sexta-feira, março 18, 2011

Esposa de Mentirinha, de Dennis Dugan *1/2


Em “Ta Rindo do Quê?” (2009), Adam Sandler vivia o papel de um comediante veterano e famoso que se notabilizara como astro em comédias cretinas e que se descobria com câncer, o que fazia com que ele fosse obrigado a realizar uma reflexão sobre a sua vida e a sua arte. O tom do filme era do humor amargo, e de certa forma dava a impressão configurar uma espécie de espelho das escolhas artísticas do próprio Sandler. Assim, não deixa de ser irônico que um dos trabalhos posteriores dele seja justamente esse “Esposa de Mentirinha” (2011), mais uma produção medíocre que entra para a conta do ator. O filme parece obedecer a um padrão de uma linha de montagem que Sandler vem se especializando: a de comédias familiares em que ele faz um cara meio cafajeste e conquistador que se mete em determinado caso de mal entendido e acaba recebendo lições de vida de algum coadjuvante (geralmente uma criança engraçadinha). O problema em “Esposa de Mentirinha” nem é tanto o seu aspecto formulaico ou a cretinice de algumas seqüências, mas sim a aparente falta de convicção da obra em se assumir dentro do seu gênero. Os momentos de escrachos são encenados tão no piloto automático que parecem revelar até um certo constrangimento por parte de Sandler em estar fazendo parte da produção. E o lado dramático é tão caricatural e meloso que nem dá para considerar digno de nota. No cômputo geral, mesmo dentro do padrão de Sandler, o filme é decepcionante, até porque o ator já vinha de uma parceria bem sucedida com o diretor Dennis Dugan no bom “Gente Grande” (2010).

quinta-feira, março 17, 2011

Restrepo, de Sebastian Junger e Tim Hetherington ***


O formato de “Restrepo” (2010) pode provocar a presunção de que tal documentário tenha uma intenção muito mais jornalística do que propriamente cinematográfica ao combinar as filmagens “in loco” de um pelotão do exército dos Estados Unidos em combate em uma região do Afeganistão contra guerrilheiros talebans com depoimentos em estúdio dos soldados do referido pelotão. O fato do filme ser produzido pela National Geographic acentua ainda mais esse aspecto de uma grande reportagem. Ocorre, entretanto, que boa parte dos méritos de “Restrepo” não se concentra somente em sua parte temática. O impacto das sequências de combate impressiona pelo seu registro cru e brutal, por mais que a câmera fique tremendo com relativa constância (o que é muito natural, afinal, as filmagens se dão em plena guerra real). Os diretores Sebastian Junger e Tim Hetherington também conseguem captar fortes nuances dramáticas nos momentos de “calmaria” dos militares, principalmente quando eles são obrigados a buscar uma convivência harmoniosa, na medida do possível, com os moradores do lugarejo localizado na região onde se travam as batalhas. Mas como conseguir estabelecer uma relação amistosa quando mulheres e crianças nativas são mortas no fogo cruzado? É fascinante ainda em “Restrepo” a forma com que os “vilões” do filmes são caracterizados – em nenhum momento conseguimos vê-los efetivamente, é quase como se os talebans fossem uma força invisível e sobrenatural incrustada na floresta em que se escondem. Essa caracterização espontânea de uma desconhecida força da natureza remete muito ao conceito do temor do homem branco ocidental perante uma natureza agressiva e misteriosa, tão presente, por exemplo, na literatura de Joseph Conrad e, por tabela, no clássico do cinema de guerra “Apocalypse Now” (1979).

quarta-feira, março 16, 2011

Rango, de Gore Verbinski ***1/2


Em animações recentes, o uso de referências e citações a clássicos do cinema é uma prática recorrente. Em “Rango” (2011), entretanto, tal recurso acaba ganhando uma dimensão diferenciada. O filme de Gore Verbinski é uma verdadeira declaração de amor ao gênero do spaghetti western, com o roteiro emulando detalhes da trama de “Era Uma Vez no Oeste”, incluindo ainda a recriação de enquadramentos típicos de produções dirigidas por Sergio Leone e outros maneirismos característicos do saudoso cineasta italiano. A fotografia impressiona também pela beleza de paisagens áridas, cortesia da colaboração com Roger Deakins, parceiro dos Irmãos Coen na concepção dos faroestes outonais “Onde Os Fracos Não Têm Vez” (2007) e “Bravura Indômita” (2010). A figura do protagonista Rango remete ao pistoleiro misterioso encarnado por Clint Eastwood na clássica trilogia spaghetti de Leone. Na verdade, aparece a própria versão animada de Eastwood como o Espírito do Oeste. A composição visual dos demais personagens antropomorfizados de “Rango” é outro achado criativo, pois são vividos por animais não exatamente “fofinhos” (cobras, lagartos, toupeiras, porcos-espinhos, corujas, tartarugas, tatus); na verdade, beiram o asqueroso, o que se mostra em perfeita sintonia com a proposta da animação.

Apesar de essencialmente ter como centro de suas homenagens as produções de spaghetti western, “Rango” ainda se permite a aventurar em outros gêneros. A seqüência em que o personagem principal e seus companheiros enfrentam um bando de toupeiras “pilotando” morcegos se dá aos moldes do clássico ataque de helicópteros em “Apocalipse Now” (1979) – não à toa, há a utilização de “A Cavalgada das Valquírias” de Richard Wagner como tema musical. Nuances do roteiro também trazem lembranças das intrincadas jogadas criminosas de “Chinatown” (1974). E é claro que não dá para esquecer o momento em que aparece o próprio Hunter Thompson no meio de seu delírio gonzo em “Medo e Delírio em Las Vegas” (1998). No final das contas, é bastante provável que cinéfilos velhos de guerra vão curtir muito mais “Rango” do que o inocente público infantil...

terça-feira, março 15, 2011

Bruna Surfistinha, de Marcus Baldini **1/2


O fenômeno Bruna Surfistinha, no que diz respeito ao seu aspecto comportamental, talvez configure uma situação emblemática, um elemento do nosso zeitgeist (para usar termo bastante em voga). Já a versão cinematográfica das aventuras da mocinha, definitivamente, está mais para um exercício voyerístico do que para possíveis análises reflexivas. O olhar do diretor Marcus Baldini apresenta uma queda para o exploitation – por mais que encene alguns draminhas de consciência da protagonista, o seu forte está mesmo no caráter apelativo ao mostrar a nudez de Deborah Secco e as infinitas transas de Surfistinha. Há de se convir, entretanto, que em tais momentos de sacanagem Baldini realiza suas tomadas com convicção. “Bruna Surfistinha” (2011) apresenta sequências que chegam a serem perturbadoras no sentido de estabelecer atmosferas que oscilam entre o sensual e o grotesco, apresentando uma dicotomia entre a atração e a repulsa. Isso acaba entrando em sintonia com a sua estrutura narrativa convencional, no manjado estilo “ascensão, apogeu e queda” de sua personagem principal. Mesmo que superficial como desenvolvimento de trama e personagens, tais escolhas formais acabam dando uma certa dimensão vertiginosa e épica em situações que vão de apoteótica festa no apartamento de luxo de Surfistinha no seu apogeu econômico até o ponto mais baixo de sua “carreira” onde faz sucessivos programas a 20 reais numa birosca mais que bagaceira. É de se destacar ainda a performance dramática de Secco. Ela não é uma intérprete muito expressiva, mas é inegável sua forte presença de cena, evoluindo com considerável naturalidade de um registro meio inocente e desengonçado para o estilo mulherão vulgar.

O grande problema de “Bruna Surfistinha” como experiência cinematográfica é a sua origem literária, que acaba se tornando uma espécie de herança maldita para o filme. A narração em off de Deborah Secco é excessiva e com um texto qualidade artística mais que duvidosa, tendo a necessidade constante de explicar com detalhes para o espectador as atitudes de Surfistinha. É provável que se Baldini tivesse dispensado esse recurso o impacto de sua narrativa seria muito maior, pois daria um poder mais sugestivo para as imagens.

De qualquer forma, mesmo estando longe de ter um padrão de qualidade inquestionável, “Bruna Surfistinha” acaba se revelando mais do que um mero exercício de marketing barato.

segunda-feira, março 14, 2011

Trabalho Interno, de Charles Fergunson ***1/2


Se em “Capitalismo: Uma História de Amor” (2009) Michael Moore mostrava um olhar atônito sobre a crise econômica mundial que eclodiu em 2008 e suas conseqüências na sociedade norte-americana, em “Trabalho Interno” (2010) as intenções são mais ambiciosas. Utilizando uma linguagem técnica para falar de conceitos econômicos, e que pode até soar hermética para não iniciados, o diretor Charles Fergunson busca explicitar com detalhes todas as causas que levaram os mercados financeiros de vários países ao colapso. O espectador é bombardeado com uma série de dados históricos, explicações e imagens repleta de siglas e números infindáveis. É provável que não se apreenda tais noções em sua totalidade, mas a dinâmica narrativa do documentário torna palatável essa quantidade imensa de informações, fazendo com que o filme não caia em um caráter meramente didático.

Assim como Moore, Fergunson dispõe de truques eficientes na composição humana de “Trabalho Interno”. Dessa forma, os depoimentos assépticos e de tom impessoal de alguns dos principais responsáveis pela quebradeira geral do sistema financeiro se contrapõem de forma chocante com o resultado social de tal episódio, assim como as entrevistas com teóricos renomados mostram como tal tragédia poderia ter sido evitada. É claro que ao abusar de tais expedientes, Fergunson cai em certos maniqueísmos, caracterizando sua temática pela divisão de pólos entre malvados e suas vítimas. Obviamente, muitas pessoas foram ludibriadas pelas regras econômicas e financeiras que provocaram a crise, mas tal crise também é fruto de todo um sistema de valores sociais, culturais e educacionais típicos de uma comunidade ocidental capitalista. Fergunson crítica os tubarões de Wall Street e da Casa Branca, mas não questiona o sistema que gera esse tipo de gente.

Apesar deste posicionamento ideológico discutível, “Trabalho Interno” não deixa de ser um feito considerável no gênero documental ao conseguir combinar de forma satisfatória um rebuscado trabalho formal de montagem e fotografia com um lado temático de conscientização de sua platéia.

sexta-feira, março 11, 2011

Terra Deu, Terra Come, de Rodrigo Siqueira ***


Os limites entre a realidade e o imaginário dentro do formato documental receberam abordagens diversas em obras como “Jogo de Cena” (2007) e “Dzi Croquetes” (2009). Em “Terra Deu, Terra Come” (2010), tais fronteiras voltam a serem exploradas com resultados por vezes desconcertantes. O diretor Rodrigo Siqueira faz um registro pouco convencional sobre o cotidiano e o imaginário de um pequeno vilarejo no sertão mineiro, centrando com destaque nas delirantes concepções sobre a morte dos nativos da região. A figura de Pedro de Alexina, algo entre o sábio e o delirante, serve como guia para Siqueira e o espectador tentarem compreender uma cultura aparentemente exótica para a ótica urbana, mas que na verdade também se revela como síntese das diversas influências religiosas que impregnam o Brasil. Apesar de documentarista, Siqueira se mostra insatisfeito em usar apenas fatos para ilustrar seu filme. Assim, parte para uma experiência estética em que a encenação por parte dos membros do vilarejo é um recurso explorado sem cerimônia para nos revelar um mundo em que a subjetividade do olhar é o elemento mais primordial. Fazer aquelas pessoas interpretarem a si mesmas e os seus costumes não é uma simples redução artificial, mas também um questionamento sobre a obrigação dos documentários apenas registrarem o real para atingirem seus objetivos de uma pretensa “verossimilhança”. No final das contas, a fidelidade de Siqueira não é com o verossímil, mas com as ricas impressões pessoais de seus “personagens” perante o mundo que os cerca.

quinta-feira, março 10, 2011

Um Lugar Qualquer, de Sofia Coppola ***


O fato de carregar um sobrenome tão emblemático para a história do cinema não passaria incólume para Sofia Coppola. Talvez pela influência paterna, em qualquer um de seus filmes pode-se perceber que ela sabe o que fazer com uma câmera. “Um Lugar Qualquer” (2010), entretanto, sugere que as influências da cineasta também se originam de outras fontes fundamentais, principalmente de Michelangelo Antonioni e Jim Jamursh. Do autor italiano, há aquele gosto por um intimismo existencialista que se configura em longos e silenciosos planos que buscam certo distanciamento emocional ao evidenciarem o vazio espiritual de seus personagens – com destaque, é claro, para o protagonista Johnny Marco (Stephen Dorff em atuação em que parece não estar interpretando, mas apenas sendo ele mesmo, o que acaba resultando em uma caracterização eficiente). De Jamursh, a pequena Coppola mimetiza o humor minimalista e árido extraído de situações ora dramáticas ora quase ridículas.

Apesar de todas estas refinadas referências, “Um Lugar Qualquer” acaba apresentando uma narrativa irregular ao buscar um excesso de sutileza e simbologia que no final das contas nem está em sintonia com a própria encenação elaborada por Sophia. Desde o início do filme está mais que evidente que Johnny Marco é um astro do cinema afogado em hedonismo fácil regado a álcool, sexo e luxo. Ao passar uns dias com sua filha Cleo (Elle Faning), percebe que sua vida carece de sentido mais substancial. É provável que o desejo de Sophia ao retratar Johnny de maneira letárgica em meio a sexo com beldades, stripteases exóticos, porres e ressacas intermináveis era buscar um proposital registro desapaixonado, o que faria com que o espectador visse os fatos pelo olhar entediado e sem perspectivas do protagonista. Esta frieza no filmar, todavia, acaba empalidecendo a própria ação do filme, tornando-o amorfo em alguns momentos.

Ainda que apresente tais problemas, é claro que “Um Lugar Qualquer” está muito longe de ser considerado um filme ruim. Apesar do excesso de planos estáticos, alguns deles apresentam enquadramentos que beiram o poético. E quando Cleo está em cena, a produção ganha uma vivacidade envolvente – as seqüências dela com Johnny fazendo brincadeiras pueris na piscina ou jogando videogame são particularmente memoráveis. Além disso, Sofia preserva o seu bom gosto na escolha e inserção de canções rock/pop em cenas marcantes. São tais virtudes que fazem com que “Um Lugar Qualquer” tenha um saldo geral decepcionante. Ficamos sempre com aquela impressão de que poderia ter sido muito melhor.

quarta-feira, março 09, 2011

Besouro Verde, de Michel Gondry ***1/2


Esta adaptação cinematográfica das aventuras do Besouro Verde tem origem um tanto bastarda. Afinal, trata-se de um personagem relativamente obscuro dentro do universo pop, tanto que é normal haver confusão em saber de que mídia afinal ele se originou – pelo que eu sei, as primeiras histórias do combatente esmeralda do crime apareceram num seriado televisivo dos anos 60. A partir daí, houve versões para outros meios, principalmente os quadrinhos. Assim, o fato de não se tratar de uma figura tão tradicional do imaginário popular possibilitou esta excêntrica diversão que representa “Besouro Verde” (2011). Para começar, o roteiro de Seth Rogen (que também interpreta o personagem-título) e Evan Goldberg, a mesma dupla que escreveu a trama do ótimo “Superbad” (2007), faz uma esperta síntese entre uma comicidade escrachada contemporânea e o tom camp do seriado televisivo sessentista. Essa linha temática encontra o complemento adequado na direção surreal de Michel Gondry. Céticos podem achar que o autoral cineasta francês tenha embarcado no projeto apenas pela grana, mas o resultado final do filme revela bastante dos maneirismos típicos de Gondry. A forma com que os efeitos especiais se integram na narrativa remete a um insano estilo cartunesco, o que fica ainda mais acentuado pela atmosfera sombria e violenta que permeia em algumas sequências (o que acaba causando um contraste desconcertante com o aludido bom humor da ótica de Rogen e Goldberg). As cenas de ação de “Besouro Verde”, em particular, representam um pequeno achado – confesso que não sou um admirador daquelas tomadas em câmera lenta estilo “comercial de sabonete” de Zack Snyder nos sofríveis “300” (2007) e “Watchmen” (2009), mas no filme de Gondry tais tomadas que beiram o estático ganham uma dimensão criativa muito mais intrigante, principalmente pela proximidade existencial com a estética dos quadrinhos que se torna muito mais orgânica.

quinta-feira, março 03, 2011

Léo & Bia, de Oswaldo Montenegro *


Em termos teóricos, pensar na concepção formal de “Léo & Bia” (2010) poderia gerar interesse em relação ao filme. Propondo-se como um exercício estético que investe nas conexões entre teatro e cinema, com direito a elementos de metalinguagem, a transposição para as telas da peça teatral de autoria do trovador Oswaldo Montenegro, também diretor do filme, acaba ficando muito aquém de suas intenções. A encenação da trama é marcada por excessiva empostação e pouca fluência narrativa, dando a impressão de puro teatro filmado. Talvez se a obra de dramaturgia que deu origem ao filme tivesse algum estofo dramático de peso poderia compensar os equívocos de sua transposição para o cinema, mas esse não é o caso aqui. As caracterizações dos personagens são bastante baseadas em estereótipos caricaturais e irritantes – eles não conseguem dialogar entre si com naturalidade, com suas falas caindo mais para os tons discursivos ou para citações engraçadinhas. A esquematização do roteiro é artificial demais, beirando um didatismo anacrônico na sua intenção de mostrar os conflitos da juventude no auge da ditadura militar brasileira, reinando uma incômoda atmosfera narcisista no retrato que Montenegro mostra de sua geração (ideia reforçada pela apresentação que Paloma Duarte faz no início da obra). Mas é aquela coisa: não sou grande apreciador das canções de Oswaldo Montenegro e nem vi a peça original nos anos 80. Assim, é provável que seus fãs desfrutem melhor da sua estreia como cineasta...

quarta-feira, março 02, 2011

Desconhecido, de Jaume Collet-Serra ***


A trama de “Desconhecido” (2011) é uma saudável miscelânea de referências de escapismo fantasioso que parecem vindas diretas de HQs e filmes B de espionagem, indo de amnésias improváveis até conspirações que beiram o inverossímel. O grande mérito do diretor Jaume Collet-Serra está em abraçar com convicção total essa série de elementos pouco críveis, oferecendo uma eficiente obra de ação e suspense. Na metade inicial de “Desconhecido”, Collet-Serra investe numa ambientação de tensão psicológica, evocando até uma leve atmosfera de delírio onde se duvida da própria sanidade do protagonista Martin Harris (Liam Neeson, cada vez mais assumindo o seu lado de herói durão). Ter como cenário uma cidade fria e sombria como Berlin contribui para o clima de mistério. Aos poucos, o roteiro adquire um tom mais direto de aventura, com direito a carros explodindo, tiros e muita porradaria. As revelações se tornam cada vez mais “quadrinhescas”, assim como a brutalidade em algumas cenas se acentua. Há uma seqüência em “Desconhecido”, entretanto, que revela uma sutileza inesperada no meio de tanta ação física que é aquela que traz o duelo por meio de diálogos dos personagens interpretados por Bruno Ganz e Frank Langella, dois veteranos peões de sujos jogos de poder que remetem à Guerra Fria, num extraordinário enfrentamento verbal recheado de subterfúgios e um elegante código de honra.

terça-feira, março 01, 2011

127 Horas, de Danny Boyle ***1/2


A cinematografia de Danny Boyle não é pautada por uma unidade temática, mas sim formal. Seus filmes são marcados por uma conjunção épica de imagem, som e fúria, abordagem essa que tanto pode se aplicar para uma saga de junkies em busca de drogas ou redenção (“Trainspotting”, 1996) quanto para um musical descabeladamente romântico derivado de Bollywood (“Quem Quer Ser Milionário”, 2008), ou até mesmo para um filme de zumbis (“Extermínio”, 2002). Em “127 Horas” (2010), o diretor aplica suas particulares concepções estéticas para o subgênero aventura de sobrevivência edificante e consegue preservar sua identidade autoral. Trabalhando quase que dentro do espaço limitado de um buraco e centrado na figura de um personagem, insere uma série de trucagens bem sacadas, indo da tela dividida até sutis variações de iluminação que ilustram os momentos delirantes e oníricos do protagonista, além de abusar de uma trilha musical apoteótica e frenética. O excesso de cortes pode até beirar o clipeiro, mas oferece um ritmo ágil à narrativa e condiz com o próprio espírito aventureiro Aron Ralston (James Franco em interpretação que oscila muito bem entre o sereno e o over). Os radicais provavelmente implicarão com o luminoso final feliz e os velhos fundamentos dos filmes baseados em fatos reais (com direito a letreiro dizendo como tudo acabou bem para todos), mas a verdade é que Boyle conseguiu envenenar com criatividade algumas gastas ortodoxias do cinema norte-americano.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

O Discurso do Rei, de Tom Hooper ***


É claro que há gente a reclamar de que “O Discurso do Rei” (2010) é por demais acadêmico e previsível no seu resultado final. Há de se convir, entretanto, que mesmo dentro de tais concepções convencionais o filme acaba se destacando pela sua elegância formal e temática. Muitas produções, geralmente, dentro do gênero em questão, acabam descambando para excessos melodramáticos ou narrativas arrastadas. “O Discurso do Rei”, ao contrário, apresenta fluência natural tanto pela edição de moldes clássicos quanto pela fotografia que valoriza o requinte dos ambientes aristocráticos e a ambiência sombria da Londres pré-Segunda Guerra. As duas horas de trama evoluem de uma forma que o espectador mal sente o tempo passar. E mesmo que o roteiro enverede pela fórmula de história que contem lição edificante de superação pessoal, é inegável a presença de um senso de humor fleumático tipicamente inglês que faz com que o filme não caia no sentimentalóide. Quanto ao tão decantado trio de atores dos personagens principais, é certo que os mesmos já entregaram interpretações mais sanguíneas e marcantes em outros trabalhos, mas suas atuações são eficientes e discretas o suficiente para estarem em serena sintonia artística com o espírito da obra.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

O Ritual, de Mikael Hafström *1/2


“O Ritual” (2010) é mais uma derivação, com poucas variações, do clássico “O Exorcista” (1973). Na verdade, isso não chega a ser um grande problema (afinal, mais de 90% dos filmes com temática sobre possessões demoníacas são decalques da obra-prima de William Friedkin). O que realmente incomoda nessa produção dirigida por Mikael Hafström é o fato da mesma não se decidir entre ser um drama a discutir os limites entre a fé e o charlatanismo ou partir definitivamente para o horror explícito com direito a todos os efeitos especiais e escatologias inerentes ao gênero. Em grande parte de sua duração, a narrativa se propõe como uma obra que transita de forma difusa entre o delírio e o sobrenatural. No terço final, entretanto, assume-se como mais uma história a mostrar um duelo entre o bem (padres) e o mal (o demônio). Só que Hafström não tem um décimo do talento de Friedkin em termos de ousadias formais, fazendo que “O Ritual” não convença como obra “séria” a versar sobre exorcismos e muito menos como exemplar digno do cinema fantástico (afinal, é incapaz de gerar algum susto decente para as platéias). Elementos como os cenários em Roma e a presença de alguns bons atores como Ciarán Hinds e Toby Jones, no final das contas, servem apenas como perfurmaria incapaz de sustentar o filme. Até mesmo Anthony Hopkins parece estar desdenhando de tudo, limitando-se a macaquear alguns trejeitos do velho e bom Hannibal Lecter. No final das contas, “O Ritual” parece ter vergonha de ser um filme de horror, inserindo elementos pretensamente baseados em fatos reais que poderiam lhe dar legitimidade, mas que acabam apenas por o tornar um filme sem personalidade.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Bravura Indômita, de Joel e Ethan Coen ***1/2


É estranho falar que um ótimo filme também pode ser decepcionante, mas é justamente o que ocorre em “Bravura Indômita” (2010). O problema é que os Irmãos Coen vinham de três obras-primas consecutivas: “Onde os Fracos Não Tem Vez” (2007), “Queime Depois de Ler” (2008) e “Um Homem Sério” (2009). Assim, a expectativa para o próximo trabalho era alta e daí um certo sentimento de frustração com a obra mais recente dos brothers. Mesmo assim, brotam com constância em “Bravura Indômita” pontos positivos que o colocam como uma produção acima da média, a começar por uma deslumbrante direção de fotografia que valoriza ao extremo as paisagens melancólicas e áridas do Velho Oeste, indo do registro limpo e luminoso das tomadas diurnas até algumas sequências de tons sombrios que beiram o mítico. O trabalho do elenco também reluz, principalmente pela caracterização carismática de Jeff Bridges e pela composição dramática obtida por Josh Brolin, uma insólita combinação de jequice e maldade.

Talvez a música original composta por Carter Burwell seja uma síntese da questão que faz com que “Bravura Indômita” não atinja aquele ponto de transcendência artística: bela e nostálgica, mas convencional em demasia, o que se estende para a própria narrativa do filme. E essa atmosfera do convencional é uma das coisas que menos se espera das concepções estéticas particulares dos Coen. Tal impressão se acentua mais na própria comparação que se faz com o “Bravura Indômita” realizado em 1969 por Henry Hathaway – este último soa menos sentimental e mais cru e impactante que a versão mais recente.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Tio Boonmee, Que Pode Recordas Suas Vidas Passadas, de Apichatpong Weerasethakul ***1/2


O que ouço ou leio sobre “Tio Boonmee, Que Pode Recordas Suas Vidas Passadas” (2010) me soa muito extremista. Se por um lado há aqueles que exaltam virtudes revolucionárias no filme (e que podem até assustar aos desavisados), por outro há aqueles que o deploram por um suposto hermetismo de sua narrativa que se afasta do modelo linear convencional (e que também assustam os tais desavisados). É claro que a obra mais recente do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul pode causar estranhamento àqueles habituados a um determinado tipo de produção mais digerível, mas não dá para dizer que chega ao nível do incompreensível. Trabalha-se com conceitos que cineastas como Alain Resnais e David Lynch já exploraram com eficácia, principalmente numa ambientação em que o real e o imaginário se fundem a um ponto em que não podemos distingui-los com precisão. No caso do filme em questão, noções de espiritualidade oriental, derivadas do budismo, integram-se nas concepções particulares de Weerasethakul, o que para um olhar ocidental pode aumentar a sensação de bizarrice. Fantasmas de familiares, macacos-humanos, peixes que falam, lendas, transitam com naturalidade entre os indivíduos “normais”, evocando uma simbologia serena. No final das contas, o filme trabalha com temas simples como a morte, a saudade, as lembranças, mas com um ritmo mais contemplativo e uma perspectiva cultural e valorativa diferenciada. A sequência final, uma sutil ruptura nos planos de realidade, é a síntese desconcertante do espírito temático/formal de “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Burlesque, de Steven Antin *1/2


Assistindo ao desenrolar de “Burlesque” (2010), pode-se fazer um filmezinho imaginário nas nossas cabeças sobre o que pode ter acontecido no processo de realização do filme. A primeira metade da produção faz supor que todos estavam se esforçando em entregar um produto no mínimo digno. A combinação de uma modernidade “estilo MTV” e referências retrô de musicais revelam certo cuidado estético nas coreografias de canto e dança, a real essência do filme – até porque a puerilidade do roteiro é algo definitivamente a não se levar a sério (e nem é um grande problema em si – afinal, Paul Verhoeven filmou uma história muito semelhante na obra-prima “Showgirls”). A metade final de “Burlesque”, contudo, parece evocar os respectivos estrelismos de suas protagonistas Cher e Christina Aguilera. Dá para imaginar elas gritando com o diretor Steven Antin: “Vamos parar com essa bobagem artística e mostrar para os nossos fãs o que eles realmente querem”. E daí tudo descamba para uma egotrip dupla. Os números musicais caem de vez para um formato banal de clips promocionais dos talentos vocais das mesmas. Pode ser que agrade aos apreciadores das meninas, mas quem está ali só pelo filme sai perdendo.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

O Nome Dela é Sabine, de Sandrine Bonnaire ***


A atriz e diretora francesa Sandrine Bonnaire realiza no documentário “O Nome Dela é Sabine” (2007) uma espécie de jornada sombria em relação ao próprio passado. Sua intenção é mostrar a trajetória de sua irmã autista Sabine, contrapondo imagens domésticas antigas com o retrato do cotidiano da sua irmã em uma instituição especializada. O contraste de tais registros é chocante e perturbador. Nas cenas de arquivos, vemos uma jovem vivaz e bastante loquaz, ainda que arredia. Ao fundo, a narração Bonnaire tem um tom nostálgico e melancólico, como que antevendo uma virada trágica na vida irmã. Após a morte do pai e a saída dos irmãos para formarem suas próprias famílias, Sabine é internada num sanatório onde recebe pesadíssimo tratamento por medicamentos. As filmagens mais atuais do documentário focam o resultado de tal tratamento, mostrando Sabine com a sua saúde mental e física bem abalada: 30 quilos a mais, com reflexos e velocidade de raciocínios bastante reduzidos, babando constantemente, é uma entristecida versão debilitada da pessoa que era. Mesmo com o seu forte envolvimento emocional com a biografada, Sandrine Bonnaire busca uma abordagem seca e sem muitas concessões ao sentimentalismo fácil. Por mais que evidencie a inépcia do tratamento que Sabine recebeu, a diretora também evoca certa culpa por uma possível omissão na situação da irmã. E é nesse ponto que justamente está a maior virtude de “O Nome Dela é Sabine” – um relato cru e visceral em que não sobra espaço para vilões ou vítimas, pois até mesmo Sabine não é reduzida a um estereótipo de “coitadismo”.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Claude Lévi-Strauss Por Ele Mesmo, de Annie Cheavallay e Pierre-André Boutang **




Tentar concentrar em um documentário de noventa minutos uma série de conceitos complexos, cujo processo de discussão e compreensão leva alguns anos de estudos em cursos de graduação (e até mesmo pós), é tarefa árdua. O risco de cair no meramente didático e no enfadonho é grande, podendo a obrar se tornar de interesse quase que apenas para iniciados. E é justamente o que acaba ocorrendo em “Claude Lévi-Strauss Por Ele Mesmo” (2008). Ouvir o biografado e seguidores teorizando sobre princípios de antropologia e etnologia não é dos exercícios mais palatáveis para neófitos, o que acaba tornando o filme massante em alguns momentos (até porque nessas seqüências a câmera é estática e apenas registra pessoas falando). O que torna essa produção francesa uma curiosidade para diletantes ou apreciadores de cinema em geral são imagens de arquivos e depoimentos que fogem do acadêmico, com Lévi-Strauss contando detalhes interessantes da sua vida e bibliografia, com destaque para a origem de seu livro mais notório, “Tristes Trópicos”, além dos relatos das passagens marcantes do antropólogo pelo Brasil. Afinal, são elementos históricos que ajudam a compreender até mesmo a evolução da cultura ocidental, pelo menos, nos últimos cem anos.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

De Volta à Normandia, de Nicolas Philibert ***1/2


“Eu, Pierre Rivière, Que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão” é uma produção francesa de 1976 dirigida por René Allio que encenava um caso real de homicídio ocorrido em 1835 em um vilarejo do interior da França, e que havia sido base para um célebre livro de Michel Foucalt. Nas filmagens, o cineasta usou moradores dos arredores da região do crime como atores nos papéis principais. Nicolas Philibert, que havia sido assistente de direção de Allio no referido filme, propõe no documentário “De Volta à Normandia” (2007) uma narrativa que se estende por planos diversos: imagens de arquivo das filmagens de “Eu, Pierre Rivière....”, trechos do filme em questão, descrição dos fatos reais relativos ao crime, depoimentos atuais dos moradores que participaram da produção e registros dos cotidianos dos mesmos. Assim, é oferecido um intrigante mosaico, com Philibert estabelecendo relações entre os planos narrativos. Há uma permanente aura de mistério que se origina da confrontação dessas histórias paralelas. O rapaz que viveu Pierre Rivière nas telas, por exemplo, tinha pontos em comum com o “personagem”: taciturno, curioso, de poucos amigos e palavras, parecendo emular uma possessão. Já as dificuldades para suprir as lacunas do caso Pierre Rivière apresentam uma perturbadora sintonia com os percalços de Allio para ele levar a sua obra até o fim que desejava. A rotina quieta e rústica da região focalizada sugere um universo atemporal e também com algo de opressivo, quase funcionando como um agente da tragédia que ali ocorreu. A abordagem de Philibert chega perto do investigativo, mas o resultado é pouco conclusivo. Boa parte do fascínio de “De Volta à Normandia” está justamente nessa ausência de respostas, sugerindo-se que na vida a dúvida é a verdadeira regra.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Cisne Negro, de Darren Aronofsky ***1/2


Tentar fazer uma leitura do subtexto de “Cisne Negro” (2010) chega a ser quase redundante, pois o filme vive se auto-explicando: para atingir seus objetivos artísticos e pessoais como bailarina, a protagonista Nina (Natalie Portman) deve deixar aflorar o seu lado negro. O forte do diretor Darren Aronofsky nessa sua obra mais recente certamente não é a sutileza. E por falar nesse último requisito, talvez esteja aí o real grande conflito criativo do filme – sente-se uma grande propensão para o grotesco e o exagerado típicos de uma produção de horror, mas sem querer deixar de abrir mão de uma certa sofisticação de uma abordagem psicológica mais acurada. Quando o filme começa a partir para o explícito, quase que beirando o apelativo em termos de suspense e erótico, Aronofsky dá uma freada em busca da “densidade” artística. A indecisão do cineasta acaba truncando a narrativa de “Cisne Negro”. Mesmo assim, a produção se revela acima da média, principalmente pela sua perturbadora atmosfera sombria e pelo estilo insólito de Aronofsky em focalizar os ensaios e apresentações de balé (com destaque para a sequência de abertura, um legítimo e literal balé travestido de pesadelo). Alguns dos momentos de delírio de Nina trazem uma caracterização visual que impressiona pela beleza de sua violência e sordidez gráficas, além de revelar originalidade na manipulação das trucagens. Tais virtudes fazem o saldo final de “Cisne Negro” mais que positivo, ainda que se sinta um certo grau de decepção pelo fato de não estar no mesmo nível de “O Lutador” (2008), o brilhante penúltimo filme de Aronofsky.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

O Vencedor, de David O. Russell ****


No cinema, a questão fundamental não é a história que se conta, mas sim a forma com que essa história é contada. Lembro tal assertiva porque desavisados podem ler a sinopse de “O Vencedor” (2010) e torcer o nariz logo de cara. Resumindo seria algo como uma trama tendo um boxeador como personagem principal e sua trajetória de luta e superação pessoal, além de toques de dramas familiares. A primeira coisa que vem à cabeça é “Rocky – Um Lutador” (1976) e suas continuações e derivados. O que conquista o espectador em “O Vencedor”, entretanto, não é apenas a força emocional da sua trama, mas principalmente a encenação vigorosa oferecida pelo diretor David O. Russell. Logo na sequência inicial isso fica evidente, nas tomadas dos irmãos Dick (Christian Bale) e Mick (Mark Wahlberg) percorrendo as ruas de seu bairro, em um primoroso trabalho de fotografia e edição.

O fato do roteiro de “O Vencedor” se basear em uma história real faz com que Russell busque uma aproximação com um registro que beira o documental em vários momentos, emulando cenas “reais” captadas da televisão, com as imagens assumindo um granulado de tons nostálgicos, o que fica evidente em boa parte das tomadas das lutas. A dinâmica da narrativa estabelece uma relação com o próprio estilo ágil e elegante de luta dos irmãos boxeadores que protagonizam o filme. Além disso, a caracterização tanto de personagens quanto de situações se direciona para o contundente naturalismo, mas sem nunca abandonar o senso épico na sua concepção, remetendo a uma clássica e rica tradição do cinema norte-americano de obras como “Vinhas da Ira” (1940), “Sindicato dos Ladrões” (1954), “Bonnie & Clyde” (1967), “O Poderoso Chefão” (1972) e “Amantes” (2008).

Parte essencial nessa abordagem de Russell para a sua obra se encontra no seu elenco. Muito se comenta a verdadeira possessão de Bale em cena, mas ele encontra o contraponto perfeito nos maneirismos discretos de Wahlberg e nas expressões endurecidas e algo vulgares de Amy Adams e Melissa Leo.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley ***


Em uma certa altura de “Lixo Extraordinário” (2010), um dos catadores focados no documentário conta que uma vez encontrou no meio do lixo um exemplar de “O Príncipe” de Maquiavel e que a leitura de tal livro o influenciou como líder da cooperativa de catadores do qual faz parte. A inclusão desse depoimento pode ter sido meramente aleatória, mas acaba soando como uma certa metáfora da própria realização do filme. Se o artista plástico Vik Muniz, o protagonista de “Lixo Extraordinário”, tem como matéria prima de sua arte objetos e produtos descartados pela sociedade de consumo, no projeto focado no documentário a sua experiência estética se estende para um campo maior – além dos dejetos referidos, ele avança não só para o campo do cinema, mas também na manipulação do destino de um grupo de catadores. Nesse sentido, sua visão é maquiavélica, inserindo as sofridas histórias pessoais de cada um daqueles indivíduos dentro do próprio contexto das pinturas/fotografias que resultam do projeto. Joga ainda com uma série de clichês sentimentais típicos desse tipo de documentário, buscando também a emoção fácil para a sua platéia. Aparentemente, tais intenções artísticas de Muniz podem soar apelativas, mas há um certo sentido irônico e perverso nas concepções do artista, como se ele quisesse expor os mecanismos hipócritas das concepções da sociedade, ditas politicamente corretas, sobre temas como ecologia e miséria. “Lixo Extraordinário”, entretanto, não se resume a um discurso sociológico. As tomadas do aterro do Jardim Camacho, por exemplo, impressionam não só pelo visual chocante de uma infinidade de detritos concentrados num mesmo local e disputados avidamente por um verdadeiro formigueiro humano, mas também pela dimensão épica oferecida pela direção de fotografia. O processo de elaboração dos quadros de Muniz e seus colaboradores é registrado com detalhismo, estabelecendo estreita relação entre o fazer artístico de Muniz e o cinematográfico. Cabe destaque ainda à trilha sonora de Moby, em bela combinação de temas de inspiração roqueira, eletrônica e ambiental.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Santuário, de Alister Grierson ***


No meio desta atual onda de produções que utilizam o 3D, “Santuário” (2010) acaba se destacando por trazer nos seus créditos como produtor uma das autoridades do assunto, James Cameron. O acesso à boa parte da infra-estrutura que possibilitou a realização do festejado “Avatar” (2009) faz com que o filme em questão acabe se destacando no meio de outras produções que usam a mesma tecnologia, principalmente na utilização que faz do 3D nos cenários naturais de sombrios lagos e grutas. Em algumas sequências, os efeitos tridimensionais acentuam a sensação de claustrofobia e tensão da trama de exploradores que ficam aprisionados em uma gigantesca e inexpugnável caverna. O filme também surpreende pelo nível de crueza da violência e mortes em determinadas cenas, com direito a afogamentos detalhados pela expressão angustiante do rosto das vítimas e sangue em profusão. Ou seja, um roteiro podreira de filme B com os recursos de produção classe A. Se pensarmos que Cameron começou a carreira trabalhando com Roger Corman na primeira versão de "Piranhas", as coisas até que fazem sentido....

No geral, apesar da sofisticação de seus efeitos visuais, “Santuário” está longe de ser um marco no cinema, mas é bastante competente dentro do gênero “filme catástrofe”.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Caça às Bruxas, de Dominic Sena **1/2


Apesar do permanente ar canastrão de Nicolas Cage e da direção de arte preguiçosa, “Caça às Bruxas” (2010) consegue se elevar um pouco acima da média dentro do gênero aventuras medievais. As cenas de ação não economizam na sanguinolência e a caracterização suja de miséria e doença mostra uma preocupação em não se soar tão asséptico naquele tradicional padrão de produções holywoodianas. É interessante também observar que em boa parte da trama prevalece uma atmosfera ambígua, deixando o espectador em constante dúvida se está diante de uma narrativa fantasiosa, que evoca o sobrenatural, ou se esse lado místico é fruto do obscurantismo dos dogmas religiosos da época. É justamente nesse aspecto dúbio que se concentra a fonte da tensão de “Caça às Bruxas”. No terço final do filme, entretanto, isso se dissolve na resolução mecânica do roteiro – a trama fica resumida no velho embate entre o bem e o mal, além da encenação se tornar bem menos inspirada e incapaz de gerar a sensação de medo que uma obra de horror exige.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Inverno da Alma, de Debra Granik ***1/2


A meia hora inicial de “Inverno da Alma” (2010) parece obedecer a uma certa fórmula de produções independentes norte-americanas estilo Sundance: estilo realista/naturalista, narrativa lenta, fotografia de tons que beiram o documental, roteiro que alude questões sociais. Com o desenrolar da trama, entretanto, o filme vai adquirindo contornos mais interessantes até se converter em um assustador conto gótico. A produção traz uma abordagem desconcertante ao revelar um olhar que transita entre o real e a impressão do imaginário. Os nativos do interior do Missouri são retratados de forma quase mítica, apresentados como seres impenetráveis de poucas palavras e modos rudes. Trazem parentesco com aqueles caipiras dementes e violentos do clássico “Amargo Pesadelo” (1972). Em sua composição visual, o filme troca, progressiva e sutilmente, o registro seco das regiões montanhosas onde se desenrola a história do filme e adota um estilo de direção de fotografia que cria atmosferas sombrias típicas do gênero horror. Nesse sentido, é antológica a seqüência em que a protagonista Ree (Jennifer Lawrence), ao lado de senhoras que evocam figuras de feiticeiras, faz uma busca noturna pelo corpo do seu pai em um asqueroso pântano. Para sublinhar essa ambientação dúbia e atemporal, uma trilha sonora repleta de primitivos temas de inspiração blues e folk.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Scott Pilgrim Contra o Mundo, de Edgar Wright ****


A HQ na qual “Scott Pilgrim Contra o Mundo” (2010) é baseado já se apresenta como uma obra à parte. Incorporando influências de mangás na sua concepção visual e fazendo uma série de referências à cultura pop contemporânea (música, games, comportamento), o gibi do artista canadense Bryan Lee O’Malley faz um retrato irônico e apaixonado de boa parte da juventude ocidental do novo milênio. A versão cinematográfica dirigida pelo britânico Edgar Wright consegue passar com perfeição esse caleidoscópio de ideias e estilos para as telas, mas também busca uma linguagem própria e original como cinema. A seqüência inicial, logo de cara, já deixa evidente tais intenções: a banda Sex-o-Bomb (na qual Scott é baixista) está ensaiando num quartinho furreca, e de repente, quando a música irrompe, aquele mesmo espaço se projeta de forma irreal, ganhando uma dimensão de um grande palco de show. A própria música ganha uma representação visual, com raios e diversos grafismos saindo dos instrumentos. Em “Scott Pilgrim”, tempo e espaço têm uma noção própria de desdobramento. Há cortes sensacionais na edição – de repente Scott está num ambiente e na variação de um close ele já está em outro local. Truques como esse não se configuram apenas como demonstração de virtuosismo técnico, mas também complementam a própria essência da trama. Os efeitos especiais tirados do universo dos games refletem a forma de Scott e os demais personagens verem o mundo: veloz, confuso, imaturo, quase sem pausa para reflexões. Um dos grandes méritos de Wright é combinar essa gama de estéticas diversas e fazer com que o filme não tenha uma narrativa picotada ou com cara de vídeo clip. A ação em “Scott Pilgrim” é majestosa na sua encenação: coreografias de artes marciais elaboradas de forma épica, trucagens de um encanto visual extraordinário, diálogos altamente espirituosos.

O que escrevo aqui, entretanto, é uma espécie de impressões resumidas de uma produção tão repletas de nuances quanto “Scott Pilgrim Contra o Mundo”. O filme é composto ainda de outros detalhes que podem conquistar o espectador por diferentes motivos: a trilha sonora repleta de marcantes temas compostos por Beck, o elenco carismático, as homenagens/citações culturais (a começar pelos personagens Stephen Stills e “Jovem” Neil, claras referências aos fundadores do Buffalo Springfield). “Scott Pilgrim” também confirma Edgar Wright, o mesmo dos igualmente brilhantes “Todo Mundo Quase Morto” (2004) e “Hot Fuzz – Chumbo Grosso” (2007), como o grande nome do cinema britânico a ter surgido nos últimos dez anos.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, de Paulo Halm **1/2


O passado como roteirista de Paulo Halm se evidencia na sua estreia na direção em “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos” (2009). O enfoque está bem mais concentrado no texto e nos diálogos do que na sua encenação. Assim, nem todas as soluções formais encontradas são as mais adequadas, com o filme em alguns momentos caindo para uma espécie de teatro filmado ou mesmo em truques típicos de produções televisivas. Apesar disso, há acertos em algumas saídas estéticas de Halm. A forma com que explora a ação dentro do espaço do apartamento do protagonista Zeca (Caio Blat) é criativa em determinadas tomadas, em seqüências que variam entre a tensão paranóica e o onírico. As cenas de sexo apresentam um traço mais visceral que não é tão frequente no cinema nacional. É inegável também que o roteiro explora com consideráveis profundidade e ironia as angústias existenciais de uma certa parcela de jovens trintões de classe média. Mesmo com Halm não sendo condescendente com o seu “herói” (ou talvez devido a isso), cria-se simpatia e identificação com Zeca pela sua capacidade de meter os pés pelas mãos na sua vida sentimental. A atuação intensa de Blat colabora bastante no sentido de tornar o personagem, assim como as confusões amorosas em que se envolve, críveis para espectador.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

O Turista, de Florian Henckel Von Donnersmarck **


Confesso que não sou daqueles fãs ardorosos de “A Vida dos Outros” (2006), a aclamada estreia do diretor alemão Florian Henckel Von Donnersmarck. Considero tal produção um competente suspense, mas sem maiores arroubos criativos, com um roteiro que beira o pueril e que se leva excessivamente a sério. No seu debut em Hollywood, Donnersmarck procurou repetir as suas fórmulas narrativas, mas o resultado ficou longe do satisfatório. “O Turista” (2010) padece de indecisões artísticas que acabam atravancando a sua fluência. O ponto chave dos seus problemas é que o filme, pela sua trama, exigia um direcionamento mais propenso para a ação. Ocorre que Donnersmarck se mostra quase constrangido em se contentar a realizar uma obra de aventura. Perseguições, lutas e tiroteios são encenados com pouca convicção e nuances, enquanto os momentos românticos e de suposta maior tensão psicológica apresentam uma consistência dramática oscilante. Donnersmarck parece ter desejado fazer uma obra “séria” e “artística” dentro de um formato ao qual não cabia tal abordagem. No final da contas, “O Turista” acaba se resumindo numa produção estilo cartão postal (o prefeito de Veneza deve ter gostado deste perfil de propaganda) e um festival de caras e bocas de Angelina Jolie e Johnny Depp.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Minhas Mães e Meu Pai, de Lisa Cholodenko **1/2


Algumas qualidades saltam aos olhos em “Minhas Mães e Meu Pai” (2010) – a boa mão da diretora Lisa Cholodenko para a ação cinematográfica em algumas tomadas (principalmente na seqüência dos garotos andando de bicicleta na abertura do filme e nas cenas de sexo), a excelente atuação de Mark Ruffalo (sempre no feeling certo para interpretar tipos pouco glamourosos), a bela trilha sonora cancioneira indie e de clássicos temas de Joni Mitchel e David Bowie. Tais virtudes, entretanto, são insuficientes para segurar o interesse do filme, principalmente por uma certa formatação excessivamente convencional, que faz lembrar aquelas emboloradas produções setentistas sentimentais na linha acre-doce. Cholodenko parece também fazer questão de lembrar ao espectador de que está assistindo a uma típica obra independente, abusando de uma estética que beira o amador (o que são aqueles microfones de captação de som que aparecem constantemente na tela??). Incomoda ainda a composição dramática de alguns personagens, com destaque para o desempenho caricatural de Annette Bening, além do fato da temática homossexual receber uma abordagem um tanto confusa, sectarista e simplória pelo seu maniqueísmo – no filme, heterossexuais têm tendências naturais para serem brutais ou simplesmente inconsequentes.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Zé Colméia, de Eric Brevig *1/2


Não dá para dizer que “Zé Colméia” (2010) seja propriamente uma decepção, até porque o que se vinha falando sobre a sua produção e o próprio trailer já indicavam que o futuro não era muito promissor. Mesmo assim, há um certo gosto de frustração pelo fato de que a grana envolvida no filme justificaria uma obra bem menos capenga. O grande problema não é o fato de “Zé Colméia” ser uma bobagem pueril, mas sim o fato de ser uma bobagem pueril realizada de forma tão pouca inspirada. Paira sobre o filme uma indecisão criativa entre enveredar por um tom de besteirol ou permanecer na seara do gênero infantil, o que acaba resultando em algo despersonalizado e insípido. Mesmo o grande atrativo que seria a interação entre a animação digital e live action acaba soando pouco convincente, sendo que obras mais antigas (e sem os mesmos recursos tecnológicos de hoje) já haviam conseguido parecerem muito mais orgânicas nessa combinação, como “Uma Cilada Para Roger Rabbit” (1988) e “Looney Tunes – De Volta à Ação” (2003).

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Sentimento de Culpa, de Nicole Holofcener ***


A diretora Nicole Holofcener se iniciou no meio cinematográfico trabalhando em filmes de Woody Allen como assistente de produção e edição. Pela sua filmografia, pode-se observar que essa convivência deixou marcas no modus operandi da diretora. “Sentimento de Culpa” (2009) é reflexo de tal influência, com o filme tendo aquele aspecto de crônica de costumes que o cineasta novaiorquino tanto preza. Mesmo não tendo o mesmo apuro formal e a perspicácia irônica de Allen, e com uma quedinha por um certo sentimentalismo excessivo, Holofcener consegue obter sequências memoráveis em se tratando de mordacidade para retratar as relações e sentimentos humanos. Além disso, sabe valorizar as nuances dramáticas apresentadas pelo seu bom elenco, com destaque para Rebecca Hall e Oliver Platt. Ou seja, naquele período de espera de um ano em que se aguarda por uma produção de Allen, “Sentimento de Culpa” pode ser visto como uma espécie de aperitivo.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Biutiful, de Alejandro González Iñárritu ***


Depois de explorar a exaustão em seus filmes a fórmula de histórias paralelas aparentemente aleatórias que se entrecruzam na conclusão de suas tramas, o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu opta em “Biutiful” (2010) por uma narrativa mais simplificada, tanto que há um protagonista bem definido, o picareta sensitivo Uxbal (Javier Barden), ainda que vários personagens e situações transitem ao seu redor. O filme se apresenta como um drama ora social ora intimista, com toques fantásticos, advindos do fato de Uxbal poder ver os mortos. E são os momentos irreais que reservam as melhores surpresas desta produção espanhola, com Iñárritu obtendo um efeito perturbador por trazer um registro bastante cru de fantasmas que assolam as visões de Uxbal. O insólito em “Biutiful” está justamente na contraposição que se faz desse aspecto metafísico com a dura realidade do personagem principal que envolve dificuldades financeiras, relação conturbada com ex-mulher, tensões com imigrantes ilegais e, para finalizar o rosário de desgraças, a descoberta que está com os dias contados devido a um câncer recém-diagnosticado. Na abordagem do cineasta, não há uma grande diferenciação entre esses planos de realidade (o físico e do além), estabelecendo-se uma relação intrínseca entre eles (o que faz com que “Biutiful” esteja longe da seara do gênero horror – a tensão pelo sobrenatural vem mais dos tormentos existenciais de Uxbal do que pela presença das assombrações).

Ainda que não traga o vigor narrativo e estético de “Amores Brutos” (2000), a obra de estreia de Iñárritu, “Biutiful” mostra o diretor buscando diferentes concepções formais, o que é bem vindo depois da estagnação criativa de “Babel”(2006).

quarta-feira, janeiro 26, 2011

A Morte e Vida e Morte de Charlie, de Burr Steers **1/2


Este é tipo de filme que muito espectador descartaria logo de cara e com dois motivos consideráveis: o protagonista é interpretado por um insípido ídolo juvenil e a temática espírita do roteiro (afinal, como não ficar traumatizado depois de “Chico Xavier” e “Nosso Lar”?). Driblando esses contratempos, entretanto, “A Morte e Vida de Charlie” (2010) apresenta qualidades insuspeitas. O diretor Burr Steers apresenta certa ambição artística em alguns de seus planos, com direito, inclusive, a bem tramados planos-sequência e épicas tomadas aéreas. O fato de boa parte da trama se desenvolver no ambiente de um cemitério dá margens a uma direção de fotografia que impressiona numa caracterização visual que apresenta traços irreais ou oníricos. As sequências que se desenvolvem no ambiente aquático, tanto em regatas quanto em tempestades marítimas, também demonstram domínio de Steers na ação cinematográfica. O excessivo ranço sentimental e os pueris momentos românticos atravancam a narrativa, mas no saldo final “A Morte e Vida de Charlie” faz com que Steers seja um nome a se conferir trabalhos vindouros.

terça-feira, janeiro 25, 2011

As Viagens de Gulliver, de Rob Letterman *1/2


A ideia inicial desta versão cinematográfica mais recente de “As Viagens de Gulliver” (2010) até que parecia promissora: adaptar o clássico literário juvenil para um contexto contemporâneo e tendo o irreverente Jack Black no papel-título. O resultado prático, entretanto, é desastroso. Como aventura, o filme é mal desenvolvido, incapaz de gerar tensão no sentido de que várias situações da trama são apresentadas quase como um resumo (a impressão que se tem é de uma obra que perdeu cenas importantes no corte). O que poderia salvar a produção seriam os efeitos especiais, na combinação do live action com as trucagens de digitalização, mas a concepção visual dessa interação é tosca, pouco convincente mesmo. Se fossem utilizados maquetes ou stop motion, pelo menos o visual poderia ser bonito... No mais, há aquela sensação constante de um filme realizado a toque de caixa, o que fica evidenciado no próprio roteiro, recheado de momentos que eram para serem satíricos, mas apenas conseguem mesmo é serem constrangedores pela falta de graça, com direito, inclusive, a coreografias vagabundas de fazer inveja a programa infantil brasileiro. O próprio Jack Black soa burocrático nas suas piadas cheias de referências à cultura pop (culpa do Nick Hornby que institucionalizou que é cool fazer esse tipo de citações).

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Enrolados, de Nathan Greno e Byron Howard ***1/2


De certa forma, pode-se dizer que “Enrolados” (2010) obedece a uma fórmula, em que se combina um conto de fadas clássico e uma abordagem contemporânea de filmes de ação (não é à toa, por exemplo, em que uma determina sequência se faça uma evocação a uma cena antológica do “Missão Impossível” de Brian De Palma). Essa aparente junção insólita de gêneros, entretanto, acaba se mostrando orgânica no seu resultado final. A animação mais recente da Disney empolga quando deixa a aventura desenfreada predominar, em momentos que nos fazem lembrar o melhor da franquia de Indiana Jones e até mesmo algumas histórias do quadrinhista Carl Barks para o Tio Patinha e o restante da Família Pato. A se destacar ainda o velho padrão de excelência dos Estúdios Disney na qualidade do traço do desenho, com destaque absoluto para a caracterização visual do vale e do torre onde vive a protagonista Rapunzel, trabalho esse tão detalhista que remete a uma verdadeira pintura. No mais, o roteiro é bem trabalhado em termos de delineamento das situações e dos carismáticos personagens, a começar pelo salteador Flynn Rider (uma bela homenagem a várias das figuras de aventureiros vividas pelo mítico Errol Flynn), a sensual vilã Gothel (no tradicional estilo de maléfica que combina repulsa e atração) e a própria Rapunzel, que transita com desenvoltura entre a inocência delicada e a sagacidade.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Desenrola, de Rosane Svartman **1/2


Quando fez um retrato autobiográfico de sua adolescência em “Os Incompreendidos” (1959), François Truffaut expôs sentimentos e situações que são recorrentes a todos os jovens que se encontram nessa fase da vida, independente de época, raça e classe social: imaturidade, revolta, incoerência, confusão. Talvez aí esteja a explicação da perenidade artística do longa de estreia do diretor francês. E também é provável que esse seja o ponto de desequilíbrio de “Desenrola” (2011). O que era para ser uma despretensiosa comédia dramática de ambientação juvenil acaba patinando por querer ser um retrato fiel de um certo tipo de juventude: contemporâneos adolescentes classe média no Rio de Janeiro. E daí dá-lhe depoimentos “espontâneos” de meninas sobre virgindade e cenas da garotada com a cabeça enfiada nos computadores. Essa necessidade de excessiva contextualização de época é algo que torna o filme já datado no momento imediato de seu lançamento. O filme só goza de alguma naturalidade quando parte sem cerimônia para o clima pueril de “boys meet girls”, chegando a lembrar em algumas seqüências alguns dos clássicos oitentistas do gênero dirigidos/produzidos pelo saudoso John Hughes como “Gatinhas e Gatões” (1984) e “A Garota de Rosa-Shocking” (1986) – aliás, referências aos anos 80 pontuam todo o filme. Pena que as boas sacadas de “Desenrola” acabam obscurecidas pelas necessidades antropológicas da produção.

P.S.: sabemos que hoje em dia para se realizar um filme no Brasil é preciso o apoio de patrocinadores, mas precisava fazer umas propagandas tão descaradas de curso de inglês e refrigerante??

quinta-feira, janeiro 20, 2011

O Louco Amor de Yves Saint Lauren, de Pierre Thoretton ***


A minha expectativa para este documentário francês era considerável. E neste sentido, é impossível não valorizar o trabalho de um bom trailer, pois o do filme em questão é mais do que eficiente em atrair o espectador a assistir ao mesmo, valorizando muito, em uma ágil edição, os bastidores dos desfiles e o relacionamento do cinebiografado com o mundo ao seu redor. Ocorre que “O Louco Amor de Yves Saint Lauren” (2010) traz um enfoque mais intimista, privilegiando a visão da vida de Saint Lauren pelo olhar de seu viúvo Pierre Bergé, além de dar uma excessiva atenção à gigantesca coleção de objetos de arte do casal, em longos e contemplativos planos de tal material. Por maior que seja a importância dos mencionados objetos, fazer deles quase que um personagem a parte torna a narrativa do documentário mais arrastada do que o necessário, fazendo com que se deixe de mostrar detalhes que seriam mais relevantes. Incomoda também que a perspectiva de Bergé sobre o amado traz um certo ranço conservador e moralista, tanto sobre o caráter hedonista de Saint Lauren como ao explorar o surrado dilema “como um artista tão talentoso podia ser tão atormentado pessoalmente”. Mesmo com essas restrições, entretanto, “O Louco Amor de Yves Saint Lauren” é um documentário indispensável para se assistir pelo fato de retratar a trajetória de um indivíduo fundamental para se entender a história da cultura ocidental nas últimas décadas, tanto que a produção mostra Saint Lauren inserido em movimentos marcantes como o Maio de 68 e a dionisíaca cena musical e comportamental das discotecas nos anos 70.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

O Mágico, de Sylvain Chomet ****


Em um primeiro momento, a animação “O Mágico” (2010) soa obviamente como uma homenagem a Jacques Tati. Não só por encenar um roteiro inédito do comediante francês, mas também por recriar com atilado lirismo boa parte do universo “tatiano”. A começar pelo personagem-título, que reproduz com perfeição os trejeitos e esquisitices do Senhor Hulot (a mais famosa criatura concebida por Tati). Mimetiza-se também vários dos recursos estéticos de obras-primas como “As Férias do Sr. Hulot” (1953) e “Meu Tio” (1958), apostando-se no humor quase que puramente visual e na inexistência de diálogos. É interessante notar também que no roteiro há um certo teor sentimental e melancólico que evoca alguns clássicos de Charlie Chaplin como “O Garoto” (1921) e “Luzes da Cidade” (1931). O diretor Sylvain Chomet, entretanto, não abdica de aplicar seu toque pessoal em “O Mágico”, o que se evidencia na beleza do traço da produção, que varia sutilmente entre um realismo pleno de detalhes na composição de cenas e pequenos toques que beiram o impressionismo pictórico. Mais do que apenas reciclar os cânones da filmografia de Tati, “O Mágico” explora com eficácia as possibilidades criativas que o cinema mudo oferece em termos de narrativa. Por mais que haja um caráter nostálgico no filme, o seu resultado final é absolutamente atemporal.

terça-feira, janeiro 18, 2011

O Primeiro Que Disse, de Ferzan Ozpetek **


O diretor Ferzan Ozpetek, turco radicado na Itália, já havia abordado a questão do homossexualismo com mais contundência em “Um Amor Quase Perfeito” (2001). Em “O Primeiro Que Disse” (2010), sua encenação carece de personalidade e foco. O cineasta fica indeciso entre uma visão dramática e séria sobre os conflitos de seus personagens e o caráter anedótico e estereotipado de alguns momentos (o que fica bem evidente quanto entram em cena os amigos gays do protagonista Tommaso). Tal confusão se estende também nas próprias escolhas formais da narrativa da produção, principalmente quando se estabelece uma estética típica do realismo fantástico que parece não se encaixar com o estilo naturalista com que Ozpetek conduz o filme em boa parte da sua duração. O diretor até consegue fazer prevalecer em algumas sequências uma certa elegância no filmar, principalmente quando passado e presente se fundem com sutileza. No restante de “O Primeiro Que Disse”, entretanto, predomina a mão pesada e a falta de rumo de Ozpetek. O equivocado final em aberto é reflexo claro disso.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Além da Vida, de Clint Eastwood ***


Minha bronca com “Chico Xavier” e “Nosso Lar”, produções brasileiras de temática espírita, não eram com a “mensagem” em si, mas com as escolhas formais equivocadas de seus realizadores. Em “Além da Vida” (2010), Clint Eastwood prova que pode se extrair algo de interessante dessa temática. O diretor não está preocupado com doutrinações e afins, utilizando elementos da cultura espírita mais como pano de fundo para uma trama de teor fantástico. Logo na abertura, o filme impressiona com a recriação do episódio do Tsunami, em cenas marcantes de destruição e morte (apesar dos efeitos digitais serem um pouco toscos em alguns momentos). Depois, Eastwood recorre a um recurso até meio manjado de três tramas que se desenvolvem em paralelo até se entrecruzarem, todas tendo como elemento comum experiências com o pós-morte. Mesmo marcado por um certo convencionalismo estético excessivo, o diretor consegue envolver com sua narrativa de ritmo sereno. Assim, apesar desta obra menor e distante da perfeição de obras-primas como “Os Imperdoáveis” (1992) e “Sobre Meninos e Lobos” (2003), Eastwood se mostra ainda acima da média da maioria de seus pares norte-americanos.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Abutres, de Pablo Trapero ***


A exemplo de outros filmes recentes no cenário argentino, “Abutres” (2010) procura equacionar uma temática social dentro de um gênero tradicional como o policial. Desta forma, há uma certa queda do cineasta Pablo Trapero pelo registro naturalista, quase documental, em algumas tomadas do filme. Em outros momentos, há um lado intimista em “Abutres” que é bastante explorado, enfatizando-se os conflitos e dilemas existenciais/amorosos dos protagonistas Sosa (Ricardo Darin) e Luján (Margina Gusman). Essa diversidade nos tratamentos estéticos e temáticos no filme é que lhe dão um aspecto despersonalizado, com a impressão de Trapero atirando para todos os lados. “Abutres” realmente engrena na sua metade final, quando o foco passa a ser primordialmente a de uma trama policial. A produção afunda o pé na jaca em termos de violência, ação e ambientação sórdida, como todo bom exemplar do gênero. Trapero estabelece com competência um clima de permanente tensão e desespero, além de coreografar de forma marcante cenas envolvendo colisões, atropelamentos, tiroteios e espancamentos, conseguindo fazer de Darin um legítimo anti-herói carismático e azarado, que não consegue passar 15 minutos sem ser arrebentado por alguém (como manda a boa tradição dos personagens principais de películas noir).

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Entrando Numa Fria Ainda Maior Com a Família, de Paul Weitz **1/2


A explicação do bode de boa parte de crítica e público com “Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família” (2010) pode ser encontrada em alguns aspectos. Um deles claramente viria da decepção daqueles cinéfilos ao constatarem como um trio de atores experientes como Robert De Niro, Dustin Hoffman e Harvey Keitel (imagina o que seria esses três em alguma produção típica dos anos 70) pode ser tão sub-aproveitado (Keitel, inclusive, tem um papel que beira o nível figurante). Há também a questão de ser irritante ver que o terceiro filme da franquia reprisa sem cerimônia a estrutura da trama dos dois filmes anteriores. Apesar destes problemas, é inegável que o diretor Paul Weitz conseguiu criar uma obra razoável em termos cômicos. Mesmo com tantos medalhões em cena, a produção não se constrange em abusar de recursos de comédia grosseira e levemente escatológica, com direito a cenas envolvendo vômitos, violência, maltratos infantis e piadas sexuais, mas também preserva uma certa ironia sutil na sua visão sobre os valores tradicionais pequeno-burgueses. É claro também que as referências e citações a filmes emblemáticos como “O Poderoso Chefão” e “Tubarão” podem soar óbvias (olha aí o cinema setentista de novo mencionado), mas não deixam de ser um recurso estético eficiente.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Incontrolável, de Tony Scott ***


O cineasta inglês radicado nos Estados Unidos Tony Scott é um dos maiores responsáveis pela consolidação de um estilo de filmar dentro do gênero dos filmes de ação desde a década de 1980 (como não lembrar de “Top Gun”?). Com produções repletas de tiroteios ou perseguições com veículos em alta velocidade (carros, motos, aviões, trens, submarinos e o que mais der na veneta), Scott consolidou uma estética de uma profusão de cortes rápidos e fotografia estourada. Em “Incontrolável” (2010), sua obra mais recente, o cineasta se mostra até mais contido no seu modus operandi frenético de montagem, mas isso afeta pouco na sua habitual narrativa veloz. Por mais que se critique Scott de ser uma espécie de operário padrão de Hollywood, é inegável que o homem é mais que eficiente em angulosos enquadramentos, movimentos precisos de câmera e na combinação impactante de imagem e som. A forma, por exemplo, com que filma em determinados momentos o trem em disparada é impressionante no sentido de que a câmera lenta e o barulho imponente do veículo dão uma impressão de um verdadeiro monstro de ferro com vida própria. O diretor pode não trazer novidades para a linhagem dos “filmes-catástrofes”, mas entrega um produto que honra a tradição.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Machete, de Robert Rodriguez *1/2


Em “Planeta Terror” (2007), sua contribuição no projeto “Grindhouse”, o cineasta Robert Rodriguez conseguia fazer sua homenagem ao gênero exploitation usando uma série de recursos estéticos, sem abdicar, contudo, de oferecer uma narrativa cinematográfica que conquistava pela tensão e pela ambientação ironicamente sórdida. Espécie de continuação dessa viagem conceitual de Rodriguez, “Machete” (2010) acaba se revelando uma produção bem inferior ao seu predecessor. Talvez o grande equívoco do diretor no filme esteja no fato de que a sua emulação de uma forma de filmar na linha exploitation tenha resultado num filme mal dirigido de forma proposital. Ou seja, um trash consentido (o que por si só já é um grande contra-senso). Assim, tem-se uma montagem que parece ter sido feita com um facão, além de sequências de ação encenadas e editadas em um nível que beira o amador, o que é decepcionante quando se sabe que Rodriguez já se mostrou em outras oportunidades (“El Mariachi”, “A Balada do Pistoleiro”, “Sin City”) um diretor com boa mão para o gênero de aventura. É claro que há idiossincrasias que geram algum interesse para os cinéfilos em geral, como a violência cartunesca, a escalação do “feio, sujo e malvado” Danny Trejo como protagonista (e consequente herói e galã) e um elenco mais que esquisito formado por medalhões (Robert De Niro), canastrões decadentes (Don Johnson, Steve Segal, Jeff Fahey), beldades hollywoodianas (Jessica Alba, Lindsay Lohan) e tipos esquisitos/cult (Tom Savini, Cheech Marin). No final das contas, entretanto, isso acaba refletindo a verdadeira natureza de “Machete”: idéias bem sacadas, mas muito mal desenvolvidas e executadas que geram uma obra enfadonha.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

72 Horas, de Paul Haggis ***


Sempre achei “Crash – No Limite” (2004), a oscarizada obra de estréia de Paul Haggis como diretor, um filme superestimado. Com uma concepção formal de comercial de sabonete e uma narrativa mosaico influenciada de forma pálida por Robert Altman, aliadas a uma trama pretensamente questionadora dos valores da sociedade ocidental (mas com uma sutileza de elefante numa loja de cristais), a produção acabou se tornando até referência no cinema contemporâneo. Desprovido deste “hype” e de estéreis afetações estéticas e temáticas, “72 Horas” (2010), filme mais recente de Haggis, apresenta uma linguagem cinematográfica mais apurada. Girando em torno de um gênero bem definido (produções sobre fugas de prisão), o diretor constrói uma obra de constante tensão que trafega com desenvoltura em uma ambientação de drama familiar com tinturas melodramáticas até o estilo policial, com direito a cenários soturnos e cenas impactantes de violência. Haggis ousa também nas sequências de ação com um preciso trabalho de edição, com destaque absoluto para os momentos com Liam Neeson em cena, na pele de um especialista em fugas da prisão, em que a montagem encaixa a narração classuda deste último com tomadas do personagem de Russel Crowe colocando em prática os ensinamentos de seu “mestre”.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Tron - O Legado, de Joseph Kosinski ***

Sou do time que nunca achou “Tron – Uma Odisséia Eletrônica” (1982) uma obra-prima ou coisa do gênero. É claro que o filme é referencial no sentido de evidenciar um ponto de evolução nos efeitos especiais da época em que foi lançado, mas por isso mesmo ele ganhou um aspecto muito datado com o passar do tempo. Assim, não achei uma heresia que mais de 25 anos depois houvesse uma continuação para a obra. “Tron – O Legado” (2010) também não chega a ser uma produção clássica, mas mesmo assim tem qualidades que saltam aos olhos. A forma com que cenários naturais e os atores interagem com os cenários e efeitos digitais é bastante orgânica, não fazendo com que o filme pareça um longo vídeo game. Nesse sentido, as sequências de ação surpreendem por uma edição limpa e ágil, que faz com que no meio de cenários virtuais e sombrios não se perca a noção do que acontece em cena. De se destacar ainda os temas instrumentais da trilha sonora composta e tocada pelo duo francês Daft Punk, em perfeita sintonia com o caráter de futurismo retrô do filme.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Oceanos, de Jacques Perrin e Jacques Cluzaud ***


Este documentário francês sobre a vida nos oceanos, em um primeiro momento, não se diferencia muito daquelas produções que abordam aspectos da natureza, com fins ecológicos, que freqüentemente são exibidos nas televisões (abertas ou pagas). Aos poucos, entretanto, “Oceanos” (2009) mostra a sua real dimensão. As imagens grandiosas dos mares revoltos e a esquisitice visual de boa parte fauna marinha filmada (com peixes, moluscos e afins que parecem vir de um mundo paralelo), ao olhar de um leigo espectador de cinema, encontram paralelos com o universo do cinema fantástico (e, quem sabe, podem ir até mais além). Essa impressão se acentua ainda mais quando se perceber a inserção de alguns efeitos digitais, traçando um sutil conflito entre a verdade e o truque cinematográfico.