sexta-feira, março 16, 2007

Meu Amor de Verão, de Pawel Pawlikowski ****

Um dos melhores filmes ingleses dessa década, “Meu Amor de Verão” é uma obra que oscila brilhantemente entre dois lados distintos, estando em sintonia perfeita com a trajetória da protagonista Mona (Nathalie Press). Para focalizar a vida da garota em um vilarejo conservador, o diretor Pawel Pawlikowski opta por um estilo seco e de iluminação natural, realçando de forma precisa o ambiente sufocante em que Mona vive ao lado do irmão Phil (Paddy Considine), um ex-presidiário que se tornou um fanático religioso. Quando Mona conhece Tamsin (Emily Blunt), a bela e misteriosa filha de proprietários de uma sofisticada casa de campo das proximidades, a narrativa ganha uma abordagem diferente, beirando quase o delírio, com as garotas entrando numa “trip” cheia de erotismo, chapação e irreverência. O confronto entre a dura rotina no vilarejo e o mundo aparentemente mágico das duas garotas é fascinante, ficando ainda mais atraente quando faz com que Phil veja que no fundo, apesar de todas as suas aparentes certezas religiosas, os seus instintos violentos continuam fortemente latentes.

Pawlikowski, entretanto, descarta o caminho fácil da idealização hedonista, sendo que com o decorrer da trama Mona vai percebendo que Tamsin e o mundo que a rodeia estão bem longe da perfeição que se imaginava. Esse processo de desilusão e amadurecimento da personagem é mostrado de forma dura, fazendo de “Meu Amor de Verão” uma das mais significativas obras cinematográficas recentes a retratar o universo jovem, na tradição de clássicos como “Juventude Transviada” e “O Selvagem da Motocicleta”.

De se destacar ainda em “Meu Amor de Verão” a brilhante utilização de sua trilha sonora, na maioria composta por canções de Will Gregoy e Alison Goldfrapp, duo esse também conhecido simplesmente como Goldfrapp. A música faz o complemento perfeito para o clima etéreo e inebriante que ronda por boa parte do filme, sendo que o auge desse casamento feliz entre música e imagens é na fantástica seqüência em que Mona e Tamsin, completamente entorpecidas, começam a dançar em um baile no vilarejo ao som de uma careta bandinha local, mas na verdade está escutando em suas mentes a maravilhosa “Lovely Head” do próprio Goldfrapp, num trabalho engenhoso de edição.

quinta-feira, março 15, 2007

À Procura da Felicidade, de Gabriele Muccino ****

Tanto eu quanto alguns conhecidos meus tivemos uma reação parecida em relação ao filme “À Procura da Felicidade”. Ao ler a sinopse e assistir o trailler dessa produção de 2006, logo pensávamos em mais uma daquelas produções rotineiras da surrada temática “lute, acredite no sistema e você vencerá”. Mas ao assistir o mesmo, tem-se a grande surpresa de ver que o filme é bem mais do que isso.

Para começar, a opção estética do diretor Gabriele Muccino para a sua narrativa dá um frescor renovado para “À Procura da Felicidade”. Além de uma contundente abordagem que beira o naturalismo, o cineasta apresenta ótimas influências do cinema norte-americano dos anos 70, com um ótimo trabalho de edição que lembra o melhor de William Friedin, além dos belos tons de cores quase granuladas que permeia por todo o filme. A criativa revitalização do estilo setentista por parte de Muccino, acentuada ainda mais pela trilha sonora recheada de clássicos da black music da época, faz de “À Procura da Felicidade” uma espécie de gêmeo espiritual do brilhante “Em Busca de Um Sonho”.

Outro aspecto que me agradou muito também em “À Procura da Felicidade” é a perspectiva que Muccino oferece para a trama. O que motiva Chris Gardner (Will Smith) a sair de uma situação econômica desesperadora e buscar um novo rumo para a sua vida não é apenas uma idealizada crença no “american way of life”, mas principalmente uma desesperada luta pela sobrevivência e dignidade suas e de seu filho. Dessa forma, toda a angústia pela qual pai e filho passam ao longo do filme chega a ser tremendamente palpável tamanha a força humana com a qual Muccino focaliza as relações pessoais e profissionais, sem cair em sentimentalismos e pieguices fáceis.

Mas se formos pensar com mais cuidado, talvez não seja tão surpreendente assim o fato de “À Procura da Felicidade” ser uma das melhores produções cinematográficas a aparecer nos últimos meses. Afinal, Gabriele Muccino já havia demonstrado talento considerável em “O Último Beijo”, uma cáustica visão sobre a maturidade emocional dos “trintões”, e “Para Sempre Nas Nossas Vidas”, poética visão sobre a adolescência. “À Procura da Felicidade” confirma Muccino como uma das boas revelações a surgir nos últimos anos no cinema.

quarta-feira, março 14, 2007

Por Um Triz, de Carl Franklin ***

“Por Um Triz” é aquele tipo de filme policial com uma trama ultra previsível para o gênero que é aquela em que um pobre coitado é enganado por uma gostosona, acaba se metendo numa puta encrenca e daí tem de passar o resto do filme tentando arrumar um jeito para descobrir como foi enganado e de tentar consertar a burrada em que se meteu. Apesar disso, Carl Frankin é um diretor competente e consegue extrair alguns momentos de forte tensão para o filme. Mas a melhor coisa de “Por Um Triz” é realmente a atuação sensacional de Denzel Washington. O cara parece ter nascido para o eterno papel de negrão malandro que vive se metendo em escabrosas situações, ou seja, ele é uma espécie de herdeiro natural do Shaft original.

Apesar de “Por Um Triz” não ser sensacional como outros filmes recentes com Washington (“Dia de Treinamento”, “Chamas da Vingança”, “O Plano Perfeito” e “Deja Vu”), mesmo assim o ator consegue garantir o interesse do filme fazendo dele um interessante e divertido policial.

O Amor Não Tira Férias, de Nancy Meyers *1/2

Nancy Meyers parece ser uma cineasta que tenta colocar em seus filmes uma visão sobre a mulher moderna no mundo atual. Isso, entretanto, não quer dizer necessariamente que seja algo positivo. Tanto em “Alguém Tem de Ceder” como nesse mais recente “O Amor Não Tira Férias”, o universo de Meyers é bem delimitado: mulheres independentes e inteligentes têm a tendência de sofrer muito devido à maioria cruel dos homens que só sabem enganá-las e tirar proveito das mesmas, a não ser quando elas conseguem domesticar algum deles ou até mesmo encontram um príncipe cheio de boas intenções. Ou seja, uma mistura de feminismo estéril com romances água-com-açúcar estilo “Sabrina” ou “Júlia”.

“O Amor Não Tira Férias” é o tipo de filme que clama a todo o momento por um pouco de vida: tudo é tão esquemático e previsível que são poucas as cenas em que há algum traço de espontaneidade. Meyers transforma todos os seus personagens nos mais equivocados estereótipos. Amanda (Cameron Diaz) faz parecer que toda mulher bem sucedida não passa de uma patricinha histérica e egoísta, enquanto Íris (Kate Winslet) é o protótipo piorado da sofredora por amor. Além do fato de serem realmente muito bonitas, não se consegue entender no filme porque Graham (Jude Law) e Miles (Jack Black), respectivamente, se apaixonam por elas tamanha a caracterização rasa das mesmas. E por mais que Meyers tente colocar um pouco de auto-ironia para o filme, isso acaba sendo um recurso hipócrita diante do próprio roteiro excessivamente açucarado e simplório.

Mas o discurso da diretora não se restringe apenas às relações amorosas. Mais constrangedora ainda é a crítica que se faz ao cinema atual norte-americano que estaria dando mais atenção para explosões e efeitos especiais do que para roteiros que “contem boas histórias”. Ora, para mim, isso não passa de uma argumentação moralista e reacionária contra o próprio cinema. Afinal, essa é a manifestação artística que busca o seu impacto sensorial através das imagens e da edição das mesmas. O que Meyers quer com a sua argumentação moralista? Transformar o cinema em subliteratura? E o mais triste é ouvir toda essas bobagens da boca do veterano Eli Wallach, o inesquecível “feio” de “Três Homens em Conflito”, do mestre Sérgio Leone, uma das obras cinematográficas em que mais a imagem espetacular e épica se sobressai ao roteiro.

É claro que dizer que “O Amor Não Tira Férias” é um desastre completo seria um exagero. Afinal, Jude Law tem uma atuação realmente muito boa e os momentos cômicos com Jack Black são tremendamente divertidos. Mas que o filme certamente pode estar no rol dos piores do anos isso dá para dizer sem a menor sombra de dúvida.

terça-feira, março 13, 2007

Crime Delicado, de Beto Brant ***1/2

Ao contrário de suas produções anteriores, dramas com tintas policiais (“Os Matadores”, “Ação Entre Amigos” e “O Invasor”), o diretor Beto Brant opta em “Crime Delicado” por uma trama em que os tiroteios estão ausentes, mas nem por isso sua narrativa deixa de impressionar ao retratar a violência nas relações humanas.

Brant é ambicioso na concepção de “Crime Delicado”. Sua pretensão é fazer o cinema dialogar com outras manifestações artísticas, como se buscasse pontos em comum ou até mesmo de ruptura entre diversas expressões culturais. A começar pela trilha sonora, repleta de temas clássicos e eruditos e passando pelas seqüências em que são exibidos trechos de peças teatrais. Nesse último ponto, Brant obtém um resultado fortemente original: o que vemos não é puro teatro filmado, mas sim enquadramentos inusitados para os atos filmados. É difícil precisar se o que estamos vendo é cinema ou teatro, é como se fosse um terceiro caminho.

O ponto alto, entretanto, de “Crime Delicado” nessa busca de comunicação entre gêneros artísticos é a longa, detalhada e crua seqüência em que o pintor José Torres Campana (Felipe Ehrenberg) trabalha num quadro de sua musa Inês (Lílian Taulib), indo desde os primeiros esboços até o resultado final. Brant filma todo esse processo com uma precisão e ousadia fantásticas, em que artista e musa se integram de uma forma quase obsessiva.

A partir dessa visão sobre o universo artístico, Brant mostra também o impacto que uma obra pode ter sobre o indivíduo através da figura do crítico teatral Antônio (Marcos Ricca). Em seus textos, Antônio procura racionalizar tudo que assiste, enquadrando sobre uma ótica reducionista uma atividade que é extremamente vinculada à sensibilidade e criatividade. Quando Antônio conhece Inês e se defronta com o “modus operandi” de Campana, as teorias restritas do crítico se abalam, revelando que o mesmo, pretenso analista cultural, está tão imerso em preconceitos e tacanhices quanto qualquer simples mortal que adora assistir novelas ou Big Brother.

É claro que as ousadias de Brant em “Crime Delicado” nem sempre atingem o alvo certo, sendo que o filme está longe de ser perfeito. Mesmo assim, é uma obra de peso dentro do cinema brasileiro, sendo que a sua busca de sintonia entre o cinema e outras formas de arte representa um saudável inconformismo, coisa rara de se encontrar atualmente na cinematografia nacional.

1972, de José Emílio Rondeau **

Até pouco tempo atrás, quando se falava em rock brasileiro, mencionava-se Cely Campelo nos anos 50, a Jovem Guarda, a Tropicália e os Mutantes nos anos 60 e se pulava direto para os anos 80 e daí por diante até os dias de hoje. Ou seja, em termos roqueiros, os anos 70 eram uma espécie de vácuo para a maioria das pessoas. Mais recentemente, com essa onda de nostalgia recheada de almanaques históricos, recomeçou-se a falar novamente em bandas antes quase esquecidas como a Bolha, Spectrum e Módulo 1000. Isso sem falar que os discos das mesmas se tornaram extremamente valiosos para colecionadores de vinil, surgindo reedições dos mesmos até mesmo no exterior. Dessa forma, foi redescoberto o universo psicodélico e até mesmo ingênuo de uma das fases mais criativas da música brasileira.

“1972”, produção brasileira de 2006, tem a pretensão de resgatar para as telas esse universo, além de fazer um retrato do país em pleno auge da ditadura militar. Aparentemente, o diretor José Emílio Rondeau e a roteirista Ana Maria Bahiana seriam os nomes ideais para uma empreitada como essa. Afinal, ambos têm uma experiência vasta dentro do jornalismo cultural e conhecimento de causa suficiente sobre a temática abordada em “1972”. A abertura do filme colabora ainda mais para essa expectativa, com um belo trabalho de grafismos típicos da época. Todos esses indícios promissores, entretanto, acabaram não resultando num trabalho realmente satisfatório. Os anos 70 representam um período altamente turbulento e contraditório da história recente brasileira, onde as influências da geração flower power (drogas, amor livre e ideais libertários) batiam de frente contra a repressão autoritária. O problema de “1972” é que o filme não consegue captar esta tensão, acabando por resultar numa visão esquemática e sem tesão de uma época tão fascinante quanto a abrangida pela obra, sendo que tal período termina utilizado apenas como pano de fundo para uma comédia romântica. E mesmo o mote principal, o relacionamento entre o jovem músico Snoopy (Rafael Rocha) e a jornalista Júlia (Dandara Guerra), é desenvolvido de forma tão insípida e artificial que em poucos momentos conseguimos sentir alguma empatia pelo casal.

Apesar disso tudo, “1972” vale uma conferida pela sua parte musical, tanto pela sua trilha sonora repleta de pérolas da época como pelas apresentações das bandas durante shows, além da caracterização fiel Cláudio Gabriel como o alucinado DJ Big Boy, que conseguem dar uma certa vitalidade para o filme.

segunda-feira, março 12, 2007

Filmes da Semana (Cotações de 0 a 4 estrelas)

Letra e Música, de Marc Lawrence ***1/2
Inacreditável – A Batalha dos Aflitos, de Beto Souza **1/2
C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor, de Jean-Marc Vallée ***1/2
Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim ***
Como Se Fosse a Primeira Vez, de Peter Segal ***
Shaolin Invencível, de Cheh Chang ****
O Vôo do Dragão, de Bruce Lee ***
A Fúria do Dragão, de Lo Wei ***1/2
Estranhos Prazeres, de Kathryn Bigelow ***1/2
2000 Maníacos, de Herschell Gordon Lewis ***1/2
Se Você Fosse Eu, de Jae-eun Jeong, Chan-Wook Park, Jin-pyo Park, Kwang-su Park, Kyun-dong Yeo e Soonrye Yim ***1/2
Violent Cop, de Takeshi Kitano ****

sexta-feira, março 09, 2007

Premonição, de James Wong **

A premissa inicial de “Premonição” é interessante: um grupo de jovens, devido aos dons premonitórios de um deles, acaba deixando de embarcar para um vôo trágico, sendo que a Morte, sentindo-se enganada, resolve corrigir tal “erro” fazendo com que cada um deles tenha um fim pavoroso. O problema do filme, entretanto, é que o cineasta James Wong acaba não fazendo jus ao argumento promissor. Sua direção é burocrática e sem maiores ousadias visuais, dando mesmo para as seqüências que deveriam ser mais aterrorizantes um estilo excessivamente “clean”. Ou seja, um filme de horror realizado por um cineasta que provavelmente não é muito fã do gênero. É de se imaginar o que mestres como Dario Argento e George Romero fariam com uma produção dessas...

“Premonição” também gerou mais duas seqüências que são bem superiores ao primeiro filme justamente pelo fato de não economizarem no sangue e na violência, resultando em produções de terror bem mais satisfatórias e menos bunda mole.

quarta-feira, março 07, 2007

Apocalypto, de Mel Gibson ****

“Apocalypto”, até o presente momento, é o grande ponto alto da carreira de Mel Gibson como cineasta. Ele consegue oferecer uma das visões mais originais sobre os povos americanos pré-colonização e ao mesmo tempo realiza uma dos melhores filmes de aventura dos últimos anos.

Os primeiros 15 minutos de “Apocalypto” são quase idílicos. Acompanha-se a calma e doce rotina de uma tribo indígena que vive em harmonia com a natureza e consigo mesma. Ao mesmo tempo, entretanto, sente-se que algo de errado está para acontecer a qualquer momento, como se aquela aparente felicidade estivesse alicerçada em bases frágeis, quase etéreas. Tais previsões acabam se concretizando, sendo que repentinamente caçadores maias atacam a tribo, dizimam boa parte da população e levam o restante da mesma como prisioneiros visando transformá-los em vítimas de sacrifício para os seus deuses. A partir desse momento, “Apocalypto” muda radicalmente de perspectiva, transformando-se numa saga de luta desesperada pela sobrevivência por parte de Pata de Jaguar (Rudy Youngblood) para que possa voltar para sua tribo e salvar sua família que está presa num buraco.

Para narrar a busca pela liberdade de Pata de Jaguar, Gibson não abre concessões. “Apocalypto” é frenético, violento e assustador, com alguns momentos que beiram o sobrenatural. A seqüência em que os Maias e seus prisioneiros encontram uma menina sobrevivente de uma aldeia dizimada pela peste, por exemplo, é puro cinema de horror, com a criança amaldiçoando os mesmos com as mais tétricas profecias e com uma voz absurdamente macabra. Mais assombrosas ainda, entretanto, são as impressionantes cenas de sacrifícios humanos no tempo maia, em que a reação quase de gozo da população maia diante às execuções é tão aterrorizante quanto os corações arrancados e as cabeças decepadas no altar do templo. E é claro que não dá para esquecer do momento em que Pata de Jaguar corre e tropeça por diversas vezes em um campo repleto de cadáveres em avançado estado de decomposição.

Mas o grande auge cinematográfico de “Apocalypto” é toda a empolgante seqüência de perseguição final na floresta. Por mais que se possa ficar deslumbrado com a beleza natural da selva, Gibson dá também uma dimensão misteriosa e mortal para a mesma, como se a cada metro pudesse haver surpresas nada agradáveis. Esse paradoxo entre o belo e o fatal no ambiente selvagem torna ainda mais tenso e alucinado o combate entre Pata de Jaguar e os seus perseguidores maias. A criatividade e o virtuosismo de Gibson em algumas cenas dessa seqüência chegam a lembrar alguns dos melhores momentos de “O Último dos Moicanos”, magnífica obra-prima de aventura de Michael Mann.

O fato de “Apocalypto” ser um épico repleto de violência e crueldade não representa uma opção estética gratuita por parte de Gibson. Na verdade, é o complemento perfeito para a leitura do filme sobre o contexto histórico em questão. Na visão de Gibson, tanto as tribos indígenas como os próprios maias viviam num estado de plena desintegração dessas sociedades, marcados pela apatia e por absurdos fanatismos religiosos que os impediam de enfrentar os seus graves problemas sociais e econômicos. O posterior massacre desses povos pelos colonizadores espanhóis seriam apenas conseqüência dessa decadência. Por mais preconceituosa que possa parecer tal visão, não deixa de ser admirável a contundência e honestidade de Mel Gibson no expor a mesma no seu devastador “Apocalypto”.

terça-feira, março 06, 2007

Um Lobisomem na Amazônia, de Ivan Cardoso ***

“Um Lobisomem na Amazônia” é uma produção que beira o amadorismo: fotografia e edição mal chegam no razoável, os atores estão no cúmulo da canastrice, os diálogos são risíveis e o roteiro é um primor da cretinice. Mas quer saber?? O filme é imensamente divertido. Assim como no documentário “A Marca do Terrir”, o cineasta Ivan Cardoso mostra que a força do seu cinema está muito mais no seu amor pelo exagero e pelo “camp” do que propriamente na técnica. Tal paixão pode ser comprovada na própria reação da platéia durante a exibição de “Um Lobisomem na Amazônia”: dos risos desenfreados até consagradores aplausos para as cenas mais picantes. Aliás, fazia tempo que não passava nas telas um filme brasileiro que trouxesse tanto do espírito debochado das antigas chanchadas da Atlântida. Vale mencionar ainda a ótima sacada de Cardoso de colocar no papel do protagonista Dr. Moreau o veterano de filmes de horror Paul Naschy.

No meio de tantas produções ditas “sérias” e preocupadas em ganhar prêmios em festivais, é extremamente salutar que haja cineastas como Ivan Cardoso mais preocupados com o cinema e a diversão do que com falsos intelectualismos. E faz a gente ficar ainda mais curioso com as reações que “A Encarnação do Demônio”, a mais nova obra de Zé do Caixão, vai despertar no público em geral.

Babel, de Alejandro González Iñarritu **

Fazia tempo que eu não saía tão irritado de uma sala de cinema quanto na oportunidade em que assisti “Babel”. Não que o filme seja um primor de ruindade. Não é. É apenas medíocre. O que me deixou realmente incomodado com essa produção é o fato dela ser uma baita empulhação. É muita pretensão para muito pouco cinema.

O diretor mexicano Alejandro González Iñarritu já havia se utilizado em obras anteriores (o sensacional “Amores Brutos e o bom “21 Gramas) do recurso de desenvolver tramas paralelas que no desenrolar da narrativa vão se confluindo. Em tais filmes, tal opção foi muito bem trabalhada, com uma edição que conseguia conciliar as tramas sem deixar o roteiro muito confuso e ao mesmo tempo dando uma dinâmica diferenciada à narrativa. Em “Babel”, essa característica do cinema de Inãrritu parece ter se transformado em uma fórmula gasta e sem graça. A forma com que as tramas se interligam é tão óbvia e forçada que chega a parecer primária. Não há o mesmo vigor narrativo das obras anteriores de Iñarritu, sendo que depois de meia hora de filme eu ficava me perguntando quando o mesmo iria realmente começar.

A parte temática de “Babel” é outro dos seus pontos fracos. A impressão que se tem é que parece que se está assistindo à continuação do infame “Crash”. É tudo tão politicamente correto e sem alma que se fica com a impressão que Iñarritu estava mais disposto a dar “lições de vida” ao espectador do que em oferecer um bom filme. “Babel” tem uma pretensão de sutileza ao mostrar as relações humanas, mas o efeito é completamente diverso. Afinal, todo o subtexto do roteiro está tão na cara que não oferece para quem assiste ao filme um espaço para refletir sobre aquilo que está vendo. Tudo já vem tão mastigado que se tem a impressão de Iñarritu não confia muito na inteligência do espectador.

É claro que “Babel” não é um desastre completo. As seqüências da festa de casamento no México têm uma estranha beleza contemplativa. A trama que se desenrola no Japão também tem momentos interessantes e que até justificariam um filme único para a mesma. Mas no geral, é muito pouco para um cineasta como Iñarritu que têm títulos tão expressivos na sua filmografia.

segunda-feira, março 05, 2007

Bom Dia, de Yasujiro Ozu ****

Yasujiro Ozu sempre teve uma “fórmula” bem simples para os seus filmes: temática familiar, situações quotidianas no seu roteiro, uma câmera que pouco se move e sempre no nível do chão. O que parece um simples comodismo na verdade revela um artista de visão altamente original. No início das tramas de suas produções, tudo parece corriqueiro, quase banal mesmo. À medida, entretanto, que a narrativa vai se desenvolvendo, vamos ficando cada vez mais envolvidos, efetivamente interessados com o destino dos seus personagens. Por mais estranho que pareça, é como se os tais fatos banais adquirissem até mesmo uma certa proporção épica.

Tudo isso que mencionei acima está também em “Bom Dia”, uma das melhores produções da carreira de Ozu. A ingênua luta dos dois irmãos para convencerem o seu pai a comprar uma televisão é conduzida com uma leveza admirável, ao mesmo tempo que podemos sentir que para os garotos tal questão tem uma dimensão grandiosa para as suas vidas. Nesse sentido, “Bom Dia” se revela como uma das transposições mais verdadeiras para as telas do que é o universo infantil. Além disso, também é fascinante como a partir de uma premissa tão simples Ozu consiga desvelar muito da cultura e dos conflitos da sociedade japonesa, principalmente no que diz respeito ao apego às tradições e os preconceitos morais da mesma.

Para quem não conhece a obra de Yasujiro Ozu, “Bom Dia” é uma das melhores formar a ter contato com o universo desse cineasta, tanto pelas suas qualidades cinematográficas quanto pela sua acessibilidade temática e estilística.

Os Infiltrados, de Martin Scorsese ****

Uma das coisas que mais me irrita entre críticos e cinéfilos em geral é uma visão sectária e estanque do próprio cinema que boa parte dessa gente tem. Seguido ouço comentários do tipo “os filmes de antigamente são melhores que os de hoje” ou “fulano já teve a sua época de ouro”. Na minha opinião, isso tudo representa uma visão comodista e equivocada. Afinal, é muito mais fácil dizer que o cinema atual é uma merda do que procurar uma nova obra-prima.

Mas por que essas considerações antes de falar de “Os Infiltrados”? Ora, a maioria dos textos e comentários que observei nesses últimos meses sobre o filme em questão e Martin Scorsese dizem que o apogeu criativo do cineasta já passou a alguns anos, sendo que esses Oscars que o mesmo recebeu por “Os Infiltrados” seriam na realidade uma homenagem ao conjunto de sua carreira. Sei que críticas são subjetivas na sua essência, mas discordo radicalmente dessa visão sobre Scorsese. Para começar, pelo menos nesses últimos quinze anos ele é responsável por algumas das mais expressivas e brilhantes obras do cinema mundial como “Cabo de Medo”, “A Idade da Inocência”, “Cassino”, “Vivendo no Limite” e “O Aviador”. Isso sem contar os dois monumentais documentários feitos para televisão “Feel Like Going Home” e “Bob Dylan: No Direction Home”. E, por fim, sem querer desmerecer produções geniais como “Caminhos Perigosos”, “Touro Indomável”, “Taxi Driver”, “O Último Concerto de Rock” e “Os Bons Companheiros”, mas “Os Infiltrados” é o grande apogeu artístico da carreira de Scorsese.

Da primeira a última cena, “Os Infiltrados” é uma verdadeira aula de cinema. A abertura já é antológica. Cenas documentais de conflitos em um bairro negro são logo seguidas da narração de Frank Costello (Jack Nicholson) dissecando a sua cínica e violenta filosofia de vida. Nesses primeiros momentos, Scorsese teve a sacada genial de deixar a fisionomia de Costello envoltas em sutis sombras, numa bela homenagem do diretor ao universo noir o qual ele tanto admira. Quando finalmente o rosto de Costello aparece claramente, o impacto da sua figura é impressionante.

Admirável também nessa obra mais recente de Scorsese é o casamento perfeito do roteiro preciso com um trabalho de edição fenomenal. O ritmo narrativo de “Os Infiltrados” é incansável: todas as suas seqüências giram quase que exclusivamente em torno dos malabarismos de Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), policial que age como espião dentro da quadrilha de Costello, e Collin Sullivan (Matt Damon), homem de confiança do mesmo Costello que trabalha no departamento de polícia, para que não sejam descobertos nas suas respectivas farsas. Essa objetividade de Scorsese no dimensionar o foco da sua trama oferece a “Os Infiltrados” um clima de crescente tensão que fica cada vez mais angustiante com o desenrolar dos fatos.

Ao mesmo tempo que Scorsese consegue desenvolver suspense de forma impressionante, é de se tirar o chapéu também para as fantásticas cenas de ação que o diretor conseguiu obter para o seu filme. Seqüências como a que Costigan persegue Sullivan no bairro chinês e o apoteótico tiroteio final entre a polícia e a gangue de Costello revelam a maestria da direção de Scorsese, estando no mesmo nível de obras policiais clássicas de William Friedkin como “Operação França” e “Viver e Morrer em Los Angeles”. De se destacar ainda que as seqüências de ação de “Os Infiltrados” demonstram também influências do cinema oriental policial. Dessa forma, o fato do filme ser uma adaptação de uma produção chinesa chamada “Conflitos Internos” não se restringiu apenas a uma simples transposição da trama, mas também na incorporação por parte de Scorsese de novos caminhos para o seu já clássico estilo de filmar. Interessante mencionar que esse encontro entre Ocidente e Oriente se reflete ainda em outro dos momentos mais luminosos de “Os Infiltrados” que é aquele em que a quadrilha de Costello se encontra com um grupo de criminosos chineses em um depósito de caís de porto para uma transação escusa, ao mesmo tempo em que estão sendo monitorados pela polícia. A alternância entre as duas ações ocorre numa dinâmica precisa e que se torna cada vez mais tensa a cada segundo.

Outro ponto alto em “Os Infiltrados” é a forma como a música é inserida dentro da narrativa. Todo apreciador de cinema se recorda da relação apaixonada de Scorsese com as trilhas sonoras do seu filme, principalmente em termos de seleção de canções. As mesmas nunca são utilizadas de forma gratuita, fornecendo sempre a paisagem sonora perfeita para as situações e personagens do universo de Scorsese. Nesse campo, talvez apenas Quentin Tarantino tenha sensibilidade comparável. Em “Os Infiltrados”, essa capacidade de Scorsese é elevada à enésima potência. A começar pela mencionada cena de abertura, em que a poderosa e épica “Gimme Shelter” dos Rolling Stones acompanham de forma grandiosa os “ensinamentos” de Costello. Já “Confortably Numb” do Pink Floyd, mas na versão arrepiante com Van Morrison nos vocais, é apresentada num contexto ainda mais ousado: começa de forma plácida numa reunião entre a quadrilha de Costello num armazém e acompanha Costigan na caminhada em direção ao apartamento de Madolyn (Vera Farmiga), explodindo no seu refrão justamente quando os dois começam a transar, num trabalho de edição primoroso e clássico. E é claro que não dá para esquecer da folk punk “I’m Shipping Up To Boston”, dos Dropkick Murphys, presente em duas seqüências cruciais de “Os Infiltrados” e que representam com fidelidade o espírito do filme.

Contribui ainda para o excepcional resultado final de “Os Infiltrados” um elenco de atores em estado de graça. DiCaprio faz de William Costigan um indivíduo que é pura tensão, enquanto Matt Damon oferece o contraponto exato: Sullivan tem a dose certa da inexpressividade maliciosa mais que adequada para o papel. Já Mark Wahlberg é um dínamo de fúria como o durão Sargento Dignam. E nunca as caretas e olhares de maníaco de Jack Nicholson fizeram tanto sentido em um filme quanto em “Os Infiltrados”, fazendo do violento e carismático Frank Costello um indivíduo que oscila fantasticamente entre o engraçado ao francamente assustador.

Eu poderia escrever mais algumas linhas sobre “Os Infiltrados” e mesmo assim eu não conseguiria dar a dimensão exata da grandeza dessa obra prima de Scorsese. Esse é o tipo de filme que só assistindo várias vezes conseguimos captar uma boa parte de suas nuances. Ou seja, o tipo de obra que já nasce clássica e que certamente está ao lado de outras produções cinematográfica fundamentais como “Meu Ódio Será Tua Herança” e “O Poderoso Chefão”.

Filmes da Semana (cotações de 0 a 4 estrelas)

Letra e Música, de Marc Lawrence ***1/2
Rocky Balboa, de Sylvester Stallone ***1/2
Motoqueiro Fantasma, de Mark Steven Johnson **
Notas Sobre Um Escândalo, de Richard Eyre ***
Vizinhos Vigilantes, de Edward F. Cline e Buster Keaton ****
Sete Amores, de Buster Keaton ****
Aurora, de F.W. Murnau ****
Rattle And Hum, de Phil Joanou **1/2

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Buenos Aires 100 Km, de Pablo Meza **

Já virou lugar comum entre críticos e cinéfilos em geral dizer que atualmente o cinema argentino está bem mais interessante que o brasileiro. Apesar de concordar com tal tese, isso não quer dizer que de vez em quando os nossos hermanos também não pisam na bola. “Buenos Aires 100 Km” é um desses casos.

Obras cinematográficas que falam da infância e adolescência geralmente têm a tendência de ganhar a simpatia do público. Afinal, acaba-se mostrando os fatos sob um certo olhar inocente, como se a câmera fosse os olhos de uma criança ou de um jovem. Dessa forma, é natural que se crie uma empatia com esse tipo de produção. Em alguns casos, tivemos filmes maravilhosos sobre o tema como “Amarcord”, “Os Incompreendidos”, “Fanny e Alexandre” e “A Era do Rádio”, obras essas que traziam como diferenciais fundamentais visão e estilo originais por parte de seus diretores. No filme argentino em questão, não há nada que transcenda em algum momento todos os clichês sobre obras de temática semelhante. Tudo é rigorosamente previsível e bem comportado, o que contraria até mesmo o espírito de espontaneidade inerente aos protagonistas desse tipo de produção. O diretor Pablo Meza é apenas correto, não havendo cenas de maior brilho cinematográfico em “Buenos Aires 100 Km”.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Filmes da Semana (Cotações de 0 a 4 estrelas)

A Rainha, de Stephen Frears **1/2
Antônia, de Tata Amaral ***1/2
A Conquista da Honra, de Clint Eastwood ****
Borat, de Larry Charles ****
Dreamgirls - Em Busca de Um Sonho, de Bill Condon ****
Pecados Íntimos, de Todd Field ***1/2
Capitão Blood, de Michael Curtiz ****
Fique Rico ou Morra Tentando, de Jim Sheridan ***
Calafrios, de David Cronenberg ****
Harper - O Caçador de Aventuras, de Jack Smight ****
Bridget Jones - No Limite da Razão, de Beeban Kidron **1/2
O Céu Pode Esperar, de Warren Beaty ***1/2
Fire And Ice, de Ralph Bakshi e Frank Frazetta ***1/2

domingo, fevereiro 25, 2007

A Concepção, de José Eduardo Belmonte ***

Talvez em uma primeira visão de “A Concepção” se possa ficar incomodado por uma certa falta de originalidade por parte do diretor José Eduardo Belmonte. Afinal, saltam aos olhos uma série de referências cinematográficas ao se assistir o filme: das produções políticas de Godard nos anos 60 até os preceitos radicais do movimento Dogma 95. Nesse último caso, encontramos semelhanças até mesmo no roteiro da obra de Belmonte com o brilhante “Os Idiotas” de Lars Von Trier. Apesar de tais referências, entretanto, num olhar mais atento se pode perceber também uma procura da parte de Belmonte por uma linguagem própria e mais desafiadora das convenções cinematográficas. Essa busca do cineasta acabou gerando um dos exemplares mais instigantes do cinema nacional dos últimos anos.

Gostando ou não de “A Concepção”, a verdade é que não se consegue ficar impassível ao filme. Logo na sua abertura, temos algumas tomadas de Brasília que fazem a mesma parecer realmente uma cidade de outro mundo, sendo que bruscamente entra em cena uma perseguição de policiais atrás de jovens que correm pelados em um prédio residencial. Aliada a tais cenas, há uma narração seca e irônica por parte de Lino (Milhen Cortaz) que em nenhum momento cai para o literário empolado e que faz um complemento admirável com as imagens que se vê na tela.

Com o desenrolar da trama, Belmonte desenvolve uma narrativa pouco linear, em que passado e presente se entrecruzam sem cerimônia. Ao mesmo tempo, insere imagens em tons granulados, dando ao filme em algumas seqüências um tom delirante. Esse jogo de tempo e de imagens até tornam o filme um pouco confuso em alguns momentos, mas ao mesmo tempo tem um impacto sensorial considerável. Colabora também para isso o original trabalho de edição e trilha sonora de “A Concepção”.

De se destacar ainda o elenco do filme, em perfeita sintonia com o espírito da coisa, com destaque óbvio para Matheus Nachtergaele, naquela que é a sua interpretação mais intensa já feita no cinema. Mesmo resvalando em alguns momentos para alguns trejeitos tipicamente teatrais, ele transforma X, o personagem catalisador de todas as loucuras de “A Concepção”, em um verdadeiro dínamo. Indo de momentos de pura filosofia delirante até a loucura extrema, Nachtergaele cria um dos personagens mais marcantes da cinematografia nacional recente.

A Janela Secreta, de David Koepp **

O escritor Stephen King tem uma relação tempestuosa com o cinema. Ocasionalmente alguns dos seus livros recebem adaptações para as telas muito bem sucedidas e que acabam resultando em filmes brilhantes como “O Iluminado”, “Carrie, A Estranha” e “Conta Comigo”. Mas a verdade é que a maioria de tais adaptações oscila entre o medíocre e o constrangedor. “A Janela Secreta”, produção norte-americana de 2004, enquadra-se no perfil mediano.

O filme é até bem feito, além de contar com um bom elenco, sendo que Johnny Deep, John Turturro e Maria Bello até conseguem dar uma certa consistência para os seus personagens. O grande problema de “A Janela Secreta” é a tremenda falta de imaginação tanto na trama do filme quanto na direção de David Koepp. O diretor conduz tudo de forma tão burocrática que a tensão, fundamental para uma obra de suspense, é mínima. Isso acaba acentuando ainda mais a previsibilidade do roteiro, a um ponto em que o que deveria ser a grande reviravolta do final da trama é algo que o espectador já tinha adivinhado praticamente no meio do filme.

É claro que originalidade no roteiro não é algo que encontramos muito seguido atualmente nas produções cinematográficas. Mas isso também não é condição fundamental para fazer um bom filme. Grandes clássicos cinematográficos obedeciam a determinadas fórmulas narrativas e nem por isso deixaram de ser grandes filmes. O que faz com que o espectador realmente se envolva com uma obra cinematográfica é a habilidade de um diretor em criar cenas e ambiências que fiquem na memória da platéia. Objetivo esse, aliás, que David Koepp não conseguiu atingir em “A Janela Secreta”.

O Perfume - A História de Um Assassino, de Tom Tykwer **1/2

O diretor alemão Tom Tykwer teve um início de carreira tremendamente promissor. “Inverno Quente” (1997) apresentava uma instigante narrativa labiríntica, entrecruzando a vida de alguns personagens de forma engenhosa, enquanto “Corra Lola Corra” (1998) era um verdadeiro show de edição, além de apresentar uma criativa trama que enveredava por três caminhos diferentes para a mesma história. Em “O Perfume – A História de Um Assassino”, obra mais recente de Tykwer, o cineasta parece ter perdido uma parte considerável da sua ousadia em nome de um aparente e confortável “bom gosto”.

Não que o filme seja ruim. “O Perfume” apresenta uma bem cuidada fotografia, além de uma direção de arte acima da média. Mas as coisas não vão muito além disso. O filme é excessivamente bem comportado, sendo que se sente a falta de uma maior personalidade artística de Tykwer. É tudo muito asséptico e afetado: a narração de John Hurt, as atuações dos protagonistas (até mesmo Dustin Hoffman parece estar no piloto automático), a narrativa sem sobressaltos. Por mais “sujo” e erótico que “O Perfume” se mostre em alguns momentos, a verdade é que nunca a obra consegue realmente causar algum impacto para quem assiste. Tanto que a seqüência da suruba ao ar livre quase no final do filme praticamente não tem tensão sexual.

Confesso que não li o livro original de Patrick Suskind no qual “O Perfume” é baseado e não sei se a opção estética de Tykwer vem da própria obra literária mencionada. O que posso dizer é que o resultado final de seu filme não me motivou nem um pouco a ler o livro...

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Filmes da Semana (Cotações de 0 a 4 Estrelas)

Fabricando Tom Zé, de Décio Matos Jr. ***1/2
Ellektra, de Rudolf Mestdagh ***1/2
Vermelho Como o Céu, de Cristiano Bortone ***
Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood ***1/2
Borat, de Larry Charles ****
Cafuné, de Bruno Vianna *1/2
Ato Terrorista, de Joseph Castelo ***
À Leste de Bucareste, de Corneliu Porumboiu ***
Las Manos, de Alejandro Doria ***
Ventos da Liberdade, de Ken Loach ****
Noivas, de Pantelis Voulgaris **1/2
No Rastro da Bala, de Wayne Kramer ***
Performance, de Donald Cammell e Nicolas Roeg ****
Liberdade Condicional, de Ulu Grosbard ****
O Dia Em Que a Terra Parou, de Robert Wise ****
Medo, de Kim Jee-Woon ***1/2

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin ****

De vez em quando, no meio de afetações estilo Amelie Poulain ou de exercícios excessivos de verborragia intelectual, o cinema francês atual nos oferece alguma pérola. “Reis e Rainha”, produção de 2004, é um desses casos.

No terço inicial de “Reis e Rainha”, o diretor Arnaud Desplechin desenvolve duas tramas paralelas de forma simultânea e que aparentemente não estão conectadas uma com a outra. Em uma delas, Nora (Emmanunuelle Devos) é uma bela mãe solteira, profissionalmente bem resolvida, que está prestes a casar com um executivo almofadinha e que descobre que o pai está com câncer em estágio terminal. Na outra trama, temos Ismael (Mathieu Almaric), um músico porra louca que acaba internado em uma instituição psiquiátrica. Com o tempo, essas duas narrativas vão se confluindo, até descobrirmos que Nora e Ismael já foram casados. A forma com que tais tramas paralelas vão se entrelaçando é um primor de narrativa cinematográfica por parte do Desplechin, com o mesmo se utilizando de recursos de flashback e seqüências oníricas de maneira engenhosa e que estabelecem com perfeição o sentido do que estamos assistindo.

Muito da força de “Reis e Rainha” está no embate das personalidades de seus protagonistas. Em relação à Nora, nos primeiros momentos temos a noção da mulher exemplar: mãe dedicada, noiva séria, profissional competente e filha dedicada. Aos poucos, entretanto, vamos conhecendo cada vez mais a personagem e com sutileza as aparências caem por chão, revelando uma mulher fria, amarga e totalmente endurecida pela vida. A seqüência em que Nora lê uma carta póstuma de seu pai onde ele declara seu ódio pela filha devido à insensibilidade da mesma é o ápice da dissecação da personagem e impressiona pelo grau de crueza e força dramática. Em contraponto, Ismael é o desajustado mor: desequilibrado emocionalmente, egoísta, encrenqueiro e francamente misógino. Ao mesmo tempo, é o paradoxo perfeito para Nora também pela tremenda intensidade pessoal: colhendo ódios ou admirações, ninguém consegue ficar indiferente ao cara. É antológica, por exemplo, a cena em que fala para a psiquiatra da clínica em que está internado (Catherine Deneuve) que não aceita ser tratado pela mesma porque, segundo ele, “mulheres não têm alma”!!

Fundamentais para o brilhantismo nessa caracterização de personagens são as fantásticas interpretações dos atores principais. Emmanuelle Devos oferece para Nora uma atuação rica em nuances, em que olhares são tremendamente reveladores. Já Mathieu Almaric faz de Ismael uma verdadeira força da natureza. Nesse sentido, impossível não mencionar a inesquecível seqüência em que o mesmo apresenta uma dança insana para os seus “colegas” de hospício.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Adrenalina, de Mark Neveldine e Brian Taylor ***

A trama de “Adrenalina”, produção norte-americana de 2006, é um primor da cretinice: Chev Chelios (Jason Statham), assassino de uma organização criminosa, é envenenado por desafetos, sendo que a única maneira de se manter vivo é permanecer com sua adrenalina no pico para o veneno não se espalhar. A partir dessa premissa hilariantemente absurda, os diretores Mark Neveldine e Brian Taylor constroem uma verdadeira montanha-russa de seqüências de ação, jogando o seu protagonista em situações ridículas que quase beiram o surreal. Nesse sentido, são antológicas as cenas em que Chelios encara um grupo de traficantes para deliberadamente levar uma surra e quando o mesmo transa com sua namorada no meio de uma feira chinesa lotada.

O ponto fraco de “Adrenalina” é que em alguns momentos Neveldine e Taylor confundem montagem cinematográfica com edição estilo video-clip, lembrando um Tony Scott fora de controle (o que não é um elogio). Apesar dos problemas, entretanto, “Adrenalina” é programa obrigatório para fãs de cinema de ação, principalmente pela atuação cínica e bem humorada de Jason Statham, pelo sacana clima de amoralidade que permeia toda a trama e por algumas bem elaboradas seqüências de ação.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Filmes da Semana (cotações de 0 a 4 estrelas)

O Último Rei da Escócia, de Kevin Macdonald **1/2
Uma Noite no Museu, de Shawn Levy **1/2
Noel – O Poeta da Vila, de Ricardo Van Steen ***
A Grande Final, de Gerardo Olivares ***
A Vida Secreta das Palavras, de Isabel Coixet **1/2
Escola do Riso, de Mamoru Hosi ***1/2
Em Direção ao Sul, de Laurent Cantet ***
O Planeta Branco, de Jean Lemire, Thierry Piantanida e Thierry Ragobert ***
Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade ****
Mulheres Desesperadas, de Esmé Lammers **1/2
Pixote In Memorian, de Felipe Briso, Gilberto Topczewski e Edu Abad **1/2
Sombras do Passado, de Florian Gallenberger **
Dia de Festa, de Toni Venturi e Paulo Georgieff ***
Scoop – O Grande Furo, de Woody Allen ****

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

3º Festival de Verão do RS de Cinema Internacional, por João Pedro Fleck

Começa hoje o 3º Festival de Verão do RS de Cinema Internacional. Atração imperdível para quem se encontra na capital, o festival irá exibir 31 filmes inéditos em diversas salas de Porto Alegre, a programação completa se encontra em: http://www.festivalverão.com.br/ . Além dos inéditos o festival irá ainda realizar a exibição de uma cópia restaurada de Macunaíma, (que, vale dizer, na sessão de 10/02, às 19:00 irá contar com a apresentação do Goida) e um ciclo Bresson, exibindo 5 filmes desse grande diretor em cópias restauradas.

Sobre os dez filmes que assisti até o presente momento:
- Ignorem: Incuráveis, de Gustavo Acioli (*), que é realmente insuportável e O Passageiro, de Flávio Tambellini (**), que até tem seus momentos mas não é nada demais.


- Até vale a pena ser assistido: Ato Terrorista, de Joseph Castelo (**1/2), que é interessante, com alguns momentos tensos, mas que proporciona ao espectador o sentimento de ser uma seqüência de uma série de filmes recém exibidos, principalmente Paradise Now.


- Assistam, se possível: Candy, de Neil Armfield (***), sobre um casal de junkies, com algumas cenas maravilhosas, principalmente a seqüência da recuperação; A Grande Final, de Gerard Olivares (***), uma comédia com tom documental, na qual três comunidades isoladas se esforçam para poderem assistir à final da copa de 2002; Noel, de Ricardo Van Steen (***), uma ótima personificação da figura de Noel Rosa, com momentos hilariantes – destaque para a sessão comentada com o diretor hoje à noite, às 19 horas.


- Não percam: Vermelho Como o Céu, Cristiano Bortone (***), a história real do garoto que fica cego, e, no internato, inventa uma maneira única de superar sua limitação; A Leste de Bucareste, de Corneliu Porumboiu (***1/2), este foi a maior surpresa entre os filmes que assisti no festival, essa comédia romena conquista o espectador de maneira inigualável; Borat, de Larry Charles (****), filme no qual Sacha Baron Cohen interpreta o segundo melhor repórter do Cazaquistão, aprendendo dicas no US e A para melhorar a vida no seu glorioso país e A Vida Secreta das Palavras, de Isabel Coixet (****), da mesma diretora de “Minha Vida sem Mim”, e com a mesma atriz principal, ganhador dos prêmios Goya de melhor filme, direção e roteiro, um filme brilhante e impecável.

Você é Tão Bonito, de Isabelle Mergault **1/2

Quando se vê o cartaz de “Você é Tão Bonito” a tendência do cidadão é logo de se animar. Afinal, é uma comédia francesa com o grande Michel Blanc no papel principal. Os primeiros quinze minutos do filme também são promissores. Blanc faz um fazendeiro mal humorado que fica viúvo e se desespera ao saber que perdeu dessa forma uma valiosa mão de obra para o trabalho. Assim, acaba partindo para a Romênia em busca de uma noiva.

Outro ponto a favor de “Você é Tão Bonito” é a competente fotografia de enquadramentos que valorizam a belas paisagens campestres do interior da França. A diretora Isabelel Mergault também revela uma certa sutileza ao focalizar as relações humanas. Apesar disso tudo, o filme vai se apresentando, com o desenrolar de sua trama, tão anêmico e inconsistente como algumas daquelas comédias românticas estilo Meg Ryan. E faz a gente ter saudades de outras comédias francesas antológicas com Blanc como “Os Bronzeados” e “Um Homem Meio Esquisito”.

O Último Portal, de Roman Polanski ****

Nessa produção de 1999, Polanski mostrou que continuava um mestre no gênero fantástico. “O Último Portal” tem momentos tão brilhantes quanto outros filmes magníficos do genial cineasta como “O Bebê de Rosemary” e “O Inquilino”.

A abertura já nos dá uma bela idéia do que está por vir: após uma sombria seqüência de suicídio de um colecionador de livros de magia negra, entram os créditos, com a câmera fazendo um vôo no meio de uma biblioteca cheia de livros empoeirados. Após esse forte início, começa efetivamente a trama do filme. Dean Corso (Johnny Deep) é um caçador de obras literárias em versões antigas que recebe a missão de encontrar um raríssimo livro de ocultismo com poderes apocalípticos. No meio da sua trajetória, Corso se envolverá em diversas situações tétricas e sangrentas, recheadas de mortes bizarras e estranhas.

Ao longo do filme, Polanski desenvolve com maestria todo o seu virtuosismo cinematográfico, além de um domínio de narrativa fabuloso. Um dos seus grandes acertos é dispensar qualquer tom maniqueísta. Não temos uma batalha entre o bem e o mal: no final das contas, Corso é tão insano e pouco ético quanto os “vilões” que estão atrás do tal livro. A obsessão de Corso na sua busca vai ficando cada vez mais intensa com o desenrolar da trama, não se atenuando nem mesmo com o verdadeiro banho de sangue que permeia a metade final de “O Último Portal”, e que acaba culminando na maravilhosa seqüência em que o protagonista transa com uma espécie de anjo demoníaco (Emmanuelle Seigner, cuja expressão facial oscila de forma maravilhosa entre a doce inocência e sorrisos diabólicos) no meio de um templo se incendiando.

“O Último Portal” é uma prova de que o gênio cinematográfico continua tão inquietante quando em décadas anteriores, sendo uma obra do mesmo quilate de “O Pianista”, a dura e irônica visão do cineasta polonês sobre a II Guerra Mundial.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Kiss Me, de António da Cunha Telles *


Olha, vou confessar uma coisa: eu tenho uma baita bronca com o Giuseppe Tornatore. Não que o cara seja um mau cineasta. Ele é um bom diretor. O problema do Tornatore é que o mesmo fez “Cinema Paradiso”, um filme até interessante, mas que se tornou modelo para uma série de produções medíocres que a maioria das pessoas teima em dizer que se trata de cinema “de verdade”. Tais filmes obedecem criteriosamente a seguinte fórmula: um personagem qualquer começa a se lembrar das coisas de infância e adolescência, sendo em que tal período o mancebo tinha como conselheiro alguém mais experiente cheio de sabedoria e carisma (e que quase sempre morre no final). Bem, nessa trama teremos momentos cômicos se alternando com outros sentimentalóides. Por fim, aquele personagem do início e nós, espectadores, receberemos uma lição de vida e sairemos do cinema nos sentindo gratificados por sentirmos que assistimos uma obra que acrescentou algo para a nossa existência. No meio disso tudo, provavelmente teremos algumas seqüências bem fotografadas mostrando paisagens campestres e interioranas para atestar que estamos assistindo a uma obra de qualidade artística. Quantas vezes já assistimos esse filme lá no Guion ou outra sala chique no meio de várias adoráveis velhinhas?? De cabeça, nos últimos dois anos eu posso citar algumas variações dessa fórmula: “Elsa e Fred”, “Tempero da Vida” e esse “Kiss Me”.

A descrição que fiz acima dos genéricos de “Cinema Paradiso” já serve quase como resumo do que é “Kiss Me”, produção portuguesa de 2004. A personagem que dá as tais lições de vida é Laura (a gostosa e inexpressiva Marisa Cruz), uma cabeleireira fã de Marilyn Monroe, que enfrenta os preconceitos de uma cidadezinha interiorana pelo fato de ser uma mulher “liberada”. Pois é, a grande transgressão da mesma é transar com metade da cidade... E o mais incrível é que o filme se passa durante boa parte da ditadura de Salazar e em nenhum momento a tal da Laura parece interagir com isso!! O filme todo é narrado pelo filho da nossa heroína e a todo o momento ele nos dá a entender que estamos ouvindo um relato de alguém que desafiou todas as convenções. Só não entendemos que convenções são essas...

Por fim, tenho uma sugestão para o programador do Guion: tentar conseguir esse “Kiss Me” para exibir na sua sala. Provavelmente ele terá um bom público de senhoras respeitáveis e pseudo-intelectuais que sairão muito comovidos da sala de cinema.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Filmes da Semana (cotação de 0 a 04 estrelas)

À Procura da Felicidade, de Gabriele Muccino ***1/2
O Parque dos Dinossauros – O Mundo Perdido, de Steven Spielberg ***
O Parque dos Dinossauros III, de Joe Johnston ***1/2
O Quarto Homem, de Paul Verhoeven ****
Versus, de Ryuhei Kitamura **1/2
The Song Remains The Same, de Peter Clifton e Joe Massot ***1/2
Tempo de Massacre, de Lucio Fulci ***1/2

Déjà Vu, de Tony Scott ****

Vamos esclarecer um ponto, de início: se tu, prezado leitor, és um daqueles que avalia um filme por coerência de roteiro, bem, acho melhor tu esqueceres “Deja Vu”. A trama do filme em vários momentos perde o sentido tamanha as incongruências que permeiam a mesma, principalmente no terço final do filme. Entretanto, é aquela coisa: histórias bem amarradas podem ser importantes para a literatura, mas para o cinema não são condições primordiais para termos um bom filme. E esse é justamente o caso de “Deja Vu”, obra cujas imagens em diversos momentos causa ao espectador um tremendo impacto sensorial.

Nessa obra mais recente, o diretor inglês Tony Scott atenua bastante daquela linguagem video clipeira insana de “Domino – A Caçadora de Recompensas” e oferece um estilo mais clássico e contido, o que não quer dizer necessariamente que tenha diminuído a sua criatividade e ousadia. Muito pelo contrário. Logo na abertura de “Deja Vu”, Scott diz a que veio, dando um puta show de cinema: num impressionante trabalho de edição, abdicando quase que totalmente de diálogos, mostra um bando de marinheiros de folga e grupos de crianças acompanhadas de professores que vão chegando em uma balsa que está prestes a explodir. A montagem precisa e os admiráveis movimentos de câmera vão criando um suspense poderoso, aumentando cada vez mais no espectador a sensação de que alguma coisa de muito errada está para acontecer, até chegar a uma das explosões mais gloriosamente violentas apresentadas nos últimos tempos nos cinemas.

Depois de início avassalador, “Deja Vu” desemboca numa estranha mistura de policial, suspense e ficção científica, e com direito até mesmo a um psicopata de plantão. Por mais esburacada que possa ser sua trama, é inegável a habilidade de Tony Scott em unir elementos tão diversos e criar uma obra tão consistente e tensa, aliado a sua notória capacidade para dirigir cenas de ação. Nesse sentido, antológica é a seqüência em que o policial Doug Carlin (Denzel Washington, totalmente à vontade no seu típico papel de herói fodão) se envolve numa perseguição automobilística em que a ação de desenvolve ao mesmo tempo no presente e no futuro!!

É óbvio que “Deja Vu” não recebeu qualquer indicação para Oscar ou alguma premiação de festivais. Afinal, é um filme “comercial” e sem conteúdo edificante... Mas há nele muito mais gosto pelo cinema do que nos “Babéis” da vida. E Tony Scott não precisa dessas frescuras para mostrar a sua importância. Afinal, quantos diretores podem se orgulhar em ter em sua filmografia filmaços como “Fome de Viver”, “O Último Boy Scout”, “Amor à Queima Roupa” e esse “Deja Vu”?

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

“Rejeitados Pelo Diabo” – de Rob Zombie ****

Se em “A Casa dos 1000 Corpos” Rob Zombie reciclava os filmes de horror e suspense dos anos 70, em “Rejeitados Pelo Diabo” ele vai ainda mais longe. Além dos gêneros citados, há ainda influência dos filmes policiais de Don Siegel e Willian Friedkin, os faroestes de Sam Peckinpah, dos dramas tenso de Scorsese, ou seja, o melhor do cinema setentista sob a visão insana e genial do Zombie. O resultado dessa junção de estilos e gêneros é uma obra única e devastadora.

Desde os seus primeiros fotogramas, percebe-se que Zombie oferece para cada cena de “Rejeitados Pelo Diabo” uma concepção épica. A fotografia suja e a montagem precisa, bem distante daquela concepção de video clip de algumas seqüências de “A Casa dos Mil Corpos”, fazem do filme uma verdadeira viagem sensorial. Zombie se mostra como um cineasta com um domínio impressionante de sua arte. Os enquadramentos revelam um cuidado obsessivo na criação de ambiências. A evolução da narrativa oferece uma crescente tensão a níveis impressionantes, colaborando para isso também uma trilha sonora adequadamente opressiva.

Esse formalismo violento e expressivo do cineasta também se estende para uma trama que conquista o espectador pelo seu radicalismo e coerência. Zombie manda para o inferno as noções “normais” de mocinho e bandido. No seu mundo, não existe a noção de bem e mal ou certo e errado. Em “Rejeitados Pelo Diabo”, temos uma família de psicopatas altamente sádicos e brutais (Sid Haig, Bill Moseley e Sheri Moon Zombie em desempenhos inesquecíveis) perseguida por um xerife (William Forsythe na interpretação da sua vida) tão demente quanto os mesmos. Uma das coisas fantásticas nisso tudo é que Zombie é fascinado pelos seus personagens. Todos têm um estranho e envolvente carisma, mesmo quando estão executando as mais perversas barbaridades. Ao mesmo tempo, nunca se perde a noção que não há redenção para nenhum deles. Dessa forma, o final com os foragidos sendo baleados impiedosamente pela polícia ao som da clássica “Free Bird” do Lynyrd Skynyrd chega a ter um tom poético fabuloso.

A realidade é que se eu fosse narrar todas as cenas antológicas de “Rejeitados Pelo Diabo” acabaria ficando horas e horas escrevendo. E se o filme impressiona pela quantidade absurda de seqüências maravilhosamente dirigidas, mais brilhante ainda é a capacidade de Zombie de ter dado uma unidade admirável para essa loucura, resultando numa das grandes obras primas dessa década e de toda a história do cinema.



“Só Deus Sabe”, de Carlos Bolado **1/2

A primeira vez que ouvi falar do cineasta Carlos Bolado foi com o documentário “Promessas de Um Novo Mundo”, um retrato contundente e emocional sobre o conflito entre judeus e palestinos. Além de abordar com rara sensibilidade uma temática explosiva, Bolado deu uma fluência narrativa admirável para o filme.

Em “Só Deus Sabe”, Bolado se aventura no drama ficcional, mas não esquece o seu passado de documentarista. Essa produção de 2005 tem algumas seqüências com um estilo fortemente documental, com o diretor conseguindo obter belas imagens no deserto mexicano e nas cidades de São Paulo e Salvador.

Apesar disso, “Só Deus Sabe” acaba sendo frustrante pela superficialidade no abordar uma série de questões como imigração e sincretismo religioso. Em nenhum momento realmente nos sentimos envolvidos com a trama ou com os personagens, resultando numa obra gélida e sem graça, apesar da fotografia caprichada.




segunda-feira, janeiro 29, 2007

Filmes da Semana (cotação de 0 a 04 estrelas)

Os Infiltrados, de Martin Scorsese ****
Babel, de Alejandro González Iñárritu **1/2
Apocalypto, de Mel Gibson ****
1972, de José Emilio Rondeau e Ana Maria Bahiana **
O Amor Não Tira Férias, de Nancy Meyers *1/2
O Lobisomem, de George Waggner ***1/2
A Balada de Ricky Bobby, de Adam McKay ****
The Acid House, de Paul McGuigan ***
Last Days, Gun Van Sant ****
Os Cavaleiros da Noite, de George Romero ****

sexta-feira, janeiro 26, 2007

O Fundo do Mar, de Damián Szifron ***

Essa produção argentina de 2003 tem uma meia hora inicial bastante promissora. O namoro entre Ezequiel (Daniel Hendler) e Anna (Dolores Fonzi) se encontra em crise, pronto para se esfacelar. Vemos a situação pelos olhos de Ezequiel e isso dá uma dimensão fortemente angustiante para o filme. Assim como o personagem, ficamos na dúvida do que realmente está acontecendo, se Anna o está traindo ou não. Pode-se perceber com essa abordagem o sentimento de impotência de Ezequiel diante da situação. A visão oferecida pelo diretor Damián Szifron é bastante crua e humana sobre uma relação amorosa preste a desabar por completo, ao mesmo tempo que o cineasta consegue obter fortes momentos de tensão dramática com a dúvida de Ezequiel sobre a fidelidade de Anna, remetendo até mesmo ao magnífico “Ciúme – O Inferno do Amor Possessivo”, de Claude Chabrol.

O problema de “O Fundo de Mar” é que após esse excelente começo o filme envereda por uma trilha completamente diversa, quando Ezequiel “descobre” que Anna realmente o traiu. Ele passa a perseguir o homem com quem ela estava, o seu psicólogo (Gustavo Garzón), sendo que nesse momento acabamos tendo uma típica comédia de mal entendidos. Não que não haja seqüências divertidas, mas o filme perde muito daquela tensão inicial e mesmo da sua força narrativa. É como se esses dois momentos do filme, o dramático e o cômico, não tivessem uma conexão natural, soando até mesmo um pouco forçado.
Mais Estranho que a Ficção, de Marc Forster ****

Parece que nesses últimos meses alguns cineastas dos quais nunca fui muito fã resolveram fazer filmes realmente legais. Primeiro foi o M. Night Shyamalan com o cara-de-pau e divertido “A Dama na Água”. Pouco depois Darren Aronofsky lança “A Fonte da Vida”, uma ficção científica enlouquecida cheia de influências de quadrinhos. E agora Marc Forster, que sempre fez filmes medianos, nos mostra esse magnífico “Mais Estranho que a Ficção”.

Um dos pontos mais discutidos na história do cinema sempre foi a sua relação com a linguagem literária. Sempre houve um questionamento o quanto o cinema era influenciado pela literatura, não só em casos de adaptações de romances ou contos, mas também pela utilização de uma estrutura narrativa que remete diretamente ao discurso literário. Não sem razão, vários teóricos e críticos execravam esse tipo de aproximação entre cinema e literatura pelo fato de que a mesma impede o desenvolvimento de uma linguagem própria cinematográfica. Truffaut, por exemplo, sempre considerou que essa influência literária no cinema fazia com que a própria crítica e público apreciassem um filme pela sua trama em si e não pelo impacto sensorial das imagens. “Mais Estranho que a Ficção” traz a tona essa discussão de forma irônica ao mostrar o drama de Harold Crick (Will Ferrel), um pacato fiscal do Imposto de Renda que começa a ouvir na sua mente uma narração que descreve exatamente todos os seus passos. A forma com que o personagem e a narração interagem é engenhosa: apesar dos protestos e tentativas de comunicação do Crick com a tal da voz, a mesma sempre se mantém impassível e ignorando até mesmo a ciência do personagem sobre a sua possível autora. As situações de metalinguagem nesses momentos têm um grau de fluência e sofisticação admirável. Forster parece também alfinetar a própria utilização do discurso literário: a narrativa ostensiva e rebuscada da escritora Kay Eiffel (Emma Thompson) parece redundante, excessiva, fazendo com que tenhamos a sensação de que as imagens estejam dispensando a narração em off.

“Mais Estranho que a Ficção”, além da sua criativa metalinguagem, também impressiona por uma impressionante sensibilidade a flor da pele. O processo de mudança de Crick, ao tomar consciência da sua morte que estar por vir brevemente, tem uma sutileza e intensidade admiráveis e que acaba culminando na belíssima seqüência em que ele toca no violão uma canção punk, de maneira tosca e possuída, para Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal), a adorável padeira por quem ele está apaixonado. Contribui também para isso a excelente atuação de Will Ferrel, que saí daquele seu típico registro histriônico e oferece uma interpretação que oscila com perfeição serenidade e um ar de perplexo.

A utilização de efeitos especiais em “Mais Estranho Que a Ficção” também é um capítulo a parte pela sua criatividade, lembrando bastante nesse sentido o fantástico “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança”. E é claro que não dá para esquecer a maravilhosa trilha sonora: as canções tipicamente indie da banda Spoon dão a moldura sonora ideal para o clima surreal e romântico da trama. Isso sem contar a tremendamente assobiável “Whole Wide World”, a tal canção punk cantada e tocada por Crick.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Filmes da Semana (Cotações de 0 a 04 estrelas)

Deja Vu, de Tony Scott ****
Você é Tão Bonito, de Isabelel Mergault **1/2
Adrenalina, de Mark Neveldine ***
O Perfume, de Tom Tykwer **1/2
A Concepção, de José Eduardo Belmonte ***
Miami Vice, de Michael Mann ****
O Ritmo de Um Sonho, de Craig Bewer ****

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille ***1/2

Levar a sério hoje em dia um filme como “Os Dez Mandamentos” é até meio difícil. A visão sobre os episódios bíblicos em questão não representa uma visão aprofundada sobre preceitos religiosos. Mesmo com todos os exageros estéticos de Cecil B. DeMille, essa produção de 1956 envelheceu bem com o passar dos anos, principalmente se encararmos o filme pela sua verdadeira natureza: um tremendo épico de aventura muito bem dirigido. A mão de DeMille pesa em alguns momentos, mas o talento do mesmo para gerar cenas antológicas é inegável. E fica ainda mais evidente na melhor e mais famosa seqüência de “Os Dez Mandamentos” que é aquela em que o Mar Vermelho se abre para os judeus em fuga do Egito, numa trucagem genial que impressiona até hoje.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Diamante de Sangue, de Edward Zwick ***1/2

Por mais nobres que sejam as intenções de “Diamante de Sangue” de denunciar a extração e o comércio ilegais de diamantes na África, a verdade é que essa produção funciona melhor como filme de guerra do que uma análise séria sobre o assunto. Tanto que o maior ponto fraco do filme está justamente nos momentos “políticos”, rendendo seqüências com diálogos excessivamente descritivos que afetam a sua fluência narrativa. O final edificante também vai nessa linha, em um tom discursivo e meloso que é tremendamente anti-climático.

Apesar desses problemas, entretanto, “Diamante de Sangue” é um trabalho que confirma o talento do cineasta Edwar Zwick para dirigir épicos de ação, coisa, aliás, que ela já tinha feito com brilhantismo no ótimo “O Último Samurai” (que, por sinal, também tinha um final horroroso). Tanto nas densas selvas quanto nas empobrecidas cidades, Zwick obtém uma ambientação impressionante para a trama, transformando aquela parte do continente africano num verdadeiro pedaço do inferno na Terra. Essa caracterização do meio, que se estende para alguns personagens (retratados como selvagens animalescos) pode ser um pouco preconceituosa, mas ao mesmo tempo oferece o pano de fundo ideal para a sangrenta saga de Danny Archer (Leonardo DiCaprio) e Solomon Vandy (Djimon Hounsou) na busca de um raro diamante rosa e do filho do segundo em plena guerra civil em Serra Leoa. As seqüências de combates, aliás, são antológicas nas suas precisas coreografias de tiros, explosões, sangue, morte e destruição. Nesse sentido, o auge de “Diamante de Sangue” ocorre quando a capital do país é invadida por guerrilheiros, com Archer e Vandy correndo no meio do caos, fugindo e abrindo o caminho à bala, com Zwick nos dando a sensação de um mundo desabando. E tudo isso ao som de uma trilha sonora bombástica na medida certa e ideal para a grandiosidade das cenas.

A atuação de Leonardo DiCaprio é outro dos motivos que fazem “Diamante de Sangue” valer o ingresso. A sua atuação impressiona pelo carisma que oferece ao malandro mercenário Danny Archer, que vai do cinismo e sangue frio do início até a emotividade dramática da conclusão do filme, tornando crível a redenção final do personagem.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Strings, de Anders Ronnow Klarlund ***

Filmes com marionetes não são propriamente uma novidade na história do cinema. “Strings”, produção européia de 2004, entretanto, traz alguns aspectos bem originais para o gênero. Além de uma concepção visual fortemente estilizada e rebuscada, o filme apresenta de forma criativa o uso de metalinguagem ao fazer com que as cordas que manipulam os bonecos, o que inicialmente poderia ser visto como um fator limitador, sejam utilizadas como recurso dramático na trama (os personagens morrem, por exemplo, quando têm as suas cordas cortadas).

Apesar de tais ousadias, “Strings” se torna cansativo com o passar do tempo, principalmente devido ao roteiro esquemático e a uma certa frieza excessiva na condução da trama. Mesmo assim, a beleza das imagens torna o filme uma experiência cinematográfica bem recomendável.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Cotações da Semana (de zero a quatro estrelas)

O Segredo de Beethoven, de Agnieszka Holland ***1/2
Feliz Natal, de Christian Carion **1/2
Diamante de Sangue, de Edward Zwick ***1/2
Mais Estranhos Que a Ficção, de Marc Forster ****
Só Deus Sabe, de Carlos Bolado **1/2
Feliz Natal, de Christian Carion **1/2

No clássico drama de guerra “A Grande Ilusão” (1937), uma das maiores obras primas do mestre Jean Renoir, havia um momento na trama em que ocorre uma espécie de confraternização entre os exércitos combatentes. Apesar dessa insólita manifestação, não perdíamos a consciência de que aqueles homens também estavam prontos para matar os seus inimigos quando necessário. Essa dualidade aumentava ainda mais a dimensão humana do filme, ao mostrar a imensa gama de sentimentos que envolve um conflito bélico. Renoir também colocava em pauta a distinção entre as classes oficiais/aristocráticas e soldados/povo, mostrando como tal divisão impregnava a cultura ocidental a ponto de não ser esquecida em pleno combate.

“Feliz Natal”, produção européia de 2005, evoca as questões abordas por Renoir em “A Grande Ilusão”, procurando explicitar ainda mais o que na obra de Renoir era mais insinuado. Mesmo assim, o cineasta Christian Carion acaba deixando muito a desejar na sua visão. A concepção das situações e dos personagens é simplória e rasa demais. Não há a natureza contraditória e ambígua da obra prima de Renoir: tudo é certinho e unidimensional em demasia.

No final das contas, “Feliz Natal” não chega a ser ruim. Há belos planos dos campos de batalhas, além de alguns momentos divertidos durante a confraternização entre alemães, franceses e escoceses. A forma como as músicas típicas dos países são utilizadas como forma de aproximação entre os inimigos também é um sopro de criatividade e frescor na narrativa. Mas isso tudo é insuficiente para tirar a impressão de frustração ao final do filme.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Bem-vindo, de Lukas Moodysson ***1/2

O cineasta sueco Lukas Moodysson deixa claro na sua filmografia influências consideráveis do cinema nórdico de gente como Ingmar Bergman e Lars Von Trier, através de um estilo mais intimista, temática caindo para o naturalismo e uma abordagem crítica e ácida sobre as mazelas da sociedade contemporânea. Moodysson, entretanto, consegue se destacar e mostrar brilho próprio por trazer sempre em seus filmes uma visão mais irônica e bem humorada, tendência essa que ele até mesmo conseguiu preservar no barra pesada “Lilya Forever”.

Em “Bem-vindo”, produção de 2000, essa visão de Lukas Moodyson acaba oferecendo um resultado bem original para uma trama que teria tudo para cair no lugar comum. Quando Elisabeth (Lisa Lindgren) abandona o marido Rolf (Michael Nyqvist) e parte com seus filhos para morar em uma comunidade alternativa e hiponga onde o seu irmão Göran (Gustav Hammarsten) é uma espécie de líder achamos que vamos ter algo no estilo “burguesa descobre o sentido da vida ao conviver com porras loucas”. E até que o roteiro em alguns momentos envereda por esse caminho. Mas o grande barato realmente está no fato de que é ela e suas crianças que realmente influem em uma mudança no tal grupo e principalmente no seu irmão, que aos poucos vai percebendo a sua passividade perante a sua não muito fiel companheira Lena (Anja Lunkkvist), adepta convicta da filosofia do amor livre.

É na contraposição de conceitos sobre o que é ser liberal e o que é ser conservador que está a força de “Bem-vindo”. Moodyson não se mostra favorável a nenhum dos lados, estando mais disposto a tirar um sarro de tudo e de todos. E essa concepção sacana é que faz do filme um dos mais divertidos a sair do habitualmente sisudo cinema nórdico.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

O Segredo de Beethoven, de Agnieszka Holland ***1/2

“O Segredo de Beethoven” era uma produção que tinha tudo para resultar num draminha água com açúcar sobre os últimos anos de vida do gênio musical do título. Nas mãos de Agnieszka Holland o filme tomou um viés bem mais interessante, principalmente pelo fato da diretora se utilizar de maneira magnífica do excelente material musical que tinha em mãos. A música é quase como se fosse um personagem por si só tamanho o esmero na forma com que é editada com as imagens. Holland faz com que as sinfonias e peças sejam uma extensão perfeitamente coerente da personalidade explosiva e genial de Beethoven. Nesse sentido, o ápice do filme é a seqüência em que a 9ª Sinfonia é apresentada pela primeira vez e regida pelo próprio compositor. A sinfonia não é apenas musical, mas também visual, com som e imagem se combinando e misturando de forma inebriante e deixando o expectador até atordoado e maravilhado com a força de ambos.

Holland só não consegue contornar, no entanto, a caracterização mal focada de Diane Kruger no papel de Anna Holz, a copista e pretensa compositora que se torna uma espécie de “secretária” de Beethoven (Ed Harris, numa boa interpretação que não cai em muitos exageros). O que era para ser uma personagem marcada pela ambigüidade acaba caindo excessivamente para garota meiga e romântica, não sendo explorado de forma satisfatória, dessa forma, a relação entre ela e o compositor.

Tais problemas, entretanto, acabam se tornando pequenos perto dos méritos de “O Segredo de Beethoven”, um dos filmes que melhor exploraram nos últimos tempos as possibilidades de representação da música em termos cinematográficos.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Os 10 Melhores Filmes de 2006

1) Os Infiltrados, de Martin Scorsese
2) Miami Vice, de Michael Mann
3) 007 - Cassino Royale, de Martin Campbell
4) Viagem Maldita, de Alexandre Aja
5) Orgulho e Preconceito, de Joe Wright
6) Café da Manhã em Plutão, de Neil Jordan
7) Munique, de Steven Spielberg
8) Match Point, de Woody Allen
9) O Novo Mundo, de Terrence Mallick
10) O Plano Perfeito, de Spike Lee
Maldito Coração, de Asia Argento ****

Confesso que as origens de “Maldito Coração” faziam com que eu tivesse um certo receio em relação ao filme. Afinal, essa produção norte-americana de 2004 é baseada numa pretensa auto-biografia de um escritor que na realidade nunca existiu, o controverso e andrógino J.T. Leroy. Quando o mesmo foi desmascarado, descobriu-se que quem havia escrito todos os seus polêmicos livros era a sua agente e que Leroy na verdade era uma modelo! Ou seja: uma gloriosa picaretagem! Não cheguei a ler os livros do “cara”, mas “Maldito Coração” está muito longe de ser apenas mais um golpe publicitário. O filme traz uma das visões mais viscerais e originais sobre o universo familiar, além de ser um brilhante exercício estético de Ásia Argento, filha do mestre do horror e suspense italiano Dario Argento.

A trama de “Maldito Coração” gira em torno de Jeremiah, um garoto que ainda criança é tirado da tranqüilidade da sua família adotiva para viver com a sua mãe biológica, Sarah, uma junkie contumaz e ninfomaníaca de carteirinha (a própria Ásia Argento, numa primorosa caracterização grotesca e exagerada, como se fosse uma Courtney Love ainda mais enlouquecida). A vida do menino se transforma numa verdadeira descida aos infernos mais aterradores, passando por episódios extremos de sevícias sexuais, violência, abandono, solidão e até mesmo travestismo. Mesmo quando não está nas mãos de sua mãe, Jeremiah passa por poucas e boas, principalmente através do seu avô (numa participação sinistra de Peter Fonda), um fanático religioso dado a espancar seus familiares nos momentos de vacilação da fé dos mesmos (aliás, um dos momentos mais antológicos e absurdos do filme é quando canta “Anarchy In U.K.”, dos Sex Pistols, para o seu primo carola). Toda essa temática barra pesada que ronda “Maldito Coração”, contudo, não faz com que essa obra caia no mero sensacionalismo. A intenção de Ásia Argento é justamente contrapor todo esse rosário de desgraças e perversões com o conceito da união familiar. O resultado de tal diálogo aparentemente paradoxal é perturbador e ao mesmo tempo marcado por uma surpreendente ironia. Quanto mais Jeremiah é maltratado pela mãe, mais o sentimento de cumplicidade e dependência entre os dois fica acentuado, até chegar a um ponto em que os mesmos não conseguem conceber a vida separados. Por mais esquisito que possa parecer, talvez “Maldito Coração” seja um dos filmes que melhor discutiram o núcleo familiar nos últimos tempos.

Mas as ousadias de Ásia Argento não se limitaram apenas ao conteúdo do roteiro. Talvez seja cedo e precipitado dizer que a cineasta tenha atingido o grau de perfeição virtuosística do seu progenitor, mas ela chega perto em algumas belas seqüências de “Maldito Coração”. O seu grande mérito é misturar uma narrativa hiper-realista com trechos de puro delírio e fantasia. O momento em que é atendido em um hospital após ser molestado sexualmente por um dos namorados de sua mãe é exemplar: ao mesmo tempo que começa a receber dolorosos pontos, o garoto começa a ter uma verdadeira viagem psicodélica devido aos sedativos em que chega até mesmo a ver fadinhas, num momento onírico de visual espetacular. De se destacar também o processo de sedução em que se traveste com as roupas de e seduz outro de seus amantes (um irreconhecível Marilyn Manson), confundindo até mesmo o expectador, em um brilhante trabalho de manipulação de imagens por parte de Ásia Argento.

Piores Filmes de 2006

1) Edison, de David J. Burke
2) O Cerro do Jarau, de Beto Souza
3) Elsa e Fred – Um Amor de Paixão, de Marcos Carnevale
4) Eragon, de Stefen Fangmeier
5) Tapete Vermelho, de Luiz Alberto Pereira

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Cotações das Últimas Duas Semanas (de 0 a 4 estrelas)

A Promessa, de Chen Kaige **1/2
Meu Irmão Quer Se Matar, de Lone Scherfig ***1/2
Por Água Abaixo, de David Bowers e Sam Fell ***1/2
A Proposta, de John Hillcoat ****
Muito Além Do Jardim, de Hal Ashby ****
Julieta dos Espíritos, de Federico Fellini ****
Nacho Libre, de Jared Hess ***1/2
This Is Spinal Tap, de Rob Reiner ****
Aquele Que Saber Viver, de Dino Risi ****
A Mighty Wind, de Christopher Guest ***
Napoleão Dinamite, de Jared Hess ****
Phenomena, de Dario Argento ***1/2
Recomeçar, de Roger Michell ***1/2
Laurel Canyon – A Rua das Tentações, de Lisa Cholodenko **1/2
O Pecado da Fé, de Jean Beaudin *1/2
Voltando Para Casa, de Agnieszka Holland ***1/2
Inimigo Público Nº 1, de William Wellman ***1/2
Adorável Pecadora, de George Cukor ***1/2
5 Covas No Egito, de Billy Wilder ****
Terapia De Doidos, de Brian De Palma ****
Duelo De Titãs, de John Sturges ****