Quando dirigiu “Bad Biology” (2008), Frank Henenlotter
estava há mais de 15 anos sem lançar um longa-metragem. Em uma sessão com
debate realizada na edição do FANTASPOA de 2014, ele colocou que estava muito
decepcionado com as restrições que teve em “Basket Case 3” (1991) e assim
resolveu dar um tempo em se envolver em outra produção cinematográfica. Só se
sentiu à vontade para voltar quando constatou que teria mais liberdade artística
para dirigir um filme da forma que quisesse. Ora, uma situação como essa faz
imaginar maravilhas de como seria um filme do cineasta que concebeu a
obra-prima “O soro do mal” (1988) se ele estivesse livre para dar vazão à sua
criatividade. Nesse sentido, “Bad biology” acaba sendo uma experiência
frustrante. As idéias e premissas da trama são promissoras, na sua combinação
de escatologia e senso de humor doentio. O problema do filme está na sua execução
mesmo: os anos de inatividade de Henenlotter cobram um preço caro, dando para
sentir a sua mão pesada na condução de uma narrativa que quase nunca decola.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quinta-feira, outubro 16, 2014
quarta-feira, outubro 15, 2014
O estudante, de Santiago Mitre ***
É quase óbvio classificar “O estudante” (2011) na vertente
do gênero cinema político. Por mais que as desventuras sentimentais do
protagonista Roque (Esteban Lamothe) pontuem a trama, o foco principal está no
aprofundamento do seu envolvimento com a política estudantil universitária, com
direto a boa parte dos truques textuais que um roteiro como esse exige –
traições de correligionários, acordos obscuros, desilusões ideológicas. Na
verdade, a abordagem do diretor Santiago Mitre é um tanto superficial sobre a
sua temática. Não há aqueles momentos de ironias sutis ou lances dramáticos
desconcertantes que grassavam com naturalidade nas melhores produções de nomes
como Costa-Gavras ou Elio Petri (para ficar dentro do terreno do cinema
político). Mitre prefere não arriscar e se contenta no terreno seguro de uma
estrutura narrativa de “thriller”. É de se convir, entretanto, que faz isso com
competência. “O estudante” é uma obra capaz de prender a atenção do espectador
e criar alguma efetiva empatia com os seus personagens. Há ainda uma certa
secura emocional pairando na obra, o que a voz de um narrador em terceira
pessoa que por vezes irrompe ajuda a acentuar mais, dando ao filme uma maior
contundência. A bela trilha sonora, misto de rock climático com percussões
latinas, também é elemento fundamental na construção de uma tensão dramática
diferenciada.
terça-feira, outubro 14, 2014
Garota exemplar, de David Fincher ****
Pode parecer que se esteja forçando a barra, mas dá para se
ter a impressão de que David Fincher completou uma espécie de “trilogia do
suspense” com “Garota exemplar” (2014).
Em “Seven” (1995), o cineasta
definiu alguns preceitos que se tornaram, para o bem e para o mal, paradigmáticos
para o que se fez no gênero nos anos posteriores (a franquia “Jogos mortais”
talvez seja o exemplo mais evidente de tal influência). Já na década seguinte,
Fincher lançou o extraordinário, “Zodíaco”
(2007), obra de abordagem sóbria e mais realista que parecia renegar as “regras”
formais e temáticas que o próprio diretor havia sugerido em “Seven”. Agora em “Garota
exemplar” ele parte para um outro
estágio – os cânones do gênero representam apenas o ponto de partida para um
filme cuja verdadeira força está na notável simbologia que sua trama evoca. Nesse
sentido, procurar lógica e verossimilhança rigorosas no desenvolvimento do
roteiro seria um reducionismo inútil. Fincher se vale do exagero e de um tom
operístico para compor um distorcido conto moral que ironiza sem piedade a
vacuidade moral e existencial da sociedade ocidental contemporânea. A impressão
que se tem é que o diretor usou uma estrutura dramática semelhante àquelas de
antigos seriados televisivos na linha dramalhão como “Dallas” e “Dinastia” associada a sua habitual
e apurada estética, sendo que o resultado disso é uma obra de atmosfera sombria
e algo alucinada, como se fosse um pesadelo “kitsch”. Aliás, mesmo a referida
estética de Fincher acaba sendo pervertida por um misto de barroquismo e
brutalidade que faz lembrar o Dario Argento dos melhores tempos. A sequência,
por exemplo, em que Amy (Rosamund Pike) assassina um antigo namorado (Neil
Patrick Harris) é um primor sensorial na sua combinação de grandiosidade formal
e mau gosto. Nesse sentido, em que o exagero e o caricatural são fundamentais
na composição dramática do filme, mesmo o histrionismo de Rosamund Pike e o ar
inexpressivo de Ben Affleck ganham um sentido desconcertante e coerente dentro
do espírito sarcástico e bufão de “Garota exemplar”.
segunda-feira, outubro 13, 2014
Hard Soil: As raízes da música americana, de M.A. Littler ****
Assim como em outras obras do diretor alemão M.A. Littler,
os indivíduos que aparecem ao longo do documentário “Hard Soil: As raízes da música
americana” (2014) são outsiders que aparentam estar fora do tempo e do espaço.
A narrativa do filme se desenvolve em dois festivais de música folk, um nos
Estados Unidos e outro na Europa, com a sua trama se concentrando em viscerais
números musicais e em longos depoimentos em que os artistas filosofam e
discorrem sobre suas vidas e culturas. Na maioria das vezes, são pessoas com um
pé na marginalidade: estanhos caipiras, professores românticos, freaks
alucinados e até mesmo ex-presidiários. Nesse estranho mosaico de tipos esquisitões
e rústicas canções, forma-se uma visão bastante particular de uma contracultura
que teima em resistir em um mundo em que a cultura ainda é fortemente acossada
por modas e interesses corporativos. As bandas e artistas-solo que se
apresentam nos festivais em questão não vendem milhares de discos, não estão
entre os mais acessados nos youtubes da vida e nem são celebridades assépticas –
são homens e mulheres em busca de uma maneira livre de expressar suas dores e
alegrias. A musicalidade crua deles e uma temática nebulosa nas letras, onde o
sacro e o profano convivem de forma perturbadora na mesma melodia, podem
assustar a ouvidos incautos, mas também transmitem um efeito sensorial
devastador. Littler demonstra notável sensibilidade na forma com que “Hard Soil”
abarca esse universo: ao invés do didatismo distanciado, prevalece uma poética
estética e que valoriza muito mais o sentimento do que o simples esclarecimento
histórico do que está acontecendo em cena.
sexta-feira, outubro 10, 2014
Annabelle, de John R. Leonetti ***
Se o subtexto de “O protetor” (2014) trazia uma leitura
escancarada do medo norte-americano da atual ascensão econômica e política na
Rússia, em “Annabelle” (2014) também fica evidente na entrelinhas de seu
roteiro uma nostalgia conservadora dos valores morais do velho “american way of
life”. A trama do filme, situada na segunda metade da década de 60, chega a ser
didática na sua concepção simbólica: o casal “bonzinho” é formado por uma
adorável e loira dona de casa e um bem apessoado médico em início de carreira,
sendo que passam a serem acossados por forças do mal cultuados por caricatos
hippies satânicos. Ou seja, aquilo que era considerado uma sincera manifestação
sócio-cultural por uma sociedade mais justa e libertária hoje em dia passa a
ser uma influência maléfica para os nossos jovens... O diretor John R. Leonetti
não se propõe a grandes ousadias na construção de sua narrativa, abusando de
todos os maniqueísmos e truques baratos de sustos possíveis, ainda que guarde a
sutiliza necessária para os momentos de tensão. E por mais óbvio que seja no
seu formalismo e reacionário na sua visão temática, “Annabelle” consegue algo
raro para os filmes de horror contemporâneos: em vários momentos consegue ser
efetivamente assustador. Dá para dizer que em suas resoluções finais a produção
adota algumas soluções fáceis de roteiro, mas também é inegável que há bons
achados visuais (a caracterização de época da direção de arte é bastante
eficiente na contraposição que faz entre o visual limpinho de subúrbios
modorrentos e a sujeira sanguinolenta de quando a violência desponta) e uma
atmosfera sombria que por vezes resvala no perturbador.
quinta-feira, outubro 09, 2014
Os Boxtrolls, de Graham Annable e Anthony Stacchi ***1/2
Ao contrário das animações blockbusters originárias de estúdios
como Disney, Pixar e Dreamworks, “Os Boxtrolls” (2014) não é o tipo de
lançamento no gênero que vai ser um fenômeno de bilheteria. Ainda que destinada
a princípio ao público infantil, sua atmosfera sombria e sua caracterização gráfica
mais “sujona” e estilizada, que por vezes evoca uma ambientação de pesadelo,
fará com que o filme se enquadre naquele nicho de obras mais cultuadas por
adultos, na linha de “Coraline e o mundo secreto” (2009) e “ParaNorman” (2012) –
não por acaso, lançados pela mesma produtora de “Os Boxtrolls”. É claro que está
lá o típico tom fabular moral e crianças e adolescentes podem curtir na boa o
filme, pois boa parte dos personagens, inclusive vilões, é de caracterização
cativante e as cenas de aventura são empolgantes no seu frenesi de ação frenética
e moderada violência. Mas é no seu subtexto que tal animação se sobressai ainda
mais, tanto no caráter simbólico da trama, que alude de forma até ácida a questões
espinhosas como preconceito e desigualdades sociais, como na construção psicológica
de alguns personagens, marcada por uma certa perversidade irônica e
desconcertante.
quarta-feira, outubro 08, 2014
Sem pena, de Eugênio Puppo ***1/2
Uma das cenas iniciais de “Sem pena” (2014) é exemplar síntese
da contundente concepção formal-temática do documentário em questão: num
plano-sequência, a câmera retrata infindáveis corredores de um arquivo judiciário
abarrotado de milhares (ou milhões?) de autos processuais, tudo ao som de um
tema instrumental opressivo de John Cage. Em tais imagens, o diretor Eugênio
Puppo já deixa claro que sua visão sobre o aparato estatal legal/repressivo não
é das mais generosas. Mas o discurso afiado do filme não é apenas mais uma
variação da linha denúncia que grassa tanto no cinema quanto na televisão
nacional. O que diferencia a obra de Puppo são opções estéticas bastante
criativas que acentuam ainda mais o impacto sensorial do seu complexo conteúdo.
Quando a produção se foca para os depoimentos de várias esferas envolvidas no
processo punitivo (polícia, apenado, juristas, parentes), são dispensados os
enquadramentos diretos nos entrevistados – ficam somente as vozes, ilustradas
por tomadas envolvendo o cotidiano das prisões ou de cenários de instituições
(tribunais, prédios de faculdades de direito) que seriam responsáveis por uma
justiça que na realidade se revela cada vez mais distorcida. Em outros
momentos, Puppo apenas faz registros visuais que acentuam a melancolia e a
desesperança de uma problemática que parece não ter solução, sensações essas
que ganham uma conotação ainda mais sinistra pelas já aludidas músicas que
beiram a dissonância de John Cage. A partir dessa narrativa singular, “Sem pena”
consegue se expandir para além daquele tema que seria a princípio o seu mote
principal: ao evidenciar a falência e a inutilidade de um sistema legal que não
dá conta de apresentar soluções minimamente dignas para dilemas fáticos que
deveria resolver, o filme quebra noções equivocadas que o senso comum de mídia,
políticos e “opinião pública” tanto gostam de levantar e conclui que tudo isso
acaba sendo o sintoma de uma sociedade tomada por profundas desigualdades
sociais e hipocrisias diversas.
terça-feira, outubro 07, 2014
Amar, beber e cantar, de Alain Resnais ***
Mesmo estando distante do melhor que Alain Resnais já
dirigiu, “Amar, beber e cantar” (2013) acaba sendo um emblemático epitáfio a
ilustrar as particulares concepções artísticas do grande cineasta francês
recentemente falecido. Estão lá alguns dos mais expressivos preceitos criativos
que Alain burilou e aperfeiçou ao longo de sua expressiva cinematografia: as engenhosas
tramas falsamente superficiais, o choque entre as linguagens naturalista e
estilizada, a intersecção com os elementos de linguagens de outras mídias
(teatro, literatura, quadrinhos). Essa obra derradeira pode não apresentar o
mesmo vigor narrativo de outras produções de Resnais (nesse sentido, seu penúltimo
trabalho, “Vocês ainda não viram nada”, seria até mais representativo), mas
ainda é capaz de impressionar em alguns momentos, principalmente pela forma com
que ele consegue equilibrar uma certa economia de recursos (poucos atores em
cena e cenários de visual simplificado evocam uma espécie de grande ensaio em
aberto) com uma atmosfera de fábula moral. Nesse sentido, colabora muito um
elenco com interpretações bastante inspiradas, que variam de forma admirável
entre o exagero teatral e a sutileza dramática. Há também uma simbologia
intrigante dentro da trama que gira em torno de desenganos sentimentais
envolvendo a figura de um personagem que é sempre mencionado pelos outros e que
nunca aparece em cena, o que se acentua na conclusão do filme, onde há o
funeral do tal personagem: seria ele uma figura ilustrativa da própria persona artística
de Resnais? Esse é um questionamento que provavelmente nunca terá uma resposta
e não deixa de ser mais um mistério fascinante a envolver o estranho universo
de uma das grandes forças criativas da história do cinema.
segunda-feira, outubro 06, 2014
OcidenteS, de Carlos Gerbase, Fabiano de Souza, Bruno Polidoro e João Gabriel de Queiroz ***
Feito originalmente para a televisão, “OcidenteS” (2014) é
um projeto de quatro episódios que mostram histórias que se passam em décadas
diferentes sempre tendo como cenário o Bar Ocidente, mítico reduto da boemia
alternativa porto-alegrense. Cada um dos pequenos filmes tem uma trama
auto-contida, ou seja, podem ser vistos separadamente um do outro sem que isso
traga prejuízo de entendimento. Vendo todos juntos em sequência, entretanto, em
ordem cronológica de década, como foi exibido em algumas sessões no Cinebancários,
a obra no seu todo adquire uma visão ainda mais rica e impactante. O primeiro
curta, “As bateristas”, de Carlos Gerbase, tem a sua trama situada em algum
momento dos anos 80 e é o que tem ritmo narrativo mais irregular. Gerbase se
propõe a realizar uma espécie de revitalização das comédias românticas jovens
na linha John Hughes envenenada com punk rock, lesbianismo e drogas. Os diálogos
são truncados, as interpretações exalam amadorismo e a tosquice formal
predomina, mas “As bateristas” tem muito mais vitalidade que qualquer coisa que
seu diretor lançou nos últimos anos. Em “A última festa do século”, episódio
que se desenvolve na década de 90, Fabiano de Souza atinge o ponto alto artístico
de “OcidenteS”, num precioso conto nostálgico que combina onirismo, diálogos
lapidares, poesia, clássicos temas psicodélicos de Júpiter Maçã e erotismo
(pouquíssimas vezes uma mulher foi retratada no cinema gaúcho de forma tão
languidamente sensual quanto Miriã Possani nesse curta). Em termos de temática
e atmosfera, “Cinco cigarros e um beijo” e “Aurora”, episódios dirigidos por
Bruno Polidoro (os anos 2000) e João Gabriel de Queiroz (a presente década), se
aproximam bastante, retratando indivíduos angustiados e de sexualidade difusa
que se arrastam em noites regadas a hedonismo, álcool e vazio existencial. O mérito
dos diretores nesses curtas está na elegância narrativa e na sobriedade
emocional com que conduzem suas respectivas tramas, pontuadas por cenas que
carregam conotações simbólicas intrigantes.
Olhando em conjunto, os episódios de “OcidenteS” se
relacionam de forma sutil e contundente. A estética nas coxas de Gerbase evoca
um espírito misto de ingenuidade e malícia típico dos anos 80 e que acaba se
tornando contrastante com o lirismo do trecho noventista de Fabiano de Souza e
com o tom desiludido dos demais episódios. Como obra fechada, “OcidenteS” se
mostra um contundente retrato existencial de diferentes gerações de um tipo
específico de juventude (ou de “jovens adultos” como já diria os Walverdes em
uma de suas canções...), aquela de classe média de valores pretensamente
cosmopolitas, mas que vive numa sociedade de costumes provincianos. Nesse
choque entre intenções e realidade, a obra não se furta de evidenciar com
lucidez e sensibilidade os dilemas, contradições, desejos e frustrações da
juventude das últimas décadas.
sexta-feira, outubro 03, 2014
Isolados, de Tomas Portella *1/2
O lançamento de um filme brasileiro de gênero, coisa rara
nos dias de hoje, não deixa de ser um fato a ser louvado. Além disso, pode-se
dizer que “Isolados” (2013) apresenta referências promissoras em sua trama: um
casal isolado numa casa no meio do mato e acossado por forças obscuras (“A
morte do demônio”), uma dupla de irmãos caipiras e psicopatas que aterrorizam
nativos e turistas de uma cidade do interior (“O massacre da serra elétrica”) e
alguns elementos dramáticos (delírios, necrofilia, sexualidade reprimida) que
remetem a alguns contos de Edgar Allan Poe. Tudo isso, entretanto, não salva o
filme da irrelevância, fruto da indecisão criativa do diretor Tomas Portela
entre embarcar no puro horror violento e tenso ou buscar uma abordagem séria e
simbolista ao se vincular a uma linha de suspense psicológico. E é nessa última
perspectiva que a produção naufraga, pois as menções que se faz ao passado
obscuro dos principais personagens acabam soando gratuitas e sem sentido nas
resoluções dos principais conflitos e dilemas do roteiro. Além disso, a encenação
concebida por Portela é desajeitada e confusa, o que se agrava ainda com as
interpretações afetadas e pouco convictas do elenco (aliás, afinal, para que
serve a participação de José Wilker no filme?).
quinta-feira, outubro 02, 2014
O protetor, de Antoine Fuqua **1/2
Filmes como “O atirador” (2007), “Atraídos pelo crime” (2009)
e “Invasão a Casa Branca” (2013) atestam a boa mão do diretor Antoine Fuqua
para filmes de ação. A retomada da parceria com Denzel Washington, celebrizada
no excelente “Dia de treinamento” (2001), aumentou ainda mais a expectativa
para “O protetor” (2014). A meia-hora inicial do filme até dá uma boa empolgada
– há um tom de mistério intrigante em torno da figura do protagonista Robert
McCall (Washington) e a seqüência em que ele massacra cinco bandidos da máfia
russa é muito bem coreografada na sua profusão de brutalidade absurda. E quando
entra em cena o sinistro Teddy (Marton Csokas) parece que as coisas vão
melhorar ainda mais (a fusão de imagens que se faz entre o corpo tatuado do vilão
com uma tomada noturna urbana é extraordinária). Com o desenrolar da trama,
entretanto, a produção acaba se esvaziando em termos dramáticos. As cenas de ação
são competentes na sua execução, mas a caracterização do personagem principal
quase como um super-herói infalível retira a sensação de algum perigo
efetivamente perturbador, requisito indispensável para que haja alguma tensão
na obra. Assim, os principais dilemas do roteiro se resolvem com incômoda
facilidade, sem que em nenhum momento se possa ter a sensação de que o
protagonista fique em alguma situação limite.
quarta-feira, outubro 01, 2014
O batismo, de Marcin Wrona ***1/2
O diretor polonês Marcin Wrona consegue um feito notável em
“O batismo” (2010). A partir de uma estrutura narrativa simples no gênero
policial, ele constrói um pequeno conto trágico e brutal cuja atmosfera sombria
alude a inevitabilidade do destino. A trama não apresenta concessões dramáticas
ao retratar o calvário de um delator que se vê chantageado e sentenciado de
morte pelos seus antigos companheiros. Wrona estabelece ambientações
contrastante e perturbadoras – quando o protagonista Michal (Wojciech Zielinski)
está em casa com a família, há uma impressão de beatitude e pureza, mas quanto
mais ele vai se enredando no seu pesadelo pessoal e também surgem à tona seus
algozes essa sensação de algo imaculado vai se pervertendo num cenário de
violência e sangue. O amigo Janek (Tomasz Schuchardt)
talvez seja o personagem que melhor sintetize o espírito do filme – angustiado
por ajudar, cada vez mais se sente impotente diante da inexorabilidade dos
fatos que se desenrolam na tela. As seqüências finais do filme se relacionam ao
batismo do título e fazem lembrar as cenas finais marcantes de “O poderoso
chefão” (1972). E assim como na clássica obra de Francis Ford Coppola, mostra
que o ato religioso em questão se configura como um ritual vazio e hipócrita
diante da realidade da crueldade humana.
terça-feira, setembro 30, 2014
Sin City: A dama fatal, de Robert Rodriguez e Frank Miller **1/2
O resultado final de “Sin City: A dama fatal” (2014) como
obra cinematográfica parece refletir os atuais rumos criativos de Frank Miller
nos quadrinhos (vide os medíocres “Grandes Astros: Batman e Robin” e “Terror
sagrado”) e faz pensar que não há mais o que extrair de efetivamente relevante
da franquia. Os pontos positivos do filme se concentram no segmento que alude
ao seu título e que se baseia num dos melhores arcos da série original dos
comics criada por Miller, ainda que não tenha a mesma dinâmica narrativa ágil de
“Sin City: A cidade do pecado” (2005). Já as demais histórias mostradas nessa
continuação foram especialmente escritas para o filme e formam uma reciclagem pálida
de ideias que já foram melhores trabalhadas em obras anteriores (tanto nos
quadrinhos como no primeiro filme). Nessas tramas restantes, há uma evidente
indefinição de abordagem, em que o excesso de um dramatismo arrastado não se
encaixa bem com o grafismo cartunesco e caricatural da estética da produção. Falta
aquele senso de humor sacana e doentio que a tônica dominante do filme anterior
e também de boa parte do melhor que Miller já fez nos quadrinhos. Essa falta de
rumo na perspectiva artística do filme se reflete no incômodo tom canastrão das
interpretações do elenco. Já para Robert Rodriguez, “Sin City: A dama fatal” até
representa um certo alento, depois do horroroso “Machete” (2010), mas a verdade
é que o cara não entrega uma obra satisfatória desde “Planeta Terror” (2007).
segunda-feira, setembro 29, 2014
Mesmo se nada der certo, de John Carney ***
A relação do cineasta irlandês John Carney é intensa. As
tramas dos seus filmes se prendem a estruturas clássicas e pré-definidas, mas o
forte está no subtexto delas, que servem como uma espécie de reflexão sobre o
papel das canções populares no mundo contemporâneo. Se no melodrama “Apenas uma
vez” (2006) a música servia como uma espécie de redenção pessoal para os seus
personagens levemente desajustados, na comédia romântica “Mesmo se nada der
certo” (2014) se pode dizer que o olhar é um pouco mais aprofundado dentro
dessa temática. Como narrativa, essa produção mais recente recicla as ideias formais
básicas do primeiro filme: atmosfera agridoce, estética de visual mais cru e
granulado, números musicais pontuando a trama, personagens simpáticos e melancólicos.
As soluções temáticas são previsíveis e por vezes tem até um viés um tanto
conservador. Por outro lado, o filme traz uma perspectiva até bem realista e lúcida
sobre a indústria musical, evidenciando que aquela antiga estrutura do artista
que vê na grande gravadora a solução para todas as suas preces está em franca
decadência diante de inovações tecnológicas e comportamentais que mudaram
radicalmente a forma com que as pessoas se relacionam com a música. Mesmo o
conceito de um álbum se tornou nebuloso... Assim, “Mesmo se nada der cento”
acaba ganhando uma forte carga emblemática ao se impor como obra que capta o
espírito de uma época. E de bônus, ainda traz uma ótima interpretação de Mark
Ruffalo (e que compensa a atuação afetada e careteira de Keira Knightley).
sexta-feira, setembro 26, 2014
Livrai-nos do mal, de Scott Derrickson **1/2
O cineasta norte-americano Scott Derrickson tem firmado o
seu nome dentro do meio dos grandes estúdios como diretor vinculado a um gênero
específico, no caso o horror, situação essa que nos dias de hoje não chega a ser
algo exatamente corriqueiro. Isso não quer dizer necessariamente que ele tenha
uma marca autoral, pois até o momento sua cinematografia e um tanto irregular e
genérica. Assim como ele é o responsável pelo medíocre “O exorcismo de Emily
Rose” (2005), o cara também foi capaz de dirigir “A entidade” (2012), obra
efetivamente assustadora. “Livrai-nos do mal” (2014) se mostra como um
meio-termo entre as citadas produções anteriores de Derrickson. Não tem aquela
cara de telefilme morno de “Emily Rose”, mas também não há aquela pegada
sinistra e perturbadora de “A entidade”. O filme chega a apresentar algumas
boas soluções visuais e narrativas, além da dupla de protagonistas ter carisma
em suas sombrias caracterizações, mas a combinação entre policial e horror não
chega a ter um caráter orgânico satisfatório – ainda que as cenas de ação sejam
boas e convincentes, quando a trama envereda para o horror soa esquemática e
previsível demais, o que fica evidente na seqüência final de exorcismo, cuja
encenação genérica é destituída de vigor e criatividade.
quinta-feira, setembro 25, 2014
Hércules, de Brett Ratner **1/2
Brett Ratner está longe de ser o mais brilhante dos
diretores norte-americanos da atualidade, mas pelo menos tem a honestidade de não
querer parecer um “visionário”. Sua produção mais recente, “Hércules” (2014), é
um exemplo até contundente disso. O filme é derivativo de uma série de tendências
que grassam no atual panorama do cinema de aventura de cunho fantástico: uma
pretensa abordagem naturalista de velhos mitos, o gosto por cenários exóticos e
grandiosos (há grandes tomadas panorâmicas que parecem terem sido decalcadas
direto da franquia de “O senhor dos anéis”), uma violência mais explícita a
ressaltar um possível tom sombrio na narrativa. No final das contas,
entretanto, o pastiche de Ratner acaba se revelando bem digerível. Para
começar, ele não é da nefasta escola Zack Snyder na direção de sequências de ação
– filma com clareza e fluidez razoáveis cenas de pancadaria explícita. Além
disso, por mais óbvio e estereotipado que seja o roteiro, é inegável que há personagens
marcantes e a trama seja bem delineada no seu desenvolvimento. Ou seja, “Hércules”
está longe de ser uma produção inesquecível aos moldes, por exemplo, de um “Guardiões
da Galáxia”, mas pelo menos é uma diversão escapista eficiente. E dentro
daquilo que se tem feito em boa parte de trabalhos do gênero, isso não deixa de
ser um mérito considerável.
quarta-feira, setembro 24, 2014
Amorosa Soledad, de Martin e Victoria Galardi *
Nos créditos de “Amorosa Soledad” (2008), consta que o ator
Ricardo Darin teria um papel coadjuvante no filme em questão. Na verdade, o
papel dele é muito mais minúsculo, o cara não fica nem dois minutos em cena e
sua participação não acrescenta nada à trama. A inutilidade narrativa de tal
elemento, que parece estar ali apenas como um potencial chamariz comercial, é
reflexo da própria esterilidade criativa dessa produção argentina. A narrativa
espartana não vem de um rigor estético dos diretores Martin Carranza e Victoria
Galardi, mas sim de uma concepção estética pobre e um roteiro que fica apenas
chafurdando na banalidade. As agruras da protagonista Soledad (Inês Efron)
envolvendo desilusões amorosas e hipocondrias diversas são expostas de forma
mecânica e estereotipada, sem que a personagem consiga uma efetiva empatia com
a plateia e nem que sua vida e comportamento sirvam como espelho de uma
determinada geração, impressão essa que a apressada e esquemática conclusão
acentua ainda mais.
terça-feira, setembro 23, 2014
De menor, de Caru Alves de Souza ***
Com boa parte de sua trama se desenvolvendo dentro do
ambiente de uma vara judiciária dedicada a ações envolvendo menores delinqüentes,
seria fácil classificar “De menor” (2013) como um mero filme dedicado a fazer
alguma denúncia social. Seria também, entretanto, equivocado, pois a amplitude
temática e estética da obra vai bem mais além. A diretora Caru Alves de Souza
opta por uma moldura formal espartana e elegante, valendo-se de longos
planos-sequência, edição de cortes discretos e um roteiro de poucos personagens
e variações quase mínimas. Nessas soluções estéticas, sua obra acaba
construindo uma narrativa que oscila entre a fábula moral e o pesadelo
simbolista. Mais do que ser um libelo contra a punição jurídica exacerbada para
adolescentes, “De menor” se configura como o retrato da alienação da sociedade
e da nulidade dos ritos jurídicos perante questões e comportamentos que fogem
do espectro daquilo que seria uma “boa conduta”. Por várias vezes, a trama
confronta o discurso legal e dito racional da protagonista Helena (Rita
Batata), uma defensora pública, com as atitudes impulsivas e desconexas de seu
irmão adolescente Caio (Giovanni Gallo). Do resultado de tal contraponto
existencial resta a perplexidade progressiva de Helena com a vida dupla do irmão
bem como o vazio moral da retórica arrogante e burocrata de um aparelho de
justiça (defensores, juízes e promotores) que cada vez perde mais o sentido
diante o seu alheamento da realidade social que o cerca.
segunda-feira, setembro 22, 2014
O último amor de Mr. Morgan, de Sandra Nettelbeck **
O que incomoda em “O último amor de Mr. Morgan” (2013) não é
a previsibilidade de seu roteiro ou o convencionalismo de sua narrativa. O
grande problema do filme está na abordagem formal que a diretora Sandra
Nettelbeck dá para o seu material. Num filme cuja trama mostra eutanásia, um
idoso suicida, personagens desajustados e uma família disfuncional, acaba sendo
destoante e covarde o tratamento “fofinho” oferecido pela obra em questão. A
cada cinco minutos os personagens proferem alguma frase de efeito ou uma lição
de vida, ou seja, não há um encadeamento orgânico na interação entre
personagens e as situações do roteiro. E também de forma periódica, em cenas
que eram para serem cruciais, irrompe uma terna e melosa trilha sonora, que
pontua uma falsa delicadeza que se impõe de forma nada sutil e busca uma relação
emocional forçada com a plateia. Pode até ser que tenham algumas moçoilas ou
senhoras que chorem um pouco, mas também é evidente que o artificialismo e o
tom manipulador de tais expedientes retiram muito da força dramática que o
filme poderia oferecer. É claro que alguma coisa se destaca, principalmente na
boa interpretação de Michael Caine e na graciosidade carismática da bela Clémence
Poésy. O que predomina mesmo em “O último amor de Mr Morgan”, entretanto, é uma
narrativa amorfa e a insipidez de sua estética.
sexta-feira, setembro 19, 2014
Os mercernários 3, de Patrick Hughes *1/2
Talvez o grande problema da franquia “Os mercenários” é que sempre
haverá uma certa expectativa para que os filmes da série reeditem aquelas
produções de aventura casca-grossa e sangrentas dos anos 80. Ocorre que os
tempos são outros e um padrão asséptico e politicamente correto é necessário
para que um filme não ganhe uma censura etária muito elevada e assim não afete
os seus possíveis lucros. Assim, não adianta juntar vários atores emblemáticos
do gênero ação e um monte de explosões e tiros se não há uma narrativa capaz de
extrair alguma tensão ou interesse pelos personagens e mesmo cenas que tragam
algum impacto visual (afinal, a ausência de sangue e qualquer tipo de
escatologia faz com que tudo seja limpinho e nada chocante). E, pior, com uma
profusão de marmanjos fazendo um monte de piadinhas metidas à besta. Dentro de
tal equação, é provável que “Os mercenários 3” (2014) até ganhe uns trocados
nas bilheterias, mas também é praticamente certo que seja incapaz de se fixar
no imaginário daqueles que apreciam uma boa obra na linha “porrradaria”.
quinta-feira, setembro 18, 2014
O vício, de Abel Ferrara ***1/2
O diretor norte-americano Abel Ferrara concilia de forma insólita
duas temáticas distintas em “O vício” (1995): filosofia e vampirismo. A trama
do filme conta a história de uma doutoranda em Filosofia (Lily Taylor) que
durante o processo de elaboração de sua tese de conclusão de curso acaba sendo
mordida por uma vampira. Assim, suas considerações e divagações sobre ética e a
maldade humana encontram ressonância no seu novo quotidiano de criatura da
noite que se alimenta de sangue humano tendo como cenário uma Nova York sórdida
e decadente. É claro que há um forte elemento irônico em tal roteiro, mas o que
predomina na produção é uma carrega atmosfera de pessimismo e desencanto, com a
fotografia em preto e branco tornando o clima de desesperança ainda maior. A
forma com que a protagonista lida com o seu recém adquirido vício traz uma
acentuada conotação simbólica que se expande para mais de uma interpretação,
indo da metáfora sobre o uso de drogas até uma relação com a disseminação da
AIDS, doença essa que sempre esteve vinculada a uma imagem de castigo divino
contra comportamentos fora dos padrões de “normalidade” (e em se tratando de
Ferrara, católico obsessivo, tal leitura não seria tão surpreendente). Diante
de tais soluções estéticas, fica difícil enquadrar “O vício” como filme de gênero
tradicional, pois o foco da sua narrativa não está exatamente no
desenvolvimento de uma história, mas sim na combinação de uma verborragia filosófica
e moral desconcertante e encenação bastante estilizada de violentos ataques
sanguinolentos. Ainda assim, é uma produção capaz de incitar na plateia um
horror obscuro e o sentimento de desconforto diante às complexidades do mundo
moderno.
quarta-feira, setembro 17, 2014
A batalha de Solferino, de Justine Triet ***1/2
A proposta formal e estética de “A batalha de Solferino” (2013)
é bastante ousada: a combinação de uma trama ficcional de teor intimista com
tomadas reais nas ruas de Paris no dia da eleição presidencial na França em
2012. A intenção dessa conjunção é óbvia – traçar um paralelo entre os
violentos conflitos verbais e físicos entre um casal divorciado e a atribulada
convivência política entre esquerda socialista e direita neoliberal em um país
em plena crise econômica e social. A diretora Justine Triet é bem sucedida ao
traçar essa sintonia existencial entre esses dois universos que não estão tão
paralelos assim, sendo que a produção em questão acaba se tornando uma
contundente obra a retratar o espírito de uma época. Para isso, a cineasta se
vale de uma virulenta encenação naturalista na porção ficção do filme, em que
uma dramaticidade de crueza desconcertante por vezes se permite a bem vindos
toques irônicos. A produção fica ainda mais impressionante quando praticamente
todos os personagens principais vão para as ruas, com os atores interagindo em
conturbados registros documentais, a um ponto em que ficção e realidade se unem
em uma coisa só.
terça-feira, setembro 16, 2014
Era uma vez em Nova York, de James Gray ****
O que determina o padrão autoral do diretor norte-americano
James Gray não é um gênero específico a qual se vincule, mas sim a forma como modela
o gênero em questão de acordo com a sua linha estética. Foi assim no policial “Os
donos da noite” (2007) e no drama romântico “Os amantes” (2008). No drama de época
“Era uma vez em Nova York” (2013), Gray continua a exercitar a sua forma
particular de fazer cinema. A estrutura clássica da narrativa pode sugerir uma
produção acadêmica qualquer, mas tal impressão é enganadora. É nas nuances que o
filme se sobressai – a extraordinária direção de fotografia de tons marrons que
sugere uma atmosfera de pesadelo, a abordagem emocional sóbria, o delicado
trabalho de direção de atores que resulta em interpretações intensas e antológicas
de Joaquin Phoenix e Marion Cotillard. O resultado das escolhas artísticas de
Gray é uma obra de um sensorialismo elegante e sombrio, que se insinua no
imaginário como um perturbador conto moral, em que a difusa natureza das relações
de dominação entre os personagens apresenta um contundente subtexto sobre a própria
formação moral e existencial de uma nação.
segunda-feira, setembro 15, 2014
Se eu ficar, de R.J. Cutler *
Ok, admito que a parte musical de “Se eu ficar” (2014)
pareceu muito simpática para mim. Boa parte da trilha sonora é tomada por canções
de punk rock e do circuito underground/alternativo norte-americano. Dá vontade
realmente de comprar a trilha sonora. Além disso, a música tem um papel
importante na narrativa, tanto no desenvolvimento de situações e personagens
quanto nas referências e citações de diálogos e mesmo detalhes da direção de
arte. Por outro lado, vejamos dois detalhes da trama: Denny (Joshua Leonard),
pai da protagonista Mia (Cloë Grace Moretz), era baterista de uma banda punk
rock local e largou o grupo para poder cuidar melhor da família. Já Adam (Jamie
Blackley), namorado da garota, dá a entender no final do filme que desistirá
dos planos de sua banda em ascensão no circuito independente para acompanhar
Mia em Nova York, onde ela estudará violoncelo clássico. A simbologia é bem
clara: o rock, por melhor que seja, sempre acaba se submetendo aos ditames
conservadores das vidas dos personagens. Na realidade, o detalhe música em “Se
eu ficar” acaba se configurando apenas como um adereço a dar um certo e pretenso
verniz de autenticidade a uma produção rotineira e água com açúcar destinada a
levar às lágrimas uma plateia de garotas românticas e pouco exigentes. A patética
atuação de Cloë Grace Moretz é que acaba sendo a síntese mais precisa do espírito
da obra – artificiosa, formulaica e destituída de qualquer espécie de vigor.
Agora se o teu negócio é ver alguma produção que tenha o rock visceral como
pano de fundo e que traga estética e temática que estejam em sintonia
existencial com tal trilha sonora, veja correndo a obra-prima “Scott Pilgrim
contra o mundo” (2010). Tem muito mais sangue nas veias do que esse bundinha “Se
eu ficar”.
sexta-feira, setembro 12, 2014
Hélio Oiticica, de César Oiticica Filho ***1/2
A grande sacada do diretor César Oiticica Filho na concepção e
realização de “Hélio Oiticica” (2012), documentário sobre o notável artista plástico
e também seu tio, foi ter formatado o filme em perfeita sintonia artística e
existencial com a própria obra do biografado. Aliás, até o conceito de
cinebiografia acaba um tanto difuso aqui. A produção de Cesar está muito mais
para uma espécie de síntese poética e delirante do pensamento vivo de Hélio do
que para o simples resumo dos fatos que marcaram a vida do seu protagonista. A
força motriz da produção está no belo trabalho de montagem – praticamente não há
cenas filmadas pelo diretor, com a narrativa se desenvolvendo a partir da
combinação de trechos de depoimentos em fitas cassestes com a voz do artista (espécie
de correspondências “faladas” para amigos) com trechos de filmes diversos. É
como se o documentário se aproveitasse da técnica de rearranjar material antigo
para obter um resultado novo e único, emulando, dessa forma, o mesmo princípio
de concepção artística de Hélio, que costumava usar restos e itens de segunda mão
para dar vida aos seus revolucionários parangolés e outras peças criativas. A
impressão sensorial que se tem é a do espectador que é jogado diretamente no
meio da mente de Hélio, vislumbrando tanto suas principais obras como também
suas digressões sobre política, sexo, drogas e arte, entremeadas com intervenções
(imagens, músicas, discursos) de alguns dos mais destacados integrantes da
cultura brasileira de vanguarda ou destoantes dos padrões oficiais (Glauber
Rocha, Haroldo de Campos, Jards Macalé, Jorge Mautner Torquato Neto, Ligia
Clark, entre outros). O resultado final dessa profusão de imagens e palavras é
o perturbador e inquietante retrato não só de um artista desafinando o coro dos
contentes como também de parte de um país que resiste em não se render a um conservador
e sufocante senso comum estético e comportamental.
quinta-feira, setembro 11, 2014
Anjos da lei 2, de Phil Lord e Christopher Miller **1/2
Quando o Federico Fellini estava numa fase de indefinições
criativas sobre o seu próximo filme, ele resolveu transformar essa crise
criativa em matéria-prima para a produção em questão. Nesse contexto, acabou
lançando uma de suas maiores obras-primas, “Oito e meio” (1963). Guardada as
devidas proporções, os diretores Phil Lord e Christopher Miller parecem ter
sofrido de dilemas e soluções parecidos para “Anjos da lei 2” (2014). Em toda a
sua metragem, criadores e personagens dão a impressão de ter a autoconsciência que
essa continuação do filme de 2012, que já era a recriação de um seriado
televisivo dos anos 80, dificilmente teria algo de diferente para mostrar na
comparação com a primeira parte e que tudo soaria como um prato requentado.
Dessa forma, a segunda parte acaba mostrando piadas constantes com a repetição
de idéias e soluções formais e temáticas, além de um senso de humor mais
escrachado (as ironias de insinuações homoeróticas entre a parceria dos
protagonistas policiais passam muito longe da sutileza). Lord e Miller não se
constrangem nenhum pouco em regurgitar uma grande parte dos clichês de produções
policiais genéricas e nem com os furos ostensivos do roteiro – afinal, eles têm
a boa desculpa de que tudo nessa continuação é uma picaretagem assumida. Nem
sempre essa opção voluntária pelo grotesco funciona a contento, mas em alguns
momentos “Anjos da Lei 2” encanta por um clima demente que beira o surreal e
pelas atuações desencanadas de Jonah Hill e Channing Tatum. E na maior
cara-de-pau, prepara o terreno para mais uma continuação...
quarta-feira, setembro 10, 2014
Basket Case 3, de Frank Henenlotter ***
Quando esteve em Porto Alegre como diretor homenageado na
edição 2014 do FANTASPOA, Frank Henenlotter comentou em uma sessão que “Basket
Case 3” (1992) teve uma realização tão difícil devido à pressão de produtores
que fez com que o cineasta não se motivasse a fazer um novo longa por mais de
uma década. Tais problemas de bastidores realmente transparecem ao se assistir à
obra em questão. Nesse novo capítulo da saga do monstro Belial e seu apatetado
gêmeo “humano”, a narrativa não tem aquela pegada demencial e perturbadora da
produção original de 1982. Ainda assim, está longe de ser um trabalho desprezível
de Henenlotter. O diretor investe numa linha mais cartunesca e escrachada – por
vezes, o filme parece uma esquisita mistura entre Muppets e “Gremlins” (1984).
E mesmo o gore, ainda que mais atenuado em relação às partes anteriores, rende
alguns sequências antológicas de escatologia e sardônica violência gráfica. Com
todas as limitações criativas que Henenlotter afirma ter sofrido, “Basket Case
3” é uma produção bem acima da média e mais ousada do que aquilo que se tem
feito no horror cinematográfico nos últimos tempos, gênero esse que vem sendo
tomado por uma assepsia irritante.
terça-feira, setembro 09, 2014
Bem-vindo a Nova York, de Abel Ferrara ****
Nos letreiros iniciais de “Bem-vindo a Nova York” (2014), há
o aviso de que o filme se baseia livremente no caso real do estupro de uma
camareira de hotel envolvendo o então diretor-presidente do FMI, Dominique
Strauss-Khan, ocorrido em 2011. Além disso, há uma entrevista (falsa ou
verdadeira?) com o ator Gerard Depardieu discorrendo sobre a sua predileção por
interpretar pessoas as quais não aprecia. Nesse “discurso sobre o método”, o
diretor Abel Ferrara já deixa claro que o que importa para ele é muito mais a
simbologia desses fatos do que a recriação fidedigna deles. Dessa forma, acaba
criando uma espécie de parábola moral para os tempos modernos. A intensa
encenação concebida pelo cineasta é excessiva na sua profusão de devassidão e
cinismo, mas esse exagero não é gratuito – o vórtice de hedonismo sem fim em
que o protagonista Devereaux (Depardieu) se insere possui um caráter metafórico
contundente. As longas seqüências de sexo não possuem um caráter erótico. Na
visão do filme, as travessuras sexuais de seu personagem principal refletem uma
carga de dominação econômica e social de Devereaux sobre aqueles que o cercam,
fazendo lembrar a perturbadora conjunção sexo-dominação-morte de “Saló – Os 120
dias de Sodoma” (1975) de Pasolini. Tal submissão se manifesta no sexo pago com
prostitutas, nos atos forçados com a camareira e uma jornalista e até mesmo na
entrega voluntária de uma jovem e bela estudante de Direito encantada pela aura
de poder de Devereaux. Mas aqui não há a solução fácil de uma expiação de
pecados a redimir os personagens: mesmo quando preso, Devereaux não demonstra
quaisquer traços de arrependimento, e pouco depois seu poder econômico e social
sufoca as possibilidades de punição para os seus atos brutais. No fundo, ele
sabe que sua conduta é legitimada por uma sociedade que o vê como vencedor.
No registro da perversa saga de Devereaux, Ferrara adota um
formalismo admirável no seu rigor e elegância narrativa e que entra em
contraste genial com a linha temática da trajetória de excessos do personagem.
O cineasta constrói uma estranha e sombria atmosfera que varia entre luxuosos
ambientes a meia-luz e a luminosidade asséptica de aeroportos e prisões que
parecem refletir tanto o universo à parte de orgias ilimitadas do protagonista
quanto o seu inferno pessoal ao sofrer um esboço de alguma punição. E
fundamental também nas intenções artísticas da obra é a caracterização
monumental de Depardieu. Sua interpretação traz nuances variadas, indo desde o
naturalismo tradicional até a toques metalingüísticos com o ator conversando
diretamente com o espectador. Seu trabalho corporal e expressivo é
impressionante – Devereaux pode ser repugnante nos seus grunhidos animalescos,
mas também encantador no seu carisma diabólico. Até a pança proeminente dele
acaba funcionando como um recurso dramático marcante!
segunda-feira, setembro 08, 2014
Antes do inverno, de Phillipe Claudel ***
Mesmo obedecendo a uma ordem narrativa típica do cinema
francês “de qualidade”, “Antes do inverno” (2013) consegue se sobressair por
algumas interessantes nuances. A trama em um primeiro momento foca suas atenções
no drama corriqueiro de um casal de meia-idade em crise sentimental. Aos
poucos, o roteiro evolui para algo mais profundo e inquietante, ao mostrar o
protagonista Paul (Daniel Auteuil), um bem sucedido neurocirurgião, tornar-se
obcecado por uma misteriosa e instável jovem (Leila Bekthi) que se prostitui nas
horas vagas. Mais do que uma simples aventura sentimental, a obsessão do
personagem corresponde também a uma viagem por um mundo desconhecido que se
contrapõe ao conforto asséptico de sua vida pequeno-burguesa. A atmosfera do
filme é de uma tensão difusa, em que as intenções e desejos dos indivíduos
nunca ficam claros. A descida de Paul a um submundo que não compreende e o
confunde faz lembrar as aventuras eróticas e existenciais daquele protagonista
de “De olhos bem fechados” (1999). O diretor Philippe Claudel pode não ter o
mesmo preciosismo formal de Kubrick, mas consegue algumas soluções estéticas e
temáticas eficientes em “Antes do inverno”, principalmente no expressivo
contraponto que faz entre um estilo “clean” de filmar e editar com o teor
obscuro de sua trama. A perturbadora conclusão do filme é uma contundente síntese
dessa abordagem artística de Claudel.
sexta-feira, setembro 05, 2014
Magia ao luar, de Woody Allen **1/2
É recorrente em críticas e comentários realizados sobre
alguns filmes de Woody Allen a percepção de que o diretor estaria se repetindo
e instalado numa espécie de zona de conforto artística. Essa aparente preguiça
criativa, entretanto, pode ser em ilusória. Allen é um dos poucos cineastas
atividades que traz em cada um dos seus filmes uma particular visão de mundo.
As tramas escritas por ele representam uma espécie de compêndio de suas
neuroses e obsessões temáticas. Assim, nada mais natural que assuntos e situações
volta e meia tornem a aparecer em suas produções. Mesmo o seu habitual padrão formal
representa uma espécie de depuração de um estilo de filmar. Dentro dessa linha
de pensamento, por várias vezes alguns de seus filmes foram criticados na época
de lançamento e com o passar do tempo foram reavaliados de forma positiva tanto
por receberem um olhar mais cuidadoso por parte de crítica e público quanto
pelo fato da maneira como se contextualizaram dentro de sua filmografia. Dito
tudo isso, dá para dizer com tranquilidade que “Magia ao luar” (2014) é um dos piores
trabalhos de Woody Allen. E não pela geralmente alegada sensação de deja vu,
mas simplesmente pelo fato de uma execução por vezes equivocada e insossa. Estão
ausentes do roteiro aqueles típicos tons de sutileza do cineasta – todo o
subtexto da trama é dito expressamente nos diálogos. Por falar neles, as falas
não tem a graça e sagacidade que o espectador tem o costume de ver numa obra de
Allen: a excessiva verborragia é cheia de obviedades e até induz ao sono em
alguns momentos. E isso se agrava pelas interpretações caricatas e superficiais
em demasia de Colin Firth e Emma Stone, a dupla de protagonistas. Esse conjunto
de deslizes resulta numa narrativa cansada e que em determinadas sequências faz
com que o filme pareça uma comédia romântica qualquer e não uma obra de Woody
Allen. O que faz com que “Magia ao luar” não seja um total desperdício artístico
é que em algumas tomadas fica visível uma elegância no filmar, principalmente
nas cenas iniciais que se passam em Berlin, em que belos planos-seqüência e a
estilizada direção de arte oferecem um refinado encanto visual. Mas em se
tratando do diretor em questão, isso acaba sendo muito pouco...
quinta-feira, setembro 04, 2014
Lucy, de Luc Besson **
Não dá para dizer que o diretor francês Luc Besson não
buscou algum traço de ousadia em “Lucy” (2014). A partir de uma premissa simples,
a da garota que ganha superpoderes a partir da ingestão involuntária de drogas
desconhecidas, ele poderia ter enveredado para uma rotineira produção de
aventura de super-heróis. Ao invés disso, concebeu uma estranha obra envolvendo
ação frenética e divagações filosóficas/existenciais. E vindo do mesmo cineasta
responsável pelo clássico policial “O profissional” (1994), é claro que a
expectativa pode ser grande. Apesar das ideias interessantes de Besson, todavia,
a execução formal é bastante truncada. O entrelaçamento entre seqüências de
pancadaria e tiroteio com momentos contemplativos não apresenta fluência
narrativa, fazendo com que o filme por vezes fique enfadonho. Para piorar, a
edição é cheia de “espertezas”, com um excesso de cortes que faz “Lucy” ter um
ar videoclipeiro datado. Mesmo as cenas de ação têm uma concepção pouco
imaginativa e de pouco impacto, com Besson regurgitando clichês estéticos de
forma preguiçosa. É claro que algumas trucagens apresentam certa criatividade e
encanto visual. No seu resultado final, entretanto, “Lucy” faz pensar numa esdrúxula
e indigesta equação: a do publicitário fã de “Matrix” (1999) e Tarantino que resolve
fazer a sua versão de “2001: Uma odisséia no espaço” (1968). E pode crer que
isso não é um elogio...
quarta-feira, setembro 03, 2014
Basket Case 2, de Frank Henenlotter ***
A conjunção cinema e horror típica do diretor
norte-americano Frank Henenlotter permanece presente em “Basket Case 2” (1990).
Nessa continuação da obra original de 1982, as condições de produção são bem
mais profissionais, o que fica evidente nos efeitos especiais e maquiagem,
fundamentais na esquisita caracterização de monstros e freaks que surgem aos
borbotões ao longo da narrativa. A melhora no orçamento, entretanto, rouba
bastante da atmosfera demente do primeiro filme, não havendo tanto daqueles
climas perturbadores em que o riso e o susto se entrelaçavam de forma natural.
Por vezes, o filme chega a ficar agridoce na ênfase em histórias de amor e no
tom de denúncia sobre preconceitos. Se não fossem algumas passagens bem
sanguinolentas e o visual escatológico de algumas das criaturas, daria até para
encarar como uma divertida Sessão da Tarde. Mesmo assim, esse tom mais ameno,
provavelmente imposto por produtores, não tira o forte traço autoral de
Henenlotter. O terço final de “Basket Case 2”, em especial, revela o corrosivo
senso de humor doentio do cineasta, mostrando que ele será um eterno talento
outsider.
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