O cinema francês das décadas de 50 e 50, mais precisamente a
Nouvelle Vague e os musicais de Jacques Demy, continuam a ser os principais
referenciais do imaginário cinematográfico do diretor Christophe Honoré. Isso
fica bem evidente em sua obra mais recente, “As bem amadas” (2011). Para não
deixar dúvida quanto às suas intenções, o cineasta inicia a trama do filme na Paris
dos anos 60. A partir daí, recicla algumas idéias já exploradas em algumas de
suas produções anteriores (“Em Paris”, “Canções de amor”): roteiro recheado de
elementos existencialistas, abordagem anti-naturalista ao evocar a estrutura de
musicais, interpretações um tanto blasé de seu elenco (nesse sentido, a
presença da icônica Catherine Deneuve reforça o lado revivalista do cinema do
diretor). É fato que a produção não tem a mesma fluidez narrativa de obras mais
antigas de Honoré. Mesmo assim, é inegável o poder de sedução de algumas insólitas
soluções formais do diretor – afinal, a densidade dramática de algumas cenas se
mostram em descompasso com os recursos típicos do gênero musical, tendo um efeito
desconcertante para o espectador. Assim, mesmo estando distante do melhor do
seu criador, “As bem amadas” reforça o padrão autoral da cinematografia de
Honoré.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quarta-feira, novembro 14, 2012
terça-feira, novembro 13, 2012
O liberdade, de Cíntia Lange e Rafael Andreazza ***
O Liberdade é um bar de Pelotas.
Ao meio-dia, diariamente serve almoços. São em algumas noites na semana,
entretanto, que se concentram os motivos para que o estabelecimento se
estabeleça como uma das principais referências culturais da cidade. Nessas
ocasiões, veteranos músicos do chorinho se dedicam a tocar clássicos do gênero,
com especial atenção para composições de Avendano Junior, recentemente falecido
e que era um dos artistas que mais comparecia a essas sessões musicais. “O
liberdade” (2012), o filme, é um documentário a registrar a trajetória do bar e
também de alguns dos músicos que lá tocam (inclusive o próprio Avendano
Junior), além de colher impressões de alguns dos freqüentadores do local. A
obra dirigida por Cíntia Lange e Rafael Andreazza foge de ser um trabalho didático
ou institucional. Seu fim é muito mais representar uma espécie de documento
sensorial daquele ambiente, elaborando uma concepção formal que se revela em
perfeita sintonia com as melodias e harmonias que afloram da tela. Assim, elegantes
enquadramentos e uma edição sóbria configuram uma olhar admirado, às vezes
quase solene, pela arte de seus protagonistas,
a um ponto que o espectador se inebrie com a beleza daquela música e fique
intrigado pelo fato de que canções e músicos de qualidade tão excepcional terem
um reconhecimento apenas regional. Após os créditos finais, é provável que esse
espectador tenha o mesmo anseio do autor desse texto: onde posso conseguir o CD
da trilha??
segunda-feira, novembro 12, 2012
Mercenários 2, de Simon West **
Pode parecer óbvio o que vou escrever aqui, mas para
discorrer sobre um filme como “Mercenários 2” (2012) a primeira coisa que tem
de se ter em mente é que detalhes como um roteiro coerente ou densidade dramática
não são exatamente primordiais. Na realidade, a primordial intenção dos
produtores da franquia é juntar o máximo de astros do cinema porrada e emular
aquelas produções de aventuras violentas oitentistas (ainda que num tom mais
asséptico – afinal, não se pode arriscar uma classificação etária muito elevada
para não perder público...). É claro que o resultado final é muito distante da
classe formal de clássicos do gênero como “Rambo – Programado para matar” (1982)
ou “Duro de matar” (1988), mas até que essa segunda parte tem os seus momentos
divertidos. Para começar, é bem melhor dirigida que a primeira, principalmente
no que diz respeito às cenas de ação (ao contrário do primeiro filme, consegue-se
entender o que está acontecendo em cena). Pode-se perceber que o clima de paródia
é mais evidente, com uma trama que parece ter sido escrita à medida que a
produção ia sendo filmada. As inserções do personagem “interpretado” por Chuck
Norris, por exemplo, chegam a ser hilárias de tão grosseiras: parece que os
roteiristas, lá pela metade do roteiro, deram-se conta que até o momento não
havia papel definido para Norris e inventaram uma desculpa qualquer para colocá-lo
na trama. No final das contas, entretanto, um detalhe como esse é irrelevante –
o que importa para o público cativo de “Mercenários 2” é que a equação
porradaria mais piadinhas infames está ali presente e justificando a realização
de uma nova continuação.
sexta-feira, novembro 09, 2012
My name is Bruce, de Bruce Campbell **
A mítica que se criou em torno da figura do ator Bruce
Campbell, principalmente pela sua participação na trilogia “Evil Dead”, é um
fenômeno típico dentro do universo dos filmes B. Afinal, tal admiração não vem
do fato dele ser um ator de grandes recursos dramáticos (o que não é o caso),
mas sim pelo seu carisma canastrão e bem humorado que caiu como uma luva nas
concepções exageradas e irônicas que Sam Raimi inseriu em sua clássica franquia
de horror. Assim, nada mais natural que entre os subprodutos que surgissem a
partir desse esdrúxulo culto aparecesse esse “My name is Bruce” (2007), produção
dirigida pelo próprio Campbell e que tem como protagonista,
ora vejam só, Bruce Campbell. Como cineasta, é claro que ele não tem a mesma
classe de um Sam Raimi e nem o seu filme consegue encostar nos calcanhares de
qualquer uma das produções da trilogia que deu fama para Campbell, mas é inegável
que o “astro” não tinha maiores pretensões do que tirar um sarro da sua condição
de ídolo. Nesse contexto, é possível dar umas risadas com o seu filme,
principalmente nos momentos de humor mais escroto ou pela fuleiragem das
trucagens.
quinta-feira, novembro 08, 2012
Uma noite alucinante 2, de Sam Raimi ****
25 anos após seu lançamento, “Uma noite alucinante 2” (1987)
permanece como uma experiência cinematográfica impactante. E não apenas pelos
seus aspectos extremos em termos de violência gráfica (até porque a primeira
parte do filme, nesse quesito, foi ainda mais chocante). O que torna o filme em
questão ainda uma obra memorável é a originalidade de seu formalismo. Apesar de
ser uma produção tipicamente B pelos seus recursos, ela impressiona pela
dimensão quase barroca que o diretor Sam Raimi injeta em sua estética. Os
enlouquecidos movimentos de câmera que simulam espíritos malignos perseguindo
as suas vítimas, as criativas trucagens que capricham no sangue e na
caracterização grotesca de criaturas monstruosas, a narrativa que varia sem
cerimônias entre o horror escatológico e a comédia escrachada e mesmos as
atuações exageradas de um elenco eminentemente canastrão são elementos que
configuram um filme perturbador e ousado, e que também extrapola o seu próprio
gênero ao propor uma linguagem inovadora. Posteriormente, Raimi teve outros
grandes momentos de brilho (“Darkman”, “Um plano simples”, “Homem-Aranha 2” e
“Arrasta-me para o inferno”), mas é “Uma noite alucinante 2” que marca o seu
auge artístico como cineasta.
quarta-feira, novembro 07, 2012
Marighella, de Isa Grispum Ferraz ***
Talvez o fato da diretora Isa Grispum Ferraz ser sobrinha do
guerrilheiro Carlos Marighella possa fazer supor que o documentário “Marighella”
(2011) seja uma obra hagiográfica em relação a figura cinebiografada em questão.
A proposta da cineasta, entretanto, não é a de se ater a um registro objetivo
dos fatos. Sua abordagem justamente aproveita o seu parentesco para realizar
uma contraposição entre a figura pública do tio com a do homem boa praça com
quem teve um breve e ameno contato doméstico. Isa Ferraz não apresenta
respostas prontas para o espectador – na verdade, a platéia é quase uma cúmplice
da diretora na construção do quebra-cabeça que representa a vida de Marighella.
Em alguns momentos, ela prefere expor facetas pouco conhecidas do protagonista,
principalmente ao evidenciar a sua veia poética. Mas isso não quer dizer que
abdica de mostrar os principais fatos que tornaram Marighella um dos mais notórios
rebeldes da história do Brasil. Um dos pontos mais interessantes do filme está
justamente nessa tendência em confrontar a exposição de um lado mais intimista
do guerrilheiro, tanto nas suas tendências para o lirismo quanto no romantismo
de sua vida amorosa, com a sua personalidade explosiva como desafiador da ordem
vigente. Assim, a profusão de imagens de arquivos e depoimentos mais configura
um imaginário sentimental e político sobre Marighella do que uma investigação
jornalística. Em termos cinematográficos, essa escolha estética e temática da
diretora se revela mais fascinante ao dar um caráter perene e instigante para o
seu documentário.
terça-feira, novembro 06, 2012
360, de Fernando Meirelles **1/2
A cada obra sua que aparece nos cinemas, Fernando Meirelles
faz crescer a suspeita de que “Cidade de Deus” (2002) foi um feliz acidente em
sua filmografia. “360” (2012) ajuda a corroborar essa suposição. O elenco
estelar é competente (com destaque para Ben Foster em seu habitual registro maníaco),
a direção de fotografia é bonita e o trabalho de montagem ajudar a deixar palatável
uma obra marcada por temas incômodos (prostituição, infidelidade, conflitos
familiares). E é justamente aí, no que era para ser “qualidades” artísticas,
que a obra de Meirelles acaba falhando – “360” é agradável e bonito como uma
boa peça publicitária, mas não pega na veia como narrativa cinematográfica. Não
há cenas que colem no imaginário cinematográfico do espectador ou alguma dimensão
artística mais ousada nas concepções formais engessadas de Meirelles.
segunda-feira, novembro 05, 2012
O asfalto, de Joe May ****
Apesar de não ser um legítimo representante do
expressionismo alemão, “O asfalto” (1929) apresenta elementos semelhantes aos daqueles
de tal estética cinematográfica. Apresentando uma estrutura clássica de
melodrama, o filme se destaca em detalhes que perventem o seu gênero,
principalmente no que diz respeito a uma certa ambiência sórdida e na sua ambigüidade
temática – há um perturbador conflito que oscila entre a atração e a repulsa na
relação amorosa entre um policial honesto e uma sedutora ladra de jóias. O
diretor Joe May estabelece uma narrativa envolvente, em que mesmo excessos
emocionais nas caracterizações de situações e personagens ganham vigorosa dimensão
dramática em meio a um trabalho esmerado da direção de fotografia que explora
habilmente os jogos de claro e escuro.
sexta-feira, outubro 26, 2012
Os assassinos estão entre nós, de Wolfgang Staudte ***1/2
Ainda que marcada por alguns excessos melodramáticos, “Os
assassinos estão entre nós” (1946) é uma obra capaz de impressionar o
espectador contemporâneo, tanto na temática quanto nos seus aspectos formais. O
ano em que foi lançada é decisivo para compreensão de seus méritos. A 2ª Guerra
Mundial recém havia terminado. Surpreende que numa época em que as chagas do
conflito ainda eram tão presentes tenha aparecido um filme cuja trama é um
acerto de contas com a participação da sociedade alemã em alguns dos mais
hediondos atos da época do nazismo. O diretor Wolfgang Staudete consegue
sintetizar essa questão na figura de um simpático industriário, que no período
da guerra havia atuado como um oficial nazista responsável por atos de pura
barbárie. Aliado a esse incômodo roteiro, há uma orientação estética que remete
a muitos dos preceitos mais caros do expressionismo alemão, tanto no intenso
jogo de claros e escuros a ressaltar o tom sombrio do filme quanto numa encenação
marcada por um certo barroquismo exagerado – situada nas ruínas resultantes da
guerra, a ambientação evoca um clima de horror, acentuado ainda mais uma
atmosfera que oscila entre o realismo e o terror psicológico beirando o
delirante.
quinta-feira, outubro 25, 2012
Eu tinha dezenove anos, de Konrad Wolf ****
Legítima pérola obscura não só do cinema germânico como do
mundial, “Eu tinha 19 anos” (1968) propõe uma linguagem formal audaciosa para
refletir sobre a ressaca moral da Alemanha diante das consequências do final da
2ª Guerra Mundial. Apesar de ser uma obra ficcional de cunho fortemente dramático,
por vezes o filme evoca um estilo frio e distanciado, principalmente pela direção
de fotografia e pela edição que enveredam pela estética documental. O resultado
dessa forma de filmar acaba tendo um efeito contundente sobre o espectador – o diretor
Konrad Wolf não busca a empatia sentimental, realçando mais a sensação de incômodo
e vergonha de um povo diante de um passado recente marcado por atitudes
monstruosas e trágicas. Mesmo quando a produção envereda para a ação envolvendo
algumas poucas batalhas campais, o registro visual é reflexivo; a violência de
tiros e mortes não é banalizada, com cada disparo de fuzis ressoando um
impressionante impacto sensorial. E se a 2ª Guerra Mundial foi um dos fatos
históricos que mais serviu como pano de fundo para produções cinematográficas
dos últimos 80, “Eu tinha dezenove anos” se apresenta como avis rara diante de
um gênero tão marcado pelas obviedades.
quarta-feira, outubro 24, 2012
O ditador, de Larry Charles ***1/2
Se em “Borat” (2007) e “Bruno” (2009) a parceria entre o
diretor Larry Charles e o ator Sacha Baron Cohen promovia uma ousada mistura
entre ficção e documentário, em “O ditador” (2012) eles abandonam essa
estrutura narrativa e investem numa trama puramente ficcional. Isso não quer
dizer, entretanto, que perderam a criatividade e a ironia ácida características
das produções anteriores. A narrativa farsesca oscila entre o grotesco e o
escatológico ao expor sem cerimônias os preconceitos e contradições da
sociedade ocidental. Por vezes, o filme até brinca com uma certa concepção
formal mais tosca, num registro estético que beira o documental, como se
sugerisse que estivéssemos vendo uma grande reportagem. A brincadeira com
estereótipos grosseiros de racismo e obscurantismo junto a um estilo de
narrativa que parece ter um tom aleatório aos poucos revelam uma arguta coerência
artística da obra. Os questionamentos levantados pelo filme, observados com uma
olhar mais clínico, revelam até uma sutileza a expor dilemas complexos do
panorama político mundial. E por mais que busque o riso do espectador, revela
amargura e perplexidade com os caminhos atuais da humanidade.
terça-feira, outubro 23, 2012
O vingador do futuro, de Len Wiseman **1/2
Vamos convencionar uma coisa: por mais que diretores,
produtores e atores tentem nos convencer que eles se envolvem em refilmagens
por razões artísticas, a verdade é que a grande maioria de tais “releituras” (e
até mesmo os tão falados reboots) tem por fim principal objetivos comerciais. O
que não é demérito ou surpresa: cinema, antes de tudo, é indústria... Encarando
por tal perspectiva é que se pode entender porque alguém ousaria fazer uma nova
versão, em pleno 2012, para “O vingador do futuro”, obra exemplar do gênero
ficção científica de aventura lançada em 1990, um filme que por si só não
precisaria ser melhorado em praticamente nada. Na comparação, a versão mais
recente dirigida por Len Wiseman não chega aos pés em termos de criatividade e
como narrativa da produção original comandada pelo holandês genial Paul
Verhoeven. Não há um astro carismático como Arnold Schwarzenegger como protagonista,
um vilão assustador como o mítico Michael Ironside e, principalmente, o senso
de humor perverso e violento estabelecido por Verhoeven. Se olharmos o filme de
Wiseman sem essa sombra de uma comparação pesada com um clássico, entretanto,
até pode-se perceber alguns detalhes expressivos como as interessantes
trucagens e direção de arte que lembram outros grandes filmes do gênero. Mas no
final das contas, acaba sendo muito pouco, numa visão que extrapola o simples
interesse mercantilista, para justificar uma pretensa recriação.
segunda-feira, outubro 22, 2012
Tudo que eu amo, de Jacek Borcuch ***
Uma obra mostrando fatos típicos no amadurecimento de um
adolescente, como as primeiras experiências sexuais e desilusões, não chega a
ser uma novidade no cinema. O que acaba fazendo com que uma obra como “Tudo que
eu amo” (2009) seja cativante e desperte o interesse das platéias é o estilo
sereno da direção de Jacek Borcuch e alguns detalhes particulares do contexto
histórico em que a trama de desenvolve. Focalizando um jovem vocalista de banda
punk na Polônia em 1981, marcado pelo auge das divergências entre o governo
comunista e o movimento do sindicato solidariedade, o filme estabelece uma
forte relação intrínseca entre o intimismo da vida pessoal de seu protagonista
com o conturbado momento político e social de seu país. A narrativa tem uma dinâmica
que oscila entre a melancolia, a tensão e o vigoroso. Nesse último quesito, são
antológicos os números musicais, tanto pela qualidade das canções quanto pelo
tom frenético das apresentações (altamente educativas para fãs de bandinhas emo
brasileiras saberem o que é punk rock).
sexta-feira, outubro 19, 2012
A tentação, de Mattwew Chapman *1/2
Filmes cuja intenção principal é divulgar alguma doutrina
religiosa não representam uma novidade. É só se prestar atenção na regularidade
com que aparecem em nossos cinemas produções de temática espírita ou católica.
Agora uma produção a defender de forma veemente o ateísmo não é algo que
aparece todo dia. E esse é o caso de “A tentação” (2011). A visão da obra sobre
a religiosidade é pouco lisonjeira – crenças serviriam apenas para estimular o
fanatismo e o obscurantismo, gerando infelicidade para os seus crentes.
Independente de concordar ou não com tal ótica, o que mais incomoda no filme é o
traço esquemático de sua narrativa, além da forma caricatural com que
caracteriza os seus “vilões”. A ideia central da possibilidade de transcendência
de um ser humano mesmo não tendo alguma religião é interessante, mas acaba
retratada de forma banal. Assim, no máximo, pode-se dizer que “A tentação”
desperta curiosidade pela sua temática inusitada, mas apenas por isso.
quinta-feira, outubro 18, 2012
A primeira coisa bela, de Paolo Virzi **1/2
Um dos tipos mais característicos de produções italianas são
aquelas comédias dramáticas que transitam sem cerimônia entre o sentimental, o
irônico e o sensual. “A primeira coisa bela” (2010) se mostra como um exemplar
razoável dessa linhagem. O filme do diretor Paolo Virzi tangencia algumas
complexidades, principalmente quando foca a personalidade do protagonista
Bruno (Valério Mastandrea), um professor quarentão desajustado e viciado em
drogas. Quando o roteiro parte para as explicações do comportamento de Bruno,
centra-se na figura de uma mãe amorosa e um tanto irresponsável. A narrativa
envereda na transição entre o presente e o passado de forma esquemática,
utilizando o manjado recurso de que a melhor compreensão do que ocorreu na
trajetória dos personagens fará com que no presente eles sejam pessoas
razoáveis. Apesar de suas simplificações temáticas e de um formalismo quadradão
que não o tornam uma experiência cinematográfica especialmente memorável, o
filme até cativa em alguns momentos por um certo caráter bonachão de
determinadas sequências.
quarta-feira, outubro 17, 2012
Aqui é o meu lugar, de Paolo Sorrentino ***1/2
Se em “O divo” (2008) o diretor italiano Paolo Sorrentino
investiu numa visceral mescla de thriller político e filme de máfia, em “Aqui é
o meu lugar” (2011) ele concebe uma obra de caráter mais contemplativo, repleta
de estranhos simbolismos. A insólita mistura de gêneros continua presente: há
elementos de road movie, toques de drama de guerra, por vezes uma atmosfera de
comédia agridoce (evocando algo das produções setentistas de Hal Ashby).
Acentuando ainda mais esse clima de estranheza, o fato do filme mostrar um rock
star aposentado possibilita uma série de referências à cultura rock. E que
acabam não sendo gratuitas: Cheyenne (Sean Penn) parece um misto de Robert
Smith e David Bowie, conectando duas linhagens importante na história do rock,
o gótico e o glam. Esses estilos são bastante ligados a conceitos como a
melancolia, o ridículo e a decadência, características essas que baseiam muitas
tanto atitudes de Cheyenne como situações do roteiro. Assim, por mais
esquisitos e improváveis que sejam os rumos da trama, há uma coerência na conexão
de elementos tão distintos. Sorrentino amarra tudo isso dentro de uma concepção
formal de certo rigor estético, privilegiando ora planos fixos, ora planos seqüências.
Sua abordagem emocional distanciada afasta seu filme do sentimentalismo fácil,
fazendo com que transite numa área nebulosa entre o solene e o irônico. Ainda
que não apresente a fúria criativa e épica de “O divo”, Sorrentino elabora em “Aqui
é o meu lugar” uma obra cativante e de forte cunho autoral.
terça-feira, outubro 16, 2012
Vou rifar meu coração, de Ana Rieper ***
Em um primeiro momento, pode-se pensar que Ana Rieper
enveredou em “Vou rifar meu coração” (2011) pelos caminhos tradicionais dos
documentários musicais que de forma habitual vêm aparecendo nos cinemas.
Afinal, canções e músicos vinculados ao gênero brega aparecem como fios
condutores da narrativa. Na essência, entretanto, a produção dirigida por
Rieper busca um objetivo mais nebuloso e complexo, querendo traçar uma espécie
de itinerário existencial dos descaminhos amorosos do povo brasileiro. A
concepção da cineasta é descarnada tanto no seu formalismo quanto no campo temático:
no filme não há uma preocupação em detalhar a biografia dos cantores ou
ressaltar sua importância (nem mesmo são colocadas legendas para identificação
dos artistas), com depoimentos deles e populares simplesmente jogados na tela
sem maiores cerimônias, assim como Rieper não se constrange em expor as
entranhas sentimentais de seus entrevistados sem medo de resvalar no ridículo
ou ofensivo. Nessa linha, o espectador envereda em um roteiro que abarca
sexualidade a flor da pele, homossexualismo, bigamia, adultério, prostituição e
um pouco de sordidez, mas sempre deixando brecha para mostrar que no meio de
tudo isso há sempre espaço para o amor. Para Rieper, nada ilustra melhor essa
montanha russa de emoções (que variam entre o emotivo, o perturbador ou o ridículo)
do que as letras derramadas das canções de Odair José, Agnaldo Timóteo, Wando
ou outro dos bardos focados em “Vou rifar meu coração”.
segunda-feira, outubro 15, 2012
O que eu mais desejo, de Hirokazu Kore-Eda ***1/2
O diretor japonês Hirokazu Kore-Eda trafega em um gênero que
beira o melodrama em “O que eu mais desejo” (2011). Com uma trama abordando
questões familiares, e ainda tendo como fio condutor da narrativa o olhar
infantil de uma dupla de irmãos, o filme se afasta do meramente sentimental. A
influência da percepção dos protagonistas faz
com que a produção adquira uma espécie de suave tensão entre o realismo e o viés
fabular/onírico. O roteiro não apresenta grandes viradas e nem maiores arroubos
dramáticos – sua preferência vai pelo registro discreto de pequenos atos do
cotidiano. Tal opção não é gratuita, pois reforça ainda mais a angústia dos
personagens principais pela reconciliação dos pais separados. O tom sereno da
narrativa evoca algo da cinematografia do mestre Yasujiro Ozu, apesar de
Kore-Eda não ter uma estética espartana tão rigorosa como Ozu. Essa aproximação
se concretiza na proposta temática sem concessões: por mais que se possa
comover e torcer pelo destino dos garotos, as resoluções dramáticas não apelam
para soluções fáceis, revelando uma coerência com a proposta autoral do
cineasta. Assim, ainda que não tenha a contundência criativa de “Depois da vida”
(1998) ou “Ninguém pode saber” (2004), “O que eu mais desejo” se mostra em
sintonia com o padrão autoral e artístico de Kore-Eda.
quinta-feira, outubro 11, 2012
Bel ami - O sedutor, de Declan Donnellan e Nick Ormerod **1/2
Seria equivocado dizer que uma adaptação cinematográfica de
uma obra literária como esse “Bel Ami – O sedutor” (2012) é bem sucedida apenas
pelo fato de trazer uma fotografia bonita, uma direção de arte requintada e uma
edição competente. Na verdade, tais atributos apenas configuram uma produção
agradável para as platéias em geral, mas incapaz de efetivamente de criar algum
atrito criativo que possa instigar o espectador. O que azeda o filme na
realidade, e o torna aquém do romance original de Guy de Maupassant, é a falta
de sintonia dos diretores Declan Donnellan e Nick Ormerod com aquilo que pode
ser considerado a essência real do livro. Pode-se perceber que há um
descompasso do texto, irônico e cruel, com a narrativa solene e as interpretações
do elenco, algo melodramáticas em excesso. Para aqueles interessados em algo
mais consistente na linha de combinação de filmes de época com adaptações de clássicos
da literatura, recomenda-se obras mais consistentes como “A época da inocência”
(1993) e “Orgulho e preconceito” (2005).
quarta-feira, outubro 10, 2012
O que esperar quando vocês está esperando, de Kirk Jones *1/2
Talvez a narrativa-mosaico, onde não existe um protagonista
definido (a maioria dos personagens são “principais”), seja o formato ideal
para genéricas comédias românticas na linha “água-com-açucar” edificante.
Afinal, com tantos personagens na trama não haveria a necessidade de desenvolvê-los
com alguma profundidade. Bastaria colocá-los vivenciando algum drama
corriqueiro e depois lhes dar o devido final feliz. “O que esperar quando você
está esperando” (2012) ilustra bem essa tendência. Sob o pretexto de focar as
delícias e agruras da maternidade/paternidade, o filme adota
uma postura de almanaque de conselhos e situações superficiais na intenção de
criar uma identificação com a platéia. A concepção formal do diretor Kirk Jones
é bastante limitada em termos criativos: direção de fotografia e edição estilo “comercial
de margarida” e atores e atrizes fotogênicos em interpretações no piloto automático.
É provável que agrade um público menos exigente, mas também é possível que fuja
logo da lembrança desse mesmo espectador.
terça-feira, outubro 09, 2012
Um verão escaldante, de Philippe Garrel **1/2
Os melhores momentos do cineasta francês Philippe Garrel
ocorrem quando ele envereda para o cinema de gêneros a partir de seu estilo
cerebral e retrô. O resultado configura obras instigantes e perturbadoras como o
policial “Inocência selvagem” (2001) e o horror “A fronteira da alvorada”
(2008). Quando Garrel enfoca exclusivamente o drama, como em “Os amantes
constantes” (2001), entretanto, acaba não se saindo tão bem. E esse parece ser
o caso de “Um verão escaldante” (2010). O cineasta consegue extrair uma
interessante química em seus atores, assim como estabelece uma direção de
elenco que se vale muito mais de um iconismo do que de profundidades psicológicas.
A fotografia evoca uma certa atmosfera atemporal, pelos seus tons esmaecidos,
provocando algum encanto estranho, ainda mais pela habitual abordagem emocional
distanciada do diretor. O que pega mal para o filme é que esses bons elementos
isolados não conseguem interagir de forma convincente devido à narrativa amorfa
estabelecida por Garrel. É como se ele se perdesse numa viagem estética nostálgica
e blasé da Nouvelle Vague – pode-se até sentir simpatia pelo estilo que lembra
algo agradável no universo do nosso imaginário cinematográfico, mas sua
inconsistência como obra acabada o joga no limbo do descartável.
segunda-feira, outubro 08, 2012
As idades do amor, de Giovanni Veronesi *
Assim como no recente “Para Roma com amor” (2012) de Woody
Allen, “As idades do amor” (2011) evoca aquelas típicas produções episódicas
italianas dos anos 60 e 70 que traziam um humor entre o escrachado e o picaresco.
Se o filme de Allen apresentava uma certa recriação irônica e particular de tal
gênero, neste filme do diretor Giovanni Veronesi a relação se encaixa de forma
vaga. É um filme asséptico e bem comportado, com um visual cartão postal. Na
realidade, vincula-se muito mais com comédias românticas norte-americanas
contemporâneas do que propriamente com a tradição cômica cinematográfica de seu
país. E desperta a indagação: será que Robert De Niro está tão necessitado de
grana para se meter em mais uma obra tão medíocre?
A guerra dos botões, de Yann Samuell ***
O livro “A guerra dos botões” é um clássico da literatura
infantil e já recebeu algumas versões para o cinema. Esta mais recente adaptação
(2011) não se propõe a uma visão radical em relação às obras anteriores. Claro,
alguns pequenos detalhes buscam uma atualização de leve, como o fato de ter uma
menina que adquire um tom mais ativo dentro dos conflitos entre dois grupos
rivais de crianças e adolescentes. Mas no cerne, o filme de Yann Samuell busca
uma saudável nostalgia, evocando uma época em que os infantes nem poderiam
supor que um dia existiria vídeo games ou internet. Isso não quer dizer que o
filme seja conservador. Significa que há apenas uma abordagem formal sem
estilizações ou tons sombrios. A fotografia é clara e luminosa, o registro da
ação dispensa a edição picotada ou outros
truques, o delineamento dos personagens não se atem a maiores profundidades
psicológicas (mas sem fazer com que eles não tenham um inegável carisma).
Samuell elabora com sensibilidade uma atmosfera equilibrada entre a comicidade
e a dramaticidade das situações, compondo uma obra em perfeita sintonia com a
forte tradição do cinema francês em propor uma visão diferenciada sobre a
juventude (a exemplo de título como “Os incompreendidos” e “O pequeno Nicolau”).
quarta-feira, outubro 03, 2012
Além da liberdade, de Luc Besson **1/2
Por mais longe que pudesse estar da unanimidade, a
cinematografia de Luc Besson sempre foi marcada na exploração de uma linguagem
estética que por vezes enveredava pela estilização e barroquismo exagerados. O
lado temático, por sua vez, não era o aspecto prioritário em sua concepção de
cinema. “Além da liberdade” (2011) nada contra a corrente dentro dessa lógica. É
claro que há um cuidado formal em termos de direção de arte e fotografia, mas o
foco principal do filme é a trama baseada em fatos reais, que retrata os
percalços de uma líder política em meio a ditadura na Birmânia. A reconstituição
de detalhes dessa luta da protagonista tem a
clara função panfletária de divulgar a sua causa. Tal intenção é nobre, e é mérito
de Besson a condução de uma narrativa longa (mais de duas horas) que até
consegue prender a atenção do espectador. No saldo final, entretanto, “Além da
liberdade” é frustrante pela ausência de maiores vôos criativos do cineasta:
podemos simpatizar com os ideais de sua heroína, mas praticamente não há cenas
que se fixem no nosso imaginário.
terça-feira, outubro 02, 2012
Batman - O cavaleiro das trevas ressurge, de Christopher Nolan **1/2
A trilogia concebida por Christopher Nolan para Batman
apresenta uma certa esquizofrenia em relação à abordagem de cada um dos filmes.
“Batman Begins” (2006) era tão sóbrio e contido que beirava a assepsia. Já “Batman
– O cavaleiro das trevas” (2008) era incrivelmente denso na construção psicológica
de seus personagens e situações, mas também enveredava para um thriller de ação
bastante movimentado. Não à toa, foi o melhor filme disparado da franquia de
Nolan. A conclusão da saga em “Batman – O cavaleiro das trevas ressurge” (2012)
é a negação dos filmes anteriores: é exagerado, desprovido de sutileza, com uma
dramaticidade derramada que beira o brega, repleto de personagens mal
caracterizados. É tão barulhento e frenético que chega até a hipnotizar o
espectador no seu turbilhão constante de mil coisas acontecendo ao mesmo tempo.
Se por um lado a platéia fica seduzida com o pandemônio de Nolan, logo após o
final do filme corre o risco de sentir um certo vazio. Fica-se com a sensação
de uma obra pensada e executada às pressas, muito distante das nuances
narrativas bem delineadas da segunda parte. É claro que o furor sentimental do
filme até tem uma certa conotação cativante.
Mas irrita ver um protagonista como Batman tão
estúpido e impulsivo (como é que lá pela metade do filme ele não percebeu que o
seu interesse romântico era a verdadeira vilã da trama? Por que ele,
enfraquecido e fora de forma, resolve procurar um Bane no auge do vigor físico
para enfrentá-lo num corpo-a-corpo suicida?) e trucagens digitais derivativas
em excesso. Diante desse quadro, um reboot para a franquia até não chega a ser
uma má idéia...
segunda-feira, outubro 01, 2012
Violeta vai para o céu, de Andrés Wood ***
Dentro do padrão habitual de cinebiografias, a produção chilena “Violeta
vai para o céu” (2011) surpreende por fugir de algumas obviedades narrativas. A
principal ousadia seria da mera recriação cronológica e linear dos fatos. O diretor
Andrés Wood pega situações importantes da vida da célebre cantora e compositora
Violeta Parra e os encadeia segundo uma lógica mais poética e simbólica do que histórica.
A forma com que monta narrativa parece refletir o próprio caos criativo e sentimental
que envolvia a sua protagonista. A montagem e a
fotografia também obedecem a essa concepção formal e temática de Wood, sugerindo
uma ótica mais sensorial e menos objetiva – é admirável, por exemplo, como os números
musicais se relacionam com episódios do roteiro. Nesses termos, o filme acaba sendo
revelador não só da intimidade da artista, mas também do seu particular processo
de composição e mesmo performático, evocando uma sintonia cultural e existencial
de Parra com a vida e a arte dos anônimos que habitam os grotões do Chile.
Colabora também para o impacto de “Violeta vai para o céu” a atuação de entrega
de Francisca Gavilán no papel principal.
sexta-feira, setembro 28, 2012
Beaufort, de Joseph Cedar ***
Apesar de se enquadrar no gênero drama de guerra, a produção
israelense “Beaufort” (2007) não se propõe a um registro épico-heróico ou a uma
defesa das atitudes bélicas dos judeus. Sua visão da guerra é mais intimista,
focando os dilemas dos militares envolvidos na defesa de um forte localizado no
Líbano. Contradições, escolhas equivocadas e questionamentos acabam se
revelando tão contundentes quanto a violência das batalhas. A abordagem formal
do diretor Joseph Cedar é sóbria, privilegiando tomadas sombrias, que parecem
refletir a própria condição existencial atormentada de oficiais e soldados. “Beaufort”
não chega a nenhuma conclusão nova sobre a sua temática e não é especialmente
memorável na sua estética rigorosa, mas é uma obra envolvente na sua pesada narrativa.
quinta-feira, setembro 27, 2012
Valente, de Mark Andrews e Brenda Chapman ***1/2
A qualidade do traço e o capricho visual dos efeitos
digitais são evidentes em “Valente” (2012). Mas essa competência formal é quase
uma regra nesse gênero de animações contemporâneas. O que faz o filme dos
diretores Mark Andrews e Brenda Chapman se destacar, assim como outras produções
do estúdio Pixar, são dois pontos: o roteiro bem delineado e a ágil dinâmica
narrativa. A trama concilia de forma equilibrada uma forte dimensão dramática
com toques de humor e referências pop, sem parecer uma colcha de retalho. O tom
fabular apresenta nuances temáticas até ousadas que destoam sutilmente dos cânones
das histórias infantis tradicionais, trazendo questionamentos sobre o habitual
papel submisso e meramente romântico das “mocinhas”. Mas o interesse que o
filme pode despertar não se restringe a um aspecto sociológico/cultural.
Andrews e Chapman apresentam cenas memoráveis em termos de ação, além de
enfatizar em algumas sequências violentos embates físicos e atmosferas sombrias.
Tal brutalidade e climas sinistros mostram que mesmo no estilo contos-de-fada a
Pixar consegue deixar impressa a sua marca particular.
quarta-feira, setembro 26, 2012
Chernobyl, de Bradley Parker **1/2
Por mais que o cinema de horror se aprofunde na fantasia,
sempre haverá uma ligação com o real, em menor ou maior grau, ingrediente esse
que colabora para a capacidade das produções do gênero de perturbar as
platéias. Em “Chernobyl” (2012), essa característica é evidente. O diretor
Bradley Parker retoma aquela clássica ligação entre experimentos nucleares e o
surgimento de criaturas mutantes, em voga desde as produções ficções
científicas B dos anos 50, fazendo a relação com a tragédia do acidente nuclear
na União Soviética na década de 80. Ainda que Parker não apresente maiores voos
formais na composição de sua narrativa, é inegável que o filme estabelece uma
interessante atmosfera sinistra ao contrapor uma típica trama de jovens
incautos sendo perseguidos e mortos por seres monstruosos com um subtexto
(seria involuntário?) a mostrar uma cidade abandonada e em ruínas, como se o
seu isolamento físico refletisse a própria ruína econômica e moral do império
soviético.
Na estrada, de Walter Salles ***
Minha expectativa era baixa para “Na estrada” (2012). Assim
que fiquei sabendo que Walter Salles seria responsável pela adaptação do célebre
livro de Jack Kerouac desanimei com o destino da produção. Não que eu ache
Salles um mau cineasta. No geral, ele faz filmes corretos, com exceções acima
da média (“Terra estrangeira”, “Abril despedaçado”). É o tipo de diretor que
gosta de “contar uma história” em seus filmes, o que não se mostraria em
sintonia com a obra literária de Kerouac, que é um romance que se concentra
mais em um estilo muito particular, em que o ritmo da narrativa, o seu aspecto
sensorial, que como linguagem artística remete muito ao jazz improvisado de
John Coltrane, é mais importante do que detalhes de trama. Vendo o filme,
entretanto, a conclusão que se chega é dúbia. Se compararmos diretamente com o
livro, a versão cinematográfica sai perdendo pelo tom comportado de sua dinâmica
narrativa e até por uma certa conotação
moralista do roteiro. Desligando de tal comparação, “Na estrada” ganha uma
perspectiva mais positiva e surpreendente. O trabalho de direção de fotografia
e de direção de arte é notável na composição de uma atmosfera melancólica e
algo “fora do tempo”. Já os esfuziantes números musicais, relacionados
diretamente ao jazz em diversas de suas vertentes, são filmados com paixão e
vigor. Por fim, destacam-se ainda as boas composições dramáticas de seu elenco,
com destaque para o jovem trio principal de protagonistas
na sua exata equação de naturalismo e estilização icônica. Assim, por mais que
possa decepcionar os apreciadores de Kerouac, “Na estrada” acaba representando
um passo expressivo na filmografia de Salles.
segunda-feira, setembro 24, 2012
Pavor na cidade dos zumbis, de Lucio Fulci ****
Na cinematografia de Lucio Fulci, roteiro é algo que beira o
rarefeito – o cineasta parece se guiar perante um esqueleto de trama, em boa
parte das vezes repleto de buracos, e assim constrói seus filmes a base de
sufocantes atmosferas de horror e de cenas de riqueza visual perturbadora. A
partir de tais preceitos, “Pavor na cidade dos zumbis” (1980) é um dos mais
impressionantes exemplos da estranha arte de Fulci. O espectador tem uma vaga
noção de que a história do filme tem alguma relação com portais para o inferno,
demônios e zumbis. O que interessa efetivamente em tal obra é a propensão do
diretor italiano para construir uma narrativa que beira o onírico tamanha a sua
estranheza, assim como uma série de seqüências antológicas na sua violência
gráfica brutal e barroca. O sentido surreal das cenas não se impõe de um
cerebralismo, mas de uma lógica grotesca de realidade por parte de Fulci. Não é
gratuito, assim, que Tarantino tenha citado as tomadas de uma personagem
enterrada viva para o segundo volume de “Kill Bill” (2004).
O espetacular Homem-Aranha, de Marc Webb **1/2
A herança indie de Marc Webb, diretor da comédia romântica
“500 dias com ela” (2009), fica evidente na sua visão para “O espetacular
Homem-Aranha” (2012). Isso porque é nítida a sua preocupação em dar um maior
estofo dramático para o filme, realçando mais as relações humanas. De certa,
não deixa de apresentar uma certa sintonia com o espírito original do
personagem nos quadrinhos, principalmente ao retratar aspectos do cotidiano e
comportamento de adolescentes (ainda que o Peter Parker de Andrew Garfield por
vezes mais evoca um adolescente rebelde do que um CDF tímido). Isso não
implica, contudo, em uma obra mais densa e memorável. Afinal, no universo do
Aranha, a ação também tem um papel primordial. Nesse campo, é evidente que Webb
não tem o mesmo senso virtuose e grandioso de Sam Raimi na encenação de sua
narrativa. As seqüências de ação são competentes, mas também não chegam a ser
surpreendentes ou memoráveis. A ênfase no “real” em retratar os dilemas dos personagens
acaba sacrificando bastante da fluência da narrativa, tornando o filme um tanto
artificial na sua pretensa “seriedade dramática” (aliás, essa pretensa seriedade é questionável por decisões como o fato de Parker revelar de forma inexplicável e cretina para Gwen Stacy que ele é o Aranha!). No cômputo geral da
comparação com a trilogia anterior da franquia, é difícil dizer se essa
primeira produção do reboot é melhor ou pior que a criticada e irregular
terceira parte dirigida por Raimi, mas com certeza é inferior aos dois
primeiros (principal em relação à segunda parte, uma das melhores transposições
de um gibi para o cinema).
Histórias que só existem quando lembradas, de Julia Murat ***1/2
A diretora Julia Murat se aventura por caminhos perigosos em
“Histórias que só existem quando lembradas” (2011). Através de uma narrativa
lenta e minuciosa, investe na repetição de atos corriqueiros, quase como se as
cenas buscassem uma sutil variação entre elas (de certa forma, parece uma
canção que vai sendo burilada lentamente em diferentes versões). Isso não quer
dizer, entretanto, que a cineasta busque simplesmente o tédio estéril. Na realidade,
a reincidência de pequenos rituais entre os parcos habitantes de um vilarejo
acaba gerando uma sensação de hipnótica beleza, tanto no sereno e luminoso
registro visual quanto no esmiuçamento da ação e dos diálogos. A atmosfera
concebida varia entre uma espécie de beatitude do cotidiano e a sensação do
fantástico de um universo que se coloca à parte do real. A ideia da fantasia
não se concretiza em trucagens, mas na sugestão para o olhar do espectador: será
que os idosos que residem naquela localidade estão numa espécie de limbo? São
imortais? Ou somente são pessoas comuns que acreditam que podem morrer apenas
quando quiserem? Murat não se mostra disposta a entregar respostas fáceis para
a plateia. Um dos segredos da sedução de seu filme está justamente no mistério
e na falta de explicações convencionais que rondam seu roteiro.
Cairo 678, de Mohamed Diab ***
A combinação do gênero melodrama com um tom panfletário na
produção egípcia “Cairo 678” (2011) pode soar óbvia em um primeiro momento. Uma
das intenções do filme é justamente propor uma visão bastante crítica do
machismo e preconceito inerentes à sociedade muçulmana. A indignação social que
emana por parte de sua trama não contamina, entretanto, a noção de espetáculo
cinematográfico do diretor Mohamed Diab. A obra não se formata como peça de
propaganda – há um roteiro bem delineado a explorar os aspectos contraditórios
e dilemas de situações e personagens. Mesmo quando realça de forma crua o
grotesco sexismo dos assédios sofridos pelas principais personagens, tais
momentos não ganham o simples viés apelativo de uma manipulação emocional. Pelo
contrário: valorizam ainda mais a dinâmica narrativa concebida por Diab, num
misto entre o caráter sentimental de algumas cenas com um registro objetivo que
beira o documental.
quinta-feira, setembro 13, 2012
A velha dos fundos, de Pablo Meza **1/2
Mesmo sem maiores arroubos criativos formais e nem tendo
alguma seqüência particularmente memorável, a produção argentina “A velha dos
fundos” (2011) acaba causando certo interesse pela sua ambientação sóbria e
seca, expondo temas do quotidiano como a solidão e as dificuldades financeiras
sem soluções fáceis. O registro delineado pelo diretor Pablo Meza valoriza silêncios,
enfatiza a dramaticidade através de pequenos gestos e utiliza quase sempre
planos fixos, compondo uma narrativa de viés realista que se sintoniza com o
tom melancólico da trama. Por mais que o filme possa ser monótono em alguns
momentos, tal direcionamento se mostra coerente com a sua proposta temática.
Eventualmente, “A velha dos fundos” atinge alguns picos emocionais ao ressaltar
as desilusões de seus personagens principais ao se defrontarem com as durezas e
impossibilidades de suas rotinas, sem que necessariamente caia em tragédias
exageradas.
quarta-feira, setembro 12, 2012
A era do gelo 4, de Steve Martino e Mike Thurmeier **1/2
É claro que animações na linha desse “A era do gelo 4”
(2012) sempre terão uma qualidade esmerada no seu traço e vasto recursos de
produção que não as deixariam se qualificar exatamente como obras “ruins”. O
que causa desconforto é a falta de alguma ousadia, de alguma densidade dramática
capaz de causar tensão na plateia (qualidade que pode ser encontrada, por
exemplo, em várias produções da Pixar). Nesse mais recente capítulo da
franquia, a condução da narrativa é tão burocrática que até os momentos do
esquilo alucinado por uma noz acabam soando pouco impactantes. Ocasionais
surpresas que poderiam fugir desse marasmo (a caracterização repulsiva de
alguns dos personagens vilões, as figuras assustadoras dos “monstros sereias”)
acabam esvaziadas pelo modelo de fábula moralizadora, edificante e politicamente
correta em demasia.
terça-feira, setembro 11, 2012
Os acompanhantes, de Shari Springer Berman e Robert Pulcini ***
O ponto mais interessante de “Os acompanhantes” (2010) é a
forma com que estabelece a relação cinema e literatura. Tendo como protagonista
Louis Ives (Paul Dano), um estranho jovem obcecado pela literatura
norte-americana da primeira metade do século XX, o filme insere uma constante
narração em off do personagem, que se vê como um herói literário típico de seus
romances favoritos. O contraste de tal narração idealizada com a realidade em
que ele se enquadra na presente época contemporânea produz os momentos mais
desconcertantes da produção. Por vezes, a estética de “Os acompanhantes” evoca
uma atmosfera retrô em termos de figurino e direção de arte, assim como no seu
desenvolvimento de roteiro, em que trama dramática apresenta toques irônicos
insólitos, ainda que pese contra o filme a carência de uma maior consistência
em termos temáticos, em que a equação drama e comédia não consegue apresentar
uma sintonia mais harmoniosa.
segunda-feira, setembro 10, 2012
Quem se importa, de Mara Mourão *
A diretora Mara Mourão já tinha quase batido o recorde no gênero
documentário “chapa branca” em “Doutores da alegria” (2005), onde mostrava seu
marido Wellington Moreira, palhaço e coordenador de um projeto em que ele e
outros palhaços alegram crianças com câncer, quase como um santo. Pois agora em
“Quem se importa” ela se supera: novamente realiza uma obra destinada a
beatificar seus protagonistas, todos “ongueiros”
que se definem como empreendedores sociais, sendo que entre eles se encontra,
ora veja, Wellington Moreira! Se o discurso político do filme é altamente
questionável (algo na linha “políticos, governos e Estado não fazem nada, o negócio
é a iniciativa privada fazer política social”), por outro lado a concepção estética-temática
de “Quem se importa” é clara: é mais um exercício formal de propaganda
narcisista que faz lembrar um horário eleitoral estendido para o cinema. Como
cinema, o filme é asséptico e sem personalidade, fazendo pensar até que ponto o
politicamente correto pode chegar.
quinta-feira, setembro 06, 2012
Para Romar com amor, de Woody Allen ***1/2
As intenções de Woody Allen na concepção de “Para Roma com
amor” (2012) são evidentes – parece uma espécie de homenagem/ironia com o
clássico livro “Decameron” e aquelas produções cômicas e episódicas italianas
dos anos 60 e 70. O filme não se pretende um retrato típico do espírito
italiano; é mais como se víssemos na tela o imaginário típico de um americano
médio do que seriam a Itália e o seu povo. Como nas fontes que o inspiraram,
seu tom é francamente picaresco, o que acaba se mostrando bastante em sintonia
com o próprio espírito criativo de Allen. Talvez parte do público habitual do
diretor nova-iorquino implique com a falta de maiores novidades (tem-se a
impressão de que por vezes se ouve/vê uma piada reciclada). Não há também um
roteiro consistente e tão bem amarrado quanto “Meia-Noite em Paris” (2011). É
inegável, contudo, que esse aparente comodismo ainda consiga seduzir boa parte
da platéia, seja num estilo formal que traz um registro visual ora apaixonado
ora sarcástico na sua contraposição entre a fotografia cartão postal e uma
estética que beira o onírico, seja pelas passagens que revelam a verve arguta
de Allen a esmiuçar as relações humanas. No saldo final, “Para Roma com amor”
que não vai converter habituais detratores e nem decepcionar a grande maioria
dos apreciadores, mas apenas manter um certo padrão de qualidade do cineasta. O
que, aliás, já é algo acima da média.
quarta-feira, setembro 05, 2012
As neves do Kilimanjaro, de Robert Guédiguian ***1/2
O cineasta francês Robert Guédiguian retoma de forma
vigorosa a sua veia social-humanista em “As neves do Kilimanjaro” (2011), nos
moldes de outras produções memoráveis suas como “A cidade está tranqüila”
(2000) e “Marie-Jo e seus dois amores” (2002). Nessa obra mais recente, o viés
dramático é menos trágico, permitindo-se até eventuais momentos bem humorados.
Guédiguian mantém o seu registro objetivo e desglamorizado do quotidiano de
pessoas simples, ressaltando com sutileza a discreta grandeza de pequenos atos
do dia a dia de trabalhadores, desempregados, marginais e demais figuras do
povo. Assim como nos filmes anteriores destacados, o diretor consegue
estabelecer um equilíbrio entre a crítica social e o intimismo das relações
humanas de seus personagens. E por mais que “As neves do Kilimanjaro” adote uma
postura panfletária e um tom sentimental em sua narrativa, é inegável que tais
opções temáticas criam uma forte empatia com a plateia, credenciando Guédiguian
como um dos mais expressivos cineastas no gênero político ao lado do britânico
Ken Loach.
Jovens adultos, de Jason Reitman **1/2
Os fãs da dobradinha entre o diretor Jason Reitman e a
roteirista Diablo Cody em “Juno” (2007) tem mais motivos para comemorar a mais
recente parceria da dupla, “Jovens adultos” (2012), onde os principais
ingredientes da produção anterior são retomadas: trilha sonora indie, citações
pop, personagens adultos levemente desajustados. Da minha parte, confesso que
um filme que tem a bela canção “The Concept” do Teenage Fanclub como peça
central da narrativa já me desperta simpatia. Essa bela sacada, contudo, não
consegue esconder a falta de uma maior consistência formal e temática para a
obra. Fotografia e edição compõem um todo estético entre o agradável e a
palidez dramática – é tudo sem maiores sobressaltos, mas também não há uma cena
que se fixe no nosso imaginário. E mesmo a pretensão de fazer uma abordagem
mais realista sobre adultos com dificuldade em amadurecer acaba se formatando
num padrão previsível e superficial.
segunda-feira, setembro 03, 2012
Filme demência, de Carlos Reichenbach
Uma obra como “Filme demência” (1986) não é uma avis rara
apenas dentro do panorama do cinema nacional. Mesmo em âmbito mundial, tal
produção dirigida por Carlos Reichenbach é algo de difícil definição. Isso ocorre
porque o cineasta trafega em uma área artística limítrofe, em que o popular e o
erudito não apenas convivem no mesmo plano, como até acabam se fundindo em um
híbrido instigante. A narrativa envereda várias vezes pelo delirante, mas sem
abdicar de uma fluência clara nos seus propósitos estéticos e temáticos. O protagonista
perambula pela noite paulistana (caracterizada por Reichenbach como se fosse um
universo paralelo), encontra tipos esquisitos e marginais, inclusive o próprio
demônio, e por fim se aventura na estrada (configurando um torto road movie). A
simbologia de tal trama (com inspiração no “Fausto” de Goethe) não descamba
para o hermetismo fácil, tanto que toques de um humor tipicamente popular
pontuam com freqüência o roteiro (além de personalíssimas referências
culturais). E é no meio desses elementos tão diversos que Reichenbach compõe
cenas de uma riqueza visual impressionante, aliado a um formalismo que
estabelece relação intrínseca entre uma linguagem naturalista e a ambiência
fantástica.
Paralelo 10, de Silvio Da-Rin ***
Um documentário brasileiro tendo como temática os índios
nativos não chega a ser propriamente uma novidade no panorama cinematográfica
nacional. “Paralelo 10” (2011), contudo, acaba gerando um impacto acima da
média. Tendo como protagonista o sertanista
José Carlos Meirelles, o filme dirigido por Silvio Da-Rin oferece uma visão
bastante contundente sobre a questão indígena no Brasil. Sua abordagem está
muito longe do caráter oficialista, traçando os dilemas e contradições inerentes
ao assunto de forma crua e sem sentimentalismos. Os índios até podem ser
considerados vítimas de algumas circunstâncias decorrentes de ações de natureza
econômica dos “brancos”, assim como da falta de maior proteção e assistência
por parte das autoridades governamentais, mas também são retratados com a
dignidade dos indivíduos capazes de traçar seu próprio destino. Essa abordagem
encontra ressonância na concepção formal de Da-Rin, que lembra as produções
documentais de Werner Herzog, com uma direção de fotografia que registra as
florestas dentro de um tom seco e sombrio, ressaltando ainda mais o lado
misterioso e mítico dos povos que a habitam.
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