Depois de recriar o gênero suspense de maneira bastante
peculiar no brilhante “O estranho do lago” (2012), o diretor francês Alain
Guiraudie monta uma narrativa idiossincrática e fascinante em “Na vertical”
(2016). O cineasta parece buscar inspiração na encenação crua e libertária de
Pasolini e nas atmosferas delirantes e sardônicas dos melhores trabalhos de
Luis Buñuel, com um resultado final que está muito longe do derivativo. Por
vezes, até se tem a impressão de se estar assistindo a uma espécie de conto
moral distorcido e que se desenvolve por uma lógica temática-formal muito
particular. Ao mesmo tempo, cada nuance imagética da austera direção de
fotografia, a edição de ritmo sóbrio e o roteiro de desenvolvimento
desconcertante e de estranha coerência revelam um tremendo rigor artístico em
termos de concepção e execução da narrativa. Nenhuma das escolhas criativas de
Guiraudie é marcada pela gratuidade ou a simples procura do choque – o caráter
explícito e bizarro das sequências de sexo, a caracterização de situações e
personagens que sintetizam viés naturalista e onirismo, a reinterpretação
irônica da mitologia cristã e a constante sensação de uma realidade em desagregação
reforçam um discurso artístico de forte caráter humanista e de grande ousadia
estética.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
sexta-feira, julho 14, 2017
quarta-feira, julho 12, 2017
Neve negra, de Martín Hodara **
O cinema “mainstream” argentino costuma ser elogiado por um
certo padrão de qualidade em suas produções, principalmente no que diz respeito
à narrativa adequada aos padrões convencionais (e também comerciais)
estabelecidas pelos grandes estúdios norte-americanos (e que, por tabela, se
estendem a outras escolas cinematográficas ocidentais). Dessa forma, há uma
quantidade razoável de filmes portenhos que se mostram acessíveis ao público em
geral, ainda que em boa parte de tais obras fique evidente um caráter asséptico
e derivativo em suas respectivas concepções artísticas. Esse é justamente o
caso de “Neve negra” (2016) – há a impressão constante ao se assistir ao filme
que o diretor Martín Hodara segue um manual de como fazer um trabalho no gênero
suspense de acordo com todos os clichês e ditames narrativos e temáticos
inerentes a esse tipo de produção. Os elementos formais se colocam em cena de
forma correta, mas sem qualquer traço de ousadia e criatividade. Por mais que o
roteiro possa evocar questões tabu como o incesto e algumas sequências vazem
momentos de maior violência gráfica, tais aspectos são abrandados pelo
tratamento artístico destituído de vigor de Hodara. Ou seja, no geral “Neve
negra” não chega a ser exatamente ruim e é capaz de entreter as plateias menos
exigentes, mas também está bem longe de ser considerado algo de memorável.
terça-feira, julho 11, 2017
Quem é Primavera das Neves, de Jorge Furtado e Ana Luíza Azevedo **1/2
Há uma base conceitual engenhosa e contundente que paira
sobre a concepção e narrativa do documentário “Quem é Primavera das Neves”
(2017). O roteiro parte de uma premissa inicial de forte traço pessoal – o interesse
do diretor Jorge Furtado em saber mais sobre quem seria Primavera das Neves,
uma obscura tradutora e poetisa que trabalhou em edições brasileiras de vários
clássicos literários na segunda metade do século XX. Ainda que se vincule,
dessa forma, a uma obra de cunho biográfico, a abordagem do roteiro traz em seu
subtexto um forte caráter humanista, no sentido que vai expondo de maneira
sutil que a formação cultural de sua protagonista, filha de dois anarquistas
europeus que se exilaram no Brasil fugindo de regimes autoritários, evidencia
sensibilidade e inteligência diante de um contexto histórico marcado por
obscurantismo e brutalidade, em que os aludidos traços da personalidade de
Primavera se mostram influentes e encantadores para boa parte das pessoas que
conviveram com ela. Dessa forma, o viés existencial do filme dirigido por
Furtado e Ana Luíza Azevedo ganha especial ressonância ao se relacionar com o
atual e conturbado cenário sócio-político brasileiro e mundial. A complexidade
e ousadia da temática de “Quem é Primavera das Neves” não recebe, entretanto,
um complemento narrativo e formal à altura. A dupla de cineastas responsável
pela produção se contenta com um acabamento convencional e de pouco impacto sensorial,
opção artística essa que fica clara numa edição apenas correta, nas melodias
banais da trilha sonora, na afetação das sequências de declamação com a atriz
Mariana Lima e no excesso de depoimentos um tanto redundantes. Faltou para o
documentário uma pegada estética mais sanguínea e criativa, coisa que Furtado
já mostrou ser capaz de fazer no inquietante “O mercado de notícias” (2014).
segunda-feira, julho 10, 2017
Cidades fantasmas, de Tyrell Spencer ***
A temática do documentário “Cidades fantasmas” (2017) é bem
definida – as histórias de quatro pequenas cidades da América do Sul que por
ações da natureza ou do homem (ou por ação conjunta de ambos os fatores)
acabaram sendo abandonadas pelas suas respectivas populações. O diretor Tyrell
Spencer adota um direcionamento narrativo que se mostra em forte sintonia com o
viés melancólico do assunto principal do filme, em que a austera direção de
fotografia em preto e branco, a edição de ritmo sereno e a discreta trilha
sonora formam um conjunto estético contundente que sabe ressaltar as amargas
nuances dramáticas dos eventos mostrados na tela, fazendo com que tal obra não
se limite a um formato de reportagem convencional transplantada para a tela
grande. Aliás, essa concepção de audiovisual é tão eficaz na sua sombria beleza
que até torna, por vezes, dispensáveis e redundantes alguns depoimentos dados
durante a narrativa. No mais, “Cidades fantasmas” ganha uma especial
ressonância na conturbada conjuntura sócio-econômica em que vivemos, pois em
cada um dos casos expostos no documentário fica evidente o descaso com aspectos
humanistas em prol de ações visando o lucro financeiro e político de uma
pequena elite.
sexta-feira, julho 07, 2017
Una, de Benedict Andrews **
Num primeiro momento, a abordagem artística concebida pelo
diretor Benedict Andrews para “Una” (2016) pode até sugerir alguma ousadia – a temática
polêmica da pedofilia parece ser filtrada por uma narrativa mais atmosférica e
de sóbria abordagem emocional. O desenrolar da narrativa, entretanto, revela
que tal impressão se mostra enganosa. O desenvolvimento da trama vai mostrando
um caráter novelesco, beirando o exagero e o brega, e por vezes caindo no
francamente moralista (afinal, a sugestão de que a protagonista Una tem uma
vida “dissipada” em termos de comportamento por ter sido abusada sexualmente na
adolescência está bem longe de caracterizar uma visão libertária). Há até uma
menção de ambiguidade na relação entre Una (Rooney Mara) e seu algoz/amante Ray
(Ben Mendelsohn), mas tal sutileza dramática é progressivamente abafada em nome
de uma solução mais previsível e adequada em termos “morais”. O formalismo do
filme se mostra em sintonia com as escolhas convencionais e um tanto hipócritas
do roteiro, dando para a narrativa uma estruturação asséptica, típica de um
telefilme derivativo,
quinta-feira, julho 06, 2017
A jovem rainha, de Mika Karismäki *1/2
Como explicar que o mesmo diretor dos idiossincráticos e
criativos documentários “Tigreros” (1994) e “Moro no Brasil” (2002) é também
responsável por uma obra tão enfadonha quanto “A jovem rainha” (2015)? Talvez o
finlandês Mika Kaurismäki precisasse pagar as contas ou mesmo devesse algum
favor a um produtor, mas o fato é que esse seu filme mais recente recebe um
tratamento formal-temático bastante derivativo e desinteressante. Não dá para
dizer que a premissa principal de sua trama e o fato da narrativa se vincular
ao gênero do “filme de época” sejam desculpas fundamentais para o resultado
final frustrante. O roteiro até esboça algumas situações potencialmente
interessantes envolvendo questionamentos sobre a opressão social e moral do
poder patriarcal político e um possível e explosivo romance lésbico. Nas mãos
de um cineasta disposto a esmiuçar tais nuances e ousar em termos estéticos,
poderia render algo de memorável (dentro de tal concepção, é só lembrar, por
exemplo, do polêmico e extraordinário “A rainha Margot”). Do jeito que
Kaurismäki leva as coisas, entretanto, tais expectativas caem por terra, vide
uma encenação mofada, um formalismo bem-comportado e um roteiro que vai se
aprofundando numa breguice novelesca e previsível.
terça-feira, julho 04, 2017
Stefan Zweig - Adeus, Europa, de Maria Schrader ***
Ainda que vinculado ao gênero do drama biográfico, “Stefan
Zweig – Adeus, Europa” (2016) não tem como principal intenção temática fazer um
grande resumo sobre a vida de seu protagonista. Dentro da concepção
artística-existencial da diretora Maria Schrader, mais importante seria fazer
uma espécie de retrato de uma nebulosa sensação de desconforto
espiritual-filosófico de um imaginário coletivo diante do avanço inexorável da
barbárie sócio-política-cultural na sociedade ocidental da primeira metade do
século XX. Dentro de tal ambientação narrativa e histórica, a opção da cineasta
em termos de abordagem emocional e estética é por um formalismo contido e por
um roteiro sem grandes reviravoltas dramáticas (com exceção, é claro, da sequência
final na revelação do suicídio duplo de Zweig e sua esposa), formando um
conjunto narrativo sereno e cinzento, por vezes quase tedioso, mas que oferece
a moldura adequada para o sombrio subtexto de sua trama, e que acaba ganhando
uma ressonância ainda mais perturbadora quando se pensa na atual conjuntura mundial
política e social.
segunda-feira, julho 03, 2017
Z - A cidade perdida, de James Gray ****
Assim como já tinha feito em “Era uma vez em Nova Iorque”
(2013), o diretor norte-americano James Gray recria o gênero do “filme de época”
sob uma perspectiva bastante particular e preciosista em “Z – A cidade perdida”
(2016). Com uma trama baseada em fatos reais, não há um foco principal
concentrado na reconstituição de fatos históricos, mas sim numa narrativa que
se situa entre o classicismo e o atmosférico, evocando um insólito encontro
entre David Lean e Werner Herzog. Quando a história fica localizada na parte “civilizada”
da Inglaterra, encenação, fotografia e direção formam um conjunto estético que
tanto se vincula à linguagem naturalista quanto a uma estilização de beleza
visual desconcertante. Aliás, pode-se dizer que os quinze minutos iniciais de “Z”
traz uma das mais ácidas dissecações sobre a questão do preconceito classes na sociedade
ocidental já apresentadas no cinema. Quando a ação se volta para a selva
amazônica, formalismo e narrativa ganham uma conotação de sutil viés delirante,
focando na clássica dicotomia entre o jogo de atração e repulsa do homem
ocidental frente a uma natureza misteriosa, bela e perigosa, na tradição de
obras épicas que alternam com admirável naturalidade a tensa aventura “física”
e a viagem existencial – nesse sentido, por vezes a sofisticada e intrigante
concepção artística de Gray para “Z” faz lembrar a obra-prima “conradiana” “Apocalypse
Now” (1979).
sexta-feira, junho 30, 2017
Rodin, de Jacques Doillon **1/2
As intenções artísticas de Jacques Doillon para a
cinebiografia “Rodin” (2017) até são bem louváveis – ao invés de fazer um
grande “resumão” sobre a vida do escultor Auguste Rodin (Vincent Lindon), o
roteiro se concentra em um recorte específico de um dos períodos mais
relevantes da trajetória do artista, aquele em que ele atingiu a consagração ao
passar a receber encomendas do Estado e também tomou como amante a escultora
Camille Claudel (Izïa Higelin), fazendo com que haja uma reflexão sobre o
eterno dilema da relação entre a vida privada e a arte, no sentido da forma com
que ambas se influenciam, buscando-se ressaltar ainda o caráter libertário e
contestador da atividade artística. Ao mesmo tempo que Rodin foge de vários
padrões de previsibilidade na concepção e execução de alguns dos seus
principais trabalhos, seu hedonismo furioso entra em conflito com os ditames
moralizantes da França do século XIX. A ambição existencial e narrativa de
Doillon, entretanto, não consegue se efetivar de maneira satisfatória.
Encenação, fotografia e direção de arte formam um conjunto correto, mas que
também implicam num certo engessamento narrativo e numa atmosfera de assepsia
visual. Falta uma visão mais sanguínea e suja por parte do cineasta, em que
mesmo quando o filme parte para sequências mais eróticas há a impressão de
comedimento estético no sentido de não provocar grandes choques gráficos, o que
faz demonstrar que o filme não estar em sintonia com a própria natureza da arte
do biografado. Há méritos didáticos em “Rodin”, no sentido de sua
contextualização histórica, mas falta humanismo e ousadia na sua síntese
temática-formal.
quinta-feira, junho 29, 2017
Além das palavras, de Terence Davies ***
É claro que se pode acusar a direção do britânico Terence
Davies em “Além das palavras” (2016) de um academicismo excessivo e de uma
incômoda previsibilidade narrativa. Por outro lado, sua rigorosa concepção
artística também é marcada por uma abordagem emocional sóbria e por uma
encenação meticulosa que valorizam as nuances psicológicas e os complexos jogos
sociais que marcam o contexto intimista e cultural em que se desenvolve a
exposição de alguns fatos reveladores da biografia da poetisa norte-americana
Emily Dickinson. É de se destacar também o roteiro que consegue captar com
sensibilidade e fino senso de humor toda uma gama temática bastante variada e
repleta de sutilezas existenciais, indo da caracterização brutal do
patriarcalismo opressor da sociedade ocidental do século XIX até a valorização
do poder da palavra literária – nesse aspecto, são notáveis alguns diálogos lapidares
pelas suas dinâmicas espirituosas e subtexto de forte caráter contestatório,
além da engenhosa forma como alguns trechos expressivos da poesia de Dickinson
se inserem na narrativa. Davies também reforça a sua capacidade de extrair
atuações memoráveis de seu elenco, com destaque para Cyhthia Nixon no papel
principal e Keith Carradine em uma performance sorumbática e repleta de fleuma.
terça-feira, junho 27, 2017
Argentina, de Carlos Saura ***
É claro que, em se tratando do diretor espanhol Carlos Saura,
“Argentina” (2015) está bem longe de entusiasmar tanto quanto as obras
clássicas do cineasta nos anos 60 e 70 ou mesmo com outras de suas produções
onde a música e a dança foram os enfoques temáticos principais. Incomoda um
certo tom de assepsia na abordagem artística do documentário em questão,
fazendo evocar por vezes um equivocado tom institucional. Ainda assim, é
impossível para o espectador ficar impassível com a exuberâncias do ritmos, melodias
e coreografias mostrados no filme e também com o refinamento narrativo e
estético impresso por Saura em algumas sequências. No âmago de temas e danças
de forte caráter telúrico se encontra uma arte marcada por humanismo pungente e
considerável teor sócio-cultural contestatório, com Saura mostrando
sensibilidade suficiente para captar com considerável fidelidade tais nuances.
Dentro dessa concepção artística-existencial, os grandes pontos altos de “Argentina”
se concentram nas belas homenagens para Mercedes Sosa e Atahualpa Yupanqui.
segunda-feira, junho 26, 2017
Mulher-Maravilha, de Patty Jenkis ***
Para aqueles que se apavoraram com a ruindade de “Superman –
O homem de aço” (2013), “Batman vs Superman – A origem da justiça” (2016) e “Esquadrão
Suicida” (2016), assistir a “Mulher-Maravilha” (2017) provavelmente poderá
render uma agradável surpresa. O filme dirigido por Patty Jenkins se enquadra
dentro de um formato de aventura nostálgica classicista e por vezes até
resvalando numa certa profundidade dramática convincente, bem distante da
pretensão temática pseudo-sombria e do nefasto formalismo “video-game” das
produções de super-heróis da DC dirigidas por Zack Snyder e pupilos. O pique de
narrativa new age/mística enfadonha dos primeiros quinze minutos da obra correm
o risco de aborrecer a plateia, mas quando Steve Trevor (Chris Pine) entra em
cena as coisas realmente engrenam, com o filme se tornando um misto de drama de
guerra e aventura de super-heróis que prima por algumas memoráveis cenas de
ação, pela direção de arte estilizada e pelo carisma cativante do elenco (com
exceção da inexpressiva Gal Gadot no papel título). Parte considerável das
escolhas artísticas de Jenkins, principalmente em termos de roteiro e
atmosfera, fazem lembrar o ótimo “Capitão América – O primeiro vingador”
(2011), mas é bem melhor copiar o que deu certo num filme da Marvel do que
seguir os mandamentos “originais” do picareta Znyder.
sexta-feira, junho 23, 2017
Tragedy girls, de Tyler Macintyre ***
O fato da produção norte-americana “Tragedy girls” (2017)
ter tido exibição única e exclusiva no Brasil no FANTASPOA ajuda a ilustrar a
importância do festival. Dá para imaginar uma produção como essa do diretor
Tyler Macintyre, que abusa da violência gráfica e de um perverso senso de humor,
sendo exibida no bem-comportado circuito comercial de salas de cinema de
shoppings em Porto Alegre? Assim, fica evidente que somente num festival como o
FANTASPOA que uma obra como essa no gênero horror B poderia ser ter a chance de
ser apreciada numa tela grande. Não se trata propriamente de um filme com
grandes ousadias estéticas ou temáticas, mas que tem um certo caráter
instigante na forma com que expõe as hipocrisias do american way of life dentro
de um formato que sintetiza com eficiência comicidade ácida e suspense com alto
teor de violência gráfica, passando a léguas de distância do horror asséptico
das franquias do gênero que costumam aportar por aqui. Além disso, Macintyre
até se permite a incorporar algumas referências visuais e narrativas bastante
pertinentes e intrigantes, de “Um corpo que cai” (1958) até “Carrie, a estranha”
(1976). As acertadas escolhas artísticas do diretor levam “Tragedy girls” a uma
conclusão brutal e perturbadora capaz de colar por um bom tempo no imaginário
dos apreciadores do gênero.
quinta-feira, junho 22, 2017
Eu me casei com uma pessoa estranha!, de Bill Plympton ****
Na última edição do FANTASPOA, na sessão em que foi
homenageado pelo festival, o diretor de animações norte-americano Bill Plympton
foi questionado sobre qual teria sido a inspiração principal para a realização
do longa-metragem “Eu me casei com uma pessoa estranha?” (1997). Respondeu que
o seu mote principal na elaboração da produção foi a de que um animador é uma
espécie de deus na concepção de sua obra, em que personagens e toda a
ambientação que os circunda são regidos pela sua vontade. E é justamente essa a
impressão que se tem ao assistir ao filme em questão – é como se Plympton
jogasse na cara do espectador sem nenhuma cerimônia boa parte de suas
obsessões, desejos e diatribes. A trama do filme obedece a uma lógica onírica e
que beira o instintivo, em que vários pilares tradicionais da sociedade
ocidental (família, religião, governo, militarismo) são pisoteados de maneira
inclemente em nome de um ideário libertário. Nessa perspectiva, o sexo e a
imaginação criativa são celebrados como os pontos máximos da expressividade
humana, e como as únicas vias para uma possível transcendência existencial.
Embalando essa expressiva visão sócio-política-filosófica, há um grafismo e uma
narrativa de viés alucinado e beleza perturbadora – ao invés da estética
realista ou de estilização bem-comportada das animações tradicionais dos
grandes estúdios, prevalecem visual e atmosfera delirantes e algo “sujos”,
jogando a plateia dentro de um imaginário síntese entre a contestação e o
lisérgico.
quarta-feira, junho 21, 2017
Comeback, de Erico Rassi **
A premissa principal da trama de “Comeback” é promissora:
numa cidadezinha furreca do interior do Brasil, um pistoleiro aposentado
(Nelson Xavier) resolve voltar à ativa para resgatar a autoestima. Faz pensar
numa espécie de faroeste atualizado e mesmo reconfigurado para o contexto
brasileiro, algo como uma versão cabocla do clássico “O último pistoleiro”
(1976). Na prática, entretanto, o que ocorre na tela fica bem distante das
aparentes boas possibilidades. De certa forma, dá até para entender o
direcionamento artístico proposto pelo diretor Erico Rassi, em que a indolência
e mesmice do cotidiano desolador do protagonista Amador recebe a recíproca de
uma narrativa de desenvolvimento e ambientação semelhantes. No final das
contas, tal direcionamento formal-temático vai se mostrando cada vez mais
frustrante e aborrecido na sua letargia criativa, fazendo com que a obra caia
por vários momentos no sonolento e desinteressante. Mesmo quando os momentos de
violência irrompem na tela, o que era para ser o ápice dramático fica apenas
numa encenação tediosa e rotineira. No cômputo geral, as decisões estéticas e
textuais de Rassi para o filme dão a impressão de quererem disfarçar uma
preguiça do cineasta em oferecer algum momento mais ousado ou de maior impacto
sensorial.
segunda-feira, junho 19, 2017
Faces de uma mulher, de Arnaud des Pallières ***
A estrutura narrativa de “Faces de uma mulher” (2016)
obedece a formato e execução convencionais, focando na conturbada vida de uma
mulher, sempre à beira da marginalidade sócio-econômica, com uma trama que se
estrutura a partir de forma episódica e cronologicamente reversa a mostrar
fatos importantes da maturidade, juventude e infância da protagonista. O roteiro
obedece a uma lógica existencial um tanto moralista, além de ser previsível em
alguns de seus desdobramentos. A efetiva força do filme de Arnaud des
Pallières, e o que o torna uma experiência memorável, está no vigor de sua
encenação e na intensidade dramática das atuações do seu elenco, com destaque
em especial para Adèle Exarchopoulos, que entrega uma interpretação de
admirável desenvoltura cênica, lembrando bastante o seu desempenho antológico
na obra-prima “Azul é a cor mais quente” (2013).
sexta-feira, junho 16, 2017
México bárbaro II, de vários diretores ***
A temática do satanismo não é novidade dentro do cinema,
principalmente quando se trata do gênero horror. Na grande maioria das
produções que versam sobre o assunto, o diabo e seus seguidores são vistos como
antagonistas a serem batidos, com seus princípios sendo vistos como uma
distorção daquilo que é considerado aceitável pela ordem vigente. No filme
episódico “México bárbaro II” (2017), a presença de demônios e afins tem uma
relação com a própria cultura religiosa do seu país de origem, onde o
catolicismo até hoje tem uma presença forte nos lares nacionais. Por outro
lado, boa parte dos episódios que compõem a produção sugere uma visão mais
libertária sobre o assunto, em que a fórmula narrativa sintetizando ironia perversa
e terror explícito-escatológico gera algumas sequências memoráveis que variam
entre o divertido e o perturbador. Por trás desses pequenos contos audiovisuais,
há um forte discurso existencial a questionar uma sociedade patriarcal e cristã
marcada pela opressão sócio-cultural, mas que também sabe preservar uma
narrativa tensa e envolvente. De se destacar ainda o ótimo trabalho de
trucagens, mais um fator que acentua a impressão de uma experiência
cinematográfica extrema no seu sensorialismo demente.
quarta-feira, junho 14, 2017
Pouco antes do amanhecer, de Jeff Lieberman ****
O roteiro e a estrutura narrativa de “Pouco antes do
amanhecer” (1981) podem fazer pressupor que a obra em questão seja mais um
tradicional slasher daqueles que apareciam com frequência nos cinemas nos anos
80. Um olhar mais atento, entretanto, faz com que se perceba que o filme do
diretor norte-americano Jeff Lieberman vai bem mais além. Encenação, direção de
fotografia e edição evidenciam uma abordagem mais minuciosa e quase
contemplativa na forma que delineia situações e personagens e esmiúça a ação. Ainda
que haja os habituais assassinatos sangrentos de jovens incautos em um local
interiorano isolado, não se chega a privilegiar tanto a violência explícita,
com Lieberman se mostrando mais concentrado na elaboração de uma narrativa
atmosférica pautada pela tensão e ironia. É como se o cineasta fizesse uma
releitura mais sardônica do clássico “Amargo pesadelo” (1972) e carregada num
simbolismo ainda mais contestador, principalmente na visão ácida sobre a caipirice
obscurantista do interior dos Estados Unidos e na reverência ao empoderamento
feminino na figura da protagonista que se recusa a permanecer no papel de
vítima inocente e indefesa.
segunda-feira, junho 12, 2017
Corra!, de Jordan Peele ***1/2
Combinar drama racial com preceitos de horror gótico típicos
de cinema B pode parecer uma mistura indigesta em um primeiro momento. Nas mãos
do diretor Jordan Peele, entretanto, tudo isso adquire uma estranha coerência. “Corra!”
(2017) é uma obra que prima pelo exagero – com direito, inclusive, a passagens
no roteiro envolvendo transplantes cerebrais! – mas é justamente nesse aspecto
do excesso que o filme se torna tão marcante. A caracterização de personagens,
situações e ambientação é ambígua – na superfície, há uma beleza que é asséptica,
evocando sempre uma espécie de América “idealizada” e perdida, possivelmente
aquela buscada por Donald Trump e seus seguidores, e que esconde também um lado
sombrio e degradado na sua moralidade distorcida. Ainda nesse aspecto
existencial, mesmo a visão sobre a questão racial na produção é marcada por uma
originalidade surpreendente, em que a pró-atividade dos personagens negros na
defesa de sua integridade física-moral foge dos caminhos óbvios de uma hipócrita
saída conciliadora, além do fato de que o racismo dos vilões da trama esconde
na sua gênese uma admiração pela própria figura do negro (afinal, por que os
personagens brancos escolheriam passar o resto de suas vidas dentro dos corpos
de afro-americanos?). No mais, a narrativa é marcada por encenação e atmosfera
elaboradas a partir de uma uma dinâmica tensa e brutal, beirando por vezes o
barroco e o delirante nas nuances visuais de algumas sequências.
sexta-feira, junho 09, 2017
Controle remoto, de Jeff Lieberman ****
Na década de 80, um nicho expressivo de diretores e
produções dentro do gênero fantástico se dedicaram a uma espécie de
reciclagem/homenagem a filmes B de terror e ficção-científica dos anos 50. É só
lembrar de alguns dos trabalhos mais expressivos da época de diretores como Joe
Dante e John Landis. Uma obra como “Controle remoto” (1988) é outro exemplar
enfático dessa tendência. O diretor Jeff Lieberman recria os preceitos formais
e temáticos mais caros de antigos filmes sobre invasões alienígenas sob uma
ótima ainda mais sarcástica e perversa tanto na elaboração de uma produção
pastiche fake de ficção científica cinquentista que serve como mote principal
da trama quanto em termos de atmosfera e encenação da história que se
desenvolve numa época mais contemporânea – nesse sentido, é de se destacar a
estranheza e sordidez da ambientação de algumas cenas e a criatividade das
brutais e hilárias sequências de ação. Algumas passagens do roteiro podem soar
paródicas e exageradas, mas acabam ganhando uma perturbadora dimensão dramática
devido a tensa narrativa arquitetada por Lieberman. Nas mãos do cineasta, mesmo
algumas interpretações canastronas do elenco e alguns dilemas datados do
roteiro se incorporam com naturalidade e coerência em uma lógica artística
muito particular.
quinta-feira, junho 08, 2017
O cidadão ilustre, de Mariano Cohn e Gastón Duprat ***
A sequência inicial de “O cidadão ilustre” (2016), em que o
escritor Daniel Mantovani (Oscar Martínez) recebe o Nobel da literatura, pauta
o grande dilema existencial do roteiro do filme dirigido por Mariano Cohn e
Gastón Duprat – a do real papel da arte no mundo contemporâneo. O texto raivoso
e amargurado do discurso proferido pelo protagonista durante o evento evidencia
o medo de uma estagnação criativa e da incapacidade de sua escrita gerar algum
incômodo ao status quo vigente. Assim, quando a narrativa passa a se concentrar
no ambiente da cidadezinha no interior da Argentina onde Mantovani nasceu, e
que serviu de maior fonte de inspiração para as histórias de seus livros, a
produção ganha um tom de fábula perversa, por vezes até kafkaniana na sua
caracterização de pesadelo, em que o personagem principal, inicialmente
convidado pela prefeitura local para ser homenageado, se embrenha em um
crescente vórtice de sentimentos nada nobres por parte dos habitantes da cidade
(mascarados por um hipócrita manto de cordialidade): invejas, ressentimentos,
obscurantismo, mesquinharias, repressão moral e interesses escusos das
oligarquias locais. Diante de tais situações, Mantovani é contraditório e
ambíguo em suas ações e sentimentos, mas de tais elementos fica tangível um
humanismo que se contrapõe ferozmente contra o opressor patriarcalismo político-cultural
da sua aparentemente pacata cidade natal. Ainda que por vezes “O cidadão
ilustre” caia em algumas caracterizações caricatas e simplistas e que o seu
formato seja o de uma comédia dramática convencional, a obra de Cohn e Duprat
tem momentos instigantes e memoráveis pela forma com que expõe a condição entre
o ridículo e o assustador da sociedade contemporânea, reafirmando a função da
arte e da cultura em desafiar tais aspectos deletérios da humanidade.
quarta-feira, junho 07, 2017
Rei Arthur - A lenda da espada, de Guy Ritchie **1/2
O diretor britânico Guy Ritchie forjou uma peculiar
linguagem autoral em seus primeiros trabalhos, principalmente quando enveredava
pelo gênero policial. Quando embarcou de vez no “cinemão” comercial
norte-americano, dedicou-se a releituras modernizadas de figuras literárias (“Sherlock
Holmes”), televisivas (“O agente da U.N.K.L.E.”) e míticas – nesse último caso,
enquadra-se sua produção mais recente, “Rei Arthur – A lenda da espada” (2017).
Em algumas passagens do filme, principalmente em seu terço inicial, pode-se
perceber algumas características típicas de seu estilo, como os diálogos
prolixos e a edição repleta de cortes rápidos. Com o desenvolver da narrativa,
entretanto, sua marca autoral vai ficando cada vez mais diluída em nome de uma
síntese artística despersonalizada e convencional em excesso, em que a história
do Rei Arthur (Charlie Hunnam) parece se adequar a fórmulas de mercado. Por
vezes, há a impressão de que se está se assistindo a uma produção de
super-heróis da Marvel ou da DC situada na Inglaterra de séculos atrás. Se
alguém estiver interessado em assistir a uma obra realmente de peso versando
sobre as aventuras de Arthur, é melhor ficar mesmo com a obra-prima definitiva
sobre o assunto, o poético e vigoroso “Excalibur” (1981) de John Boorman.
terça-feira, junho 06, 2017
1974: A possessão de Altair, de Victor Dryere ***
Dentro do gênero do horror de “câmera subjetiva”, onde as
filmagens são “registradas” pelos próprios personagens da trama, a produção
mexicana “1974: A possessão de Altair” (2016) não atinge os mesmos níveis de
criatividade e concisão narrativa do espanhol “REC” (2008), mas se mostra bem
mais instigante do que os mais recentes exemplares da franquia “Atividade
paranormal” e derivados norte-americanos. A explicação pela sua maior
relevância artística está na concepção e execução de um convincente conceito
temático-estético. O fato da trama se desenvolver em meados dos anos 70 e de
que grande parte das gravações serem feitas em Super 8 faz com que o filme
tenha uma atmosfera que transite com fluidez entre o real e o onírico e uma
direção de fotografia e arte que surpreende pela beleza visual rústica e
nostálgica de algumas sequências. O roteiro cai em alguns convencionalismos
inerentes ao gênero, mas o tratamento formal e narrativo tem a precisão
suficiente para gerar tensão e interesse para o espectador.
segunda-feira, junho 05, 2017
Vermelho russo, de Charly Braun ***
O roteiro e a estrutura narrativa de “Vermelho russo” (2016)
partem de premissas de uma estranha síntese entre o simples e o sofisticado: a
partir de uma trama que acolhe experiências reais das atrizes Maria Manoella e
Martha Nowill, há uma encenação que combina intimismo, metalinguagem e
trejeitos de cinema documental, com as referidas intérpretes nos papéis de si
mesmas. No cerne desse conceito formal-temático está uma lúcida reflexão sobre
o papel da arte e da cultura na vida das pessoas. O curso sobre o método
Stanislavski de interpretação que Maria e Martha vão fazer em Moscou
desencadeia um processo de questionamento existencial para elas, onde indagam
sobre os rumos profissionais que tomaram, as suas escolhas sentimentais e mesmo
o significado da amizade entre elas. A narrativa é marcada pela concisão,
alcançando uma interessante atmosfera que varia com naturalidade de uma
consistente carga dramática para a comicidade sutil. Além disso, elementos do
teatro e da literatura se incorporam de maneira fluida dentro da linguagem
estética do filme, valorizando ainda mais as nuances dramáticas e irônicas do
roteiro.
quinta-feira, maio 18, 2017
Alien: Covenant, de Ridley Scott ***
A franquia “Alien” sob a batuta de Ridley Scott obedece a um
padrão narrativo e até a uma certa abordagem existencial do cineasta. São
filmes que se estruturam como uma síntese de ficção-científica e horror, com
direito inclusive a uma certa atmosfera gótica, e com roteiros que em seus
subtextos trazem de maneira discreta uma visão de mundo pessimista e
misantrópica. Se “Prometheus” (2012) era marcado pelo roteiro confuso e por um
conjunto narrativo-estético deslumbrante, “Alien: Covenant” (2017) marca o
regresso para o convencionalismo formal e um roteiro melhor delineado (ainda
que bastante pueril em algumas de suas resoluções). Ou seja, a ousadia
atribulada deu lugar a uma linguagem cinematográfica mais acessível e
comercial. É claro que esse direcionamento pode causar algumas frustrações para
aqueles que apreciaram o horror atmosférico de “Prometheus” que remetia à
obra-prima “Alien, o 8º passageiro” (1979). Ainda assim, “Covenant” é uma obra
diferenciada. Por mais que Scott se renda a alguns truques baratos – o que dizer
de um alien matando um casal que transava no chuveiro em cena digna de um
episódio fuleiro de “Sexta-feira 13”? – ele tem notável domínio narrativo em
algumas passagens memoráveis. As sequências de ação são muito bem coreografadas,
além da direção de arte e dos efeitos especiais constituírem um conjunto
imagético repleto de belas nuances. Nesse sentido, é de se destacar a necrópole
onde boa parta da trama se desenvolve, cenário esse que evoca uma espécie de
atemporal mansão mal-assombrada, além dos designs dos aliens terem um forte
impacto visual. Quanto ao roteiro, por mais que ele caia em algumas
simplificações preguiçosas, pode-se perceber uma sutil crítica ao pensamento
obscurantista evidenciada na figura do comandante Oram (Billy Crudup), um
cristão messiânico cujas desastrosas decisões causam a maioria das sangrentas tragédias
que se desenrolam na tela.
quarta-feira, maio 17, 2017
Clash, de Mohamed Diab ***1/2
Filmar toda a ação dentro de um camburão não é um truque marqueteiro
do diretor egípcio Mohamed Diab em “Clash” (2016). Na verdade, tal recurso se
mostra em sintonia com a proposta estética-temática da obra, além de não servir
como mero pretexto para uma execução descuidada ou indulgente. Muito pelo
contrário – trata-se de um filme cujo formalismo é ousado e dinâmico, e que
sabe valorizar as suas possibilidades imagéticas. O que ocorre externamente ao
ambiente fechado em que se passa a história é captado pelas frestas de janelas
e portas, mas ainda assim o espectador consegue assistir a sequências muito bem
delineadas na sua combinação de realismo e tom épico. Pode-se perceber duas
intenções básicas na proposta de concentrar a trama dentro do veículo em
questão – a de recriar de forma simbólica alguns setores sociais da sociedade
egípcia e a dinâmica disfuncional na relação que se estabelece entre eles, e
também a de acentuar uma atmosfera claustrofóbica de tensão e fatalismo. Ainda
que por vezes o roteiro se prenda em alguns excessos melodramáticos e a
narrativa fique truncada, as mencionadas intenções se concretizam de forma
contundente. O terço final, por sinal, é eletrizante na sua conjugação de
violência, suspense e visão sócio-política.
terça-feira, maio 16, 2017
Melhores amigos, de Ira Sachs ****
Se em “Deixe a luz acesa” (2012) e “O amor estranho” (2014)
se podia perceber delineando um traço personalíssimo no cinema do diretor
norte-americano Ira Sachs, em “Melhores amigos” (2016) esse particular estilo
se cristaliza de forma plena e extraordinária. A partir de uma estrutura
narrativa que sintetiza melodrama classicista e trejeitos de um formalismo
livre e instintivo que remetem ao melhor da obra de John Cassavetes, a produção
mais recente de Sachs fascina o espectador pela beleza de sua estética sóbria e
pela pungência de sua abordagem emocional. O roteiro, dentro de um formato de
crônica de costumes, evoca em seu subtexto temas como conflito de classes,
dilemas intimistas, questionamentos entre gerações e crítica de valores numa
sociedade patriarcal e pequeno-burguesa, e consegue lhes dar uma unidade existencial
admirável. E mesmo a questão da homossexualidade, já trazida nos citados filmes
anteriores, entra de maneira discreta e ambígua, refletindo uma certa atmosfera
libertária para a obra. A encenação precisa é fundamental dentro dessa proposta
de Sachs, conciliando preceitos realistas e tensão dramática. Esse conjunto
temático-formal, na realidade, expressa uma fascinante dicotomia dentro da
visão artística de Sachs para “Melhores amigos”, em que boa parte da narrativa predomina
um forte rigor no conjunto fotografia, edição e encenação, mas que em momentos
cruciais se permite um certo tom intuitivo e espontâneo, principalmente quando
a dupla de adolescentes protagonista está em cena, vide as sequências antológicas
dos exercícios de interpretações teatrais e da festa eletrônica juvenil.
segunda-feira, maio 15, 2017
Guardiões da galáxia - Volume 2, de James Gunn ***
O primeiro “Guardiões da galáxia” (2014) foi talvez a
produção mais influente dos estúdios Marvel – não necessariamente por uma
questão de ter sido um tremendo sucesso de bilheteria, mas por trazer alguns
preceitos estéticos e temáticos que se mostraram influentes para outros filmes
no gênero super-heróis que vieram após a sua estreia (o exemplo mais evidente
foi o constrangedor “O esquadrão suicida”). O visual colorido espalhafatoso, a
atmosfera de filme B (é como se assistíssemos àquelas tranqueiras dos anos 80
que imitavam “Star Wars” com um orçamento milionário), o tom de comédia
pastelão de algumas sequências e a coreografia muito bem encenada das cenas de
aventuras configuraram uma eficiente e divertida fórmula artística. Assim, era
natural que o diretor James Gunn quisesse apostar naquilo que deu certo. E é
exatamente o que acontece em “Guardiões da galáxia – Volume 2” (2017). Os
elementos formais e textuais do primeiro filme estão todos presentes e por
vezes resultam em alguns momentos antológicos, principalmente pelo carisma das
atuações do seu elenco, pelo grafismo exagerado dos efeitos especiais e por um
considerável teor sórdido na sua ambientação e na violência cartunesca. Por
outro lado, a continuação também frustra um pouco pela falta de uma tensão
dramática mais consistente e também pelo tom meloso e convencional das
sequências mais sentimentais. O roteiro do filme até é bem resolvido em algumas
de suas premissas e nos seus dilemas dramáticos, mas também é permanente a impressão
que atua mais como preparação para conflitos e conceitos que se concretizarão
em obras posteriores.
sexta-feira, maio 12, 2017
O filho de Joseph, de Eugène Green ****
As primeiras cenas de “O filho de Joseph” (2016) trazem
imagens do cotidiano de Paris, enfatizando determinados signos de modernidade –
tal sequência, entretanto, recebe um tratamento formal marcada pela sobriedade
estética e é musicada por temas barrocos, evocando uma desconcertante sensação
de atemporalidade. Tais tomadas já deixam logo evidente que o particular traço
autoral do cineasta Eugène Green, delineado de maneira contundente em “La
sapienza” (2014), permanece de forma indelével. Aliás, até se aprofunda em suas
peculiaridades, principalmente na questão do ascetismo religioso herdado de
Bresson – aliás, o burro que se torna importante personagens nas cenas finais
da produção parece saído diretamente de “A grande testemunha” (1966),
importante clássico bressoniano. É como se um rigoroso conto moral aos poucos
se transmutasse em uma parábola mística. Dentro dessa abordagem, pode-se até
perceber que a sutileza não chega a ser uma marca muito forte na narrativa,
pois as simbologias e metáforas que surgem ao longo da trama são até óbvias nas
conexões bíblicas que sugerem. O que tornam tais figuras de linguagem
fortemente encantadoras é a encenação precisa e repleta de notáveis nuances dramáticas
arquitetada por Green. Nessa abordagem, os aspectos religiosos que permeiam o
roteiro de “O filho de Joseph” estão muito distantes dos clichês obtusos e
simplórios dos “filmes de louvor”, enfatizando muito mais o lado humanista
dessa visão mística.
quinta-feira, maio 11, 2017
Elon não acredita na morte, de Ricardo Alves Junior **1/2
O diretor Ricardo Alves Junior busca uma ousada síntese de
drama social, suspense e horror em “Elon não acredita na morte” (2016). Para
isso, constrói uma narrativa em que na maioria das suas sequências predomina
encenação e ambientação de tons realistas, mas que em momentos cruciais recebe
pinceladas de elementos fantásticos. O roteiro do filme procura combinar uma
trama envolvendo uma certa linha investigativa e de tons misteriosos, no que
diz respeito à procura obsessiva do protagonista Elon (Rômulo Braga) pela
esposa desaparecida, com passagens que evidenciam flagras do cotidiano do
personagem principal envolvendo precariedade e opressão sócio-econômicas. Há
sobriedade e rigor formais na concepção audiovisual da obra, o que colabora
para que haja alguma tensão e angústia para a história. Ou seja, todo o método
artístico do cineasta fica evidente em cada fotograma da obra. Esse excesso de
controle estético-existencial, entretanto, faz com que a narrativa seja pouco envolvente
para o espectador, além de resultar num roteiro que vai se revelando cada vez
mais previsível em seus desdobres dramáticos – de certa, é como se observássemos
um texto ficcional que que se prende de maneira excessiva a regras acadêmicas
de cursos de roteiros. Falta ao filme momentos em que as coisas saiam da
casinha, alguma transcendência, que só se insinua na bela sequência de sexo
entre Elon e a esposa. É claro que há o destaque positivo das boas composições
dramáticas do elenco, mas “Elon não acredita na morte”, no geral, se mostra frustrante
pela sua mecânica bem-comportada, distante, por exemplo, do clima de insano
conto gótico cinematográfico de “Quando eu era vivo” (2014), obra que em termos
de proposta artística se aproxima do filme de Ricardo Alves Junior.
quarta-feira, maio 10, 2017
Os belos dias de Aranjuez, de Wim Wenders ***
O diretor alemão Wim Wenders aparenta em “Os belos dias de
Aranjuez” (2016) não dar muita bola para as acusações de pedantismo filosófico
ou de estar há anos se repetindo em suas obsessões estéticas e temáticas. Dessa
forma, mesmo que não consiga convencer os habituais detratores, reforça o
padrão autoral da sua filmografia. Nesse filme mais recente, inclusive, pode-se
ter a impressão do cineasta estar evocando algumas das melhores soluções artísticas
de uma de suas grandes obras-primas, “Asas do desejo” (1987), ainda que sem o
mesmo grau de inspiração criativa. Estão lá o entrecruzamento entre audiovisual
e literatura (não à toa, o roteirista é o escritor Peter Handke, antigo
colaborador de Wenders, inclusive em “Asas do desejo”), diálogos que buscam a
síntese entre o filosófico e o poético, o uso intenso de canções de rock e pop
na trilha sonora. Nessa obra mais recente, entretanto, Wenders não demonstra
tanta preocupação em firmar uma narrativa convencional, fazendo com que a
estrutura formal e textual do filme se configure a partir de elementos
aparentemente aleatórios (um jukebox marcando um inventário emocional das
situações da trama, direção de fotografia que investe em detalhistas e sóbrios
planos-sequências, direção de arte que acentua o caráter pictórico de
determinadas cenas). Tal concepção cinematográfica torna algumas passagens da
produção um tanto frouxas, beirando o enfadonho, mas com o tempo acabam
revelando uma interessante sintonia com o roteiro, principalmente pelo fato de
expressar a ideia do conturbado processo criativo do escritor protagonista da
obra. Assim, mesmo que a aparição repentina de Nick Cave cantando na sala do
personagem possa parecer forçada ou estapafúrdia, acaba ganhando um encantador
caráter simbólico – aliás, Cave também aparecia de forma memorável em uma das
mais famosas sequências de “Asas do desejo”. Há também na proposta artística de
“Os belos dias de Aranjuez” a intenção de colocar o espectador dentro de uma
espécie de vórtice sensorial narrativo marcado por uma atmosfera passadista e
algo nostálgica para que ele sinta a beleza e o peso de cada palavra dos
diálogos e do espectro visual da produção, desejo esse evidente nos planos
iniciais, em que a câmera “viaja” de uma grande metrópole moderna para o
ambiente árcade do retiro campestre do protagonista.
segunda-feira, maio 08, 2017
História da minha morte, de Albert Serra ***1/2
A síntese artística de “História da minha morte” (2013)
passa por uma intrincada combinação entre peculiar classicismo em termos
estéticos, atmosferas bizarras e roteiro de forte teor alegórico. O diretor
Albert Serra não facilita as coisas para o espectador – edição de pouco cortes,
longos planos-sequência fixos, a encenação distante da escola naturalista,
fotografia algo esmaecida que evoca um velho álbum de fotos. Em diversas passagens,
a ambientação evoca uma zona existencial entre o horror metafísico sombrio e um
amargo drama social. A figura mítica de Casanova apresenta uma carga simbólica
diversa daquela habitual nas várias vezes em que foi retratada em outros
relatos (cinematográficos ou não) – o personagem representa um poder
aristocrata e patriarcal opressor e perverso, em que suas ações evocam o
sexismo e a injustiça social que sempre foram inerentes dentro da trajetória
histórica da sociedade ocidental. Nesse sentido, a abordagem temática-formal de
Serra é perturbadora em sua ambiguidade, em que se pode perceber um certo tom
encantador pictórico e mesmo sensual em algumas cenas, enquanto em outras
predomina uma sexualidade brutal e um caráter de sordidez. A dubiedade aumenta
ainda mais quando Drácula entra em cena, pois nunca fica claro o real significado
de sua presença – seria uma saída libertária ou apenas a continuação de uma
outra forma de opressão? Nesse padrão de indefinição é que “História da minha
morte” vai se insinuando dentro do imaginário do espectador, como um pesadelo
marcado pela beleza e pelo desconforto.
sexta-feira, maio 05, 2017
Velozes e furiosos 8, de F. Gary Gray ***
Ali pela metade da franquia, em seu capitulo 5, “Velozes e
furioso” adotou uma mudança conceitual na sua síntese temática-formal – é provável
que seus produtores perceberam a ascensão comercial dos filmes de super-heróis
da Marvel e daí resolveram adotar estética e roteiros cada vez mais exagerados.
Ainda que oportunista, tal mudança até teve a sua eficácia. “Velozes e furiosos
8” (2017) é a cristalização definitiva dessa alteração de paradigmas. Assim,
enquanto o primeiro filme de 2001 era um policial de ação movido a perseguições
automobilísticas, essa produção mais recente é uma aventura alucinada, beirando
o delirante, envolvendo muita pancadaria e perseguições que extrapolam os
simples carros envenenados, envolvendo também bolas de demolição, tanques de
guerra e até um submarino nuclear! Toda essa extrapolação barulhenta, pelo
menos, é bem coreografada em sua encenação, rendendo algumas sequências
memoráveis. O roteiro é um misto picareta e quase surreal de clichês do gênero
ação, toques de ficção científica barata e sentimentalismo moralista que chega
a ser engraçado pela sua cara-de-pau. Aliás, as cenas finais, de um churrasco
de celebração de amigos exaltando valores religiosos e familiares, depois de
mais de duas horas repletas de mortes e destruição, são a síntese exata do
espírito “sem noção” do filme.
quarta-feira, maio 03, 2017
Pitanga, de Camila Pitanga e Beto Brant ***
Alguns dias atrás, um amigo meu comentou um fato curioso (e
assustador) para mim – ele estava em um evento social, cujo predomínio era de
pessoas entre 30 e 35 anos, todos de classe média, e em determinado momento boa
parte deles entrou em uma animada discussão “cultural” onde se vangloriavam de
nunca terem lido um livro na vida (claro, fora aqueles que foram obrigados a
ler para se formar em suas respectivas faculdades). No mesmo dia em que fiquei
sabendo de tal fato, fui ao cinema assistir ao documentário brasileiro “Pitanga”
(2016). Nas sequências iniciais do filme, o foco fica no ambiente familiar do
protagonista Antônio Pitanga, e até se fica com a impressão de que o que
predominará na produção seria um incômodo tom hagiográfico do cinebiografado.
Tal impressão, entretanto, acaba se mostrando enganosa com o desenrolar da
narrativa. Através de trechos dos principais filmes dos quais Pitanga
participou e dos depoimentos de vários nomes fundamentais do meio artístico e intelectual
do Brasil dos últimos 60 anos, o que o documentário dirigido por Camila Pitanga
e Beto Brant faz não é apenas o relato da trajetória pessoal e profissional de
Antônio Pitanga (o que por si só já seria algo fascinante), mas também o
inventário existencial de toda uma geração extraordinária de grandes nomes do
cinema, música, literatura, teatro, política, religião e outros meio de
expressão cultural. A grande profusão de depoentes pode até parecer exagerada,
mas na realidade tem a função de mostrar a riqueza e diversidade artística e
intelectual de um certo imaginário cultural-filosófico tipicamente brasileiro.
O contraste entre a obtusidade dos rapazes contemporâneos mencionados no início
desse texto e o fervilhante complexo de ideias e sentimentos expressos em “Pitanga”
ajuda a explicar o nosso atual conturbado e deprimente panorama
político-social.
terça-feira, maio 02, 2017
A morte de Luís XIV, de Albert Serra ***1/2
O cinema praticado pelo diretor Albert Serra em “A morte de
Luís XIV” (2016) parece algo fora do tempo e do espaço. O cineasta catalão
abdica de efeitos digitais e de uma edição baseada em cortes em nome de uma
estética que sintetiza passadismo, morbidez e cientificismo. Assim, alia uma
encenação marcada pelo rigor naturalista, direção de arte que sintetiza
requinte e crueza e uma fotografia de claras influências pictóricas. São
diversos os momentos em que o espectador tem a impressão de estar assistindo a
um quadro vivo renascentista ou gótico, tamanho o detalhismo das composições
cênicas do filme. Todas essas escolhas formais, juntas a uma narrativa de
implacável ritmo lento, mostram uma sintonia notável com a proposta temática do
roteiro, que em seu subtexto traz uma leitura cruel e irônica sobre a aliança
entre poder político e obscurantismo religioso, a combinação existencial
fundamental do absolutismo (e que de certa forma ainda influencia o status quo
mundial). A agonia do protagonista, expressa em riquezas de nuances sensoriais,
contrapõe de maneira assustadora a visão aristocrática de uma legitimação
divina que justifique uma sociedade marcada por brutais diferenças de classes.
sexta-feira, abril 28, 2017
Paterson, de Jim Jarmusch ***1/2
O cinema autoral do diretor norte-americano Jim Jarmusch
parte, pelo menos, de dois preceitos – um temático, em que as suas tramas giram
em torno de personagens outsiders, que parece trafegar em um universo fora do
tempo e do espaço; e outro estético, em que a narrativa se baseia em recursos
minimalistas, valorizando silêncios expressivos e atmosferas de certa distância
emocional e ironia amarga. “Paterson” (2016) é um exemplar enfático do modus
operandi de Jarmusch, ainda que revele em determinadas passagens uma queda por
um certo convencionalismo. A poesia baseada no cotidiano é o grande tema da
trama, e o estilo peculiar e rigoroso do cineasta cai como uma luva dentro
dessa concepção de conteúdo. A grande fonte de inspiração do protagonista
Paterson (Adam Driver), poeta e motorista de ônibus, vem da discreta e acurada
observação que faz dos pequenos gestos e dramas que ocorrem à sua volta na sua
rotina profissional e pessoal, com direito, por vezes, ao que o inesperado e o
insólito entrem em cena. Roteiro e encenação demonstram uma bela síntese de
sensibilidade e precisão na maneira como delineiam as nuances de seus
desdobramentos – vários detalhes da vida de Paterson são apenas sugeridos,
principalmente no que diz respeito ao seu passado e às suas motivações, e a
grande sacada para a forte empatia do personagem e do próprio filme está
justamente nessas “pontas soltas” da trama. O segredo da perenidade da
filmografia de Jarmusch está justamente nessa estranha e encantadora combinação
entre o banal e o misterioso.
quinta-feira, abril 27, 2017
Joaquim, de Marcelo Gomes **1/2
A sequência de abertura de “Joaquim” (2017) entrega logo de
cara aqueles que são os principais problemas do filme do diretor Marcelo Gomes:
um roteiro repleto de excessos textuais e pouco sutil que atravanca a
narrativa. Em termos de teoria do que era para ser a sua concepção
estética-temática, a produção era até bem promissora – sob uma perspectiva
naturalista e vigorosa, seria recriada a história do herói nacional Tiradentes
antes da sua definitiva tomada de consciência sócio-política em relação às
mazelas existenciais do Brasil colônia. Em certas sequências, pode-se até
perceber que tais intenções conseguem ser colocadas em prática, principalmente
pela encenação por vezes de forte dinâmica, pela ótima direção de arte e pela
intensidade da atuação de Júlio Machado no papel do protagonista. Ocorre,
entretanto, que Gomes permite que paire por diversos momentos no filme uma
certa atmosfera solene e artificial, como se “Joaquim” tivesse um caráter
institucional destinado a exibição em escolas e afins, tamanha a prolixidade
desnecessária de alguns diálogos e a caracterização caricata de algumas
situações da trama. O subtexto é jogado na cara do espectador sem muita
cerimônia, quando o mais acertado seria valorizar o aspecto imagético para
realçar a visão de mundo da trama. Ou seja, chega a parecer em algumas
sequências que se está assistindo a alguma minissérie de fundo histórico da
Globo. Tais equívocos da produção chegam a ser surpreendentes, pois Gomes já
tinha mostrado em trabalhos anteriores um domínio de linguagem cinematográfica
baseada em fascinantes nuances, vide filmes memoráveis como “Cinema, aspirinas
e urubus” (2004), “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2009) e “Era uma
vez eu, Verônica” (2012).
terça-feira, abril 25, 2017
As falsas confidências, de Luc Bondy **
Adaptação para o cinema de uma peça teatral, “As falsas
confidências” (2016) não resolve de maneira satisfatória a conexão entre os
dois meios de expressão artística. As intenções estéticas do diretor Luc Bondy
até são ousadas, principalmente por apostar numa encenação e numa atmosfera que
busca um caráter mais libertário e que se afaste do mero realismo, dando para a
produção um interessante elemento fora do tempo e do espaço. Além disso, o
elenco conta com algumas atuações expressivas e carismáticas. Falta para o
filme, entretanto, um maior rigor na sua condução narrativa no sentido de
conseguir gerar alguma tensão e interesse para o espectador. Os fatos se
sucedem na tela dentro de uma síntese formal-temática amorfa e banal, impressão
essa acentuada por um roteiro excessivamente frívolo e previsível.
segunda-feira, abril 24, 2017
John From, de João Nicolau ***1/2
A analogia pode soar forçada e simplista para alguns, mas a
produção portuguesa “John From” (2015) faz pensar na hipótese bastante
imaginária de que alguma produção clássica oitentista dirigida por John Hughes fosse
refilmada sob a batuta surrealista de Luis Buñuel. Em um primeiro momento, a
concepção estética-temática dessa produção do cineasta João Nicolau se vincula
a um estilo realista, ao retratar o cotidiano da adolescente Rita (Júlia Palha)
marcado pelos dilemas e delícias inerentes à sua idade. A partir do momento em
que a personagem se descobre apaixonada pelo vizinho mais velho, de forma
progressiva elementos de cinema fantástico vão se inserindo de maneira sutil na
narrativa. É como se o imaginário da garota se tornasse a principal perspectiva
daquilo ao que o espectador assiste. Nesse sentido, signos do mundo
contemporâneo se misturam a referências passadistas com uma naturalidade
insólita e encantadora, além de nuances do roteiro que poderiam soar
estapafúrdias acabam adquirindo uma estranha e coerente lógica. Nesse sentido, a
obsessão com fatos históricos e povos exóticos que permeiam a trama aludem ao
conturbado passado colonialista de Portugal. Dentro desse particular ideário
artístico-existencial, é um dado fundamental de “John From” a ambígua encenação
encadeada por Nicolau, que se vale de uma fascinante síntese entre o libertário
e o solene.
quinta-feira, abril 20, 2017
Martírio, de Vincent Carelli ****
Se em “Corumbiara” (2009), obra anterior do diretor Vincent
Carelli, a narrativa convencional e apenas correta não acompanhava a
contundência de sua temática, em “Martírio” (2016) esse descompasso desaparece,
tendo por resultado uma obra inquietante e muito bem resolvida em termos
estéticos e existenciais. E isso fica evidente logo nas primeiras sequências do
filme, em que o brilhante jogo de edição contrapõe o discurso preconceituoso de
políticos e da mídia oficial em relação à questão indígena com a realidade
desoladora dos nativos. Tal engenhoso recurso narrativo também serve para
estabelecer como o trabalho de Carelli transcende a simples reportagem informativa,
deixando claro que o gênero do documentário cinematográfico tem como uma de
suas funções principais oferecer uma perspectiva humanista e artística que vai
além da abordagem jornalística “imparcial” da grande imprensa. Para o diretor,
não basta que a sua obra se limite a uma descrição cronológica e minuciosa de
fatos – na verdade, o que ele se propõe é jogar o espectador dentro de uma
perturbadora jornada histórica e sensorial sobre a trajetória de sistemática
dizimação física e cultural de povos indígenas no Brasil a partir do relato das
experiências traumáticas sofridas pelo grupo Guarani Kaiowá. Para isso, Carelli
constrói uma narrativa que se vale de recursos variados (relato histórico,
registro etnográfico, depoimentos, filmagens amadoras, farto material de
arquivo audiovisual, perspectiva emocional e intimista) e lhes dá uma unidade
artística admirável e também desconcertante, pois se há momentos de intensa
melancolia, principalmente nas entrevistas com os indígenas a descreverem seus
calvários, e até mesmo assustadores (com destaque para as falas hipócritas de
latifundiários e políticos), há também sequências em “Martírio” que trazem um
comovente encanto pelo dimensão cultural de rezas e danças nos rituais
indígenas.
quarta-feira, abril 19, 2017
Virei um gato, de Barry Sonnelfeld **
O cineasta norte-americano Barry Sonnelfed nunca chegou a
ser propriamente um diretor de traço autoral próprio, mas dentro do seu padrão
convencional e comercial foi responsável por algumas produções memoráveis e
divertidas como “A família Addams 2” (1993) e “O nome do jogo” (1995). Dessa
forma, “Virei um gato” (2016) traz uma certa impressão de decepção. Não que a
sua premissa de roteiro seja especialmente promissora ou original, mas o
tratamento formal e a narrativa concebidos por Sonnelfed são tão genéricos e destituídos
de vigor criativo que mais faz pensar de que se trata de uma obra de um
tarefeiro qualquer de Hollywood do que o trabalho de um profissional veterano e
com algum talento. Por vezes, dá até para dar umas risadas com a cretinice de
algumas situações da trama, mas a impressão final é de que se trata de muito
pouco para alguém como Sonnelfeld.
terça-feira, abril 18, 2017
Cães selvagens, de Paul Schrader ***1/2
Não é muito frequente que um filme de Paul Schrader apareça
nos cinemas brasileiros. E dá para entender o motivo – sua carreira como
diretor é errática e imprevisível, ainda que tenha uma quantidade considerável
de obras memoráveis. “Cães selvagens” (2016) é uma demonstração enfática do
caráter conturbado da arte de Schrader. Ao invés das rigorosas narrativas
bressorianas de “O gigolô americano” (1980) e “O acompanhante” (2007), nessa
produção mais recente o cineasta envereda por uma concepção mais anárquica e
delirante, como se quisesse evocar uma longa trip alucinada movida a cocaína e
crack. Ainda assim, seu direcionamento estético nunca perde a coerência existencial
e um forte traço autoral – ainda que se abuse de truques gráficos e de uma
direção de fotografia de cores estouradas, além de uma barulhenta trilha sonora
baseada em temas rock e eletrônico, paira sobre a narrativa e a atmosfera do
filme um certo classicismo que impede que tudo caia na mera estilização
estéril. Mesmo o tom over das atuações do elenco, com destaque para a
interpretação extraordinária de Willem Dafoe, consegue se enquadrar de maneira
precisa dentro do conceito ambíguo da obra. As escolhas formais de Schrader
acentuam com sensibilidade e humor o tom misto de melancolia e sordidez do
roteiro, que faz um retrato vigoroso e irônico da rotina de marginais e
perdedores. Nesse sentido, as sequências finais de “Cães selvagens” são
exemplares na forma com que sintetizam o particular ideário-artístico e temático
arquitetado pelo diretor e também por evidenciarem a moral difusa e hipócrita do
“american way of life”.
segunda-feira, abril 17, 2017
Souvenir, de Bavo Defume ***
Por debaixo das aparentes frivolidades e breguices de “Souvenir”
(2016) há um interessante exercício de estética e ironia por parte do diretor
Bavo Defume. A produção recicla clichês de melodramas e musicais, com direito a
citações e referências diretas a clássicos do gênero, e os recria num contexto
artístico de certa originalidade. Direção de arte e fotografia evocam uma
insólita atmosfera entre o realista e o camp, fazendo lembrar algumas obras
marcantes de Jacques Demy, principalmente “Os guarda-chuvas do amor” (1964). A
própria atuação de Isabelle Huppert no papel da protagonista Liliane,
alternando sobriedade e exagero nas doses certas, se mostra em sintonia com
essa proposta estética e formal de Defume.
quinta-feira, abril 13, 2017
Paraíso, de Andrei Konchalovsky **1/2
O diretor russo Andrei Konchalovsky tem uma filmografia
marcada por um rigoroso academicismo narrativo. Dentro dessa opção artística,
sua carreira não apresenta grandes arroubos criativos, ainda que seja um
competente artesão cinematográfico e por vezes tenha apresentado algumas obras
memoráveis como “Os amantes de Maria” (1984) e “Gente diferente” (1987). Sua
produção mais recente, “Paraíso” (2016), versa sobre a perseguição a judeus na
2ª Guerra Mundial e, em um primeiro momento, até sugere algumas ousadias
estéticas, principalmente nas sequências em que evoca técnicas documentais,
onde os principais personagens falam diretamente com a câmera. Tais recursos,
entretanto, aos poucos vão se esvaindo na sua capacidade de gerar efetiva
tensão dramática e mesmo uma convincente densidade psicológica para os
personagens. Ainda que detalhes formais como fotografia e direção de arte revelem
forte cuidado em suas respectivas concepções, narrativa e atmosfera se mostram
excessivamente solenes e previsíveis, fazendo com que “Paraíso” se configure
como um trabalho derivativo dentro do gênero ao qual pertence.
quarta-feira, abril 12, 2017
O ornitólogo, de João Pedro Rodrigues ***1/2
Uma intrigante simbologia permeia toda a narrativa de “O
ornitólogo” (2016). Nas sequências iniciais, em que o protagonista Fernando (Paul
Hamy) estabelece uma rotina de silenciosa e rigorosa observação de pássaros no
meio de uma floresta, o diretor João Pedro Rodrigues utiliza um registro
audiovisual típico do estilo naturalista – fotografia e edição evocam trejeitos
de cinema documental, encenação remete à escola realista, há um certo
distanciamento emocional na abordagem temática, trilha sonora musicada praticamente
ausente. Tais opções de linguagem cinematográfica revelam sutilmente um
universo marcado pelo predomínio da ciência e da razão. Quando Fernando
acidentalmente se perde na floresta, ambientação e atmosfera existencial da
obra se transformam radicalmente, como se o personagem tivesse ultrapassado
para uma dimensão paralela. Nesse novo contexto de teor fantástico e delirante,
surgem figuras e situações estranhas e perturbadoras, como as amigas chinesas
adeptas de um catolicismo obtuso, um grupo de nativos que celebram rituais
pagãos, amazonas fora do tempo e do espaço, um pastor de ovelhas mudo e gay,
até mesmo um pombo branco que parece configurar uma espécie de espírito da
floresta. A conexão entre “O ornitólogo” e os conflitos e dilemas do mundo
contemporâneo é claro, ainda que tal ligação se estabeleça por caminhos
insólitos – quanto mais Fernando, agnóstico e homossexual, se embrenha na
floresta, mais ele se confronta com o atavismo e a tradição opressores de um
lugar marcado pelo misticismo obscurantista. Ao avançar por trilhas e matos,
sua individualidade e sua psique vão se dissolvendo aos poucos num assustador
processo de “sublimação”. Ou seja, a metáfora exata a retratar a retomada de
uma sufocante religiosidade no mundo contemporâneo. Nesse sentido, “O
ornitólogo” se irmana com outra extraordinária obra de temática semelhante, “A
bruxa” (2015), em que truques e efeitos habituais do gênero horror são
transformados em valiosos recursos na composição de narrativas de forte caráter
libertário.
terça-feira, abril 11, 2017
O mundo fora do lugar, de Margarethe Von Trotta **1/2
Há pelo menos um mérito considerável por parte da diretora alemã
Margarethe Von Trotta na realização de “O mundo fora do lugar” (2015) – diante de
uma trama genérica típica do gênero melodrama, a abordagem da cineasta é
marcada pela sobriedade emocional e pela elegância formal. Mas também nada que
vá além disso, pois apesar da narrativa se desenvolver de maneira agradável e
sem maiores sobressaltos, falta algum elemento artístico que dê alguma
transcendência à obra. Ou seja, é um filme fácil de ver, mas também fácil de
esquecer. E o que no caso de Von Trotta acaba sendo algo frustrante,
principalmente se lembrarmos da contundência estética e temática de sua
produção anterior, “Hannah Arendt” (2012), um dos melhores trabalhos
cinematográficos recentes a discorrer sobre a 2ª Guerra Mundial.
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