Um dos aspectos mais interessantes na carreira do diretor
Christopher Nolan é a forma como conseguiu desenvolver e manter um certo padrão
autoral em grandes produções dos estúdios norte-americanos. Esse seu traço
artístico peculiar se aplica até para alguns dos equívocos estéticos que são
recorrentes em suas obras, principalmente no que diz respeito a uma certa
assepsia visual. Em “Dunkirk” (2017), seu filme mais recente, tal incômodo
persiste – para um filme de 2ª Guerra Mundial repleto de violência brutal,
chega a ser estranho a ausência de sangue e uma “limpeza” na caracterização de
personagens e situações. Por outro lado, daria para dizer que isso se vincula a
uma concepção de narrativa que se liga muito mais à recriação de um imaginário
do conflito do que ao desejo de uma reconstrução mais realista de fatos
históricos – é de reparar, por exemplo, nas ótimas interpretações no estilo
icônico de Tom Hardy e Mark Rylance. Ou seja, aquilo que era para ser um “erro”
acaba adquirindo um sentido estético-temático e se torna uma condição
estilística de efetiva coerência. É fato também que outros aspectos pertinentes
do estilo de Nolan também ficam evidentes em “Dunkirk”, principalmente no que
diz respeito a uma encenação precisa e a fluidez do ritmo narrativo. Dentro de
tais preceitos formais, Nolan consegue realizar um feito admirável ao articular
com que lugares comuns do roteiro ligados a patriotismo e sentimentalismos
adquiram uma dimensão mais ampla e complexa, em que as ações relacionadas à
retirada de tropas francesas e inglesas sob inclemente ataque alemão se mostram
como uma intensa luta pela sobrevivência sob uma perturbadora atmosfera de
pesadelo. Nesse sentido, uma das grandes sacadas narrativas de Nolan está no
uso do som ambiental e dos temas musicais da trilha sonora, que se entrelaçam
de maneira orgânica e insólita, resultando em algumas sequências de angustiante
tensão dramática.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quarta-feira, agosto 16, 2017
terça-feira, agosto 15, 2017
Monsieur & madame Adelman, de Nicolas Bedos **1/2
É difícil não lembrar de “Cenas de um casamento” (1973) ao
se assistir a “Monsieur & Madame Adelman” (2017). Em ambos os filmes,
roteiro e estrutura narrativa se baseiam na exposição dos fatos mais relevantes
e emblemáticos na história de um casamento, passando por uma gama considerável
de situações, sentimentos e sensações inerentes a esse tipo de relacionamento
amoroso. Nas duas obras há também o desejo de se afastar das idealizações
romantizadas que geralmente produções no gênero costumam cair, com enfoques,
dessa maneira, que buscam uma certa crueza realista em sua abordagem
artística-existencial. Outro ponto em comum é que nas produções mencionadas há
o questionamento do papel da mulher dentro do matrimônio diante de um contexto
sócio-cultural ocidental que ainda guarda fortes traços machistas e
patriarcais. Feitas essas aproximações, cabe deixar uma coisa bem clara – por mais
que se simpatize com algumas escolhas criativas da produção francesa dirigida
por Nicolas Bedos, ela ainda se encontra a milhas de distância da obra-prima
concebida por Ingmar Bergman. Algumas passagens do roteiro até surpreendem pela
sua síntese de ironia divertida e nuances dramáticas inquietantes, mas a
encenação por vezes previsível, o didatismo primário na caracterização do
ambiente histórico e a queda excessiva para o convencionalismo formal atenuam
muito o impacto sensorial de “Monsieur & madame Adelman”, ao contrário do
rigor estético e da cruel (e muito humana) dissecação filosófica-emocional de
um casamento arquitetados no perturbador filme de Bergman.
segunda-feira, agosto 14, 2017
O filme da minha vida, de Selton Mello *
Na função de diretor, Selton Mello se mostrou um nome
promissor em seus dois primeiros longas-metragens, “Feliz natal” (2008) e “O
palhaço” (2011), obras que, ainda que mostrassem alguns tropeços em suas
respectivas narrativas, evidenciavam um vigor admirável na reciclagem de
clichês formais e temáticos inerentes aos gêneros melodrama e comédia, na
encenação equilibrada entre o sutil e o rascante e no belo trabalho de direção
de elenco. Dentro desse contexto pregresso, a produção mais recente de Mello
como cineasta, “O filme da minha vida” (2017), é uma expressiva decepção
artística. Se nos mencionados filmes anteriores se podia perceber um
considerável caráter desafiador no conjunto estético-existencial, agora Mello
se mostra de maneira escancarada com a intenção de se adequar a moldes mofados
e despersonalizados de concepção narrativa, como se procurasse uma linguagem
mais “acessível” para buscar a aceitação comercial de um público maior. Na
busca de tal intento, articulou uma fórmula medíocre e sem graça de “contar uma
história”, algo como a assepsia audiovisual de uma minissérie global somada ao sentimentalismo
óbvio e barato de produções “de qualidade” como “Cinema Paradiso” (1988) e “O
carteiro e o poeta” (1994) – não é à toa que o roteiro se baseou na obra
literária original de Antonio Skarmeta, mesmo escritor de “O carteiro e o poeta”.
Diante de tais escolhas artísticas, não adianta contar com Walter Carvalho como
diretor de fotografia se enquadramentos e iluminação vão emular um traço
imagético de cartão postal ou ter alguns nomes interessantes no elenco se todos
eles vão afundar com a mãe pesada de Mello na encenação. Isso sem falar no
constrangedor caráter machista de algumas passagens do roteiro que vêm
travestidas de humanismo e sensibilidade. Há de se convir, entretanto, que “O
filme da minha vida” acaba traduzindo com fidelidade o espírito do nosso tempo
nesse reacionário Brasil pós-golpe em que vivemos – seu mercantilismo
conservador disfarçado de “qualidade artística” é sintomático da hipocrisia e
moralismo obtusos que grassam em nossa sociedade.
sexta-feira, agosto 11, 2017
O ninho, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon **1/2
Em termos conceituais, a produção gaúcha “O ninho” (2016) se
mostra bastante inquietante. Sua abordagem da temática LGBT foge bastante de
estereótipos e obviedades – é claro que no roteiro perpassa a questão do
preconceito, mas os diretores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon buscam também
um enfoque contundente que sintetiza uma narrativa de ritmo sereno e sequências
pontuais de violência catártica. Ou seja, é uma obra de caráter desafiador
tanto pelo lado formal quanto pelo aspecto existencial. Nesse sentido, talvez o
grande acerto artístico seja a forma como os diretores conduzem as
intepretações de seu elenco, principalmente a ala “não profissional” dos
garotos que formam um grupo “anarco-queer”. São atuações espontâneas,
vigorosas, e que aliadas a uma caracterização visual de forte presença cênica
acabam rendendo algumas das sequências mais memoráveis da produção. Outro
destaque positivo é a forma como Porto Alegre é retratada: nesse conjunto de
hotéis e apartamentos algo decrépitos, de desolado cenários externos noturnos e
de hedonistas e obscuras boates gays, é como se despontasse uma capital gaúcha
de um perturbador e atraente universo paralelo. O problema de “O ninho” é que
todas essas boas ideias e sacadas estéticas-temáticas, por vezes, não encontram
uma narrativa equilibrada e envolvente. É como se seus realizadores se
perdessem em alguns momentos no seu fascínio por esse universo e privilegiassem
um olhar excessivamente fetichista.
quinta-feira, agosto 10, 2017
Em ritmo de fuga, de Edgar Wright ****
Assim como em “De canção em canção” (2016), o rock and roll
não é exatamente o tema principal de “Em ritmo de fuga” (2016), mas os dois,
estilo musical e filme, acabam apresentando um coerente paralelo existencial
tal havia ocorrido também no trabalho mencionado de Terrence Malick. Tal
relação se estabelece não apenas pelo fato da produção dirigida por Edgar
Wright usar como elemento essencial da narrativa várias canções do tripé rock-pop-soul,
mas também por um peculiar conceito artístico. Nesse sentido, é preciso ter em
mente que o rock and roll entendido como fenômeno sociológico comportamental é
algo que hoje em dia é de influência nula. Em termos musicais, ele pode até ter
uma ascendência e mesmo assim se restringindo a um âmbito mais subterrâneo ou a
pequenos nichos. Mas no sentido de se relacionar com as principais questões
culturais e sociais do mundo contemporâneo, o rock não tem a mesma relevância
de anos atrás, como aconteceu, por exemplo, com a sua ligação com a
contracultura dos anos 60 ou com o niilismo e alienação da década de 90.
Resumindo: o rock and roll hoje em dia é um artigo nostálgico de museu, congelado
no tempo. Ou seja, perfeitamente de acordo com a estética retrô trabalhada por
Wright em “Em ritmo de fuga”. No roteiro e na atmosfera de tal obra, há uma
queda pela reconstituição de um imaginário particular, uma espécie de síntese
sensorial dos preceitos básicos dos filmes de gangsteres e de jovens rebeldes,
tudo embalado por temas musicais rockers. Longe da mera reciclagem, o que
Wright faz é combinar tais referências em uma linguagem cinematográfica
bastante ousada e dinâmica, em que o ritmo da narrativa se liga a intensidade
rítmica e melódica de cada canção que surge em cena. Isso fica evidente logo de
cara na sensacional sequência de abertura, em que cada passo de um assalto e da
consequente perseguição automobilista parece determinado pela evolução da
agitada e sinuosa “Bellbottoms” de Jon Spencer Blues Explosion. Como já havia
mostrado de maneira contundente em filmes anteriores antológicos como “Todo
mundo quase morto” (2004), “Chumbo grosso” (2007) e “Scott Pilgrim contra o
mundo” (2010), Wright demonstra em “Em ritmo de fuga” um domínio expressivo da
ação cinematográfica, vide sequências de perseguições e tiroteiros marcadas por
coreografias ricas em detalhes e precisão cênicas, além de incorporar com sensibilidade
e inteligência em diálogos e nuances imagéticas uma gama incrível de
referências culturais.
quarta-feira, agosto 09, 2017
O sonho de Greta, de Rosemary Myers *1/2
Ter influências artísticas na concepção de uma obra não é
algo errado por si só. O problema é como tais influências são utilizadas. Em “O
sonho de Greta” (2015), dá para perceber referências claras à encenação
anti-naturalista típica de Wes Anderson, à estilização visual habitual de Tim
Burton e ao onirismo característico de David Lynch. Na pretensão conceitual da
diretora Rosemary Myers provavelmente estava o desejo de misturar tais
influências com uma narrativa a versar sobro o rito de passagem da infância
para a adolescência para a protagonista Greta (Belthany Whitmore) com todos os
desdobramentos emocionais inerentes a tal mudança. O problema é que Myers não
consegue dar uma fluência narrativa para tal ambição artística-existencial,
vide uma encenação engessada, um formalismo pouco inspirado e um roteiro nada
sutil que joga sem cerimônia o seu subtexto na cara do espectador (por vezes,
dá a impressão de que o filme parece ser uma produção institucional a ser
exibida em escolas). Mesmo elementos que poderiam trazer algum fator
diferencial para o trabalho de Myers, como as citações setentistas da direção
de arte e uma certa atmosfera sombria, acabam soando mais como forçadas
tentativas de parecer cool do que propriamente como fatores criativos que se
inserem de maneira orgânica e coerente na narrativa.
terça-feira, agosto 08, 2017
De canção em canção, de Terrence Malick ****
Não dá para dizer que “De canção em canção” (2016) seja
exatamente sobre o rock and roll, ainda que a temática esteja presente dentro
de sua trama que tem como uns dos seus principais cenários os bastidores de
shows e festivais do gênero, além de trazer personagens relacionados ao meio.
Na realidade, esse filme mais recente do diretor norte-americano Terrence Malick
parece compor uma particular trilogia existencial-artística com os dois filmes
anteriores do cineasta, “A árvore da vida” (2011) e “Amor pleno” (2012). Nas
três obras, há uma síntese estética-temática a versar sobre um mal-estar
existencial contemporâneo que se formata como um peculiar conto moral-místico.
Dentro de tal concepção narrativa e textual, Malick destrincha uma formatação
poética e intrincada, em que a fotografia esplendorosa e uma edição que parece
se desenvolver como se fosse um fluxo de consciência não obedecem às regras “normais”
da técnica – é de se reparar, por exemplo, um predomínio de cenas em que o
áudio não se liga com exatidão ao que está na imagem, gerando um efeito
sensorial que tanto desconcerta pelo inusitado quando encanta pela genialidade
de sua execução. É na recusa de “De canção em canção” em se vincular a uma
ortodoxia estilística que o filme efetivamente se aproxima do rock and roll.
Tal estilo musical sempre foi marcado por uma contradição – ao mesmo tempo que
apresenta uma corrente tomada pelo tradicionalismo e pela busca pelo “sucesso”
comercial, há também uma linha que se expande para um universo de ousadia e
inquietação artísticas, e que entra em choque com a realidade do mercado. A
produção de Malick busca a ligação com essa segunda vertente rocker, tanto na
maneira como mostra a relação entre o músico BV (Ryan Gosling) e seu
empresário/produtor Cook (Michael Fassbender), marcada por um jogo ambíguo de
admiração e exploração, quanto na forma como a própria música se insere na
narrativa. Não à toa, a grande presença musical em cena é da cantora e
compositora Patti Smith, artista de grande força lírica e messiânica, que se
insere na trama em diálogos inspiradíssimos e também com algumas de suas
melhores canções em algumas das cenas mais antológicas do filme.
segunda-feira, agosto 07, 2017
Transformers 5: O último cavaleiro, de Michael Bay *
O diretor Michael Bay aparenta em “Transformers 5: O último
cavaleiro” (2017) um desespero para mostrar que está em sintonia com aquilo que
está “na moda” em termos de produções blockbusters. A trama do filme é uma
espécie de compêndio das tendências temáticas que estão “dando certo” nos
últimos anos – ficção apocalíptica estilo “Jogos Vorazes”, narrativa de
cavaleiros na linha “Game of Thones”/”Rei Arthur”, atmosferas “sombrias” que
lembram a série “Alien”. Essa junção disparatada de referências, entretanto,
nunca dá liga devido a uma encenação primária e a um roteiro repleto
incongruências e simplificações constrangedoras. Aliás, Anthony Hoplins devia
estar precisando urgentemente de uma grana para aceitar passar mais duas horas
com um ar abobalhado em cena. O fato é que no primeiro filme da franquia
lançado em 2007 havia mais convicção e criatividade artísticas que tornavam as bobagens
da trama até palatáveis. Desde lá, a qualidade das continuações seguintes
despencou ladeira abaixo até chegar no limite do insuportável desse “O último
cavaleiro”. E como as últimas notícias dizem que Bay está preparando mais
continuações da franquia, é provável que as coisas ainda não tenham chegado ao
fundo do poço...
sexta-feira, agosto 04, 2017
A filha, de Simon Stone *1/2
Os créditos de “A filha” (2015) dizem que o filme é uma adaptação
de uma peça clássica do dramaturgo Henrik Ibsen. Do jeito que a produção ficou,
entretanto, parece que é uma versão pseudo-artística de alguma novela global. Não
que a trama em si seja propriamente brega e previsível, mas o que realmente
incomoda nessa obra dirigida por Simon Stone é a mão pesada do cineasta em sua
encenação. O tom solene e asséptico da primeira metade da narrativa até dá uma
enganada, mesmo que o roteiro indique alguns incômodos lugares comuns
temáticos. Na metade final do filme, a pretensa sobriedade da abordagem formal
e textual vai para o espaço e “A filha” se torna uma irritante síntese de
exageros melodramáticos e metáforas ordinárias. Pode-se perceber algumas
intenções nobres em termos de expor no subtexto da obra um simbolismo mais
contundente, a relacionar uma perspectiva intimista e uma visão social crítica
dos valores morais hipócritas da sociedade ocidental, mas a falta de inspiração
artística de Stone faz tal pretensão cair por terra.
quinta-feira, agosto 03, 2017
A vida de uma mulher, de Stéphane Brizé ***
A fórmula narrativa que o diretor francês Stéphane Brizé
costuma apresentar em seus filmes está longe de ser especialmente original, mas
de certa forma acaba até se mostrando por vezes ousada e com algo de uma pegada
autoral pela forma elegante com que conduz seu conceito artístico – são tramas
que se vinculam a uma estrutura típica de melodrama, mas que acabam recebendo
um tratamento formal-existencial marcado pela sobriedade e rigor. Em “A vida de
uma mulher” (2016) tal concepção de cinema fica bem evidenciada em suas nuances
estéticas e na sua atmosfera sombria e melancólica. O roteiro é baseado em um
original literário de Guy de Maupassant e se pode perceber que Brizé busca
valorizar a força dos diálogos e os desdobramentos relevantes da trama. Dentro
dessa abordagem, há uma impressão de distanciamento emocional, com o cineasta
dispensando recursos óbvios que fatalmente fariam tudo descambar para o sentimentalismo.
Tal orientação faz com que o processo de amadurecimento da protagonista Jeanne
(Judith Chemia) seja mostrado sem concessões e com uma endurecida coerência
filosófica-moral. Dessa maneira, a narrativa não é marcada por um arrebatamento
sensorial, mas sim por uma espécie de lenta construção perturbadora de
situações e personagens que revela o seu efetivo impacto para o espectador em
sua conclusão. Ou seja, “A vida de uma mulher” se configura como um atemporal
conto moral a dissecar com um misto de crueza, ironia e alguma doçura os típicos
valores hipócritas e obscurantistas da sociedade francesa do século XIX (e que
na realidade se estendem até hoje na sociedade ocidental contemporânea).
terça-feira, agosto 01, 2017
Gatos, de Ceyda Torun ***1/2
A intenção do diretor Ceyda Torun em “Gatos” (2016) não é
apenas mostrar como os felinos são animais peculiares e cativantes (ainda que
faça isso muito bem). Perpassa por toda a narrativa do filme um sutil conceito
artístico-existencial – ao mostrar a relação cotidiana entre os moradores de
Istambul com gatos de ruas, a obra valoriza um forte teor humanista e que por
vezes insinua uma atmosfera de mistério típico que ronda o imaginário sobre
tais animais. Em um mundo cada vez mais marcado pelo avanço
capitalista-tecnológico desumanizador, a convivência entre humanos e felinos
remete a uma ligação mais profunda com a natureza e mesmo com o desconhecido.
No caso dos bichos em questão, tal relacionamento é ainda mais fascinante, no
sentido que a personalidade de gatos é algo que beira o inescrutável. Afinal,
eles são bem mais imprevisíveis que outros animais domésticos, tendo em várias
situações atitudes inexplicáveis até para aquilo que é considerado instintivo.
Tal caráter indomável revela um perfil de desafio perante à ordem “humana”, o
que ajuda a explicar boa parte do fascínio que eles exercem. O filme de Torun
consegue captar com sensibilidade e contundência toda essa complexidade de
sensações e comportamentos, oferecendo um formalismo repleto de nuances
estéticas extraordinárias que realçam com vigor a beleza e a estranheza de tal
universo temático, vide a direção de fotografia de notável detalhismo imagético
e o misto de exotismo e pungência dos temas musicais da trilha sonora (aliás,
dentro desse conjunto audiovisual, não há como não se lembrar de outro marcante
documentário ambientado em Istambul, “Atravessando a ponte”).
segunda-feira, julho 31, 2017
Carros 3, de Brian Fee **
Dentro do quesito de padrão de criatividade contemporâneo
nas animações feitas por grandes estúdios, a Pixar é a que mais se destacou no
aspecto de ousadia nos últimos vintes anos, principalmente por saber conciliar
os ditames das narrativas tradicionais no gênero com grafismo requintado e
moderno e roteiros repletos de sagacidade e densidade dramática acima da média.
Mesmo quando enveredava para continuações de sucessos, o estúdio conseguia
manter essa abordagem artística (vide, por exemplo, o coerente amadurecimento
emocional na franquia “Toy Story”). Dentro da riqueza desse contexto histórico,
uma produção como “Carros 3” (2017) acaba sendo ainda mais frustrante. Não
chega a ser um filme ruim – é apenas irrelevante e por vezes beira o insosso. É
claro que algumas sequências de ação são divertidas, principalmente quando
envolvem as corridas de carros, mas passando metade da trama até tais momentos
vão se tornando cansativos na sua previsibilidade narrativa. Clichês de
produções sobre esportistas em decadência são reciclados sem maiores
inspirações e nem mesmo a habitual competência de seu grafismo consegue alterar
o clima de marasmo da animação. Para quem quiser ver algo de diferente dentro
dessa temática, recomenda-se o brilhante “Ricky Bobby – A toda velocidade”
(2006).
sexta-feira, julho 28, 2017
Más notícias para o Sr. Mars, de Dominik Moll ***
Em termos de estrutura narrativa, a produção francesa “Más
notícias para o Sr. Mars” (2015) beira a banalidade devido a alguns excessos de
convencionalismos formais e temáticos. O que desperta curiosidade em relação ao
filme é a oscilação entre sobriedade e exagero de sua encenação e a riqueza
simbólica de seu subtexto. O diretor Dominik Moll consegue extrair uma
interessante atmosfera mista de pesadelo e paranoia, em que a caracterização
dos personagens e situações apresenta uma forte carga opressiva que destila um
incómodo mal-estar existencial. Tal concepção se mostra em sintonia com um
roteiro que parece refletir em suas nuances cômicas e dramáticas os dilemas e
contradições da sociedade europeia contemporânea. A figura do protagonista
Philippe Mars (François Damiens), um amargo burocrata perplexo com as
complexidades e estranhezas do mundo que o cerca, parece representar o
tradicional indivíduo ocidental incapaz de lidar com a nova ordem mundial na
sua desumanizada visão sócio-econômica (representada pela arrivista filha mais
velha do personagem principal) e com a própria reação cultural a esse
ordenamento (concentrada, por outro lado, na figura do contestador e ingênuo
caçula). Se tais analogias da trama soam simples, é inegável também que com o
desenvolver da narrativa oferecem considerável tensão dramática e irônica para
a obra, ainda que as conciliadoras e forçadas resoluções finais do roteiro
tirem um pouco da contundência da visão crítica do filme.
quinta-feira, julho 27, 2017
Kiki - Os segredos do desejo, de Paco León *
A promessa de uma obra libertária por parte da produção
espanhola “Kiki – Os segredos do desejo” (2015) só fica mesmo na premissa de
seu roteiro. Em termos formais, o filme em questão é de caretice e mediocridade
extremas – narrativa engessada em formato episódico e estética estilo “comercial
de sabonete” (tendência essa deixada evidente logo de cara na horrorosa sequência
inicial de créditos). Em sua parte temática, as coisas ficam ainda piores. Por
mais que se pretenda fazer uma espécie de inventário sobre as manias e taras
sexuais dentro da sociedade espanhola, os direcionamentos da trama sempre se
encaminham para adequação de tais “desvios” comportamentais para dentro do
modelo familiar, ou seja, o casamento sempre deverá ser preservado. Pode-se
dizer que tal orientação existencial teria ligação com a tendência cristã
conservadora típica da Espanha, mas na realidade isso cai por terra quando se
lembra de alguns filmes marcantes da filmografia espanhola de diretores como
Luis Buñuel, Pedro Almodovar e Bigas Luna que questionam com grande criatividade
artística e contundência temática os valores morais pequeno-burgueses.
quarta-feira, julho 26, 2017
Homem-Aranha: De volta ao lar, de Jon Watts ***
A incorporação do herói aracnídeo ao universo oficial
cinematográfico dos estúdios Marvel tem como principal fator positivo o fato de
que a caracterização do protagonista em questão ter ficado bem mais carismática
e fiel ao original dos quadrinhos do que aquela que se configurou nos insossos
dois filmes dirigidos por Marc Webb. Outra boa sacada de “Homem-Aranha: De
volta ao lar” (2017) é que o roteiro dispensa a tarefa de contar novamente a
origem do personagem e parte logo para uma nova situação na vida do Aranha e de
seu alter-ego Peter Parker, o que torna a narrativa bem mais dinâmica (afinal,
o herói já aparece logo na trama em plena ação). Outra bola dentro: o Abutre
(Michael Keaton) é disparado um dos vilões mais convincentes dentro das
franquias cinematográficas dos Estúdios Marvel. Aliás, a figura do antagonista
evidencia, ainda que de maneira discreta, um subtexto sócio-político típico do
conturbado período histórico que vivemos: ainda que as opções criminosas do
personagem em questão sejam consequências de ações opressoras e injustas por
parte do Estado, as resoluções da trama indicam a necessidade da manutenção do
status quo. À parte esse direcionamento conservador em seu discurso, o filme do
diretor Jon Watts se adequa ao padrão de qualidade formal e narrativo típico da
maioria de tais produções que se conectam nesse mesmo universo – as sequências
de ação são movimentadas e divertidas, boa parte dos personagens tem razoável
caracterização psicológica, a trama resgata alguns dos principais elementos
essenciais dos quadrinhos. No geral, entretanto, o resultado final em termos
criativos é previsível e destituídos de maiores ousadias temáticas e estéticas,
ou seja, é bom entretenimento, mas bem distante, por exemplo, da vertiginosa
fúria sensorial do “Homem-Aranha 2” (2004) de Sam Raimi. Além disso, a trama sugere
que é apenas preparação para voos futuros mais épicos. Nesse sentido, é
inegável que cria expectativa para o que ainda vem por aí.
terça-feira, julho 25, 2017
Além da ilusão, de Rebecca Zlotowski ***1/2
O universo imaginário-artístico de “Além da ilusão” (2016)
se assemelha ao da obra imediatamente anterior da diretora Rebecca Zlotowski, “Grand
Central” (2016), configurando-se como obras marcadas por uma atmosfera de
romantismo mórbido e um certo classicismo em seu formalismo. Nesse trabalho
mais recente da cineasta, há até uma preponderância maior para a estilização
narrativa, além de um subtexto mais sofisticado e nebuloso na sua visão de uma
Paris tomada pelo nazismo e a alienação mística. Aliás, é fascinante o paralelo
que se estabelece entre a atração pelo mundo metafísico e a paixão pelo mundo
de fantasias da indústria cinematográfica – a necessidade dos personagens por
alguma espécie de magia transcendental se vincula a um papel ambíguo, tanto no
sentido de ser uma válvula de escape perante uma realidade de opressão
sócio-cultural quanto um instrumento obscurantista que impede que os indivíduos
contestem esse mesmo ordenamento de opressão. Tal discurso existencial vem
embalado por um roteiro de notáveis sutilezas e por uma estética requintada em
suas nuances imagéticas, fazendo com que as soluções criativas de “Além da
ilusão” soem obscuras e atraentes na forma com que se recusam a apresentar
caminhos fáceis para o espectador.
segunda-feira, julho 24, 2017
Sobre viagens e amores, de Gabriele Muccino *1/2
Quando despontou no cenário cinematográfico do seu país com "Para sempre na minha vida" (1999) e "O último beijo" (2011), o diretor italiano Gabriele Muccino chamou atenção por mostrar uma assinatura formal e temática que revelava uma certa coerência artística. Os filmes mencionados faziam um divertido e sentimental inventário emocional sobre o comportamento amoroso da juventude contemporânea, com o cineasta sabendo conciliar roteiros espirituosos e narrativas de dinâmica cativante. O sucesso de público e crítica de tais produções fizeram com que realizasse alguns trabalhos nos Estados Unidos, o que fez com que progressivamente o seu traço autoral se diluísse. Em sua volta para a terra natal, Muccino parece querer retomar a linha artística de suas primeiras obras, mas o resultado final de "Sobre viagens e amores" (2016) mostra que ele perdeu o gume da sua antiga pegada estética-existencial. Por vezes, pode-se perceber todas as suas boas intenções - a trama apresenta tintas libertárias, há a pretensão de que a visão sobre amores juvenis e o consegue processo de amadurecimento emocional de seus personagens seja mais realista, o formalismo aposta em fotografia e edição de talhe mais moderno. Ainda que todo essa concepção não seja algo especialmente original, uma direção que soubesse sintetizar ousadia e rigor narrativo poderia geral algo de memorável. Não é o caso, entretanto, desse trabalho mais recente de Muccino. O diretor se rende a truques formais e abordagem emocional apelativos e óbvios - é de se reparar, por exemplo, como trilha sonora repleta de canções pop é invasiva e ostensiva, fazendo tudo parecer em vários momentos um fotogênico video-clip. E aquilo que era para se converter numa espécie de viagem sensorial de autodescobertas e hedonismo, na prática é apenas uma junção de formalismo cartão-postal e encenação embregalhada. Ou seja, "Sobre viagens e amores" parece a versão "novela mexicana" da obra-prima "E sua mãe também" (2001).
sexta-feira, julho 21, 2017
Dick Tracy, de Warren Beatty ****
Adaptar histórias em quadrinhos para o cinema não é
propriamente uma novidade e nos últimos anos se tornou uma prática recorrente
nos grandes estúdios norte-americanos, principalmente por motivos comerciais.
Na grande maioria desse tipo de produções, a transposição de uma mídia para a
outra obedece a uma fórmula simples – pega-se personagens e situações marcantes
de uma HQ, ou seja, uma trama originária de “comics”, e se enquadra tais
elementos dentro de uma linguagem cinematográfica tradicional. São poucas os
filmes que enveredam por uma via criativa mais ousada e interessante que seria
a de incorporar a estética característica dos quadrinhos. Pois é justamente
isso que “Dick Tracy” (1990) coloca em prática e com muita inspiração.
Encenação, narrativa e caracterização visual emulam de maneira brilhante os
maneirismos típicos das histórias do clássico detetive escritas e desenhadas
por Chester Gould. Nesse sentido, a produção dirigida e estrelada por Warren
Beatty apresenta nuances extraordinárias, como a fotografia baseada em monocromatismos
concebida por Vittorio Storaro, a direção de arte fortemente estilizada e as
atuações do elenco vinculadas a uma síntese entre o grotesco e o ingênuo, além
do excepcional trabalho de efeitos visuais que combina de maneira fluida
efeitos digitais, maquetes e cenografia à moda antiga, dando ao filme uma estranha
atmosfera de atemporalidade. Aliás, “Dick Tracy” parece nem ter vindo de um
grande estúdio devido à maneira natural com que violência cartunesca e
singeleza maniqueísta convivem no mesmo universo. Dentro desse particular
conjunto artístico, o filme de Beatty ocupa um espaço privilegiado de obras
memoráveis como “Danger Diabolik” (1968), “Sin City” (2005) e “Scott Pilgrim
contra o mundo” (2010).
quinta-feira, julho 20, 2017
Divinas divas, de Leandra Leal ***
A estrutura narrativa de “Divinas divas” (2016) lembra
bastante outro documentário de temática semelhante, “Dzi Croquettes” (2009) – a
partir de lembranças pessoais da diretora Leandra Leal, a obra faz um
inventário histórico e sentimental sobre algumas das principais figuras do
universo de artistas travestis que despontaram no cenário cultural brasileiro
nos anos 60. O roteiro estabelece uma forma simples de contar a sua história,
alternando sequências de ensaios e apresentação de um show recente que trouxe
as artistas de volta à cena, trechos com fotos e imagens de arquivo e
depoimentos de suas principais personagens. Se esse encadeamento da trama pode
parecer previsível em um primeiro momento, com o desenvolvimento da narrativa
vai se revelando coerente e eficaz. A abordagem emocional e a atmosfera do
documentário têm um forte viés de sentimentalismo e nostalgia, mas Leal
consegue oferecer outras nuances para o seu trabalho, enveredando ainda para uma
perturbadora e sardônica perspectiva mista de malícia, sordidez e teor grotesco.
Assim, o retrato existencial que oferece passa distante do unidimensional e
meramente laudatório, focando com contundência e vigor uma passagem histórica
do Brasil, no caso o tenebroso período da ditadura militar, marcada por uma
ambígua combinação de sombria repressão moral e esfuziante hedonismo
comportamental.
quarta-feira, julho 19, 2017
Mulher do pai, de Cristiane Oliveira **
O que mais incomoda em “Mulher do pai” (2016) é a sua
rigorosa previsibilidade. E não só em termos de roteiro – o filme da diretora
Cristiane Oliveira obedece a uma lógica narrativa óbvia e que beira a preguiça
criativa. Fotografia e edição são corretas em sua concepção e execução,
oferecendo uma moldura formal adequada no retrato de um interior rio-grandense rústico,
melancólico e algo tedioso. Tais aspectos estéticos esbarram, entretanto, numa
encenação travada e na falta de uma maior ousadia artística-existencial. A
história de descobertas morais e sentimentais por parte de personagens
adolescentes já foi retratada várias vezes no cinema e em alguns casos rendeu obras
memoráveis, principalmente pelo motivo de seus realizadores privilegiarem o
vigor narrativo, o que não é o caso de “Mulher do pai”. Os elementos cênicos
são dispostos na tela de maneira burocrática, como se a cineasta seguisse as
regras de um manual do gênero “drama de formação”. Por outro lado, mesmo a
temática da produção transpira um incômodo subtexto genérico e moralista, quase
pudico. Em uma obra que tem o despertar sexual como um dos seus principais
motes dramáticos, o erotismo poucas vezes se manifesta de forma gráfica e
contundente (na realidade, há apenas uma efetiva sequência de sexo, e mesmo
assim tendo uma prostituta em cena). A questão do incesto se desenvolve sob uma
desgastada perspectiva carregada de simbologia cristã pequeno-burguesa. Nesse
sentido, não há como esquecer o recente “Sangue azul” (2014), que destroça tal
percepção obscurantista a partir de um ideário libertário e poético.
segunda-feira, julho 17, 2017
Ao cair da noite, de Trey Edward Shults ***
Em um mundo tomado por uma epidemia misteriosa e altamente
contagiosa, onde água e comida se tornam bens escassos e valiosos, uma família
vive isolada numa casa no meio de uma floresta e ao se aproximar de um outro
clã acaba entrando em um irrefreável vórtice de paranoia e violência. Essa
trama básica de “Ao cair da noite” (2016) não chega a ser exatamente uma
novidade e mesmo a sua narrativa não apresenta maiores sobressaltos criativos.
Ainda assim, o filme do diretor Trey Edward Shults chama a atenção pela forma segura
com que clichês formais e temáticos se desenvolvem na tela. Por mais que os
rumos da trama sejam previsíveis, a produção tem alguns momentos que conseguem
causar uma genuína tensão dramática para as plateias, principalmente pela
encenação precisa e sóbria articulada por Shults e pela valorização de um
convincente suspense psicológico, em que as explosões de brutalidade e de
grafismo entre o escatológico e o mórbido são econômicas, em termos de
quantidade de cenas de tal natureza, e eficazes no seu sensorialismo.
sexta-feira, julho 14, 2017
Na vertical, de Alain Guiraudie ***1/2
Depois de recriar o gênero suspense de maneira bastante
peculiar no brilhante “O estranho do lago” (2012), o diretor francês Alain
Guiraudie monta uma narrativa idiossincrática e fascinante em “Na vertical”
(2016). O cineasta parece buscar inspiração na encenação crua e libertária de
Pasolini e nas atmosferas delirantes e sardônicas dos melhores trabalhos de
Luis Buñuel, com um resultado final que está muito longe do derivativo. Por
vezes, até se tem a impressão de se estar assistindo a uma espécie de conto
moral distorcido e que se desenvolve por uma lógica temática-formal muito
particular. Ao mesmo tempo, cada nuance imagética da austera direção de
fotografia, a edição de ritmo sóbrio e o roteiro de desenvolvimento
desconcertante e de estranha coerência revelam um tremendo rigor artístico em
termos de concepção e execução da narrativa. Nenhuma das escolhas criativas de
Guiraudie é marcada pela gratuidade ou a simples procura do choque – o caráter
explícito e bizarro das sequências de sexo, a caracterização de situações e
personagens que sintetizam viés naturalista e onirismo, a reinterpretação
irônica da mitologia cristã e a constante sensação de uma realidade em desagregação
reforçam um discurso artístico de forte caráter humanista e de grande ousadia
estética.
quarta-feira, julho 12, 2017
Neve negra, de Martín Hodara **
O cinema “mainstream” argentino costuma ser elogiado por um
certo padrão de qualidade em suas produções, principalmente no que diz respeito
à narrativa adequada aos padrões convencionais (e também comerciais)
estabelecidas pelos grandes estúdios norte-americanos (e que, por tabela, se
estendem a outras escolas cinematográficas ocidentais). Dessa forma, há uma
quantidade razoável de filmes portenhos que se mostram acessíveis ao público em
geral, ainda que em boa parte de tais obras fique evidente um caráter asséptico
e derivativo em suas respectivas concepções artísticas. Esse é justamente o
caso de “Neve negra” (2016) – há a impressão constante ao se assistir ao filme
que o diretor Martín Hodara segue um manual de como fazer um trabalho no gênero
suspense de acordo com todos os clichês e ditames narrativos e temáticos
inerentes a esse tipo de produção. Os elementos formais se colocam em cena de
forma correta, mas sem qualquer traço de ousadia e criatividade. Por mais que o
roteiro possa evocar questões tabu como o incesto e algumas sequências vazem
momentos de maior violência gráfica, tais aspectos são abrandados pelo
tratamento artístico destituído de vigor de Hodara. Ou seja, no geral “Neve
negra” não chega a ser exatamente ruim e é capaz de entreter as plateias menos
exigentes, mas também está bem longe de ser considerado algo de memorável.
terça-feira, julho 11, 2017
Quem é Primavera das Neves, de Jorge Furtado e Ana Luíza Azevedo **1/2
Há uma base conceitual engenhosa e contundente que paira
sobre a concepção e narrativa do documentário “Quem é Primavera das Neves”
(2017). O roteiro parte de uma premissa inicial de forte traço pessoal – o interesse
do diretor Jorge Furtado em saber mais sobre quem seria Primavera das Neves,
uma obscura tradutora e poetisa que trabalhou em edições brasileiras de vários
clássicos literários na segunda metade do século XX. Ainda que se vincule,
dessa forma, a uma obra de cunho biográfico, a abordagem do roteiro traz em seu
subtexto um forte caráter humanista, no sentido que vai expondo de maneira
sutil que a formação cultural de sua protagonista, filha de dois anarquistas
europeus que se exilaram no Brasil fugindo de regimes autoritários, evidencia
sensibilidade e inteligência diante de um contexto histórico marcado por
obscurantismo e brutalidade, em que os aludidos traços da personalidade de
Primavera se mostram influentes e encantadores para boa parte das pessoas que
conviveram com ela. Dessa forma, o viés existencial do filme dirigido por
Furtado e Ana Luíza Azevedo ganha especial ressonância ao se relacionar com o
atual e conturbado cenário sócio-político brasileiro e mundial. A complexidade
e ousadia da temática de “Quem é Primavera das Neves” não recebe, entretanto,
um complemento narrativo e formal à altura. A dupla de cineastas responsável
pela produção se contenta com um acabamento convencional e de pouco impacto sensorial,
opção artística essa que fica clara numa edição apenas correta, nas melodias
banais da trilha sonora, na afetação das sequências de declamação com a atriz
Mariana Lima e no excesso de depoimentos um tanto redundantes. Faltou para o
documentário uma pegada estética mais sanguínea e criativa, coisa que Furtado
já mostrou ser capaz de fazer no inquietante “O mercado de notícias” (2014).
segunda-feira, julho 10, 2017
Cidades fantasmas, de Tyrell Spencer ***
A temática do documentário “Cidades fantasmas” (2017) é bem
definida – as histórias de quatro pequenas cidades da América do Sul que por
ações da natureza ou do homem (ou por ação conjunta de ambos os fatores)
acabaram sendo abandonadas pelas suas respectivas populações. O diretor Tyrell
Spencer adota um direcionamento narrativo que se mostra em forte sintonia com o
viés melancólico do assunto principal do filme, em que a austera direção de
fotografia em preto e branco, a edição de ritmo sereno e a discreta trilha
sonora formam um conjunto estético contundente que sabe ressaltar as amargas
nuances dramáticas dos eventos mostrados na tela, fazendo com que tal obra não
se limite a um formato de reportagem convencional transplantada para a tela
grande. Aliás, essa concepção de audiovisual é tão eficaz na sua sombria beleza
que até torna, por vezes, dispensáveis e redundantes alguns depoimentos dados
durante a narrativa. No mais, “Cidades fantasmas” ganha uma especial
ressonância na conturbada conjuntura sócio-econômica em que vivemos, pois em
cada um dos casos expostos no documentário fica evidente o descaso com aspectos
humanistas em prol de ações visando o lucro financeiro e político de uma
pequena elite.
sexta-feira, julho 07, 2017
Una, de Benedict Andrews **
Num primeiro momento, a abordagem artística concebida pelo
diretor Benedict Andrews para “Una” (2016) pode até sugerir alguma ousadia – a temática
polêmica da pedofilia parece ser filtrada por uma narrativa mais atmosférica e
de sóbria abordagem emocional. O desenrolar da narrativa, entretanto, revela
que tal impressão se mostra enganosa. O desenvolvimento da trama vai mostrando
um caráter novelesco, beirando o exagero e o brega, e por vezes caindo no
francamente moralista (afinal, a sugestão de que a protagonista Una tem uma
vida “dissipada” em termos de comportamento por ter sido abusada sexualmente na
adolescência está bem longe de caracterizar uma visão libertária). Há até uma
menção de ambiguidade na relação entre Una (Rooney Mara) e seu algoz/amante Ray
(Ben Mendelsohn), mas tal sutileza dramática é progressivamente abafada em nome
de uma solução mais previsível e adequada em termos “morais”. O formalismo do
filme se mostra em sintonia com as escolhas convencionais e um tanto hipócritas
do roteiro, dando para a narrativa uma estruturação asséptica, típica de um
telefilme derivativo,
quinta-feira, julho 06, 2017
A jovem rainha, de Mika Karismäki *1/2
Como explicar que o mesmo diretor dos idiossincráticos e
criativos documentários “Tigreros” (1994) e “Moro no Brasil” (2002) é também
responsável por uma obra tão enfadonha quanto “A jovem rainha” (2015)? Talvez o
finlandês Mika Kaurismäki precisasse pagar as contas ou mesmo devesse algum
favor a um produtor, mas o fato é que esse seu filme mais recente recebe um
tratamento formal-temático bastante derivativo e desinteressante. Não dá para
dizer que a premissa principal de sua trama e o fato da narrativa se vincular
ao gênero do “filme de época” sejam desculpas fundamentais para o resultado
final frustrante. O roteiro até esboça algumas situações potencialmente
interessantes envolvendo questionamentos sobre a opressão social e moral do
poder patriarcal político e um possível e explosivo romance lésbico. Nas mãos
de um cineasta disposto a esmiuçar tais nuances e ousar em termos estéticos,
poderia render algo de memorável (dentro de tal concepção, é só lembrar, por
exemplo, do polêmico e extraordinário “A rainha Margot”). Do jeito que
Kaurismäki leva as coisas, entretanto, tais expectativas caem por terra, vide
uma encenação mofada, um formalismo bem-comportado e um roteiro que vai se
aprofundando numa breguice novelesca e previsível.
terça-feira, julho 04, 2017
Stefan Zweig - Adeus, Europa, de Maria Schrader ***
Ainda que vinculado ao gênero do drama biográfico, “Stefan
Zweig – Adeus, Europa” (2016) não tem como principal intenção temática fazer um
grande resumo sobre a vida de seu protagonista. Dentro da concepção
artística-existencial da diretora Maria Schrader, mais importante seria fazer
uma espécie de retrato de uma nebulosa sensação de desconforto
espiritual-filosófico de um imaginário coletivo diante do avanço inexorável da
barbárie sócio-política-cultural na sociedade ocidental da primeira metade do
século XX. Dentro de tal ambientação narrativa e histórica, a opção da cineasta
em termos de abordagem emocional e estética é por um formalismo contido e por
um roteiro sem grandes reviravoltas dramáticas (com exceção, é claro, da sequência
final na revelação do suicídio duplo de Zweig e sua esposa), formando um
conjunto narrativo sereno e cinzento, por vezes quase tedioso, mas que oferece
a moldura adequada para o sombrio subtexto de sua trama, e que acaba ganhando
uma ressonância ainda mais perturbadora quando se pensa na atual conjuntura mundial
política e social.
segunda-feira, julho 03, 2017
Z - A cidade perdida, de James Gray ****
Assim como já tinha feito em “Era uma vez em Nova Iorque”
(2013), o diretor norte-americano James Gray recria o gênero do “filme de época”
sob uma perspectiva bastante particular e preciosista em “Z – A cidade perdida”
(2016). Com uma trama baseada em fatos reais, não há um foco principal
concentrado na reconstituição de fatos históricos, mas sim numa narrativa que
se situa entre o classicismo e o atmosférico, evocando um insólito encontro
entre David Lean e Werner Herzog. Quando a história fica localizada na parte “civilizada”
da Inglaterra, encenação, fotografia e direção formam um conjunto estético que
tanto se vincula à linguagem naturalista quanto a uma estilização de beleza
visual desconcertante. Aliás, pode-se dizer que os quinze minutos iniciais de “Z”
traz uma das mais ácidas dissecações sobre a questão do preconceito classes na sociedade
ocidental já apresentadas no cinema. Quando a ação se volta para a selva
amazônica, formalismo e narrativa ganham uma conotação de sutil viés delirante,
focando na clássica dicotomia entre o jogo de atração e repulsa do homem
ocidental frente a uma natureza misteriosa, bela e perigosa, na tradição de
obras épicas que alternam com admirável naturalidade a tensa aventura “física”
e a viagem existencial – nesse sentido, por vezes a sofisticada e intrigante
concepção artística de Gray para “Z” faz lembrar a obra-prima “conradiana” “Apocalypse
Now” (1979).
sexta-feira, junho 30, 2017
Rodin, de Jacques Doillon **1/2
As intenções artísticas de Jacques Doillon para a
cinebiografia “Rodin” (2017) até são bem louváveis – ao invés de fazer um
grande “resumão” sobre a vida do escultor Auguste Rodin (Vincent Lindon), o
roteiro se concentra em um recorte específico de um dos períodos mais
relevantes da trajetória do artista, aquele em que ele atingiu a consagração ao
passar a receber encomendas do Estado e também tomou como amante a escultora
Camille Claudel (Izïa Higelin), fazendo com que haja uma reflexão sobre o
eterno dilema da relação entre a vida privada e a arte, no sentido da forma com
que ambas se influenciam, buscando-se ressaltar ainda o caráter libertário e
contestador da atividade artística. Ao mesmo tempo que Rodin foge de vários
padrões de previsibilidade na concepção e execução de alguns dos seus
principais trabalhos, seu hedonismo furioso entra em conflito com os ditames
moralizantes da França do século XIX. A ambição existencial e narrativa de
Doillon, entretanto, não consegue se efetivar de maneira satisfatória.
Encenação, fotografia e direção de arte formam um conjunto correto, mas que
também implicam num certo engessamento narrativo e numa atmosfera de assepsia
visual. Falta uma visão mais sanguínea e suja por parte do cineasta, em que
mesmo quando o filme parte para sequências mais eróticas há a impressão de
comedimento estético no sentido de não provocar grandes choques gráficos, o que
faz demonstrar que o filme não estar em sintonia com a própria natureza da arte
do biografado. Há méritos didáticos em “Rodin”, no sentido de sua
contextualização histórica, mas falta humanismo e ousadia na sua síntese
temática-formal.
quinta-feira, junho 29, 2017
Além das palavras, de Terence Davies ***
É claro que se pode acusar a direção do britânico Terence
Davies em “Além das palavras” (2016) de um academicismo excessivo e de uma
incômoda previsibilidade narrativa. Por outro lado, sua rigorosa concepção
artística também é marcada por uma abordagem emocional sóbria e por uma
encenação meticulosa que valorizam as nuances psicológicas e os complexos jogos
sociais que marcam o contexto intimista e cultural em que se desenvolve a
exposição de alguns fatos reveladores da biografia da poetisa norte-americana
Emily Dickinson. É de se destacar também o roteiro que consegue captar com
sensibilidade e fino senso de humor toda uma gama temática bastante variada e
repleta de sutilezas existenciais, indo da caracterização brutal do
patriarcalismo opressor da sociedade ocidental do século XIX até a valorização
do poder da palavra literária – nesse aspecto, são notáveis alguns diálogos lapidares
pelas suas dinâmicas espirituosas e subtexto de forte caráter contestatório,
além da engenhosa forma como alguns trechos expressivos da poesia de Dickinson
se inserem na narrativa. Davies também reforça a sua capacidade de extrair
atuações memoráveis de seu elenco, com destaque para Cyhthia Nixon no papel
principal e Keith Carradine em uma performance sorumbática e repleta de fleuma.
terça-feira, junho 27, 2017
Argentina, de Carlos Saura ***
É claro que, em se tratando do diretor espanhol Carlos Saura,
“Argentina” (2015) está bem longe de entusiasmar tanto quanto as obras
clássicas do cineasta nos anos 60 e 70 ou mesmo com outras de suas produções
onde a música e a dança foram os enfoques temáticos principais. Incomoda um
certo tom de assepsia na abordagem artística do documentário em questão,
fazendo evocar por vezes um equivocado tom institucional. Ainda assim, é
impossível para o espectador ficar impassível com a exuberâncias do ritmos, melodias
e coreografias mostrados no filme e também com o refinamento narrativo e
estético impresso por Saura em algumas sequências. No âmago de temas e danças
de forte caráter telúrico se encontra uma arte marcada por humanismo pungente e
considerável teor sócio-cultural contestatório, com Saura mostrando
sensibilidade suficiente para captar com considerável fidelidade tais nuances.
Dentro dessa concepção artística-existencial, os grandes pontos altos de “Argentina”
se concentram nas belas homenagens para Mercedes Sosa e Atahualpa Yupanqui.
segunda-feira, junho 26, 2017
Mulher-Maravilha, de Patty Jenkis ***
Para aqueles que se apavoraram com a ruindade de “Superman –
O homem de aço” (2013), “Batman vs Superman – A origem da justiça” (2016) e “Esquadrão
Suicida” (2016), assistir a “Mulher-Maravilha” (2017) provavelmente poderá
render uma agradável surpresa. O filme dirigido por Patty Jenkins se enquadra
dentro de um formato de aventura nostálgica classicista e por vezes até
resvalando numa certa profundidade dramática convincente, bem distante da
pretensão temática pseudo-sombria e do nefasto formalismo “video-game” das
produções de super-heróis da DC dirigidas por Zack Snyder e pupilos. O pique de
narrativa new age/mística enfadonha dos primeiros quinze minutos da obra correm
o risco de aborrecer a plateia, mas quando Steve Trevor (Chris Pine) entra em
cena as coisas realmente engrenam, com o filme se tornando um misto de drama de
guerra e aventura de super-heróis que prima por algumas memoráveis cenas de
ação, pela direção de arte estilizada e pelo carisma cativante do elenco (com
exceção da inexpressiva Gal Gadot no papel título). Parte considerável das
escolhas artísticas de Jenkins, principalmente em termos de roteiro e
atmosfera, fazem lembrar o ótimo “Capitão América – O primeiro vingador”
(2011), mas é bem melhor copiar o que deu certo num filme da Marvel do que
seguir os mandamentos “originais” do picareta Znyder.
sexta-feira, junho 23, 2017
Tragedy girls, de Tyler Macintyre ***
O fato da produção norte-americana “Tragedy girls” (2017)
ter tido exibição única e exclusiva no Brasil no FANTASPOA ajuda a ilustrar a
importância do festival. Dá para imaginar uma produção como essa do diretor
Tyler Macintyre, que abusa da violência gráfica e de um perverso senso de humor,
sendo exibida no bem-comportado circuito comercial de salas de cinema de
shoppings em Porto Alegre? Assim, fica evidente que somente num festival como o
FANTASPOA que uma obra como essa no gênero horror B poderia ser ter a chance de
ser apreciada numa tela grande. Não se trata propriamente de um filme com
grandes ousadias estéticas ou temáticas, mas que tem um certo caráter
instigante na forma com que expõe as hipocrisias do american way of life dentro
de um formato que sintetiza com eficiência comicidade ácida e suspense com alto
teor de violência gráfica, passando a léguas de distância do horror asséptico
das franquias do gênero que costumam aportar por aqui. Além disso, Macintyre
até se permite a incorporar algumas referências visuais e narrativas bastante
pertinentes e intrigantes, de “Um corpo que cai” (1958) até “Carrie, a estranha”
(1976). As acertadas escolhas artísticas do diretor levam “Tragedy girls” a uma
conclusão brutal e perturbadora capaz de colar por um bom tempo no imaginário
dos apreciadores do gênero.
quinta-feira, junho 22, 2017
Eu me casei com uma pessoa estranha!, de Bill Plympton ****
Na última edição do FANTASPOA, na sessão em que foi
homenageado pelo festival, o diretor de animações norte-americano Bill Plympton
foi questionado sobre qual teria sido a inspiração principal para a realização
do longa-metragem “Eu me casei com uma pessoa estranha?” (1997). Respondeu que
o seu mote principal na elaboração da produção foi a de que um animador é uma
espécie de deus na concepção de sua obra, em que personagens e toda a
ambientação que os circunda são regidos pela sua vontade. E é justamente essa a
impressão que se tem ao assistir ao filme em questão – é como se Plympton
jogasse na cara do espectador sem nenhuma cerimônia boa parte de suas
obsessões, desejos e diatribes. A trama do filme obedece a uma lógica onírica e
que beira o instintivo, em que vários pilares tradicionais da sociedade
ocidental (família, religião, governo, militarismo) são pisoteados de maneira
inclemente em nome de um ideário libertário. Nessa perspectiva, o sexo e a
imaginação criativa são celebrados como os pontos máximos da expressividade
humana, e como as únicas vias para uma possível transcendência existencial.
Embalando essa expressiva visão sócio-política-filosófica, há um grafismo e uma
narrativa de viés alucinado e beleza perturbadora – ao invés da estética
realista ou de estilização bem-comportada das animações tradicionais dos
grandes estúdios, prevalecem visual e atmosfera delirantes e algo “sujos”,
jogando a plateia dentro de um imaginário síntese entre a contestação e o
lisérgico.
quarta-feira, junho 21, 2017
Comeback, de Erico Rassi **
A premissa principal da trama de “Comeback” é promissora:
numa cidadezinha furreca do interior do Brasil, um pistoleiro aposentado
(Nelson Xavier) resolve voltar à ativa para resgatar a autoestima. Faz pensar
numa espécie de faroeste atualizado e mesmo reconfigurado para o contexto
brasileiro, algo como uma versão cabocla do clássico “O último pistoleiro”
(1976). Na prática, entretanto, o que ocorre na tela fica bem distante das
aparentes boas possibilidades. De certa forma, dá até para entender o
direcionamento artístico proposto pelo diretor Erico Rassi, em que a indolência
e mesmice do cotidiano desolador do protagonista Amador recebe a recíproca de
uma narrativa de desenvolvimento e ambientação semelhantes. No final das
contas, tal direcionamento formal-temático vai se mostrando cada vez mais
frustrante e aborrecido na sua letargia criativa, fazendo com que a obra caia
por vários momentos no sonolento e desinteressante. Mesmo quando os momentos de
violência irrompem na tela, o que era para ser o ápice dramático fica apenas
numa encenação tediosa e rotineira. No cômputo geral, as decisões estéticas e
textuais de Rassi para o filme dão a impressão de quererem disfarçar uma
preguiça do cineasta em oferecer algum momento mais ousado ou de maior impacto
sensorial.
segunda-feira, junho 19, 2017
Faces de uma mulher, de Arnaud des Pallières ***
A estrutura narrativa de “Faces de uma mulher” (2016)
obedece a formato e execução convencionais, focando na conturbada vida de uma
mulher, sempre à beira da marginalidade sócio-econômica, com uma trama que se
estrutura a partir de forma episódica e cronologicamente reversa a mostrar
fatos importantes da maturidade, juventude e infância da protagonista. O roteiro
obedece a uma lógica existencial um tanto moralista, além de ser previsível em
alguns de seus desdobramentos. A efetiva força do filme de Arnaud des
Pallières, e o que o torna uma experiência memorável, está no vigor de sua
encenação e na intensidade dramática das atuações do seu elenco, com destaque
em especial para Adèle Exarchopoulos, que entrega uma interpretação de
admirável desenvoltura cênica, lembrando bastante o seu desempenho antológico
na obra-prima “Azul é a cor mais quente” (2013).
sexta-feira, junho 16, 2017
México bárbaro II, de vários diretores ***
A temática do satanismo não é novidade dentro do cinema,
principalmente quando se trata do gênero horror. Na grande maioria das
produções que versam sobre o assunto, o diabo e seus seguidores são vistos como
antagonistas a serem batidos, com seus princípios sendo vistos como uma
distorção daquilo que é considerado aceitável pela ordem vigente. No filme
episódico “México bárbaro II” (2017), a presença de demônios e afins tem uma
relação com a própria cultura religiosa do seu país de origem, onde o
catolicismo até hoje tem uma presença forte nos lares nacionais. Por outro
lado, boa parte dos episódios que compõem a produção sugere uma visão mais
libertária sobre o assunto, em que a fórmula narrativa sintetizando ironia perversa
e terror explícito-escatológico gera algumas sequências memoráveis que variam
entre o divertido e o perturbador. Por trás desses pequenos contos audiovisuais,
há um forte discurso existencial a questionar uma sociedade patriarcal e cristã
marcada pela opressão sócio-cultural, mas que também sabe preservar uma
narrativa tensa e envolvente. De se destacar ainda o ótimo trabalho de
trucagens, mais um fator que acentua a impressão de uma experiência
cinematográfica extrema no seu sensorialismo demente.
quarta-feira, junho 14, 2017
Pouco antes do amanhecer, de Jeff Lieberman ****
O roteiro e a estrutura narrativa de “Pouco antes do
amanhecer” (1981) podem fazer pressupor que a obra em questão seja mais um
tradicional slasher daqueles que apareciam com frequência nos cinemas nos anos
80. Um olhar mais atento, entretanto, faz com que se perceba que o filme do
diretor norte-americano Jeff Lieberman vai bem mais além. Encenação, direção de
fotografia e edição evidenciam uma abordagem mais minuciosa e quase
contemplativa na forma que delineia situações e personagens e esmiúça a ação. Ainda
que haja os habituais assassinatos sangrentos de jovens incautos em um local
interiorano isolado, não se chega a privilegiar tanto a violência explícita,
com Lieberman se mostrando mais concentrado na elaboração de uma narrativa
atmosférica pautada pela tensão e ironia. É como se o cineasta fizesse uma
releitura mais sardônica do clássico “Amargo pesadelo” (1972) e carregada num
simbolismo ainda mais contestador, principalmente na visão ácida sobre a caipirice
obscurantista do interior dos Estados Unidos e na reverência ao empoderamento
feminino na figura da protagonista que se recusa a permanecer no papel de
vítima inocente e indefesa.
segunda-feira, junho 12, 2017
Corra!, de Jordan Peele ***1/2
Combinar drama racial com preceitos de horror gótico típicos
de cinema B pode parecer uma mistura indigesta em um primeiro momento. Nas mãos
do diretor Jordan Peele, entretanto, tudo isso adquire uma estranha coerência. “Corra!”
(2017) é uma obra que prima pelo exagero – com direito, inclusive, a passagens
no roteiro envolvendo transplantes cerebrais! – mas é justamente nesse aspecto
do excesso que o filme se torna tão marcante. A caracterização de personagens,
situações e ambientação é ambígua – na superfície, há uma beleza que é asséptica,
evocando sempre uma espécie de América “idealizada” e perdida, possivelmente
aquela buscada por Donald Trump e seus seguidores, e que esconde também um lado
sombrio e degradado na sua moralidade distorcida. Ainda nesse aspecto
existencial, mesmo a visão sobre a questão racial na produção é marcada por uma
originalidade surpreendente, em que a pró-atividade dos personagens negros na
defesa de sua integridade física-moral foge dos caminhos óbvios de uma hipócrita
saída conciliadora, além do fato de que o racismo dos vilões da trama esconde
na sua gênese uma admiração pela própria figura do negro (afinal, por que os
personagens brancos escolheriam passar o resto de suas vidas dentro dos corpos
de afro-americanos?). No mais, a narrativa é marcada por encenação e atmosfera
elaboradas a partir de uma uma dinâmica tensa e brutal, beirando por vezes o
barroco e o delirante nas nuances visuais de algumas sequências.
sexta-feira, junho 09, 2017
Controle remoto, de Jeff Lieberman ****
Na década de 80, um nicho expressivo de diretores e
produções dentro do gênero fantástico se dedicaram a uma espécie de
reciclagem/homenagem a filmes B de terror e ficção-científica dos anos 50. É só
lembrar de alguns dos trabalhos mais expressivos da época de diretores como Joe
Dante e John Landis. Uma obra como “Controle remoto” (1988) é outro exemplar
enfático dessa tendência. O diretor Jeff Lieberman recria os preceitos formais
e temáticos mais caros de antigos filmes sobre invasões alienígenas sob uma
ótima ainda mais sarcástica e perversa tanto na elaboração de uma produção
pastiche fake de ficção científica cinquentista que serve como mote principal
da trama quanto em termos de atmosfera e encenação da história que se
desenvolve numa época mais contemporânea – nesse sentido, é de se destacar a
estranheza e sordidez da ambientação de algumas cenas e a criatividade das
brutais e hilárias sequências de ação. Algumas passagens do roteiro podem soar
paródicas e exageradas, mas acabam ganhando uma perturbadora dimensão dramática
devido a tensa narrativa arquitetada por Lieberman. Nas mãos do cineasta, mesmo
algumas interpretações canastronas do elenco e alguns dilemas datados do
roteiro se incorporam com naturalidade e coerência em uma lógica artística
muito particular.
quinta-feira, junho 08, 2017
O cidadão ilustre, de Mariano Cohn e Gastón Duprat ***
A sequência inicial de “O cidadão ilustre” (2016), em que o
escritor Daniel Mantovani (Oscar Martínez) recebe o Nobel da literatura, pauta
o grande dilema existencial do roteiro do filme dirigido por Mariano Cohn e
Gastón Duprat – a do real papel da arte no mundo contemporâneo. O texto raivoso
e amargurado do discurso proferido pelo protagonista durante o evento evidencia
o medo de uma estagnação criativa e da incapacidade de sua escrita gerar algum
incômodo ao status quo vigente. Assim, quando a narrativa passa a se concentrar
no ambiente da cidadezinha no interior da Argentina onde Mantovani nasceu, e
que serviu de maior fonte de inspiração para as histórias de seus livros, a
produção ganha um tom de fábula perversa, por vezes até kafkaniana na sua
caracterização de pesadelo, em que o personagem principal, inicialmente
convidado pela prefeitura local para ser homenageado, se embrenha em um
crescente vórtice de sentimentos nada nobres por parte dos habitantes da cidade
(mascarados por um hipócrita manto de cordialidade): invejas, ressentimentos,
obscurantismo, mesquinharias, repressão moral e interesses escusos das
oligarquias locais. Diante de tais situações, Mantovani é contraditório e
ambíguo em suas ações e sentimentos, mas de tais elementos fica tangível um
humanismo que se contrapõe ferozmente contra o opressor patriarcalismo político-cultural
da sua aparentemente pacata cidade natal. Ainda que por vezes “O cidadão
ilustre” caia em algumas caracterizações caricatas e simplistas e que o seu
formato seja o de uma comédia dramática convencional, a obra de Cohn e Duprat
tem momentos instigantes e memoráveis pela forma com que expõe a condição entre
o ridículo e o assustador da sociedade contemporânea, reafirmando a função da
arte e da cultura em desafiar tais aspectos deletérios da humanidade.
quarta-feira, junho 07, 2017
Rei Arthur - A lenda da espada, de Guy Ritchie **1/2
O diretor britânico Guy Ritchie forjou uma peculiar
linguagem autoral em seus primeiros trabalhos, principalmente quando enveredava
pelo gênero policial. Quando embarcou de vez no “cinemão” comercial
norte-americano, dedicou-se a releituras modernizadas de figuras literárias (“Sherlock
Holmes”), televisivas (“O agente da U.N.K.L.E.”) e míticas – nesse último caso,
enquadra-se sua produção mais recente, “Rei Arthur – A lenda da espada” (2017).
Em algumas passagens do filme, principalmente em seu terço inicial, pode-se
perceber algumas características típicas de seu estilo, como os diálogos
prolixos e a edição repleta de cortes rápidos. Com o desenvolver da narrativa,
entretanto, sua marca autoral vai ficando cada vez mais diluída em nome de uma
síntese artística despersonalizada e convencional em excesso, em que a história
do Rei Arthur (Charlie Hunnam) parece se adequar a fórmulas de mercado. Por
vezes, há a impressão de que se está se assistindo a uma produção de
super-heróis da Marvel ou da DC situada na Inglaterra de séculos atrás. Se
alguém estiver interessado em assistir a uma obra realmente de peso versando
sobre as aventuras de Arthur, é melhor ficar mesmo com a obra-prima definitiva
sobre o assunto, o poético e vigoroso “Excalibur” (1981) de John Boorman.
terça-feira, junho 06, 2017
1974: A possessão de Altair, de Victor Dryere ***
Dentro do gênero do horror de “câmera subjetiva”, onde as
filmagens são “registradas” pelos próprios personagens da trama, a produção
mexicana “1974: A possessão de Altair” (2016) não atinge os mesmos níveis de
criatividade e concisão narrativa do espanhol “REC” (2008), mas se mostra bem
mais instigante do que os mais recentes exemplares da franquia “Atividade
paranormal” e derivados norte-americanos. A explicação pela sua maior
relevância artística está na concepção e execução de um convincente conceito
temático-estético. O fato da trama se desenvolver em meados dos anos 70 e de
que grande parte das gravações serem feitas em Super 8 faz com que o filme
tenha uma atmosfera que transite com fluidez entre o real e o onírico e uma
direção de fotografia e arte que surpreende pela beleza visual rústica e
nostálgica de algumas sequências. O roteiro cai em alguns convencionalismos
inerentes ao gênero, mas o tratamento formal e narrativo tem a precisão
suficiente para gerar tensão e interesse para o espectador.
segunda-feira, junho 05, 2017
Vermelho russo, de Charly Braun ***
O roteiro e a estrutura narrativa de “Vermelho russo” (2016)
partem de premissas de uma estranha síntese entre o simples e o sofisticado: a
partir de uma trama que acolhe experiências reais das atrizes Maria Manoella e
Martha Nowill, há uma encenação que combina intimismo, metalinguagem e
trejeitos de cinema documental, com as referidas intérpretes nos papéis de si
mesmas. No cerne desse conceito formal-temático está uma lúcida reflexão sobre
o papel da arte e da cultura na vida das pessoas. O curso sobre o método
Stanislavski de interpretação que Maria e Martha vão fazer em Moscou
desencadeia um processo de questionamento existencial para elas, onde indagam
sobre os rumos profissionais que tomaram, as suas escolhas sentimentais e mesmo
o significado da amizade entre elas. A narrativa é marcada pela concisão,
alcançando uma interessante atmosfera que varia com naturalidade de uma
consistente carga dramática para a comicidade sutil. Além disso, elementos do
teatro e da literatura se incorporam de maneira fluida dentro da linguagem
estética do filme, valorizando ainda mais as nuances dramáticas e irônicas do
roteiro.
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