quarta-feira, maio 16, 2007

Scoop - O Grande Furo, de Woody Allen ****



Como em todos os filmes desses últimos anos de Woody Allen, “Scoop” não apresenta qualquer novidade dentro do universo do diretor nova-iorquino. Ou seja, quem não gosta do cara continuará não tendo motivos para mudar de opinião. Talvez, entretanto, esse seja um dos grandes baratos do seu cinema. A obsessão de Allen em ficar retrabalhando os seus velhos cliclês revelam muito mais uma postura autoral coerente do que falta de criatividade.

Em “Scoop”, temos uma trama policial em tom de farsa que remete diretamente a outros filmes de Woody Allen como “Misterioso Assassinato em Manhattan” e “O Escorpião de Jade”, o próprio Allen no eterno papel de mal-humorado sarcástico, a trilha sonora repleta de jazz, uma fotografia sóbria e elegante. O diretor pega todo esse material já tão conhecido do público e mesmo assim consegue dar uma abordagem vigorosa e refrescante. Por mais que estejamos acostumados com seu estilo, ainda sempre há algo que consegue nos surpreender, desde alguma brilhante tirada cômica de Sid Waterman (Woody Allen), o veterano e desastrado mágico metido a detetive, até a impagável gozação feita com a figura da morte, constantemente ludibriada pelo falecido jornalista picareta Joe Strombel (Ian McShane).

“Scoop” certamente não está no mesmo nível criativo de “Match Point”, o filme imediatamente anterior de Woody Allen. Mesmo assim, é uma obra de peso, figurando tranqüila entre as melhores produções exibidas este ano nos nossos cinemas.

Impulsividade, de Mike Mills ***1/2



“Impulsividade” pode geral algum preconceito pela sua origem. Afinal, faz parte do circuito independente norte-americano, que geralmente produz obras pretensiosas e chatinhas. A excelente trilha sonora, composta basicamente por belas canções da genial banda norte-americana The Polyphonic Spree (uma sensacional mistura de psicodelia e cantos de corais), pode acentuar mais essa impressão de que o filme esteja preso a este nicho. A verdade, entretanto, é que “Impulsividade” transcende muito ao mundinho indie. É um filme que impressiona pela crueza e sensibilidade com que aborda a sua temática, no caso, um jovem com distúrbios de hiper-atividade. O diretor Mike Mills evita as soluções fáceis, fazendo com que a trajetória de Justin Cobb (Lou Taylor Pucci) seja marcada por várias dificuldades e dilemas típicos de um adolescente tão complicado. Mesmo a forma com que as drogas estimulantes são mostradas revela uma franqueza admirável. E Mills também opta sabiamente por um estilo de filmas mais clássico, não caindo em uma edição video-clip tão comum para este tipo de produção e que com certeza banalizaria o seu filme.

Com a Bola Toda, de Rawson Marshall Thurber ****



É claro que “Com a Bola Toda” é uma comédia marcada por vários momentos grosseiros e escatológicos (todos magníficos, por sinal). Mas tentar reduzir o mesmo a um simples besteirol é um equívoco. Ao realizar um filme que tem como foco principal um torneio de queimada, o diretor Rawson Marshall Thurber obtém um resultado fabuloso. Ao mesmo tempo que as partidas da “modalidade” esportiva em questão são marcadas por um humor exagerado, é inegável que em tais momentos Thurber consegue obter uma dinâmica eletrizante, fazendo de “Com a Bola Toda” um dos melhores filme de temática esportiva dos últimos anos. E é claro que não dá para esquecer do genial documentário inserido dentro do filme, em que se ensina como se joga queimada, numa excelente sacanagem/homenagem a estética anos 50.

Por trás da sua comicidade escancarada e bufona, “Com a Bola Toda” traz nas suas entrelinhas uma ironia toda especial em relação a temas como superação pessoal e preconceitos em geral. O filme usa e abusa de clichês temáticos, mas também os subverte com um olhar ácido e bem humorado. Além disso, as interpretações de Ben Stiller e Vince Vaughn acentuam ainda mais o espírito anárquico do filme. Stiller é excessivo nos seus trejeitos e diálogos, mas essa atuação over cai como uma luva para White Goodman, o hilário e ridículo “vilão”, enquanto Vaughn está tão a vontade no papel do acomodado e boa praça Peter LaFleur que parece que nem está atuando.

Filmes da Semana (Cotações de 0 a 4 estrelas)



Ping-Pong da Mongólia, de Nig Hao ***1/2
Homem-Aranha 3, de Sam Raimi ***
A Grande Jornada, de Raoul Walsh ***1/2
Near Dark, de Kathryn Bigelow ***1/2
Kin-Dza-Dza, de Georgi Daneliya *1/2
Brainstorm, de Douglas Trumbull ***1/2
O Último Pistoleiro, de Don Siegel ****
Chino, de John Sturges ****

domingo, maio 13, 2007

Sombras do Passado, de Florian Gallenberger **



Filmes indianos não costumam chegar com muita freqüência aos nossos cinemas. Dessa forma, é natural que inicialmente uma obra como “Sombras do Passado”, apesar de dirigida por um alemão, chame a atenção. A direção de arte e a fotografia exploram com eficiência elementos culturais típicos da Índia, como comportamento, religiosidade, vestuário, arquitetura. Mas todo esse aspecto exótico parece mais um truque para impressionar olhos estrangeiros, pois na sua essência “Sombras do Passado” é um filme que frustra imensamente pelo seu convencionalismo formal e temático. É apenas mais uma história de amor proibido que não se diferencia em nada de outras milhares que assistimos nos cinemas. A condução do filme por parte do diretor Florian Gallenberger é tão burocrática que em alguns momentos temos a sensação de estar assistindo a uma novela da Globo.

Em momentos como esse é que se ressaltam ainda mais as qualidades de produções impactantes como “Apenas Um Beijo”, de Ken Loach, obra vigorosa que oferece uma abordagem muito mais vivaz e franca para o tema do amor proibido do que esse insosso “Sombras do Passado”.

Pixote In Memorian, de Felipe Briso, Gilberto Topczewski e Edu Abad **1/2


Se fôssemos fazer uma lista dos 10 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, é quase certo que um dos escolhidos seria “Pixote”, de Hector Babenco. Nessa obra de 1981, Babenco dirigiu com maestria uma obra de forte conteúdo social, de expressivas tintas documentais, sem abrir mão de uma dinâmica cinematográfica notável que remetia até ao gênero policial. O documentário “Pixote In Memorian” pretende fazer uma revisão sobre o filme, abordando dois aspectos: os detalhes de sua realização e a vida do ator Fernando Ramos da Silva que interpretou o personagem-título.

A primeira parte do documentário é até bem sucedida. As entrevistas atuais com Babenco, atores e demais profissionais envolvidos na produção de “Pixote” (além de alguns admiradores ilustres como Caetano Veloso e Nick Cave) se entrelaçam com eficiência com imagens da época, oferecendo um panorama revelador não só da obra em questão como da própria dificuldade de fazer cinema no Brasil. Os depoimentos obtidos para o documentário impressionam não só pela emoção de alguns momentos como pelo bom humor de algumas declarações e “causos” contados.

É de se lamentar, entretanto, que essa inspiração da metade inicial de “Pixote In Memorian” não tenha se mantido na segunda parte do documentário. É claro que a história trágica de Fernando Ramos da Silva ainda é capaz sensibilizar, mas a forma com que a mesma é mostrada aborrece pelo tom meramente informativo e superficial com que é realizada.

Mesmo com essa irregularidade, “Pixote In Memorian” é um filme interessante no sentido de explorar um ramo pouco trabalhado dentro da produção documental no país que é contar a história do cinema brasileiro. Seria muito bom que aparecessem outras obras dispostas a dissecar alguns clássicos da cinematografia nacional.

O Enviado, de Nick Hamm *



É até meio difícil fazer um comentário sobre esse filme. O problema é que faz poucos dias que coloquei um post neste blog falando sobre “O Amigo Oculto”, sendo que os problemas que apontei nesse último são quase que os mesmos que observei nesse “O Enviado”. As duas obras, inclusive, contam com Robert De Niro em interpretações que certamente não entrariam na lista dos seus momentos mais expressivos. Para resumir, o que se pode dizer de “O Enviado” é que Nick Hamm não mostra o menor talento para o gênero horror. Os pretensos momentos de suspense são pífios, não apresentando qualquer tensão, enquanto que as seqüências mais explícitas (ou seja, aquelas que deveriam trazer violência, sangue e algumas escatologias) são tão comedidas a um ponto que beira o constrangedor. No final das contas, é apenas mais um filme medíocre e inspiração que não vai agradar aos fãs do terror e suspense e nem vai agradar aos neófitos em tais gêneros.

Feira das Vaidades, de Mira Nair ***



Esse drama de época baseado na obra literária homônima de William Makepeace Thackeray tem alguns aspectos bem interessantes. A começar pela requintada direção de arte que recria a Inglaterra do século XIX com uma riqueza de detalhes impressionante. A diretora indiana Mira Nair também consegue estabelecer um forte clima de sensualidade ao mostrar uma Inglaterra fascinada pelo encanto exótico da Índia colonial e também no focalizar a insinuante protagonista Becky Sharp (Reese Witherspoon). Nair também consegue desenvolver uma narrativa ágil, fazendo com nos interessamos pela trajetória conturbada de Becky, uma mulher que faz de tudo para ascender socialmente, mas que acaba esbarrando numa série de preconceitos e hipocrisias típicos da sociedade inglesa da época. O que não permite que “Feira das Vaidades” seja uma obra realmente acima da média, entretanto, é o fato de Nair acabar sucumbindo a pomposidade e ao convencionalismo que geralmente rondam o gênero do filmes de época. Falta também a “Feira das Vaidades” uma certa leveza irônica, presente no texto de Thackeray, que faz com que o filme caiu em alguns momentos num drama excessivamente sério, o que não combina muito com o espírito da obra.

Dia de Festa, de Toni Venturi e Paulo Georgieff ***1/2

Confesso que fui assistir “Dia de Festa” por questões puramente circunstanciais. Eu estava passando um domingo assistindo alguns filmes num festival que teve aqui em Porto Alegre nesse último verão, sendo que o filme em questão iria ser exibido antes de “Scoop” de Woody Allen. Era assistir “Dia de Festa” ou ficar umas duas horas matando tempo. Resolvi encarar o documentário, apesar de estar bem desconfiado, afinal o diretor Toni Venturi é o mesmo que fez o chato “Cabra Cega” e a temática não era das mais atrativas: um dia de ocupações simultâneas em alguns prédios de São Paulo por parte dos Movimento dos Sem-Teto. Vendo a produção em questão, entretanto, tive uma baita surpresa. Mesmo caindo no panfletário descarado, os diretores Toni Venturi e Paulo Georgieff realizaram uma obra ágil, marcada por um excelente trabalho de montagem que consegue conciliar com habilidade diversas ações (em essência, depoimentos, reuniões do movimento e as invasões em si) sem tornar a narrativa confusa. Em algumas seqüências, inclusive, “Dia de Festa” tem um pique de um verdadeiro filme de ação.

Independente da posição que possa ter em relação à questão do Movimento dos Sem-Teto, “Dia de Festa” é um filme que merece ser visto por suas inúmeras qualidades cinematográficas, coisa rara na decepcionante produção atual do cinema nacional.

terça-feira, maio 08, 2007

Filmes da Semana (Cotações de 0 a 4 Estrelas)


Dias Selvagens, de Wong Kar-Wai ****
Holywoodland, de Allen Coulter ***
Showgirls, de Paul Verhoeven ****
Gilda, de Charles Vidor ****
O Proscrito, de Howard Hughes e Howard Hawks **1/2

sexta-feira, maio 04, 2007

O Milagre do Candeal, de Fernando Trueba **


A marca autoral do diretor espanhol Fernando Trueba consegue ficar bem evidente em alguns momentos de “O Milagre do Candeal”, documentário realizado em Salvador, principalmente quando o cineasta retrata alguns números musicais. A força da música regional da Timbalada, associada com belas tomadas do bairro Candeal da capital baiana, tem um impacto considerável para o espectador. Ao invés de se concentrar em fazer um inventário musical da região, entretanto, Trueba quis mostrar o quotidiano dos moradores do local e os projetos sociais coordenados pelo músico Carlinhos Brown, fazendo com que “O Milagre do Candeal” em várias seqüências tenha o formato de uma espécie de propaganda institucional, tirando muito da espontaneidade e vivacidade oferecidos pelos números musicais citados acima. Se Trueba tivesse como único foco a riqueza musical mostrada no Candeal (muito superior às bobagens de axé que costumamos ouvir nas rádios e televisão) certamente teria conseguido um resultado muito mais satisfatório do que esse comercial politicamente correto que se converteu “O Milagre do Candeal”.

Mulheres Desesperadas, de Esmé Lammers **1/2


Filmes holandeses sempre me despertam atenção, pois fico esperando que possa aparecer mais um louco genial como Paul Verhoeven. Bem, esse não é o caso de Esmé Lammers, diretora desse “Mulheres Desesperadas”, mas mesmo assim o seu filme acaba se revelando uma diversão bem aprazível. A trama, quatro donas de casa que diante das dificuldades financeiras se transformam em assaltantes de banco, é meio banal e não há maiores ousadias em termos formais. Mesmo assim, o filme tem os seus atrativos: as quatro protagonistas são bem gostosinhas e há algumas seqüências realmente engraçadas. Se o espectador quiser mais que isso, entretanto, o melhor mesmo é esperar o novo do Verhoeven.

O Amigo Oculto, de John Polson ½ (meia estrela)


“O Amigo Oculto” é aquela típica produção de terror feita por pessoas que parecem não gostar do gênero em questão e para um público não muito afeito a filmes nessa linha. O resultado acaba sendo uma obra sem personalidade e brilho. A produção até pode ser bem cuidada, mas fica-se com a impressão de que falta tudo: tensão, alguma maior ousadia estética, sangue, um roteiro menos quadrado (francamente, a “surpresa” no final da trama está evidentemente anunciada lá pelo meio do filme), atores que não parecem estar ali apenas batendo ponto (nesse sentido, é desapontador ver um ator do nível de Robert De Niro participando de uma bomba dessas – chega até a ser compreensível porque ele passa o filme inteiro com aquela cara de desanimado). Na verdade, gostando ou não do gênero terror, “O Amigo Oculto” é uma decepção para qualquer platéia.

quinta-feira, maio 03, 2007

Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade ****

A primeira vez que assisti a adaptação cinematográfica de “Macunaíma” realizada por Joaquim Pedro de Andrade foi na televisão alguns anos atrás. É claro que na época gostei bastante do filme, mas só pude realmente ter uma dimensão da grandeza dessa obra recentemente ao revê-la este ano na tela grande de um cinema numa versão restaurada. Confesso que não li o livro original de Mário de Andrade, mas o engraçado é que assistindo ao filme não sentimos qualquer traço de uma herança literária. É como se tudo aquilo tivesse sido projetado originalmente mesmo para o cinema. A direção inspirada de Joaquim Pedro de Andrade dispensa formalismos acadêmicos e coerências narrativas e consegue dar à obra um delicioso clima anárquico e bem humorado. A seu favor, Andrade também teve uma direção de arte em estado de graça, que parte inicialmente de uma estética rústica e genialmente “mal feita” e chega a uma concepção delirante cheia de influências tropicalistas típicas dos anos 60 (e sem parecer datada), além de contar com um elenco repleto de interpretações marcadas por uma espontaneidade e ironia antológicas e que não caem em nenhum momento na empolação de literatura declamada ou teatro filmado.

No geral, ao se assistir essa cópia nova de “Macunaíma”, pode-se sentir um frescor e uma ousadia ausentes em 99% da produção nacional atual. É um filme que expões sem pudores e falsos intelectualismos as contradições de uma cultura que se alterna entre a sagacidade e a jequice. Essa visão não condescendente aliada à criatividade cinematográfica exuberante de Joaquim Pedro de Andrade fazem de “Macunaíma” uma obra muito mais atemporal que o próprio Cinema Novo.

Filmes da Semana (Cotações de 0 a 4 Estrelas)


300, de Zach Snyder **1/2
Marcello – Uma Vida Doce, de Mario Canale e Annarosa Morri ***
Lemming, de Dominik Moll ****
Um Céu de Estrelas, de Tata Amaral ***
O Mundo em Duas Voltas, de David Shürmann **1/2
Eureka, de Shinji Aoyama ****
Safe, de Todd Haynes ****

quinta-feira, abril 26, 2007

Stoned, de Stephen Woolley ***1/2


À princípio, “Stoned” parece uma produção tipicamente sensacionalista. Afinal, focaliza os últimos dias da vida de Brian Jones, guitarrista fundador dos Rolling Stones, defendendo, inclusive, a polêmica versão de que o músico não teria morrido devido a uma overdose, como foi divulgado na época, mas sim assassinado por um pedreiro que trabalhava na sua bela casa de campo na época. O resultado final, entretanto, transcende a mera fofoca, sendo que “Stoned” se revela como uma obra que capta com sensibilidade e ironia não só a importância dos Rolling Stones, mas também o espírito de uma época (no caso, o fim dos anos 60).

Uma ótima sacada do diretor Stephen Woolley foi fazer com que o espectador contemple a trama sob o olhar de Frank Thorogood (Paddy Considine, num momento inspiradíssimo), o tal do pedreiro homicida. Thorogood, um tarefeiro bronco e conservador, ao trabalhar na residência de Jones (Leo Gregory, idêntico ao stone tanto no visual quanto nos trejeitos), vai ficando cada vez mais deslumbrando com o quotidiano hedonista do roqueiro, recheado de sexo e drogas. O próprio comportamento do pedreiro vai se alterando ao longo da história, com o mesmo ficando cada vez mais confuso e se enredando progressivamente na jornada auto-destrutiva de Jones. O choque entre dois indivíduos tão diferentes e o conseqüente entrelaçamento de suas vidas faz com que Woolley alterne a sua narrativa entre momentos crus (ao focalizar a rotina medíocre de Thorogood e a desestruturação pessoal de Jones) e seqüências de delírio visual relacionadas a orgias e uso de drogas.

Woolley também se revela como um conhecedor entusiasmado da história dos Stones. Em “Stoned”, passagens relevantes da história da banda (como a antológica passagem pelo Marrocos e o processo de desligamento de Jones do grupo) são focalizadas com paixão e um “didatismo” que chegam até a ser comoventes para os fãs não só da banda como de rock em geral.

Junto a obras recentes como “Johnny e June”, “A Festa Nunca Termina” e “Dreamgirls”, “Stoned” parece fazer um inventário do que melhor se produziu no rock e no pop nas últimas décadas, mostrando também como a vida e a mítica de alguns dos mais importantes artistas desses gêneros estão intrinsecamente ligados à música que esse pessoal produziu.

O Planeta Branco, de Jean Lemire, Thierry Piantanida e Thierry Ragobert ***


Este documentário francês sobre a vida selvagem no Ártico não traz muitas diferenças em relação àquelas produções sobre a natureza que passam seguido no Globo Repórter, Discovery Chanel ou Animal Planet. Mesmo assim, a beleza de algumas das imagens presentes em “O Planeta Branco” impressiona pela crueza e grandiosidade. O ambiente inóspito registrado no filme é mostrado de uma forma sem concessões para agradar o público em geral. Além disso, não houve a preocupação de tentar “humanizar” a fauna focalizada, não caindo, dessa forma, naquela besteira new age de “A Marcha dos Pingüins”.

Túmulo Com Vista, de Nick Hurran **1/2



Esta comédia britânica de 2002 é aquela típica produção cômica que chega seguido aos cinemas: engraçadinha, tira um leve sarro com a fleuma dos habitantes da ilha, tem algumas espertices que a diferencia das comédias norte-americanas e conta com um roteiro bem quadradinho. “Túmulo com Vista” é até bem feitinho e tem os seus momentos engraçados, mas nunca chega realmente a empolgar. Quem gosta de “O Barato de Grace”, “Simplesmente Amor” e afins pode assistir na boa “Túmulo Com Vista”. Já para quem tem um gosto mais exigente, entretanto, o negócio é ir atrás de algumas comédias britânicas geniais como “Quinteto de Morte” ou “Todo Mundo Quase Morto”.

quarta-feira, abril 25, 2007

Em Direção ao Sul, de Laurent Cantet ***



Mesmo não apresentando maiores arroubos em termos estilístico, “Em Direção ao Sul” é um filme que reserva algumas surpresas bem interessantes. Para começar, o cineasta Laurent Cantet não abre concessões na temática do filme, mostrando franqueza e naturalidade no seu roteiro que tem como premissa inicial o turismo sexual que mulheres norte-americanas e européias realizam numa praia paradisíaca do Haiti. A partir disso, Cantet retrata sem cerimônias uma nova forma do universo feminino em encarar a própria sexualidade. O diretor prefere uma abordagem desapaixonada, não caindo nas armadilhas fáceis da pura exaltação desse comportamento ou em criar conseqüências que representariam alguma espécie de castigo moral para as personagens. O que se nas entrelinhas na verdade no filme é como esse padrão de encarar as relações amorosas se choca com concepções antigas de paixões idealizadas e românticas, o que fica evidenciado no conflito entre a cética e irônica Ellen (Charlotte Rampling) e a sonhadora e carente Brenda (Karen Young). Nesse sentido, é provável que os admiradores de novelas televisivas ou daquelas comédias água-com-açúcar com a Meg Ryan fiquem chocados com a visão seca e ácida sobre o amor de “Em Direção ao Sul”. A cena, por exemplo, em que a cinqüentona Ellen enumera os motivos que a fazem não se casar impressiona pela acidez e crueza de seus comentários.


Laurent Cantet também consegue resultados muito bons na própria forma com que o Haiti é utilizado como pano-de-fundo para a trama, variando entre um registro de tons luminosos e sensuais para as seqüências de praia e um estilo quase documental ao focalizar a miséria e violência presentes nos momentos da história que se passam na cidade próxima ao litoral.

terça-feira, abril 24, 2007

Free Zone, de Amos Gitai *



Antes de comentar sobre “Free Zone”, tenho a dizer que sempre gostei dos filmes do cineasta israelense Amos Gitai. Produções como “Laços Sagrados”, “O Dia do Perdão” e “Kedma” são obras vigorosas no seu rigor estético e na visão contundente sobre questões problemáticas como fundamentalismo religioso e conflito entre árabes e judeus. Dessa forma, afirmo tranqüilamente que “Free Zone” é disparado o seu pior filme em todos os sentidos possíveis. Formalmente, é uma produção que parece preguiçosa, apoiando-se basicamente em planos seqüências sem maiores brilhos. A parte temática, entretanto, é ainda pior. Gitai tem a pretensão de fazer do seu roteiro uma espécie de metáfora da falta de entendimento entre árabes e judeus, mas a execução dessa idéia é completamente equivocada, pois as concepções ideológicas do diretor ficam tão explicitadas em situações e diálogos que acabamos tendo a sensação no final do filme que não sobrou qualquer espaço para reflexão sobre o que acabamos de assistir.

Acredito que o maior motivo para que “Free Zone” tenha dado tão errado é o fato de que Gitai desejou um caráter mais “acessível” para o filme (o que fica evidenciado pela presença de Natalie Portman em um dos papéis principais) e acabou sacrificando muito do seu estilo próprio de trabalhar em nome desse objetivo. O resultado é um filme sem personalidade e tremendamente enfadonho e que provavelmente não atraiu novas platéias e desagradou boa parte dos seus antigos admiradores.

Escola do Riso, de Mamoru Hosi ***1/2


Originalmente, “Escola do Riso” era uma peça teatral focada exclusivamente na figura de dois personagens, um censor e um escritor de comédias, tendo como pano de fundo histórico o Japão do período da II Guerra Mundial. A origem de dramaturgia até que fica evidente em alguns momentos da adaptação para as telas, mas o que realmente surpreende no filme em questão é o fato do diretor Mamoru Hosi ter conseguido dar um acabamento perfeitamente cinematográfico para o material que tinha em mãos, sem que a obra caia no puro teatro filmado. Mesmo com as maiorias das cenas filmadas numa sala e se utilizando ostensivamente de dois atores apenas (na pele dos personagens acima mencionados), Mamoru consegue obter um resultado fascinante, com fotografia e montagem criando climas que vão do opressivo ao cômico com uma naturalidade impressionante. Além disso, o cineasta preserva com sensibilidade a temática libertária da peça original, uma bela parábola sobre o conflito da criatividade artística e a repressão política, sem cair no panfletário e nem em sentimentalismos excessivos.

segunda-feira, abril 23, 2007

Antes Só do Que Mal Acompanhado, de John Hughes ***1/2


Esse é um típico clássico da Sessão da Tarde que parece que não perdeu nada do seu frescor inicial. Pelo contrário. O filme melhora a cada revisão, sendo que percebemos nessas oportunidades como John Hughes foi realmente um dos nomes mais representativos do cinema norte-americano dos anos 80 e 90. Em “Antes Só do Que Mal Acompanhado”, nada parece excessivo: a progressão da trama ocorre com uma naturalidade impressionante, com o relacionamento entre o metódico Neal (Steve Martin) e o anárquico Del (John Candy) se desenvolvendo e oscilando entre o conflito entre personalidades tão díspares e o sentimento de união que aos poucos vais se prevalecendo. Por mais clichê que possa parecer tal relacionamento, a verdade é que Hughes faz o mesmo funcionar de uma forma incrivelmente espontânea. Boa parte das seqüências cômicas representa algumas das mais engraçadas dentro das comédias típicas dos anos 80, e mesmo nos momentos fortemente sentimentais do filme o espectador não consegue ficar impassível (nesse sentido, é impossível negar que Del seja um dos personagens mais melancólicos da história recente do cinema).

A Vida Secreta das Palavras, de Isabel Coixet **1/2


Quando assisti ao trabalho anterior de Isabel Coixet, “Minha Vida Sem Mim” (2003), o que realmente me chamou a atenção foi o desempenho sensacional de Mark Ruffalo. No meio de uma obra apenas regular e até mesmo um pouco afetada, a atuação de Ruffalo dava uma surpreendente força para a narrativa, oferecendo tensão e paixão para uma trama que não oferecia maiores sobressaltos. E aí que se encontra o grande problema de “A Vida Secreta das Palavras”: não há nem mesmo um Mark Ruffalo para dar uma dimensão maior ao filme, além de trazer tudo aquilo que já desagradava em “Minha Vida Sem Mim” – a narração excessivamente literária e que explicita as razões da obra, a sensibilidade “fake” e sentimentalismos manipuladores, a atuação catatônica de Sarah Polley (e que aqui encontra um “par ideal” em Tim Robbins, num registro repleto de expressões apalermadas). Isso sem falar que o filme apresenta uma lógica masoquista/conservadora do tipo “eu te amo tanto pelo teu sofrimento” que chega a ser patética.

“A Vida Secreta das Palavras” não pode ser considerado um desastre por uma certa originalidade de Coixet em saber explorar as possibilidades visuais da plataforma petrolífera onde se passa boa parte da trama, sendo que a cineasta consegue obter algumas boas tomadas. Mas isso não chega a compensar tanto a irritação pela afetação chic de Coixet, típica de várias produções “sensíveis” desse começo de milênio.

Filmes da Semana (cotações de 0 a 4 estrelas)



Cartola, de Hilton Lacerda e Lírio Ferreira ***
O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia ***1/2
Sunshine – Alerta Solar, de Danny Boyle ***1/2
Pepping Tom, de Michael Powell ****
Medo e Delírio em Las Vegas, de Terry Gillian ****
Wittgenstein, de Derek Jarman ***1/2
Crime à Meia-Noite, de Chester Erskine ***
Louca Escapada, de Steven Spielberg ****
American Pop, de Ralph Bakshi ****

quinta-feira, abril 19, 2007

Apenas Um Beijo, de Ken Loach ****


O comentário mais comum que aparece quando o nome do cineasta britânico Ken Loach vem à tona é o fato do mesmo colocar nos seus filmes temas de conteúdo social. É claro que isso é verdade, mas reduzir o referido diretor para apenas esse aspecto é injustamente reducionista. Afinal, Loach é um artista com um domínio impressionante da linguagem cinematográfica. Por mais espinhosos e crus que as temáticas dos seus filmes possam parecer, na grande maioria de tais produções sempre predomina uma narrativa ágil e repleta de momentos impactantes, tanto pela tensão de algumas seqüências quanto pelo humanismo e ternura de outras cenas.

Todo esse universo particular cinematográfico de Ken Loach está presente em “Apenas Um Beijo”, com o cineasta provando que sempre é capaz de surpreender o espectador. Isso fica perfeitamente evidente na abordagem franca e libertária que Loach tem sobre uma das premissas mais batidas na história do cinema: o amor “proibido” de um casal de namorados. No caso do filme, cuja trama se passa em Glasgow, a relação amorosa entre o muçulmano Casim (Atta Yaqub) e Roisin (Eva Bisthistle) é repudiada tanto pela família do rapaz quanto por parte do círculo de amizades e profissional da garota. O que impressiona na visão de Ken Loach, entretanto, é que o mesmo desconsidera a tradicional concepção “Romeu e Julieta” para esse tipo de trama, fazendo com que o seu par de protagonistas exponha o ridículo de preceitos religiosos e preconceitos sociais e raciais que parecem estar fora de sintonia com o mundo atual. Na conclusão de “Apenas Um Beijo”, Casim e Roisin simplesmente ignoram as velhacarias que se escondem sob o manto da “tradição” e do “respeitável” e ficam juntos, sem que seja necessário que o roteiro apele para uma tragédia ou algo parecido. Essa naturalidade com que Loach enquadra a história de amor do filme é fascinante, fazendo com que “Apenas Um Beijo” esteja a léguas de distância dos ideais ultrapassados de romantismo de séculos atrás e do sentimentalismo barato de novelas e afins, retratando tanto o amor como o próprio sexo num patamar muito mais de acordo e verdadeiro com o mundo contemporâneo.

A Grande Final, de Gerardo Olivares ***



Na tradição do cinema iraniano e outras cinematografias orientais contemporâneas, “A Grande Final” é uma obra que resgata alguns dos princípios básicos da escola neo-realista: registro visual com influências documentais, presença de atores amadores, temática de forte conotação social ou quotidiana. E apesar de não trazer grandes novidades, é um filme que encanta pelo surpreendente bom humor ao retratar o impacto da final da Copa do Mundo de 2002 em três localidades inóspitas e selvagens ao redor do mundo, sendo bem sucedido também ao conseguir retratar com fidelidade características marcantes de tais regiões como o preconceito racial, o fundamentalismo religioso e a vida nômade. O que surpreende o espectador, principalmente aquele ocidental, é o fato de que, dentro de uma aparente desorganização e desconforto e com pessoas que apresentam valores tão diferenciados, um evento como um jogo de futebol consegue mobilizar e até mesmo unir grupos de pessoas tão heterogêneos.

terça-feira, abril 17, 2007

Um Bando à Parte, de Jean-Luc Godard ****



O fato da produtora de Quentin Tarantino ter o nome de “Band à Part” representa muito mais que uma simples homenagem. Afinal, Tarantino talvez seja o cineasta que mais se aproxima do que representa o melhor do cinema de Jean-Luc Godard, cujo esse “Um Bando à Parte” é um dos grandes pontos altos da sua carreira.

Em “Um Bando à Parte”, tem-se o ápice da primeira fase da cinematografia de Godard, quando o conteúdo político não havia tomado conta da sua temática. Dessa forma, o cineasta usa e abusa do seu genial estilo original, onde combinava uma série de referências dos policiais B norte-americanos filtrados com uma ótica muito particular. Para Godard, muito mais importante do que os seus roteiros em si eram as possibilidades visuais e de edição que eles podiam proporcionar. Valoriza-se como nunca a estética dos movimentos (as “mortes” geralmente têm uma coreografia genialmente “fake”), além de um trabalho de montagem frenético e que até hoje é referência para diretores em todo mundo.

segunda-feira, abril 16, 2007

Noel – O Poeta da Vila, de Ricardo Van Steen ***



Essa cinebiografia de um dos maiores nomes da música brasileira é bastante irregular, principalmente em determinadas recriações dramáticas de eventos da vida do músico. Tais seqüências acabam parecendo forçadas e falsas demais, faltando uma maior fluência narrativa. Mesmo assim, “Noel – O Poeta da Vila” é uma obra que vale assistir, principalmente por alguns ótimos números musicais. Algumas composições inesquecíveis de Noel Rosa são bem valorizadas pela visão reverencial de Ricardo Van Steen, que consegue oferecer um contexto didático e ao mesmo tempo fortemente emocional para tais canções. Contribui também a boa atuação de Rafael Raposo no papel título, que consegue dar uma bela dimensão humana para o protagonista, fazendo com que o mesmo oscile com sensibilidade entre o cômico e o trágico.

Johnny e June, de James Mangold ***1/2



Lembro-me que ano passado, ao ouvir uma discussão sobre a premiação do Oscar de 2006, ouvi um comentário colocando que não se entendia por que “Johnny e June”, a cinebiografia do genial cantor de country e rock Johnny Cash, estaria entre os indicados à melhor filme devido ao fato de ser uma obra que não trazia grandes novidades. Ora, essa questão de originalidade do cinema é muito relativa. É claro que é extremamente salutar que surjam obras que tragam algum sopro de revitalização para o cinema, pois é isso que faz com que o mesmo continue relevante como meio de expressão. Ao mesmo tempo, entretanto, é impossível que surjam constantemente produções revolucionárias e que alterem radicalmente a estrutura das coisas. Ou seja, não dá para não gostar de um filme simplesmente porque o mesmo não abalou a história do cinema. “Johnny e June” não tem essa pretensão apoteótica. Sua intenção é oferecer uma visão humana sobre a história pessoal, com todas as suas glórias e contradições, de um dos maiores ícones da música norte-americana, e nisso o filme é bem sucedido. O diretor James Mangold não realizou uma obra que se dedica exclusivamente a tecer loas ou beatificar a figura de Cash. Muito pelo contrário. O filme mostra como a vida cheia de altos e baixos do cantor estava intrinsecamente ligada à própria música torturada e sombria do mesmo. O conjunto de fotografia, edição e direção de arte recriam com felicidade episódios memoráveis não só da trajetória do protagonista como também da música dos EUA dos últimos 50 anos, principalmente das gravações e excursões do impressionante elenco de roqueiros da mitológica Sun Records (Cash, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins) e o show realizado por Cash na Folson Prison, captando com sensibilidade o espírito de uma época. E é claro que não daria para esquecer de mencionar a fantástica seqüência em que Cash vai pela primeira vez na Sun e o dono da gravadora, o lendário Sam Phillips, pede para que ele toque a sua “verdade”, sendo que Cash lasca uma interpretação sentida e arrepiante de “Folson Prison Blues”. O resultado é de arrepiar a espinha.

Filmes da Semana (Cotações de 0 a 4 estrelas)

A Festa Nunca Termina, de Michael Winterbottom ****
As Férias de Mr. Bean, de Steve Bendelack ***
Porto Alegre – Meu Canto no Mundo, de Cícero Aragon e Jaime Lerner *1/2
O Crocodilo, de Nanni Moretti ***
E Agora Para Algo Completamente Diferente, de Ian MacNaughton ****
A Noiva do Demônio, de Terence Fisher ***
A Estranha Perfeita, de James Foley **1/2
Uma Sombra no Escuro, de David Hayman ***1/2
Riff Raff, de Ken Loach ****
Zoo – Um Z e Dois Zeros, de Peter Greenaway ****
39 Degraus, de Alfred Hitchcock ***1/2
Momento de Afeto, de Alan Rickman **1/2
Rebecca, A Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock ****

sexta-feira, abril 13, 2007

Uma Noite no Museu, de Shawn Levy **1/2

“Uma Noite no Museu” é aquele típico filme cuja idéia inicial é muito boa, mas que apresenta uma realização apenas mediana. O seu problema maior é um foco excessivamente convencional no estilo “filme família com lições de vida”. Dessa forma, limita-se o potencial de fantasia que a premissa inicial do roteiro cria. É claro que o filme não é um desperdício completo, principalmente por algumas empolgantes seqüências de ação e pelo desempenho divertido dos três vigias veteranos do museu do título. No final, entretanto, fica-se com a sensação de que “Uma Noite no Museu” poderia ter sido muito melhor sob a batuta de um cineasta mais ousado.

quinta-feira, abril 12, 2007

Furyo – Em Nome da Honra, de Nagisa Oshima ***1/2

Apesar das temáticas aparentemente diferenciadas entre si, “Furyo” traz muito de elementos já explorados em “O Império dos Sentidos”, obra-prima erótica também dirigida por Nagisa Oshima. Apesar de se passar em um campo japonês de prisioneiros de guerra, a preferência do cineasta recai não para o registro de conflitos bélicos, mas sim para as relações humanas entre prisioneiros ingleses e os militares japoneses. Da tensão homo-erótica entre o oficial Celliers (David Bowie) e o Comandante de Campo Yonoi (Ryuichi Sakamoto) à ambígua relação de admiração e desafio entre o líder do prisioneiros, Coronel John Lawrence (Tom Conti), e o sargento Gengo Hara (Takeshi Kitano), Oshima explora brilhantemente silêncios e momentos contemplativos com seqüência de uma violência seca e impactante. A música de Sakamoto sublinha as cenas de forma quase evocativa e etérea, aumentando ainda mais o clima de estranhamento. O curioso é que anos depois Oshima levou uma trama e abordagem semelhante para uma obra ambientada no Japão da época dos samurais, o forte “Tabu”.

No mais, é de se destacar ainda “Furyo” a ótima atuação de Takeshi Kitano (em sua estréia nas telas), numa performance que já trazia bastante da persona dura e ao mesmo tempo terna de filmes clássicos como “Sonatine” e “Hana-Bi”.

quarta-feira, abril 11, 2007

O Último Rei da Escócia, de Kevin MacDonald **1/2

Uma visão sobre o violento período em que Idi Amin governou Uganda é uma premissa que certamente despertaria interesse e criaria alguma expectativa para “O Último Rei da Escócia”, mas quem tem essa esperança poderá se decepcionar quando assistir ao filme. O diretor Kevin MacDonald é extremamente burocrático na condução da obra, preferindo se ater a uma concepção bem comportada e estereotipada dos fatos. Formalmente, não apresenta maiores ousadias, com exceção de alguns momentos na meia-hora final do filme em algumas seqüências de violência gráfica que chegam a lembrar Tony Scott. E a oscarizada e tão comentada atuação de Forest Whitaker na pele do ditador africano nem é todo esse bicho que se fala. Whitaker é apenas correto, com uma interpretação dramática mais preocupada em fazer mimetismos do que propriamente explorar nuances da figura de Idi Amin. No departamento “interpretação de figuras históricas”, o ator foi bem melhor sucedido na composição emocionante e visceral de Charlie Parker no belo “Bird” de Clint Eastwood.

segunda-feira, abril 09, 2007

Filmes das Últimas Duas Semanas (Cotações de 0 a 4 estrelas)

Atirador, de Antoine Fuqua ***1/2
Um Domingo em Kigali, de Robert Favreau ***
Container, de Lukas Moodysson ***1/2
Teu Nome é Justine, de Franco de Peña ***
Centroavante Nato, de Cláudio Guiducce ***1/2
O Verão do Meu Irmão, de Pietro Reggiani ***
Donovan O Fraco, de Kivmars Bowling *
A Rede, de Lutz Dammbeck ***1/2
Pasolini Ao Nosso Redor, de Giuseppe Bertolucci ***
Minha Viagem à Itália, de Martin Scorsese ****
A Traição, de Philippe Faucon ***
Diretor de Matrimônios, de Marco Bellochio ***1/2
Relógio Biológico, de Ricardo Trogi ***
Dirigido Por John Ford, de Peter Bogdanovich ****
A Razão de Um Sonho, de Laura Betti **1/2
São Ralph, de Michael McGowan **1/2
A Reeducação, de Davide Alfonsi, Alessandro Fusto, Daniele Guerrini e Denis Malagnino **1/2
Crepúsculo, de Ghasem Jafari *
Vítus, de Fredi Mürer **1/2
Flower e Garnet, de Keith Behman ***
A Estrela Que Falta, de Gianni Amelio ***1/2
Nascido e Criado, de Pablo Trapero ***1/2
Natureza Morta, de Jia Zhang-ke ***
Dong, de Jia Zhang-ke **
Manô, de George Felner *
A Revanche de Natal, de Pupi Avati ****
El Benny, de Jorge Luis Sánchez **1/2
Praia Marisco, de Jacques Martineau ***1/2
Gerrit Van Dijk: Documentário **1/2
Um Casal Perfeito, de Nobuhiro Suwa ***1/2
Todos os Dias Um Pouco, de Pedro Wallace ½ (meia estrela)
Em Outro País, de Marco Turco ***1/2
Segunda Lua-de-Mel, de Pupi Avati ****
A Entrevista, de Luc Picard ***
A Cor do Sacrifício, de Mourad Boucif **1/2
Todas as Cores do Amor, de Liz Gill ***
Uma História Diferente, de Marco Battaglia, Gianluca Donati, Laura Schimmenti e Andréa Zulini ***
A Noite do Senhor Lazarescu, de Cristi Puiu ****
Mortos de Riso, de Alex de La Iglesia ****

terça-feira, março 27, 2007

Filmes da Semana (cotações de 0 a 4 estrelas)

Longe, de André Téchiné ***
Até Já, de Benoit Jacquot ***1/2
Dias de Glória, de Rachid Bouchareb ***
Deu a Louca em Hollywood, de Jason Friedberg e Aaron Seltzer *1/2
Viva Argélia, de Nadir Mokneche ***1/2
O Bom Pastor, de Robert De Niro ***
Número 23, de Joel Schumacher ***
Arthur e os Minimoys, de Luc Besson ***
Roma, de Federico Fellini ****
Fitzcarraldo, de Werner Herzog ****
Brinquedo Proibido, de René Clément ****
O Grito, de Michelangelo Antonioni ****
Yojimbo, de Akira Kurosawa ****
Mary Poppins, de Robert Stevenson ****
Meu Nome é Ninguém, de Tonino Valerii ****
Mais e Melhores Blues, de Spike Lee ***1/2
Tina, de Brian Gibson ***
O Mestre da Guilhotina Voadora, de Jimmy Wang Yu ***1/2
Operação Dragão, de Robert Clouse ****
A Grande Ilusão, de Steve Zailian ***

segunda-feira, março 19, 2007

Filmes da Semana (Cotações de 0 a 4 Estrelas)

O Mestre das Armas, de Ronny Yu ***1/2
Turistas, de John Stockwell *
Maria Antonieta, de Sofia Coppola **1/2
Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman ****

sexta-feira, março 16, 2007

Meu Amor de Verão, de Pawel Pawlikowski ****

Um dos melhores filmes ingleses dessa década, “Meu Amor de Verão” é uma obra que oscila brilhantemente entre dois lados distintos, estando em sintonia perfeita com a trajetória da protagonista Mona (Nathalie Press). Para focalizar a vida da garota em um vilarejo conservador, o diretor Pawel Pawlikowski opta por um estilo seco e de iluminação natural, realçando de forma precisa o ambiente sufocante em que Mona vive ao lado do irmão Phil (Paddy Considine), um ex-presidiário que se tornou um fanático religioso. Quando Mona conhece Tamsin (Emily Blunt), a bela e misteriosa filha de proprietários de uma sofisticada casa de campo das proximidades, a narrativa ganha uma abordagem diferente, beirando quase o delírio, com as garotas entrando numa “trip” cheia de erotismo, chapação e irreverência. O confronto entre a dura rotina no vilarejo e o mundo aparentemente mágico das duas garotas é fascinante, ficando ainda mais atraente quando faz com que Phil veja que no fundo, apesar de todas as suas aparentes certezas religiosas, os seus instintos violentos continuam fortemente latentes.

Pawlikowski, entretanto, descarta o caminho fácil da idealização hedonista, sendo que com o decorrer da trama Mona vai percebendo que Tamsin e o mundo que a rodeia estão bem longe da perfeição que se imaginava. Esse processo de desilusão e amadurecimento da personagem é mostrado de forma dura, fazendo de “Meu Amor de Verão” uma das mais significativas obras cinematográficas recentes a retratar o universo jovem, na tradição de clássicos como “Juventude Transviada” e “O Selvagem da Motocicleta”.

De se destacar ainda em “Meu Amor de Verão” a brilhante utilização de sua trilha sonora, na maioria composta por canções de Will Gregoy e Alison Goldfrapp, duo esse também conhecido simplesmente como Goldfrapp. A música faz o complemento perfeito para o clima etéreo e inebriante que ronda por boa parte do filme, sendo que o auge desse casamento feliz entre música e imagens é na fantástica seqüência em que Mona e Tamsin, completamente entorpecidas, começam a dançar em um baile no vilarejo ao som de uma careta bandinha local, mas na verdade está escutando em suas mentes a maravilhosa “Lovely Head” do próprio Goldfrapp, num trabalho engenhoso de edição.

quinta-feira, março 15, 2007

À Procura da Felicidade, de Gabriele Muccino ****

Tanto eu quanto alguns conhecidos meus tivemos uma reação parecida em relação ao filme “À Procura da Felicidade”. Ao ler a sinopse e assistir o trailler dessa produção de 2006, logo pensávamos em mais uma daquelas produções rotineiras da surrada temática “lute, acredite no sistema e você vencerá”. Mas ao assistir o mesmo, tem-se a grande surpresa de ver que o filme é bem mais do que isso.

Para começar, a opção estética do diretor Gabriele Muccino para a sua narrativa dá um frescor renovado para “À Procura da Felicidade”. Além de uma contundente abordagem que beira o naturalismo, o cineasta apresenta ótimas influências do cinema norte-americano dos anos 70, com um ótimo trabalho de edição que lembra o melhor de William Friedin, além dos belos tons de cores quase granuladas que permeia por todo o filme. A criativa revitalização do estilo setentista por parte de Muccino, acentuada ainda mais pela trilha sonora recheada de clássicos da black music da época, faz de “À Procura da Felicidade” uma espécie de gêmeo espiritual do brilhante “Em Busca de Um Sonho”.

Outro aspecto que me agradou muito também em “À Procura da Felicidade” é a perspectiva que Muccino oferece para a trama. O que motiva Chris Gardner (Will Smith) a sair de uma situação econômica desesperadora e buscar um novo rumo para a sua vida não é apenas uma idealizada crença no “american way of life”, mas principalmente uma desesperada luta pela sobrevivência e dignidade suas e de seu filho. Dessa forma, toda a angústia pela qual pai e filho passam ao longo do filme chega a ser tremendamente palpável tamanha a força humana com a qual Muccino focaliza as relações pessoais e profissionais, sem cair em sentimentalismos e pieguices fáceis.

Mas se formos pensar com mais cuidado, talvez não seja tão surpreendente assim o fato de “À Procura da Felicidade” ser uma das melhores produções cinematográficas a aparecer nos últimos meses. Afinal, Gabriele Muccino já havia demonstrado talento considerável em “O Último Beijo”, uma cáustica visão sobre a maturidade emocional dos “trintões”, e “Para Sempre Nas Nossas Vidas”, poética visão sobre a adolescência. “À Procura da Felicidade” confirma Muccino como uma das boas revelações a surgir nos últimos anos no cinema.

quarta-feira, março 14, 2007

Por Um Triz, de Carl Franklin ***

“Por Um Triz” é aquele tipo de filme policial com uma trama ultra previsível para o gênero que é aquela em que um pobre coitado é enganado por uma gostosona, acaba se metendo numa puta encrenca e daí tem de passar o resto do filme tentando arrumar um jeito para descobrir como foi enganado e de tentar consertar a burrada em que se meteu. Apesar disso, Carl Frankin é um diretor competente e consegue extrair alguns momentos de forte tensão para o filme. Mas a melhor coisa de “Por Um Triz” é realmente a atuação sensacional de Denzel Washington. O cara parece ter nascido para o eterno papel de negrão malandro que vive se metendo em escabrosas situações, ou seja, ele é uma espécie de herdeiro natural do Shaft original.

Apesar de “Por Um Triz” não ser sensacional como outros filmes recentes com Washington (“Dia de Treinamento”, “Chamas da Vingança”, “O Plano Perfeito” e “Deja Vu”), mesmo assim o ator consegue garantir o interesse do filme fazendo dele um interessante e divertido policial.

O Amor Não Tira Férias, de Nancy Meyers *1/2

Nancy Meyers parece ser uma cineasta que tenta colocar em seus filmes uma visão sobre a mulher moderna no mundo atual. Isso, entretanto, não quer dizer necessariamente que seja algo positivo. Tanto em “Alguém Tem de Ceder” como nesse mais recente “O Amor Não Tira Férias”, o universo de Meyers é bem delimitado: mulheres independentes e inteligentes têm a tendência de sofrer muito devido à maioria cruel dos homens que só sabem enganá-las e tirar proveito das mesmas, a não ser quando elas conseguem domesticar algum deles ou até mesmo encontram um príncipe cheio de boas intenções. Ou seja, uma mistura de feminismo estéril com romances água-com-açúcar estilo “Sabrina” ou “Júlia”.

“O Amor Não Tira Férias” é o tipo de filme que clama a todo o momento por um pouco de vida: tudo é tão esquemático e previsível que são poucas as cenas em que há algum traço de espontaneidade. Meyers transforma todos os seus personagens nos mais equivocados estereótipos. Amanda (Cameron Diaz) faz parecer que toda mulher bem sucedida não passa de uma patricinha histérica e egoísta, enquanto Íris (Kate Winslet) é o protótipo piorado da sofredora por amor. Além do fato de serem realmente muito bonitas, não se consegue entender no filme porque Graham (Jude Law) e Miles (Jack Black), respectivamente, se apaixonam por elas tamanha a caracterização rasa das mesmas. E por mais que Meyers tente colocar um pouco de auto-ironia para o filme, isso acaba sendo um recurso hipócrita diante do próprio roteiro excessivamente açucarado e simplório.

Mas o discurso da diretora não se restringe apenas às relações amorosas. Mais constrangedora ainda é a crítica que se faz ao cinema atual norte-americano que estaria dando mais atenção para explosões e efeitos especiais do que para roteiros que “contem boas histórias”. Ora, para mim, isso não passa de uma argumentação moralista e reacionária contra o próprio cinema. Afinal, essa é a manifestação artística que busca o seu impacto sensorial através das imagens e da edição das mesmas. O que Meyers quer com a sua argumentação moralista? Transformar o cinema em subliteratura? E o mais triste é ouvir toda essas bobagens da boca do veterano Eli Wallach, o inesquecível “feio” de “Três Homens em Conflito”, do mestre Sérgio Leone, uma das obras cinematográficas em que mais a imagem espetacular e épica se sobressai ao roteiro.

É claro que dizer que “O Amor Não Tira Férias” é um desastre completo seria um exagero. Afinal, Jude Law tem uma atuação realmente muito boa e os momentos cômicos com Jack Black são tremendamente divertidos. Mas que o filme certamente pode estar no rol dos piores do anos isso dá para dizer sem a menor sombra de dúvida.

terça-feira, março 13, 2007

Crime Delicado, de Beto Brant ***1/2

Ao contrário de suas produções anteriores, dramas com tintas policiais (“Os Matadores”, “Ação Entre Amigos” e “O Invasor”), o diretor Beto Brant opta em “Crime Delicado” por uma trama em que os tiroteios estão ausentes, mas nem por isso sua narrativa deixa de impressionar ao retratar a violência nas relações humanas.

Brant é ambicioso na concepção de “Crime Delicado”. Sua pretensão é fazer o cinema dialogar com outras manifestações artísticas, como se buscasse pontos em comum ou até mesmo de ruptura entre diversas expressões culturais. A começar pela trilha sonora, repleta de temas clássicos e eruditos e passando pelas seqüências em que são exibidos trechos de peças teatrais. Nesse último ponto, Brant obtém um resultado fortemente original: o que vemos não é puro teatro filmado, mas sim enquadramentos inusitados para os atos filmados. É difícil precisar se o que estamos vendo é cinema ou teatro, é como se fosse um terceiro caminho.

O ponto alto, entretanto, de “Crime Delicado” nessa busca de comunicação entre gêneros artísticos é a longa, detalhada e crua seqüência em que o pintor José Torres Campana (Felipe Ehrenberg) trabalha num quadro de sua musa Inês (Lílian Taulib), indo desde os primeiros esboços até o resultado final. Brant filma todo esse processo com uma precisão e ousadia fantásticas, em que artista e musa se integram de uma forma quase obsessiva.

A partir dessa visão sobre o universo artístico, Brant mostra também o impacto que uma obra pode ter sobre o indivíduo através da figura do crítico teatral Antônio (Marcos Ricca). Em seus textos, Antônio procura racionalizar tudo que assiste, enquadrando sobre uma ótica reducionista uma atividade que é extremamente vinculada à sensibilidade e criatividade. Quando Antônio conhece Inês e se defronta com o “modus operandi” de Campana, as teorias restritas do crítico se abalam, revelando que o mesmo, pretenso analista cultural, está tão imerso em preconceitos e tacanhices quanto qualquer simples mortal que adora assistir novelas ou Big Brother.

É claro que as ousadias de Brant em “Crime Delicado” nem sempre atingem o alvo certo, sendo que o filme está longe de ser perfeito. Mesmo assim, é uma obra de peso dentro do cinema brasileiro, sendo que a sua busca de sintonia entre o cinema e outras formas de arte representa um saudável inconformismo, coisa rara de se encontrar atualmente na cinematografia nacional.

1972, de José Emílio Rondeau **

Até pouco tempo atrás, quando se falava em rock brasileiro, mencionava-se Cely Campelo nos anos 50, a Jovem Guarda, a Tropicália e os Mutantes nos anos 60 e se pulava direto para os anos 80 e daí por diante até os dias de hoje. Ou seja, em termos roqueiros, os anos 70 eram uma espécie de vácuo para a maioria das pessoas. Mais recentemente, com essa onda de nostalgia recheada de almanaques históricos, recomeçou-se a falar novamente em bandas antes quase esquecidas como a Bolha, Spectrum e Módulo 1000. Isso sem falar que os discos das mesmas se tornaram extremamente valiosos para colecionadores de vinil, surgindo reedições dos mesmos até mesmo no exterior. Dessa forma, foi redescoberto o universo psicodélico e até mesmo ingênuo de uma das fases mais criativas da música brasileira.

“1972”, produção brasileira de 2006, tem a pretensão de resgatar para as telas esse universo, além de fazer um retrato do país em pleno auge da ditadura militar. Aparentemente, o diretor José Emílio Rondeau e a roteirista Ana Maria Bahiana seriam os nomes ideais para uma empreitada como essa. Afinal, ambos têm uma experiência vasta dentro do jornalismo cultural e conhecimento de causa suficiente sobre a temática abordada em “1972”. A abertura do filme colabora ainda mais para essa expectativa, com um belo trabalho de grafismos típicos da época. Todos esses indícios promissores, entretanto, acabaram não resultando num trabalho realmente satisfatório. Os anos 70 representam um período altamente turbulento e contraditório da história recente brasileira, onde as influências da geração flower power (drogas, amor livre e ideais libertários) batiam de frente contra a repressão autoritária. O problema de “1972” é que o filme não consegue captar esta tensão, acabando por resultar numa visão esquemática e sem tesão de uma época tão fascinante quanto a abrangida pela obra, sendo que tal período termina utilizado apenas como pano de fundo para uma comédia romântica. E mesmo o mote principal, o relacionamento entre o jovem músico Snoopy (Rafael Rocha) e a jornalista Júlia (Dandara Guerra), é desenvolvido de forma tão insípida e artificial que em poucos momentos conseguimos sentir alguma empatia pelo casal.

Apesar disso tudo, “1972” vale uma conferida pela sua parte musical, tanto pela sua trilha sonora repleta de pérolas da época como pelas apresentações das bandas durante shows, além da caracterização fiel Cláudio Gabriel como o alucinado DJ Big Boy, que conseguem dar uma certa vitalidade para o filme.

segunda-feira, março 12, 2007

Filmes da Semana (Cotações de 0 a 4 estrelas)

Letra e Música, de Marc Lawrence ***1/2
Inacreditável – A Batalha dos Aflitos, de Beto Souza **1/2
C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor, de Jean-Marc Vallée ***1/2
Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim ***
Como Se Fosse a Primeira Vez, de Peter Segal ***
Shaolin Invencível, de Cheh Chang ****
O Vôo do Dragão, de Bruce Lee ***
A Fúria do Dragão, de Lo Wei ***1/2
Estranhos Prazeres, de Kathryn Bigelow ***1/2
2000 Maníacos, de Herschell Gordon Lewis ***1/2
Se Você Fosse Eu, de Jae-eun Jeong, Chan-Wook Park, Jin-pyo Park, Kwang-su Park, Kyun-dong Yeo e Soonrye Yim ***1/2
Violent Cop, de Takeshi Kitano ****

sexta-feira, março 09, 2007

Premonição, de James Wong **

A premissa inicial de “Premonição” é interessante: um grupo de jovens, devido aos dons premonitórios de um deles, acaba deixando de embarcar para um vôo trágico, sendo que a Morte, sentindo-se enganada, resolve corrigir tal “erro” fazendo com que cada um deles tenha um fim pavoroso. O problema do filme, entretanto, é que o cineasta James Wong acaba não fazendo jus ao argumento promissor. Sua direção é burocrática e sem maiores ousadias visuais, dando mesmo para as seqüências que deveriam ser mais aterrorizantes um estilo excessivamente “clean”. Ou seja, um filme de horror realizado por um cineasta que provavelmente não é muito fã do gênero. É de se imaginar o que mestres como Dario Argento e George Romero fariam com uma produção dessas...

“Premonição” também gerou mais duas seqüências que são bem superiores ao primeiro filme justamente pelo fato de não economizarem no sangue e na violência, resultando em produções de terror bem mais satisfatórias e menos bunda mole.

quarta-feira, março 07, 2007

Apocalypto, de Mel Gibson ****

“Apocalypto”, até o presente momento, é o grande ponto alto da carreira de Mel Gibson como cineasta. Ele consegue oferecer uma das visões mais originais sobre os povos americanos pré-colonização e ao mesmo tempo realiza uma dos melhores filmes de aventura dos últimos anos.

Os primeiros 15 minutos de “Apocalypto” são quase idílicos. Acompanha-se a calma e doce rotina de uma tribo indígena que vive em harmonia com a natureza e consigo mesma. Ao mesmo tempo, entretanto, sente-se que algo de errado está para acontecer a qualquer momento, como se aquela aparente felicidade estivesse alicerçada em bases frágeis, quase etéreas. Tais previsões acabam se concretizando, sendo que repentinamente caçadores maias atacam a tribo, dizimam boa parte da população e levam o restante da mesma como prisioneiros visando transformá-los em vítimas de sacrifício para os seus deuses. A partir desse momento, “Apocalypto” muda radicalmente de perspectiva, transformando-se numa saga de luta desesperada pela sobrevivência por parte de Pata de Jaguar (Rudy Youngblood) para que possa voltar para sua tribo e salvar sua família que está presa num buraco.

Para narrar a busca pela liberdade de Pata de Jaguar, Gibson não abre concessões. “Apocalypto” é frenético, violento e assustador, com alguns momentos que beiram o sobrenatural. A seqüência em que os Maias e seus prisioneiros encontram uma menina sobrevivente de uma aldeia dizimada pela peste, por exemplo, é puro cinema de horror, com a criança amaldiçoando os mesmos com as mais tétricas profecias e com uma voz absurdamente macabra. Mais assombrosas ainda, entretanto, são as impressionantes cenas de sacrifícios humanos no tempo maia, em que a reação quase de gozo da população maia diante às execuções é tão aterrorizante quanto os corações arrancados e as cabeças decepadas no altar do templo. E é claro que não dá para esquecer do momento em que Pata de Jaguar corre e tropeça por diversas vezes em um campo repleto de cadáveres em avançado estado de decomposição.

Mas o grande auge cinematográfico de “Apocalypto” é toda a empolgante seqüência de perseguição final na floresta. Por mais que se possa ficar deslumbrado com a beleza natural da selva, Gibson dá também uma dimensão misteriosa e mortal para a mesma, como se a cada metro pudesse haver surpresas nada agradáveis. Esse paradoxo entre o belo e o fatal no ambiente selvagem torna ainda mais tenso e alucinado o combate entre Pata de Jaguar e os seus perseguidores maias. A criatividade e o virtuosismo de Gibson em algumas cenas dessa seqüência chegam a lembrar alguns dos melhores momentos de “O Último dos Moicanos”, magnífica obra-prima de aventura de Michael Mann.

O fato de “Apocalypto” ser um épico repleto de violência e crueldade não representa uma opção estética gratuita por parte de Gibson. Na verdade, é o complemento perfeito para a leitura do filme sobre o contexto histórico em questão. Na visão de Gibson, tanto as tribos indígenas como os próprios maias viviam num estado de plena desintegração dessas sociedades, marcados pela apatia e por absurdos fanatismos religiosos que os impediam de enfrentar os seus graves problemas sociais e econômicos. O posterior massacre desses povos pelos colonizadores espanhóis seriam apenas conseqüência dessa decadência. Por mais preconceituosa que possa parecer tal visão, não deixa de ser admirável a contundência e honestidade de Mel Gibson no expor a mesma no seu devastador “Apocalypto”.

terça-feira, março 06, 2007

Um Lobisomem na Amazônia, de Ivan Cardoso ***

“Um Lobisomem na Amazônia” é uma produção que beira o amadorismo: fotografia e edição mal chegam no razoável, os atores estão no cúmulo da canastrice, os diálogos são risíveis e o roteiro é um primor da cretinice. Mas quer saber?? O filme é imensamente divertido. Assim como no documentário “A Marca do Terrir”, o cineasta Ivan Cardoso mostra que a força do seu cinema está muito mais no seu amor pelo exagero e pelo “camp” do que propriamente na técnica. Tal paixão pode ser comprovada na própria reação da platéia durante a exibição de “Um Lobisomem na Amazônia”: dos risos desenfreados até consagradores aplausos para as cenas mais picantes. Aliás, fazia tempo que não passava nas telas um filme brasileiro que trouxesse tanto do espírito debochado das antigas chanchadas da Atlântida. Vale mencionar ainda a ótima sacada de Cardoso de colocar no papel do protagonista Dr. Moreau o veterano de filmes de horror Paul Naschy.

No meio de tantas produções ditas “sérias” e preocupadas em ganhar prêmios em festivais, é extremamente salutar que haja cineastas como Ivan Cardoso mais preocupados com o cinema e a diversão do que com falsos intelectualismos. E faz a gente ficar ainda mais curioso com as reações que “A Encarnação do Demônio”, a mais nova obra de Zé do Caixão, vai despertar no público em geral.

Babel, de Alejandro González Iñarritu **

Fazia tempo que eu não saía tão irritado de uma sala de cinema quanto na oportunidade em que assisti “Babel”. Não que o filme seja um primor de ruindade. Não é. É apenas medíocre. O que me deixou realmente incomodado com essa produção é o fato dela ser uma baita empulhação. É muita pretensão para muito pouco cinema.

O diretor mexicano Alejandro González Iñarritu já havia se utilizado em obras anteriores (o sensacional “Amores Brutos e o bom “21 Gramas) do recurso de desenvolver tramas paralelas que no desenrolar da narrativa vão se confluindo. Em tais filmes, tal opção foi muito bem trabalhada, com uma edição que conseguia conciliar as tramas sem deixar o roteiro muito confuso e ao mesmo tempo dando uma dinâmica diferenciada à narrativa. Em “Babel”, essa característica do cinema de Inãrritu parece ter se transformado em uma fórmula gasta e sem graça. A forma com que as tramas se interligam é tão óbvia e forçada que chega a parecer primária. Não há o mesmo vigor narrativo das obras anteriores de Iñarritu, sendo que depois de meia hora de filme eu ficava me perguntando quando o mesmo iria realmente começar.

A parte temática de “Babel” é outro dos seus pontos fracos. A impressão que se tem é que parece que se está assistindo à continuação do infame “Crash”. É tudo tão politicamente correto e sem alma que se fica com a impressão que Iñarritu estava mais disposto a dar “lições de vida” ao espectador do que em oferecer um bom filme. “Babel” tem uma pretensão de sutileza ao mostrar as relações humanas, mas o efeito é completamente diverso. Afinal, todo o subtexto do roteiro está tão na cara que não oferece para quem assiste ao filme um espaço para refletir sobre aquilo que está vendo. Tudo já vem tão mastigado que se tem a impressão de Iñarritu não confia muito na inteligência do espectador.

É claro que “Babel” não é um desastre completo. As seqüências da festa de casamento no México têm uma estranha beleza contemplativa. A trama que se desenrola no Japão também tem momentos interessantes e que até justificariam um filme único para a mesma. Mas no geral, é muito pouco para um cineasta como Iñarritu que têm títulos tão expressivos na sua filmografia.

segunda-feira, março 05, 2007

Bom Dia, de Yasujiro Ozu ****

Yasujiro Ozu sempre teve uma “fórmula” bem simples para os seus filmes: temática familiar, situações quotidianas no seu roteiro, uma câmera que pouco se move e sempre no nível do chão. O que parece um simples comodismo na verdade revela um artista de visão altamente original. No início das tramas de suas produções, tudo parece corriqueiro, quase banal mesmo. À medida, entretanto, que a narrativa vai se desenvolvendo, vamos ficando cada vez mais envolvidos, efetivamente interessados com o destino dos seus personagens. Por mais estranho que pareça, é como se os tais fatos banais adquirissem até mesmo uma certa proporção épica.

Tudo isso que mencionei acima está também em “Bom Dia”, uma das melhores produções da carreira de Ozu. A ingênua luta dos dois irmãos para convencerem o seu pai a comprar uma televisão é conduzida com uma leveza admirável, ao mesmo tempo que podemos sentir que para os garotos tal questão tem uma dimensão grandiosa para as suas vidas. Nesse sentido, “Bom Dia” se revela como uma das transposições mais verdadeiras para as telas do que é o universo infantil. Além disso, também é fascinante como a partir de uma premissa tão simples Ozu consiga desvelar muito da cultura e dos conflitos da sociedade japonesa, principalmente no que diz respeito ao apego às tradições e os preconceitos morais da mesma.

Para quem não conhece a obra de Yasujiro Ozu, “Bom Dia” é uma das melhores formar a ter contato com o universo desse cineasta, tanto pelas suas qualidades cinematográficas quanto pela sua acessibilidade temática e estilística.

Os Infiltrados, de Martin Scorsese ****

Uma das coisas que mais me irrita entre críticos e cinéfilos em geral é uma visão sectária e estanque do próprio cinema que boa parte dessa gente tem. Seguido ouço comentários do tipo “os filmes de antigamente são melhores que os de hoje” ou “fulano já teve a sua época de ouro”. Na minha opinião, isso tudo representa uma visão comodista e equivocada. Afinal, é muito mais fácil dizer que o cinema atual é uma merda do que procurar uma nova obra-prima.

Mas por que essas considerações antes de falar de “Os Infiltrados”? Ora, a maioria dos textos e comentários que observei nesses últimos meses sobre o filme em questão e Martin Scorsese dizem que o apogeu criativo do cineasta já passou a alguns anos, sendo que esses Oscars que o mesmo recebeu por “Os Infiltrados” seriam na realidade uma homenagem ao conjunto de sua carreira. Sei que críticas são subjetivas na sua essência, mas discordo radicalmente dessa visão sobre Scorsese. Para começar, pelo menos nesses últimos quinze anos ele é responsável por algumas das mais expressivas e brilhantes obras do cinema mundial como “Cabo de Medo”, “A Idade da Inocência”, “Cassino”, “Vivendo no Limite” e “O Aviador”. Isso sem contar os dois monumentais documentários feitos para televisão “Feel Like Going Home” e “Bob Dylan: No Direction Home”. E, por fim, sem querer desmerecer produções geniais como “Caminhos Perigosos”, “Touro Indomável”, “Taxi Driver”, “O Último Concerto de Rock” e “Os Bons Companheiros”, mas “Os Infiltrados” é o grande apogeu artístico da carreira de Scorsese.

Da primeira a última cena, “Os Infiltrados” é uma verdadeira aula de cinema. A abertura já é antológica. Cenas documentais de conflitos em um bairro negro são logo seguidas da narração de Frank Costello (Jack Nicholson) dissecando a sua cínica e violenta filosofia de vida. Nesses primeiros momentos, Scorsese teve a sacada genial de deixar a fisionomia de Costello envoltas em sutis sombras, numa bela homenagem do diretor ao universo noir o qual ele tanto admira. Quando finalmente o rosto de Costello aparece claramente, o impacto da sua figura é impressionante.

Admirável também nessa obra mais recente de Scorsese é o casamento perfeito do roteiro preciso com um trabalho de edição fenomenal. O ritmo narrativo de “Os Infiltrados” é incansável: todas as suas seqüências giram quase que exclusivamente em torno dos malabarismos de Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), policial que age como espião dentro da quadrilha de Costello, e Collin Sullivan (Matt Damon), homem de confiança do mesmo Costello que trabalha no departamento de polícia, para que não sejam descobertos nas suas respectivas farsas. Essa objetividade de Scorsese no dimensionar o foco da sua trama oferece a “Os Infiltrados” um clima de crescente tensão que fica cada vez mais angustiante com o desenrolar dos fatos.

Ao mesmo tempo que Scorsese consegue desenvolver suspense de forma impressionante, é de se tirar o chapéu também para as fantásticas cenas de ação que o diretor conseguiu obter para o seu filme. Seqüências como a que Costigan persegue Sullivan no bairro chinês e o apoteótico tiroteio final entre a polícia e a gangue de Costello revelam a maestria da direção de Scorsese, estando no mesmo nível de obras policiais clássicas de William Friedkin como “Operação França” e “Viver e Morrer em Los Angeles”. De se destacar ainda que as seqüências de ação de “Os Infiltrados” demonstram também influências do cinema oriental policial. Dessa forma, o fato do filme ser uma adaptação de uma produção chinesa chamada “Conflitos Internos” não se restringiu apenas a uma simples transposição da trama, mas também na incorporação por parte de Scorsese de novos caminhos para o seu já clássico estilo de filmar. Interessante mencionar que esse encontro entre Ocidente e Oriente se reflete ainda em outro dos momentos mais luminosos de “Os Infiltrados” que é aquele em que a quadrilha de Costello se encontra com um grupo de criminosos chineses em um depósito de caís de porto para uma transação escusa, ao mesmo tempo em que estão sendo monitorados pela polícia. A alternância entre as duas ações ocorre numa dinâmica precisa e que se torna cada vez mais tensa a cada segundo.

Outro ponto alto em “Os Infiltrados” é a forma como a música é inserida dentro da narrativa. Todo apreciador de cinema se recorda da relação apaixonada de Scorsese com as trilhas sonoras do seu filme, principalmente em termos de seleção de canções. As mesmas nunca são utilizadas de forma gratuita, fornecendo sempre a paisagem sonora perfeita para as situações e personagens do universo de Scorsese. Nesse campo, talvez apenas Quentin Tarantino tenha sensibilidade comparável. Em “Os Infiltrados”, essa capacidade de Scorsese é elevada à enésima potência. A começar pela mencionada cena de abertura, em que a poderosa e épica “Gimme Shelter” dos Rolling Stones acompanham de forma grandiosa os “ensinamentos” de Costello. Já “Confortably Numb” do Pink Floyd, mas na versão arrepiante com Van Morrison nos vocais, é apresentada num contexto ainda mais ousado: começa de forma plácida numa reunião entre a quadrilha de Costello num armazém e acompanha Costigan na caminhada em direção ao apartamento de Madolyn (Vera Farmiga), explodindo no seu refrão justamente quando os dois começam a transar, num trabalho de edição primoroso e clássico. E é claro que não dá para esquecer da folk punk “I’m Shipping Up To Boston”, dos Dropkick Murphys, presente em duas seqüências cruciais de “Os Infiltrados” e que representam com fidelidade o espírito do filme.

Contribui ainda para o excepcional resultado final de “Os Infiltrados” um elenco de atores em estado de graça. DiCaprio faz de William Costigan um indivíduo que é pura tensão, enquanto Matt Damon oferece o contraponto exato: Sullivan tem a dose certa da inexpressividade maliciosa mais que adequada para o papel. Já Mark Wahlberg é um dínamo de fúria como o durão Sargento Dignam. E nunca as caretas e olhares de maníaco de Jack Nicholson fizeram tanto sentido em um filme quanto em “Os Infiltrados”, fazendo do violento e carismático Frank Costello um indivíduo que oscila fantasticamente entre o engraçado ao francamente assustador.

Eu poderia escrever mais algumas linhas sobre “Os Infiltrados” e mesmo assim eu não conseguiria dar a dimensão exata da grandeza dessa obra prima de Scorsese. Esse é o tipo de filme que só assistindo várias vezes conseguimos captar uma boa parte de suas nuances. Ou seja, o tipo de obra que já nasce clássica e que certamente está ao lado de outras produções cinematográfica fundamentais como “Meu Ódio Será Tua Herança” e “O Poderoso Chefão”.

Filmes da Semana (cotações de 0 a 4 estrelas)

Letra e Música, de Marc Lawrence ***1/2
Rocky Balboa, de Sylvester Stallone ***1/2
Motoqueiro Fantasma, de Mark Steven Johnson **
Notas Sobre Um Escândalo, de Richard Eyre ***
Vizinhos Vigilantes, de Edward F. Cline e Buster Keaton ****
Sete Amores, de Buster Keaton ****
Aurora, de F.W. Murnau ****
Rattle And Hum, de Phil Joanou **1/2