É difícil dizer exatamente sobre o que se trata o documentário
“Quarto 237” (2012). Pode-se considerar que o diretor Rodney Ascher quis
abarcar uma série de obsessões temáticas e estéticas – a capacidade do filme “O
iluminado” (1980) despertar as mais esquisitas e absurdas teorias, a
genialidade de Stanley Kubrick, a cinefilia, o poder da edição cinematográfica.
O impressionante é que Ascher juntou tudo isso com coerência formal
impressionante, tendo por resultado final uma obra que traz uma lógica
singular. O documentarista não tem a pretensão de fazer com que o espectador
acredite nas teorias meio amalucadas dos fãs do horror de Kubrick (no mais das
vezes, tratam-se de algumas explicações estapafúrdias para alguns erros de
continuidade ou mesmo de verossimilhança da produção em questão). Para Ascher, parece
mais divertido visualizar as ideias expostas pelos entrevistados. E é nesse
ponto que vem um dos aspectos mais fascinantes de “Quarto 237”: a brilhante e
minuciosa montagem que recorta com precisão cenas de “O iluminado”, outras películas
de Kubrick, imagens de arquivo em geral, alguns gráficos digitais. Ascher não
mostra sequer uma cena filmada por ele. Seu filme é um produto exclusivo da sua
imaginação e da sala de montagem. Talvez seja uma das manifestações fílmicas mais
contundentes sobre a importância primordial da edição numa obra cinematográfica.
Tal concepção pode ser discutível para alguns, mas é inegável a sedução
sensorial que a narrativa elaborada por Ascher proporciona.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quinta-feira, setembro 26, 2013
quarta-feira, setembro 25, 2013
Nocturna, de Adrià Garcia e Victor Maldonado **1/2
A animação espanhola “Nocturna” (2007) apresenta uma série
de elementos que a diferencia das produções norte-americanas no gênero,
mostrando mais até uma sintonia com a filmografia de mestre japonês Hayao Miyazaki.
Há uma atmosfera entre o onírico e o conto de fada sombrio, prevalecendo um
traço menos rebuscado e mais estilizado, em detrimento do grafismo realista. O
roteiro explora uma mitologia atraente para o imaginário infantil – a de como
funciona o mundo quando estamos dormindo. Assim, há uma variedade de tipos
estranhos e por vezes encantadores. O que impede “Nocturna” de ser uma experiência
efetivamente memorável é sua narrativa um tanto truncada, que não tem a mesma
leveza e agilidade das obras Miyazaki. Mesmo assim, não deixa de ser uma
curiosidade a ser conferida pelos apreciadores de animações.
terça-feira, setembro 24, 2013
Confissões de um jovem apaixonado, de Sylvie Verheyde **1/2
Peter Doherty, vocalista e guitarrista da extinta banda
Libertines, sempre encarnou uma espécie de atualização para o nosso presente dos
jovens poetas ultra-românticos do século XIX: de feições entre o inocente e o blasé,
comportamento polêmico e autodestrutivo e arte intensa à flor da pele. Dessa
forma, foi uma bela sacada da diretora Sylvie Verheyde colocá-lo como protagonista
em “Confissões de um jovem apaixonado” (2012), versão cinematográfica para um
romance situado em 1830, cuja trama traz Octave (Doherty), rapaz que após uma
desilusão amorosa entra num vórtice de autopiedade, hedonismo e culpa. Verheyde
revela alguma sensibilidade plástica ao construir cenas impregnadas de
fotografia esmaecida e etérea, o que acaba rendendo uma atmosfera estranha que
varia entre o ascético e o sensual. O problema da produção é que a equação
entre cinema e literatura não consegue atingir uma melhor desenvoltura – a abordagem
formal da cineasta é naturalista, mas narração e diálogos trazem uma
literalidade e solenidade que tornam a fluência da narrativa bastante truncada,
induzindo por vezes à monotonia.
segunda-feira, setembro 23, 2013
A sorte em suas mãos, de Daniel Burman **
A presença do cantor Jorge Drexler no papel de protagonista
em “A sorte em suas mãos” (2012) não é gratuita. Sua atuação entre o aéreo e o
inexpressivo encaixa bem com o personagem Uriel, um contumaz jogador de pôquer
que estende o blefe e a mentira, artifícios naturais do jogo, para a sua vida e
acaba tendo por isso dificuldades em seus relacionamentos pessoais. Tal
premissa é bastante interessante, no sentido da possibilidade de manter uma
constante atmosfera de ambigüidade. Ocorre que o problema do filme é que o
diretor Daniel Burman se envereda por caminhos mais comportados. O tratamento
que dá para a narrativa é a de uma típica comédia romântica, o que tira muito
do inicial gume cortante da trama. Assim, a produção é até agradável por alguns
momentos engraçados, mas no geral prevalece uma insipidez criativa, daquelas
que tornam o filme fácil de ver e ainda mais fácil de esquecer.
sexta-feira, setembro 20, 2013
Repare bem, de Maria de Medeiros ***
É claro que se pode dizer que “Repare bem” (2013) não traz
maiores novidades para o gênero “documentário sobre a ditadura militar no
Brasil”. Mas é provável que isso nem fosse a intenção da diretora portuguesa
Maria de Medeiros ao realizar esse filme. Afinal, ela foi convidada a dirigir
tal obra por uma instituição ligada a pesquisa e investigação sobre o período
histórico em questão. O resultado final, entretanto, está muito longe de ser um
mero trabalho institucional. A cineasta soube aproveitar bem a contundente matéria
prima que tinha em mãos e concebeu um filme vigoroso e de forte teor emocional.
Medeiros concentrou sua narrativa nos depoimentos da protagonista Denise
Crispim, que viveu na clandestinidade nos tempos de chumbo e teve o marido Eduardo
“Bacuri”, também guerrilheiro, preso, torturado e morto. Seus relatos são
detalhados e vívidos, compondo um amplo panorama que mistura sem cerimônia o
intimismo de seu drama pessoal com um retrato brutal do cenário político e social
do Brasil dos anos 60 e 70, além de evidenciar que as sequelas e traumas
daquele período atribulado ainda são feridas abertas no imaginário daqueles que
vivenciaram na carne as agruras da repressão.
quinta-feira, setembro 19, 2013
Gente grande 2, de Dennis Dugan *
O primeiro “Gente grande” (2010) era um filme interessante.
Conseguia um equilíbrio razoável entre a comédia física ostensiva e um certo
tom de crônica nostálgica. Essa continuação, de 2013, tem uma abordagem muito
diferente da obra que a precedeu. É puro humor grotesco e escatológico. A
impressão é que o roteirista se preocupou apenas em criar um fio de história
para servir de mero pretexto para uma sucessão de cenas grosseiras, com o
diretor Dennis Dugan formatando tudo como se fosse um longo episódio do Zorra Total.
O resultado final é muito ruim, mas o negócio é tão tosco e forçado que a
produção acaba até ganhando uma aura de curiosidade tamanho o exagero e cara de
pau de suas ideias e concepções.
quarta-feira, setembro 18, 2013
Frances Ha, de Noah Baumbach ***
Nos seus filmes anteriores, principalmente naquele que é
considerado o seu melhor trabalho, “A lula e a baleia” (2005), o estilo do
diretor Noah Baumbach era marcado por um naturalismo objetivo. Em sua obra mais
recente, “Frances Ha” (2012), entretanto, o cineasta resolveu dar uma variada. Por
mais que a temática de tal produção seja contemporânea, há uma atmosfera no
filme fortemente retrô. A estética elaborada por Baumbach remete aos primeiros
filmes da Nouvelle Vague: tudo parece mais livre, solto, quase como se o
roteiro estivesse sendo escrito de acordo com a evolução da trama, a partir de
lembranças, citações, referências. A trilha sonora acentua o tom de farsa – a trajetória
da personagem-título é marcada por momentos dramáticos, até mesmo depressivos,
mas o tratamento oferecido por Baumbach faz tudo parece uma comédia meio
amalucada (ainda que por vezes amarga). É claro que a influência francófila
pode dar uma impressão de deja vu, mas a estrutura narrativa menos rígida dá um
certo frescor à obra, ainda mais se comparada com a anemia criativa da maioria
do que se faz no gênero atualmente no cinema norte-americano.
terça-feira, setembro 17, 2013
Rugas, de Ignacio Ferreras ***
O traço simples e a narrativa tradicional representam uma
superfície que esconde com sutileza os grandes méritos inquietantes da animação
espanhola “Rugas” (2011). A trama é centrada num asilo, tendo como protagonistas
dois idosos que encaram de forma nada idealizada as agruras da velhice
(abandono, doenças, decadência física). A abordagem do diretor Ignacio Ferreras
por vezes se permite uma razoável dose de bom humor e ironia, mas o que
prevalece é um certo tom amargo nessa crônica crepuscular. O fato do cineasta
ter preferido enveredar pelo desenho animado para contar a história ampliou as
possibilidades criativas do filme, pois possibilitou convincentes e belas cenas
envolvendo sonhos, delírios e recordações, todas situações que são inerentes à
condição dos personagens. E nesse sentido, “Rugas” acaba sendo fortemente
humano e contundente na forma com que retrata o desenvolvimento do Mal de Alzheimer
em um dos personagens. Entretanto, apesar de toda essa melancolia, o filme se
permite a um final de caráter discretamente redentor e que revela uma serena coerência
com a abordagem temática da obra.
segunda-feira, setembro 16, 2013
Bling Ring: A gangue de Hollywood, de Sofia Coppola ***
Assim como se fazia supor em “Um lugar qualquer” (2010), o
estilo de Sofia Coppola parece estar mais descarnado em “Bling Ring: A gangue
de Hollywood” (2013). É como se a diretora quisesse lapidar a sua estética de
excessos, preferindo reduzir seu cinema a um essencial básico. Isso é até
curioso, no sentido de que seu pai, Francis Ford Coppola, é um autor marcado
por um virtuosismo que por vezes até envereda pelo operístico. Essa abordagem
da cineasta encontra um material temático com o qual estabelece uma sintonia
bastante coerente. Afinal, a história que conta as aventuras contraventoras de
um bando de jovens de classe média alta que se divertem furtando casas de ricos
e famosos em Hollywood recebe um tratamento de distanciamento emocional e sem
glamourizações. O registro de Sofia é marcado pela frieza e objetividade, mesmo
quando ela obtém cenas memoráveis ao conceber uma atraente atmosfera de
hedonismo. E é de se ressaltar ainda a ótima mão dela na direção de atores – o trio
protagonista (Emma Watson, Katie Chang e Israel
Broussard) tem desempenhos antológicos. No geral, as escolhas artísticas de Sofia
podem frustrar aqueles que esperam maiores arrebatamentos sensoriais, mas é
inegável que dão à “Bling Ring” um forte conteúdo emblemático de sua época.
sexta-feira, setembro 13, 2013
Red 2 - Aposentados e ainda mais perigosos, de Dean Parisot **
Pelo menos um mérito dá para creditar para “Red 2 –
Aposentados e ainda mais perigosos” (2013): é bem melhor que a primeira parte.
É verdade, também, que para isso não precisava muito esforço, pois aquela
produção de 2010 era uma das piores coisas disparadas lançadas naquele ano (e
ainda tinha o inquestionável demérito de ser infinitamente inferior à HQ
original escrita por Warren Ellis na qual se baseou). Talvez por não ter esse peso
da comparação com a HQ, afinal se trata de roteiro original, essa continuação
pareça mais palatável. Mesmo assim, não vai muito além disso... Trata-se de uma
obra que é competente em algumas sequências de ação, mas a tensão dramática é
nula. Culpa da tendência do roteiro em querer fazer tudo parecer cool e engraçadinho,
fazendo o filme ter uma cara constante de farsa/paródia do gênero ação. Tanto
que apesar de todas as explosões, tiroteios e brigas que a trama contém, quase
não há sangue, dando à produção uma cara de violência asséptica, propícia para
dar aquele caráter família e baixar a faixa etária da audiência (condição muito
importante para se ter uma boa bilheteria). É como se o diretor Dean Parisot
tivesse vergonha de fazer um típico filme de ação. Dá até uma saudade com os
ossos quebrados e do sangue em profusão de alguns clássicos do cinema porrada
dos anos 80...
quinta-feira, setembro 12, 2013
Os sabores do palácio, de Christian Vincent **1/2
Assim como há os “filmes paisagem”, aqueles em que os
diretores adoram fazer enquadramentos mostrando as belas localidades onde a
trama se desenvolve (e que poderiam até funcionar como excelente peça
promocional de imobiliárias), há também aquelas produções que podem se
enquadrar no gênero “filmes gourmet”. Seriam aquelas que por vários momentos
enfatizam pratos apetitosos sendo elaborados e servidos (poderiam também ser
utilizados como material de marketing, nesse caso por restaurantes). É claro
que há exceções em que obras se utilizando desse expediente podem revelar
expressivas inquietações artísticas, como “A festa de Babette” (1987) ou “Ratatouille”
(2007), mas no geral os tais “filmes gourmet” mais revelam a propensão para a
assepsia formal do que para alguma improvável ousadia. E é nesse caso que “Os
sabores do palácio” (2012) se enquadra. É claro que os tais pratos parecem
deliciosos, há alguns momentos engraçados e o elenco tem certo carisma. O
filme, contudo, foge pouco dessa previsibilidade e bom-mocismo. Mesmo o comentário
político do seu subtexto é superficial e pouco desafiador. Ou seja, tudo fácil
de ver e de esquecer, ainda que possa dar vontade de ir a algum restaurante...
quarta-feira, setembro 11, 2013
As horas vulgares, de Vitor Graize e Rodrigo de Oliveira *1/2
A trilha sonora repleta de temas de jazz, a fotografia em
preto e branco e o tom existencialista da trama são elementos que deixam bem
claras as influências dos diretores Vitor Graize e Rodrigo de Oliveira em “As
horas vulgares” (2011). Passam pelas obsessões estéticas e temáticas de
Michelangelo Antonioni na Trilogia da Incomunicabilidade e de Ingmar Bergman na
Trilogia do Silêncio, pelas atmosferas rarefeitas dos filmes de Philippe Garrel
e pela sutileza melancólica do extraordinário “Trintas anos esta noite” (1963).
O resultado final do referido filme brasileiro, entretanto, fica bem longe do
alto padrão artístico de suas fontes inspiradoras. A produção até tem uma
fotografia caprichada, além do elenco trazer alguns atores de recursos dramáticos
expressivos. “As horas vulgares” não funciona é como narrativa mesmo – tudo soa
muito truncado, forçado, não havendo naturalidade em sua encenação. Culpa disso
também é também de um roteiro equivocado, em que não há espaço para a construção
de um subtexto, de uma possibilidade de interpretação por parte do espectador;
os personagens dizem tudo o que sentem e também o significado do que sentem,
configurando um texto de caráter ingênuo. Num comparativo, o filme me parece o
equivalente cinematográfico do disco “4” dos Los Hermanos: a gente até sente
que os caras tem talento, mas a pretensão em ser “profundo” e “sério” acaba
gerando uma obra aborrecida e carente de personalidade definida.
terça-feira, setembro 10, 2013
Vendo ou alugo, de Betse Paula **
As influências de Betse Paula em “Vendo ou alugo” (2012) são
bastante visíveis. A diretora procura resgatar aquela estética descompromissada
e popular das comédias/chanchadas setentistas, principalmente na vertente que
exaltava o alto-astral carioca, cujo modelo maior são algumas produções
dirigidas por Hugo Carvana. Ocorre que hoje em dia, como se pode em filmes
recentes do próprio Carvana, tal concepção formal soa bastante datada. É claro
que por vezes pode-se simpatizar com o tom de fuleiragem de algumas cenas, com
algumas atuações carismáticas, com o interessante contraste/complementação que
se estabelece entre o ambiente das favelas com a decadência classe-média (nesse
sentido, daria até para dizer que ocorre um registro emblemático da atual
conjuntura brasileira). O que predomina, entretanto, em “Vendo ou alugo” é a
sensação de que sempre está faltando alguma coisa no meio de uma encenação que
beira o mambembe e da ausência de uma efetiva tensão dramática, o que faz com
que a obra seja incapaz de apresentar alguma seqüência memorável para o imaginário
do espectador.
segunda-feira, setembro 09, 2013
Círculo de fogo, de Guillermo Del Toro ***1/2
Em um primeiro momento, “Círculo de fogo” (2013) pode
lembrar o genial “Tropas estelares” (1997). Afinal, as tramas de ambos
apresentam em comum jovens militares combatendo monstros alienígenas. Só que no
filme de Paul Verhoeven, o tom era de farsa sutil, trazendo um comentário irônico
velado sobre os excessos de uma sociedade militarizada. Já a produção dirigida
por Guillermo Del Toro é aventura puramente escapista. O roteiro é divertido,
mas na verdade é mero pretexto para exageradas cenas de ação. E nesse campo, “Círculo
de fogo” é um trabalho de fôlego. Os efeitos visuais são caprichados nos seus
detalhes visuais – os robôs gigantes, por exemplo, são muito mais convincentes
que aqueles da franquia “Transformers”. O design das criaturas que vêm das
profundezas marítimas revela um senso plástico elevado – são monstros efetivamente
asquerosos e assustadores. Del Toro aproveita muito bem essa expressiva matéria
prima: as cenas de batalhas são movimentadas e brutais na medida certa. Uma das
formas que dá para encarar essa ficção científica é pensar naqueles velhos
seriados japoneses de monstros (tipo Ultraman e Spectreman), cheios de
porradaria mas de estética fuleira, e vê-los devidamente recauchutados por um
orçamento milionário e um cineasta empolgado pelo gênero. O resultado é uma
releitura que se equilibra bem entre a nostalgia e a modernidade.
sexta-feira, setembro 06, 2013
As aventuras do Kon Tiki, de Joachim Ronning e Espen Sandberg ***
Os diretores noruegueses Joachim Ronning e Espen Sandberg obtém
uma síntese narrativa bastante eficiente em “As aventuras de Kon Tiki” (2012).
Tendo por base uma história real, o filme combina de forma harmoniosa drama
histórico, aventura e uma densidade psicológica aguçada tanto nas situações do
roteiro quanto na caracterização dos personagens. As paisagens exóticas são bem
valorizadas pela competente direção de fotografia, assim como a direção de arte
revela esmero na reconstituição de época. Mas a efetiva força criativa do filme
está em algumas sequências de ação empolgantes, principalmente naquelas
envolvendo tempestades marítimas e nos enfrentamentos alucinados contra tubarões.
E o filme não se prende nas soluções fáceis do tipo lições de vida e superação.
O que fica mais evidente é um caráter obsessivo, beirando o doentio, nas
atitudes dos personagens – tanto pode ser a vontade de provar alguma teoria
científica obscura quanto o simples desejo quase suicida de desafiar a natureza
e a morte. As figuras do filme parecem se mover mais por desejos atávicos do
que por algum impulso de moralidade. E isso acaba sendo mais assustador e
inquietante que os perigos enfrentados por eles no mar aberto.
quinta-feira, setembro 05, 2013
Não toque no machado, de Jacques Rivette ****
A obsessão na junção entre cinema e literatura de Jacques
Rivette atinge um alto grau de excelência artística em “Não toque no machado”
(2007). O cineasta francês preserva da obra original de Balzac aquilo que ela
tem de essencial: os diálogos que fluem entre o solene e o poético, a
dramaticidade que navega entre o sombrio e a ironia sutil. Nesse encruzilhada
de mídias, Rivette elabora uma narrativa realista de cunho muito particular –
as situações focadas no roteiro, as relações humanas, tudo sugere uma abordagem
que foge do idealismo romântico, mas ao mesmo tempo parece que se assiste a uma
obra cujo naturalismo pertence a uma outra dimensão. Talvez seja um plano de
realidade que se vincule ao universo resultante das fusões das concepções
formais e temáticas próprias tanto de Balzac quanto de Rivette. Até o trabalho
de direção de arte e figurino mais se relacionam a uma noção de imaginário de
uma época do que a um rigor histórico. A atuação do casal protagonista
está em sintonia com o ideário estético da obra, sendo que tanto Jeanne Balibar
como Guilaume Depardieu trazem caracterizações extraordinária na aura de
melancolia e alienação que imprimem em seus respectivos papéis. Dizem que
Rivette anda bem doente e que em razão disso dificilmente voltará a filmar. Se
isso realmente se concretizar, é inegável que “Não toque no machado” seria uma
contundente síntese dos preceitos artísticos que sempre nortearam a sua
filmografia.
quarta-feira, setembro 04, 2013
Augustine, de Alice Winocour ***
A temática da psiquiatria não é uma novidade no cinema,
principalmente no que diz respeito a roteiros inspirados em fatos reais. Do
emblemático “Freud além da alma” (1962) até o recente “Um método perigoso” (2011), o estudo
das doenças e meandros da mente renderam algumas obras de interesse. Nesse
caso, também pode ser enquadrada a produção francesa “Augustine” (2012), cuja
trama é baseada nos estudos sobre a histeria do professor Jean-Martin Charcot
(aqui interpretado com a habitual sobriedade de Vincent Lindon). A narrativa é
até bastante convencional e o próprio formalismo do filme não chega a
transcender dos limites do competente, além do roteiro por vezes enveredar por
um certo romantismo incômodo. Apesar de tais limitações, entretanto, o filme
ganha interesse pela sutileza com que expões contradições e dilemas. A
atmosfera sombria e rigorosa de “Augustine” traz em seu bojo a velha discussão
(mas ainda muito atual) do conflito entre o obscurantismo religioso contra a
busca da ciência por respostas mais verossímeis e humanas para os distúrbios
mentais. Na visão do filme, por mais que os métodos de Charcot possam ser
severos e por vezes de resultados duvidosos, ainda sim representam uma busca
mais digna do que o simples conformismo mistificador.
terça-feira, setembro 03, 2013
Amor louco, de Jacques Rivette ****
Um filme com mais de quatros horas de duração já faz o
espectador desavisado pensar em algum épico histórico ou algo semelhante. De
certa forma, até dá para dizer que Jacques Rivette fez uma espécie de épico em “Amor
louco” (1969), mas direcionado a um relacionamento amoroso. No filme em questão,
a trama se foca em dois planos – nos ensaios de uma peça e na decadência do
relacionamento amoroso do diretor da referida montagem com sua esposa, atriz
afastada da montagem mencionada. A ligação entre teatro e cinema é recorrente
na filmografia de Rivette e aqui atinge um ponto extraordinário em sua fluência
narrativa. As tomadas das passagens de texto, das discussões, dos laboratórios,
trazem ângulos e enquadramentos que oferecem uma dimensão inusitada para as
duas mídias. No cerne da produção fica evidente que o interesse maior de
Rivette está no registro do processo criativo de uma montagem teatral e não
tanto no resultado final (o que faz lembrar o recente e extraordinário “César
deve morrer”). A evolução artística da montagem, entretanto, parece
corresponder à degradação da vida pessoal de seu principal artífice. Nesse
sentido, a longa duração de “Amor louco” se justifica para além da mera
excentricidade. Rivette esmiúça os passos da dissolução mental da protagonista
Claire (Bulle Ogier) em cenas de uma crueza emocional exasperante. Nada parece
acontecer de forma gratuita, sendo que a decadência do relacionamento dos
amantes se estende e consolida de forma indelével. Seu melancólico ocaso, não à
toa, coincide com o ápice criativo da encenação que é a outra tônica da produção,
numa conclusão de perversa ironia de Rivette.
segunda-feira, setembro 02, 2013
Tabu, de Miguel Gomes ****
Num primeiro momento, a estética peculiar da produção
portuguesa “Tabu” (2012) pode sugerir um certo hermetismo. Afinal, o diretor
Miguel Gomes estabelece inextricável formalismo envolvendo citações e referências
cinematográficas e abordagem literária, principalmente no segundo momento da
trama. O que ocorre, entretanto, é que o filme impressiona justamente pela fluência
da narrativa em meio a suas experiências estéticas. Gomes perverte as noções de
dramaticidade e de tempo. Na primeira história que se desenvolve, predomina a
atmosfera de melancolia no meio de temas de viés triste como a solidão e a
velhice. No subtexto, pairam questões como o preconceito e a tradição
colonialista de Portugal. Gomes foge do óbvio, inserindo sutis traços irônicos,
mesmo quando a morte e a decrepitude vão se tornando mais evidentes. Quando a
trama passa para a segunda parte, a visão artística do cineasta se torna ainda
mais particular. É como se tratassem de lembranças do narrador. Sua voz parece
impertubável com as memórias que evoca, dando a impressão de quase recitar suas
falas. Essa prosa poética produz um contraste admirável e perturbador com as
imagens de tons nostálgicos que emanam da tela. Como se tratam de lembranças,
fotografia e direção de arte não se vinculam a uma predisposição ao realismo.
Ao contrário – a estilização fala mais alto, com direito a números musicais que
dão a impressão da reconstituição distorcida das antigas produções de Hollywood.
Raras vezes as paisagens africanas pareceram tão sedutoras e até mesmo oníricas,
mas o senso de sarcasmo perverso de Gomes nunca deixar cair “Tabu” no simples
contemplar de uma beleza visual superficial. A trágica história de amor
proibido que é o centro do roteiro, no final das contas, é mais um sintoma de
alienação dos colonizadores perante a realidade de exploração econômica e
social entre os europeus e os nativos do continente.
sexta-feira, agosto 30, 2013
Celine e Julie vão de barco, de Jacques Rivette ***1/2
O delirante e o onírico ganham uma nova dimensão nas mãos de
Jacques Rivette em “Celine e Julie vão de barco” (1974). O filme parece meio
aleatório na sua estrutura narrativa – é como se a trama evoluísse por alguma
intuição do diretor e de suas protagonistas.
No roteiro, há duas histórias que por vezes correm paralelamente, e noutros
momentos se fundem de acordo com uma lógica surrealista. Ocorre, entretanto,
que esse direcionamento de fantasia não se prende aos ditames tradicionais do
cinema fantástico; na realidade, é como se fosse uma extensão das particulares
concepções artísticas de Rivette. Ele cria atmosfera e dinâmica rarefeitas para
buscar uma linguagem que seja própria do cinema, ainda que se utilize de alguns
preceitos da literatura e do teatro. Seu formalismo anti-naturalista dá uma sensação
ao espectador de se encontrar numa montanha russa sensorial. Se essa opção
criativa pode ser cansativa em algumas seqüências, em outras é estranhamente
sedutora, principalmente por evocar um cinema cujos maneirismos enveredam tanto
por uma direção de fotografia de tons granulados e esmaecidos (quase como se
fosse um vídeo caseiro) quanto por uma estética gótica de araque e um tanto irônica.
Para Rivette, as noções de realismo e linearidade só servem para serem
distorcidas em busca de um olhar livre e inquietante.
quinta-feira, agosto 29, 2013
Paris nos pertence, de Jacques Rivette ***
Um dos nomes considerados pilares da Nouvelle Vague, Jacques
Rivette não demonstrou em sua obra de estreia, “Paris nos pertence” (1961), o
mesmo grau de excelência artística que seus pares François Truffaut e Jean-Luc
Godard atingiram em seus respectivos debut, “Os incompreendidos” (1959) e “Acossado”
(1960). Ao assistir ao filme, pode-se perceber a procura de um estilo mais
definido, de uma narrativa melhor formatada. È inegável, entretanto, que em vários
momentos de tal produção há a presença de elementos que posteriormente em
outras obras se cristalizaram numa estética definitiva e indelével de Rivette.
Mesmo dotado de recursos limitados para
filmar, o cineasta já demonstra o instinto para enquadramentos de peculiar beleza,
assim como tangencia um diálogo criativo com outros meios de expressão como o
teatro e a literatura. O mistério e a fantasia, dois grandes norteadores de sua
filmografia, estão ali presentes, configurando um onirismo estranho e uma
atmosfera rarefeita, em que o fio de trama dá a aparência de que irá se desvanecer
a qualquer momento. A sensação final após a conclusão de “Paris nos pertence” é
semelhante ao de um sonho – não lembramos direito do que se trata a história,
mas permanece a recordação de algumas imagens sedutoras.
quarta-feira, agosto 28, 2013
A religiosa, de Jacques Rivette ****
A relação entre cinema e literatura atinge um estágio
bastante singular na versão para as telas concebida pelo diretor francês
Jacques Rivette para “A religiosa” (1966), baseada no texto original de Denis
Diderot. O cineasta não envereda por uma direção tão precisa – o filme tanto
preserva e ressalta uma linguagem muito próxima da literária, mas também traz
uma estrutura narrativa cujo sentido é bastante próprio de um meio de expressão
particularmente cinematográfico. O que pode parecer, então, uma certa
esquizofrenia formal se revela como uma estética ousada e envolvente. Rivette
preserva aquilo que a trama teria de mais básico e extrai a essência daquilo
que eterniza a escrita de Diderot: a combinação intrínseca entre dramatismo e
ironia, o distanciamento emocional que se aproxima do sarcasmo, a crítica ácida
das instituições religiosas. É como se o livro fosse descarnado, reduzido a um
sentido primordial, e nesse processo o próprio cinema de Rivette adquirisse uma
contundente concisão. Dessa forma, prevalece um rigor que se estende pelos
principais pilares de “A religiosa”. A direção de arte é espartana, as composições
dramáticas do elenco são concentradas em definições exageradas em detrimento de
psicologismos detalhados, montagem e roteiro se relacionam numa narrativa elíptica
(é como se um livro fosse lido com algumas páginas arrancadas). E nessa adaptação
que se esgueira entre a fidelidade e a transgressão, Rivette parece
desconstruir sutilmente alguns cânones até do gênero dos filmes de época.
Assim, a produção acaba soando perturbadora tanto para carolas pelo seu forte
teor anticlerical quanto para aqueles apreciadores de um cinema mais comportado.
terça-feira, agosto 27, 2013
Hannah Arendt, de Margarethe Von Trotta ****
Num primeiro momento, a estrutura narrativa proposta pela
diretora alemã Margarethe Von Trotta em “Hannah Arendt” (2012) pode aparentar
um convencionalismo na sua linearidade com eventuais flashbacks. Com o
desenvolver do filme, entretanto, revela-se um trabalho muito mais complexo e
fascinante. Trotta concebe a sua obra como uma extensão artística e existencial
do próprio pensamento filosófico da sua protagonista.
Assim, por mais que a produção evoque questões de forte teor sentimental, a
abordagem da cineasta traz um distanciamento emocional desconcertante. Tanto
para Arendt como para Trotta, o falacioso entendimento de que o sentimentalismo
seria uma espécie de sinônimo de humanismo é equivocado, sendo que o
afastamento do pensamento mais racional representa um caminho de aproximação ao
totalitarismo. A identificação intelectual e
de ideais entre a diretora e a filósofa não faz com que a cinebiografia tenha
um conteúdo meramente laudatório, pois Trotta não se furta de apresentar as
contradições e dilemas que marcavam a vida e obra de Arendt, o que torna ainda
mais inquietante o seu pensamento de forte cunho libertário em relação a ideários
nacionalistas e comportamentais. A aludida identificação se traduz numa precisão
cirúrgica na condução da narrativa, e que por vezes traz de forma sutil uma
ironia cruel, principalmente nos momentos finais da produção, quando se
acredita que Arendt se encaminha para uma possível “redenção” perante seus
pares para que na conclusão só se confirme o seu status de pensadora fora do
status quo dos padrões aceitáveis de normalidade e moralidade. E são nesses
detalhes que Trotta qualifica seu filme em níveis transgressores semelhantes àqueles
estabelecidos nos escritos de Arendt.
segunda-feira, agosto 26, 2013
Branca de Neve, de Pablo Berger ***
Em primeiro momento, poderia-se dizer que essa versão
espanhola de “Branca de Neve” (2012) seria uma espécie de releitura perversa do
tradicional conto de fadas. Ocorre, entretanto, que esse tipo de fábula, em
suas origens, tem um forte conteúdo sombrio e que com o tempo foi recebendo um
tratamento mais infantil e adocicado (vide os desenhos da Disney, por exemplo).
Dessa forma, essa produção dirigida por Pablo Berger tem um certo sentido de
resgate da concepção original do conto de fada em questão. Para acentuar a
bizarrice de tal abordagem, o cineasta utiliza um formalismo que remete ao
cinema mudo, além de rechear a obra com referências da cultura espanhola. As
escolhas de Berger acabam gerando uma produção singular, principalmente pela
atmosfera dúbia, em que sensualidade, morbidez, encanto e violência convivem
com estranha naturalidade. Algumas cenas, devido a uma complexa simbologia,
fazem lembrar trabalhos visionários de Alejandro Jodorowski, ainda que a estética
construída por Berger esteja longe da genialidade delirante daquele.
sexta-feira, agosto 23, 2013
Pégaso, de Mohamed Mouftakir **
Por ser uma produção marroquina, algo não muito habitual de
aparecer nos nossos cinemas, “Pégaso” (2009) pode causar curiosidade pelo seu
exotismo. Por vezes, tal expectativa até se cumpre – a direção de fotografia e
a direção de arte realçam alguns aspectos visuais insólitos, principalmente no
que diz respeito a questões culturais que são prementes no roteiro. Isso,
entretanto, acaba sendo insuficiente para dar uma efetiva envergadura artística
para o filme. A narrativa é muito amarrada em convencionalismo, e o roteiro
padece de um viés psicanalítico muito ostensivo – as viradas da trama são
esquemáticas e o subtexto perde sua sutileza na forma com que todos os
conflitos e dilemas são entregues “mastigados” para o espectador.
quinta-feira, agosto 22, 2013
Zarafa, de Remi Bezançon e Jean-Christophe Lie ***1/2
O cinema francês vem cada vez mais incorporando influências
orientais em suas concepções, não só temática como na sua própria formatação
(na realidade, tal fenômeno é premente em boa parte dos países do continente
europeu). Fruto provável da cada vez maior massa de imigrantes que lá residem,
esse direcionamento também pode ser constatado em animações como “Zarafa”
(2012). A própria trama de tal produção é simbólica desse direcionamento:
baseada em fatos reais, mostra a saga envolvendo a viagem do Egito para a
França da primeira girafa que adentrou o território desse último país. Os
diretores Remi Bezançon e Jean-Christophe Lie conseguem obter uma síntese
bastante eficiente entre aventura e um tom mais reflexivo e contemplativo. A
atmosfera de “Zarafa” é de um misto de inocência, exotismo, mistério,
sensualidade e violência, e nesse sentido a beleza do traço da animação é
fundamental – por vezes, há uma certa rusticidade no grafismo, como se evocasse
o lado selvagem dos povos dos desertos na África, mas que envereda também por
uma arte de toques entre o onírico e o rebuscamento visual (nesse último caso,
quando a história passa a se concentrar em Paris). Essa alternância de estilos
estabelece uma narrativa cativante e que situa com precisão os dilemas e
contradições presentes no roteiro – a dicotomia de atração e repulsa que sempre
foi a tônica das relações entre Ocidente e Oriente.
quarta-feira, agosto 21, 2013
Tese sobre um homicídio, de Hernán Glodfrid **1/2
O culto por parte de alas da crítica e do público em relação
ao cinema argentino contemporâneo merecia até um estudo. Afinal, os filmes dos
hermanos são frequentemente citados como exemplos a serem seguidos em termos de
produção latina. Depois que o superestimado “O segredo dos seus olhos” (2009) ganhou
o Oscar de melhor filme estrangeiro, tal admiração cresceu mais ainda. O que
ocorre na realidade é que o cinema argentino prima por uma certa organização: a
infraestrutura de produção é razoável, os roteiros têm certa fluidez, há diversidade
de gêneros cinematográficos. Mas se há um padrão de qualidade nesse lado “logístico”,
em termos criativos as coisas se complicam, pois a maioria dos filmes
argentinos atuais prima pelo excessivo convencionalismo. “Tese sobre um homicídio”
(2013) é exemplo perfeito dessa condição. A narrativa não tem maiores
sobressaltos, fotografia e edição são competentes e no elenco prevalece o inegável
carisma de Ricardo Darín. Só que o filme soa mecânico demais – dá para ver com
clareza a estrutura de uma obra de “bom gosto”, mas que beira o insípido. O
espectador até se envolve em determinados momentos, mas fica também com aquela
incômoda sensação de já viu tudo aquilo antes de forma bem mais impactante em
outras obras.
terça-feira, agosto 20, 2013
Wolverine: Imortal, de James Mangold ***
Depois da patética abordagem pseudo-artística e filosófica
de “O homem de aço” e do show de descaracterização e de piadinhas sem graça em “O
Homem de Ferro 3”, uma obra como “Wolverine: Imortal” (2013) chega a ser
alentadora dentro do gênero de adaptações de quadrinhos. Não que o filme seja
exatamente uma obra-prima, mas é inegável que o diretor James Mangold faz um
feijão com arroz convincente, conseguindo tanto preservar boa parte da essência
das HQs originais do personagem-título quanto demonstrar competência na encenação
de aventura desenfreada. Por vezes, o roteiro apresenta algumas gorduras
dispensáveis, principalmente quando mostra um Wolverine (Hugh Jackman) vacilante
demais nas suas forçadas lembranças de Jean Grey (Famke Janssen). No mais das
vezes, entretanto, o que predomina é muita ação casca grossa. Mesmo com as
limitações de violência típicas de uma grande produção, Mangold tem boas
sacadas narrativas, principalmente pela opção de focar a trama no Japão (que
nos gibis originais do protagonista sempre
teve uma participação importante no desenvolvimento de sua personalidade), o
que faz com que se tenha uma profusão de lutas, duelos de arte marcial, ataques
de ninjas e afins, propiciando que Logan tenha bastantes oportunidades para
colocar suas garras em ação. E a cena em que Wolverine realiza uma autocirurgia
no coração é antológica no seu exagero e brutalidade. Assim, no cômputo geral, “Wolverine:
Imortal” é bastante superior a “X-Men Origens: Wolverine” (2009) e cria uma
razoável expectativa para a próxima aventura dos X-Men a ser transposta para as
telas, “Dias de um futuro esquecido” (onde o baixinho canadense terá papel
fundamental).
segunda-feira, agosto 19, 2013
Amor pleno, de Terrence Malick ****
As concepções artísticas do diretor norte-americano Terrence
Malick parecem se tornar cada vez mais personalíssimas e radicais com o passar
dos anos. Em “Amor pleno” (2012) isso fica muito evidente, pois a estrutura
narrativa rompe com os padrões tradicionais e obedece a uma lógica muito própria
– ela se desenvolve como um fluxo de consciência, onde o subjetivismo é
primordial. Dentro desse conceito, a obra segue numa linha semelhante à “A árvore
da vida” (2011), a obra anterior de Malick, em que as inquietações intimistas
das personagens se expandem para uma conotação
mais ampla, ganhando uma dimensão existencialista e épica. Nesse sentido, o
formalismo barroco e difuso do filme não é apenas um adereço estético; na
realidade, ele dá sentido às inquietações metafísicas e filosóficas da trama. O
filme, assim, não é um mero pretexto para se contar uma história. O que se propõe
ao espectador é uma imersão sensorial, em que a profusão de imagens e sons faz
com que se entre de cabeça na percepção atormentada das personagens. Nesse
contexto, mesmo aqueles princípios considerados básicos de um roteiro se
dissolvem – situações e figuras aparecem e desaparecem de acordo com as
necessidades difusas desse olhar subjetivo. As ousadias e complexidades desses
padrões estéticos e temáticos se materializam numa direção de fotografia
espetacular, em que planos-sequência, enquadramentos inusitados e os tons
crepusculares compõem uma plasticidade arrebatadora, algo entre o onírico e o
celestial.
sexta-feira, agosto 16, 2013
Boca, de Flavio Frederico ***
Os moldes clássicos das cinebiografias de bandidos famosos
representam a cartilha básica de “Boca” (2010), obra que focaliza a trajetória
Hiroito Joanides, que por um bom tempo foi o grande rei do crime na Boca do
Lixo (SP). O filme de Flavio Frederico parece ter como modelo de estrutura
narrativa o clássico “Os bons companheiros” (1990), de Martin Scorsese – uma
dinâmica narrativa contundente ao focalizar a ascensão e o auge do personagem-título.
O roteiro não se interessa por maiores minúcias psicológicas na composição de
situações e personagens, enfatizando principalmente o lado icônico da história,
fazendo por vezes com que Hiroito mais pareça uma força da natureza do que um
indivíduo. Nessa escolha de abordagem, é inegável que Frederico demonstra
naturalidade na coreografia nas cenas de ação e violência, além da reconstituição
de época puxar para uma estética que remete a um imaginário da época focada (décadas
de 60 e 70) em detrimento do realismo. Na parte da produção que retrata a decadência
do protagonista, a atmosfera de decadência e a
tensão dramática são convincentes, até porque a trama não se restringe a um caráter
puramente maniqueísta. A atuação de Daniel Oliveira no papel principal também é
um trunfo para “Boca”: sua atuação é sanguínea e com nuances expressivas,
fazendo com que Hiroito transite com desenvoltura entre a brutalidade
assustadora e um surpreendente carisma.
quinta-feira, agosto 15, 2013
O concurso, de Pedro Vasconcelos *
A profusão de comédias que vem aparecendo nos cinemas nos últimos
anos, principalmente aquelas produzidas pela Globo Filmes, acaba gerando a
impressão de uma espécie de movimento, algo como se fosse uma onde de “neo-chanchadas”.
Apesar de focarem principalmente num lado popularesco e comercial, alguns
desses filmes até apresentam inquietações temáticas e formais, ainda que de
forma discreta. Nessa direção, dá para lembrar “Os penetras” (2012) e “Vai que
dá certo” (2013). Mas há produções, entretanto, em que o resultado é rasteiro
demais em termos de ruindade, o que é o caso justamente de “O concurso” (2013).
Dá para perceber no roteiro algumas tentativas de trazer uma visão crítica de
determinados dilemas prementes da sociedade brasileira contemporânea no meio de
todos os quiproquós da trama, mas a direção de Pedro Vasconcelos é tão mambembe
que joga todas as boas promessas no lixo. Qualquer cena que envolva ação, algum
movimento ou disposição de elementos no quadro é tão desajeitada que sugere um
amadorismo constrangedor. Além disso, Vasconcelos demonstra péssima mão para
direção de atores –as interpretações oscilam entre o inexpressivo e o risível. É
provável que com toda máquina de marketing e pela estrutura “televisiva” de sua
narrativa “O concurso” vai ser sucesso de bilheteria, mas será incapaz de se
grudar na mente do espectador como experiência cinematográfica memorável (a não
ser para alguns possíveis apreciadores de tosquices).
quarta-feira, agosto 14, 2013
O cavaleiro solitário, de Gore Verbinski ***1/2
Eu tenho a crença de que “Os imperdoáveis” (1992) marcou o
fim dos faroestes como gênero cinematográfico contemporâneo, no sentido de que
tanto em termos temáticos como formais não haveria mais o que acrescentar. O
que veio depois consistiu basicamente em reciclagens e pastiches. Nesse último
quesito é que pode ser classificado “O cavaleiro solitário” (2013). Apesar de
sua trama se desenvolver dentro daquele período que foi objeto da grande parte
das produções do gênero, a abordagem do diretor Gore Verbinski beira o paródico
– está mais para um espalhafatoso filme de aventura moderno que se passa
naquela época. A atmosfera da obra varia entre o exagerado e o grotesco. Os
clichês dos faroestes estão todos ali, mas retorcidos de forma até
perturbadora. Não é de estranhar, portanto, que a produção tenha sido um grande
fracasso comercial; há doses de violência, perversidade e morbidez maiores que
o habitual nos blockbusters. Tal escolha de direcionamento é adequada para o
subtexto bastante crítico do filme em relação à história dos Estados Unidos na época
do desbravamento do Oeste (exploração econômica, massacre de índios). Na
verdade, pode-se dizer que o clima de “O cavaleiro solitário” é crepuscular,
semelhante aos faroestes mais cínicos e brutais de Sergio Leone e Sam Peckinpah.
Nesse sentido, a figura do índio Tonto (Johnny Depp) é uma síntese aproximada
do espírito do filme: decadente, sardônico e melancólico. Tais idiossincrasias aliadas
a um senso alucinado de Verbinski para cenas de ação inverossímeis geraram uma
obra singular e que provavelmente acabará merecendo uma reavaliação mais
cuidadosa por parte de crítica e cinéfilos daqui alguns anos.
terça-feira, agosto 13, 2013
Renoir, de Gilles Bourdos ***
Dá para traçar uma diferenciação existencial entre as
respectivas artes de pai e filho Renoir. O pai Auguste, pintor expressionista,
dava uma ênfase para aquilo que era belo e agradável aos olhos. Já o filho
Jean, cineasta, teve como marca registrada em sua filmografia uma visão irônica,
por vezes cínica, outras vezes amarga, das relações humanas. No tratamento
formal de “Renoir” (2012), filme de conotação
biográfica, parece que a preferência foi pela abordagem do patriarca. A
fotografia luminosa, que valoriza tanto a beleza da natureza onde se situa o sítio
do pintor, onde se desenvolve grande parte da ação, quanto a voluptuosidade do
jovem corpo de Andrée (Christa Teret), modelo do artista, mostra uma espécie de
sintonia espiritual com a própria técnica pictórica de Auguste (Michel Bouquet).
Mas o filme não se resume a uma mera exaltação do belo e do bucolismo. Quando
Jean Renoir (Vincent Rottiers) entra em cena, aparece também o elemento de tensão
da produção, em que o idilismo estético de Auguste se confronta com a dura
realidade da guerra que Jean traz no próprio corpo. Por mais que o envolvimento
romântico entre Jean e Andrée prevaleça em alguns momentos, a realidade é que a
tônica central do filme está no embate silencioso e sutil, mas contundente,
entre pai e filho. Os diálogos entre eles trazem um rico subtexto que
sintetizam de forma admirável os dilemas e contradições de uma época. Os
apreciadores de cinema que esperam aquele espírito sardônico típico das produções
mais estimadas de Jean Renoir podem se decepcionar, mas mesmo assim “Renoir” é
uma obra que transcende o simples registro despersonalizado de fatos históricos.
segunda-feira, agosto 12, 2013
Ferrugem e osso, de Jacques Audiard ***1/2
A estrutura da narrativa de “Ferrugem e osso” (2012) é a de
um melodrama convencional. O que faz a diferença no filme é a força da encenação
estabelecida pelo diretor Jacques Audiard. A trama traz elementos temáticos
diversos e que por vezes beiram o insólito: lutas de vale-tudo, treinadores de
baleias, deficientes físicos, questões de imigração, conflitos familiares. No
conjunto, entretanto, todos esses elementos acabam ganhando uma unidade
surpreendente na forma com que o roteiro bem estruturado os une. Como nas obras
anteriores do mesmo diretor, “De tanto bater meu coração parou” (2005) e “O
profeta” (2009), um dos trunfos da obra está na conjunção audiovisual proposta
pela edição – a excelente direção de fotografia ganha impacto ainda maior com a
forma com que a música se insere em cena. Audiard consegue também uma
equilibrada alternância de atmosferas: nas seqüências mais intimistas, a tensão
dramática é sutil e valoriza bastante as arejadas interpretações de seu elenco,
enquanto nos momentos envolvendo violência e sexo, a ação é coreografada com
vigor e belo detalhismo cênico.
sexta-feira, agosto 09, 2013
A estrada para Nod, de M.A. Littler ***
A influência do cineasta norte-americano Jim Jamursch é
capital no cinema de M.A. Littler. “A estrada para Nod” (2007) talvez seja o
filme do diretor alemão que mais deixa evidente tal influência. A direção de
fotografia em preto-e-branco atmosférico, a narrativa minimalista e rarefeita,
músicos como atores nos principais papéis, comicidade idiossincrática, a trilha
sonora puxada para um blues climático, a abordagem emocional distanciada –
todos esses elementos parecem nos remeter àquelas produções cult de Jamursch dos
anos 80. Mas Littler consegue dar vigor e uma certa cara própria para essas
referências. Na aparência, o filme se vincula ao gênero policial, mas os
preceitos básicos estão ali mais como um esqueleto a sustentar um pessoal exercício
de estética. O roteiro tem um caráter improvisado e irregular por vezes, mas é
inegável que o conjunto audiovisual tem um efeito sensorial sedutor em
determinadas passagens.
quinta-feira, agosto 08, 2013
Zownir: Homem radical, de M.A. Littler ***1/2
Como pode ser observado em outros filmes de M.A. Littler já comentados
neste blog, o referido diretor alemão se interessa bastante pelo universo contracultural.
Assim, é natural que a obra do fotógrafo, cineasta e escritor Miron Zownir tenha
lhe chamado à atenção. “Zownir: Homem radical” (2006) é um tributo visceral de Littler
para o seu biografado. A arte de Zownir tem como influência fundamental o preceito
“do it yourself” do movimento punk rock. Assim, o seu trabalho sempre foi marcado
pelo registro cru da sordidez dos subterrâneos culturais e mesmo existenciais, mas
ao mesmo tempo extraindo disso tudo uma espécie de lirismo. Litler, que já
havia demonstrado a sua admiração por artistas marginais e obscuros em obras
como “Voodoo Rhythm – O gospel do rock’n’roll primitivo” (2005) e “The Dead
Brothers – A morte não é o fim” (2006), oferece uma moldura estética em
perfeita sintonia com as brutais concepções artísticas de Zownir: direção de fotografia
preto-e-branco (o que até emula os instantâneos captados pelo artista), edição ágil
combinando os depoimentos de Zownir com trechos do seu trabalho (onde teoria,
vivência e prática se mostram ligadas de forma intrínseca), ambientação
sombria. Assim, ao focalizar a história pessoal de um artista multimídia tão
peculiar, Littler realiza também uma cortante radiografia do papel da cultura
underground na contestação dos valores da sociedade ocidental.
quarta-feira, agosto 07, 2013
A boneca, o gordo e eu, de Axel Ranisch ***
A influência de Aki Kaurismäki na produção alemã “A boneca,
o gordo e eu” (2012) é evidente em cada fotograma. O diretor Axel Ranisch, em
seu longa de estreia, segue os preceitos do cineasta finlandês com dedicação:
narrativa minimalista, abordagem emocional distanciada, personagens outsiders,
comicidade amarga, uso constante de planos fixos, trilha sonora marcada por uns
rocks esquisitos. Apesar da pouca originalidade, o filme convence – a narrativa
é envolvente, direção de fotografia e edição de caráter simples e sóbrio, os
atores são carismáticos nas suas caracterizações idiossincráticas. É fato também
que é uma obra que pouco transcende, mas para um primeiro longa o resultado é
satisfatório. Agora é esperar para ver se Ranisch em seus próximos trabalhos
conseguirá sair da sombra de Kaurismäki.
terça-feira, agosto 06, 2013
Headlock, de Johan Carlsen ***
A condução da narrativa em “Headlock” (2011) não poderia ser
mais germânica na sua dureza e sobriedade. Ao focar o cotidiano cinzento de uma
mãe solteira proletária e simplória e de seu filho adolescente e problemático,
alvo constante de bullying na escola, a produção adota
um registro de tinturas realistas, onde não há muito espaço para soluções fáceis
ou alguma redenção para os seus protagonistas.
O diretor Johan Carlsen se permite sutis toques de ironia e perversidade ao
inserir durante a trama breves seqüências de teor fantástico, relacionadas a delírios
e sonhos de personagens, que em contraste com o formalismo de influência
documental que predomina durante maior parte da trama acaba causando um efeito
contrastante perturbador. Assim, mesmo não tendo maiores voos estéticos, é uma
obra curiosa na sua crueza e crueldade ao expor algumas mazelas da sociedade
ocidental contemporânea.
segunda-feira, agosto 05, 2013
The Bambi Molesters: Uma noite em Zagreb, de M.A. Littler ***1/2
Os filmes do diretor alemão M.A. Littler são marcados pelo
conceito “fora do tempo e do espaço” – mesmo quando situados numa determinada localidade
ou num período delimitado, o particular estilo do cineasta faz parecer que tudo
está ocorrendo num universo paralelo. O filme-concerto “The Bambi Molesters:
Uma noite em Zagreb” (2012) é um exemplar contundente desse preceito. Os Bambi
Molesters são uma banda de surf music instrumental da Croácia, sendo que o
documentário em questão é o registro na íntegra de uma apresentação do grupo na
capital de seu país. Assim, a sensação de estranhamento é uma constante na
produção, afinal eles tocam um estilo musical retrô norte-americano e têm o seu
show documentado por um alemão! E nem tem mar ou surfistas em Zagreb... Aos
poucos, entretanto, percebe-se que nada é tão estanque e que conceitos
territoriais e estéticos vão se misturando sem cerimônia. A música dos Bambi
Molesters não se limita a uma simples recriação de um gênero. Eles oferecem uma
ambientação própria, algo entre o soturno e o pós-punk e com toques folk. A
forma com que Littler filma a apresentação é uma extensão não só das suas
concepções próprias de cinema como do próprio caráter difuso e mestiço da música
da banda. O cineasta consegue captar com sensibilidade uma atmosfera gótica e
sexy, o que fica também evidente nas eventuais tomadas externas com os
Molesters caminhando pela cidade, cuja arquitetura clássica reforça a sensação
de atemporalidade. Os belos jogos de alternância de câmeras fazem lembrar a
obra-prima de Scorsese no gênero documentário musical, “O último concerto de
rock” (1978). Enfim, o encontro de Bambi Molesters e Littler acaba gerando uma
pérola underground típica desses tempos esquisitos em que as definições
culturais ficam cada vez mais longe dos rótulos e dos padrões de “normalidade”.
sexta-feira, agosto 02, 2013
O homem de aço, de Zack Snyder *
Forçando um pouco a barra, dá para dizer que “O homem de aço”
(2013) compõe junto a “300” (2006) e “Watchmen” (2009) uma espécie de trilogia
dos quadrinhos do diretor Zack Snyder. Bem, do jeito que estão as coisas, é
provável que daqui poucos anos deixe de ser trilogia... Essa trindade
representa uma vertente equivocada de se verter HQs para o cinema. Em tal
concepção, basta combinar muitas cenas com pancadaria, bastante barulho e uma
atmosfera pós-moderna e pronto: aí está um bom produto para agradar fãs e neófitos.
Na realidade, o que se discute aqui não é o fato de tais versões serem fieis ou
não à mídia que lhes deram origem. O que incomoda nessas produções é o fato de
que como obras cinematográficas são experiências frustrantes. Nessa transposição
mais recente das aventuras do Superman para as telas, Snyder mostra que não há
limites para a sua falta de traquejo. O filme se pretende como uma espécie de
fusão entre aventura existencialista e ação desenfreada e na realidade não se
mostra satisfatório em nenhuma dessas direções, quanto mais na intenção de que
elas se misturem. No final das contas, parece uma colcha de retalhos de idéias e
referências que são muito mal-costuradas, colocadas na trama mais intenção de
soar “contemporâneo” do que por inspiração. Por vezes, Snyder procura emular
aquele tom metafísico e difuso de Terrence Malick, principalmente na abertura
que parece copiar o estilo de “A árvore da vida” (2011), mas está muito longe
de ter a classe estilística de Malick e beira o patético na sua pretensão de
soar “artístico”. Toda aquela seqüência que se desenvolve em Kripton dá a
impressão de um refugo da franquia “Guerra nas estrelas”. E o cerne da questão
dos excessos de violência e destruição nas partes de ação de “O homem de aço” não
está no lado moral, mas sim na forma burocrática e sem criatividade que Snyder
conduz tais cenas. Tais opções do cineasta configuram a grande contradição do
filme (a mesma que já havia marcado o irregular “Batman – O cavaleiro das
trevas ressurge”): para uma obra que se pretende tão séria e sombria, o
resultado final acaba soando alienado e infantil (nesse último caso, no pior
sentido do termo).
quinta-feira, agosto 01, 2013
O que traz boas novas, de Phillipe Fardeau ***1/2
O fascinante em uma produção como “O que traz boas novas”
(2011) é a sua abordagem humanista e universal – a partir de um melodrama de
contornos que beiram o intimista, a obra avança sobre questões de um espectro
social muito maior. A trama se foca basicamente em dois tópicos chaves: as conseqüências
do suicídio de uma professora em pleno ambiente escolar e o processo de adaptação
do educador substituto, um imigrante argelino, no colégio. A partir disso, o
roteiro traz à tona uma série de conflitos e dilemas emblemáticos dos tempos
contemporâneos, tanto no que se refere à relação entre alunos e professores
como entre “nativos” e imigrantes. Ainda que o filme trafegue por uma estrutura
narrativa típica de melodrama convencional, o diretor Phillipe Fardeau propõe
um tratamento temático bastante contundente, não se furtando em alguns momentos
de construir uma atmosfera um tanto sufocante, sem que se perca, entretanto, a
sutileza necessária para se explorar as complexas nuances de algumas das relações
humanas que se estabelecem ao longo do filme. A elegância da direção de Fardeau
faz com que “O que traz boas novas” tenha uma condução dramática sóbria e
coerente, conciliando de forma admirável um certo cerebralismo ao radiografar
as distorções do sistema educacional no mundo contemporâneo e um toque
sentimental fundamental na criação de empatia com os personagens. A emocionante
cena de conclusão sintetiza com perfeição as intenções de Fardeau e seu filme.
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