quinta-feira, outubro 06, 2011

Um Conto Chinês, de Sebastián Borenztein **1/2



Parece que virou rotina que pelo menos uma vez ao ano apareça uma produção argentina que se torne uma espécie de fenômeno cult de público e crítica. Na grande maioria das oportunidades, entretanto, trata-se de alguma obra mediana de concepção formal apenas correta e temática com elementos novelescos (e nisso pode-se incluir até mesmo o oscarizado “O Segredo dos Seus Olhos”). Ah, e quase invariavelmente tais filmes trazem como protagonista o Ricardo Darin. Bem, tudo isso para dizer que “Um Conto Chinês” (2011), o argentino da vez, não foge à regra. A presença de chineses na trama até dar um certo ar exótico, mas na essência se trata de mais do mesmo. O roteiro é um primor de formulismo: Roberto, sujeito turrão e solitário (mas no fundo boa gente), acaba acolhendo um chinês em sua casa e é obrigado a rever os seus conceitos de vida, dando até uma chance para uma solteirona que o ama. O diretor Sebastián Borenztein conduz a sua narrativa sem maiores esboços de ousadia, com a possível exceção da sequência de abertura, que traz um certo toque de realismo fantástico. No final das contas, o que dá peso para “Um Conto Chinês” são alguns momentos efetivamente engraçados e a interpretação consistente de Darin, que oferece dignidade e carisma ao seu personagem. E querer ver mais que isso no filme é forçar a barra.

terça-feira, outubro 04, 2011

O Grande Êxtase do Entalhador Steiner, de Werner Herzog ****



Na superfície, “O Grande Êxtase do Entalhador Steiner” (1973) é um documentário a retratar o ápice de superação de Walter Steiner, campeão mundial de salto de esqui, que atinge sucessivamente impressionantes recordes mundiais. Na essência, entretanto, é obra que mostra a construção de mito, retratando o momento exato em que o homem se converte em lenda vida. Quando está fora da plataforma de salto e sem os esquis, Steiner é uma criatura tímida e desajeitada, de ar quase introspectivo. Quando entra em ação, ganha uma postura que beira a divindade, praticamente um semideus a desafiar os limites da velocidade e da gravidade. A forma com que Herzog registra os saltos de Steiner também colabora para a construção de tal dimensão épica: enquadramentos inusitados e uma câmera lenta que capta todas as nuances da performance do esquiador dão a impressão de que estamos vendo algum ser alado tirado de algum conto fantástico invadindo a nossa realidade. Mas se Herzog expõe um olhar admirado pelas proezas de seu protagonista, ele também reserva a lembrança de que o limite entre a glória mitológica e a dura realidade do fracasso é muito tênue – há sequências que trazem casos de saltos que resultaram em tragédias, como se o diretor lembrasse da própria fragilidade física humana diante de uma tentativa frustrada. Essa contraposição entre o sucesso e o fracasso estimula o questionamento sobre os motivos reais de um homem como Steiner a tentar ultrapassar cada vez mais as suas próprias marcas. A falta de uma resposta plausível acentua a aura de mistério que permeia “O Grande Êxtase do Entalhador Steiner”.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Gasherbrum, de Werner Herzog ***1/2



A temática do documentário “Gasherbrum” (1984) pode lembrar algum episódio do Globo Repórter ou de um canal esportivo qualquer: dois alpinistas enfrentam dois grandes picos em apenas uma escalada. Se nos programas televisivos tal evento seria tratado como um exemplo de superação pessoal ou outra lição de vida edificante, nas mãos de Werner Herzog o mesmo acaba ganhando uma conotação bem diversa. Na visão pouco emocional do diretor alemão, o feito dos protagonistas é o retrato de uma obsessão e de desejos profundos que os envolvidos mal conseguem explicar. Não se trata de heroísmo, mas simplesmente de um beco sem saída existencial, em que a única alternativa restante na vida deles é escalar nas condições mais adversas possíveis. O método formal meticuloso e de distanciamento emocional de Herzog ao filmar encontra sintonia espiritual com a própria ambientação inóspita onde a produção se desenrola, e rende, pelo menos, uma seqüência antológica – aquela em que o diretor entrevista um dos aventureiros em questão sobre um episódio anterior em que o seu irmão, também alpinista, faleceu em uma escalada. O depoente mantém um tom sereno durante toda a narrativa que faz da sua tragédia pessoal, mas desaba em soluços quando indagado sobre como comunicou à sua mãe sobre o falecimento do outro filho. É avassalador o efeito do intimismo de tal manifestação em meio à crueza da abordagem até então praticada por Herzog. É como se não houvesse lugar para tais lágrimas naquele ambiente gélido.

sexta-feira, setembro 30, 2011

O Diamante Branco, de Werner Herzog ***1/2



Voltando a uma de suas temáticas favoritas, a relação conturbada entre o homem e a natureza, o diretor Werner Herzog oferece um retrato perturbador da obsessão humana no documentário “O Diamante Branco” (2004). Nos momentos iniciais, predomina um certo detalhamento técnico das minúcias que envolvem o projeto do protagonista Graham Dorrington, um engenheiro aeronáutico que projeta e constrói um dirigível com o objetivo de filmar uma floresta da América do Sul. Com o desenrolar da produção, entretanto, Herzog insere sutilmente elementos pessoais dos principais envolvidos na operação, extraindo depoimentos e situações que refletem um choque entre conflitos intimistas com a dimensão épica da jornada de Graham. Fica estabelecida uma metáfora poética: quanto mais avançam na floresta e procuram fazer com que o dirigível alce vôo, mais revelam e se aprofundam sobre as razões de se envolverem em empreitada tão difícil. Além disso, o cineasta mostra a sua habitual e particular forma de retratar ambientes nativos, num misto de admiração e temor perante o desconhecido. No geral, o registro de Herzog em “O Diamante Branco” até evoca uma das suas mais obras mais comentadas no gênero documentário, “Fata Morgana” (1970), com o real se transmutando em imagens que até ganham conotações oníricas – afinal, o diamante branco do título é uma comparação entre o formato da aeronave em questão no ar com aquele da pedra preciosa que por muitos anos era encontrada na Guiana Francesa, local onde a obra foi filmada.

quinta-feira, setembro 29, 2011

Fata Morgana, de Werner Herzog ***1/2



Tentar entender ou explicar “Fata Morgana” (1970) como um documentário a retratar o coração e alma da África seria impreciso. Aparentemente, não há um roteiro linear que ajude ao espectador a compreender o que seria a “trama” do filme. São imagens e sons que se sucedem e combinam, com sucessivos planos seqüências, de forma um tanto aleatória. O que era para ser cinema verdade acaba se tornando uma espécie de divagação existencial e estética a refletir um estado espiritual. Herzog demonstra olhar fascinado sobre o exotismo e mistério que rondam o continente africano, mas não transforma sua produção em algo de caráter didático ou de exaltação para gringo ver. Seu registro é de tintas impressionistas, em que mesmo o flagra da “verdade”, de acordo com a concepção formal do diretor, adquire, por vezes, o viés do irreal e do atemporal, sensação essa que é reforçada ainda mais por uma trilha sonora climática, marcada por temas típicos de rock progressivo setentista na linha kraut rock. Também permeia “Fata Morgana” a característica forma de Herzog retratar a natureza: sua abordagem não é de deslumbre ecológico, mas sim de um temor em relação ao desconhecido que emana daquelas paisagens inóspitas. Tal visão, por sinal, continuou a ser explorada em obras posteriores e fundamentais do diretor (“Aguire”, “Fitzcarraldo”, “O Homem Urso”).

quarta-feira, setembro 28, 2011

Larry Crowne - O Amor Está de Volta, de Tom Hanks **1/2

O título que arrumaram no Brasil para a mais recente incursão de Tom Hanks na direção acaba dando um sentido enganoso para a produção. Não que o elemento comédia romântica não esteja presente na trama – na realidade, é até um dos seus motes centrais. Mas “Larry Crowne – O Amor Está de Volta” (2011) tem uma pretensão um pouco maior na sua proposta. O que na realidade o diretor se propõe no filme é realizar uma espécie de revitalização daquelas comédias dramáticas de Frank Capra, em que no meio da recessão econômica pós-1929 se procurava fazer uma exaltação dos melhores valores humanos do homem comum norte-americano. No caso de Hanks, o roteiro se contextualiza na ressaca da quebra da economia mundial ocorrida em 2008 (e que na realidade ainda se expande atualmente). Os protagonistas vividos por Hanks e Julia Roberts se encontram com suas vidas pessoais em colapso. A personagem de Julia, inclusive, esboça um caráter niilista, devidamente temperado por alcoolismo light. Por se tratar de uma comédia de elenco estelar, é óbvio que tais figuras alcançam a sua redenção. É inegável, entretanto, que “Larry Crowne” traga no seu bojo uma visão crítica em relação aos valores pequenos burgueses. Por mais que as suas criaturas tenham um final feliz, algumas das soluções propostas na conclusão não enveredam pela mágica fácil. É como se o filme propusesse algo na linha “seja feliz com o que você tem ao seu alcance”, o que não deixa de ser um viés desafiador das convenções pequeno burguesas de sucesso a qualquer preço. No mais, Hanks pode não ter a mesma classe formal de Capra, mas mesmo assim consegue oferecer alguns momentos de boa diversão escapista, mas com uma certa dose de reflexão.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Até o Fim - E Além, de Peter Buchka ***1/2



A concepção de “Até o Fim – E Além” (1988) até exala uma aparente simplicidade – consiste basicamente em uma entrevista do diretor alemão Werner Herzog comentando algumas de suas principais obras, entrecortado por trechos dos mesmos. O próprio fato de exibir alguns dos melhores momentos da cinematografia de Herzog já transformaria tal documentário em uma produção de peso, mas as coisas transcendem ainda mais pelo conteúdo das declarações do cineasta germânico. Ele expõe com veemência as suas visões pessoais e filosóficas sobre o cinema e o mundo que o cerca, explicando como tais visões se relacionam com a sua filmografia. Em suas observações, Herzog traz algo entre o delirante e a lucidez, conflito esse que sempre se manifestou em filmes como “Aguirre – A Cólera dos Deuses” (1972) e “Fitzcarraldo” (1982). Gostando ou não de sua obra, é inegável que a mesma reflete com fidelidade as intenções formais e temáticas de Herzog. Isso pode ser constatado na medida em que as declarações do artista revelam um grande domínio dele em relação ao que desejava e ao que realizou em seus filmes. E talvez esse seja o grande mérito de “Até o Fim – E Além”, na medida em que joga uma luz sobre as produções do artista e lhe dá uma perspectiva que as tornam ainda mais fascinantes.

quinta-feira, setembro 22, 2011

Cowboys e Aliens, de Jon Favreau **1/2



Dentro de uma concepção típica da cultura pop, a ideia central de “Cowboys e Aliens” (2011), apesar de não muito original, é muito boa ao procurar juntar dois dos mais estimados gêneros cinematográficos – faroeste e ficção científica. Não deixa de ser atraente também o fato de uma trama e ambientação características do cinema B receberam um tratamento de produção classe A. Mas se na teoria tais aspectos despertam curiosidade, na execução as coisas ficam abaixo do esperado. O pastiche de elementos diversos faz que tanto a parte western quanto a espacial soam fake e limpinhas demais. É claro que não dava para esperar um estilo clássico no dirigir na junção de gêneros diversos. O que incomoda é uma ambientação um tanto asséptica em que até a sujeira e o sangue parecem excessivamente clean. É de notar também que uma trama como “Cowboys e Aliens” exigiria uma abordagem mais marcada pela ironia, tendo em vista o tom juvenil de sua premissa. O que predomina durante o filme, todavia, é um viés dramático, de conotações moralistas e repleto de discursos edificantes, o que acaba sendo um pouco ridículo. Deixando tais equívocos de lado, resta ainda em alguns momentos uma diversão espapista até bem palatável, principalmente pelos bons efeitos especiais e pela ação desenfreada de algumas sequências. Talvez o azar de “Cowboys e Aliens” esteja no fato de que em 2011 houve produções de aventura nas telas bem mais satisfatórias como “X-Men: Primeira Classe”, “Capitão América: O Primeiro Vingador” e “Planeta dos Macacos: A Origem”.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Além da Estrada, de Charly Braun **1/2



O grande mérito de “Além da Estrada” (2010) está na forma com que o filme aproveita as paisagens do interior do Uruguai. A direção de fotografia da produção consegue captar com sensibilidade a beleza melancólica dos pampas. Tais enquadramentos, entretanto, não se limitam à mera demonstração de virtuosismo. O diretor Charly Braun consegue estabelecer uma relação dessas imagens com a temática do filme – a de jovens em momento de indecisão que procuram algum sentido para a sua vida. De certa forma, Braun evoca um pouco da escola Sofia Coppola de filmar – olhar contemplativo, personagens em crise existencial, trilha sonora na linha rock/folk indie. O seu diferencial dentro do mencionado estilo se encontra no fato de se utilizar técnicas documentais no registro de algumas cenas, quase como se quisesse captar o efeito casual em diálogos e situações. Nesses momentos, “Além da Estrada” atinge o seu pico criativo. No geral, padece de uma certa frouxidão na dinâmica cinematográfica pelo excesso de quebras no seu ritmo narrativo.

segunda-feira, setembro 19, 2011

Esses Amores, de Claude Lelouch ***



Em um primeiro plano, “Esses Amores” (2010) seria uma história romântica marcada por um pano de fundo histórico. Em essência, entretanto, trata-se de uma espécie de inventário estético e biográfico do diretor francês Claude Lelouch, onde o mesmo faz a profissão de fé de suas obsessões formais e temáticas. Misturando gêneros (romance, guerra, musical), o cineasta gera um pastiche que configura diversas influências e referências, e, por mais que tenha passagens de histórias reais, monta um mosaico narrativo que evoca vários elementos do nosso imaginário cinematográfico. Em alguns momentos, a narrativa se torna frouxa e até mesmo fragmentada, com personagens e situações se desenvolvendo de forma superficial e apressada, mas é inegável que algumas sequências trazem um cuidado visual e sonoro cativante, induzindo a um registro de tintas quase oníricas. De certa forma, é como se Lelouch jogasse no celulóide uma gama de reminiscências e fizesse com que as lembranças se materializem numa trama. Como toda recordação, é provável que o tom fique distorcido/idealizado, o que dá para o filme uma atmosfera algo irreal. Apesar de um todo irregular, “Esses Amores” é um exercício contundente de cinema por afirmar um toque personalista na sua concepção e realização.

sexta-feira, setembro 16, 2011

Ainda Há Pastores?, de Jorge Pelicano ***1/2



Em princípio, a temática do documentário português “Ainda Há Pastores?” (2008) aparenta simplicidade: o progressivo fim da atividade pastoril na Serra das Estrelas. Registra prosaicos episódios do quotidiano dos moradores da região, dando especial ênfase para a rotina de Hermínio, o mais jovem pastor em atividade da localidade e, possivelmente, o último que exercerá a profissão. O diretor Jorge Pelicano adota uma concepção formal, entretanto, que transcende o conteúdo de sua trama, dando a mesma uma dimensão épica e que beira até mesmo um certo tom delirante. A direção de fotografia capta flagras antológicos da beleza natural daquelas montanhas, fazendo com que o local se apresente aos olhos do espectador como um refúgio situado em um fragmento de eternidade em que o tempo parou. Mesmo assim, Pelicano sempre nos deixa consciente que o fim daquela civilização arcaica e bucólica está próximo, com a modernidade do mundo exterior sempre à espreita agindo como um canto da sereia para os seus derradeiros habitantes. A solene narração em off acentua a impressão de anacronismo melancólico que ronda a produção. A figura de Hermínio sintetiza com perfeição os conflitos e contradições que emanam de “Ainda Hás Pastores?”: o rapaz é uma verdadeira força da natureza no seu misto de força bruta, ignorância, bom humor, observações perspicazes e hábitos bonachões (fuma e bebe como um condenado, além de adotar dieta alimentar baseada em muita gordura e quase nada de vegetais), pastoreando sem parar pelos campos e montanhas, mas se sentindo atraído pela possibilidade de trabalhar menos e descansar mais numa possível troca pela vida na cidade. E dentro de um conjunto tão coeso como narrativa, destacam-se algumas seqüências pela graça que oscila entre o ingênuo e o malicioso, como aquela em que Hermínio vai ao show do seu ídolo musical Quim Barreiros – a fúria com que rapazes e moças dançam no salão lembra muito mais um show punk do que a apresentação de um cantor brega-regional.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Lanterna Verde, de Martin Campbell **1/2



Em adaptações recentes bem sucedidas do universo dos quadrinhos para o cinema como “X-Men: Primeira Classe” e “Capitão América: O Primeiro Vingador”, constata-se uma eficiente combinação de roteiros interessantes com encenações claras e dinâmicas, além de um respeito pela essência dos personagens conforme a sua mídia original. Em “Lanterna Verde” (2011), tal equação não consegue se concretizar. Claro que há pontos a se louvar, como os bonitos efeitos visuais, a caracterização repulsiva dos vilões e uma ambientação um tanto violenta e sórdida. No mais, entretanto, predomina uma narrativa truncada, aliada a uma trama que pouco desenvolve personagens e situações – é tudo muito rápido e superficial, com o diretor Martin Campbell dando a aparência de estar seguindo burocraticamente alguma cartilha de como fazer versões cinematográficas de um gibi. Completa os equívocos uma interpretação desprovida de carisma e profundidade de Ryan Reynolds no papel do protagonista. Claro que está longe de ser um filme ruim, mas como resultado final, “Lanterna Verde” acaba sendo uma decepção dupla, tanto pelo potencial criativo desperdiçado do personagem principal quanto pelo histórico de Campbell, o mesmo responsável por “Cassino Royale” (2006), uma das melhores aventuras da série 007.

terça-feira, setembro 13, 2011

Amor a Toda Prova, de Glen Ficarra e John Requa **



Steve Carrell é um ator cômico de potencial considerável. Quando bem aproveitado (“O Âncora”, “O Virgem de 40 Anos”), consegue ter alguns momentos antológicos de humor alucinado. Nos últimos anos, entretanto, tem se enquadrado em, pelo menos, dois insípidos nichos específicos no gênero comédia – aventuras light e familiares (“Agente 86”, “Uma Noite Fora de Série”, “A Volta do Todo Poderoso”) e dramas indie familiares (“Pequena Miss Sunshine”, “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”). “Amor a Toda Prova” se enquadra na segunda opção e é igualmente frustrante. A premissa inicial da trama é até interessante – o protagonista Cal (Carell) é traído pela esposa (Julianne Moore), com a mesma pedindo ainda o divórcio. A partir daí, acaba recebendo lições de um sebento metido a conquistador (Ryan Gosling) e passa a sair com várias garotas. O que poderia ter sido uma ácida crítica ao bem comportado modo de vida classe média aos poucos se converte na exaltação deste mesmo modelo, com Cal fazendo de tudo para reconquistar a ex-mulher. O final brega, com aqueles literais discursos moralistas, põe tudo mais a perder ainda. A concepção formal do filme obedece aos ditames temáticos, adotando visual e encenação assépticos, ainda que a bonita trilha sonora de canções indies insista em oferecer uma certa atmosfera indie. No mais, o filme até tem algumas sequências efetivamente engraçadas, quando se esquece o seu tom moralizante, além de possuir um elenco acima da média, mas acaba sendo pouco para salvar “Amor a Toda Prova” de um resultado final insatisfatório.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Pacific, de Marcelo Pedroso **1/2



O próprio formato de “Pacific” (2010) já é algo polêmico. Afinal, coloca em cheque a importância do papel do diretor de um filme no momento em que o cineasta Marcelo Pedroso não coordenou qualquer tomada no documentário, aproveitando-se exclusivamente de registros amadores dos turistas participantes de um cruzeiro para Fernando de Noronha. Assim, seu papel foi trabalhar o material na montagem e lhe dar a coesão narrativa. Para aqueles que acreditam no cinema dentro da concepção de obra bem composta visualmente, tal procedimento beira a heresia. No entanto, dentro dessa proposta insólita, Pedroso consegue extrair um filme que tem momentos genuinamente engraçados e que pouco cai no enfadonho. Além disso, o diretor constrói uma obra que adquire interpretações diferentes de acordo com o olhar de cada espectador. É provável que o público cativo deste tipo de produção alternativa, que mais é exibido em festivais ou num circuito de salas não comerciais, entenda “Pacific” como a ridicularização do modo de pensar e estilo de vida pequeno burguês. Também é possível, entretanto, que se tal filme fosse exibido para uma platéia típica de salas comerciais a visão seria diversa – o mesmo espectador poderia dizer: “Que legal!! Eu queria estar me divertindo com esse pessoal!”. Por mais tosco que a sua concepção formal possa ser em alguns momentos, a força de “Pacific” está nesta capacidade de valorização do olhar subjetivo de quem o vê.

terça-feira, setembro 06, 2011

Estamos Juntos, de Toni Venturi **1/2



O diretor Toni Venturi já havia abordado o universo do MST (Movimento dos Sem Teto) e assemelhados no ótimo documentário “Dia de Festa” (2006). Em “Estamos Juntos” (2011), ele se volta novamente para esta temática, mas a relacionando a uma trama ficcional de cunho intimista. Não à toa, alguns dos melhores momentos desta produção mais recente do cineasta estão naquelas tomadas que mostram a invasão de um prédio abandonado por integrantes do movimento e seu consequente confronto com a polícia. Venturi filma a ação com competência, valendo-se, inclusive, de recursos tipicamente documentais, como câmera de mão e imagens granuladas. No geral, entretanto, “Estamos Juntos” apresenta uma narrativa irregular. Percebe-se o que o diretor quer propor ao contrapor o drama pessoal da protagonista Carmem (Leandra Leal) com elementos de drama social. O problema é que em algumas sequências o filme acaba adquirindo um certo tom ingênuo e professoral no viés politicamente correto que adota. Mesmo assim, “Estamos Juntos” ainda apresenta algumas nuances que o tornam uma experiência cinematográfica interessante, principalmente pela interpretação sanguínea de parte de seu elenco (com destaque para a própria Leandra Leal) e para a ótima trilha sonora, que inclusive acaba tendo relevância para o contexto dramático do roteiro.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Planeta dos Macacos - A Origem, de Rupert Wyatt ***1/2



Os mais ranhetas podem dizer que há excessos de convencionalismos no roteiro. Ou os mais nostálgicos podem dizer que os primeiros filmes da série eram mais charmosos pela maquiagem dos macacos. Tudo isso, entretanto, é preciosismo desnecessário. “Planeta dos Macacos – A Origem” (2011) traz aquilo que sempre foi essencial para a franquia – a combinação bem azeitada de aventura empolgante e uma trama consistente. Os efeitos especiais digitais de captação de movimentos dão uma clareza cristalina para o visual do filme, com os macacos oscilando com desenvoltura entre os movimentos selvagens e expressões e gestos humanizados. A interação das trucagens com atores e cenários reais impressiona pela naturalidade, com o ápice desta integração se concentrando nas sequncias finais de embates entre símios e humanos. Os efeitos também conseguem a proeza de possibilitar individualizar os principais protagonistas primatas, ressaltando a importância dramática de cada um. Já em termos de trama, o filme realmente se prende a alguns gastos dogmas no gênero ficção científica (conflitos entre a ciência e a ganância, a falta de ética e humanidade nos experimentos científicos que levam ao apocalipse, os preconceitos), mas os mesmos são explorados com sensibilidade em algumas de suas nuances, além da história trazer alguns momentos de sutis simbologias e detalhes. A conjunção de todas essas qualidades cria expectativa para os eventos futuros que a final em aberto de “Planeta dos Macacos – A Origem” sugere.

sexta-feira, setembro 02, 2011

Um Sonho de Amor, de Luca Guadagnino ***1/2



A influência de Luchino Visconti paira em boa parte dos fotogramas de “Um Sonho de Amor” (2009). Pode-se perceber algo daquele rigor do velho mestre italiano na forma do diretor Luca Guadagnino em registrar ambientes suntuosos, figurinos elegantes e cenários bucólicos. Por alguns momentos, a câmera até se desvia da ação principal para enfatizar detalhes cênicos. Mas não se trata de simples demonstração gratuita de virtuosismo formal – Guadagnino consegue estabelecer uma simbiose do apuro visual do filme com a sua temática de confronto entre valores sentimentais e materialismo pequeno-burguês. Por mais que a produção tenha uma conotação de parábola moral, é inegável o poder ambivalente de atração e repulsa que se estabelece pelo quotidiano de luxo da protagonista Emma (Tilda Swinton) e sua família, principalmente pelas imagens e sons cheios de nuances que o diretor capta com fervor. Assim como em obras clássicas da filmografia de Visconti (“Deuses Malditos”, “Morte em Veneza”, “A Sedução da Carne”), a temática da decadência moral e ética se destaca como mote da trama, mas tal decadência sempre é filmada com extrema elegância. A forma com que Guadagnino resolve contrapor sua crítica a esse universo é elaborando seqüências em que a narrativa adquire conotação fortemente sensorial. Nesse sentido, as tomadas da transa de Emma e seu amante na relva são sintomáticas, com a ambientação remetendo a um cenário de puro onirismo. No mais, a conclusão de “Um Sonho de Amor” consegue a proeza de ser ousada e ao mesmo tempo coerente com a referida abordagem estética e temática de Guadagnino.

quinta-feira, setembro 01, 2011

Balada do Amor e do Ódio, de Alex de la Iglesia ****



As concepções particulares cinematográficas de Alex de la Iglesia atingem sua ebulição máxima em “Balada do Amor e do Ódio” (2010). Se suas produções sempre trafegaram num limite entre o realismo e o estilizado, nesta obra mais recente o diretor arrebenta com a mencionada fronteira e gera algo que parece advindo de um pesadelo ultra distorcido. Mesmo o franquismo, já bastante abordado em outros exemplares do cinema espanhol, recebe uma conotação perturbadora. Iglesia joga com elementos históricos de forma sarcástica, inserindo figuras e fatos reais, como o próprio General Franco, em uma trama envolvendo guerra, ditadura, palhaços psicóticos, taras sexuais e outras esquisitices. No meio disso tudo, há uma série de referências que vão de “Freaks” (1932) de Tod Browning (não à toa, boa parte do roteiro se desenvolve em um circo) até o universo repleto de simbologias e onirismo de Alejandro Jodorowsky. O cineasta brinca com conceitos típicos de um imaginário cinematográfico obscuro (como atesta a figura dos clowns desfigurados e violentos), assim como desconcerta com uma atmosfera que oscila sem cerimônia entre a comédia ácida e o puro horror, isso sem falar da arrasadora abertura, em uma alucinada seqüência de guerra que se assemelha a um sonho sangrento. E talvez isso seja um dos pontos mais luminosos de “Balada do Amor e do Ódio” – o encadeamento dos fatos se configura como um delírio obscuro, ainda que para os personagens seja o “mundo real”. Esta caracterização de uma dimensão difusa se configura como a própria essência da obra de Iglesias.

terça-feira, agosto 30, 2011

A Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande **1/2



Nos últimos anos, dá para dizer que o cinema nacional adotou uma vertente artística de produção até expressiva: os filmes indies. Em comum, tais produções são marcadas por concepções experimentais, referências a um universo bem particular de interesses (músicas, filmes, quadrinhos, livros, etc) e pouca acessibilidade ao grande público. “A Alegria” (2010) é mais uma obra a engrossar suas fileiras, com seus habituais erros e acertos, e que se insere dentro daquele esquema conhecido: a gente pode perceber ideias muito boas, que às vezes encontram boas soluções narrativas, e em outros momentos acabam não vingando na sua concretização. A trama elaborada pelos diretores Felipe Bragança e Marina Meliande trafega por um tênue limite entre a realidade e a fantasia, assim como a encenação busca uma combinação entre o naturalismo e uma linguagem teatral/literária. Se em algumas sequências tal mistura provoca um certo desconcerto perturbador, em outras acaba soando apenas afetado demais, principalmente por certos diálogos existencialistas em excesso proferidos por adolescentes (aquela velha pretensão indie de soar constantemente cool...). Com o desenrolar do roteiro, a ambientação vai ficando ainda mais siderada, com o terço final do filme trazendo seus momentos mais criativos, com destaque para as tomadas em que a protagonista Luiza (Tainá Medina) irrompe para uma nova dimensão. Como saldo final, “A Alegria” traz um resultado irregular, mas bastante instigante.

segunda-feira, agosto 29, 2011

A Árvore da Vida, de Terrence Malick ****



Se a tendência da grande maioria dos cineastas é se tornar mais acessível com o passar dos anos, o contrário ocorre com Terrence Malick. Na sua curta e impactante filmografia, percebe-se que a sua estética se torna mais autoral e radical filme a filme. “A Árvore da Vida” (2011) facilita pouco para aqueles que acham que cinema é a arte de contar uma boa história. A produção mais recente de Mallick parte para uma experiência que é quase que puramente sensorial. Os detalhes da trama se encaixam de uma forma tênue: um homem em depressão, suas reminiscências da juventude, o surgimento do mundo, a evolução do planeta, digressões metafísicas. Talvez o elo que una esses elementos díspares seja mais concreto dentro da cabeça do próprio diretor, mas o subjetivismo visual do que se vê na tela é hipnotizante. Tudo aquilo que compõe o ideário artístico de Mallick está lá de forma ainda mais ostensiva: os enquadramentos inusitados, a narração over de tons elípticos, a narrativa que não obedece a uma ordem cronológica exatamente linear. O que se arma é um quebra-cabeça entre uma história de forte conotação intimista e uma sinfonia épica de sons e imagens. Com o desenrolar do filme, percebe-se que a construção formal não é aleatória – se o que se assiste é um homem olhando para o passado e buscando um sentido para sua vida, num choque entre o natural e o espiritual, entende-se também que tudo adquira um sentido icônico (os pais que parecem seres mitológicos, os diálogos que traduzem conflitos existenciais, a relação de conflitos internos com a própria evolução do planeta Terra). No final das contas, não há respostas prontas dentro dos questionamentos de Mallick, mas a forma como traduz para a linguagem cinematográfica suas dúvidas temáticas e estéticas é avassaladora.

sexta-feira, agosto 26, 2011

Vênus Negra, de Abdellatik Kechiche ****



Depois do formalismo dinâmico e exuberante de “A Esquiva” (2003) e “O Segredo do Grão” (2007), o diretor Abdellatik Kechiche se volta para uma narrativa mais contemplativa em “Vênus Negra” (2010). Tal opção estética não é aleatória – a abordagem do diretor se relaciona diretamente a uma visão naturalista sobre o emblemático caso da africana Saartjie Baartan (Yajima Torres), que excursiona pela Inglaterra e França do século XIX, exposta e explorada como se fosse uma aberração de um freak show. Por mais metafórica que a situação mote do roteiro possa ser, Kechiche é inclemente na descrição da trajetória da protagonista. O rigor da encenação e a ausência de trilha sonora criam uma atmosfera desapaixonada, dispensando o sentimentalismo fácil que uma trama como essa poderia gerar. E se nas mencionadas obras anteriores do cineasta havia um erotismo latente como símbolo de vida, em “Vênus Negra” a sensualidade ganha uma dimensão sinistra. Sempre que o sexo entra em cena, é num contexto de degradação. Isso fica evidente na seqüência antológica em que Saartjie faz uma apresentação em uma orgia entre nobres, com Kechiche extraindo uma ambientação de decadência perturbadora semelhante àquela de “Saló ou os 120 Dias de Sodoma” (1975).

quinta-feira, agosto 25, 2011

Super 8, de J.J. Abrams ***1/2



A produção de Steven Spielberg em “Super 8” (2011) não é gratuita. O filme é um caldeirão de referências a vários clássicos oitentistas no gênero aventura, nicho esse no qual Spielberg foi o principal protagonista. A começar por “E.T.” (1982), cuja trama é a influência central do roteiro da obra mais recente de J.J. Abrams. Não à toa, a história se passa no final dos anos 70. Mas as pequenas homenagens que a produção contém não soam como um recurso meramente acessório. Abrams emula com competência o estilo de Spielberg, tanto em termos formais quanto temáticos. A direção de fotografia é luminosa e clara, com enquadramentos detalhistas que privilegiam a bem orquestrada encenação de perseguições e explosões (aliás, o acidente de trem no início do filme é um capítulo à parte em termos de ação cinematográfica). Mesmo os efeitos especiais digitais acabam ganhando um certo tom nostálgico, não tendo aquela caracterização típica de vídeo game. No conjunto geral estético, nem parece que a direção é do mesmo cineasta do tosco “Cloverfield” (2008).

A mais bela reverência de “Super 8” à Spielberg, entretanto, venha mesmo no seu roteiro. Além de reprisar alguns dos preceitos temáticos favoritos do veterano diretor (crianças como protagonistas, pais e filhos em conflito que buscam a conciliação, crítica à brutalidade dos adultos), um dos motes principais da trama, o divertido filme amador realizado pelos jovens personagens principais, é uma referência direta ao universo pessoal de Spielberg, que é conhecido pelo fato de em suas origens ter sido um entusiasmado cineasta amador.

quarta-feira, agosto 24, 2011

Diário de Uma Busca, de Flávia Castro ***



Um documentário que tem como temática a ditadura militar brasileira não é exatamente uma novidade, perante a profusão de obras do gênero que freqüentemente chegam às salas alternativas pelo país. Mesmo assim, “Diário de Uma Busca” (2010) acaba ganhando destaque por trazer uma perspectiva diferente para uma temática tão gasta aparentemente. Para começar, por mais que foque alguns momentos chaves dentro do histórico dos anos de chumbo, a perspectiva adotada pela diretora Flávia de Castro é bastante intimista, ainda mais porque ela é diretamente envolvida no assunto (seus pais foram militantes da luta armada e viveram vários anos no exílio junto aos filhos). Concentrando a narrativa na trajetória pessoal do seu pai, Celso Castro, morto em circunstâncias mal explicadas no ano de 1984, a cineasta enfatiza muito mais os dramas pessoais dos envolvidos na sua narrativa do que em algum discurso ou análise objetiva dos fatos em questão. É claro que o fato dela tem uma relação tão íntima com o objeto de sua obra faz com que o filme seja marcado por forte subjetividade, mas esse mesmo motivo dá uma carga emocional forte para “Diário de Uma Busca” que dificilmente deixa o espectador impassível diante do que assiste na tela. Ao expor com certa crueza a intimidade sua e de seus parentes, a diretora mostra uma densa trama de dificuldades e desilusões, trazendo um personagem real que teve como saldo final de anos de combate a um regime que abominava um misto de amargura e solidão. Quando Flávia lê para um conhecido do pai a última carta que ele lhe mandou, pouco antes de morrer, é como se toda uma gama de sentimentos represados explodisse de forma inclemente.

terça-feira, agosto 23, 2011

Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo!, de Hugo Carvana *



Pode-se louvar as boas intenções do veterano Hugo Carvana em fazer uma homenagem ao clima das antigas chanchadas ou até mesmo a sua própria cinematografia em “Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo!” (2011), como se tal produção fosse uma conclusão coerente para sua trajetória artística. Se a intenção realmente era essa, entretanto, pode-se dizer que trata de uma constrangedora declaração de intenções. Talvez os anos tenham finalmente pesado para Carvana, pois o filme tem um ritmo narrativo engessado e de pouco fluência. Ainda que se tenha o possível verniz de representar uma visão nostálgica sobre o cinema, falha naquilo que uma comédia tem de mais fundamental: fazer rir. Em nenhum momento se pode perceber algo de genuinamente engraçado. A impressão que se tem é de se estar assistindo a um quadro ruim do “Zorra Total”, só que alongado para uma hora e meia. Claro que há pequenos detalhes que dão uma certa aura de atratividade: a fotografia competente de Eduardo Escorel, a música de Edu Lobo (ainda que essa última pareça muito mais alguma sobra de estúdio). Mas, no final das contas, é muito pouco para tirar “Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo!” da mesmice.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Capitão América: O Primeiro Vingador, de Joe Johnston ***1/2



Esta recente versão cinematográfica das aventuras do Capitão América é praticamente uma resposta aos equívocos que marcaram a produção de “Thor” (2011). Para começar, há um esmero notável na concepção da ação em “Capitão América: O Primeiro Vingador” (2011). A encenação é clara e dinâmica, aproveitando com sensibilidade as influências das HQs sem apelar para aquelas pavorosas seqüências em câmera lenta quase estática (na linha “300” ou “Watchmen”) ou para efeitos especiais estilo borrão. O diretor Joe Johnston revela preferência por um estilo de filmar clássico, com a narrativa sendo marcada por influências retrô, principalmente pela fotografia e direção de arte de tons fortemente estilizados. Tais opções formais mostram uma sintonia admirável da produção com o espírito dos quadrinhos dos quais se original. Ainda quanto a essa questão da relação com os comics, em termos temáticos o filme consegue captar com considerável fidelidade a essência das melhores aventuras do Capitão América. O roteiro até simplifica alguns detalhes interessante da cronologia original do herói, mas mesmo assim são mudanças que se revelam funcionais para a trama. A caracterização do elenco também é acertada, fazendo com que os personagens tenham um caráter icônico muito interessante (afinal, profundidade dramática não é prioridade no gênero dos super-heróis – com exceção de alguns exemplos de destaque, como a recente encarnação do Magneto em “X-Men: Primeira Classe”).

No cômputo geral, “Capitão América: O Primeiro Vingador” é uma experiência tão bem sucedida que faz crescer expectativa pelo filme dos “Vingadores”, ainda em produção.

sexta-feira, agosto 19, 2011

Melancolia, de Lars Von Trier ****



As primeiras imagens de “Melancolia” (2011) evocam bastante em termos estéticos a própria abertura de “O Anticristo” (2009), o filme anterior de Lars Von Trier – uma estranha conjunção de câmera lenta extrema com música clássica, gerando uma sensação sensorial que oscila entre o belo e o perturbador. Na obra mais recente, tal recurso tem o fim de servir como uma espécie de resumo do que está por vir, com o cineasta parecendo dizer para o público abandonar as esperanças, pois não haverá chance de redenção para os personagens.

Após tal prólogo, Lars Von Trier divide “Melancolia” em dois momentos distintos, mas que se relacionam de forma intrínseca. Na primeira metade, o filme envereda por um lado intimista, focalizando de forma crua a cerimônia e a festa de um casamento onde tudo entra em colapso pela manifestação do comportamento errático da noiva, Justine (Kirsten Dunst). Nesta narrativa, o diretor faz lembrar muito do cinema que praticava na época do Dogma 95 – fotografia entre o caseiro e o documental, iluminação beirando natural, cortes bruscos, elenco com atuações resvalando para o naturalismo. Essa encenação bruta e sem concessões acaba tendo um resultado sensorial devastador, estando em sintonia precisa com a temática contundente, em que o aspecto depressivo da personalidade de Justine vai ao encontro de uma ideologia fortemente misantrópica, fazendo com que valores da sociedade ocidental (família, trabalho, poder) sejam sistematicamente pisoteados.

Se o viés formal da primeira parte de “Melancolia” possui uma conotação realista, há momentos na mesma em que se prepara sutilmente para o gênero fantástico que toma conta da metade final da produção. Nesta última, Von Trier nos jogas para os últimos momentos do planeta Terra, preste a ser devastado pela colisão com o planeta Melancolia. É como se os sentimentos interiorizados de Justine derivados de sua depressão atingissem uma proporção de um verdadeiro cataclismo. A visão de apocalipse pela lente do diretor dinamarquês não tem nada de serena ou de enobrecimento – só sobra desespero e amarga resignação. A encenação do fim do mundo por parte de Von Trier dispensa a previsível preocupação com nuances detalhistas típicas de obras como “Impacto Profundo” (1998) ou “O Dia Depois do Amanhã” (2004). A destruição da Terra ganha a dimensão de um pesadelo vivo, que sufoca o espectador num redemoinho de imagens e sons exasperantes.

É claro que “Melancolia” traz dentro de si um jogo de simbologias que traz algo de óbvio e caricatural, principalmente se levarmos em conta que o próprio Lars Von Trier vem padecendo de depressão (ou seria um golpe de marketing?). Às vezes isso até se manifesta em situações e personagens maniqueístas e estereotipados. É inegável, entretanto, que tais concepções também geram um todo coerente e impactante, marca inexorável da cinematografia cada vez mais autoral e particular de Von Trier.

quinta-feira, agosto 18, 2011

Quero Matar Meu Chefe, de Seth Gordon ***



A referência à “Pacto Sinistro” (1951), obra-prima de Alfred Hitchcock, em “Quero Matar Meu Chefe” (2011) se limita mais ao aproveitamento da premissa básica do que a uma possível reciclagem das atmosferas de suspense típicas do mestre do suspense. Na produção de Seth Gordon, a ênfase é muito mais no lado cômico. A comédia aqui pende para o caricatural, com nuances do roteiro e personagens enveredando fortemente para o exagero, ainda que várias situações da trama tenham uma conotação algo corriqueira e cotidiana. Nesse sentido, o filme explora um lado fundamental do gênero cômico: a capacidade de explorar os instintos básicos do espectador – afinal, quem nunca teve vontade de matar o chefe? Predomina, assim, o nonsense e o histrionismo de boa parte do elenco. Os melhores momentos de “Quero Matar Meu Chefe” residem justamente nas sequências em que o tom cartunesco da narrativa entra em choque com uma abordagem mais naturalista, principalmente quando entra em cena Jason Bateman, cujo estilo de interpretação mais sutil rende algumas das cenas mais hilárias do filme.

quarta-feira, agosto 17, 2011

Assalto ao Banco Central, de Marcos Paulo *



O sucesso das duas partes de “Tropa de Elite” pode levantar a pergunta sobre o por quê não se faz mais filmes no gênero policial no Brasil. Assistindo a “Assalto ao Banco Central” (2011) acaba-se entendo um pouco sobre tais motivos. O diretor Marco Paulo parece ter assistido a várias produções na linha, utilizando boa parte da estética e dos clichês inerentes. O resultado, entretanto, é pífio como narrativa. A encenação é artificial e travada demais, nem ao menos uma simples briga corporal entre dois personagens consegue parecer convincente. A herança televisiva do cineasta acaba o traindo em um trabalho de edição e fotografia que pouco aproveita as possibilidades criativas da tela grande. O que poderia soar ousado, a alternância dos tempos narrativos, revela-se um truque estéril, pois pouco acrescenta no sentido de oferecer tensão para a trama. Para piorar ainda, o roteiro é desastroso no sentido de caracterização de personagens e situações – tudo parece excessivamente superficial e mal delineado, beirando o caricatural. Coroando o desastre, o elenco no geral tem atuações pouco expressivas, com a maioria dos atores estando no piloto automático (Lima Duarte, por exemplo, faz um policial que mais parece um Sinhozinho Malta com distintivo), com exceção de Milhem Cortaz e Eriberto Leão, que conseguem transmitir alguma fluência em suas interpretações.

terça-feira, agosto 16, 2011

O Casamento do Meu Ex, de Galt Niederhoffer ***



Este é o tipo de caso que poderia motivar algum tipo de reclamação junto ao PROCON. Afinal, tanto o infeliz título brasileiro quanto o cartaz podem fazer com que “O Casamento do Meu Ex” (2010) seja confundido com uma produção no gênero comédia romântica “água com açúcar”, com direito a muitas cenas melosas e final feliz garantido, quando na realidade o filme envereda por caminhos bem diversos. Por mais que o foco da trama possa se concentrar em relações amorosas, a obra em questão é bem mais abrangente na sua temática, mostrando jovens adultos ainda confusos e insatisfeitos com o rumo que suas vidas estão tomando. Nesse sentido, o título original (The Romantics), é mais ilustrativo do espírito da coisa. A abordagem da diretora Galt Niederhoffer sobre os temas do filme é acertada ao combinar uma dramaticidade algo bruta com toques de humor amargo, o que rende alguns momentos antológicos, principalmente na sequência da festa pré-nupcial, com direito a brindes constrangedores. Em termos formais, Niederhoffer consegue surpreender dentro da surrada estética que emula um estilo de filmar entre o documental e o vídeo familiar, em que a fotografia esmaecida e granulada dá uma sensação de atemporalidade para a produção. Esse tom crepuscular no visual de “O Casamento do Meu Ex” acaba revelando uma interessante sintonia com a atmosfera melancólica e desiludida que emana da história.

segunda-feira, agosto 15, 2011

Singularidades de Uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira ***

O interesse pelos filmes recentes de Manoel de Oliveira não se atribui apenas à curiosidade pelo fato do diretor já ser centenário. “Singularidades de Uma Rapariga Loira” (2009) é prova evidente disso, mostrando o cineasta buscando uma linguagem muito particular, em que cinema e literatura se casam de forma insólita. Partindo de um conto de Eça de Queiroz, Oliveira acaba construindo um universo próprio, tão inusual que estabelece uma estranha atmosfera de atemporalidade. Se a contextualização da história se dá na atualidade, por outro lado a encenação revela um quê anti-naturalista, algo entre o teatral e o cinematográfico, com os costumes dos personagens evocando a moral da sociedade do século XIX (talvez na visão do cineasta as coisas não tenham mudado tanto assim). Fotografia e edição entram em conexão com a pintura – o filme dá a impressão, em alguns momentos, de uma pintura que adquire movimentos com sutileza. O fascinante é que no meio dessa conjunção de elementos diversos, com direito ainda a poesia de Fernando Pessoa e música clássica, percebe-se que o espírito de ironia ácida típico da prosa de Eça de Queiroz se preserva e também se expande dentro da concepção estética de Oliveira.

sexta-feira, agosto 12, 2011

Transformers 3 - O Lado Oculto da Lua, de Michael Bay **1/2



Antes de qualquer coisa, cabe ressaltar um aspecto positivo em “Transformers 3 – O Lado Oculto da Lua” (2011): a qualidade dos efeitos, em que o extremo detalhismo digital faz com que as transformações dos robôs, por exemplo, tragam uma clareza visual muito mais avançada que os filmes anteriores da série. Tirando essa louvação, entretanto, este terceiro capítulo da saga é o pior filme disparado da franquia. O diretor Michael Bay centralizou muito a narrativa em torno dos dramas amorosos e de consciência do protagonista Sam (Shia LeBeouf), o que tornou o desenvolvimento da trama muito truncado, afinal as seqüências com os robôs não são tão freqüentes quanto nas produções anteriores e se interam de forma forçada com lado “humano” do filme. Além disso, a condução da direção de Bay é mecânica em demasia, tirando muito da tensão do filme. Tudo obedece a um certo padrão temático e formal que parece apenas emular as obras iniciais da série. Em certos momentos, parece que estamos até assistindo a um grande comercial de TV, tanto na caracterização caricata do interesse romântico de Shia (não à toa, Megan Fox já havia dito que tinha a impressão de Bay nunca tinha tido uma namorada tamanha a forma artificial que costuma retratar mulheres na sua filmografia) quanto nas bregas filmagens de caras durões caminhando em câmera lenta (Sam Peckinpah deve rolar na tumba com o desvirtuamento de um dos seus recursos estéticos mais marcante).

quinta-feira, agosto 11, 2011

Estranhos Normais, de Gabriele Salvatore **1/2



A proposta narrativa de “Estranhos Normais” (2010) é promissora. Usando recursos de metalinguagem, o diretor Gabriele Salvatore estabelece uma trama que se divide em duas, mas sempre tendo como denominador comum o escritor/roteirista Vincenzo (Fabrizio Bentivoglio). Numa delas, o protagonista se encontra em dilemas criativos, em busca de inspiração para um roteiro. Em outra, trata-se da trama criada por ele, onde o mesmo também é personagem. Ao longo do filme, tais planos narrativos se alternam, e elementos da realidade e da obra literária se intercomunicam até chegar a um ponto de impasse. As fronteiras entre tais planos parecem se romper, com os personagens exigindo do escritor uma conclusão satisfatória. O que pareceria um conflito inquietante sobre a relação do artista com a arte que produz acaba se frustrando quando Salvatore recorre a soluções fáceis, tanto no roteiro do escritor quanto na vida concreta do mesmo. Não há maiores espaços para a dúvida, com o diretor se preocupando em amarrar todas as pontas da história. Esse direcionamento convencional e pueril descaracteriza boa parte das concepções estéticas que pontuam ocasionalmente esta produção italiana. No final das contas, não é um filme ruim – só o elenco já seguraria o interesse de “Estranhos Normais” (com destaque para o charme maduro da bela Marguerita Buy). O problema é a impressão de que algo mais ousado ficou pelo caminho.

terça-feira, agosto 09, 2011

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2, de David Yates **1/2



Na comparação, a segunda parte de “Harry Potter e a As Relíquias da Morte” (2011), e conclusão definitiva da franquia, sai em vantagem em relação à primeira no sentido que a narrativa é bem menos truncada, sem aquela constante impressão de que tudo é preparativo de algo que parece que nunca vai acontecer tamanha a imobilidade da trama da produção de 2010. No filme mais recente, há bem mais ação (até porque a série tinha que terminar de alguma maneira), com algumas seqüências até se destacando por um certo impacto visual, principalmente naquela que traz o duelo final entre Potter (Daniel Radcliffe) e Lorde Voldmort (Ralph Fienes). De se destacar ainda que os efeitos especiais digitais estão bem acima da média do vem sendo feito no gênero. Por outro lado, há um excesso de momentos em que a encenação soa rígida e infantilizada demais, com detalhes do roteiro que ora resvalam para o simplório ora para o superficial, além de uma disposição de atores que beira o estático. Ainda em termos de texto, esse desfecho de saga apresenta soluções fáceis e apressadas – as reviravoltas obedecem a um padrão pouco imaginativo, como se o importante fosse apenas cumprir tabela: o bem vence o mal e todos arranjam os seus respectivos pares amorosos. É provável, entretanto, que nesse ponto não dê para culpar tantos os roteiristas da série. Eles apenas repetiram as linhas básicas do livro. E talvez justamente aí resida a decadência artística de “Harry Potter” em seus últimos episódios. Se nos quatro filmes iniciais havia espaço para maiores ousadias formais e temáticas, nas produções restantes se percebe uma preocupação maior em corresponder às expectativas dos fãs e reproduzir justamente aquilo que eles esperavam. Com uma franquia milionária como essa, não dá para brincar....

segunda-feira, agosto 08, 2011

A Casa, de Gustavo Hernandez ***



Reduzir “A Casa” (2011) a mero filhote de uma escola de cinema de horror derivado de “A Bruxa de Blair” (1999) seria um tanto impreciso. A referida produção uruguaia navega em águas mais particulares, a começar que utiliza o complicado recurso de filmagem em um take só, sem cortes aparentes. Tal recurso não se vale apenas como um recurso estético, mas também para acentuar um ritmo vertiginoso para a narrativa. Afinal, o tom realista e bucólico do início da trama se converte em questão de minutos em um suspense que oscila entre o real e o sobrenatural, jogando os personagens em um redemoinho de loucura e violência. É de se ressaltar ainda que o diretor Gustavo Hernandez consegue manter um certo cuidado formal na concepção visual do filme, por mais que a câmera trema em algumas seqüências, revelando também um bem elaborado jogo de claro e escuro no filme. “A Casa” também chega a evocar alguns detalhes estéticos que remetem ao movimento Dogma 95, tanto pela utilização da luz quanto a forma com que o som e a música se inserem nas cenas, dando uma sensação de estranhamento ao filme, o que numa obra de terror sempre é bem vindo. A criatividade de Hernandez também se manifesta nos créditos finais, quando uma série de fotos é mostrada e que dá uma ideia das motivações dos personagens. No conjunto geral, todos esses truques narrativos de “A Casa” se mostram eficientes para gerar aquilo que uma obra como essa se propõe: sustos e tensão.

sexta-feira, agosto 05, 2011

Gainsbourg - O Homem Que Amava as Mulheres, de Joann Sfar ***1/2



O cineasta e quadrinista Joann Sfar utiliza em “Gainsbourg – O Homem Que Amava as Mulheres” (2010) uma abordagem de cinebiografia bastante semelhante àquela adotada por Martin Scorsese em “O Aviador” (2004): o que interessa não são exatamente os fatos reais da vida da figura focada, mas aquilo que está no nosso imaginário sobre o biografado. Assim, o que se assiste na tela sobre o genial cantor e compositor francês é um delírio estético, que procura relacionar a essência de suas canções com a trajetória pessoal de Serge Gainsbourg, como se tais elementos formassem um conjunto intrínseco. Por mais irreal que tal opção narrativa possa soar irreal, é inegável que a mesma também joga o espectador no meio daquilo que representa o primordial na obra de Gainsbourg – uma mescla sedutora de canção romântica, rock e pop animadinhos, letras sacanas e tudo mais o que der na veneta do autor (com direito até a versão reggae de “A Marselhesa”). A herança dos quadrinhos de Sfar cai como uma luva dentro de tais concepções estilizadas, não se limitando à hilária sequência de animação que ilustra os créditos de abertura, fazendo com que toques de cinema fantástico permeiem a trama. Assim, as criaturas grotescas que se manifestam como expressões distorcidas do ego de Gainsbourg adquirem um tom de naturalidade desconcertante, estando em perfeita coerência espiritual com o próprio processo criativo do cancioneiro “gansbourgiano”. No final das contas, talvez o grande mérito de Sfar está em privilegiar aquilo que efetivamente notabilizou Gainsbourg como um dos grandes artistas do século XX (apesar do apelativo título brasileiro para o filme): sua música.

quinta-feira, agosto 04, 2011

Filhos de João - O Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas ***1/2



Assim como em “Daquele Instante em Diante” (2011), seria fácil confundir o meu apreço por “Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano” (2009) com o fato de eu gostar muito dos Novos Baianos. Aquela coisa – “ah, estão falando sobre os caras? Putz, já estou gostando do filme”. Assim como no mencionado documentário sobre Itamar Assumpção, todavia, os méritos da cinebiografia do grupo de Moraes Moreira, Pepeu Gomes e companhia vêm também de suas qualidades cinematográficas. O diretor Henrique Dantas, dentro do clássico formato de combinar imagens de arquivo com depoimentos mais recentes, acerta ao adotar uma abordagem que beira o lúdico, o que acaba se revelando em perfeita sintonia com a própria música festiva dos homenageados. Não à toa, em vários momentos do filme se evoca a figura de crianças, tanto em registros visuais quanto no canto infantil de sucessos como “Preta, Pretinha”. O cineasta consegue ainda traçar uma genealogia da própria trajetória da música brasileira ao tentar explicar a alquimia sonora dos Novos Baianos. Para isso, além de se valer das próprias descrições dos músicos do grupo e de admiradores entusiasmados, Dantas conta com as falas delirantes (e ainda sim tremendamente lúcidas!) de Tom Zé, que na realidade é um dos principais fios condutores da narrativa. O outro elemento que “esclarece” a loucura nova baiana não deu entrevista alguma, mas sua serena sombra paira por toda a produção – simplesmente um tal de João Gilberto... Todos mencionam o genial cantor e violonista como a influência decisiva não só na formatação da música da banda, como naquilo que melhor e mais relevante se fez no nosso cancioneiro nos últimos, pelos menos, 50 anos.

Aliás, o título do documentário não deixa de ser uma profissão de fé assim como uma bela esculachada ao medíocre “Os Filhos de Francisco” (2005). Se neste último a música é vista apenas como uma forma arrivista de ascensão social e econômica, em “Filhos de João” tal arte é encarada como manifestação prazerosa e visceral, uma busca de expressar uma sensação, um sentimento indefinido. Alguns depoimentos emocionados no filme ao se descrever a música e o modo de vida dos Novos Baianos, além é claro de fenomenais números musicais, sublinham esse papel de transcendência da canção brasileira.

quarta-feira, agosto 03, 2011

Daquele Instante em Diante, de Rogério Velloso ***1/2



Apesar de gostar muito da música de Itamar Assumpção (1949-2003), atribuir apenas à sua arte as qualidades de “Daquele Instante em Diante” (2011), documentário que foca a sua trajetória, seria impreciso. O grande mérito do diretor Rogério Velloso é conseguir ressaltar os aspectos mais fascinantes da vida do músico sem obscurecer o maior motivo pelo qual é conhecido e admirado: suas canções, discos, shows. E neste aspecto artístico o filme é bastante generoso, captando apresentações do cantor em várias fases de sua carreira, desde o seu surgimento no underground paulistano no início da década de 80 até os derradeiros registros ao vivo, quando ele já estava bem debilitado pelo câncer que o matou. No meio disso tudo, momentos antológicos como a sua desconcertante participação em um festival da Globo, além de depoimentos que muito esclarecem da sua visão cultural. A interação que se realiza da descrição de sua rotina doméstica e pessoal com o seu processo de composição, gravação e performance ao vivo mostra como tais pólos de sua vida estavam intrinsecamente ligados. Velloso consegue ainda evidenciar como o notório fato de Assumpção ser considerado um artista difícil na forma com que lidava com a sua arte na verdade revelava uma coerência conceitual e também uma forma de preservar intacta a integridade de sua obra. No mais, “Daquele Instante em Diante” serve também como uma expressiva radiografia de um lado mais obscuro, mas nem por isso menos interessante, da música brasileira, dando imagem e voz de uma geração de artistas (Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Vânia Bastos, entre outros) que não se acomodou diante dos cânones comerciais e da falta de exposição na mídia para gravar a ferro e fogo as suas particulares concepções cancioneiras.

terça-feira, agosto 02, 2011

Stake Land, de Jim Mickle ***1/2



Pode-se dizer que “Stake Land” (2010) é uma verdadeira colcha de retalhos de referências: ficção científica apocalíptica estilo “Mad Max”, vampirismo, crítica social/política metafórica no estilo George Romero em “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968) ou “Madrugada dos Mortos” (1978). O diretor Jim Mickle tem o mérito de combinar com habilidade tais elementos aliado a um afiado senso de ação cinematográfica. Sua encenação não recorre a clichês contemporâneos como câmeras tremendo e cortes excessivos na edição – a narrativa é clássica nos seus enquadramentos e montagem. O apuro formal de Mickle se evidencia no extraordinário plano-sequência do “bombardeio” de vampiros em um acampamento. De se destacar ainda que o roteiro de “Stake Land” apresenta um notável refinamento na crítica ácida que faz de grupos religiosos que utilizam o fanatismo místico como forma de ascensão ao poder político (e também para manutenção do mesmo), o que mostra que a produção em questão está em sintonia com o atual e conturbado momento da política interna dos Estados Unidos. Além disso, a caracterização dos personagens é muito bem delineada, configurando tipos bem carismáticos, com destaque para Mister (Nick Damici), um anti-herói fodão como há muito não se via.

Ainda que a sua trama caia em alguns exageros destoantes no seu terço final, “Stake Land” se revela como um produto bem acima da média do que vem sendo feito no gênero recentemente.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Cilada.com, de José Alvarenga Jr. *1/2



O problema de “Cilada.com” (2011) não é tanto a sua estética televisiva. “Os Normais 2” (2009), por exemplo, também trazia um formato semelhante, mas acabava se sobressaindo por enfiar o pé na jaca no roteiro, trazendo uma dose muito maior de sexo, palavrões e escatologia do que um episódio normal da série na telinha. No filme baseado no programa de Bruno Mazzeo, entretanto, ocorre justamente o contrário. Se no programa da TV nós temos uma abordagem crítica e cínica das mediocridades do cotidiano social e amoroso de um adulto de classe média, na obra cinematográfica, que em tese teria mais liberdade para extrapolar na ironia e no politicamente incorreto, nós temos uma insossa comediazinha romântica, com direito a final feliz e declarações de amor, em que os toques humorísticos acabam sendo quase acidentais. Ou seja, descaracteriza bastante o original televisivo naquilo que ele tem de mais relevante e interessante.

sexta-feira, julho 29, 2011

Minha Terra, África, de Claire Denis ****



Em termos temáticos e filosóficos, “Minha Terra, África” (2009) parece emular alguns conceitos já trabalhados em filmes como “Apocalypse Now” (1979): o temor e a inabilidade do homem branco ocidental em lidar com o desconhecido e misterioso representado pelos povos ditos “selvagens” e pelos lugares que lhes são estranhos. No filme de Claire Denis, há a dissolução de velhos preceitos típicos dos que são “desenvolvidos” – a obsessão da francesa Maria Vial (Isabelle Huppert) em fazer a colheita de café da sua fazenda em pleno coração da África e no meio de uma sangrenta guerra civil poderia parecer heróica, mas na realidade apenas reflete a alienação, a insensibilidade emocional e a preocupação com a manutenção de um status econômico por parte da protagonista. A narrativa, que alterna sutilmente passado e presente, estabelece um lento e inexorável processo de destruição dos desejos da personagem, assim como relaciona de forma intrínseca os lados social e intimista da trama, como se quisesse jogar na cara de Maria a impossibilidade de seu alheamento da realidade que a cerca – o que acaba se consumando na tragédia familiar que encerra o filme. No mais, Denis estabelece um estilo de filmar que oscila entre o seco e o poético, como se contaminada por uma certa sensação de lassidão melancólica que provém de um país que se despedaça aos poucos, sentimento esse que a música etérea e sombria dos Tindersticks, habituais colaboradores da cineasta, sublinha em sintonia marcante.

quinta-feira, julho 28, 2011

Metadona - Uma Maneira Americana de Trafica, de Jim Klein e Julia Reichert ****

Alguns posts atrás eu comentei sobre “Quebrando o Tabu” (2011), produção brasileira que discutia a questão da descriminalização das drogas e que tinha como principal problema o fato de ter uma concepção formal que caía muito para uma espécie de obra institucional sobre o tema. Pois “Metadona – Uma Maneira Americana de Traficar” (1974) tem uma pretensão aparentemente de ser um filme de caráter educativo sobre o tema do vício, mas o seu tratamento estético acaba fazendo com que transcenda tal finalidade. Pode-se discordar da visão dos autores sobre a questão da droga, mas o documentário acaba se grudando no nosso imaginário cinematográfico pela força de algumas de suas cenas. Tematicamente contra o uso oficial pelo governo da droga que o intitula, o filme possui uma formatação bem sistemática – escolhe dois grupos de apoio a usuários de heroína, um que utiliza a metadona no tratamento e outro que adota um método baseado em discussões de grupo, e os foca em dois momentos distintos com diferenças de poucos anos. Na primeira parte, a fotografia é em preto em branco, na segunda a mesma é colorida. Tal concepção nos registros não é gratuita: se nas tomadas mais antigas o preto e branco sombrio acentua um tom de angústia e incerteza para os viciados, nas mais recentes o colorido dá uma perspectiva de esperança para aqueles que conseguiram evoluir no tratamento. Se a dureza das situações focadas e de alguns depoimentos choca pela crueza, há momentos em que emerge de forma repentina uma inesperada dose de lirismo, principalmente quando a narrativa se concentra nas reuniões do segundo grupo, aquele que não usa metadona, em que um dos “remédios” adotados é o canto coletivo de clássicos do soul (afinal, os anos 70 foi um período de excelente safra de músicas no estilo). O conjunto de tais escolhas formais e temáticas dos diretores Jim Klein e Julia Reichert é que dá a “Metadona – Uma Maneira de Traficar” uma aura de clássico no gênero documental, ainda que um tanto obscuro.

quarta-feira, julho 27, 2011

Presságio, de Lamberto Bava **1/2



É claro que Lamberto Bava não tem a mesma classe estética do seu pai, o mestre Mario Bava. Mesmo assim, não dá para negar que ele tem competência razoável no domínio da narrativa cinematográfica. Mesmo não estando entre os pontos altos de sua cinematografia, “Presságio” (2010), produção dirigida originalmente para a televisão, consegue apresentar algumas das boas qualidades do “Bavinha”. A trama envolvendo elementos de policial e sobrenatural não apresenta grandes novidades no estilo, mas o cineasta insere elementos visuais interessantes, principalmente nas imagens oníricas de uma garota com capa de chuva fugindo de uma figura de preto, que parecem evocar cenas do clássico “Inverno de Sangue em Veneza” (1973). Bava também apresenta uma boa mão na direção de atores e composição cênica de algumas seqüências, dando ao filme um certo sabor nostálgico que lembram alguns filmes setentistas italianos no gênero giallo.

terça-feira, julho 26, 2011

Carros 2, de Brad Lewis ***1/2



Assim como boa parte do melhor que se produz atualmente em termos de animação, “Carros 2” (2011) traz uma gama de referências visuais e temática tão grande que de certa forma acaba sendo até mais atrativo para os adultos do que para as crianças. A trama evoca as conspirações rocambolescas típicas dos filmes iniciais da franquia de 007 com Sean Conery, o que dá para a animação um sabor nostálgico. O tom de parábola moral da primeira parte se mantém, mas acrescido desse pendor para a aventura mais elaborada, cheia de reviravoltas e momentos de tensão, ainda que temperada pelo viés cômico. Graficamente, a obra de Brad Lewis é de encher os olhos. A recriação estilizada de Tóquio e Londres combina com precisão realismo e fantasia, além de um admirável senso de ironia ao tirar um sarro de leve das afetações características de cada uma das nações em que a trama da produção se desenrola. E é claro que as citações e referências de “Carros 2” seriam meros truques formais sem maiores consequências se não viessem acompanhadas de uma narrativa que dosa habilmente ação alucinante e momentos estilo “lições edificantes de vida”.

segunda-feira, julho 25, 2011

Schock, de Mario Bava ****



Dentro da tradicional combinação do subgênero de filmes de horror de casas mal assombradas com tramas cheias de segredos, “Schock” (1977) acaba surpreendendo justamente naquilo que tem de mais particular – o detalhismo visual e narrativo de Mario Bava. O diretor aproveita cada cena para inserir diversos elementos imagéticos insólitos, explorando de forma bastante imaginativa um universo que se divide entre o delírio e o puro terror sobrenatural. Isso se reflete também na forma barroca com que Bava trabalha os contrastes visuais entre claro e escuro, além de trucagens impactantes, como estiletes que flutuam e braços que saem do chão e das paredes. Em tal concepção cinematográfica, a técnica não é um ente separado do lado temático – a primeira ajuda a dar sentido para a trama do filme, que vai se revelando cada vez mais sórdida e obscura, envolvendo seus personagens num vórtice de culpa e loucura. E em termos temáticos, “Schock” se revela até mais ousado do que aquilo que costumamos ver recentemente na linha terror/suspense – Bava torna a ambientação da obra cada vez mais opressiva e angustiante, não vislumbrando uma dicotomia tão clara entre o bem e o mal e também nem uma solução fácil de final feliz para os seus personagens.

sexta-feira, julho 22, 2011

Manôushe, de Luiz Begazo **1/2



Talvez boa parte da interesse que vem de “Manôushe” (1992) seja o seu contexto histórico. Afinal, não é muito freqüente assistir no cinema nacional a uma obra que traga uma junção tão insólita de elementos diversos e estranhos. Situada em uma época algo imprecisa, a trama do filme traz cenas de danças flamencas, tipos grotescos, direção de arte estilizada que recria um ambiente de fábulas (obviamente, “A Lenda” de Ridley Scott parece ser uma influência que permeia toda a produção), diálogos com um dialeto totalmente inventado. A encenação de referências pouco ortodoxas como essas parece emular influências de Fellini, trazendo uma narrativa simbólica e delirante que pode assustar aqueles que estão habituados com a linguagem naturalista de boa parte da filmografia nacional recente. É certo que em alguns momentos o excesso de esquisitices do filme acaba cansando pela repetição, além do diretor Luiz Begazo não ter a mesma fluência para lidar com o picaresco fantástico que Fellini tinha. Mesmo assim, “Manôushe” acaba sendo uma experiência curiosa pela atmosfera atemporal e onírica que envolve a história.

quinta-feira, julho 21, 2011

Estrada Real da Cachaça, de Pedro Urano ****



Há duas cinebiografias dentro de “Estrada Real da Cachaça” (2008). Uma da própria bebida que está no título no filme, e outra do Brasil. Ou pelo menos de parte de sua história. Mas não se pense que o documentário tenha um fim meramente didático, pois tal narrativa se apresenta muito mais como uma espécie de viagem sensorial pela alma do brasileiro. O diretor Pedro Urano abdica de uma trama detalhada e linear para recriar a trajetória tanto da aguardente quanto do nosso país. São jogados na telas elementos diversos, simulando uma espécie de jogo aleatório, mas que aos poucos compõem um mosaico metafórico e perturbador de alguns dos mais remotos quintões nativos. A Estrada Real alude aos caminhos explorados para a extração e comercialização do ouro na era colonial, marcando o processo de civilização do país. Nos seus calcanhares, vem a difusão da cultura da cachaça e a sua consequente associação à constituição do imaginário coletivo do brasileiro. Para construir essa complexa associação de simbolismos, Urano utiliza depoimentos de populares (às vezes com uma língua portuguesa e pronúncia tão particulares que exige legendas), cantorias tradicionais, longas tomadas contemplativas de pessoas e paisagens, animações envolvendo mapas. A intenção não é tanto fazer o espectador “aprender” com os fatos, mas que o mesmo veja um fragmento de um estado de espírito, de um sentimento um tanto difuso, mas também verdadeiro.

Cabe ressaltar que a abordagem de Urano em “Estrada Real da Cachaça” não é exatamente de exaltação da bebida ou ufanista em relação ao Brasil. Há vários momentos no documentário em que a cachaça possui um caráter festivo e rende comicidade para a obra, mas Urano não se furta de mostrar sequências que evidenciam algo de degradante e melancólico na conseqüência que o vício na bebida pode causar em seus adeptos. Tal contradição se estende na visão dúbia que se oferece do nosso país: tão cheio de vida, mas também tão repleto de exploração e injustiças sociais – nesse ponto, a produção parece estabelecer um possível questionamento: “Não seria a cachaça usada também como um anestesiante para esse povo tão oprimido?”. No final das contas, essa dicotomia de atração e repulsa que permeia “Estrada Real da Cachaça” mais oferece perguntas do que respostas. E isso ainda mais acentua a fascinante aura de mistério que envolve o filme.

quarta-feira, julho 20, 2011

Quebrando o Tabu, de Fernando Grostein Andrade **1/2



Tentar escrever sobre “Quebrando o Tabu” (2011) sob um prima exclusivamente cinematográfico pode ser um ato incompleto, no sentido de que a intenção do filme é muito mais evidenciar o seu tema do que ressaltar suas possíveis qualidades formais como produto audiovisual. O diretor Fernando Grostein Andrade até apresenta algumas soluções narrativas atraentes, principalmente na seqüência de abertura, em que utiliza recursos de animação para ilustrar a história do fascínio da humanidade pelas drogas. Além disso, há momentos em que ele consegue capturar com crueza depoimentos bastante contundentes sobre o assunto, principalmente quando o médico Dráuzio Varella entra em cena e dispara sua perplexidade e raiva contra hipocrisia que ronda a questão da descriminalização do uso de determinadas substâncias ilícitas. No geral, entretanto, predomina no documentário um certo tom cerimonioso, quase de um filme institucional sobre o tema. A trilha sonora melosa e inconveniente (sério, seria muito melhor em algumas seqüências que não tivesse música alguma!) acentua ainda mais essa impressão de obra-propaganda. Por outro lado, é de se convir que a abordagem sobre a matéria é até bastante ousada e pouco preconceituosa na forma franca com que lida com pontos tão polêmicos, ainda mais que a mídia geralmente apresente uma tendência conservadora quando trata da questão. Assim, se “Quebrando o Tabu” pouco impressiona como cinema, acaba se redimindo pela lucidez de seu aspecto sociológico.