quinta-feira, julho 01, 2010

Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton **


Devo confessar que as minhas expectativas para “Alice no País das Maravilhas” (2010) eram bem altas. Depois de obras pouco inspiradas (“Peixe Grande”, “A Noiva Cadáver”, “A Fantástica Fábrica de Chocolate”) que faziam supor que estava em declínio criativo, Tim Burton surpreendeu a todos com “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (2007), um extraordinário misto de musical e horror sem concessões que trazia direção de arte e atmosfera góticas impressionantes. Diante de uma obra como essa, o que esperar da visão de Burton sobre uma história tão delirante como a de “Alice...” (ainda mais se relembrarmos a antológica adaptação animada da Disney de 1951)? Ocorre que “Alice no País das Maravilhas” não está apenas abaixo do que se esperava, como também se trata do pior filme disparado da carreira de Burton. E isso ocorre simplesmente pelo fato de que é a sua obra menos pessoal e mais burocrática. O que poderia haver de difuso e misterioso na trama clássica é diluído em um filmezinho de aventura qualquer nota que mais lembra produções família como “Crônicas de Nârnia” do que Lewis Carroll. Mesmo aquilo que poderia ser um fator Burton de diferencial como direção de arte e efeitos acaba não impactando – tudo é tão genérico que se não soubéssemos previamente que “Alice...” se trata de um filme de Burton, passaria batido como fosse outra produção comum do gênero.

quarta-feira, junho 30, 2010

Vidas Que Se Cruzam, de Guillermo Arriaga **

O que de início parecia um estilo vigoroso e original acabou se tornando um exercício narrativo formulaico e frouxo. É o que vem a mente quando se pensa na trajetória artística de Guillermo Arriaga, ainda mais depois de assistir a esse “Vidas Que Se Cruzam” (2008). O truque de narrar histórias paralelas, de difícil conexão aparente, que se entrecruzam e adquirem um sentido único surgiu de forma explosiva em “Amores Brutos” (2000), dirigido por Alejandro González Iñárritu. As produções seguintes da parceria Inárritu/Arriaga, entretanto, não causaram o mesmo impacto: “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006) aparentaram uma excessiva diluição no padrão formal e temático. Arriaga voltou a acertar a mão no ótimo “Três Enterros” (2005), mas a verdade é que os méritos do filme se concentram muito mais na direção segura de Tommy Lee Jones do que propriamente no roteiro. Assim, “Vidas Que Se Cruzam”, a estreia de Arriaga na direção, poderia marcar alguma renovação, mas não é o que acontece. A condução da narrativa é arrastada e pouco fluente e a trama arquitetada por Arriaga traz manjados dilemas já explorados anteriormente. De certa forma, é até irritante ver algumas tiradas moralistas disfarçadas de crises existenciais. Ou o que se pode achar da caracterização sórdida de uma personagem que faz sexo casual com frequência porque teve alguns graves traumas infantis?

terça-feira, junho 29, 2010

Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar, de Christophe Honoré ***1/2


Mesmo não apresentando aquela linguagem cinematográfica mais ousada de obras como “Em Paris” (2006) e “Canções de Amor” (2007), Christophe Honoré volta a demonstrar inquietações criativas em “Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar” (2009). A narrativa nessa produção mais recente pende para o linear, mas essa opção não implica necessariamente em acomodação. Há indícios de fragmentação no roteiro, indo de uma narração em off que beira o literário até flashbacks que irrompem sem o menor aviso. Diálogos e situações se sucedem de forma casual, dentro de um estilo que pressupõe um certo ar de improviso. Por fim, entretanto, tais opções estéticas se revelam não tão aleatórias, mostrando-se em sintonia com a trama do filme. A desagregação psíquica da protagonista Lena (Chiara Mastroiani) fica ainda pungente ao ser retratada pelas rigorosas e pouco óbvias escolhas formais de Honoré.

sexta-feira, junho 25, 2010

Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow ****


Na abertura de “Guerra ao Terror” (2008), a diretora Kathryn Bigelow trabalha com a ação cinematográfica da maneira mais esmiuçada: com o ritmo lento e valorizando a tensão psicológica, explora uma situação limite até chegar ao ápice da sequência da explosão de uma bomba. Nesse instante, Bigelow utiliza com precisão o recurso da câmera lenta, fazendo uma espécie de releitura/homenagem de um dos truques favoritos do mestre Sam Peckimpah. Essas cenas iniciais do filme nortearão o restante da obra, como se explicassem o suspense que está por vir.

Se nesses instantes da abertura Bigelow faz uma dissecação da ação, posteriormente ela fará com que as explosões sejam rápidas e brutais, experimentando com os limites do gênero dos filmes de guerra. O registro visual que faz da violência é ambíguo: em alguns momentos é naturalista e desglamorizado, em outros valoriza aspectos que beiram o épico e grandioso (principalmente pela extraordinária manipulação da trilha sonora). Além disso, a pretensão da cineasta na sua abordagem sobre a guerra no Iraque não é exatamente a de fazer um comentário político ou social sobre o conflito. Na realidade, sua abordagem tem uma linha mais intimista, no sentido que focaliza primordialmente a figura do Sargento James (Jeremy Renner) e a sua relação com uma realidade caótica. James vê a guerra quase como uma oportunidade de completude existencial, como se sua paz espiritual necessitasse do conflito bélico. Esse tipo de visão não chega a ser uma novidade (quem não lembra do Capitão Willard em “Apocalipse Now”?), mas Bigelow explora com louvor as possibilidades desse argumento.

quarta-feira, junho 23, 2010

Utopia e Barbárie, de Silvio Tendler ***


Os mais ranhetas podem achar que “Utopia e Barbárie” (2009) seja panfletário e esquerdista em excesso ao pretender mostrar em duas horas a história mundial dos últimos 50 anos sob uma ótica evidentemente socialista. Mas quem disse que Silvio Tendler tinha obrigação de ser imparcial? Apesar do seu documentário não esconder sua simpatia pela causa das esquerdas, o olhar do cineasta sempre pende para o humanismo. Mais que procurar um viés meramente didático e impessoal, Tendler faz um balanço de fatos e idéias marcado pela pessoalidade e emoção, dando a impressão de ter feito um correspondente cinematográfico da obra literária “A Era dos Extremos” de Eric Hobsbawn. Concentrar-se somente no aspecto temático do filme, entretanto, acabaria sendo muito reducionista. Tendler tem o inegável mérito de condensar com precisão uma gama imensa de imagens, indo de importantes registros históricos até depoimentos reveladores de figuras relevantes no campo do pensamento e da ação. Por vezes, o excesso de informações e pensamentos pode cansar o expectador, mas o que predomina é uma narrativa vigorosa e densa.

terça-feira, junho 22, 2010

Soul Kitchen, de Fatih Akin ****


Depois de obras densas em termos dramáticos como “Contra Parede” (20040) e “Do Outro Lado” (2007), o diretor alemão Fatih Akin inverte as expectativas e parte para o gênero da comédia. O que poderia soar como uma espécie de concessão comercial, entretanto, revela-se um trabalho ainda mais audacioso do cineasta.

O roteiro de “Soul Kitchen” (2009) é quase pueril nas situações, conflitos e soluções apresentados, com direito, inclusive, a um final feliz romântico. Por trás dessa aparente leveza, todavia, Akin envenena o seu filme com doses generosas de sexo, drogas e rock and roll (e funk, soul, música étnica, reggae e o que mais der na veneta). E por falar em música, a trilha sonora de “Soul Kitchen” é, praticamente, um personagem à parte. O pique alucinado e sensual das canções que predominam durante todo o filme ditam o próprio ritmo narrativo da produção, em uma mágica combinação de sons e imagens, com destaque para as seqüências de festas e danças, registradas com o devido espírito apaixonado e hedonista. E reforçando o destaque sobre a trilha sonora, vale mencionar que se tem aqui a melhor seleção cancioneira cinematográfica apresentada desde “Jackie Brown” (1997).

Os experimentos estéticos de Akin em “Soul Kitchen” são inusitados e de resultados deslumbrantes. Nunca a câmera em seus filmes foi tão dinâmica, com enquadramentos que emulam as sensações físicas e emocionais dos personagens. O fato do protagonista Zino (Adam Bousdoukos) passar boa parte do tempo com um problema na coluna, por exemplo, faz com que se veja as cenas, em alguns momentos, sob uma perspectiva “torta”. O efeito é desconcertante. Akin também incorpora influências diversas, de comédia pastelão até blackexploitation (evidentes em exagerados closes nos rostos dos personagens), condensando essas diversas referências em uma obra de coerência formal impressionante.

Junto com os franceses “Inimigo Público nº 1 – Risco de Morte” e “Entre Os Muros da Escola” (ambos de 2008), “Soul Kitchen” representa uma tendência renovadora no atual cinema europeu em apresentar obras mais estimulantes em termos estéticos e temáticos, ao invés da simples reciclagem dos padrões do cinema de bom gosto.

segunda-feira, junho 21, 2010

As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky **1/2


O que incomoda em “As Melhores Coisas do Mundo” (2010) é o tom de didatismo e deslumbramento que permeia o filme. O roteiro parece querer explicar como são os costumes e conflitos dos adolescentes classe média contemporâneos, em um olha misto de pai coruja com pesquisador do National Geographic. O resultado acaba sendo uma visão que beira a idealização, com personagens e conflitos estereotipados. Por mais que se abordem questões polêmicas (homossexualismo, preconceito, iniciação sexual com prostitutas, suicídio), a trama acaba se afunilando para uma estrutura típica de comédia romântica, principalmente por aquela velha e batida equação “garoto e garota amigos se amam, mas não percebem e depois de alguns percalços ficam juntos”. Parece até aquelas velhas produções anos 80 de John Hughes, mas sem o mesmo charme e bom humor. Não há como não destacar, entretanto, a boa dinâmica narrativa que Laíz Bodansky obtém em algumas seqüências – nesses momentos, a diretora parece estar em uma certa sintonia espiritual com a alma juvenil que pretendia retratar no seu filme.

sexta-feira, junho 18, 2010

Mary & Max, de Adam Elliot ***


A técnica de animação em stop motion em “Mary & Max” (2009) dificilmente se encaixa no padrão das mais inovadoras ou rebuscadas. Mesmo assim, ela se revela adequada e expressiva para a trama focada no filme ao trazer em si uma carga que tanto pode remeter a uma fábula quanto a um drama pesado sobre loucura e depressão. Essa mistura de gêneros pode parecer meio esquisita, mas adquire um estranho e coerente sentido com o desenrolar dos eventos. Também é desconcertante ver seres humanos de feições caricaturais e cômicas vivenciarem situações tão cruas e complexas (homossexualismo, alcoolismo, carência afetiva, solidão). É nessa contradição na utilização de recursos dramáticos e formais que reside boa parte do encanto de “Mary & Max”. Baseado em fatos reais, o roteiro não tem como buscar soluções fáceis e lições de vida para os seus personagens e isso nem se mostra necessário. Mesmo derrapando no sentimentalismo em algumas seqüências, “Mary & Max” é uma produção mais do que contundente.

quinta-feira, junho 17, 2010

A Estrada, de John Hilcoat ****


Se em “A Proposta” (2005) o diretor John Hilcoat havia recriado com brilhantismo os preceitos do gênero faroeste em pleno deserto australiano, em “A Estrada” (2010) ele oferece uma nova perspectiva para as produções futuristas apocalípticas. O filme traz boa parte daqueles elementos típicos para obras do estilo: visual dominado por ruínas e pela aridez, a luta pela sobrevivência diante a escassez de alimentos e infra-estrutura, grupos de indivíduos que se rendem à barbárie e, por fim, a busca pela esperança da reconstrução da civilização. O que diferencia “A Estrada” é a forma com que Hillcoat combina uma abordagem reflexiva, que beira o existencialismo, com um extraordinário domínio da ação cinematográfica. Os protagonistas, pai e filho (Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee) que percorrem uma estrada aparentemente interminável à procura de segurança, envolvem-se em diversas situações que colocam em cheque a sua moral (e, por consequência, uma série de princípios humanistas), sem que, entretanto, Hillcoat abdique de encenar seqüências de aventura com uma crueza notável. Os dilemas éticos dos personagens atingem situações limites que geram cenas que impressionam pela tensão psicológica. Nesse sentido, o momento em que o pai castiga com crueldade perturbadora um ladrão negro que havia tentado roubar-lhe o seu material de sobrevivência é antológica pela sensação de desconforto que provoca no expectador.

No mais, a sombria fotografia em tons cinzas, a sóbria utilização de efeitos especiais e a melancólica trilha sonora composta por Nick Cave e Warren Ellis complementam com perfeição a atmosfera opressiva de “A Estrada”, obra que reflete um cinema vigoroso e sem concessões, mesmo que realizado dentro dos padrões de Hollywood.

quarta-feira, junho 16, 2010

Zona Verde, de Paul Greengrass **1/2


Na filmografia de Paul Greengrass, pode-se obrar uma certa unidade no padrão estético de suas produções. O cineasta procura manter um estilo bastante influenciado pelo cinema documental, abusando de recursos como a imagem granulada, câmera tremida, dando aquela impressão de uma atribulada filmagem de um noticiário. Dentro desse padrão formal, Greengrass até atingiu bons momentos como em “Domingo Sangrento” (2002) e “Supremacia Bourne” (2004). Essa fórmula se mostrou desgastada no enfadonho “Vôo 93” (2006), uma reconstituição árida e sem inspiração do único dos atentados terroristas que deu errado no 11 de setembro de 2001. Em “Zona Verde” (2010), o diretor continua focando episódios inspirados na realidade – no presente caso, a ocupação norte-americana no Iraque. Mesmo não sendo tão aborrecido quanto “Vôo 93”, o filme mais recente de Greengrass revela o esgotamento criativo do diretor. A trama se concentra em uma previsível teoria conspiratória, e mesmo como filme de aventura “Zona Verde” é insatisfatório: é tudo tão rápido e tremido que se tem a impressão de nunca se estar assistindo ao que interessa nas tomadas em que a ação prevalece.

terça-feira, junho 15, 2010

Os Homens Que Encaravam Cabras, de Grant Heslov ***


Depois dos apenas medianos “Syriana” (2005) e “Conduta de Risco” (2007), George Clooney continua investindo em produções com um viés pretensamente político, como atesta esse “Os Homens Que Encaravam Cabras” (2009). Assim como nas produções mencionadas, a pretensão de realizar uma contundente crítica aos mecanismos de poder dos Estados Unidos acaba esbarrando em uma abordagem superficial e em uma narrativa convencional. Mesmo assim, “Os Homens Que Encaravam Cabras” se mostra uma experiência cinematográfica bem mais satisfatória que os filmes citados, principalmente pelo seu tom irônico. O diretor Gran Heslov demonstra certa habilidade ao expor uma trama que oscila entre a realidade e a farsa, além de fazer uma bela gozação tanto do militarismo quanto de alguns preceitos hippies (apesar do filme, no final das contas, ser simpático à causa flower power). No mais, vale mencionar a atuação de Jeff Bridges, que parece homenagear alguns trejeitos de um dos mais carismáticos personagens que já interpretou, o doidão boa-praça The Dude de “O Grande Lebowski” (1998).

segunda-feira, junho 14, 2010

Rita Cadillac - A Lady do Povo, de Toni Venturi **


Confesso que as expectativas que eu tinha para “Rita Cadillac – A Lady do Povo” (2007) eram muito altas. Primeiro devido ao recente “Alô Alô Terezinha” (2009), ótima produção que biografava o apresentador Chacrinha e trazia Rita em uma marcante participação. E segundo pelo fato de que o diretor responsável seria o Toni Venturi, o mesmo do eficiente “Dia de Festa” (2006). O resultado, entretanto, é frustrante. O grande barato de “Alô Alô Terezinha” era sua abordagem sarcástica que não se intimidava em revelar as “bagacerias” que rondavam a figura do Velho Guerreiro e os bastidores dos seus programas, mantendo um espírito de irreverência e bandalheira tão caro ao seu protagonista. Já a produção de Venturi adota uma postura que beira o reverencial, tamanho o foco bem comportado no qual enquadra Cadillac. Privilegia-se em demasia os depoimentos recheados de lugares comuns da biografada. O filme ganha em dinâmica e vivacidade por algumas imagens de arquivos fascinantes, como os registros de apresentações de Cadillac na Serra Pelada ou no Carandiru e de cenas de algumas produções cinematográficas das quais ela participou, além de algumas colocações realmente relevantes por parte de gente como Hector Babenco. De resto, entretanto, prevalece um tom burocrático e de vídeo institucional.

sexta-feira, junho 11, 2010

Uma Noite Fora de Série, de Shawn Levy **1/2


Talvez nas mãos de cineastas mais inspirados como Adam McKay ou Greg Mottola, a premissa promissora de “Uma Noite Fora de Série” (2010) bem como os seus protagonistas poderiam render alguns memoráveis momentos de comédia alucinada. Sob a batuta, entretanto, do burocrático Shawn Levy essa produção acaba ficando genérica e comportada demais. A trama clássica da comédia de erros aos poucos vai se diluindo em lições de vida de como preservar o casamento. O filme só respira quando Steve Carrel e Tina Fey disparam piadas e imitações, fazendo com essas cenas pareçam um filme à parte.

quinta-feira, junho 10, 2010

Atraídos Pelo Crime, de Antoine Fuqua ***


O cineasta Antoine Fuqua navega perigosamente entre vários clichês narrativos em “Atraídos Pelo Crime” (2009): o manjado truque das várias tramas paralelas que se entrecruzam, roteiro policial repleto de questões já vistas inúmeras vezes (corrupção na polícia, crime e violência entre marginais em algum bairro barra pesada). O resultando, entretanto, é bem convincente. Mesmo não tendo a mesma dinâmica virulenta de “Dia de Treinamento” (2001), sua melhor produção, Fuqua conduz seu filme com segurança. A atmosfera de tensão é agonizante: os personagens se aprofundam cada vez mais em seus abismos pessoais em uma marcha irreversível para a tragédia. As seqüências de ação são econômicas na quantidade, mas sempre se mostram impactantes – Fuqua mantém um estilo clássico no filmar, não caindo em modernices desnecessárias. O diretor também soube extrair expressivas atuações do seu elenco, com Richard Gere, Ethan Hawke e Don Cheadle oferecendo interessantes nuances para seus sombrios personagens.

quarta-feira, junho 09, 2010

Chico Xavier, de Daniel Filho *1/2


A pretensão de tentar contar a história real de vida de alguém de alguma importância é uma tarefa espinhosa. Afinal, nunca se terá como fazer uma reconstituição de fatos com a mesma veracidade da sua origem. O máximo que se pode conseguir nas cinebiografias é um reflexo da impressão que a figura histórica focada tem sobre as nossas mentes. No extraordinário “O Aviador” (2004), por exemplo, Martin Scorsese trabalha muito mais com a idéia de Howard Hughes e a Hollywood de seu tempo influenciado o nosso imaginário do que propriamente com a simples narração de uma série de eventos dispostos em ordem cronológica. Dentro dessa lógica, “Chico Xavier” (2010) acaba sendo uma experiência cinematográfica muito frustrante, pois o diretor Daniel Filho faz do seu filme um mero desfilar burocrático e linear de algumas das passagens mais importantes da vida do seu protagonista. Independente de se acreditar ou não na doutrina espírita, a impressão que a obra passa é a de ter simplificado uma série de questões complexas. Predomina uma assepsia inócua tanto na encenação como no retratar situações e personagens. A narrativa usa e abusa de uma fórmula: toda subtrama aparece como um desafio para a fé de Xavier e no final se resolve como prova da eficiência da doutrina. Os personagens se dividem de forma maniqueísta em dois tipos – aqueles que acreditam no espiritismo (sempre bons, tolerantes e gentis) e os que não acreditam (geralmente mesquinhos, intolerantes e agressivos).

A impressão final sobre “Chico Xavier” é da mesma ser uma produção destinada a agradar convertidos – Daniel Filho oferece ao seu público justamente aquilo que ele espera saber. Qualquer espaço para uma maior densidade dramática parece suprimido em um produto que beira a propaganda institucional.

segunda-feira, junho 07, 2010

A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski ****


O que Roman Polanski estabelece em “A Dança dos Vampiros” (1967) não é simplesmente uma paródia aos filmes de vampiro. Ele traz todos aqueles elementos característicos das obras clássicas do gênero e compõe uma narrativa que na sua essência é um puro conto de horror, mas recheado de toques picarescos. A trama sempre oscila entre o assustador e o ridículo, como se fosse uma velha lenda contada em tom de troça. A encenação proposta por Polanski é bastante ousada, indo de pequenos truques típicos do cinema mudo (como a velocidade acelerada das imagens) até um despudorado uso de erotismo (a valorização voluptuosa da beleza de Sharon, a homossexualidade escancarada de um dos principais vampiros) em clara alusão ao espírito do amor livre tão propagado na década de 1960. Tanto em termos formais quanto temáticos, “A Dança dos Vampiros” se aproxima bastante do espírito naturalista e malicioso das adaptações cinematográficas de Pasolini para clássicos da literatura como “Decameron” (1970) ou “As Mil e Uma Noites” (1974).

sexta-feira, junho 04, 2010

Como Treinar o Seu Dragão, de Dean DeBlois e Chris Sanders ***1/2


Em meio às várias produções de animações em 3D que chegam aos cinemas, “Como Treinar o Seu Dragão” se destaca pela sua beleza de seu traço estilizado e pela dose cavalar de ação em sua trama. É um filme recheado de sequências de batalhas entre vikings e dragões muito bem detalhadas e executadas. O roteiro, entretanto, não é mero pretexto para as cenas de aventura, trazendo um bem vindo e clássico toque cômico, além de mostrar sensibilidade ao desenvolver o relacionamento entre o protagonista Soluço e o dragão Fúria da Noite. É justamente esse relacionamento que desencadeia os pontos de virada da trama, apresentando soluções narrativas muito interessantes. O ápice do conflito final impressiona pelo tom assustador do gigantesco monstro que esmaga tudo que vem pela frente, em um frenesi de violência e destruição que parece tremer a própria sala de cinema. O que, convenhamos, não é algo que se vê com tanta frequência em animações infanto-juvenis...

quinta-feira, junho 03, 2010

Os Estados Unidos Contra John Lennon, de David Leaf e John Scheinfeld ***


A premissa de que o gênero documentário representa a forma mais próxima de que o cinema pode chegar como encenação da realidade (ou da verdade) das coisas pode ser uma falácia. Afinal, em algumas oportunidades, a manipulação de imagens através da edição, junto a um determinado discurso narrativo, pode forjar uma versão dos fatos que beira o ficcional. Isso tudo veio a minha mente quando assisti “Os Estados Unidos Contra John Lennon”. Não que a situação de instituições norte-americana terem entrado em atrito e perseguido o mais polêmico dos Beatles seja uma mentira. O que incomoda é a própria forma como Lennon é retratado no filme, ganhando uma dimensão quase mítica pelas iniciativas que tomou ao promover questionamentos sociais contra a excessiva militarização do mundo ocidental. Nessa perspectiva, o Lennon que vemos na tela é privado de contradições e de uma densidade mais humana. Mesmo assim, não há como negar o mérito do documentário como propaganda de uma lenda: ao dar uma dimensão épica para Lennon, a obra faz com que o espectador saia simpatizando ainda mais com o cara. Além disso, boa parte das imagens de arquivo resgatadas é fascinante, principalmente por enfocar uma época desconcertante (a década de 70 do século passado) na história da humanidade.

quarta-feira, junho 02, 2010

Tulpan, de Sergei Dvorsevoy ***


Essa produção do Cazaquistão não traz muitas novidades dentro daquele padrão de filmes vindo de países fora do eixo tradicional cinematográfico: temática regional, predominância de atores amadores, encenação naturalista que beira o documental. Isso não quer dizer, entretanto, que “Tulpan” (2008) não tenha os seus méritos. A partir de uma trama árida, o diretor Sergei Dvorsevoy consegue obter algumas seqüências memoráveis, principalmente quando se vale de um inesperado senso de humor. As tomadas com o protagonista Askhat e seu parceiro passeando pelo deserto a toda velocidade em um estranho veículo e ao som de um hit da discoteca são genuinamente engraçadas pela ingenuidade da situação e dos personagens. Já as cenas com os ciclones nas areias e os partos de ovelhas impressionam pela crueza poética do registro. No final das contas, “Tulpan” está longe de ser um clássico, mas também está milhas de distância de ser uma obra aborrecida.

segunda-feira, maio 31, 2010

Coração Louco, de Scott Cooper ***1/2


Em “Coração Louco” (2009), o cineasta Scott Cooper não fez apenas um amálgama biográfico de alguns dos principais cantores da história da música country. O que ele atingiu com louvor foi uma tradução em formato de roteiro e imagens da própria essência do gênero. Melancólicas e sentimentais em sua maioria, as canções compostas e interpretadas pelo cantor Bad Blake (Jeff Bridges), decadente comercialmente (mas pleno de sentimento e inspiração na sua criatividade), revelam como, em boa parte dos casos, a obra de um artista é indissociável da sua própria vida.

A direção de fotografia e a edição em “Coração Louco” são clássicas, mas esse aparente convencionalismo formal se mostra como uma escolha estética acertada de Cooper. A serenidade na condução da trama apenas esconde os tormentos privados de Blake, mas que sutilmente pairam por todo o filme. E mais do que narrar um óbvio conto de queda e possível redenção, “Coração Louco” evidencia duramente a dificuldade em mudar uma personalidade auto-destrutiva, assim como da impossibilidade da reparação de alguns erros. A seqüência, por exemplo, em que protagonista fala sobre o filho que abandonou é impressionante pela exposição nua e crua da indiferença humana. No final das contas, a melhor forma de reparação para Blake parece mesmo ser traduzir as suas dores em forma de belas e doloridas canções.

Em uma produção como “Coração Louco”, não há como não falar da trilha sonora. Além de clássicos do country, o filme se destaca também pelas extraordinárias músicas compostas especialmente para ele. Para quem conhece o talento de T-Bone Burnett (o mesmo responsável pela direção musical memorável de “E Aí Meu Irmão Cadê Você” e “Could Mountain”), isso não chega a ser uma grande surpresa.

sexta-feira, maio 28, 2010

Revanche, de Götz Spielmann ***


Essa produção austríaca de 2008 começa como um vigoroso drama ambientado no submundo da prostituição em uma grande metrópole. A atmosfera sórdida e tensa é quase palpável na trama inicial, em que Alex (Johannes Krisch), ex-condenado que trabalha como faz tudo em um bordel, deseja tirar a namorada prostituta da vida e para isso resolve assaltar um banco. O plano não dá nada certo, o que faz com que o protagonista tenha de fugir para o interior e se refugiar na pequena fazenda do avô. Nesse momento, a narrativa de “Revanche” muda de tom, com o filme se tornando quase um pequeno conto bucólico envolvendo um estranho triângulo amoroso, além do diretor Götz Spielmann estabelecer um olhar contemplativo ao focar as paisagens e o ritmo da vida no campo. Esse choque de duas abordagens diferentes na mesma obra é que provoca as sensações mais insólitas e desconcertantes em “Revanche”.

quarta-feira, maio 26, 2010

A Mulher Sem Cabeça, de Lucrecia Martel ***


O grande mérito no cinema da diretora argentina Lucrecia Martel não está exatamente na elaboração da ação de seus filmes, mas sim na sua capacidade de criar tensão. Ao longo das tramas, poucos elementos aparecem durante a narrativa, mas é justamente nessa economia estética que reside o suspense, aspecto fundamental para Martel. Até o momento, o topo criativo dessa particular proposta criativa da cineasta está no sensacional “Menina Santa” (2004). Mesmo assim, “A Mulher Sem Cabeça” (2007), filme mais recente de Martel, conserva bastante do melhor do seu cinema. A partir da premissa de uma dentista (Maria Onetto) que atropela, supostamente, um cachorro na estrada e entra em um permanente processo de dúvida em relação ao que ocorreu, é estabelecido um cenário de crescente incerteza, não só para a protagonista como para o próprio espectador. Ao invés de um cachorro, não foi uma pessoa que ela atropelou? Será que tudo não passou de um delírio? Ou há uma conspiração silenciosa e invisível para acobertar os fatos? Para Martel, não interessa mostrar ao espectador uma resposta definitiva para essas questões. O que interessa é o mistério, mesmo que ele fique eternamente insolúvel. E no final das contas, a diretora parece se indagar: e quem se importa com isso?

terça-feira, maio 25, 2010

Triângulo, de Christian Petzold **1/2


A trama de “Triângulo” (2008) já foi contada e recontada em outras oportunidades no cinema: um cara meio sem rumo começa a trabalhar para homem bem sucedido financeiramente e ganha sua confiança. Para atrapalhar, entretanto, envolve-se (e se apaixona) pela mulher do chefe, com o casal de adúlteros planejando assassinar o marido traído. Essa história remete diretamente ao clássico romance de James Cain, “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, que foi por duas vezes (1946 e 1981) adaptado ao cinema em ótimas versões (ambas com o título “O Destino Bate a Sua Porta”). O diferencial nessa produção alemã está no enfoque mais intimista, deixando mais evidentes os dilemas morais do que o suspense e a violência em si, elementos esses primordiais no texto original de Cain. Além disso, o diretor Christian Petzold busca aproximar de seu filme questões sociais contemporâneas, principalmente ao caracterizar o marido como um imigrante turco de modos brutais em contraposição ao casal de amantes, alemães “puros”. A verdade, todavia, é que essa busca por uma abordagem mais “séria” acaba frustrante em alguns momentos, principalmente por diluir o aspecto da culpa, tão presente no livro e nas referidas versões cinematográficas anteriores, o que diminui muito o impacto da tensão que o texto original trazia em si. Tanto que “Triângulo” se encerra de forma abrupta justamente naquele ponto da narrativa que nas obras anteriores era apenas a metade de suas respectivas histórias.

segunda-feira, maio 24, 2010

A Mulher Sem Piano, de Javier Rebollo **1/2

Essa produção espanhola de 2009 tem uma trama que parte de uma premissa já bem utilizada no cinema, mas que mesmo assim não deixa de ser interessante: a realidade que se transforma na noite e parece convertida em outra dimensão. O filme mostra a trajetória de uma dona de casa e esteticista frustrada com a sua rotina e que resolve abandonar sua casa numa noite qualquer. Na sua jornada noturna, enfrenta uma série de percalços e encontra alguns tipos esquisitos. A ação discreta e os poucos diálogos, permeados de leve ironia, remetem bastante à estética do cineasta finlandês Mika Kaurismaki. Mesmo com o diretor Javieer Rebollo não atingindo o mesmo nível do encantador estranhamento da obra de Kaurismaki, “A Mulher Sem Piano”, ainda que prejudicada pela aridez da narrativa, possui momentos memoráveis, principalmente pelas seqüências que privilegiam um insólito humor.

sexta-feira, maio 21, 2010

Um Dia Perfeito, de Ferzan Ozpetek **


Essa produção italiana se utiliza de um recurso narrativo que vem sendo explorado à exaustão nos últimos anos: várias histórias que se entrelaçam a partir de situações e personagens em comum, sem haver um protagonista bem definido. Diretores como Robert Altman e Paul Thomas Anderson já se utilizaram desta fórmula com sucesso, justamente por saberem extrair elementos estéticos diferenciados em seus respectivos filmes. Isso está longe de ser o caso de “Um Dia Perfeito”, obra essa que se aproxima mais de conformismo formal e temático de produções genéricas e sem personalidade como “Crash” (2004) ou “Babel” (2006). Mesmo apresentando alguns momentos mais vigorosos, a obra de Ferzan Ozpetek se dilui em tramas desinteressantes e previsíveis, o que fica agravado ainda mais pelo tom melodramático de algumas seqüências dignas de novelões mexicanos.

quinta-feira, maio 20, 2010

Vencer, de Marco Bellocchio ****


Por mais que possam ser atraentes por questões temáticas, filmes biográficos também representam uma forma de armadilha estética. Em boa parte das oportunidades em que eles são realizados, há uma preocupação muito mais em “contar a história” do biografado do que apresentar maiores ousadias formais, ao mesmo tempo em que a narração da história de vida do personagem histórico em questão, pela necessidade de compactar a mesma em algumas poucas horas de filme, acaba resumida em uma versão superficial de fatos e caracterizações caricatas. Marco Bellocchio consegue evitar todas essas limitações de forma extraordinária em “Vencer” (2009), produção que coloca em evidência uma personagem pouco comentada da história contemporânea, Ida Dalser, amante do lider fascista italiana Benito Mussolini. A intenção do filme não é contar detalhes íntimos dos indivíduos ou mostrar com detalhes todos os passos das trajetórias dos mesmos. Pelos olhos de Ida, o que vemos é um ser humano comum, mesmo que cheio de ideais e projetos, convertendo-se em um mito vivo, ainda que polêmico e repleto de contradições. Nesse processo, o peso social e político dessa discutível lenda, representante dos anseios de um povo, reprime e esmaga impiedosamente as aspirações individuais que não estejam de acordo com o grande projeto estatal – no caso em questão, o desejo de Ida em ser reconhecida como companheira de Mussolini assim como de que o filho dessa relação adúltera ganhe a sua legitimidade. Por mais que os interesses de Ida possam parecer mesquinhos em determinados momentos (e eles realmente são), Bellocchio faz da relação Mussolini-Ida a metáfora perfeita do conflito entre Estado autoritário e o indivíduo.

Para ilustrar sua ambiciosa narrativa, Bellocchio opta por um estilo de filmar bastante estilizado, beirando o barroco. A visão que temos dos fatos é contaminada pelo subjetivismo do olhar de Ida. Mussolini sempre irrompe na tela como uma esmagadora força da natureza e a teia conspiratória que visa expurgar Ida e outras máculas da vida do líder italiano atinge proporções kafkanianas ao se abater sobre a protagonista. O clima de paranóia é ainda mais acentuado por cenários que oscilam entre o sombrio e o asséptico. De se ressaltar também as seqüências em que trechos de documentários se entrelaçam com as próprias cenas dramatizadas, obtendo um efeito plástico perturbador, com destaque para o momento em que dois grupos políticos rivais se digladiam durante uma sessão de um documentário – a imagem das silhuetas dos contendores se mistura com os registros em preto-e-branco do filme que estava sendo visto. A atuação de Giovanna Mezzogiorno também é um capítulo a parte em “Vencer” – a atriz apresenta uma interpretação de várias nuances, não deixando Ida cair em clichês simplórios como de pura e injustiçada vítima. Por mais que ela seja massacrada pela máquina estatal de Mussolini, não deixamos de reconhecer no seu comportamento um elemento de desejo de ascensão social;

É provável que o destino das cinebiografias não mude de seu marasmo com “Vencer”. Mesmo assim, essa expressiva produção de Bellocchio aponta caminhos bastante promissores e instigantes para o gênero.

quarta-feira, maio 19, 2010

Moscou, Bélgica, de Christophe Van Rompaey **1/2


Uma mãe de família quarentona está separada do marido professor e boa pinta. Desiludida, acaba se apaixonando por um caminhoneiro grosseirão e mais novo que ela, o que mexe com o tal do esposo presunçoso. Esse resumo de roteiro pode fazer supor que “Moscou, Bélgica” (2008) tenha uma pinta meio de novelinha superficial. Essa produção belga realmente puxa para esse lado várias vezes. Ao mesmo tempo, entretanto, há algumas cruezas na sua rústica estética, meio que puxando para o realismo. Alguns momentos da trama também surpreendem por mostrar situações em que as reações dos personagens fogem do trivial da maioria dos melodramas do gênero. Mesmo que sucumba ao convencionalismo em sua conclusão, “Moscou, Bélgica” não deixa de ser instigante em seus pequenos méritos, com destaque para o carisma e a maturidade das interpretações do casal de protagonistas.

Norte, de Rune Denstad Langlo **1/2


Essa produção norueguesa de 2009 é o tipo de obra que mais chama atenção por seus exotismos e esquisitices culturais do que pelos seus méritos cinematográficos. O diretor Rune Denstad Langlo, pelo menos, sabe valorizar as peculiaridades do seu filme. A fotografia explora com competência as vastas paisagens de campos e montanhas tapadas pela neve, ficando em sintonia com a árida trama de um sujeito com síndrome de pânico que resolve percorrer o interior do país, montado em uma snow board, para encontrar a filha que há anos não vê. No caminho, encontra mais alguns indivíduos estranhos e causa, involuntariamente, pequenos desastres. Longe de ser memorável, “Norte” diverte por algumas de soluções insólitas.

segunda-feira, maio 17, 2010

Sanguepazzo, de Marco Tullio Giordana ***


A estrutura de “Sanguepazzo” (2008) é a de um melodrama clássico sobre a 2ª Guerra Mundial. O que o diferencia de outras produções do gênero é que enfoca a questão da participação de artistas do cinema italiano durante o conflito, tanto pelo lado colaboracionista quanto daqueles que combateram os nazistas. Por mais que se possa criticar que o filme caia em alguns excessos de convencionalismos formal e temático, é fato também que a produção tem um vigor narrativo acima da média, além de não economizar no sangue e no sexo. Nesse sentido, “Sanguepazzo” chega a lembrar o sensacional “A Espiã” (2006), de Paul Verhoeven, apesar de não ser tão pesado quanto esse último e de também não chegar tão perto do exploitation. A reconstituição histórica é minuciosa e a caracterização de Mônica Bellucci como uma diva do cinema italiano impressiona, remetendo bastante a figura de Sophia Loren.

sexta-feira, maio 14, 2010

O Espaço em Branco, de Francesca Comencini ***


As imagens granuladas, os enquadramentos rústicos e a edição oscilante presentes em “O Espaço em Branco” (2009) não são meras escolhas estéticas gratuitas da diretora Francesca Comencini. Na verdade, estão em perfeita sintonia com a temática dessa produção italiana que reflete o quotidiano dissoluto de María (Margherita Buy), uma professora quarentona imersa numa rotina de festas noturnas, sexo e álcool, e que acaba surpreendida com uma gravidez inesperada. O fato realmente inesperado, entretanto, ocorre quando ela tem um parto prematuro, o que faz com que ela fique em um novo momento de expectativa para ver se a sua filha sobreviverá. A partir desse momento, a narrativa parece se tornar cada vez menos difusa, como se refletisse a vontade da protagonista em organizar o caos de sua vida. Comencini tem o mérito de conciliar de forma eficiente uma gama considerável de estilos que variam entre o naturalismo e o delirante, acertando também na escolha de Margherita Buy para o papel principal, cuja atuação impressiona pela crueza com que expõe os sentimentos de sua personagem.

quinta-feira, maio 13, 2010

Páginas Perdidas, de James Ivory **1/2


A obra do cineasta James Ivory sempre foi marcada por um rigor acadêmico. Seus filmes não costumam apresentar maiores ousadias formais, mas isso não quer dizer necessariamente que os mesmos caiam no marasmo. Em suas melhores produções, como “Retorno a Howards End” (1992) e “Vestígios do Dia” (1993), Ivory obteve narrativas de notável intensidade dramática aliada a uma rara elegância e precisão de encenação. “Páginas Perdidas” (2008) é um passatempo agradável, mas não atinge o mesmo nível de qualidade das películas mencionadas anteriormente. Há uma certa frouxidão na forma com que o diretor conduz o filme. Fotografia e direção de arte competentes oferecem um visual bonito, mas também genérico. “Páginas Perdidas” só ganha mais consistência e interesse nas cenas em que Laura Linney aparece, enquanto Anthony Hopkins e Charlotte Gainsbourg estão apáticos.

quarta-feira, maio 12, 2010

A Garota Explosiva, de Bradley Rust Gray *1/2; Wendy & Lucy, de Kelly Reichardt *1/2; O Céu, A Terra e A Chuva, de José Luís Torres Leiva **


Pode parecer preguiça da minha parte querer comentar três filmes em apenas uma breve resenha, mas a verdade é que para os mesmos isso já é mais do que suficiente. Assisti a “A Garota Explosiva” (2009), “Wendy & Lucy” (2008) e “O Céu, A Terra e A Chuva”, as duas primeiras produções norte-americanas e a segunda chilena, esse ano em um festival de cinema em Montevidéu e em todas elas percebi tendências estéticas e temáticas bastante semelhantes entre si. As três optam por narrativas minimalistas estéreis e aborrecidas que privilegiam câmeras quase sempre fixas, além de tramas com poucos diálogos e onde praticamente nada acontece. Os diretores de tais filmes parecem mais interessados em mostrar como a vida é miserável do que em realizar alguma grande cena. Não há paixão e nem quaisquer outros sobressaltos nos seus registros visuais. É claro que de vez em quando aparece um ou outro mérito – alguns belos enquadramentos de “O Céu, A Terra e A Chuva” ou as melodias tristes de Will Oldham em “Wendy & Lucy”. Acaba sendo pouco, entretanto, para que esses filmes permaneçam na memória do espectador após o término de suas exibições.

terça-feira, maio 11, 2010

Meia-Lua, de Bahman Ghobadi **


A trama de “Meia-Lua” (2006) parte de uma premissa interessante: um bando de músicos curdos decide aproveitar a recente “democratização” do Iraque e viajam ao país para uma apresentação. Ao longo do árduo caminho, procuram uma cantora, coisa difícil em uma cultura machista e conservadora como a muçulmana, e também esbarram em dificuldades burocráticas e em percalços típicos de um país ainda em guerra. Em meio a todos esses eventos dramáticos, o diretor Bahman Ghobadi insere elementos cômicos, além de toques exóticos referentes a música e costumes dos curdos. O resultado é palatável dentro daquele manjado esquema de filmes típicos de festivais: muita gente acha a produção simpática, considera válido o esforço de se fazer cinema fora dos grandes centros, mas ninguém realmente se entusiasma e tem vontade de ver de novo. Por mais que pelos parâmetros formais “Meia-Lua” seja uma produção correta, é fato também que o filme causa a impressão de estar preso dentro de uma fórmula já bastante gasta e desinteressante.

La Pivellina, de Tizza Covi e Rainer Frimmel ***

A primeira referência que vem à cabeça ao assistir “La Pivellina”, produção italiana de 2009, pode parecer óbvia demais, mas o fato é que tal filme remete bastante a estética neorealista, tanto no seu aspecto temático quanto no formal. A trama do filme é simples e de forte conteúdo social: por um acaso do destino, um casal de artistas mambembes acaba ficando com o encargo de cuidar de uma menina de dois anos que foi abandonada temporariamente pela mãe. A narrativa é episódica, mostrando pequenos e corriqueiros eventos da rotina dessa família improvisada, e acaba funcionando como um retrato áspero da rotina das camadas menos favorecidas da sociedade italiana. Os diretores Tizza Covi e Rainer Frimmel privilegiam um estilo de filmar de câmera na mão e com imagem granulada, quase como se fosse um documentário. Sua forma econômica de encenar esse pequeno drama, entretanto, está muito longe de ser precária. Os enquadramentos e a edição são eficientes, causando empatia e interesse ao espectador em relação ao desenrolar da história. Outro trunfo de “La Pivellina” é a impressionante atuação da pequena Ásia Crippa no papel da garotinha abandonada – seu naturalismo faz até supor que a menina não esteja interpretando, e sim que realmente esteja acreditando que aquilo que está acontecendo na tela seja verdadeiro.

sexta-feira, maio 07, 2010

Em Comparação, de Harun Farocki 1/2 (meia estrela)


Um documentário composto apenas de imagens com longos planos fixos que mostram a confecção de tijolos em diferentes culturas, retratando desde processos rústicos e artesanais até sofisticadas produções em escala industrial, pode parecer algo muito chato. Pois “Em Comparação” cumpre com plenitude tais expectativas. A intenção do diretor Harun Farocki em fazer esse panorama mundial sobre tema tão árido revela uma intenção de traçar um paralelo entre as diferenças antropológicas e sociais de diferentes povos no nosso planeta. As conclusões são óbvias: enquanto temos sociedades em que os avanços tecnológicos são uma realidade incontestável, em outras comunidades se tem a impressão que o tempo parou. Para chegar nessa constatação, entretanto, é provável que não fosse necessário agüentar uma narrativa tão aborrecida e previsível quanto “Em Comparação”. As imagens colhidas por Farocki induzem muito mais ao tédio e à indiferença do que a alguma empatia com as pessoas e situações focalizadas.

quinta-feira, maio 06, 2010

Whisky com Vodka, de Andreas Dresen **1/2


Dramas que tem como pando de fundo os bastidores da realização de um filme não são novidades no mundo cinematográfico. A trama de “Whisky com Vodka”, produção alemã de 2009, traz boa parte dos elementos que costumam aparecer nesse tipo de obra: tensões criativas, batalhas de ego, desencontros amorosos. Tendo como foco principal um veterano astro que causa uma série de conflitos pessoais e artísticos durante as filmagens de uma histórica de época, “Whisky com Vodka” é divertido e eficiente na sua proposta de desnudar o que representa a fogueira de vaidades que envolve esse tipo de atividade. Só acaba sendo frustrante por não explorar com mais profundidade as possibilidades que surgem, principalmente no quesito de evidenciar a confusão que pode haver entre o real e a ficção ou de colocar em pauta o que leva alguém a se envolver com o estressante ato de se envolver na produção de um filme, aspectos esses que François Truffaut trouxe à tona com sensibilidade e agudez em “A Noite Americana” (1973).

quarta-feira, maio 05, 2010

Sangue de Virgens, de Emílio Vieyra ***


Essa é mais um daqueles antigos filmes de horror vampirescos incapazes de assustar o espectador atual e que se perderam na poeira do tempo. Mesmo assim, assistir essa produção argentina de 1967 pode ser uma experiência insólita e divertida. A caracterização dos vampiros é precária (poucas vezes aqueles caninos típicos pareceram tão toscos), mas o grande barato do filme está nos elementos de exploitation. O diretor Emílio Vieyra mostra um talento natural e fluente para longas seqüências repletas de mulheres nuas e orgias gratuitas (até agora não entendi onde estão as virgens do título). Mesmo a encenação ingênua e as interpretações canastronas do elenco acabam funcionando a favor de “Sangue de Virgens” no sentido de acentuar o seu involuntário tom bagaceiro e cômico. Isso não quer dizer, entretanto, que o filme caia na vala comum do “trash”, até porque Vieyra é um artesão cinematográfico competente em termos formais.

terça-feira, maio 04, 2010

Drácula, de Tod Browning ***1/2


É claro que “Dracula” (1931) não tem o mesmo poder de assustar as platéias nos dias atuais (ao contrário, por exemplo, do “Nosferatu” de F.W. Murnau que ainda hoje impressiona pela sua configuração de um pesadelo em celulóide). A força do impacto do filme de Tod Browning hoje se encontra muito mais na sua caracterização estética e na força carismática de Bela Lugosi no papel-título. Browning constrói uma narrativa envolvente, tropeçando apenas nas interpretações excessivamente melodramáticas de boa parte do elenco e na economia da violência (coisas, entretanto, que eram normais para a época). “Drácula” foi um bom laboratório para Browning, que no ano seguinte atingiu o seu ápice criativo em “Freaks”.

segunda-feira, maio 03, 2010

Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi ***


O cineasta Sérgio Bianchi consegue extrair uma combinação interessante entre narrativa intimista e questões sociais em “Os Inquilinos” (2009). Na realidade, ele mostra como esses dois elementos podem ser indissociáveis. Bianchi não discute a origem do mal: apenas mostra a violência e a criminalidade típicas no cotidiano das comunidades mais pobres e como elas afetam o aspecto psíquico de um indivíduo. Assim, vê-se o protagonista Valter (Marat Descartes) entrando em um crescente e tenso processo de paranóia e insegurança a partir da noite em que um grupo suspeito se muda para casa vizinha a sua. Bianchi cria uma eficiente atmosfera de dúvida e desconforto, em que medos reais acabam se entrecruzando até mesmo com delírios. Vê-se a realidade pelos olhos do personagem principal, o que faz com que os fatos se tornem imprecisos, nebulosos. Valter nunca sabe de onde o ataque virá e nem se aos menos virá. Dentre as muitas produções nacionais recentes que buscam retratar a conjuntura social brasileira, “Os Inquilinos” é uma das mais contundentes e certeiras na abordagem e encenação.

sexta-feira, abril 30, 2010

Chéri, de Stephen Frears ***


Confesso que eu andava meio ressabiado em relação a Stephen Frears. Seus últimos filmes, “Senhora Henderson Apresenta (2005)” “A Rainha” (2006), eram assépticos e burocráticos demais, e não traziam a mesma verve criativa de obras mais relevantes como “Minha Adorável Lavanderia” (1985), “Os Imorais” (1990) ou “A Grande Família” (1993). Sua produção mais recente, “Chéri” (2009), entretanto, mostra que Frears ainda tem lenha para queimar. O diretor envereda por um terreno perigoso, o da adaptação de obra literária (no caso em questão, um texto original de Colette), abusando de uma narração em off e do rigor de uma direção de arte caprichada. Mesmo não atingindo o mesmo brilhantismo narrativo que havia logrado em “Ligações Perigosas” (1988), Frears obtém um resultado satisfatório em “Chéri”, em que a combinação de montagem dinâmica e bela fotografia, aliados a um roteiro cheio de humor amargo, não deixam o filme cair no academicismo óbvio.

quinta-feira, abril 29, 2010

Limite, de Mário Peixoto ***1/2


Mesmo para os padrões atuais, “Limite” (1931) continua sendo uma ousada experiência cinematográfica. O diretor Mário Peixoto rompeu com a narrativa linear e literária, realizando um filme que só poderia existir e fazer sentido como cinema. As imagens se sucedem em tom de delírios, lembranças e registros oníricos, mas não se combinam gratuitamente. As enigmáticas tomadas nos rios e as engenhosas fusões de imagens produzem seqüências que se fixam no nosso imaginário, mesmo quando não conseguimos captar na plenitude a compreensão das mesmas. Tal dificuldade de se perceber o sentido das cenas pode ser encarada como mérito do filme, ao estabelecer uma aura de mistério instigante que configura “Limite” para a mente do espectador como uma recordação difusa, algo como um sonho (ou até mesmo um pesadelo...).

quarta-feira, abril 28, 2010

Vírus, de Àlex e David Pastor ***


“Extermínio” (2002) pode não ter sido a primeira obra dentro desse gênero que combina terror biológico e ficção científica, mas foi a obra que estabeleceu os parâmetros para esse tipo de produção. “Vírus” (2009) não inova muito na linha em questão. Combina, entretanto, com convicção e habilidade todos os clichês necessários para um exemplar convincente. Os irmãos diretores Àlex e David Pastor construíram uma atmosfera desoladora e pessimista para retratar uma sociedade combalida por uma doença altamente contagiosa, mesmo focando poucos personagens. A questão do conflito entre moralidade e instinto de sobrevivência é bem trabalhada e funciona como eficiente mote para a constante tensão do filme. A utilização dos efeitos especiais é econômica, mas quando os mesmos entram em cena tem sempre um forte impacto. Mesmo realizado dentro de um padrão de produção norte-americano, “Vírus” é um “horror movie” apocalíptico que não apresenta muitas concessões, o que é bem louvável nesse panorama atual de assépticos filmes de terror que procuram não ofender estômagos sensíveis.

terça-feira, abril 27, 2010

Um Sonho Possível, de John Lee Hancock *


Não se iludam com os prêmios para Sandra Bullock e todas as indicações que “Um Sonho Possível” (2009) recebeu: a atuação dela é tão rasamente consistente quanto outras das comédias românticas insossas que ela costuma trabalhar, bem como a produção dirigida por John Lee Hancock é um sério concorrente a filme mais medíocre a ser exibido nas nossas telas esse ano. A narrativa esquemática tira qualquer impacto que poderia ter a história real na qual o roteiro é baseado. Hancock transforma tudo em um ameno draminha cor de rosa unidimensional recheado de fáceis lições de vida. O protagonista Big Mike é tratado como um gigante taciturno, mas de bom coração, e a família que o acolhe tem uma caracterização que beira o patético de tão simplista: o pai paciente, a filha mais velha bonitinha e meiga, o caçula adoravelmente esperto e, por fim, a mãe perua durona e decidida, mas no fundo sentimental (talvez, o máximo de complexidade que Hancock e Bullock possam compor). Nem as novelas mais xumbregas que costumam ser exibidas na televisão ousam ser tão previsíveis e conservadoras quanto “Um Sonho Possível”, o que mostra que Oscar, Globo de Ouro e outras coisas do tipo não são, atualmente, o parâmetro mais confiável para se escolher um filme para ver no cinema.

segunda-feira, abril 26, 2010

O Livro de Eli, de Allen e Albert Hughes ***


“O Livro de Eli” (2010) lembra vários daqueles filmes oitentistas de ação passados em um futuro pó-apocalíptico que vieram na esteira do sucesso da trilogia “Mad Max” (principalmente influenciados pelos dois primeiros filmes da série de George Miller). A história pouco difere daquelas produções: herói solitário, deserto de visual desolador como constante pano de fundo, bandidos nojentos, algum bem precioso pelo qual o protagonista e seus rivais lutam (água, gasolina e, no caso em questão, uma Bíblia). O filme dos irmãos Hugues apresenta uma certa aura de seriedade para disfarçar as referências de filme B, mas, no geral, “O Livro de Eli” é apenas boa diversão escapista. Denzel Washington compõe com carisma o típico “estranho sem nome”. A ação e a violência não têm aquele pique alucinado do melhor de “Mad Max” – são econômicas e bastante estilizadas, mas não caem naquele clima “comercial de sabonete” típico de Zack Snyder.

sexta-feira, abril 23, 2010

Nosferatu, de F.W. Murnau ****


Diante de um filme como “Nosferatu” (1922), todas as discussões parecem pueris sobre efeitos especiais que se tornam obsoletos com o passar do tempo. Em comparação aos modernos truques digitais das produções cinematográficas atuais, as trucagens desse clássico do expressionismo podem ser aparentemente primárias, mas na verdade tem um impacto sensorial muito mais permanente para o espectador. Aliado aos preceitos básicos do expressionismo alemão, tais efeitos configuram uma atmosfera fascinante e realmente assustadora para “Nosferatu”, em que se tem a impressão de que o universo do vampiro Orlok representa um pesadelo que invade sem cerimônia a realidade. F.W. Murnau realizou um filme de horror cujo poder de causar medo e suspense para as platéias se manteve intacto, além de elaborar um dos padrões estéticos mais influentes da história do cinema.

quinta-feira, abril 22, 2010

Corumbiara, de Vincent Carelli **1/2


A intenção principal de Vincent Carelli ao realizar “Corumbiara” (2009) não foi de ganhar prêmios em festivais ou ser um sucesso de bilheteria. Seu trabalho privilegiou o lado social e antropológico de registrar provas do massacre da tribo indígena por latifundiários, assim como buscar pelos últimos sobreviventes. Nesse sentido, Carelli foi bem sucedido ao converter em imagens um dos lados mais obscuros e perversos da realidade brasileira. O cineasta conseguiu também obter cenas memoráveis, ainda que às vezes um pouco enfadonhas, de rituais e outras práticas culturais que até então pouco ou nada havia merecido alguma espécie de documentação. Por seus méritos formais, entretanto, “Corumbiara” frustra por apresentar uma linguagem convencional em demasia. O ambiente focalizado, as selvas do norte brasileiro, poderiam ter sido melhores aproveitadas. Não há tanto daquela sensação de opressão e sufoco das matas selvagens, coisa que filmes como “Apocalipse Now” (1979) ou “Fitzcarraldo” (1982) conseguiram explorar com mais habilidade. De qualquer forma, essa limitação na forma de filmar, provavelmente, pode ter sido originado das próprias condições precárias da produção.

terça-feira, abril 20, 2010

Drácula: O Príncipe das Trevas, de Terence Fisher **1/2


Os filmes de Drácula produzidos pela Hammer eram exibidos com regularidade na TV aberta nas décadas de 70 e 80. Assim, na minha infância e adolescência assisti à grande maioria dessas produções. Na minha visão infanto-juvenil, eu realmente ficava impressionado com tais filmes, considerandos os mesmos bastantes tensos e assustadores. Em uma revisão recente de um desses exemplares dessa cinematografia, “Drácula: O Príncipe das Trevas” (1966), constatei, entretanto, que o impacto já não era o mesmo. É claro que se percebe ainda uma certa elegância na encenação e uma sólida caracterização estética, além de Christopher Lee interpretar Drácula de forma carismática. O problema da obra é que ela não consegue mais instigar medo e suspense como fazia anos atrás, ao contrário de clássicos como “Nosferatus” (1922) e “Drácula” (1931). Dessa forma, “Drácula: O Príncipe das Trevas” se justifica muito mais como uma curiosidade histórica do que propriamente um filme relevante.

segunda-feira, abril 19, 2010

A Condessa, de Julie Delpy **1/2


A história real da Condessa Erzébet Bathory é razoavelmente conhecida: no século XVI, matou várias virgens para usar o sangue das mesmas em banhos de beleza que visavam preservar a sua juventude. Essa mórbida trajetória já havia merecido algumas versões cinematográficas que pendiam mais para o fantástico. Nessa adaptação recente (2009) dirigida por Julie Delpy (que também interpreta a Condessa), a abordagem é naturalista e sóbria, apresentando uma bem cuidada reconstituição de época. A primeira metade do filme tem uma narrativa engessada, dentro de um formato de drama de época convencional e excessivamente sentimental. Na metade final, contudo, quando Bathory começa a perseguir e assassinar as tais virgens, a produção ganha um ritmo mais atraente, com cenas tão sangrentas que beiram o terror gore.

sexta-feira, abril 16, 2010

Educação, de Lone Scherfig **1/2


Por mais que se diga que o que importa no cinema não é o que se conta, mas sim a forma como se conta, há filmes cujo foco principal está na história e onde ousadias formais estão descartadas. “Educação” (2009) é um desses casos. A trama, assinada pelo célebre escritor Nick Hornby, narra o processo de amadurecimento precoce de uma menina de 16 anos após ser enganada por um trintão bom de papo, servindo também como interessante crônica de costumes da Inglaterra do início dos anos 60. Edição e fotografia são eficientes, e, aliadas à trama, conseguem captar razoavelmente a atenção do espectador. E se o que nos resta é prestar atenção no roteiro, não há como não ficar frustrado com o teor moralista e convencional do mesmo. Por mais que a protagonista tenha desafiado a autoridade de seus pais e professoras e contestado a moral burguesa da sociedade britânica da época, a conclusão do enredo parece fazer uma questionável apologia do conformismo. A sensação fica ainda mais incômoda quando lembramos que o texto do filme é produto da escrita de Hornby, um dos mais ardorosos defensores da mitologia rocker.

quinta-feira, abril 15, 2010

O Amor Segundo B. Schianberg, de Beto Brant 1/2 (meia estrela)


Não dá para dizer que Beto Brant é um cara que não sabe dirigir um filme. Em “Ação Entre Amigos” (1998) e “O Invasor” (2002), ele demonstrou desenvoltura considerável no domínio da ação cinematográfica, enquanto “Crime Delicado” (2005) e “Cão Sem Dono” (2007) revelavam também o seu talento para encenar dramas mais intimistas. Diante dessa prévia trajetória, não há como não se decepcionar com uma obra tão brochante quando esse “O Amor Segundo B. Schianberg” (2009). A produção mais recente de Brant transparece uma falta do que dizer e, principalmente, um desinteresse pelo ato de fazer um filme. Ao retratar o processo de criação de uma videomaker, talvez a intenção do cineasta tenha sido de fazer algo que remetesse ao formato da arte de sua protagonista. O resultado final, entretanto, é falho e desinteressante. Como narrativa, “O Amor Segundo B. Schianberg” resume-se a uma sucessão de cenas banais e discussões afetadas embalada por uma fotografia qualquer nota.