência que desconcertam nas mínimas variações de nuances imagéticas. Numa impressão geral, é como se espectador entrasse dentro de um registro cotidiano de uma fábula ou de um sonho. Nessa síntese entre a casualidade e o fantástico reside a grande força criativa de “Cemitério do esplendor”.

sexta-feira, março 18, 2016

Operação invasão 2, de Gareth Edwards ****

Para aqueles que tem aversão por sequências, continuações e afins, um aviso logo de cara: assistir ou não ao primeiro “Operação Invasão” (2011) é praticamente irrelevante para se entender a trama dessa segunda parte (o único senão é que quem não assistiu ao primeiro filme está perdendo um belo exemplar do gênero ação/policial), pois em qualquer uma das duas produções o roteiro não é exatamente o maior atrativo. Não que se tenha uma história ruim – em “Operação invasão 2” (2014) a história até que é bem convincente em seus desdobramentos e serve como um bom complemento para aquilo que realmente interessa na obra em questão, ou seja, a narrativa alucinada e sequências de ação dirigidas com um extremo esmero gráfico. O diretor britânico Gareth Edwards se supera em relação ao primeiro filme no sentido de diversidade e virtuosismo estéticos. As cenas de porradaria, perseguições e tiroteios apresentam coreografia e encenação que beiram o surreal tanto no seu detalhismo cênico quanto na precisão dos movimentos. A direção de fotografia capta esse frenesi visual sem apelar para os maneirismos contemporâneos do gênero (câmera tremendo ou fora de foco, iluminação difusa), fazendo com que posse perceber cada nuance no desenvolvimento da ação. Contribui também para o resultado imagético explosivo de “Operação invasão 2” o fato de ser uma produção fora do âmbito dos grandes estúdios norte-americanos, fazendo que a violência explícita seja muito mais acentuada e chocante. Se entre a primeira e a segunda parte houve toda essa evolução artística, é de se até imaginar como seria algumas eventuais continuações...

quinta-feira, março 17, 2016

Tenebre, de Dario Argento ***

É evidente que “Tenebre” (1982) é uma obra menor dentro da filmografia do cineasta italiano Dario Argento. Depois de um período em que enveredou na vertente do horror sobrenatural (e que rendeu trabalhos excepcionais como “Suspiria” e “Mansão do inferno”), o cineasta voltou para os preceitos narrativos típicos do gênero giallo que havia ajudado a consagrar em obras-primas como “O pássaro das plumas de cristal” (1970) e “Prelúdio para matar” (1975). Ainda que não alcance a mesma dimensão artística das obras mencionadas, “Tenebre” tem um resultado final expressivo e memorável, principalmente devido aos momentos em que os habituais barroquismos visuais de Argento se afloram com mais intensidade, tanto no grafismo violento e delirante quanto numa certa atmosfera de sordidez, o que acaba compensando uma narrativa trôpega e irregular.

quarta-feira, março 16, 2016

É o amor, de Paul Vecchiali ***

A equação artística de “É o amor” (2015) obedece a uma lógica muito particular do diretor francês Paul Vecchiali. Alguns elementos básicos da narrativa até obedecem a uma concepção realista, mas aos poucos eles se desvanecem em nome de uma encenação entre o delirante e o estilizado ao extremo. Literatura e teatro se incorporam dentro desse insólito método com uma estranha naturalidade, fazendo com que por vezes uma mesma ação seja reinterpretada para enfatizar um subjetivismo poético e exasperado. Dentro de tais concepções, a obra de Vecchiali evoca referências cinematográficas passadistas, que nos últimos tempos até pareciam um tanto distantes, como coreografias desajeitadas que lembram velhos musicais, uma aura sombria e melancólica que se associam a filmes de horror psicológico de algumas décadas atrás, trejeitos formais típicos da Nouvelle Vague. Esse caldo de influências acentua uma ambígua visão estética e temática, em que uma atmosfera de exagerado romantismo convive com uma ótica bastante amarga sobre as relações amorosas. Para embarcar nessa viagem sensorial de “É o amor”, o espectador tem de se desgarrar um pouco de clichês e fórmulas usuais, mas por vezes essa experiência pode ser gratificante diante da sensibilidade e criatividade à flor-da-pele de Vecchiali.

terça-feira, março 15, 2016

Labirinto de mentiras, de Giulio Ricciarelli *

Recentemente, o cineasta britânico Peter Greenaway deu uma declaração bem contundente sobre o atual estado criativo do cinema: “o cinema está exausto de si”. Por mais que tal afirmação possa ser polêmica ou discutível, ao se assistir a uma obra como “Labirinto de mentiras” (2014) dá para entender o desencanto de Greenaway, pois o filme em questão do diretor Giulio Ricciarelli é de uma irrelevância artística espantosa. Clichês narrativos são jogados em cena de forma nada imaginativa – não há uma única sequência que sugira alguma transcendência estética ou mesmo temática. A encenação é engessada e artificial em excesso, faltando profundidade e alguma verdade na caracterização de situações e personagens. O fato da temática se relacionar ao Holocausto é usado como uma espécie de carta branca para Ricciarelli a lhe dar uma pretensa legitimidade para não ousar um milímetro sequer no seu formalismo dolorosamente óbvio. Na cabeça do diretor, é provável que passe a ideia de que em produções sobre a 2ª Guerra Mundial não é possível injetar vigor e criatividade, devendo prevalecer uma equivocada e hipócrita abordagem solene e maniqueísta sobre os fatos históricos. A precisa ação alucinada de “O resgate do soldado Ryan” (1998), a ironia perversa de “Bastardos inglórios” (2009) e mesmo o elegante humanismo de “Diplomacia” (2014) são desmentidos enfáticos das concepções conformistas e medíocres de “Labirinto de mentiras”.

segunda-feira, março 14, 2016

O abraço da serpente, de Ciro Guerra ***1/2

O protagonista efetivo de “O abraço da serpente” (2015) é o índio Karakamate, com a trama do filme mostrando tal personagem em dois momentos distintos de sua vida. Assim, a real perspectiva do que se vê em tela é de tal indivíduo. Ocorre que essa ótica particular também acaba se refletindo na própria narrativa da obra, em um sentido que a lógica indígena altera alguns dos elementos tradicionais da linguagem cinematográfica, principalmente no que diz respeito ao gênero aventura. A evolução do roteiro até obedece a alguns limites conhecidos, em que o desenrolar dos fatos implica numa evolução que esclarece as motivações obscuras dos personagens e situações da história. O que diferencia, entretanto, é que a dinâmica narrativa se torna mais reflexiva, ligada a simbologia e metáforas fascinantes em seus significados e profundidade. O formalismo concebido pelo diretor colombiano Ciro Guerra está em forte sintonia com essa visão existencial, fazendo com que os elementos estéticos se combinem com notável coerência – a fotografia em preto e branco remete a uma atmosfera de mistério, a edição precisa e serena evoca um ambiente de conto atemporal, a trilha sonora é econômica e marcante ao sublinhar as cenas com temas que entrelaçam regionalismo e leves dissonâncias. Mesmo o ponto nevrálgico da temática da trama, o conflito entre valores ocidentais contra o ideário indígena e a força da natureza, encontra algo de inusitado, pois ao invés daquele retrato de uma floresta amazônica como um inferno verde para o homem branco, o que se tem é um meio em desequilíbrio pela inserção dos valores cristãos-capitalistas dentro de um ambiente marcado pela relação simbiótica entre humanidade e natureza. São nessas pontuais e sutis transgressões artísticas que “O abraço da serpente” se mostra como um trabalho instigante e memorável.

sexta-feira, março 11, 2016

A bruxa, de Robert Eggers ****

Se a “Corrente do mal” (2014) fez uma espécie de recriação radical dos clichês do horror moderno, “A bruxa” (2015) vai ainda mais fundo em suas intenções artísticas – a obra dirigida pelo norte-americano Robert Eggers é alienígena em relação a quase todos os preceitos contemporâneos do gênero em questão. Pega-se conceitos básicos como a existência de entidades e criaturas maléficas e sobrenaturais, uma floresta sombria, vítimas isoladas em um lugar ermo, algumas sequências sangrentas. Tais elementos, entretanto, são apenas o ponto de partida para a construção de um conto gótico mais propenso a desfiar uma simbologia complexa e fascinante do que a instigar sustos fáceis no público. A própria parte estética já diz muito dessa abordagem da produção, em nuances diferenciadas como a fotografia de tons esmaecidos, a direção de arte na sua síntese de rigor e ascetismo visuais, a edição de poucos e elegantes cortes. A encenação criada por Eggers é extraordinária em termos de atmosfera e caracterização de situações e personagens, combinando solenidade irônica e sutilezas psicológicas. Com o desenvolvimento da trama, o padrão tradicional de “luta do bem contra o mal” vai se esvanecendo em nome de um retrato atávico da relação conflituosa do homem com a natureza e também de uma sarcástica visão crítica sobre o patriarcalismo e a repressão religiosa. Nesse contexto, o verdadeiro horror não está nas ações da bruxa do título ou na conspiração silenciosa dos animais, mas sim no enlouquecido fundamentalismo cristão familiar que oprime a jovem Thomasin (Anya Taylor Joy). Dentro dessa lógica, a história avança de forma inexorável e com uma desconcertante coerência existencial. Nesse sentido, por exemplo, é antológica a sequência em que o garoto Caleb (Harvey Scrimshaw), um pobre coitado cheio de desejos incestuosos para com Thomasin, se embrenha na floresta e acaba aos pés de uma belíssima feiticeira nua que o beija. E em sua conclusão, no diálogo entre Thomasin e o melífluo Black Phillip (o bode mais carismático da história recente do cinema) e na sua literal e dionisíaca ascensão, “A bruxa” se configura em definitivo como uma das obras mais libertárias a surgir nas telas nos últimos anos.

quinta-feira, março 10, 2016

Tangerine, de Sean Baker ***

Alguns aspectos insólitos da concepção de “Tangerine” (2015) têm feito com que essa produção norte-americana dirigida por Sean Baker seja mais encarada como uma curiosidade do que uma obra efetivamente instigante. Comenta-se bastante o fato de ser protagonizado por dois travestis, fala-se também da questão de ter sido filmada com aparelhos iPhones. Ocorre, entretanto, que o filme acaba transcendendo o status de mera excentricidade por méritos artísticos bem contundentes. As escolhas formais e temáticas acima mencionadas não se revelam gratuitas e se integram com naturalidade dentro de uma proposta muito bem definida por parte de Baker. As tomadas gravadas por celulares podem por vezes dar um caráter rústico para a produção, mas aos poucos o olhar do espectador vai se acostumando com essa plasticidade crua e que dá à narrativa uma atmosfera que alterna com sensibilidade entre o sórdido e o encantamento. A forma com que tal direção de fotografia “suja” e compacta se casa com uma trilha sonora de temas dançantes e eletrônicos frenéticos oferece uma ambientação perturbadora e cativante, dando uma cara genuína e crível para a encenação vigorosa tramada por Baker. Nesse sentido, o desempenho dos travestis Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor nos papéis principais são marcantes nas variações entre o histrionismo e a sutileza dramática e complementam com notável coerência a própria formatação estética e existencial de “Tangerine”, algo como uma tradicional comédia de erros recriada sob uma ótica pós-moderna a refletir um fascinante mundo em desiquilíbrio.

quarta-feira, março 09, 2016

A floresta de Jonathas, de Sergio Andrade **1/2

Retratar a floresta amazônica como um personagem próprio e também como uma espécie de impenetrável inferno verde não é das tarefas mais fáceis. Boa parte dos cineastas que tentou essa abordagem acabou se dando mal. Hector Babenco conseguiu um resultado memorável dentro desse intento artístico no extraordinário “Brincando nos campos do senhor” (1991). “A floresta de Jonathas” (2012) até mostra algumas concepções interessantes, assim como algumas sequências expressivas em termos imagético e de atmosfera. O diretor Sergio Andrade procurou criar uma narrativa rarefeita, com encenação e edição remetendo a um tom mais reflexivo, além de roteiro trazer uma forte carga de simbologias em seus desdobramentos. A direção fotografia conseguiu em algumas cenas captar com sensibilidade a beleza entre o assustador e o deslumbrante dos cenários verdejantes do interior da Amazônia. Se nesses detalhes estéticos a produção de Andrade consegue mostrar lampejos de criatividade, por outro lado falta para o cineasta uma condução narrativa mais rigorosa e capaz de envolver o espectador com mais constância, coisa que, por exemplo, o referido trabalho dirigido por Babenco tinha de sobra.

terça-feira, março 08, 2016

A paixão de JL, de Carlos Nader ***1/2

O diretor Carlos Nader reforça em “A paixão de JL” (2014) uma concepção muito particular em relação à pratica do cinema documental que já havia ficado bastante latente em “Homem comum” (2014). Roteiro e narrativa parecem obedecer a uma lógica espontânea e aparentemente aleatória, mas que aos poucos vai revelando uma estranha e fascinante coerência artística e existencial. Os elementos dramáticos e formais se entrelaçam a partir de um método marcado por um olhar impressionista – no caso de “A paixão de JL”, essa preponderância pelo subjetivismo fica evidente a partir da própria estrutura narrativa da obra, em que toda a encenação se fundamenta em torno das gravações em fitas cassetes dos depoimentos verbais do artista plástico José Leonilson, que morreu em 1993 devido a complicações decorrentes do fato de ser portador do HIV. A dinâmica audiovisual construída por Nader para adequar esse diário oral dentro de uma linguagem cinematográfica é baseada em escolhas estéticas simples e bastante eficientes. O cineasta recorre a trechos de filmes mencionados por Leonilson em seus depoimentos, passagens documentais de eventos históricos que contextualizam a época das gravações originais e imagens de algumas das principais obras do biografado. Além disso, a produção se utiliza de criativas construções imagéticas que emulam os sonhos e delírios descritos por seu protagonista. O resultado final é um memorável épico intimista, uma espécie de jornada dentro da mente de um indivíduo repleta de criatividade e desejos, mas que sucumbe perante a progressiva decadência física acarretada pela AIDS. A contundente síntese entre formalismo imaginativo, abordagem emocional à flor-da-pele e sutil observação sócio-política coloca “A paixão de JL” como uma espécie de gêmeo artístico do extraordinário “Elena” (2012), mostrando uma vertente no cinema brasileiro que cada vez mais se afasta das fórmulas previsíveis e despersonalizadas destinadas a agradar as grandes plateias, em nome de caminhos mais contundentes e memoráveis.

segunda-feira, março 07, 2016

Ela volta na quinta, de André Novais de Oliveira ***1/2

Nos últimos anos, há uma vertente no cinema brasileiro que enveredou por caminhos artísticos mais ousados e radicais tanto na concepção quanto na sua execução. Esse radicalismo não estaria concentrado necessariamente no hermetismo da narrativa, mas sim na utilização de meios e recursos que fogem daqueles que normalmente são usados na grande maioria das produções. “Ela volta na quinta” (2014) é um reflexo dessa tendência forte em algumas obras nacionais. O diretor André Novais de Oliveira criou uma trama baseado em experiências cotidianas, em que os desdobres do roteiro obedecem a uma lógica natural e de caráter humanista. Dentro desse espírito temático, suas escolhas formais revelam uma desconcertante e notável coerência. Tendo parentes, amigos e conhecidos como intérpretes de seu pequeno drama familiar, Novais de Oliveira cria um conto moral repleto de expressiva carga simbólica. Mesmo que seus atores sejam amadores, ele consegue criar uma encenação cativante através de pequenos gestos, diálogos prosaicos e expressões que se alternam entre a melancolia e a resignação. O cineasta tem notável senso imagético – a direção de fotografia apresenta uma eficiente combinação entre simplicidade e requinte visuais, principalmente em seus expressivos planos-sequência fixos.


Há um momento muito revelador das intenções estéticas do diretor em “Ela volta na quinta”, que é a sequência em que os irmãos André e Renato Novais de Oliveira ficam assistindo a montagens de vídeos no Youtube, em que o primeiro disseca alguns truques de edição e mostra os resultados cômicos para o irmão. É como se o cineasta deixasse claro um dos principais fundamentos artísticos do seu filme, que é o de incorporar à encenação trechos documentais e mesmo o reaproveitamento de temas musicais já existentes. Esse jeito guerrilheiro de fazer cinema cria uma atmosfera visceral e cativante para o espectador, tornando-o ainda mais cúmplice de uma história que dispensa apelações emocionais e simplesmente investe na crueza e na verdade das sensações e sentimentos humanos.

quinta-feira, março 03, 2016

Cinco graças, de Deniz Gamze Ergüven ***1/2

Seria muito fácil enquadrar “Cinco graças” (2015) naquele escaninho de obras a retratar o difícil cotidiano das mulheres em países dominados pelo fundamentalismo religioso islâmico. Tal vertente praticamente se tornou um gênero em si nos últimos anos, e em boa parte dessas produções o valor político e social é bem mais preponderante do que o valor artístico delas. Ocorre que a obra da diretora Deniz Gamze Ergüven tem uma abrangência bem mais ampla do que esse reducionismo. Para começar, trata-se de um filme de admirável acabamento estético e narrativo. Os planos iniciais logo de cara já mostram que se trata de um trabalho diferenciado – é uma encenação sedutora, enfatizando muito o aspecto sensorial, principalmente na questão com que lida com a sensibilidade feminina diante de uma situação de repressão moral. Nesse sentido, a sequência em que as cinco irmãs tomam banho no mar e brincam com alguns garotos é antológica na sua fluência e carga simbólica imagética, em que nenhum momento se nega a sensualidade inerente delas em nome de uma “inocência” maniqueísta. Pelo contrário: é uma visão bastante desafiadora ao enfatizar o direito de exercer a sua sexualidade da maneira como bem entender. Talvez o aspecto mais fascinante da abordagem de Ergüven é justamente como ela faz conciliar com naturalidade e de maneira intrínseca essa visão conceitual de mundo com um formalismo sofisticado repleto de nuances estéticas (ainda que por vezes o roteiro tenha algumas concessões previsíveis), fazendo com que “Cinco graças” tenha um alcance universal muito maior que a simples crítica ao fundamentalismo islâmico. Na verdade, é um contundente libelo pela liberdade comportamental diante de qualquer ortodoxia religiosa, independente de ser de matiz oriental ou ocidental.

quarta-feira, março 02, 2016

A vizinhança do tigre, de Affonso Uchoa ****

É provável que ainda por um bom tempo uma obra como “A vizinhança do tigre” (2014) cause controvérsia pela sua natureza artística, a exemplo de filmes como “Serras da desordem” (2006) e “Castanha” (2014). Na realidade, a estrutura narrativa de tais produções é até simples – a partir de experiências reais de determinados indivíduos, cria-se uma história que é encenada por essas mesmas pessoas, com alguns maneirismos estéticos remetendo a influências de cinema documental. Diante do resultado final, críticos, teóricos e público acabam se questionando se aquilo é documentário, ficção ou algum híbrido. No final das contas, entretanto, tal discussão acaba até mostrando estéril, pois o que realmente importa é o fato de como tais trabalhos são capazes de envolver a plateia. E nesse sentido, o filme do diretor Affonso Uchoa é um tremendo trunfo artístico. Ao retratar parte do cotidiano de garotos da periferia da cidade mineira de Contagem, o cineasta mostra um universo ambíguo, entre o fascinante e o assustador. A trama que surge nas telas vai se formando ao natural, como se por instinto, sem apelações forçadas de sentimentalismo. Para Uchoa, importa muito mais captar determinadas atmosferas e sensações do que amarrar pontas de um roteiro. Assim, valoriza-se a dinâmica entre os personagens de brincadeiras, conversas, cantorias, caminhadas pela noite, bicos de trabalhos, drogas (a sequência em que Menor fuma crack em casa é antológica na sua ambientação de paranoia e melancolia). A encenação é extraordinária na sua naturalidade e fluência, com Uchoa extraindo desempenhos expressivos de seus garotos atores. Aliado a isso, há um rigor estético notável em termos de direção de fotografia, com belíssimos planos que tanto realçam a lúgubre paisagem urbana quanto um insólito bucolismo de matos e árvores. Enquanto Guilherme Fontes desperdiçou uma rica infraestrutura de produção pela sua incompetência narrativa em “Chatô” (2015), Uchoa mostra em “A vizinhança do tigre” uma forte criatividade e domínio formal no uso de uma gama de recursos materiais bem menor, criando um cinematográfico conto humano complexo e poético.

terça-feira, março 01, 2016

Chatô, de Guilherme Fontes 1/2 (meia estrela)

O que vai se fazer na presente resenha não é um exercício jornalístico, procurando informar fatos sobre “Chatô” (2015), mas sim a impressão sensorial daquele que escreve sobre o filme. Dito isso, a percepção que se tem após o final da produção é que o diretor Guilherme Fontes havia elaborado inicialmente uma narrativa linear e tradicional a expor os principais eventos da vida de seu biografado, Assis Chateaubriand, dono de um dos maiores impérios de imprensa da história do Brasil e figura extremamente polêmica na trajetória política do país. Ao constatar a fragilidade formal de sua obra, Fontes inseriu sequências entre o onírico e o delirante, remetendo bastante ao clássico musical “O show deve continuar” (1979). Ocorre, entretanto, que Fontes não é Bob Fosse e o resultado final de “Chatô” é uma deplorável mixórdia estética e temática. A pretensa formatação farsesca parece mais uma desculpa para a incapacidade do diretor em obter dinâmica narrativa e concepção visual aceitáveis. Tudo dá errado no filme: encenação truncada beirando o amador, direção de arte qualquer nota, fotografia sem qualquer rigor imagético, elenco de interpretações que oscilam entre o over irritante e o piloto automático, edição desengonçada, roteiro que simplifica banalmente complexas situações históricas e reduz importantes personagens a caricaturas. Ou seja, não é prazeroso ou mesmo inquietante assistir à produção, e nem como registro histórico relevante “Chatô” se presta. O desastre do conjunto artístico geral faz entender por quê Fontes demorou tanto para lançar tal trabalho – estava com vergonha do abacaxi que tinha em mãos. No final das contas, o melhor mesmo é ficar com a sensacional biografia de Chateaubriand escrita por Fernando Morais, essa sim uma obra memorável sobre a figura em questão.