quinta-feira, outubro 16, 2014

Bad biology, de Frank Henenlotter **


Quando dirigiu “Bad Biology” (2008), Frank Henenlotter estava há mais de 15 anos sem lançar um longa-metragem. Em uma sessão com debate realizada na edição do FANTASPOA de 2014, ele colocou que estava muito decepcionado com as restrições que teve em “Basket Case 3” (1991) e assim resolveu dar um tempo em se envolver em outra produção cinematográfica. Só se sentiu à vontade para voltar quando constatou que teria mais liberdade artística para dirigir um filme da forma que quisesse. Ora, uma situação como essa faz imaginar maravilhas de como seria um filme do cineasta que concebeu a obra-prima “O soro do mal” (1988) se ele estivesse livre para dar vazão à sua criatividade. Nesse sentido, “Bad biology” acaba sendo uma experiência frustrante. As idéias e premissas da trama são promissoras, na sua combinação de escatologia e senso de humor doentio. O problema do filme está na sua execução mesmo: os anos de inatividade de Henenlotter cobram um preço caro, dando para sentir a sua mão pesada na condução de uma narrativa que quase nunca decola.

quarta-feira, outubro 15, 2014

O estudante, de Santiago Mitre ***


É quase óbvio classificar “O estudante” (2011) na vertente do gênero cinema político. Por mais que as desventuras sentimentais do protagonista Roque (Esteban Lamothe) pontuem a trama, o foco principal está no aprofundamento do seu envolvimento com a política estudantil universitária, com direto a boa parte dos truques textuais que um roteiro como esse exige – traições de correligionários, acordos obscuros, desilusões ideológicas. Na verdade, a abordagem do diretor Santiago Mitre é um tanto superficial sobre a sua temática. Não há aqueles momentos de ironias sutis ou lances dramáticos desconcertantes que grassavam com naturalidade nas melhores produções de nomes como Costa-Gavras ou Elio Petri (para ficar dentro do terreno do cinema político). Mitre prefere não arriscar e se contenta no terreno seguro de uma estrutura narrativa de “thriller”. É de se convir, entretanto, que faz isso com competência. “O estudante” é uma obra capaz de prender a atenção do espectador e criar alguma efetiva empatia com os seus personagens. Há ainda uma certa secura emocional pairando na obra, o que a voz de um narrador em terceira pessoa que por vezes irrompe ajuda a acentuar mais, dando ao filme uma maior contundência. A bela trilha sonora, misto de rock climático com percussões latinas, também é elemento fundamental na construção de uma tensão dramática diferenciada.

terça-feira, outubro 14, 2014

Garota exemplar, de David Fincher ****


Pode parecer que se esteja forçando a barra, mas dá para se ter a impressão de que David Fincher completou uma espécie de “trilogia do suspense” com “Garota exemplar” (2014). Em “Seven” (1995), o cineasta definiu alguns preceitos que se tornaram, para o bem e para o mal, paradigmáticos para o que se fez no gênero nos anos posteriores (a franquia “Jogos mortais” talvez seja o exemplo mais evidente de tal influência). Já na década seguinte, Fincher lançou o extraordinário, “Zodíaco” (2007), obra de abordagem sóbria e mais realista que parecia renegar as “regras” formais e temáticas que o próprio diretor havia sugerido em “Seven”. Agora em “Garota exemplar” ele parte para um outro estágio – os cânones do gênero representam apenas o ponto de partida para um filme cuja verdadeira força está na notável simbologia que sua trama evoca. Nesse sentido, procurar lógica e verossimilhança rigorosas no desenvolvimento do roteiro seria um reducionismo inútil. Fincher se vale do exagero e de um tom operístico para compor um distorcido conto moral que ironiza sem piedade a vacuidade moral e existencial da sociedade ocidental contemporânea. A impressão que se tem é que o diretor usou uma estrutura dramática semelhante àquelas de antigos seriados televisivos na linha dramalhão como “Dallas” e “Dinastia” associada a sua habitual e apurada estética, sendo que o resultado disso é uma obra de atmosfera sombria e algo alucinada, como se fosse um pesadelo “kitsch”. Aliás, mesmo a referida estética de Fincher acaba sendo pervertida por um misto de barroquismo e brutalidade que faz lembrar o Dario Argento dos melhores tempos. A sequência, por exemplo, em que Amy (Rosamund Pike) assassina um antigo namorado (Neil Patrick Harris) é um primor sensorial na sua combinação de grandiosidade formal e mau gosto. Nesse sentido, em que o exagero e o caricatural são fundamentais na composição dramática do filme, mesmo o histrionismo de Rosamund Pike e o ar inexpressivo de Ben Affleck ganham um sentido desconcertante e coerente dentro do espírito sarcástico e bufão de “Garota exemplar”.

segunda-feira, outubro 13, 2014

Hard Soil: As raízes da música americana, de M.A. Littler ****


Assim como em outras obras do diretor alemão M.A. Littler, os indivíduos que aparecem ao longo do documentário “Hard Soil: As raízes da música americana” (2014) são outsiders que aparentam estar fora do tempo e do espaço. A narrativa do filme se desenvolve em dois festivais de música folk, um nos Estados Unidos e outro na Europa, com a sua trama se concentrando em viscerais números musicais e em longos depoimentos em que os artistas filosofam e discorrem sobre suas vidas e culturas. Na maioria das vezes, são pessoas com um pé na marginalidade: estanhos caipiras, professores românticos, freaks alucinados e até mesmo ex-presidiários. Nesse estranho mosaico de tipos esquisitões e rústicas canções, forma-se uma visão bastante particular de uma contracultura que teima em resistir em um mundo em que a cultura ainda é fortemente acossada por modas e interesses corporativos. As bandas e artistas-solo que se apresentam nos festivais em questão não vendem milhares de discos, não estão entre os mais acessados nos youtubes da vida e nem são celebridades assépticas – são homens e mulheres em busca de uma maneira livre de expressar suas dores e alegrias. A musicalidade crua deles e uma temática nebulosa nas letras, onde o sacro e o profano convivem de forma perturbadora na mesma melodia, podem assustar a ouvidos incautos, mas também transmitem um efeito sensorial devastador. Littler demonstra notável sensibilidade na forma com que “Hard Soil” abarca esse universo: ao invés do didatismo distanciado, prevalece uma poética estética e que valoriza muito mais o sentimento do que o simples esclarecimento histórico do que está acontecendo em cena.

sexta-feira, outubro 10, 2014

Annabelle, de John R. Leonetti ***


Se o subtexto de “O protetor” (2014) trazia uma leitura escancarada do medo norte-americano da atual ascensão econômica e política na Rússia, em “Annabelle” (2014) também fica evidente na entrelinhas de seu roteiro uma nostalgia conservadora dos valores morais do velho “american way of life”. A trama do filme, situada na segunda metade da década de 60, chega a ser didática na sua concepção simbólica: o casal “bonzinho” é formado por uma adorável e loira dona de casa e um bem apessoado médico em início de carreira, sendo que passam a serem acossados por forças do mal cultuados por caricatos hippies satânicos. Ou seja, aquilo que era considerado uma sincera manifestação sócio-cultural por uma sociedade mais justa e libertária hoje em dia passa a ser uma influência maléfica para os nossos jovens... O diretor John R. Leonetti não se propõe a grandes ousadias na construção de sua narrativa, abusando de todos os maniqueísmos e truques baratos de sustos possíveis, ainda que guarde a sutiliza necessária para os momentos de tensão. E por mais óbvio que seja no seu formalismo e reacionário na sua visão temática, “Annabelle” consegue algo raro para os filmes de horror contemporâneos: em vários momentos consegue ser efetivamente assustador. Dá para dizer que em suas resoluções finais a produção adota algumas soluções fáceis de roteiro, mas também é inegável que há bons achados visuais (a caracterização de época da direção de arte é bastante eficiente na contraposição que faz entre o visual limpinho de subúrbios modorrentos e a sujeira sanguinolenta de quando a violência desponta) e uma atmosfera sombria que por vezes resvala no perturbador.

quinta-feira, outubro 09, 2014

Os Boxtrolls, de Graham Annable e Anthony Stacchi ***1/2


Ao contrário das animações blockbusters originárias de estúdios como Disney, Pixar e Dreamworks, “Os Boxtrolls” (2014) não é o tipo de lançamento no gênero que vai ser um fenômeno de bilheteria. Ainda que destinada a princípio ao público infantil, sua atmosfera sombria e sua caracterização gráfica mais “sujona” e estilizada, que por vezes evoca uma ambientação de pesadelo, fará com que o filme se enquadre naquele nicho de obras mais cultuadas por adultos, na linha de “Coraline e o mundo secreto” (2009) e “ParaNorman” (2012) – não por acaso, lançados pela mesma produtora de “Os Boxtrolls”. É claro que está lá o típico tom fabular moral e crianças e adolescentes podem curtir na boa o filme, pois boa parte dos personagens, inclusive vilões, é de caracterização cativante e as cenas de aventura são empolgantes no seu frenesi de ação frenética e moderada violência. Mas é no seu subtexto que tal animação se sobressai ainda mais, tanto no caráter simbólico da trama, que alude de forma até ácida a questões espinhosas como preconceito e desigualdades sociais, como na construção psicológica de alguns personagens, marcada por uma certa perversidade irônica e desconcertante.

quarta-feira, outubro 08, 2014

Sem pena, de Eugênio Puppo ***1/2


Uma das cenas iniciais de “Sem pena” (2014) é exemplar síntese da contundente concepção formal-temática do documentário em questão: num plano-sequência, a câmera retrata infindáveis corredores de um arquivo judiciário abarrotado de milhares (ou milhões?) de autos processuais, tudo ao som de um tema instrumental opressivo de John Cage. Em tais imagens, o diretor Eugênio Puppo já deixa claro que sua visão sobre o aparato estatal legal/repressivo não é das mais generosas. Mas o discurso afiado do filme não é apenas mais uma variação da linha denúncia que grassa tanto no cinema quanto na televisão nacional. O que diferencia a obra de Puppo são opções estéticas bastante criativas que acentuam ainda mais o impacto sensorial do seu complexo conteúdo. Quando a produção se foca para os depoimentos de várias esferas envolvidas no processo punitivo (polícia, apenado, juristas, parentes), são dispensados os enquadramentos diretos nos entrevistados – ficam somente as vozes, ilustradas por tomadas envolvendo o cotidiano das prisões ou de cenários de instituições (tribunais, prédios de faculdades de direito) que seriam responsáveis por uma justiça que na realidade se revela cada vez mais distorcida. Em outros momentos, Puppo apenas faz registros visuais que acentuam a melancolia e a desesperança de uma problemática que parece não ter solução, sensações essas que ganham uma conotação ainda mais sinistra pelas já aludidas músicas que beiram a dissonância de John Cage. A partir dessa narrativa singular, “Sem pena” consegue se expandir para além daquele tema que seria a princípio o seu mote principal: ao evidenciar a falência e a inutilidade de um sistema legal que não dá conta de apresentar soluções minimamente dignas para dilemas fáticos que deveria resolver, o filme quebra noções equivocadas que o senso comum de mídia, políticos e “opinião pública” tanto gostam de levantar e conclui que tudo isso acaba sendo o sintoma de uma sociedade tomada por profundas desigualdades sociais e hipocrisias diversas.

terça-feira, outubro 07, 2014

Amar, beber e cantar, de Alain Resnais ***


Mesmo estando distante do melhor que Alain Resnais já dirigiu, “Amar, beber e cantar” (2013) acaba sendo um emblemático epitáfio a ilustrar as particulares concepções artísticas do grande cineasta francês recentemente falecido. Estão lá alguns dos mais expressivos preceitos criativos que Alain burilou e aperfeiçou ao longo de sua expressiva cinematografia: as engenhosas tramas falsamente superficiais, o choque entre as linguagens naturalista e estilizada, a intersecção com os elementos de linguagens de outras mídias (teatro, literatura, quadrinhos). Essa obra derradeira pode não apresentar o mesmo vigor narrativo de outras produções de Resnais (nesse sentido, seu penúltimo trabalho, “Vocês ainda não viram nada”, seria até mais representativo), mas ainda é capaz de impressionar em alguns momentos, principalmente pela forma com que ele consegue equilibrar uma certa economia de recursos (poucos atores em cena e cenários de visual simplificado evocam uma espécie de grande ensaio em aberto) com uma atmosfera de fábula moral. Nesse sentido, colabora muito um elenco com interpretações bastante inspiradas, que variam de forma admirável entre o exagero teatral e a sutileza dramática. Há também uma simbologia intrigante dentro da trama que gira em torno de desenganos sentimentais envolvendo a figura de um personagem que é sempre mencionado pelos outros e que nunca aparece em cena, o que se acentua na conclusão do filme, onde há o funeral do tal personagem: seria ele uma figura ilustrativa da própria persona artística de Resnais? Esse é um questionamento que provavelmente nunca terá uma resposta e não deixa de ser mais um mistério fascinante a envolver o estranho universo de uma das grandes forças criativas da história do cinema.

segunda-feira, outubro 06, 2014

OcidenteS, de Carlos Gerbase, Fabiano de Souza, Bruno Polidoro e João Gabriel de Queiroz ***




Feito originalmente para a televisão, “OcidenteS” (2014) é um projeto de quatro episódios que mostram histórias que se passam em décadas diferentes sempre tendo como cenário o Bar Ocidente, mítico reduto da boemia alternativa porto-alegrense. Cada um dos pequenos filmes tem uma trama auto-contida, ou seja, podem ser vistos separadamente um do outro sem que isso traga prejuízo de entendimento. Vendo todos juntos em sequência, entretanto, em ordem cronológica de década, como foi exibido em algumas sessões no Cinebancários, a obra no seu todo adquire uma visão ainda mais rica e impactante. O primeiro curta, “As bateristas”, de Carlos Gerbase, tem a sua trama situada em algum momento dos anos 80 e é o que tem ritmo narrativo mais irregular. Gerbase se propõe a realizar uma espécie de revitalização das comédias românticas jovens na linha John Hughes envenenada com punk rock, lesbianismo e drogas. Os diálogos são truncados, as interpretações exalam amadorismo e a tosquice formal predomina, mas “As bateristas” tem muito mais vitalidade que qualquer coisa que seu diretor lançou nos últimos anos. Em “A última festa do século”, episódio que se desenvolve na década de 90, Fabiano de Souza atinge o ponto alto artístico de “OcidenteS”, num precioso conto nostálgico que combina onirismo, diálogos lapidares, poesia, clássicos temas psicodélicos de Júpiter Maçã e erotismo (pouquíssimas vezes uma mulher foi retratada no cinema gaúcho de forma tão languidamente sensual quanto Miriã Possani nesse curta). Em termos de temática e atmosfera, “Cinco cigarros e um beijo” e “Aurora”, episódios dirigidos por Bruno Polidoro (os anos 2000) e João Gabriel de Queiroz (a presente década), se aproximam bastante, retratando indivíduos angustiados e de sexualidade difusa que se arrastam em noites regadas a hedonismo, álcool e vazio existencial. O mérito dos diretores nesses curtas está na elegância narrativa e na sobriedade emocional com que conduzem suas respectivas tramas, pontuadas por cenas que carregam conotações simbólicas intrigantes.

Olhando em conjunto, os episódios de “OcidenteS” se relacionam de forma sutil e contundente. A estética nas coxas de Gerbase evoca um espírito misto de ingenuidade e malícia típico dos anos 80 e que acaba se tornando contrastante com o lirismo do trecho noventista de Fabiano de Souza e com o tom desiludido dos demais episódios. Como obra fechada, “OcidenteS” se mostra um contundente retrato existencial de diferentes gerações de um tipo específico de juventude (ou de “jovens adultos” como já diria os Walverdes em uma de suas canções...), aquela de classe média de valores pretensamente cosmopolitas, mas que vive numa sociedade de costumes provincianos. Nesse choque entre intenções e realidade, a obra não se furta de evidenciar com lucidez e sensibilidade os dilemas, contradições, desejos e frustrações da juventude das últimas décadas.

sexta-feira, outubro 03, 2014

Isolados, de Tomas Portella *1/2


O lançamento de um filme brasileiro de gênero, coisa rara nos dias de hoje, não deixa de ser um fato a ser louvado. Além disso, pode-se dizer que “Isolados” (2013) apresenta referências promissoras em sua trama: um casal isolado numa casa no meio do mato e acossado por forças obscuras (“A morte do demônio”), uma dupla de irmãos caipiras e psicopatas que aterrorizam nativos e turistas de uma cidade do interior (“O massacre da serra elétrica”) e alguns elementos dramáticos (delírios, necrofilia, sexualidade reprimida) que remetem a alguns contos de Edgar Allan Poe. Tudo isso, entretanto, não salva o filme da irrelevância, fruto da indecisão criativa do diretor Tomas Portela entre embarcar no puro horror violento e tenso ou buscar uma abordagem séria e simbolista ao se vincular a uma linha de suspense psicológico. E é nessa última perspectiva que a produção naufraga, pois as menções que se faz ao passado obscuro dos principais personagens acabam soando gratuitas e sem sentido nas resoluções dos principais conflitos e dilemas do roteiro. Além disso, a encenação concebida por Portela é desajeitada e confusa, o que se agrava ainda com as interpretações afetadas e pouco convictas do elenco (aliás, afinal, para que serve a participação de José Wilker no filme?).

quinta-feira, outubro 02, 2014

O protetor, de Antoine Fuqua **1/2


Filmes como “O atirador” (2007), “Atraídos pelo crime” (2009) e “Invasão a Casa Branca” (2013) atestam a boa mão do diretor Antoine Fuqua para filmes de ação. A retomada da parceria com Denzel Washington, celebrizada no excelente “Dia de treinamento” (2001), aumentou ainda mais a expectativa para “O protetor” (2014). A meia-hora inicial do filme até dá uma boa empolgada – há um tom de mistério intrigante em torno da figura do protagonista Robert McCall (Washington) e a seqüência em que ele massacra cinco bandidos da máfia russa é muito bem coreografada na sua profusão de brutalidade absurda. E quando entra em cena o sinistro Teddy (Marton Csokas) parece que as coisas vão melhorar ainda mais (a fusão de imagens que se faz entre o corpo tatuado do vilão com uma tomada noturna urbana é extraordinária). Com o desenrolar da trama, entretanto, a produção acaba se esvaziando em termos dramáticos. As cenas de ação são competentes na sua execução, mas a caracterização do personagem principal quase como um super-herói infalível retira a sensação de algum perigo efetivamente perturbador, requisito indispensável para que haja alguma tensão na obra. Assim, os principais dilemas do roteiro se resolvem com incômoda facilidade, sem que em nenhum momento se possa ter a sensação de que o protagonista fique em alguma situação limite.

quarta-feira, outubro 01, 2014

O batismo, de Marcin Wrona ***1/2


O diretor polonês Marcin Wrona consegue um feito notável em “O batismo” (2010). A partir de uma estrutura narrativa simples no gênero policial, ele constrói um pequeno conto trágico e brutal cuja atmosfera sombria alude a inevitabilidade do destino. A trama não apresenta concessões dramáticas ao retratar o calvário de um delator que se vê chantageado e sentenciado de morte pelos seus antigos companheiros. Wrona estabelece ambientações contrastante e perturbadoras – quando o protagonista Michal (Wojciech Zielinski) está em casa com a família, há uma impressão de beatitude e pureza, mas quanto mais ele vai se enredando no seu pesadelo pessoal e também surgem à tona seus algozes essa sensação de algo imaculado vai se pervertendo num cenário de violência e sangue. O amigo Janek (Tomasz Schuchardt) talvez seja o personagem que melhor sintetize o espírito do filme – angustiado por ajudar, cada vez mais se sente impotente diante da inexorabilidade dos fatos que se desenrolam na tela. As seqüências finais do filme se relacionam ao batismo do título e fazem lembrar as cenas finais marcantes de “O poderoso chefão” (1972). E assim como na clássica obra de Francis Ford Coppola, mostra que o ato religioso em questão se configura como um ritual vazio e hipócrita diante da realidade da crueldade humana.

terça-feira, setembro 30, 2014

Sin City: A dama fatal, de Robert Rodriguez e Frank Miller **1/2


O resultado final de “Sin City: A dama fatal” (2014) como obra cinematográfica parece refletir os atuais rumos criativos de Frank Miller nos quadrinhos (vide os medíocres “Grandes Astros: Batman e Robin” e “Terror sagrado”) e faz pensar que não há mais o que extrair de efetivamente relevante da franquia. Os pontos positivos do filme se concentram no segmento que alude ao seu título e que se baseia num dos melhores arcos da série original dos comics criada por Miller, ainda que não tenha a mesma dinâmica narrativa ágil de “Sin City: A cidade do pecado” (2005). Já as demais histórias mostradas nessa continuação foram especialmente escritas para o filme e formam uma reciclagem pálida de ideias que já foram melhores trabalhadas em obras anteriores (tanto nos quadrinhos como no primeiro filme). Nessas tramas restantes, há uma evidente indefinição de abordagem, em que o excesso de um dramatismo arrastado não se encaixa bem com o grafismo cartunesco e caricatural da estética da produção. Falta aquele senso de humor sacana e doentio que a tônica dominante do filme anterior e também de boa parte do melhor que Miller já fez nos quadrinhos. Essa falta de rumo na perspectiva artística do filme se reflete no incômodo tom canastrão das interpretações do elenco. Já para Robert Rodriguez, “Sin City: A dama fatal” até representa um certo alento, depois do horroroso “Machete” (2010), mas a verdade é que o cara não entrega uma obra satisfatória desde “Planeta Terror” (2007).

segunda-feira, setembro 29, 2014

Mesmo se nada der certo, de John Carney ***


A relação do cineasta irlandês John Carney é intensa. As tramas dos seus filmes se prendem a estruturas clássicas e pré-definidas, mas o forte está no subtexto delas, que servem como uma espécie de reflexão sobre o papel das canções populares no mundo contemporâneo. Se no melodrama “Apenas uma vez” (2006) a música servia como uma espécie de redenção pessoal para os seus personagens levemente desajustados, na comédia romântica “Mesmo se nada der certo” (2014) se pode dizer que o olhar é um pouco mais aprofundado dentro dessa temática. Como narrativa, essa produção mais recente recicla as ideias formais básicas do primeiro filme: atmosfera agridoce, estética de visual mais cru e granulado, números musicais pontuando a trama, personagens simpáticos e melancólicos. As soluções temáticas são previsíveis e por vezes tem até um viés um tanto conservador. Por outro lado, o filme traz uma perspectiva até bem realista e lúcida sobre a indústria musical, evidenciando que aquela antiga estrutura do artista que vê na grande gravadora a solução para todas as suas preces está em franca decadência diante de inovações tecnológicas e comportamentais que mudaram radicalmente a forma com que as pessoas se relacionam com a música. Mesmo o conceito de um álbum se tornou nebuloso... Assim, “Mesmo se nada der cento” acaba ganhando uma forte carga emblemática ao se impor como obra que capta o espírito de uma época. E de bônus, ainda traz uma ótima interpretação de Mark Ruffalo (e que compensa a atuação afetada e careteira de Keira Knightley).

sexta-feira, setembro 26, 2014

Livrai-nos do mal, de Scott Derrickson **1/2


O cineasta norte-americano Scott Derrickson tem firmado o seu nome dentro do meio dos grandes estúdios como diretor vinculado a um gênero específico, no caso o horror, situação essa que nos dias de hoje não chega a ser algo exatamente corriqueiro. Isso não quer dizer necessariamente que ele tenha uma marca autoral, pois até o momento sua cinematografia e um tanto irregular e genérica. Assim como ele é o responsável pelo medíocre “O exorcismo de Emily Rose” (2005), o cara também foi capaz de dirigir “A entidade” (2012), obra efetivamente assustadora. “Livrai-nos do mal” (2014) se mostra como um meio-termo entre as citadas produções anteriores de Derrickson. Não tem aquela cara de telefilme morno de “Emily Rose”, mas também não há aquela pegada sinistra e perturbadora de “A entidade”. O filme chega a apresentar algumas boas soluções visuais e narrativas, além da dupla de protagonistas ter carisma em suas sombrias caracterizações, mas a combinação entre policial e horror não chega a ter um caráter orgânico satisfatório – ainda que as cenas de ação sejam boas e convincentes, quando a trama envereda para o horror soa esquemática e previsível demais, o que fica evidente na seqüência final de exorcismo, cuja encenação genérica é destituída de vigor e criatividade.

quinta-feira, setembro 25, 2014

Hércules, de Brett Ratner **1/2


Brett Ratner está longe de ser o mais brilhante dos diretores norte-americanos da atualidade, mas pelo menos tem a honestidade de não querer parecer um “visionário”. Sua produção mais recente, “Hércules” (2014), é um exemplo até contundente disso. O filme é derivativo de uma série de tendências que grassam no atual panorama do cinema de aventura de cunho fantástico: uma pretensa abordagem naturalista de velhos mitos, o gosto por cenários exóticos e grandiosos (há grandes tomadas panorâmicas que parecem terem sido decalcadas direto da franquia de “O senhor dos anéis”), uma violência mais explícita a ressaltar um possível tom sombrio na narrativa. No final das contas, entretanto, o pastiche de Ratner acaba se revelando bem digerível. Para começar, ele não é da nefasta escola Zack Snyder na direção de sequências de ação – filma com clareza e fluidez razoáveis cenas de pancadaria explícita. Além disso, por mais óbvio e estereotipado que seja o roteiro, é inegável que há personagens marcantes e a trama seja bem delineada no seu desenvolvimento. Ou seja, “Hércules” está longe de ser uma produção inesquecível aos moldes, por exemplo, de um “Guardiões da Galáxia”, mas pelo menos é uma diversão escapista eficiente. E dentro daquilo que se tem feito em boa parte de trabalhos do gênero, isso não deixa de ser um mérito considerável.

quarta-feira, setembro 24, 2014

Amorosa Soledad, de Martin e Victoria Galardi *


Nos créditos de “Amorosa Soledad” (2008), consta que o ator Ricardo Darin teria um papel coadjuvante no filme em questão. Na verdade, o papel dele é muito mais minúsculo, o cara não fica nem dois minutos em cena e sua participação não acrescenta nada à trama. A inutilidade narrativa de tal elemento, que parece estar ali apenas como um potencial chamariz comercial, é reflexo da própria esterilidade criativa dessa produção argentina. A narrativa espartana não vem de um rigor estético dos diretores Martin Carranza e Victoria Galardi, mas sim de uma concepção estética pobre e um roteiro que fica apenas chafurdando na banalidade. As agruras da protagonista Soledad (Inês Efron) envolvendo desilusões amorosas e hipocondrias diversas são expostas de forma mecânica e estereotipada, sem que a personagem consiga uma efetiva empatia com a plateia e nem que sua vida e comportamento sirvam como espelho de uma determinada geração, impressão essa que a apressada e esquemática conclusão acentua ainda mais.

terça-feira, setembro 23, 2014

De menor, de Caru Alves de Souza ***


Com boa parte de sua trama se desenvolvendo dentro do ambiente de uma vara judiciária dedicada a ações envolvendo menores delinqüentes, seria fácil classificar “De menor” (2013) como um mero filme dedicado a fazer alguma denúncia social. Seria também, entretanto, equivocado, pois a amplitude temática e estética da obra vai bem mais além. A diretora Caru Alves de Souza opta por uma moldura formal espartana e elegante, valendo-se de longos planos-sequência, edição de cortes discretos e um roteiro de poucos personagens e variações quase mínimas. Nessas soluções estéticas, sua obra acaba construindo uma narrativa que oscila entre a fábula moral e o pesadelo simbolista. Mais do que ser um libelo contra a punição jurídica exacerbada para adolescentes, “De menor” se configura como o retrato da alienação da sociedade e da nulidade dos ritos jurídicos perante questões e comportamentos que fogem do espectro daquilo que seria uma “boa conduta”. Por várias vezes, a trama confronta o discurso legal e dito racional da protagonista Helena (Rita Batata), uma defensora pública, com as atitudes impulsivas e desconexas de seu irmão adolescente Caio (Giovanni Gallo). Do resultado de tal contraponto existencial resta a perplexidade progressiva de Helena com a vida dupla do irmão bem como o vazio moral da retórica arrogante e burocrata de um aparelho de justiça (defensores, juízes e promotores) que cada vez perde mais o sentido diante o seu alheamento da realidade social que o cerca.

segunda-feira, setembro 22, 2014

O último amor de Mr. Morgan, de Sandra Nettelbeck **


O que incomoda em “O último amor de Mr. Morgan” (2013) não é a previsibilidade de seu roteiro ou o convencionalismo de sua narrativa. O grande problema do filme está na abordagem formal que a diretora Sandra Nettelbeck dá para o seu material. Num filme cuja trama mostra eutanásia, um idoso suicida, personagens desajustados e uma família disfuncional, acaba sendo destoante e covarde o tratamento “fofinho” oferecido pela obra em questão. A cada cinco minutos os personagens proferem alguma frase de efeito ou uma lição de vida, ou seja, não há um encadeamento orgânico na interação entre personagens e as situações do roteiro. E também de forma periódica, em cenas que eram para serem cruciais, irrompe uma terna e melosa trilha sonora, que pontua uma falsa delicadeza que se impõe de forma nada sutil e busca uma relação emocional forçada com a plateia. Pode até ser que tenham algumas moçoilas ou senhoras que chorem um pouco, mas também é evidente que o artificialismo e o tom manipulador de tais expedientes retiram muito da força dramática que o filme poderia oferecer. É claro que alguma coisa se destaca, principalmente na boa interpretação de Michael Caine e na graciosidade carismática da bela Clémence Poésy. O que predomina mesmo em “O último amor de Mr Morgan”, entretanto, é uma narrativa amorfa e a insipidez de sua estética.

sexta-feira, setembro 19, 2014

Os mercernários 3, de Patrick Hughes *1/2


Talvez o grande problema da franquia “Os mercenários” é que sempre haverá uma certa expectativa para que os filmes da série reeditem aquelas produções de aventura casca-grossa e sangrentas dos anos 80. Ocorre que os tempos são outros e um padrão asséptico e politicamente correto é necessário para que um filme não ganhe uma censura etária muito elevada e assim não afete os seus possíveis lucros. Assim, não adianta juntar vários atores emblemáticos do gênero ação e um monte de explosões e tiros se não há uma narrativa capaz de extrair alguma tensão ou interesse pelos personagens e mesmo cenas que tragam algum impacto visual (afinal, a ausência de sangue e qualquer tipo de escatologia faz com que tudo seja limpinho e nada chocante). E, pior, com uma profusão de marmanjos fazendo um monte de piadinhas metidas à besta. Dentro de tal equação, é provável que “Os mercenários 3” (2014) até ganhe uns trocados nas bilheterias, mas também é praticamente certo que seja incapaz de se fixar no imaginário daqueles que apreciam uma boa obra na linha “porrradaria”.

quinta-feira, setembro 18, 2014

O vício, de Abel Ferrara ***1/2


O diretor norte-americano Abel Ferrara concilia de forma insólita duas temáticas distintas em “O vício” (1995): filosofia e vampirismo. A trama do filme conta a história de uma doutoranda em Filosofia (Lily Taylor) que durante o processo de elaboração de sua tese de conclusão de curso acaba sendo mordida por uma vampira. Assim, suas considerações e divagações sobre ética e a maldade humana encontram ressonância no seu novo quotidiano de criatura da noite que se alimenta de sangue humano tendo como cenário uma Nova York sórdida e decadente. É claro que há um forte elemento irônico em tal roteiro, mas o que predomina na produção é uma carrega atmosfera de pessimismo e desencanto, com a fotografia em preto e branco tornando o clima de desesperança ainda maior. A forma com que a protagonista lida com o seu recém adquirido vício traz uma acentuada conotação simbólica que se expande para mais de uma interpretação, indo da metáfora sobre o uso de drogas até uma relação com a disseminação da AIDS, doença essa que sempre esteve vinculada a uma imagem de castigo divino contra comportamentos fora dos padrões de “normalidade” (e em se tratando de Ferrara, católico obsessivo, tal leitura não seria tão surpreendente). Diante de tais soluções estéticas, fica difícil enquadrar “O vício” como filme de gênero tradicional, pois o foco da sua narrativa não está exatamente no desenvolvimento de uma história, mas sim na combinação de uma verborragia filosófica e moral desconcertante e encenação bastante estilizada de violentos ataques sanguinolentos. Ainda assim, é uma produção capaz de incitar na plateia um horror obscuro e o sentimento de desconforto diante às complexidades do mundo moderno.

quarta-feira, setembro 17, 2014

A batalha de Solferino, de Justine Triet ***1/2

A proposta formal e estética de “A batalha de Solferino” (2013) é bastante ousada: a combinação de uma trama ficcional de teor intimista com tomadas reais nas ruas de Paris no dia da eleição presidencial na França em 2012. A intenção dessa conjunção é óbvia – traçar um paralelo entre os violentos conflitos verbais e físicos entre um casal divorciado e a atribulada convivência política entre esquerda socialista e direita neoliberal em um país em plena crise econômica e social. A diretora Justine Triet é bem sucedida ao traçar essa sintonia existencial entre esses dois universos que não estão tão paralelos assim, sendo que a produção em questão acaba se tornando uma contundente obra a retratar o espírito de uma época. Para isso, a cineasta se vale de uma virulenta encenação naturalista na porção ficção do filme, em que uma dramaticidade de crueza desconcertante por vezes se permite a bem vindos toques irônicos. A produção fica ainda mais impressionante quando praticamente todos os personagens principais vão para as ruas, com os atores interagindo em conturbados registros documentais, a um ponto em que ficção e realidade se unem em uma coisa só.

terça-feira, setembro 16, 2014

Era uma vez em Nova York, de James Gray ****



O que determina o padrão autoral do diretor norte-americano James Gray não é um gênero específico a qual se vincule, mas sim a forma como modela o gênero em questão de acordo com a sua linha estética. Foi assim no policial “Os donos da noite” (2007) e no drama romântico “Os amantes” (2008). No drama de época “Era uma vez em Nova York” (2013), Gray continua a exercitar a sua forma particular de fazer cinema. A estrutura clássica da narrativa pode sugerir uma produção acadêmica qualquer, mas tal impressão é enganadora. É nas nuances que o filme se sobressai – a extraordinária direção de fotografia de tons marrons que sugere uma atmosfera de pesadelo, a abordagem emocional sóbria, o delicado trabalho de direção de atores que resulta em interpretações intensas e antológicas de Joaquin Phoenix e Marion Cotillard. O resultado das escolhas artísticas de Gray é uma obra de um sensorialismo elegante e sombrio, que se insinua no imaginário como um perturbador conto moral, em que a difusa natureza das relações de dominação entre os personagens apresenta um contundente subtexto sobre a própria formação moral e existencial de uma nação.

segunda-feira, setembro 15, 2014

Se eu ficar, de R.J. Cutler *


Ok, admito que a parte musical de “Se eu ficar” (2014) pareceu muito simpática para mim. Boa parte da trilha sonora é tomada por canções de punk rock e do circuito underground/alternativo norte-americano. Dá vontade realmente de comprar a trilha sonora. Além disso, a música tem um papel importante na narrativa, tanto no desenvolvimento de situações e personagens quanto nas referências e citações de diálogos e mesmo detalhes da direção de arte. Por outro lado, vejamos dois detalhes da trama: Denny (Joshua Leonard), pai da protagonista Mia (Cloë Grace Moretz), era baterista de uma banda punk rock local e largou o grupo para poder cuidar melhor da família. Já Adam (Jamie Blackley), namorado da garota, dá a entender no final do filme que desistirá dos planos de sua banda em ascensão no circuito independente para acompanhar Mia em Nova York, onde ela estudará violoncelo clássico. A simbologia é bem clara: o rock, por melhor que seja, sempre acaba se submetendo aos ditames conservadores das vidas dos personagens. Na realidade, o detalhe música em “Se eu ficar” acaba se configurando apenas como um adereço a dar um certo e pretenso verniz de autenticidade a uma produção rotineira e água com açúcar destinada a levar às lágrimas uma plateia de garotas românticas e pouco exigentes. A patética atuação de Cloë Grace Moretz é que acaba sendo a síntese mais precisa do espírito da obra – artificiosa, formulaica e destituída de qualquer espécie de vigor. Agora se o teu negócio é ver alguma produção que tenha o rock visceral como pano de fundo e que traga estética e temática que estejam em sintonia existencial com tal trilha sonora, veja correndo a obra-prima “Scott Pilgrim contra o mundo” (2010). Tem muito mais sangue nas veias do que esse bundinha “Se eu ficar”.

sexta-feira, setembro 12, 2014

Hélio Oiticica, de César Oiticica Filho ***1/2


A grande sacada do diretor César Oiticica Filho na concepção e realização de “Hélio Oiticica” (2012), documentário sobre o notável artista plástico e também seu tio, foi ter formatado o filme em perfeita sintonia artística e existencial com a própria obra do biografado. Aliás, até o conceito de cinebiografia acaba um tanto difuso aqui. A produção de Cesar está muito mais para uma espécie de síntese poética e delirante do pensamento vivo de Hélio do que para o simples resumo dos fatos que marcaram a vida do seu protagonista. A força motriz da produção está no belo trabalho de montagem – praticamente não há cenas filmadas pelo diretor, com a narrativa se desenvolvendo a partir da combinação de trechos de depoimentos em fitas cassestes com a voz do artista (espécie de correspondências “faladas” para amigos) com trechos de filmes diversos. É como se o documentário se aproveitasse da técnica de rearranjar material antigo para obter um resultado novo e único, emulando, dessa forma, o mesmo princípio de concepção artística de Hélio, que costumava usar restos e itens de segunda mão para dar vida aos seus revolucionários parangolés e outras peças criativas. A impressão sensorial que se tem é a do espectador que é jogado diretamente no meio da mente de Hélio, vislumbrando tanto suas principais obras como também suas digressões sobre política, sexo, drogas e arte, entremeadas com intervenções (imagens, músicas, discursos) de alguns dos mais destacados integrantes da cultura brasileira de vanguarda ou destoantes dos padrões oficiais (Glauber Rocha, Haroldo de Campos, Jards Macalé, Jorge Mautner Torquato Neto, Ligia Clark, entre outros). O resultado final dessa profusão de imagens e palavras é o perturbador e inquietante retrato não só de um artista desafinando o coro dos contentes como também de parte de um país que resiste em não se render a um conservador e sufocante senso comum estético e comportamental.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Anjos da lei 2, de Phil Lord e Christopher Miller **1/2


Quando o Federico Fellini estava numa fase de indefinições criativas sobre o seu próximo filme, ele resolveu transformar essa crise criativa em matéria-prima para a produção em questão. Nesse contexto, acabou lançando uma de suas maiores obras-primas, “Oito e meio” (1963). Guardada as devidas proporções, os diretores Phil Lord e Christopher Miller parecem ter sofrido de dilemas e soluções parecidos para “Anjos da lei 2” (2014). Em toda a sua metragem, criadores e personagens dão a impressão de ter a autoconsciência que essa continuação do filme de 2012, que já era a recriação de um seriado televisivo dos anos 80, dificilmente teria algo de diferente para mostrar na comparação com a primeira parte e que tudo soaria como um prato requentado. Dessa forma, a segunda parte acaba mostrando piadas constantes com a repetição de idéias e soluções formais e temáticas, além de um senso de humor mais escrachado (as ironias de insinuações homoeróticas entre a parceria dos protagonistas policiais passam muito longe da sutileza). Lord e Miller não se constrangem nenhum pouco em regurgitar uma grande parte dos clichês de produções policiais genéricas e nem com os furos ostensivos do roteiro – afinal, eles têm a boa desculpa de que tudo nessa continuação é uma picaretagem assumida. Nem sempre essa opção voluntária pelo grotesco funciona a contento, mas em alguns momentos “Anjos da Lei 2” encanta por um clima demente que beira o surreal e pelas atuações desencanadas de Jonah Hill e Channing Tatum. E na maior cara-de-pau, prepara o terreno para mais uma continuação...

quarta-feira, setembro 10, 2014

Basket Case 3, de Frank Henenlotter ***


Quando esteve em Porto Alegre como diretor homenageado na edição 2014 do FANTASPOA, Frank Henenlotter comentou em uma sessão que “Basket Case 3” (1992) teve uma realização tão difícil devido à pressão de produtores que fez com que o cineasta não se motivasse a fazer um novo longa por mais de uma década. Tais problemas de bastidores realmente transparecem ao se assistir à obra em questão. Nesse novo capítulo da saga do monstro Belial e seu apatetado gêmeo “humano”, a narrativa não tem aquela pegada demencial e perturbadora da produção original de 1982. Ainda assim, está longe de ser um trabalho desprezível de Henenlotter. O diretor investe numa linha mais cartunesca e escrachada – por vezes, o filme parece uma esquisita mistura entre Muppets e “Gremlins” (1984). E mesmo o gore, ainda que mais atenuado em relação às partes anteriores, rende alguns sequências antológicas de escatologia e sardônica violência gráfica. Com todas as limitações criativas que Henenlotter afirma ter sofrido, “Basket Case 3” é uma produção bem acima da média e mais ousada do que aquilo que se tem feito no horror cinematográfico nos últimos tempos, gênero esse que vem sendo tomado por uma assepsia irritante.

terça-feira, setembro 09, 2014

Bem-vindo a Nova York, de Abel Ferrara ****


Nos letreiros iniciais de “Bem-vindo a Nova York” (2014), há o aviso de que o filme se baseia livremente no caso real do estupro de uma camareira de hotel envolvendo o então diretor-presidente do FMI, Dominique Strauss-Khan, ocorrido em 2011. Além disso, há uma entrevista (falsa ou verdadeira?) com o ator Gerard Depardieu discorrendo sobre a sua predileção por interpretar pessoas as quais não aprecia. Nesse “discurso sobre o método”, o diretor Abel Ferrara já deixa claro que o que importa para ele é muito mais a simbologia desses fatos do que a recriação fidedigna deles. Dessa forma, acaba criando uma espécie de parábola moral para os tempos modernos. A intensa encenação concebida pelo cineasta é excessiva na sua profusão de devassidão e cinismo, mas esse exagero não é gratuito – o vórtice de hedonismo sem fim em que o protagonista Devereaux (Depardieu) se insere possui um caráter metafórico contundente. As longas seqüências de sexo não possuem um caráter erótico. Na visão do filme, as travessuras sexuais de seu personagem principal refletem uma carga de dominação econômica e social de Devereaux sobre aqueles que o cercam, fazendo lembrar a perturbadora conjunção sexo-dominação-morte de “Saló – Os 120 dias de Sodoma” (1975) de Pasolini. Tal submissão se manifesta no sexo pago com prostitutas, nos atos forçados com a camareira e uma jornalista e até mesmo na entrega voluntária de uma jovem e bela estudante de Direito encantada pela aura de poder de Devereaux. Mas aqui não há a solução fácil de uma expiação de pecados a redimir os personagens: mesmo quando preso, Devereaux não demonstra quaisquer traços de arrependimento, e pouco depois seu poder econômico e social sufoca as possibilidades de punição para os seus atos brutais. No fundo, ele sabe que sua conduta é legitimada por uma sociedade que o vê como vencedor.


No registro da perversa saga de Devereaux, Ferrara adota um formalismo admirável no seu rigor e elegância narrativa e que entra em contraste genial com a linha temática da trajetória de excessos do personagem. O cineasta constrói uma estranha e sombria atmosfera que varia entre luxuosos ambientes a meia-luz e a luminosidade asséptica de aeroportos e prisões que parecem refletir tanto o universo à parte de orgias ilimitadas do protagonista quanto o seu inferno pessoal ao sofrer um esboço de alguma punição. E fundamental também nas intenções artísticas da obra é a caracterização monumental de Depardieu. Sua interpretação traz nuances variadas, indo desde o naturalismo tradicional até a toques metalingüísticos com o ator conversando diretamente com o espectador. Seu trabalho corporal e expressivo é impressionante – Devereaux pode ser repugnante nos seus grunhidos animalescos, mas também encantador no seu carisma diabólico. Até a pança proeminente dele acaba funcionando como um recurso dramático marcante!

segunda-feira, setembro 08, 2014

Antes do inverno, de Phillipe Claudel ***


Mesmo obedecendo a uma ordem narrativa típica do cinema francês “de qualidade”, “Antes do inverno” (2013) consegue se sobressair por algumas interessantes nuances. A trama em um primeiro momento foca suas atenções no drama corriqueiro de um casal de meia-idade em crise sentimental. Aos poucos, o roteiro evolui para algo mais profundo e inquietante, ao mostrar o protagonista Paul (Daniel Auteuil), um bem sucedido neurocirurgião, tornar-se obcecado por uma misteriosa e instável jovem (Leila Bekthi) que se prostitui nas horas vagas. Mais do que uma simples aventura sentimental, a obsessão do personagem corresponde também a uma viagem por um mundo desconhecido que se contrapõe ao conforto asséptico de sua vida pequeno-burguesa. A atmosfera do filme é de uma tensão difusa, em que as intenções e desejos dos indivíduos nunca ficam claros. A descida de Paul a um submundo que não compreende e o confunde faz lembrar as aventuras eróticas e existenciais daquele protagonista de “De olhos bem fechados” (1999). O diretor Philippe Claudel pode não ter o mesmo preciosismo formal de Kubrick, mas consegue algumas soluções estéticas e temáticas eficientes em “Antes do inverno”, principalmente no expressivo contraponto que faz entre um estilo “clean” de filmar e editar com o teor obscuro de sua trama. A perturbadora conclusão do filme é uma contundente síntese dessa abordagem artística de Claudel.

sexta-feira, setembro 05, 2014

Magia ao luar, de Woody Allen **1/2


É recorrente em críticas e comentários realizados sobre alguns filmes de Woody Allen a percepção de que o diretor estaria se repetindo e instalado numa espécie de zona de conforto artística. Essa aparente preguiça criativa, entretanto, pode ser em ilusória. Allen é um dos poucos cineastas atividades que traz em cada um dos seus filmes uma particular visão de mundo. As tramas escritas por ele representam uma espécie de compêndio de suas neuroses e obsessões temáticas. Assim, nada mais natural que assuntos e situações volta e meia tornem a aparecer em suas produções. Mesmo o seu habitual padrão formal representa uma espécie de depuração de um estilo de filmar. Dentro dessa linha de pensamento, por várias vezes alguns de seus filmes foram criticados na época de lançamento e com o passar do tempo foram reavaliados de forma positiva tanto por receberem um olhar mais cuidadoso por parte de crítica e público quanto pelo fato da maneira como se contextualizaram dentro de sua filmografia. Dito tudo isso, dá para dizer com tranquilidade que “Magia ao luar” (2014) é um dos piores trabalhos de Woody Allen. E não pela geralmente alegada sensação de deja vu, mas simplesmente pelo fato de uma execução por vezes equivocada e insossa. Estão ausentes do roteiro aqueles típicos tons de sutileza do cineasta – todo o subtexto da trama é dito expressamente nos diálogos. Por falar neles, as falas não tem a graça e sagacidade que o espectador tem o costume de ver numa obra de Allen: a excessiva verborragia é cheia de obviedades e até induz ao sono em alguns momentos. E isso se agrava pelas interpretações caricatas e superficiais em demasia de Colin Firth e Emma Stone, a dupla de protagonistas. Esse conjunto de deslizes resulta numa narrativa cansada e que em determinadas sequências faz com que o filme pareça uma comédia romântica qualquer e não uma obra de Woody Allen. O que faz com que “Magia ao luar” não seja um total desperdício artístico é que em algumas tomadas fica visível uma elegância no filmar, principalmente nas cenas iniciais que se passam em Berlin, em que belos planos-seqüência e a estilizada direção de arte oferecem um refinado encanto visual. Mas em se tratando do diretor em questão, isso acaba sendo muito pouco...

quinta-feira, setembro 04, 2014

Lucy, de Luc Besson **


Não dá para dizer que o diretor francês Luc Besson não buscou algum traço de ousadia em “Lucy” (2014). A partir de uma premissa simples, a da garota que ganha superpoderes a partir da ingestão involuntária de drogas desconhecidas, ele poderia ter enveredado para uma rotineira produção de aventura de super-heróis. Ao invés disso, concebeu uma estranha obra envolvendo ação frenética e divagações filosóficas/existenciais. E vindo do mesmo cineasta responsável pelo clássico policial “O profissional” (1994), é claro que a expectativa pode ser grande. Apesar das ideias interessantes de Besson, todavia, a execução formal é bastante truncada. O entrelaçamento entre seqüências de pancadaria e tiroteio com momentos contemplativos não apresenta fluência narrativa, fazendo com que o filme por vezes fique enfadonho. Para piorar, a edição é cheia de “espertezas”, com um excesso de cortes que faz “Lucy” ter um ar videoclipeiro datado. Mesmo as cenas de ação têm uma concepção pouco imaginativa e de pouco impacto, com Besson regurgitando clichês estéticos de forma preguiçosa. É claro que algumas trucagens apresentam certa criatividade e encanto visual. No seu resultado final, entretanto, “Lucy” faz pensar numa esdrúxula e indigesta equação: a do publicitário fã de “Matrix” (1999) e Tarantino que resolve fazer a sua versão de “2001: Uma odisséia no espaço” (1968). E pode crer que isso não é um elogio...

quarta-feira, setembro 03, 2014

Basket Case 2, de Frank Henenlotter ***



A conjunção cinema e horror típica do diretor norte-americano Frank Henenlotter permanece presente em “Basket Case 2” (1990). Nessa continuação da obra original de 1982, as condições de produção são bem mais profissionais, o que fica evidente nos efeitos especiais e maquiagem, fundamentais na esquisita caracterização de monstros e freaks que surgem aos borbotões ao longo da narrativa. A melhora no orçamento, entretanto, rouba bastante da atmosfera demente do primeiro filme, não havendo tanto daqueles climas perturbadores em que o riso e o susto se entrelaçavam de forma natural. Por vezes, o filme chega a ficar agridoce na ênfase em histórias de amor e no tom de denúncia sobre preconceitos. Se não fossem algumas passagens bem sanguinolentas e o visual escatológico de algumas das criaturas, daria até para encarar como uma divertida Sessão da Tarde. Mesmo assim, esse tom mais ameno, provavelmente imposto por produtores, não tira o forte traço autoral de Henenlotter. O terço final de “Basket Case 2”, em especial, revela o corrosivo senso de humor doentio do cineasta, mostrando que ele será um eterno talento outsider.