quarta-feira, novembro 14, 2012

As bem amadas, de Christophe Honoré ***


O cinema francês das décadas de 50 e 50, mais precisamente a Nouvelle Vague e os musicais de Jacques Demy, continuam a ser os principais referenciais do imaginário cinematográfico do diretor Christophe Honoré. Isso fica bem evidente em sua obra mais recente, “As bem amadas” (2011). Para não deixar dúvida quanto às suas intenções, o cineasta inicia a trama do filme na Paris dos anos 60. A partir daí, recicla algumas idéias já exploradas em algumas de suas produções anteriores (“Em Paris”, “Canções de amor”): roteiro recheado de elementos existencialistas, abordagem anti-naturalista ao evocar a estrutura de musicais, interpretações um tanto blasé de seu elenco (nesse sentido, a presença da icônica Catherine Deneuve reforça o lado revivalista do cinema do diretor). É fato que a produção não tem a mesma fluidez narrativa de obras mais antigas de Honoré. Mesmo assim, é inegável o poder de sedução de algumas insólitas soluções formais do diretor – afinal, a densidade dramática de algumas cenas se mostram em descompasso com os recursos típicos do gênero musical, tendo um efeito desconcertante para o espectador. Assim, mesmo estando distante do melhor do seu criador, “As bem amadas” reforça o padrão autoral da cinematografia de Honoré.

terça-feira, novembro 13, 2012

O liberdade, de Cíntia Lange e Rafael Andreazza ***


O Liberdade é um bar de Pelotas. Ao meio-dia, diariamente serve almoços. São em algumas noites na semana, entretanto, que se concentram os motivos para que o estabelecimento se estabeleça como uma das principais referências culturais da cidade. Nessas ocasiões, veteranos músicos do chorinho se dedicam a tocar clássicos do gênero, com especial atenção para composições de Avendano Junior, recentemente falecido e que era um dos artistas que mais comparecia a essas sessões musicais. “O liberdade” (2012), o filme, é um documentário a registrar a trajetória do bar e também de alguns dos músicos que lá tocam (inclusive o próprio Avendano Junior), além de colher impressões de alguns dos freqüentadores do local. A obra dirigida por Cíntia Lange e Rafael Andreazza foge de ser um trabalho didático ou institucional. Seu fim é muito mais representar uma espécie de documento sensorial daquele ambiente, elaborando uma concepção formal que se revela em perfeita sintonia com as melodias e harmonias que afloram da tela. Assim, elegantes enquadramentos e uma edição sóbria configuram uma olhar admirado, às vezes quase solene, pela arte de seus protagonistas, a um ponto que o espectador se inebrie com a beleza daquela música e fique intrigado pelo fato de que canções e músicos de qualidade tão excepcional terem um reconhecimento apenas regional. Após os créditos finais, é provável que esse espectador tenha o mesmo anseio do autor desse texto: onde posso conseguir o CD da trilha??

segunda-feira, novembro 12, 2012

Mercenários 2, de Simon West **


Pode parecer óbvio o que vou escrever aqui, mas para discorrer sobre um filme como “Mercenários 2” (2012) a primeira coisa que tem de se ter em mente é que detalhes como um roteiro coerente ou densidade dramática não são exatamente primordiais. Na realidade, a primordial intenção dos produtores da franquia é juntar o máximo de astros do cinema porrada e emular aquelas produções de aventuras violentas oitentistas (ainda que num tom mais asséptico – afinal, não se pode arriscar uma classificação etária muito elevada para não perder público...). É claro que o resultado final é muito distante da classe formal de clássicos do gênero como “Rambo – Programado para matar” (1982) ou “Duro de matar” (1988), mas até que essa segunda parte tem os seus momentos divertidos. Para começar, é bem melhor dirigida que a primeira, principalmente no que diz respeito às cenas de ação (ao contrário do primeiro filme, consegue-se entender o que está acontecendo em cena). Pode-se perceber que o clima de paródia é mais evidente, com uma trama que parece ter sido escrita à medida que a produção ia sendo filmada. As inserções do personagem “interpretado” por Chuck Norris, por exemplo, chegam a ser hilárias de tão grosseiras: parece que os roteiristas, lá pela metade do roteiro, deram-se conta que até o momento não havia papel definido para Norris e inventaram uma desculpa qualquer para colocá-lo na trama. No final das contas, entretanto, um detalhe como esse é irrelevante – o que importa para o público cativo de “Mercenários 2” é que a equação porradaria mais piadinhas infames está ali presente e justificando a realização de uma nova continuação.

sexta-feira, novembro 09, 2012

My name is Bruce, de Bruce Campbell **


A mítica que se criou em torno da figura do ator Bruce Campbell, principalmente pela sua participação na trilogia “Evil Dead”, é um fenômeno típico dentro do universo dos filmes B. Afinal, tal admiração não vem do fato dele ser um ator de grandes recursos dramáticos (o que não é o caso), mas sim pelo seu carisma canastrão e bem humorado que caiu como uma luva nas concepções exageradas e irônicas que Sam Raimi inseriu em sua clássica franquia de horror. Assim, nada mais natural que entre os subprodutos que surgissem a partir desse esdrúxulo culto aparecesse esse “My name is Bruce” (2007), produção dirigida pelo próprio Campbell e que tem como protagonista, ora vejam só, Bruce Campbell. Como cineasta, é claro que ele não tem a mesma classe de um Sam Raimi e nem o seu filme consegue encostar nos calcanhares de qualquer uma das produções da trilogia que deu fama para Campbell, mas é inegável que o “astro” não tinha maiores pretensões do que tirar um sarro da sua condição de ídolo. Nesse contexto, é possível dar umas risadas com o seu filme, principalmente nos momentos de humor mais escroto ou pela fuleiragem das trucagens.

quinta-feira, novembro 08, 2012

Uma noite alucinante 2, de Sam Raimi ****


25 anos após seu lançamento, “Uma noite alucinante 2” (1987) permanece como uma experiência cinematográfica impactante. E não apenas pelos seus aspectos extremos em termos de violência gráfica (até porque a primeira parte do filme, nesse quesito, foi ainda mais chocante). O que torna o filme em questão ainda uma obra memorável é a originalidade de seu formalismo. Apesar de ser uma produção tipicamente B pelos seus recursos, ela impressiona pela dimensão quase barroca que o diretor Sam Raimi injeta em sua estética. Os enlouquecidos movimentos de câmera que simulam espíritos malignos perseguindo as suas vítimas, as criativas trucagens que capricham no sangue e na caracterização grotesca de criaturas monstruosas, a narrativa que varia sem cerimônias entre o horror escatológico e a comédia escrachada e mesmos as atuações exageradas de um elenco eminentemente canastrão são elementos que configuram um filme perturbador e ousado, e que também extrapola o seu próprio gênero ao propor uma linguagem inovadora. Posteriormente, Raimi teve outros grandes momentos de brilho (“Darkman”, “Um plano simples”, “Homem-Aranha 2” e “Arrasta-me para o inferno”), mas é “Uma noite alucinante 2” que marca o seu auge artístico como cineasta.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Marighella, de Isa Grispum Ferraz ***


Talvez o fato da diretora Isa Grispum Ferraz ser sobrinha do guerrilheiro Carlos Marighella possa fazer supor que o documentário “Marighella” (2011) seja uma obra hagiográfica em relação a figura cinebiografada em questão. A proposta da cineasta, entretanto, não é a de se ater a um registro objetivo dos fatos. Sua abordagem justamente aproveita o seu parentesco para realizar uma contraposição entre a figura pública do tio com a do homem boa praça com quem teve um breve e ameno contato doméstico. Isa Ferraz não apresenta respostas prontas para o espectador – na verdade, a platéia é quase uma cúmplice da diretora na construção do quebra-cabeça que representa a vida de Marighella. Em alguns momentos, ela prefere expor facetas pouco conhecidas do protagonista, principalmente ao evidenciar a sua veia poética. Mas isso não quer dizer que abdica de mostrar os principais fatos que tornaram Marighella um dos mais notórios rebeldes da história do Brasil. Um dos pontos mais interessantes do filme está justamente nessa tendência em confrontar a exposição de um lado mais intimista do guerrilheiro, tanto nas suas tendências para o lirismo quanto no romantismo de sua vida amorosa, com a sua personalidade explosiva como desafiador da ordem vigente. Assim, a profusão de imagens de arquivos e depoimentos mais configura um imaginário sentimental e político sobre Marighella do que uma investigação jornalística. Em termos cinematográficos, essa escolha estética e temática da diretora se revela mais fascinante ao dar um caráter perene e instigante para o seu documentário.

terça-feira, novembro 06, 2012

360, de Fernando Meirelles **1/2


A cada obra sua que aparece nos cinemas, Fernando Meirelles faz crescer a suspeita de que “Cidade de Deus” (2002) foi um feliz acidente em sua filmografia. “360” (2012) ajuda a corroborar essa suposição. O elenco estelar é competente (com destaque para Ben Foster em seu habitual registro maníaco), a direção de fotografia é bonita e o trabalho de montagem ajudar a deixar palatável uma obra marcada por temas incômodos (prostituição, infidelidade, conflitos familiares). E é justamente aí, no que era para ser “qualidades” artísticas, que a obra de Meirelles acaba falhando – “360” é agradável e bonito como uma boa peça publicitária, mas não pega na veia como narrativa cinematográfica. Não há cenas que colem no imaginário cinematográfico do espectador ou alguma dimensão artística mais ousada nas concepções formais engessadas de Meirelles.

segunda-feira, novembro 05, 2012

O asfalto, de Joe May ****


Apesar de não ser um legítimo representante do expressionismo alemão, “O asfalto” (1929) apresenta elementos semelhantes aos daqueles de tal estética cinematográfica. Apresentando uma estrutura clássica de melodrama, o filme se destaca em detalhes que perventem o seu gênero, principalmente no que diz respeito a uma certa ambiência sórdida e na sua ambigüidade temática – há um perturbador conflito que oscila entre a atração e a repulsa na relação amorosa entre um policial honesto e uma sedutora ladra de jóias. O diretor Joe May estabelece uma narrativa envolvente, em que mesmo excessos emocionais nas caracterizações de situações e personagens ganham vigorosa dimensão dramática em meio a um trabalho esmerado da direção de fotografia que explora habilmente os jogos de claro e escuro.

sexta-feira, outubro 26, 2012

Os assassinos estão entre nós, de Wolfgang Staudte ***1/2


Ainda que marcada por alguns excessos melodramáticos, “Os assassinos estão entre nós” (1946) é uma obra capaz de impressionar o espectador contemporâneo, tanto na temática quanto nos seus aspectos formais. O ano em que foi lançada é decisivo para compreensão de seus méritos. A 2ª Guerra Mundial recém havia terminado. Surpreende que numa época em que as chagas do conflito ainda eram tão presentes tenha aparecido um filme cuja trama é um acerto de contas com a participação da sociedade alemã em alguns dos mais hediondos atos da época do nazismo. O diretor Wolfgang Staudete consegue sintetizar essa questão na figura de um simpático industriário, que no período da guerra havia atuado como um oficial nazista responsável por atos de pura barbárie. Aliado a esse incômodo roteiro, há uma orientação estética que remete a muitos dos preceitos mais caros do expressionismo alemão, tanto no intenso jogo de claros e escuros a ressaltar o tom sombrio do filme quanto numa encenação marcada por um certo barroquismo exagerado – situada nas ruínas resultantes da guerra, a ambientação evoca um clima de horror, acentuado ainda mais uma atmosfera que oscila entre o realismo e o terror psicológico beirando o delirante.

quinta-feira, outubro 25, 2012

Eu tinha dezenove anos, de Konrad Wolf ****


Legítima pérola obscura não só do cinema germânico como do mundial, “Eu tinha 19 anos” (1968) propõe uma linguagem formal audaciosa para refletir sobre a ressaca moral da Alemanha diante das consequências do final da 2ª Guerra Mundial. Apesar de ser uma obra ficcional de cunho fortemente dramático, por vezes o filme evoca um estilo frio e distanciado, principalmente pela direção de fotografia e pela edição que enveredam pela estética documental. O resultado dessa forma de filmar acaba tendo um efeito contundente sobre o espectador – o diretor Konrad Wolf não busca a empatia sentimental, realçando mais a sensação de incômodo e vergonha de um povo diante de um passado recente marcado por atitudes monstruosas e trágicas. Mesmo quando a produção envereda para a ação envolvendo algumas poucas batalhas campais, o registro visual é reflexivo; a violência de tiros e mortes não é banalizada, com cada disparo de fuzis ressoando um impressionante impacto sensorial. E se a 2ª Guerra Mundial foi um dos fatos históricos que mais serviu como pano de fundo para produções cinematográficas dos últimos 80, “Eu tinha dezenove anos” se apresenta como avis rara diante de um gênero tão marcado pelas obviedades.

quarta-feira, outubro 24, 2012

O ditador, de Larry Charles ***1/2


Se em “Borat” (2007) e “Bruno” (2009) a parceria entre o diretor Larry Charles e o ator Sacha Baron Cohen promovia uma ousada mistura entre ficção e documentário, em “O ditador” (2012) eles abandonam essa estrutura narrativa e investem numa trama puramente ficcional. Isso não quer dizer, entretanto, que perderam a criatividade e a ironia ácida características das produções anteriores. A narrativa farsesca oscila entre o grotesco e o escatológico ao expor sem cerimônias os preconceitos e contradições da sociedade ocidental. Por vezes, o filme até brinca com uma certa concepção formal mais tosca, num registro estético que beira o documental, como se sugerisse que estivéssemos vendo uma grande reportagem. A brincadeira com estereótipos grosseiros de racismo e obscurantismo junto a um estilo de narrativa que parece ter um tom aleatório aos poucos revelam uma arguta coerência artística da obra. Os questionamentos levantados pelo filme, observados com uma olhar mais clínico, revelam até uma sutileza a expor dilemas complexos do panorama político mundial. E por mais que busque o riso do espectador, revela amargura e perplexidade com os caminhos atuais da humanidade.

terça-feira, outubro 23, 2012

O vingador do futuro, de Len Wiseman **1/2


Vamos convencionar uma coisa: por mais que diretores, produtores e atores tentem nos convencer que eles se envolvem em refilmagens por razões artísticas, a verdade é que a grande maioria de tais “releituras” (e até mesmo os tão falados reboots) tem por fim principal objetivos comerciais. O que não é demérito ou surpresa: cinema, antes de tudo, é indústria... Encarando por tal perspectiva é que se pode entender porque alguém ousaria fazer uma nova versão, em pleno 2012, para “O vingador do futuro”, obra exemplar do gênero ficção científica de aventura lançada em 1990, um filme que por si só não precisaria ser melhorado em praticamente nada. Na comparação, a versão mais recente dirigida por Len Wiseman não chega aos pés em termos de criatividade e como narrativa da produção original comandada pelo holandês genial Paul Verhoeven. Não há um astro carismático como Arnold Schwarzenegger como protagonista, um vilão assustador como o mítico Michael Ironside e, principalmente, o senso de humor perverso e violento estabelecido por Verhoeven. Se olharmos o filme de Wiseman sem essa sombra de uma comparação pesada com um clássico, entretanto, até pode-se perceber alguns detalhes expressivos como as interessantes trucagens e direção de arte que lembram outros grandes filmes do gênero. Mas no final das contas, acaba sendo muito pouco, numa visão que extrapola o simples interesse mercantilista, para justificar uma pretensa recriação.

segunda-feira, outubro 22, 2012

Tudo que eu amo, de Jacek Borcuch ***


Uma obra mostrando fatos típicos no amadurecimento de um adolescente, como as primeiras experiências sexuais e desilusões, não chega a ser uma novidade no cinema. O que acaba fazendo com que uma obra como “Tudo que eu amo” (2009) seja cativante e desperte o interesse das platéias é o estilo sereno da direção de Jacek Borcuch e alguns detalhes particulares do contexto histórico em que a trama de desenvolve. Focalizando um jovem vocalista de banda punk na Polônia em 1981, marcado pelo auge das divergências entre o governo comunista e o movimento do sindicato solidariedade, o filme estabelece uma forte relação intrínseca entre o intimismo da vida pessoal de seu protagonista com o conturbado momento político e social de seu país. A narrativa tem uma dinâmica que oscila entre a melancolia, a tensão e o vigoroso. Nesse último quesito, são antológicos os números musicais, tanto pela qualidade das canções quanto pelo tom frenético das apresentações (altamente educativas para fãs de bandinhas emo brasileiras saberem o que é punk rock).

sexta-feira, outubro 19, 2012

A tentação, de Mattwew Chapman *1/2


Filmes cuja intenção principal é divulgar alguma doutrina religiosa não representam uma novidade. É só se prestar atenção na regularidade com que aparecem em nossos cinemas produções de temática espírita ou católica. Agora uma produção a defender de forma veemente o ateísmo não é algo que aparece todo dia. E esse é o caso de “A tentação” (2011). A visão da obra sobre a religiosidade é pouco lisonjeira – crenças serviriam apenas para estimular o fanatismo e o obscurantismo, gerando infelicidade para os seus crentes. Independente de concordar ou não com tal ótica, o que mais incomoda no filme é o traço esquemático de sua narrativa, além da forma caricatural com que caracteriza os seus “vilões”. A ideia central da possibilidade de transcendência de um ser humano mesmo não tendo alguma religião é interessante, mas acaba retratada de forma banal. Assim, no máximo, pode-se dizer que “A tentação” desperta curiosidade pela sua temática inusitada, mas apenas por isso.

quinta-feira, outubro 18, 2012

A primeira coisa bela, de Paolo Virzi **1/2


Um dos tipos mais característicos de produções italianas são aquelas comédias dramáticas que transitam sem cerimônia entre o sentimental, o irônico e o sensual. “A primeira coisa bela” (2010) se mostra como um exemplar razoável dessa linhagem. O filme do diretor Paolo Virzi tangencia algumas complexidades, principalmente quando foca a personalidade do protagonista Bruno (Valério Mastandrea), um professor quarentão desajustado e viciado em drogas. Quando o roteiro parte para as explicações do comportamento de Bruno, centra-se na figura de uma mãe amorosa e um tanto irresponsável. A narrativa envereda na transição entre o presente e o passado de forma esquemática, utilizando o manjado recurso de que a melhor compreensão do que ocorreu na trajetória dos personagens fará com que no presente eles sejam pessoas razoáveis. Apesar de suas simplificações temáticas e de um formalismo quadradão que não o tornam uma experiência cinematográfica especialmente memorável, o filme até cativa em alguns momentos por um certo caráter bonachão de determinadas sequências.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Aqui é o meu lugar, de Paolo Sorrentino ***1/2


Se em “O divo” (2008) o diretor italiano Paolo Sorrentino investiu numa visceral mescla de thriller político e filme de máfia, em “Aqui é o meu lugar” (2011) ele concebe uma obra de caráter mais contemplativo, repleta de estranhos simbolismos. A insólita mistura de gêneros continua presente: há elementos de road movie, toques de drama de guerra, por vezes uma atmosfera de comédia agridoce (evocando algo das produções setentistas de Hal Ashby). Acentuando ainda mais esse clima de estranheza, o fato do filme mostrar um rock star aposentado possibilita uma série de referências à cultura rock. E que acabam não sendo gratuitas: Cheyenne (Sean Penn) parece um misto de Robert Smith e David Bowie, conectando duas linhagens importante na história do rock, o gótico e o glam. Esses estilos são bastante ligados a conceitos como a melancolia, o ridículo e a decadência, características essas que baseiam muitas tanto atitudes de Cheyenne como situações do roteiro. Assim, por mais esquisitos e improváveis que sejam os rumos da trama, há uma coerência na conexão de elementos tão distintos. Sorrentino amarra tudo isso dentro de uma concepção formal de certo rigor estético, privilegiando ora planos fixos, ora planos seqüências. Sua abordagem emocional distanciada afasta seu filme do sentimentalismo fácil, fazendo com que transite numa área nebulosa entre o solene e o irônico. Ainda que não apresente a fúria criativa e épica de “O divo”, Sorrentino elabora em “Aqui é o meu lugar” uma obra cativante e de forte cunho autoral.

terça-feira, outubro 16, 2012

Vou rifar meu coração, de Ana Rieper ***


Em um primeiro momento, pode-se pensar que Ana Rieper enveredou em “Vou rifar meu coração” (2011) pelos caminhos tradicionais dos documentários musicais que de forma habitual vêm aparecendo nos cinemas. Afinal, canções e músicos vinculados ao gênero brega aparecem como fios condutores da narrativa. Na essência, entretanto, a produção dirigida por Rieper busca um objetivo mais nebuloso e complexo, querendo traçar uma espécie de itinerário existencial dos descaminhos amorosos do povo brasileiro. A concepção da cineasta é descarnada tanto no seu formalismo quanto no campo temático: no filme não há uma preocupação em detalhar a biografia dos cantores ou ressaltar sua importância (nem mesmo são colocadas legendas para identificação dos artistas), com depoimentos deles e populares simplesmente jogados na tela sem maiores cerimônias, assim como Rieper não se constrange em expor as entranhas sentimentais de seus entrevistados sem medo de resvalar no ridículo ou ofensivo. Nessa linha, o espectador envereda em um roteiro que abarca sexualidade a flor da pele, homossexualismo, bigamia, adultério, prostituição e um pouco de sordidez, mas sempre deixando brecha para mostrar que no meio de tudo isso há sempre espaço para o amor. Para Rieper, nada ilustra melhor essa montanha russa de emoções (que variam entre o emotivo, o perturbador ou o ridículo) do que as letras derramadas das canções de Odair José, Agnaldo Timóteo, Wando ou outro dos bardos focados em “Vou rifar meu coração”.

segunda-feira, outubro 15, 2012

O que eu mais desejo, de Hirokazu Kore-Eda ***1/2


O diretor japonês Hirokazu Kore-Eda trafega em um gênero que beira o melodrama em “O que eu mais desejo” (2011). Com uma trama abordando questões familiares, e ainda tendo como fio condutor da narrativa o olhar infantil de uma dupla de irmãos, o filme se afasta do meramente sentimental. A influência da percepção dos protagonistas faz com que a produção adquira uma espécie de suave tensão entre o realismo e o viés fabular/onírico. O roteiro não apresenta grandes viradas e nem maiores arroubos dramáticos – sua preferência vai pelo registro discreto de pequenos atos do cotidiano. Tal opção não é gratuita, pois reforça ainda mais a angústia dos personagens principais pela reconciliação dos pais separados. O tom sereno da narrativa evoca algo da cinematografia do mestre Yasujiro Ozu, apesar de Kore-Eda não ter uma estética espartana tão rigorosa como Ozu. Essa aproximação se concretiza na proposta temática sem concessões: por mais que se possa comover e torcer pelo destino dos garotos, as resoluções dramáticas não apelam para soluções fáceis, revelando uma coerência com a proposta autoral do cineasta. Assim, ainda que não tenha a contundência criativa de “Depois da vida” (1998) ou “Ninguém pode saber” (2004), “O que eu mais desejo” se mostra em sintonia com o padrão autoral e artístico de Kore-Eda.

quinta-feira, outubro 11, 2012

Bel ami - O sedutor, de Declan Donnellan e Nick Ormerod **1/2


Seria equivocado dizer que uma adaptação cinematográfica de uma obra literária como esse “Bel Ami – O sedutor” (2012) é bem sucedida apenas pelo fato de trazer uma fotografia bonita, uma direção de arte requintada e uma edição competente. Na verdade, tais atributos apenas configuram uma produção agradável para as platéias em geral, mas incapaz de efetivamente de criar algum atrito criativo que possa instigar o espectador. O que azeda o filme na realidade, e o torna aquém do romance original de Guy de Maupassant, é a falta de sintonia dos diretores Declan Donnellan e Nick Ormerod com aquilo que pode ser considerado a essência real do livro. Pode-se perceber que há um descompasso do texto, irônico e cruel, com a narrativa solene e as interpretações do elenco, algo melodramáticas em excesso. Para aqueles interessados em algo mais consistente na linha de combinação de filmes de época com adaptações de clássicos da literatura, recomenda-se obras mais consistentes como “A época da inocência” (1993) e “Orgulho e preconceito” (2005).

quarta-feira, outubro 10, 2012

O que esperar quando vocês está esperando, de Kirk Jones *1/2


Talvez a narrativa-mosaico, onde não existe um protagonista definido (a maioria dos personagens são “principais”), seja o formato ideal para genéricas comédias românticas na linha “água-com-açucar” edificante. Afinal, com tantos personagens na trama não haveria a necessidade de desenvolvê-los com alguma profundidade. Bastaria colocá-los vivenciando algum drama corriqueiro e depois lhes dar o devido final feliz. “O que esperar quando você está esperando” (2012) ilustra bem essa tendência. Sob o pretexto de focar as delícias e agruras da maternidade/paternidade, o filme adota uma postura de almanaque de conselhos e situações superficiais na intenção de criar uma identificação com a platéia. A concepção formal do diretor Kirk Jones é bastante limitada em termos criativos: direção de fotografia e edição estilo “comercial de margarida” e atores e atrizes fotogênicos em interpretações no piloto automático. É provável que agrade um público menos exigente, mas também é possível que fuja logo da lembrança desse mesmo espectador.

terça-feira, outubro 09, 2012

Um verão escaldante, de Philippe Garrel **1/2


Os melhores momentos do cineasta francês Philippe Garrel ocorrem quando ele envereda para o cinema de gêneros a partir de seu estilo cerebral e retrô. O resultado configura obras instigantes e perturbadoras como o policial “Inocência selvagem” (2001) e o horror “A fronteira da alvorada” (2008). Quando Garrel enfoca exclusivamente o drama, como em “Os amantes constantes” (2001), entretanto, acaba não se saindo tão bem. E esse parece ser o caso de “Um verão escaldante” (2010). O cineasta consegue extrair uma interessante química em seus atores, assim como estabelece uma direção de elenco que se vale muito mais de um iconismo do que de profundidades psicológicas. A fotografia evoca uma certa atmosfera atemporal, pelos seus tons esmaecidos, provocando algum encanto estranho, ainda mais pela habitual abordagem emocional distanciada do diretor. O que pega mal para o filme é que esses bons elementos isolados não conseguem interagir de forma convincente devido à narrativa amorfa estabelecida por Garrel. É como se ele se perdesse numa viagem estética nostálgica e blasé da Nouvelle Vague – pode-se até sentir simpatia pelo estilo que lembra algo agradável no universo do nosso imaginário cinematográfico, mas sua inconsistência como obra acabada o joga no limbo do descartável.

segunda-feira, outubro 08, 2012

As idades do amor, de Giovanni Veronesi *


Assim como no recente “Para Roma com amor” (2012) de Woody Allen, “As idades do amor” (2011) evoca aquelas típicas produções episódicas italianas dos anos 60 e 70 que traziam um humor entre o escrachado e o picaresco. Se o filme de Allen apresentava uma certa recriação irônica e particular de tal gênero, neste filme do diretor Giovanni Veronesi a relação se encaixa de forma vaga. É um filme asséptico e bem comportado, com um visual cartão postal. Na realidade, vincula-se muito mais com comédias românticas norte-americanas contemporâneas do que propriamente com a tradição cômica cinematográfica de seu país. E desperta a indagação: será que Robert De Niro está tão necessitado de grana para se meter em mais uma obra tão medíocre?

A guerra dos botões, de Yann Samuell ***


O livro “A guerra dos botões” é um clássico da literatura infantil e já recebeu algumas versões para o cinema. Esta mais recente adaptação (2011) não se propõe a uma visão radical em relação às obras anteriores. Claro, alguns pequenos detalhes buscam uma atualização de leve, como o fato de ter uma menina que adquire um tom mais ativo dentro dos conflitos entre dois grupos rivais de crianças e adolescentes. Mas no cerne, o filme de Yann Samuell busca uma saudável nostalgia, evocando uma época em que os infantes nem poderiam supor que um dia existiria vídeo games ou internet. Isso não quer dizer que o filme seja conservador. Significa que há apenas uma abordagem formal sem estilizações ou tons sombrios. A fotografia é clara e luminosa, o registro da ação dispensa a edição picotada ou outros truques, o delineamento dos personagens não se atem a maiores profundidades psicológicas (mas sem fazer com que eles não tenham um inegável carisma). Samuell elabora com sensibilidade uma atmosfera equilibrada entre a comicidade e a dramaticidade das situações, compondo uma obra em perfeita sintonia com a forte tradição do cinema francês em propor uma visão diferenciada sobre a juventude (a exemplo de título como “Os incompreendidos” e “O pequeno Nicolau”).

quarta-feira, outubro 03, 2012

Além da liberdade, de Luc Besson **1/2


Por mais longe que pudesse estar da unanimidade, a cinematografia de Luc Besson sempre foi marcada na exploração de uma linguagem estética que por vezes enveredava pela estilização e barroquismo exagerados. O lado temático, por sua vez, não era o aspecto prioritário em sua concepção de cinema. “Além da liberdade” (2011) nada contra a corrente dentro dessa lógica. É claro que há um cuidado formal em termos de direção de arte e fotografia, mas o foco principal do filme é a trama baseada em fatos reais, que retrata os percalços de uma líder política em meio a ditadura na Birmânia. A reconstituição de detalhes dessa luta da protagonista tem a clara função panfletária de divulgar a sua causa. Tal intenção é nobre, e é mérito de Besson a condução de uma narrativa longa (mais de duas horas) que até consegue prender a atenção do espectador. No saldo final, entretanto, “Além da liberdade” é frustrante pela ausência de maiores vôos criativos do cineasta: podemos simpatizar com os ideais de sua heroína, mas praticamente não há cenas que se fixem no nosso imaginário.

terça-feira, outubro 02, 2012

Batman - O cavaleiro das trevas ressurge, de Christopher Nolan **1/2


A trilogia concebida por Christopher Nolan para Batman apresenta uma certa esquizofrenia em relação à abordagem de cada um dos filmes. “Batman Begins” (2006) era tão sóbrio e contido que beirava a assepsia. Já “Batman – O cavaleiro das trevas” (2008) era incrivelmente denso na construção psicológica de seus personagens e situações, mas também enveredava para um thriller de ação bastante movimentado. Não à toa, foi o melhor filme disparado da franquia de Nolan. A conclusão da saga em “Batman – O cavaleiro das trevas ressurge” (2012) é a negação dos filmes anteriores: é exagerado, desprovido de sutileza, com uma dramaticidade derramada que beira o brega, repleto de personagens mal caracterizados. É tão barulhento e frenético que chega até a hipnotizar o espectador no seu turbilhão constante de mil coisas acontecendo ao mesmo tempo. Se por um lado a platéia fica seduzida com o pandemônio de Nolan, logo após o final do filme corre o risco de sentir um certo vazio. Fica-se com a sensação de uma obra pensada e executada às pressas, muito distante das nuances narrativas bem delineadas da segunda parte. É claro que o furor sentimental do filme até tem uma certa conotação cativante. Mas irrita ver um protagonista como Batman tão estúpido e impulsivo (como é que lá pela metade do filme ele não percebeu que o seu interesse romântico era a verdadeira vilã da trama? Por que ele, enfraquecido e fora de forma, resolve procurar um Bane no auge do vigor físico para enfrentá-lo num corpo-a-corpo suicida?) e trucagens digitais derivativas em excesso. Diante desse quadro, um reboot para a franquia até não chega a ser uma má idéia...

segunda-feira, outubro 01, 2012

Violeta vai para o céu, de Andrés Wood ***


Dentro do padrão habitual de cinebiografias, a produção chilena “Violeta vai para o céu” (2011) surpreende por fugir de algumas obviedades narrativas. A principal ousadia seria da mera recriação cronológica e linear dos fatos. O diretor Andrés Wood pega situações importantes da vida da célebre cantora e compositora Violeta Parra e os encadeia segundo uma lógica mais poética e simbólica do que histórica. A forma com que monta narrativa parece refletir o próprio caos criativo e sentimental que envolvia a sua protagonista. A montagem e a fotografia também obedecem a essa concepção formal e temática de Wood, sugerindo uma ótica mais sensorial e menos objetiva – é admirável, por exemplo, como os números musicais se relacionam com episódios do roteiro. Nesses termos, o filme acaba sendo revelador não só da intimidade da artista, mas também do seu particular processo de composição e mesmo performático, evocando uma sintonia cultural e existencial de Parra com a vida e a arte dos anônimos que habitam os grotões do Chile. Colabora também para o impacto de “Violeta vai para o céu” a atuação de entrega de Francisca Gavilán no papel principal.

sexta-feira, setembro 28, 2012

Beaufort, de Joseph Cedar ***


Apesar de se enquadrar no gênero drama de guerra, a produção israelense “Beaufort” (2007) não se propõe a um registro épico-heróico ou a uma defesa das atitudes bélicas dos judeus. Sua visão da guerra é mais intimista, focando os dilemas dos militares envolvidos na defesa de um forte localizado no Líbano. Contradições, escolhas equivocadas e questionamentos acabam se revelando tão contundentes quanto a violência das batalhas. A abordagem formal do diretor Joseph Cedar é sóbria, privilegiando tomadas sombrias, que parecem refletir a própria condição existencial atormentada de oficiais e soldados. “Beaufort” não chega a nenhuma conclusão nova sobre a sua temática e não é especialmente memorável na sua estética rigorosa, mas é uma obra envolvente na sua pesada narrativa.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Valente, de Mark Andrews e Brenda Chapman ***1/2


A qualidade do traço e o capricho visual dos efeitos digitais são evidentes em “Valente” (2012). Mas essa competência formal é quase uma regra nesse gênero de animações contemporâneas. O que faz o filme dos diretores Mark Andrews e Brenda Chapman se destacar, assim como outras produções do estúdio Pixar, são dois pontos: o roteiro bem delineado e a ágil dinâmica narrativa. A trama concilia de forma equilibrada uma forte dimensão dramática com toques de humor e referências pop, sem parecer uma colcha de retalho. O tom fabular apresenta nuances temáticas até ousadas que destoam sutilmente dos cânones das histórias infantis tradicionais, trazendo questionamentos sobre o habitual papel submisso e meramente romântico das “mocinhas”. Mas o interesse que o filme pode despertar não se restringe a um aspecto sociológico/cultural. Andrews e Chapman apresentam cenas memoráveis em termos de ação, além de enfatizar em algumas sequências violentos embates físicos e atmosferas sombrias. Tal brutalidade e climas sinistros mostram que mesmo no estilo contos-de-fada a Pixar consegue deixar impressa a sua marca particular.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Chernobyl, de Bradley Parker **1/2


Por mais que o cinema de horror se aprofunde na fantasia, sempre haverá uma ligação com o real, em menor ou maior grau, ingrediente esse que colabora para a capacidade das produções do gênero de perturbar as platéias. Em “Chernobyl” (2012), essa característica é evidente. O diretor Bradley Parker retoma aquela clássica ligação entre experimentos nucleares e o surgimento de criaturas mutantes, em voga desde as produções ficções científicas B dos anos 50, fazendo a relação com a tragédia do acidente nuclear na União Soviética na década de 80. Ainda que Parker não apresente maiores voos formais na composição de sua narrativa, é inegável que o filme estabelece uma interessante atmosfera sinistra ao contrapor uma típica trama de jovens incautos sendo perseguidos e mortos por seres monstruosos com um subtexto (seria involuntário?) a mostrar uma cidade abandonada e em ruínas, como se o seu isolamento físico refletisse a própria ruína econômica e moral do império soviético.

Na estrada, de Walter Salles ***


Minha expectativa era baixa para “Na estrada” (2012). Assim que fiquei sabendo que Walter Salles seria responsável pela adaptação do célebre livro de Jack Kerouac desanimei com o destino da produção. Não que eu ache Salles um mau cineasta. No geral, ele faz filmes corretos, com exceções acima da média (“Terra estrangeira”, “Abril despedaçado”). É o tipo de diretor que gosta de “contar uma história” em seus filmes, o que não se mostraria em sintonia com a obra literária de Kerouac, que é um romance que se concentra mais em um estilo muito particular, em que o ritmo da narrativa, o seu aspecto sensorial, que como linguagem artística remete muito ao jazz improvisado de John Coltrane, é mais importante do que detalhes de trama. Vendo o filme, entretanto, a conclusão que se chega é dúbia. Se compararmos diretamente com o livro, a versão cinematográfica sai perdendo pelo tom comportado de sua dinâmica narrativa e até por uma certa conotação moralista do roteiro. Desligando de tal comparação, “Na estrada” ganha uma perspectiva mais positiva e surpreendente. O trabalho de direção de fotografia e de direção de arte é notável na composição de uma atmosfera melancólica e algo “fora do tempo”. Já os esfuziantes números musicais, relacionados diretamente ao jazz em diversas de suas vertentes, são filmados com paixão e vigor. Por fim, destacam-se ainda as boas composições dramáticas de seu elenco, com destaque para o jovem trio principal de protagonistas na sua exata equação de naturalismo e estilização icônica. Assim, por mais que possa decepcionar os apreciadores de Kerouac, “Na estrada” acaba representando um passo expressivo na filmografia de Salles.

segunda-feira, setembro 24, 2012

Pavor na cidade dos zumbis, de Lucio Fulci ****


Na cinematografia de Lucio Fulci, roteiro é algo que beira o rarefeito – o cineasta parece se guiar perante um esqueleto de trama, em boa parte das vezes repleto de buracos, e assim constrói seus filmes a base de sufocantes atmosferas de horror e de cenas de riqueza visual perturbadora. A partir de tais preceitos, “Pavor na cidade dos zumbis” (1980) é um dos mais impressionantes exemplos da estranha arte de Fulci. O espectador tem uma vaga noção de que a história do filme tem alguma relação com portais para o inferno, demônios e zumbis. O que interessa efetivamente em tal obra é a propensão do diretor italiano para construir uma narrativa que beira o onírico tamanha a sua estranheza, assim como uma série de seqüências antológicas na sua violência gráfica brutal e barroca. O sentido surreal das cenas não se impõe de um cerebralismo, mas de uma lógica grotesca de realidade por parte de Fulci. Não é gratuito, assim, que Tarantino tenha citado as tomadas de uma personagem enterrada viva para o segundo volume de “Kill Bill” (2004).

O espetacular Homem-Aranha, de Marc Webb **1/2


A herança indie de Marc Webb, diretor da comédia romântica “500 dias com ela” (2009), fica evidente na sua visão para “O espetacular Homem-Aranha” (2012). Isso porque é nítida a sua preocupação em dar um maior estofo dramático para o filme, realçando mais as relações humanas. De certa, não deixa de apresentar uma certa sintonia com o espírito original do personagem nos quadrinhos, principalmente ao retratar aspectos do cotidiano e comportamento de adolescentes (ainda que o Peter Parker de Andrew Garfield por vezes mais evoca um adolescente rebelde do que um CDF tímido). Isso não implica, contudo, em uma obra mais densa e memorável. Afinal, no universo do Aranha, a ação também tem um papel primordial. Nesse campo, é evidente que Webb não tem o mesmo senso virtuose e grandioso de Sam Raimi na encenação de sua narrativa. As seqüências de ação são competentes, mas também não chegam a ser surpreendentes ou memoráveis. A ênfase no “real” em retratar os dilemas dos personagens acaba sacrificando bastante da fluência da narrativa, tornando o filme um tanto artificial na sua pretensa “seriedade dramática” (aliás, essa pretensa seriedade é questionável por decisões como o fato de Parker revelar de forma inexplicável e cretina para Gwen Stacy que ele é o Aranha!). No cômputo geral da comparação com a trilogia anterior da franquia, é difícil dizer se essa primeira produção do reboot é melhor ou pior que a criticada e irregular terceira parte dirigida por Raimi, mas com certeza é inferior aos dois primeiros (principal em relação à segunda parte, uma das melhores transposições de um gibi para o cinema).

Histórias que só existem quando lembradas, de Julia Murat ***1/2


A diretora Julia Murat se aventura por caminhos perigosos em “Histórias que só existem quando lembradas” (2011). Através de uma narrativa lenta e minuciosa, investe na repetição de atos corriqueiros, quase como se as cenas buscassem uma sutil variação entre elas (de certa forma, parece uma canção que vai sendo burilada lentamente em diferentes versões). Isso não quer dizer, entretanto, que a cineasta busque simplesmente o tédio estéril. Na realidade, a reincidência de pequenos rituais entre os parcos habitantes de um vilarejo acaba gerando uma sensação de hipnótica beleza, tanto no sereno e luminoso registro visual quanto no esmiuçamento da ação e dos diálogos. A atmosfera concebida varia entre uma espécie de beatitude do cotidiano e a sensação do fantástico de um universo que se coloca à parte do real. A ideia da fantasia não se concretiza em trucagens, mas na sugestão para o olhar do espectador: será que os idosos que residem naquela localidade estão numa espécie de limbo? São imortais? Ou somente são pessoas comuns que acreditam que podem morrer apenas quando quiserem? Murat não se mostra disposta a entregar respostas fáceis para a plateia. Um dos segredos da sedução de seu filme está justamente no mistério e na falta de explicações convencionais que rondam seu roteiro.

Cairo 678, de Mohamed Diab ***


A combinação do gênero melodrama com um tom panfletário na produção egípcia “Cairo 678” (2011) pode soar óbvia em um primeiro momento. Uma das intenções do filme é justamente propor uma visão bastante crítica do machismo e preconceito inerentes à sociedade muçulmana. A indignação social que emana por parte de sua trama não contamina, entretanto, a noção de espetáculo cinematográfico do diretor Mohamed Diab. A obra não se formata como peça de propaganda – há um roteiro bem delineado a explorar os aspectos contraditórios e dilemas de situações e personagens. Mesmo quando realça de forma crua o grotesco sexismo dos assédios sofridos pelas principais personagens, tais momentos não ganham o simples viés apelativo de uma manipulação emocional. Pelo contrário: valorizam ainda mais a dinâmica narrativa concebida por Diab, num misto entre o caráter sentimental de algumas cenas com um registro objetivo que beira o documental.

quinta-feira, setembro 13, 2012

A velha dos fundos, de Pablo Meza **1/2


Mesmo sem maiores arroubos criativos formais e nem tendo alguma seqüência particularmente memorável, a produção argentina “A velha dos fundos” (2011) acaba causando certo interesse pela sua ambientação sóbria e seca, expondo temas do quotidiano como a solidão e as dificuldades financeiras sem soluções fáceis. O registro delineado pelo diretor Pablo Meza valoriza silêncios, enfatiza a dramaticidade através de pequenos gestos e utiliza quase sempre planos fixos, compondo uma narrativa de viés realista que se sintoniza com o tom melancólico da trama. Por mais que o filme possa ser monótono em alguns momentos, tal direcionamento se mostra coerente com a sua proposta temática. Eventualmente, “A velha dos fundos” atinge alguns picos emocionais ao ressaltar as desilusões de seus personagens principais ao se defrontarem com as durezas e impossibilidades de suas rotinas, sem que necessariamente caia em tragédias exageradas.

quarta-feira, setembro 12, 2012

A era do gelo 4, de Steve Martino e Mike Thurmeier **1/2


É claro que animações na linha desse “A era do gelo 4” (2012) sempre terão uma qualidade esmerada no seu traço e vasto recursos de produção que não as deixariam se qualificar exatamente como obras “ruins”. O que causa desconforto é a falta de alguma ousadia, de alguma densidade dramática capaz de causar tensão na plateia (qualidade que pode ser encontrada, por exemplo, em várias produções da Pixar). Nesse mais recente capítulo da franquia, a condução da narrativa é tão burocrática que até os momentos do esquilo alucinado por uma noz acabam soando pouco impactantes. Ocasionais surpresas que poderiam fugir desse marasmo (a caracterização repulsiva de alguns dos personagens vilões, as figuras assustadoras dos “monstros sereias”) acabam esvaziadas pelo modelo de fábula moralizadora, edificante e politicamente correta em demasia.

terça-feira, setembro 11, 2012

Os acompanhantes, de Shari Springer Berman e Robert Pulcini ***


O ponto mais interessante de “Os acompanhantes” (2010) é a forma com que estabelece a relação cinema e literatura. Tendo como protagonista Louis Ives (Paul Dano), um estranho jovem obcecado pela literatura norte-americana da primeira metade do século XX, o filme insere uma constante narração em off do personagem, que se vê como um herói literário típico de seus romances favoritos. O contraste de tal narração idealizada com a realidade em que ele se enquadra na presente época contemporânea produz os momentos mais desconcertantes da produção. Por vezes, a estética de “Os acompanhantes” evoca uma atmosfera retrô em termos de figurino e direção de arte, assim como no seu desenvolvimento de roteiro, em que trama dramática apresenta toques irônicos insólitos, ainda que pese contra o filme a carência de uma maior consistência em termos temáticos, em que a equação drama e comédia não consegue apresentar uma sintonia mais harmoniosa.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Quem se importa, de Mara Mourão *


A diretora Mara Mourão já tinha quase batido o recorde no gênero documentário “chapa branca” em “Doutores da alegria” (2005), onde mostrava seu marido Wellington Moreira, palhaço e coordenador de um projeto em que ele e outros palhaços alegram crianças com câncer, quase como um santo. Pois agora em “Quem se importa” ela se supera: novamente realiza uma obra destinada a beatificar seus protagonistas, todos “ongueiros” que se definem como empreendedores sociais, sendo que entre eles se encontra, ora veja, Wellington Moreira! Se o discurso político do filme é altamente questionável (algo na linha “políticos, governos e Estado não fazem nada, o negócio é a iniciativa privada fazer política social”), por outro lado a concepção estética-temática de “Quem se importa” é clara: é mais um exercício formal de propaganda narcisista que faz lembrar um horário eleitoral estendido para o cinema. Como cinema, o filme é asséptico e sem personalidade, fazendo pensar até que ponto o politicamente correto pode chegar.

quinta-feira, setembro 06, 2012

Para Romar com amor, de Woody Allen ***1/2


As intenções de Woody Allen na concepção de “Para Roma com amor” (2012) são evidentes – parece uma espécie de homenagem/ironia com o clássico livro “Decameron” e aquelas produções cômicas e episódicas italianas dos anos 60 e 70. O filme não se pretende um retrato típico do espírito italiano; é mais como se víssemos na tela o imaginário típico de um americano médio do que seriam a Itália e o seu povo. Como nas fontes que o inspiraram, seu tom é francamente picaresco, o que acaba se mostrando bastante em sintonia com o próprio espírito criativo de Allen. Talvez parte do público habitual do diretor nova-iorquino implique com a falta de maiores novidades (tem-se a impressão de que por vezes se ouve/vê uma piada reciclada). Não há também um roteiro consistente e tão bem amarrado quanto “Meia-Noite em Paris” (2011). É inegável, contudo, que esse aparente comodismo ainda consiga seduzir boa parte da platéia, seja num estilo formal que traz um registro visual ora apaixonado ora sarcástico na sua contraposição entre a fotografia cartão postal e uma estética que beira o onírico, seja pelas passagens que revelam a verve arguta de Allen a esmiuçar as relações humanas. No saldo final, “Para Roma com amor” que não vai converter habituais detratores e nem decepcionar a grande maioria dos apreciadores, mas apenas manter um certo padrão de qualidade do cineasta. O que, aliás, já é algo acima da média.

quarta-feira, setembro 05, 2012

As neves do Kilimanjaro, de Robert Guédiguian ***1/2


O cineasta francês Robert Guédiguian retoma de forma vigorosa a sua veia social-humanista em “As neves do Kilimanjaro” (2011), nos moldes de outras produções memoráveis suas como “A cidade está tranqüila” (2000) e “Marie-Jo e seus dois amores” (2002). Nessa obra mais recente, o viés dramático é menos trágico, permitindo-se até eventuais momentos bem humorados. Guédiguian mantém o seu registro objetivo e desglamorizado do quotidiano de pessoas simples, ressaltando com sutileza a discreta grandeza de pequenos atos do dia a dia de trabalhadores, desempregados, marginais e demais figuras do povo. Assim como nos filmes anteriores destacados, o diretor consegue estabelecer um equilíbrio entre a crítica social e o intimismo das relações humanas de seus personagens. E por mais que “As neves do Kilimanjaro” adote uma postura panfletária e um tom sentimental em sua narrativa, é inegável que tais opções temáticas criam uma forte empatia com a plateia, credenciando Guédiguian como um dos mais expressivos cineastas no gênero político ao lado do britânico Ken Loach.

Jovens adultos, de Jason Reitman **1/2


Os fãs da dobradinha entre o diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody em “Juno” (2007) tem mais motivos para comemorar a mais recente parceria da dupla, “Jovens adultos” (2012), onde os principais ingredientes da produção anterior são retomadas: trilha sonora indie, citações pop, personagens adultos levemente desajustados. Da minha parte, confesso que um filme que tem a bela canção “The Concept” do Teenage Fanclub como peça central da narrativa já me desperta simpatia. Essa bela sacada, contudo, não consegue esconder a falta de uma maior consistência formal e temática para a obra. Fotografia e edição compõem um todo estético entre o agradável e a palidez dramática – é tudo sem maiores sobressaltos, mas também não há uma cena que se fixe no nosso imaginário. E mesmo a pretensão de fazer uma abordagem mais realista sobre adultos com dificuldade em amadurecer acaba se formatando num padrão previsível e superficial.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Filme demência, de Carlos Reichenbach


Uma obra como “Filme demência” (1986) não é uma avis rara apenas dentro do panorama do cinema nacional. Mesmo em âmbito mundial, tal produção dirigida por Carlos Reichenbach é algo de difícil definição. Isso ocorre porque o cineasta trafega em uma área artística limítrofe, em que o popular e o erudito não apenas convivem no mesmo plano, como até acabam se fundindo em um híbrido instigante. A narrativa envereda várias vezes pelo delirante, mas sem abdicar de uma fluência clara nos seus propósitos estéticos e temáticos. O protagonista perambula pela noite paulistana (caracterizada por Reichenbach como se fosse um universo paralelo), encontra tipos esquisitos e marginais, inclusive o próprio demônio, e por fim se aventura na estrada (configurando um torto road movie). A simbologia de tal trama (com inspiração no “Fausto” de Goethe) não descamba para o hermetismo fácil, tanto que toques de um humor tipicamente popular pontuam com freqüência o roteiro (além de personalíssimas referências culturais). E é no meio desses elementos tão diversos que Reichenbach compõe cenas de uma riqueza visual impressionante, aliado a um formalismo que estabelece relação intrínseca entre uma linguagem naturalista e a ambiência fantástica.

Paralelo 10, de Silvio Da-Rin ***


Um documentário brasileiro tendo como temática os índios nativos não chega a ser propriamente uma novidade no panorama cinematográfica nacional. “Paralelo 10” (2011), contudo, acaba gerando um impacto acima da média. Tendo como protagonista o sertanista José Carlos Meirelles, o filme dirigido por Silvio Da-Rin oferece uma visão bastante contundente sobre a questão indígena no Brasil. Sua abordagem está muito longe do caráter oficialista, traçando os dilemas e contradições inerentes ao assunto de forma crua e sem sentimentalismos. Os índios até podem ser considerados vítimas de algumas circunstâncias decorrentes de ações de natureza econômica dos “brancos”, assim como da falta de maior proteção e assistência por parte das autoridades governamentais, mas também são retratados com a dignidade dos indivíduos capazes de traçar seu próprio destino. Essa abordagem encontra ressonância na concepção formal de Da-Rin, que lembra as produções documentais de Werner Herzog, com uma direção de fotografia que registra as florestas dentro de um tom seco e sombrio, ressaltando ainda mais o lado misterioso e mítico dos povos que a habitam.