sexta-feira, setembro 24, 2010

O Aprendiz de Feiticeiro, de Jon Turtelbaub **


É de se ressaltar positivamente em “O Aprendiz de Feiticeiro” (2010) a qualidade de algumas sequências em termos de trucagens visuais como as cenas do dragão em Chinatown ou da perseguição automobilística que se desenvolve no mundo dos espelhos. Esses momentos mais criativos em termos formais, entretanto, acabam sendo exceções em meio a uma narrativa burocrática e pouco inspirada. A abertura, por exemplo, é um apressado resumo de fatos expostos de forma anti-climática. Sempre que a trama de fantasia do filme parece que vai engrenar, do nada surge trechos de interlúdios românticos deslocados e pouco convincentes. No geral, “O Aprendiz de Feiticeiro”, assim como “Percy Jackson e o Ladrão de Raios” (2010), parece tentar estabelecer um nova franquia cinematográfica no gênero fantástico, na linha de “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis”, mas faz isso de forma oportunista e sem convicção. E depois dos sensacionais “Vício Frenético” (2009) e “Kick-Ass – Quebrando Tudo” (2010), Nicolas Cage volta ao seu universo tradicional de protagonista de produções meia-boca.

quinta-feira, setembro 23, 2010

O Bem Amado, de Guel Arraes **


Não cheguei a acompanhar a novela baseada na peça de teatro original de Dias Gomes, mas lembro do seriado exibido na década de 1980 pela Globo. Na época, ficava admirado pelo texto muito bem azeitado dos episódios da série, que combinavam com precisão comédia picaresca e uma sutil ironia política, além de interpretações memoráveis de atores como Paulo Gracindo, Lima Duarte e Emiliano Queiroz. Dessa forma, considerei frustrante esta recente adaptação cinematográfica de “O Bem Amado” (2010). Ao contextualizar a trama meses antes do Golpe de 1964, a produção dirigida por Guel Arraes apresenta em algumas seqüências um inexplicável e aborrecido tom didático. Mesmo que a intenção de utilização desse recurso narrativo fosse cômica, o resultado fica distante do riso. Arraes também parece não se acertar na incorporação de macetes típicos de televisão na linguagem de cinema. O resultado é de que a estética de “O Bem Amado” tranca em uma cansativa estrutura de teatro filmado. Quando consegue escapar dessa armadilha formal, entretanto, o cineasta até apresenta alguns momentos inspirados, principalmente nas cenas que envolvem o personagem Zeca Diabo (José Wilker), quando se emula um pastiche de faroeste. Mesmo assim, o saldo final de “O Bem Amado” fica muito abaixo do esperado no sentido das possibilidades criativas que a obra original de Dias Gomes oferecia para uma leitura contemporânea.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Meu Malvado Favorito, de Pierre Coffin e Chris Renaud **


O grande problema de “Meu Malvado Favorito” (2010) é ser genérico demais, mesmo dentro de um tipo de produções que é marcado por um certo grau de previsibilidade. O filme segue com rigor os cânones de várias e recentes animações digitais que aparecem com regularidade nos cinemas: protagonistas engraçadinhos, crianças fofinhas, criaturas ou animais esquisitos e/ou adoráveis, tramas com teor edificante. O que pode fazer a diferença dentro dessa fórmula já tão manjada é a dinâmica da narrativa e a qualidade do traço dos desenhos (qualidades que abundam, por exemplo, em “Os Incríveis” ou na franquia “Toy Story”). No caso de “Meu Malvado Favorito”, entretanto, o mesmo não vinga em nenhum desses aspectos. Tudo no filme soa tão mecânico e sem inspiração que mesmo os efeitos 3D pouco acrescentam à obra no seu impacto visual.

terça-feira, setembro 21, 2010

Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil ***


A esta altura do campeonato, já deu para perceber que a importância desses documentários brasileiros sobre música que vêm aparecendo com frequência nos cinemas não está principalmente em suas concepções formais, mas sim nas intenções quase didáticas de falar sobre episódios, obscuros ou não, da história cultural de nosso país. Dentro dessa perspectiva, “Uma Noite em 67” (2010) se mostra uma produção satisfatória. Esteticamente, os diretores Renato Terra e Ricardo Calil não inventam muito, fazendo o básico com competência: combinam um farto e precioso material de arquivo com depoimentos ora reveladores, ora apenas anedóticos, de alguns daqueles que participaram do Festival da Record de 1967, evento esse que apresentou grandes clássicos do cancioneiro brasileiro como “Ponteio” (Edu Lobo), “Roda Viva” (Chico Buarque), “Domingo no Parque” (Gilberto Gil) e “Alegria Alegria” (Caetano Veloso). Essa certa previsibilidade em termos de estrutura narrativa, entretanto, não quer dizer que “Uma Noite em 67” não apresente alguns diferenciais. O principal deles está no sutil perfil desmistificador sobre tais fatos antológicos. Mesmo mostrando que boa parte das canções participantes do festival refletia as preocupações políticas e sociais dos seus autores e público em relação a ditadura militar que dominava o país na época, há também a visão sobre a posição sectária e obscurantista da platéia “engajada” que vaiava impiedosamente as músicas e artistas que não correspondiam às suas expectativas, numa atitude quase tão autoritária quanto a ditadura que tanto abominavam, o que fica ainda mais graves quando se observa que um dos cantores que sofreram apupos do público foi o já tarimbado Sérgio Ricardo, simplesmente o cara que fez a brilhante trilha de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964). Não deixa de ser uma tremenda ousadia propor uma abordagem pouco maniqueísta como essa colocada por Terra e Calil, o que credencia “Uma Noite em 67” como um peculiar programa cinematográfico. Mas aqueles que não se interessam por tais considerações temáticas podem simplesmente assistir ao filme para assistir as contundentes apresentações das músicas acima citadas, mostradas na íntegra no filme.

quinta-feira, setembro 16, 2010

O Pequeno Nicolau, de Laurent Tirard ***


Um dos grandes méritos de “O Pequeno Nicolau” (2009) é conseguir preservar dentro de uma estrutura cinematográfica muito da linguagem dos quadrinhos, mídia originária em que surgiu a obra em questão. A caracterização das situações e personagens beira o cartunesco. Mesmo que o filme reflita vários dilemas e considerações da infância, predomina o gosto por um certo exagero. O personagem-título e seus amigos de colégio são apresentados cada um como estereótipos de comportamentos infantis: o boa-praça, o desligado, o gordinho comilão, o brigão, o certinho puxa-saco, etc. Isso, entretanto, funciona muito a favor do filme, no sentido que acentua um tom mais delirante para os momentos cômicos do filme. É quase como se assistisse um desenho animado vivenciado por criatura de carne-e-osso, o que permite até algumas ousadias que chegam as raias do politicamente incorreto. A forma com que o garoto preguiçoso e que não gosta de estudar é mostrado, por exemplo, traz uma grau de ironia que mentes mais conservadoras poderiam não apreciar muito... Em tempos que transposições dos comics para a tela grande pipocam de todos os lados, é interessante que surja uma produção como “O Pequeno Nicolau” que explora com sensibilidade as possibilidades criativas que o encontro entre cinema e HQs pode oferecer.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Salt, de Phillip Noyce **


O australiano Phillip Noyce não pertence àquela categoria de realizadores que apresenta grandes traços autorais em suas obras. Ainda assim, de vez em quando apresentou produções acima da média como “Geração Roubada” e “O Americano Tranquilo”, ambos de 2002. Mesmo quando enveredou para o gênero do cinema de ação, mostrou-se um artesão competente e com um certo grau de ousadia, conforme pode ser atestado nos thrillers “Jogos Patrióticos” (1992) e “Perigo Real e Imediato” (1994). Assim, não há como não se decepcionar com “Salt” (2010), produção mais recente dirigida por Noyce. Tudo no filme exala uma previsibilidade burocrática. As seqüências de ação abusam da câmera lenta de forma desnecessária, parecendo serem apenas pretextos para Angelina Jolie fazer caras e bocas no papel-título. Até as viradas na trama obedecem a convenções engessadas. É claro que há algumas cenas mais movimentadas que chamam atenção do espectador, além de Liev Schreiber compor um vilão carismático. No mais, entretanto, “Salt” peca por fazer questão de não sair do âmbito do genérico.

terça-feira, setembro 14, 2010

A Origem, de Christophen Nolan ***1/2


Confesso que achei exagerados os comentários falando sobre as profundidades filosóficas da trama de “A Origem” (2010) ou da necessidade de ver mais de uma vez o filme para entendermos todas as nuances do roteiro. Creio que uma olhada atenta na produção é suficiente para compreender todos os detalhes da sua história. É claro que há várias situações rocambolescas, com diversas sub-tramas se interligando, mas nada que torne “A Origem” tão hermético. Essa profusão de situações que se desenvolvem simultaneamente em planos de realidade diferentes é algo bastante explorado nos quadrinhos. Aliás, as HQs de ficção científica parecem ser uma influência clara nessa obra de Nolan, o que se aplica também na concepção visual do filme, que aproveita com louvor as possibilidades de uma história que se desenvolve no mundo onírico oferecem, coisa, por exemplo, que a trilogia “Matrix” não conseguiu fazer em relação ao universo virtual. É mérito também do diretor conseguir desenvolver com clareza várias frentes de ação que se desenvolvem praticamente ao mesmo tempo. No mais, Nolan se vale dos recursos do sonhar mais para estabelecer uma ótima trama de ação e aventura do que para fazer considerações psicológicas sobre a mente humana (nesse sentido, a obra anterior do cineasta, “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, é bem mais perturbadora). Isso, entretanto, não pode ser considerado demérito. Afinal, não é todo que aparece uma obra no gênero aventura tão convincente quanto “A Origem”.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Almas à Venda, de Sophie Barthes ***


A força de “Almas à Venda” (2009) está no seu roteiro, bastante influenciado pelas tramas escritas por Charlie Kaufman para obras importantes como “Quero Ser John Malkowich” (1999) e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004). A diretora Sophie Barthes mistura metalinguagem, referências literárias, elementos de cinema fantástico e dramas existenciais. Mesmo não tendo o impacto dos textos de Kaufman, Barthes conseguiu obter um resultado interessante. O filme passa uma sensação constante de incômodo e outros sentimentos difusos, o que está em sintonia com os tormentos psicológicos do protagonista/ator principal (Paul Giamatti interpretando a si mesmo – ou seria interpretando uma ideia externa que se tem dele?). Por mais denso que seja os conflitos expostos em “Almas à Venda”, sempre há espaço para bem vindos toques cômicos, principalmente pelas menções irônicas que se faz à contundência dramática da literatura russa clássica. É claro que há um certo ranço pedante e intelectual permeando todo o filme, mas é mérito de Barthes que no meio disso “Almas à Venda” apresente uma narrativa consideravelmente fluente.

sexta-feira, setembro 10, 2010

O Profeta, de Jacques Audiard ****


Assim como outras produções francesas recentes, “O Profeta” (2009) envereda pelo gênero do policial dramático de estrutura narrativa clássica. O cineasta Jacques Audiard não propõe se afastar muito das convenções desse tipo de filme, mas recicla os clichês com admiráveis convicção e competência. Em termos temáticos, ele atinge um feito raro: traça a trajetória de anos na prisão de Malik (Tahar Rahim), um jovem marginal de ascendência árabe, mas sem parecer que estamos vendo um grande e apressado resumo. Audiard consegue traçar com precisão a evolução psicológica do personagem, dando-lhe uma densidade dramática bastante verossímil. Ao mesmo tempo, estabelece uma engenhosa trama de disputa de poder dentro da prisão, cheia de reviravoltas e nuances, na melhor tradição de clássicos do gangsterismo cinematográfico como “O Poderoso Chefão” (1972) e “O Pagamento Final” (1993). A opção por uma estrutura narrativa simples e linear é acertada para o que o roteiro propõe. A direção de fotografia traz movimentos de câmeras que privilegiam a clara exposição da ação cinematográfica, assim como a elegante edição opta por poucos e quase imperceptíveis cortes. É de se destacar ainda em “O Profeta” a inserção de surpreendentes toques de cinema fantástico nas seqüências que mostram os devaneios oníricos de Malik com fantasmas do passado e estranhas simbologias.

quinta-feira, setembro 09, 2010

Quatro Moscas em Veludo Cinza, de Dario Argento ****


No cinema de Dario Argento, trama é algo quase tênue que funciona como pretexto para uma narrativa repleta de apurados detalhes formais. Isso não quer dizer, entretanto, que os roteiros dos filmes de Argento não apresentem aspectos interessantes. Mesmo que destituídos de maiores profundidades psicológicas, eles trazem à tona um certo teor sórdido com personagens amorais e crimes brutais. Tais características se revelam adequadas para as atmosferas sombrias orquestradas com precisão por Argento. Em “Quatro Moscas em Veludo Cinza” (1972), essa linguagem cinematográfica do cineasta se aflora com naturalidade. Assim como em outros filmes de Argento, há a sensação de criação de um universo particular e atemporal (acentuada pela trilha sonora, uma extraordinária combinação entre temas típicos de Enio Morricone para o gênero giallo e canções hard rock com pitadas de progressivo). As criaturas do cineasta circundam em torno do fio de narrativa e funcionam mais como um elemento pictório da construção de sequências de uma grandeza visual que chega ao limite do barroco. Argento manipula como poucos os contraste entre luz e sombras em algumas cenas – os momentos em que os personagens interagem com a escuridão revelam um inspirado trabalho de direção de fotografia. O saldo final de “Quatro Moscas em Veludo Cinza” revela um artista sempre inquieto em explorar as possibilidades criativas que o cinema oferece.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Predadores, de Nimród Antal ***


É claro que Nimród Antal está bem distante da classe de John McTiernan no quesito de direção de filme de ação. Assim, “Predadores” (2010) não tem o status de obra-prima que o longa original de 1987 ostenta. Mesmo assim, o filme de Antal é infinitamente melhor do que as deprimentes duas partes de “Aliens vs. Predador”. Em seu roteiro, “Predadores” tem um certo tom nostálgico pela caracterização dos personagens durões e amorais (apesar de Adrien Brody não ter o mesmo carisma truculento de Arnold Schwarzenegger) e pela violência desenfreada de algumas sequências. É mérito do diretor também conduzir as cenas de ação sem se ter aquela impressão de câmeras excessivamente tremidas e cortes frenéticos onde não se sabe quem luta com quem. O filme peca por uma certa narrativa trôpega em alguns momentos, mas no geral dá novamente uma dignidade para a franquia dos alienígenas caçadores, criando expectativa para os próximos segmentos da mesma.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho ***


Já ouvi comentários dizendo que “Os Famosos e os Duendes da Morte” comporia junto com “As Melhores Coisas da Vida” e “Antes Que o Mundo Acabe” uma espécie de trilogia involuntária de produções nacionais de 2010 a versarem sobre as agruras da adolescência. A semelhança entre tais produções, entretanto, é puramente temática. Até porque fazer filmes sobre o universo juvenil não é uma novidade na história do cinema. O tratamento formal de “Os Famosos...” é bem diverso das obras mencionadas. O primeiro longa-metragem de Esmir Filho é bem mais inquietante e ousado em termos estéticos, ainda que por vezes caia numa certa afetação “artística” e estéril. Seu grande mérito é traduzir esse pretenso olhar juvenil na própria concepção formal do filme. A visão de mundo dos personagens jovens é confusa e oscilante, o que se reflete numa narrativa difusa e “quebrada”, e que em algumas oportunidades combina habilmente realidade e delírio. Tal dualidade é acentuada pela fotografia que manipula com criatividade tons granulados ou até mesmo levemente desfocados ou distorcidos. De se destacar também algumas cenas que apresentam um inesperado senso de humor, principalmente aquela do parco diálogo entre o protagonista Sr. Tamborim (Henrique Larré) com os seus avós que mal falam o português. O tom lamentoso do roteiro e a embalagem indie de algumas sequências podem dar a impressão que o filme seja dirigido a uma platéia específica, mas por mais que isso seja um incômodo, é inegável também que faz com que “Os Famosos e os Duendes da Morte” capte com considerável fidelidade o espírito de uma época, o que não deixa de ser elogiável.

sexta-feira, setembro 03, 2010

À Prova de Morte, de Quentin Tarantino ****


A metade de Tarantino no projeto “Grindhouse” é a prova radical de que ele cada vez mais se volta para uma dimensão própria e pouca ligada aos atuais cânones cinematográficos. Normalmente há a tendência de que cineastas “amadureçam” com o passar dos anos e se tornem mais acessíveis e respeitáveis para crítica e público, mas Tarantino, contrariamente, avança rumo a um cinema desvinculado dos padrões de bom gosto. Dessa forma, não se melindra em realizar uma obra em que revitaliza os clichês dos filmes de psicopata e de perseguições automobilísticas ao mesmo tempo que afia seu virtuosismo cinematográfico. A recriação da ambientação dos filmes baratos de gênero que imperavam nas antigas sessões grindhouse é apenas o ponto de partida para um filme que se descarna de elementos supérfluos e se concentra na pura ação. Nesse sentido, entenda-se por ação não apenas as seqüências de violência e velocidade, mas também aquelas dominadas por diálogos ágeis e cortantes. Nesse último aspecto, “À Prova de Morte” (2007) traz um texto primoroso de Tarantino ao combinar magistralmente vulgaridade e sagacidade.

O cinema de À Prova de Morte se despe de planos contemplativos e caracterizações inutilmente aprofundadas e se reduz a um esqueleto de pura dinâmica narrativa. É essa a grande ousadia do filme e que o aproxima de outras grandes obras-primas subestimadas como “Viver e Morrer em Los Angeles” (1985) e “Rejeitados Pelo Diabo” (2005). Nesse contexto, até os limites entre o bem o mal na trama se tornam tênues, fazendo com que Tarantino crie um mundo amoral e sedutor. Suas “heroínas” são escancaradamente hedonistas e decididas, variando com a maior naturalidade de conversas sobre intimidades femininas até momentos de pura brutalidade vingativa. Stuntman Mike (Kurt Russell) é um vilão naquilo que é mais essencial para um antagonista: odioso, covarde, fanfarrão e com direito a gritos histéricos no final quando é espancado por algumas “mocinhas”. Provavelmente, é o tipo de papel que Russell há anos aguardava!!

quinta-feira, setembro 02, 2010

Um Homem Sério, de Etahn e Joel Coen ****


Esta produção de 2009 dirigida pelos irmãos Coen é mais uma prova de como a linguagem cinematográfica não significa apenas técnica, mas também o elemento que dá o sentido emocional e estético de um filme. Os realizadores arquitetam uma estrutura narrativa fascinante, em que uma fotografia luminosa e a edição de ritmo clássico e sereno produzem, de forma engenhosamente contrastante, uma ambientação de tons kafkanianos e que cai como uma luva para a trajetória do protagonista Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg), um professor judeu de classe média que vê a sua rotina familiar e social se desestruturando de forma inexorável. O que se sucede ao longo da trama de “Um Homem Sério” é uma série de fatos intimistas e que às vezes beiram o banal (em que até os delírios de um sonho acabam borrados por fatos corriqueiros e cinzentos), mas que com a abordagem formal barroca dos Coen acaba atingindo as proporções de uma obra de tintas épicas – Larry é praticamente um anti-herói trágico (ainda que marcado por uma certa comicidade involuntária). O típico recurso dos diretores em elaborar uma narrativa em que comédia e drama se fundem de forma indissociável atinge um de seus máximos graus dentro da filmografia deles.

terça-feira, agosto 31, 2010

Brilho de Uma Paixão, de Jane Campion ***1/2


A diretora neozelandesa Jane Campion navega em águas perigosas dentro do gênero filme romântico de época em “Brilho de Uma Paixão” (2009). O que poderia fazer com que ela caísse nas armadilhas de uma narrativa engessada por algumas das ortodoxias desse tipo de filme, entretanto, acaba superado por um senso narrativo e visual notável da diretora. O drama romântico do amor impossível entre o poeta ultra-romântico John Keats (Ben Wisham) e a jovem Fanny Brawne (Abbie Cornish) é explorado de forma dúbia por Campion. Se por um lado se evidencia o aspecto da paixão platônica e idealizada, por outro há uma abordagem em que o relacionamento é visto por um lado naturalista, quase biológico, relacionando o sentimento com a imaturidade dos amantes e também com um caráter patológico, como se houvesse também uma ligação com a própria doença (a tuberculose) que matou Keats. Campion acrescenta também outras referências visuais em “Brilho de Uma Paixão” que iluminam a confusão de sentimentos e sensações reprimidos que se apresentam na trama. Uma delas seria a utilização da figura infantil da irmã caçula de Fanny, criança que espelha a diversidade do humor da protagonista. Essa manipulação estética de uma personagem criança não é novidade para Campion, que já havia feito isso com brilhantismo em “Um Anjo em Minha Mesa” (1990) e “O Piano” (1993). Além disso, a cineasta compõe outras sequências memoráveis pela sua beleza plástica, com destaque para aquelas da brincadeira de estátua entre os jovens amantes com a já mencionada irmã caçula e a das borboletas tomando o quarto de Fanny.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Ponyo - Uma Amizade Que Veio do Mar, de Hayao Miyazaki ***1/2


Em comparação a obras anteriores de Hayao Miyazaki como “A Viagem de Chihiro” (2001) e “O Castelo Animado” (2004), “Ponyo – Uma Amizade Que Veio do Mar” (2008) apresenta um roteiro mais infantilizado e bem menos consistente. O mérito nos filmes de Miyazaki, entretanto, não se concentra apenas nas suas tramas. Assim, o cineasta se mostra em forma em “Ponyo”, que mostra uma narrativa envolvente e uma beleza no traço da animação que beira o poético. A sequência em que criaturas se formam a partir das ondas no mar, por exemplo, revela um cuidado estético extraordinário na caracterização visual da produção. Miyazaki também combina com precisão momentos de grande tensão e ação (como a tempestade e maremotos que assolam uma ilha) com outros em que predomina um ritmo sereno com uma ambientação onírica.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Matador Implacável, de Luigi Cozzi ***1/2


A obra de estreia de Luigi Cozzi como diretor é também a sua produção de melhor acabamento formal. “Matador Implacável” (1975) traz diversos elementos do universo “giallo” em termos estéticos e temáticos, mas também tem uma trama que deve muito à Alfred Hitchcock (principalmente em relação aos filmes ingleses da fase final da carreira do velho mestre do suspense). Cozzi recorre a truques visuais eficientes, principalmente pela fotografia que obtém contrastes marcantes entre tons sombrios e uso criativo da luz, além de contar com uma edição de poucos cortes e talhe clássico. Apesar de “Matador Implacável” ter um tom de conto moral, há um interessante clima sórdido que permeia todo o filme, tanto pelos personagens de caráter duvidoso quanto pelas sequências que envolvem violência brutal e sem concessões e sexualidade exacerbada (com direito até a um detalhado estupro e expressivas cenas de nudez).

Mesmo não atingindo o mesmo requinte artístico dos melhores filmes de realizadores como Dario Argento, Mario Bava e outros que se aventuraram pelo “giallo”, “Matador Implacável” é uma obra de respeito dentro da cinematografia do gênero e mostra que Luigi Cozzi foi um diretor capaz de voos maiores, apesar de algumas tosquices que dirigiu posteriormente.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Dario Argento: O Meu Cinema, de Luigi Cozzi ***


Como os leitores deste blog podem ter reparado, nos últimos dias venho comentando alguns filmes do diretor italiano Luigi Cozzi que foram exibidos na sexta edição do FANTASPOA. Em todos esses que até agora mencionei, prevaleceu pelo menos um ponto em comum: são produções toscas, apesar de divertidas. O documentário “Dario Argento: O Meu Cinema” (1991/1997) foge desse padrão precário. Mesmo que Cozzi não apresente grandes voos formais, o filme é eficiente na sua proposta de oferecer um panorama sobre a carreira desse velho mestre do horror italiano. Cozzi foi parceiro constante (como roteirista) de Argento em alguns de seus filmes (além de serem sócios de uma loja de memorabilia e afins no gênero fantástico localizada em Roma). Assim, teve acesso a muitas imagens de arquivo, principalmente com registros de filmagens, além de contar com o depoimento de familiares, amigos e colaboradores de Argento. Cozzi soube extrair desse rico material bastante da essência do cinema de Argento. Transparece por todo documentário a paixão do realizador de obras-primas como “Prelúdio Para Matar” (1975) e “Suspiria” (1977) pelo fazer cinema. Vemos a obsessão dele com a elaboração de trucagens e com a construção de uma atmosfera que remete muito à pintura. O cuidado de Cozzi em ressaltar a técnica de Argento na construção de cenas marcantes de suas filmografia evidencia a importância do virtuosismo estético do cineasta para configurar uma obra de efeito sensorial notável. Assim, “Dario Argento: O Meu Cinema” não é apenas indicado para os apreciadores de Dario Argento, mas também para todos aqueles que se interessam pela construção da linguagem cinematográfica (aliás, não dá para imaginar alguém que goste de cinema e não admire a obra de Argento).

quarta-feira, agosto 25, 2010

Paganini Horror, de Luigi Cozzi *1/2


Assim como havia ocorrido em “O Gato Negro”, “Paganini Horror” (1989) é mais uma obra na linha horror dirigida por Luigi Cozzi que acaba caindo muito mais para o riso involuntário do que para os sustos. E no gênero de tranqueira oitentista, acaba sendo um exemplar até bem divertido, com direito até a participação do velho e bom Donald Pleasence, ator que aparecia frequentemente em produções do gênero naquele período. A manjada combinação de rock e trama sobrenatural parece promissora no início, dentro daquela possibilidade se ter algumas sequências de tensão e terror. As situações ridículas e previsíveis que se acumulam no roteiro, entretanto, aliadas a uma direção frouxa, fazem com que “Paganini Horror” caia naquele nicho de produções falhas que se perderam na categoria de curiosidades obscuras e históricas.

terça-feira, agosto 24, 2010

O Gato Negro, de Luigi Cozzi *1/2


Essa produção italiana até tem um início bem promissor ao propor uma trama em que o horror sobrenatural invade a realidade quando um diretor e um roteirista resolvem levar para as telas a história de uma bruxa. Cozzi obtém algumas seqüências de tensão interessantes ao mostrar a atriz principal que interpretaria a tal bruxa ser acossada por delírios e aparições fantasmagóricas. Com o desenrolar do filme, entretanto, as deficiências de “O Gato Negro” (1989) vão ficando cada vez mais evidentes: inconsistência dramática, atuações canastronas, efeitos especiais datados e pouco marcantes. É claro que esse conjunto tem um certo mérito no sentido de gerar momentos divertidos devido a um humor involuntário, além do evidente sabor nostálgico daquelas produções oitentistas te terror que chegavam aos borbotões por aqui em VHS. No mais, o título do filme acaba sendo um enigma, afinal o tal felino só aparece muito de vez em quando e sem qualquer função na narrativa.

segunda-feira, agosto 23, 2010

A Crise Carnívora, de Pedro Rivero *1/2


É claro que uma animação de recursos mais modestos como a espanhola “A Crise Carnívora” (2007) apresentaria algumas limitações em comparação a outras grandes produções norte-americanas do gênero. O problema, entretanto, é que o filme, mesmo nas condições mencionadas anteriormente, poderia apresentar qualidade e criatividade no traço, sendo que nesse aspecto acaba deixando muito desejar. Sua concepção visual é genérica e pouco fluente. O que poderia melhoras as coisas seria o seu roteiro e a sua narrativa (afinal, os episódios de desenhos animados clássicos como “Simpsons”, “South Park” e “Beavis and Butthead” não se sobressaíam exatamente pelos seus requintes gráficos). Mesmo primando pelo humor negro e a escatologia, todavia, “A Crise Carnívora” traz uma trama pobre em termos criativos e que se desenvolve aos trancos e barrancos, além de apresentar personagens poucos carismáticos. Eventualmente há algumas sequências engraçadas, mas acaba sendo pouco para atenuar a pasmaceira dessa animação.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Pesadelos em Vermelho, Branco e Azul, de Andrew Monument ***1/2


A pretensão do diretor Andrew Monument para o seu documentário “Pesadelos em Vermelho, Branco e Azul” (2009) pode parecer excessiva: contar a história do cinema de horror norte-americano relacionando o mesmo com importantes momentos históricos dos Estados Unidos. O resultado, entretanto, é bastante satisfatório. O grande mérito do filme está na eficiente montagem que combina de forma dinâmica e didática cenas de dezenas de filmes com vários depoimentos de realizadores e especialistas. Dos clássicos da Universal até produções recentes como “O Albergue”, o panorama oferecido por Monument é amplo e esclarecedor. O texto de narração capta perfeitamente o espírito da obra, focalizando vários conflitos e contradições da sociedade dos EUA e os refletindo dentro da rica filmografia presente no documentário. Monument conseguiu elaborar uma obra que pode despertar tanto o interesse dos neófitos em conhecer várias das preciosidades cinematográficas presentes no filme quanto dos iniciados que se divertirão com esclarecedoras declarações de mestres como George Romero e John Carpenter.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Monster Camp, de Cullen Hoback **1/2


O documentário “Monster Camp” (2007) não apresenta maiores arroubos criativos em sua concepção formal. Mesmo assim, acaba sendo um programa curioso ao retratar o mundo de nerds fãs de RPG de fantasia que decidem transpor para um jogo “em carne e osso” todo o universo de fadas, elfos, trolls, magos e afins que tanto veneram. O diretor Cullen Hoback consegue retratar com certa sensibilidade não apenas a forma com que tais jogos se organizam, mas também o panorama humano do pessoal que se dispõe a participar dessas atividades excêntricas. Indiretamente, acaba mostrando na tela um lado deprimente e monótono de uma juventude desajustada e imatura que se afunda em um processo de auto-alienação. Se há momentos cômicos em “Monster Camp”, também há outras seqüências que chamam a atenção justamente ao mostrar uma realidade sem muitas perspectivas culturais para esses jovens. De certa forma, essa combinação entre o irônico e a seriedade é perturbadora e ajuda a captar com bastante fidelidade o espírito de uma época.

quarta-feira, agosto 18, 2010

Starcrash, de Luigi Cozzi *


Dando continuidade ao ciclo de palestras do diretor italiano Luigi Cozzi para o FANTASPOA, a exibição de “Starcrash” (1978), aliada aos comentários de Cozzi, foi mais uma preciosa oportunidade de se conhecer com detalhes a gênese de uma legítima tranqueira cinematográfica. Feita na esteira do sucesso de “Star Wars”, “Starcrash” passa bem longe do cuidado formal da obra original de Lucas (até porque a diferença em termos de recursos das duas produções é abissal). Há no filme de Cozzi uma certa tendência para a comédia, mas a verdade é que boa parte dos grandes momentos humorísticos aparece de forma involuntária devido à precariedade de sua realização. As informações prestadas pelo cineasta na sua exposição realçam ainda mais uma certa aura mítica em torno de “Starcrash” e de nostalgia de uma época em que bobagens divertidas como essa apareceriam nos nossos cinemas e locadoras com uma frequência bem mais constante.

terça-feira, agosto 17, 2010

Uma Noite na Cidade, de Jan Balej ***


Dentro do gênero de animações stop-motion, “Uma Noite na Cidade” (2007) pode não trazer grandes inovações formais ou se destacar pela sua beleza das suas imagens. A força dessa produção tcheca está nas altas doses de esquisitices visual e temática que saltam das telas. O filme apresenta em alguns momentos uma certa propensão para um leve escatologismo, assim como em outras seqüências apresenta um caráter surreal de encanto perturbador, principalmente quando entram em cena personagens insólitos como um peixe humanóide e um homem tronco. O aspecto onírico do filme fica ainda mais acentuado pelos diálogos em forma de grunhidos e pelo humor de algumas cenas que oscila entre o ingênuo e o perverso. Ao contrário das animações familiares da Pixar ou da Disney, “Uma Noite na Cidade” está muito mais para uma estranha viagem por alguns recônditos obscuros da mente humana do que uma celebração de valores sociais edificantes.

segunda-feira, agosto 16, 2010

As Aventuras do Incrível Hércules, de Luigi Cozzi 1/2 (meia estrela)


Tenho uma certa antipatia com a mítica que envolve os filmes trash. Não porque não gosto dos filmes, mas sim porque o termo costuma ser usado de maneira desinformada e reducionista. É frequente que se leia ou ouça associações indiscriminadas, em que um filme, por pertencer a um gênero específico como horror ou exploitation, é rotulado equivocadamente como trash. Assim, diretores que revelam uma linguagem estética diferenciada como José Mojica Marins ou Russ Meyer acabam caindo em uma vala comum como realizadores de produções ruins em termos formais devido a uma concepção distorcida e preconceituosa de ver o cinema.

A sessão promovida na sexta edição do FANTASPOA, em 06/07/2010, com o filme “As Aventuras do Incrível Hércules” (1985), conseguiu ser tremendamente didática em relação à questão dos filmes trash. Primeiro porque a obra em questão é uma legítima representante dessa linhagem de produções toscas. Efeitos especiais risíveis, narrativa pouco fluente e um roteiro sem pé nem cabeça formam um todo desastrado em termos formais, mas repleto de momentos divertidos (ainda que de forma involuntária). O complemento perfeito para esse exemplar trash esteve nas declarações dadas pelo próprio autor da obra, o simpático senhor italiano Luigi Cozzi, após a exibição do filme. O cineasta contou, com riqueza de detalhes, como nasce um legítimo trash. São situações que mereciam ser roteirizadas e transformadas em um filme: Cozzi, após o sucesso do primeiro Hércules (1983, e também com Lou Ferrigno no papel-título), estava fazendo um outro filme de natureza mitológica e fantástica com Ferrigno, sendo que após os produtores assistirem às primeiras cenas, os mesmos exigiram que Cozzi mudasse totalmente o roteiro e fizesse uma nova produção de Hércules, aproveitando as cenas que já havia filmado e sem que Ferrigno soubesse das “pequenas” alterações na trama. Desse jeito, não é surpresa que o resultado fosse tão precário...

sexta-feira, agosto 13, 2010

From Inside, de John Bergin **1/2


Baseado na graphic novel de mesmo nome (e que também havia sido escrita e ilustrada pelo próprio diretor John Bergin), “From Inside” (2008) justamente dá a impressão de se estar vendo um grande álbum de quadrinhos em movimento. O traço de Bergin absorve técnicas de pintura, com o filme apresentando um belo visual sombrio que dá o tom adequado para o tom pós-apocalíptico e pessimista da trama. As imagens impactantes de algumas seqüências aliadas à trilha sonora opressiva impressionam pelo efeito sensorial que causam. O que funciona como um fator diferencial positivo para a animação, entretanto, acaba apresentando também os pontos fracos de “From Inside”. A fluência da animação é truncada, quase estática, como se uma câmera simplesmente registrasse as páginas de um gibi, o que, por vezes, deixa o filme enfadonho, ainda mais com a presença constante de uma narradora onipresente com a sua voz monótona e texto repetitivo no seu pendor para a desesperança.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Luzes na Escuridão, de Aki Kaurisäki ***1/2


Enquanto seu irmão Mika tem se dedicado a registrar em imagens a beleza exuberante de parte do cancioneiro brasileiro em documentários como “Moro no Brasil” (2002) e “Brasileirinho” (2005), Aki Kaurismäki mantém a sua estética gélida e rigorosa em “Luzes na Escuridão” (2006). A edição sóbria que encadeia tranqüilamente uma série de planos quase estáticos (mas sempre muito expressivos) é coerente com a própria abordagem emocional contida que o diretor impõe para os seus personagens. Esse tipo de caracterização, ainda que a trama descambe para uma sucessão de fatos melancólicos e/ou trágicos, traz uma certa carga de ironia, ainda que insólita. Mesmo com esse quase riso que se esboça em algumas seqüências, porém, Kaurismäki não oferece concessões no controlado formalismo de seu filme e nem oferece saídas fáceis para o seu protagonista, um pobre diabo meio matuto com frágeis sonhos de ascensão social que acaba envolvido em uma sórdida trama de roubo. Por mais que seja perturbadora a deprimente conclusão da trajetória do personagem, a mesma está em perfeita sintonia com o sentido da obra no todo.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Toy Story 3, de Lee Unkrich ***1/2



Tem uma coisa que tenho lido/ouvido com uma certa freqüência e que considero um tremendo exagero: com a terceira parte recém-lançada, “Toy Story” se firma como a melhor trilogia cinematográfica já realizada. Não que essa nova seqüência seja um mau filme. Muito pelo contrário, até! Mas francamente: existem outras tríades de filmes bem melhores. Só numa primeira pensada, já se saca da mente obras fundamentais como a série do “Poderoso Chefão”, as produções de “spaghetti western” da parceria Sergio Leone e Clint Eastwood e a trilogia clássica de “Star Wars”. Por outro lado, mesmo a Pixar já fez coisa até superiores à linha “Toy Story” como “Os Incríveis” (2004), “Ratatouille” (2007) e “Wall-E” (2008).

“Toy Story 3” (2010) mantém o nível de qualidade das produções da Pixar. Nessa altura do campeonato, falar da beleza do traço de uma animação “pixariana” é chover no molhado (e até porque os filmes de outras produtoras do gênero que apareceram nos últimos anos também têm apresentado esse alto padrão gráfico). O que diferencia “Toy Story 3” (e, por consequência, outras obras da Pixar) é a eficiente dinâmica de sua narrativa, bem como um roteiro bem amarrado, o que garante o interesse não apenas do público infantil, como do adulto também. Nesse novo capítulo da saga dos brinquedos, inclusive, há até avanços nesses aspectos. Trama e ambiência adquirem um certo tom melancólico e sombrio que não eram tão evidentes nas partes anteriores. Toda a seqüência no lixão, por exemplo, é antológica pelas altas doses de ação e tensão nas cenas (assustam, efetivamente, não apenas as crianças mais inocentes).

Mesmo pecando por um certo excesso no sentimentalismo (o que é até acaba sendo natural pelo tema abordado do fim da infância), “Toy Story 3” se mostra como uma animação acima da média da grande maioria dos filmes pipocas da temporada 2010, mas mesmo assim longe de ser essa obra-prima que estão pintando por aí.

terça-feira, agosto 10, 2010

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, de Terry Gillian ***1/2


Este produção de 2009 não representa alguma ruptura ou novidade na cinematografia de Terry Gillian. Ela até ganhou uma projeção maior devido ao fato de ser o último trabalho (incompleto) do ator Heath Ledger (em interpretação, por sinal, notável pela ambiguidade de sua composição dramática). A solução encontrada por Gillian para preencher as cenas com o personagem de Ledger que não puderam ser concluídas pelo mesmo soa um pouco forçada: usar outros três atores para atuar no mesmo papel, com o pretexto de que em tais momentos a trama estaria se desenrolando em universos paralelos e mágicos. No final das contas, o truque pode ser barato, mas tem um certo encanto pelo aspecto típico de solução improvisada de filmes B.

Reduzir a importância de “O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus” a eventos como os acima descritos, entretanto, é um equívoco. Mesmo não estando no topo das produções mais significativas dirigidas por Gillian, a obra mostra o domínio excepcional do cineasta em lidar com o cinema de fantasia. A forma com que a realidade e os mundos mágicos frequentados por Parnassus e seus discípulos é fascinante pela forma estranhamente coesa com que interagem. Além disso, direção de arte e trucagens oferecem em algumas seqüências um visual deslumbrante, misturando com criatividade cenários digitais e efeitos tradicionais. Gillian também não se esqueceu daquele seu velho toque de perversidade e ironia na caracterização de situações e personagens, tão caro ao diretor desde os seus tempos de integrante de Monty Python.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Quincas Berro D'Água, de Sérgio Machado ***


Adaptação cinematográfica de uma das obras literárias mais estimadas de Jorge Amado, “Quincas Berro D’Água” (2010) cai em algumas facilidades narrativas, principalmente pelo fato de buscar uma linguagem acessível para o grande público. Apesar disso, o filme preserva um certo frescor e inquietação criativa ao mostrar uma visão bem humorada e ácida sobre as convenções pequeno-burguesas. A direção de arte se mostra em sintonia com as intenções do diretor Sérgio Machado, principalmente na caracterização visual de personagens e ambientes. O bando de amigos bêbados e marginalizados do personagem título também é um pequeno achado: sujos, maliciosos e irreverentes, dão uma forte dimensão humana para a produção, principalmente pela crueza de seus modos e sentimentos. Machado obtém também uma interessante síntese entre realismo e misticismo na trama, com esses dois pólos se mostrando coesos quase que de forma intrínseca.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Olhos Azuis, de José Joffily *1/2


Essa produção conjunta entre Brasil e Estados Unidos usa e abusa de uma estética crua com a intenção, provavelmente, de tornar mais verossímil e contundente a temática do seu roteiro que envolve questões atuais e complexas como a imigração ilegal e o preconceito racial. O diretor José Joffily utiliza recursos de cinema documental em busca de uma encenação mais realista, mas os enquadramentos trepidantes e a luz estourada em várias cenas acabam mais enchendo a paciência do espectador do que impactando o mesmo. Essa opção por uma estética crua se mostra uma fórmula criativa estéril e que não rende sequer alguma seqüência memorável. O que poderia talvez salvar “Olhos Azuis” (2009) seria um roteiro consistente, mas até isso acaba falhando no filme. A estruturação da trama é engessada dentro de um desgastado padrão de jogo entre passado e presente que se desenrolam simultaneamente que pouco acrescenta, pois se a opção fosse narrar o mesmo sem essas idas e vindas de tempo o nível de previsibilidade da trama seria o mesmo (ou quem sabe até menor...). Por fim, os diálogos insistem em tons discursivos que matam qualquer noção de sutileza de subtexto.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Kick-Ass - Quebrando Tudo, de Matthew ****


Há algumas diferenças entre a versão original para os quadrinhos de “Kick-Ass” e a sua adaptação cinematográfica lançada em 2010. No gibi, a abordagem é mais realista e crua, além da violência ter uma dose bem maior de brutalidade e sangue. Já a transposição para as telas é um pouco mais fantasiosa, com direito, inclusive, a pequenos toques de comédia romântica (ainda que de forma irônica) e final feliz, além da violência ser mais atenuada (mesmo assim, num padrão de explicitude acima da média do que se encontra no cinema atual). Apesar desses detalhes, entretanto, a produção dirigida por Matthew Vaughn mantém a essência da obra de Mark Millar e John Romita Jr. ao explorar habilmente a já manjada indagação “o que aconteceria se existissem super-heróis na atualidade”, com direito a uma série de referência hilárias ao universo nerd dos fãs de quadrinhos e da cultura pop em geral. “Kick-Ass – Quebrando Tudo” também adapta de forma brilhante a ação dos quadrinhos para o formato cinema (coisa, por exemplo, que a versão fílmica de “Watchmen” fracassou com retumbância). Vaughn dirige brilhantemente as seqüências de pancadaria e tiroteios sem apelar para câmeras lentas quase estáticas dos Zach Snyders da vida, a um ponto que qualquer cena que mostra a Hit Girl em ação é antológica na sua carga de adrenalina e humor. E a edição é outro ponto alto de “Kick-Ass”: mesmo com um ritmo frenético na ação e com uma trilha sonora alucinada movida a rock e eletrônica, Vaughan não picota a montagem em estilo video clip, optando por um estilo clássico no encadeamento das cenas e tendo um resultado final mais que contundente.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Caro Francis, de Nelson Hoineff **1/2


As minhas expectativas para o documentário “Caro Francis” (2009) eram altas. Para começar, há anos eu era leitor assíduo da coluna “Diário da Corte”, escrita pelo protagonista do filme, jornalista Paulo Francis, além de assistir às suas hilárias intervenções no programa “Manhattan Connection”. A força de Francis não estava exatamente nos pontos de vista que defendia (bastante discutíveis em várias oportunidades), mas sim na sagacidade de seus argumentos e na tremenda bagagem cultural que demonstrava nas suas fundamentações. Ler ou ouvir Paulo Francis abria os horizontes para descobrir livros, filmes, peças, ideias e afins. Ou seja, o cara era um grande catalisador cultural. Por outro lado, “Caro Francis” parecia promissor pelo fato do seu realizador, Nelson Hoineff, ser o responsável pelo impactante “Alô Alô Terezinha” (2009), um retrato cru e irônico do apresentador Chacrinha. O resultado final de “Caro Francis”, entretanto, é decepcionante. É claro que há vários registros de arquivos interessantes com Francis dando sua particular visão de mundo, assim como se mostrando um tremendo showman, o que por si só já valeria assistia à produção. O problema do filme é que não há uma exposição de contradições e uma abordagem mais isenta como havia em “Alô Alô Terezinha”. O que vemos é uma obra quase de louvação à figura de Francis e que se atém várias vezes em depoimentos insossos, monótonos ou tendenciosos que tiram muito da fluência narrativa de “Caro Francis”. Chega-se ao cúmulo, por exemplo, de se gastar vários minutos na figura de uma falecida gatinha que Francis gostava muito, com a viúva dele lendo uma longa carta descrevendo a agonia do bichano. E em episódios como o conflito final entre o biografado e a Petrobrás, sente-se muito mais uma vontade em defender Francis do que mostrar realmente o que ocorreu naquela situação.

Mesmo com todas essas restrições, todavia, “Caro Francis” é uma obra imperdível como documento histórico no sentido de mostrar uma série de fatos e personagens que foram decisivos na formação cultural do Brasil nessas últimas décadas. De certa forma, os defeitos do filme não deixam de ser esclarecedores no sentido de refletirem conflitos tanto artísticos quanto ideológicos que são inerentes no nosso panorama político e intelectual.

terça-feira, agosto 03, 2010

O Golpista do Ano, de Glen Ficarra e John Requa **1/2


Em um primeiro momento, “O Golpista do Ano” (2009) chega a ser uma produção surpreendente pelo fato de propor uma abordagem sem concessões da questão do homossexualismo, ainda mais por se tratar de uma produção que traz como protagonistas nomes de grande prestígio comercial como Jim Carrey e Ewan McGregor. Ambos, inclusive, desempenham sem aparentes constrangimentos cenas explícitas de amor gay. Tirando esse aspecto comportamental, entretanto, “O Golpista do Ano” acaba se mostrando frustrante por não conseguir delimitar com precisão as fronteiras do drama e do humor. Situações que precisariam de uma visão mais profunda pelos aspectos complexos e insólitos que levantam acabam recebendo um tratamento excessivamente superficial. A narrativa convencional dos realizadores Glen Ficarra e John Requa também acentua esse sensação de uma obra rasa. E se Jim Carrey já havia demonstrado um considerável talento em papéis mais dramáticos em filmes como “O Mundo de Andy” (1999) e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança” (2004), em “O Golpista do Ano” ele acaba comprometendo algumas cenas por apostar em um tom caricatural. No meio desses equívocos, acaba se destacando positivamente Ewan McGregor por apresentar um interessante equilíbrio dramático ao interpretar um gay frágil de forma discreta e sem cair em afetações.

segunda-feira, agosto 02, 2010

Esquadrão Classe A, de Joe Carnahan ***


Além de homenagear/revisitar o seriado televisivo epônimo dos anos 80, “Esquadrão Classe A” também evoca o gênero ação característico da mesma década, mas com um visual puxando mais para o sombrio e o sujo (não chegando a atingir, entretanto, o mesmo apuro visual da sensacional revisão cinematográfica de Michael Mann para “Miami Vice”). Assim, menos cômico e mais violento que o seriado original, o filme apresenta uma propensão para aquela ação vertiginosa e truculenta de franquias como “Duro de Matar” ou “Predador”, chegando às raias do absurdo como na seqüência em que os protagonistas saltam de um avião dentro de um tanque de guerra ou nas cenas em que um enorme cais de porto é devastado. Joe Carnahan pode não ter a mesma classe de um John McTierman (um dos papas das produções oitentistas de ação), mas oferece uma produção bem movimentada e divertida.

sexta-feira, julho 30, 2010

Solino, de Fatih Akin **1/2


Assim como em outras obras de Fatih Akin, “Solino” (2002) tem como protagonistas imigrantes que vivem na Alemanha. No filme em questão, Akin retrata a trajetória de uma família de italianos que procura a estabilidade financeira em terras germânicas. O diretor encena uma série de pequenos dramas familiares e amorosos com um certo vigor, além de mostrar uma direção de arte bem cuidada que valoriza aspectos históricos que servem como pano de fundo para a trama principal. Há também algumas boas seqüências com a dupla de irmãos Gigi e Giancarlo envolvendo drogas e festas. Mesmo com essas qualidades, entretanto, “Solino” parece ser a obra menos pessoal de Akin, com o cineasta soando preso a convenções do gênero melodrama familiar. O filme até consegue prender a atenção do expectador nas suas duas horas de duração, mas é uma experiência pouco memorável, bem distante da explosão criativa que viria dois anos depois com a obra-prima “Contra a Parede”.

quinta-feira, julho 29, 2010

Rápido e Indolor, de Fatih Akin ***


É provável que aqueles que se impressionaram com alguns dos melhores filmes do diretor alemão Fatih Akin, como “Contra a Parede” (2004) ou “Soul Kitchen” (2009), podem ficar um pouco decepcionados com “Rápido e Indolor” (1998), a obra de estréia do cineasta. Não há a mesma linguagem formal dinâmica e apurada das obras mais recentes e notórias de Akin. Optou-se por um drama policial dramático de gangsteres, com boa parte dos clichês narrativos e estéticos comuns no gênero – aparece, inclusive, um manjado conflito entre dois amigos, um que enveredou de vez para o crime e outro que quer escapar da marginalidade, que se apaixonam pela mesma mulher. Mesmo diante dessas possíveis armadilhas, entretanto, Akin oferece uma obra vigorosa e tensa e que prenuncia algumas boas soluções temáticas e estilísticas que depois seriam melhores exploradas em suas produções posteriores, tanto na caracterização dos personagens carismáticos quanto em detalhes como a utilização de canções na montagem e a concepção visual das cenas de violência.

quarta-feira, julho 28, 2010

Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen ***


Dizer que Woody Allen é repetitivo em seus filmes é impreciso. Como cineasta de forte tom autoral, é natural que certos recursos temáticos e estéticos sejam recorrentes em sua obra. Suas produções são reflexos de suas obsessões, e, por conseqüência, ideias narrativas e visões pessoais são retrabalhadas de forma constante em sua filmografia. “Tudo Pode Dar Certo” (2009), filme recente de Allen, tem ótimos momentos cômicos e flui com consistência, mas é decepcionante não pela questão da repetição, mas por soar preguiçoso. Allen parece reciclar várias soluções já utilizadas anteriormente, mas sem a mesma eficácia e impacto, dando uma certa impressão de falta do que dizer. Seu texto, mesmo que afiado em alguns trechos, chegar a soar quase ingênuo ao querer expressar explicitamente a sua filosofia pessoal. Nesse sentido, isso é frustrante quando se pensa em obras anteriores extraordinárias como “Match Point” (2005) e “O Sonho de Cassandra” (2007), que traziam uma série de observações críticas e ácidas de Allen sobre os vícios e hipocrisias da sociedade, mas em um formato sutil de subtexto inserido em tramas clássicas de suspense.

terça-feira, julho 27, 2010

O Preço da Traição, de Atom Egoyan ***


Essa refilmagem do original francês “Nathalie X” (2003) consegue ser superior à própria obra da qual derivou (que, na realidade, não era grande coisa mesmo). O cineasta egípcio-canadense Atom Egoyan conseguiu inserir algumas das suas obsessões temáticas e estéticas na produção, ainda que a mesma não tenha a mesma forte carga autoral de outros filmes do diretor como “Exótica” (1994), “O Doce Amanhã” (1997), “Ararat” (2002) ou “A Verdade Nua e Crua” (2005). Nos seus dois terços iniciais, “O Preço da Traição” (2009) apresenta um constante clima de ambigüidade e incertezas. Egoyan trabalha com habilidade entre os limites da realidade e da fantasia, deixando o expectador sempre na inquietante de dúvida sobre a veracidade do que está na tela. Boa parte do que se assiste vem muito mais das imagens sugeridas na mente da protagonista Catherine (Julianne Moore) do que de fatos concretos. As seqüências de conclusão de “O Preço da Traição”, entretanto, são frustrantes no sentido de que a trama se converte em um convencional e pouco inspirado suspense envolvendo uma psicopata e afins.

segunda-feira, julho 26, 2010

O Escritor Fantasma, de Roman Polanski ****



Há uma espécie de sub-gênero no cinema contemporâneos representada por aqueles thrillers de suspense que têm como base temática para as suas tramas um teor político envolvendo conspirações e demais jogos sujos de determinados órgãos do governo ou de grandes conspirações. Nesse contexto, há sempre o protagonista que resolve enfrentar os poderosos e desmascarar os podres dos mesmos. Os roteiros dessas produções, geralmente, vinculam-se a fatos reais da conjuntura mundial, o que lhes dá uma aura de seriedade. No final das contas, entretanto, esse modus operandi de usar matérias de relevância para a sociedade não implica em ousadias no plano formal, o que faz com que boa parte de tais filmes sejam apenas obras de suspense que transitam entre o medíocre e competente.

Dentro do panorama acima descrito, a obra mais recente de Roman Polanski, “O Escritor Fantasma” (2010), traz uma trama que não foge muito do que foi exposto. O grande trunfo da produção está muito mais na engenhosidade dos truques narrativos e estéticos que Polanski se utiliza para adornar um roteiro repleto de clichês. A atmosfera do filme é fria, distante e irônica, transformando o seu argumento em farsa. A fotografia sóbria e a montagem elegante ajudam a compor um todo sedutor e mesmo surpreendente. Polanski coroa a grandeza do filme emulando uma ambiência quase gótica em algumas seqüências, lembrando o melhor do cinema de Hitchcock.

sexta-feira, julho 23, 2010

A Alma do Osso, de Cao Guimarães ***


No documentário brasileiro “A Alma do Osso” (2004), o diretor Cão Guimarães, ao focar o quotidiano do ermitão Dominguinhos no interior de Minas Gerais, mostra-se mais interessado em fazer uma viagem sensorial em relação ao ambiente do seu protagonista do que em contar a história do mesmo. Em boa parte de sua metragem, o filme retrata algumas atividades corriqueiras do dia-a-dia de Dominguinhos e oferece registros granulados da paisagem rústica que cerca o ermitão. Quando a palavra é dada a Dominguinhos, a sua fala delirante e de uma filosofia bruta torna ainda mais nebulosa a aura misteriosa que o cerca. Cao Guimarães não procura o choque gratuito, mas o retrato que oferece é desconcertante no momento em que a caracterização daquele ambiente parece formar um universo paralelo ao nosso, em que os sinais da civilização só se fazem presentes quando se vislumbra na caverna onde vive Dominguinhos restos da sociedade de consumo que o ermitão adapta e reutiliza dentro da sua particular rotina. Ao mesmo tempo, Guimarães deixa o espectador na dúvida: será o ermitão em questão alguém rejeitado pela sociedade ou alguém que se excluiu por vontade própria? Esse questionamento torna ainda mais perturbador “A Alma do Osso”.

quinta-feira, julho 22, 2010

A Porta, de Anno Saul ***


Li uma definição sobre “A Porta” (2009), vinda de um comentário do site "Viver e Morrer no Cinema", que achei muito apropriada para essa produção alemã: parece um episódio da série televisiva “Além da Imaginação” em formato de longa-metragem. A trama de ficção científica tem um teor quase nostálgico, com o diretor Anno Saul usando efeitos especiais de forma econômica. A ambiência de fantasia não vem, dessa forma, pelo aspecto visual, mas sim pelo roteiro e da tensão daí oriunda. Os temas de viagens no tempo e conflitos familiares acabam se combinando de forma natural. Talvez se “A Porta” tivesse a duração de um episódio o seu impacto seria ainda maior. O fato de ter mais de uma hora e meia de metragem, entretanto, faz com que as suas boas idéias temáticas e soluções narrativas acabem se diluindo, principalmente no terço final, que soa muito apressado e abrupto.

quarta-feira, julho 21, 2010

Robin Hood, de Ridley Scott ***


Esta versão de 2010 para “Robin Hood” apresenta algumas tendências bastante utilizadas nos últimos anos. Em primeiro lugar, busca uma abordagem pretensamente naturalista, enfatizando personagens e cenários repletos de barro e sangue, além de ter uma fotografia bastante sombria, mesmo quando em campos abertos. O roteiro busca retratar as origens “reais” da lenda de Robin Hood e seus companheiros, mostrando fatos que ocorreram antes daqueles episódios celebrizados em outras adaptações cinematográficas. Todo esse conjunto de elementos estéticos parece buscar uma espécie de legitimidade e seriedade em termos históricos para o filme, além de uma visão mais aprofundada sobre o mito. No final das contas, entretanto, o que se tem é mais uma história maniqueísta de luta do bem contra o mal. Não que isso seja um defeito, desde que possamos ser recompensados com boas seqüências de tensão e aventura. “Robin Hood” até traz alguns momentos empolgantes em termos de ação, mas o saldo final no geral é o de uma produção apenas competente, o que acaba sendo frustrante, pois sempre se espera mais de um diretor como Ridley Scott, cineasta que já criou obras extraordinárias como “Os Duelistas” (1977), “Alien, O Oitavo Passageiro” (1979), “Blade Runner” (1983), “Falcão Negro em Perigo” (2001) e “O Gangster” (2007).

terça-feira, julho 20, 2010

Fúria de Titãs, de Louis Leterrier ***


Muitos dizem que essa refilmagem de 2010 do original “Fúria de Titãs” de 1981 é uma heresia. Na minha opinião, há um pouco de exagero em tal afirmação. Em primeiro lugar porque a primeira versão não chega a ser uma obra-prima irretocável e inatacável. Trata-se de um filme muito divertido e com expressivas trucagens a base de stop motion, mas longe do status de clássico cinematográfico. Essa revisão da obra original tem lá os seus defeitos, mas em seus melhores momentos traz algumas das mais impactantes seqüências de aventura da temporada pipoca de 2010. Talvez as atuações canastronas e preguiçosas de Liam Neeson e Ralph Fiennes possam angariar antipatias. E ter um protagonista vivido por alguém tão inexpressivo quanto Sam Whortington é um convite forte para o desastre. Com um elenco comprometedor desses, os 15 minutos iniciais de “Fúria de Titãs”, focado excessivamente em diálogos e “relações humanas”, são aborrecidos e intermináveis. Quando o filme parte para a ação propriamente dita, entretanto, a coisa muda totalmente de figura. Os efeitos digitais são bem eficientes e distantes de fazer a produção parecer um grande vídeo game. As cenas de lutas e perseguições são empolgantes e a concepção visual dos inúmeros monstros que desfilam pela tela é bela e ao mesmo tempo aterradora, com destaque absoluto para as cenas em que o Kraken irrompe na tela.

segunda-feira, julho 19, 2010

Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro Cezar ***1/2


Confesso que antes de assistir à “Só Dez Por Cento É Mentira” (2008) eu não tinha conhecimento prévio sobre a obra de Manoel De Barros, poeta biografado no filme em questão. Não sei se depois de ver o filme vou realmente ler algum livro dele, mas essa produção que focaliza sua vida e arte é um espetáculo cinematográfico muito bem resolvido. O diretor Pedro Cezar não se preocupou em fazer apenas um levantamento burocrático de fatos sobre a vida do escritor. Ao invés disso, preferiu expor as fontes de inspiração de Manoel De Barros, extraindo dele confissões e explicações bem humoradas, além de conversar com algumas pessoas que seriam suas influências. Há seqüências também em que Cezar procurou traduzir em imagens os insólitos jogos de palavras e simbolismos da lírica de Barros, com manchas em muros e paredes, derivadas do decorrer do tempo, que se transformam, através de simples trucagens, em figuras surpreendentes. Talvez alguns depoimentos de atrizes/cantoras fãs do poeta possam incomodar pela afetação, mas isso sempre é compensado por comentários espirituosos de outros admiradores de De Barros (principalmente nos momentos que mostram um Fausto Wolff bêbado divagando sobre o homem em questão).

segunda-feira, julho 12, 2010

Antes Que O Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo **


Há uma sequência em “Antes Que O Mundo Acabe” (2009) que é sintomática do espírito da obra: o garoto Daniel (Pedro Tergolina), após levar um fora da namorada e descobrir que foi trocado pelo melhor amigo, toma um porre com alguns conhecidos e quando chega casa vomita na privada. Só que ele somente faz o barulho de estar vomitando, não saindo de sua boca qualquer traço do vômito, enquanto que na privada não há mancha ou sinal do mesmo. Esse tom de assepsia é predominante nessa produção gaúcha dirigida por Ana Luiza Azevedo. A pretensão era faz uma espécie de retrato da adolescência moderna, mas o desejo de buscar uma abordagem light acabou tirando muito da visceralidade que um filme como esse exigiria. Há uma densidade dramática rala, acentuada pela narração infantil da irmã do protagonista, em falas recheadas de “espertezas”. No mais, o que resta de relevante é uma fotografia agradável no registro luminoso de paisagens interioranas e rurais.

terça-feira, julho 06, 2010

Um Segredo em Família, de Claude Miller ***


Pode-se reclamar que dentro daquele padrão de dramas familiares judeus que se passam na 2ª Guerra Mundial “Um Segredo em Família” (2007) seja uma produção convencional que não apresente maiores novidades. É inegável, entretanto, que o cineasta Claude Miller manipula com eficiência os clichês narrativos, além de conduzir uma trama recheada de tragédias e intempéries sem cair no sentimentalismo excessivo. A forma com que passado e presente se intercalam revela um bem cuidado trabalho de edição. De se destacar também as atuações do elenco em geral, todos em interpretações milimetricamente contidas que captam com sensibilidade a atmosfera de segredos e sentimentos reprimidos que permeiam todo o filme.

segunda-feira, julho 05, 2010

Homem de Ferro 2, Jon Favreau ***


Mesmo estando bem longe de ser uma obra-prima, “Homem de Ferro 2” (2010) atinge uma meta rara de se obter em se tratando de adaptações cinematográficas de HQs: preservar a essência de personagens e situações originais dos quadrinhos e manter um nível de objetividade que permita que mesmo aqueles que não conheçam o gibi tenham interesse pelo filme. Nessa continuação, o diretor Jon Favreau não atinge o mesmo impacto da primeira parte (de 2008), mas mesmo assim tem uma padrão de qualidade acima da média em relação à boa parte dos filmes pipocas desse ano. O roteiro traz vários elementos interessantes dos argumentos dos “comics” (mesmo que simplifique alguns conflitos), enquanto as cenas de ação são eficientes na forma em que incorporam os efeitos digitais. Além disso, Robert Downey Jr. é mais um trunfo da produção ao repetir os mesmos trejeitos carismáticos na pele do protagonista. Se os filmes de Thor, Capitão América e Vingadores conseguirem, no mínimo, trazer as qualidades da franquia do Homem de Ferro, pode-se dizer que o futuro cinematográfico para os heróis da Marvel se mostra promissor.

quinta-feira, julho 01, 2010

Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton **


Devo confessar que as minhas expectativas para “Alice no País das Maravilhas” (2010) eram bem altas. Depois de obras pouco inspiradas (“Peixe Grande”, “A Noiva Cadáver”, “A Fantástica Fábrica de Chocolate”) que faziam supor que estava em declínio criativo, Tim Burton surpreendeu a todos com “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (2007), um extraordinário misto de musical e horror sem concessões que trazia direção de arte e atmosfera góticas impressionantes. Diante de uma obra como essa, o que esperar da visão de Burton sobre uma história tão delirante como a de “Alice...” (ainda mais se relembrarmos a antológica adaptação animada da Disney de 1951)? Ocorre que “Alice no País das Maravilhas” não está apenas abaixo do que se esperava, como também se trata do pior filme disparado da carreira de Burton. E isso ocorre simplesmente pelo fato de que é a sua obra menos pessoal e mais burocrática. O que poderia haver de difuso e misterioso na trama clássica é diluído em um filmezinho de aventura qualquer nota que mais lembra produções família como “Crônicas de Nârnia” do que Lewis Carroll. Mesmo aquilo que poderia ser um fator Burton de diferencial como direção de arte e efeitos acaba não impactando – tudo é tão genérico que se não soubéssemos previamente que “Alice...” se trata de um filme de Burton, passaria batido como fosse outra produção comum do gênero.