terça-feira, outubro 29, 2013

A família, de Luc Besson ***


Num primeiro momento, tanto lendo a sinopse quanto assistindo às suas primeiras cenas, pode-se pensar que “A família” (2013) seria uma espécie de paródia/homenagem a alguns clássicos filmes sobre a Máfia. O fato de ter Robert De Niro como protagonista além de uma seqüência envolvendo um debate num cineclube sobre a obra-prima “Os bons companheiros” (1990), reforça também essa impressão. Um olhar mais atento, entretanto, revela que essa produção dirigida pelo francês Luc Besson tem um alcance maior na sua proposta. Mais do que um mero pastiche, a obra sugere uma visão do que compõe o nosso imaginário em relação a filmes sobre gângsteres. Assim, a trama revela um alto grau de exagero na caracterização de situações e personagens, pendendo mais para o caricatural e grotesco do que para alguma profundidade psicológica. Ocorre que tal abordagem distorcida acaba gerando um filme de momentos efetivamente divertidos, repletas de perverso humor negro e violência que beira o cartunesco. Nas boas seqüências de ação e brutalidade, Besson mostra que ainda tem boa mão estética, fazendo lembrar por vezes até o seu grande magnum opus, “O profissional” (1994).

segunda-feira, outubro 28, 2013

Elysium, de Neill Blomkamp **1/2

Uma das coisas que mais me agradava em “Distrito 9” (2009), o ótimo filme que projetou mundialmente o diretor sul-africano Neill Blomkamp, era o visual sujo e a atmosfera sórdida que permeava sua narrativa. No meio de uma trama de ficção cientifica de ritmo alucinante, o cineasta também conseguia traçar uma contundente metáfora para a questão do racismo no mundo. Em “Elysium” (2013), sua estreia nas produções norte-americanas, pode-se perceber que o gume do seu cinema perdeu parte considerável do seu corte, ainda que possa se perceber eventualmente algum traço da sua marca autoral. Num primeiro momento, fica evidente que Blomkamp cria uma concepção visual na construção visual de um futuro distópico que procura fugir da assepsia imagética que predomina nas recentes produções norte-americanas do gênero. Colabora também para isso que a violência de algumas cenas seja explícita e brutal, dando para o filme um certo ar de produção B. O grande problema da obra, contudo, está na falta de uma genuína tensão na narrativa, de um roteiro mais elaborado e menos esquemático, de um elenco que fuja do padrão piloto automático (com exceção de Wagner Moura, que por mais over que esteja em alguns momentos, pelo menos oferece uma atuação mais viva). Do jeito que ficou, a impressão que se tem é que Blomkamp sucumbiu a pressões parar formatar o seu cinema de acordo com padrões mais palatáveis.

sexta-feira, outubro 25, 2013

Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz ****


Os limites entre a literatura e o cinema são muito tênues em “Mistérios de Lisboa” (2010). Não dá para dizer que a primeira é simplesmente adaptada a uma linguagem cinematográfica, pois em vários momentos do filme sentimos que a própria sonoridade dos diálogos e as narrações possui um texto carregado típico de um romance. Na verdade, é como se o diretor Raúl Ruiz fizesse questão de não submeter o texto original a uma adaptação rígida. Isso explica a longa duração do filme (mais de quatro horas). Mas é aí que reside uma das forças criativas do filme: a sua narrativa tem um estranho encanto hipnótico, em que mesmo os exageros românticos do roteiro parecem fazer sentido de forma incrivelmente coerente. Ruiz estabelece um universo próprio em que os detalhes da trama até têm lógica realista, mas a encenação obedece a uma coreografia de falas e ações que pertencem a uma outra esfera de plano narrativo. Diante dessa abordagem artística, o cineasta encontra o pretexto ideal para que enverede em um barroquismo estético estonteante, repleto de nuances que exigem forte atenção do espectador, indo de truques e efeitos visuais de contundente caráter simbólico até uma direção de fotografia de enquadramentos de grande beleza pictórica. E por mais que as ousadias formais de Ruiz estejam impressas em várias passagens de “Mistérios de Lisboa”, a obra está longe de se enquadrar em mero experimento – a dinâmica da sua edição cria uma tensão impactante, fazendo com que a longa metragem do filme dê a impressão de até passar sem que se perceba isso.

quinta-feira, outubro 24, 2013

Las acacias, de Pablo Giorgelli **1/2


Em termos gerais, a trama de “Las acacias” (2011), que se desenvolve em uma narrativa realista e linear, pode ser resumida da seguinte forma: caminhoneiro solitário e de poucas palavras dá uma carona para uma desconhecida com seu bebê em longa viagem do Paraguai para a Argentina, a convivência entre eles acaba humanizando o motorista e faz com que ele se abra expondo seus desejos e mágoas; e por fim ambos se descobrem apaixonados. Parece meio previsível, não é? E é mesmo. O diretor Pablo Giorgelli dá um acabamento mais “artístico”, abusando de uma abordagem pretensamente mais sutil, valorizando silêncios, tomadas de plano fixo de caráter reflexivo e as interpretações naturalistas do elenco. O formalismo da produção é correto e competente, mas a verdade é que se trata de uma obra que está longe de empolgar ou arrebatar – não há uma seqüência sequer que efetivamente seja capaz de se grudar no imaginário. Se um norte-americano dirigisse de forma menos cerebral passaria até por uma dessas comédias românticas que tem as pencas por aí. No final das contas, funciona como uma curiosidade cinematográfica, mas de caráter descartável.

quarta-feira, outubro 23, 2013

A coleção invisível, de Bernard Attal **1/2


A maior virtude de “A coleção invisível” (2012) é a sobriedade da sua concepção e realização. Lidando com temas espinhosos como a morte e a velhice, o filme do diretor Bernard Attal evita exageros sentimentais. Há uma certa elegância na sua encenação e a fotografia e a edição são competentes. De se destacar ainda as boas atuações do elenco, com destaque para a surpreendente interpretação de Vladimir Britcha como protagonista. Apesar de tais virtudes, a produção é frustrante pela frouxidão de sua narrativa. A coerência formal e temática da obra acaba sendo uma camisa de força criativa – por vezes, tudo soa muito artificial e esquemático demais, como se pudéssemos enxergar todos os mecanismos estéticos do filme. Mesmo a sua linguagem de simbologias que configura “A coleção invisível” como se fosse uma fábula moral parece funcionar de forma acadêmica em demasia. Faltou maior contundência e ousadia na abordagem de Attal, o que torna a produção um melancólico canto do cisne para Walmor Chagas.

terça-feira, outubro 22, 2013

Rush - No limite da emoção, de Ron Howard ***1/2


O diretor norte-americano Ron Howard nunca se notabilizou por ser especialmente ousado em termos estéticos, assim como sua carreira se pautou por uma incômoda irregularidade – afinal o mesmo cara que dirigiu o antológico “O tiro que não saiu pela culatra” (1989) concebeu o horroroso “Anjos e demônios” (2009). Diante desse contexto, é o típico nome que não desperta grandes expectativas. “Rush – No limite da emoção” (2013) é uma obra que volta a dar crédito para Howard. Mesmo com as simplificações do roteiro e alguns excessos de convencionalismo formal, é um filme que fascina na sua recriação da mitologia da Fórmula 1 nos anos 70. A atmosfera elaborada pelo cineasta evoca algo entre o sonhador e o hedonista, acentuando a nostalgia e uma certa ingenuidade num período menos politicamente correto e também quando o esporte em questão não estava tão dominado pelos interesses corporativos. Além disso, Howard revela boa mão para a ação cinematográfica: as sequências de corrida são alucinantes e brutais no registro detalhista de curvas, ultrapassagens e violentos acidentes. Mesmo o fato da trama ser um tanto superficial na caracterização psicológica das situações e seus personagens não se torna um grande empecilho, pois o foco de Howard passa por um viés mitológico, icônico. Assim, talvez “Rush” não seja o tratado cinematográfico definitivo sobre a Fórmula 1, mas mesmo assim acaba se tornando uma produção memorável pela carga visceral inesperada da encenação de Howard.

segunda-feira, outubro 21, 2013

Lovelace, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman **


É impossível não pensar na obra-prima “Boogie Nights” (1997), uma espécie de cinebiografia disfarçada do astro pornô John Holmes, quando se vê “Lovelace” (2013), outra cinebiografia, só que autorizada, da vida de Linda Lovelace, a estrela do clássico “Garganta profunda” (1972). Mas se o filme de Paul Thomas Anderson era um épico sórdido sob o submundo da indústria pornográfica setentista, tomado por uma atmosfera hedonista e formalismo virtuoso, esse trabalho dos diretores Rob Epstein e Jeffrey Friedman assume um direcionamento bem frustrante. Por vezes, até se evoca algo da estética exagerada e cafona dos anos 70, mas nos geral “Lovelace” mais parece um telefilme mofado e bem-comportado. De certa forma, dá para dizer pelo menos que tal abordagem se revela em sintonia com o roteiro da produção, moralista até a medula.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Dose dupla, de Baltasar Kormákur ***


A origem de “Dose dupla” (2013) é comum a várias produções recentes vindas de Hollywood – é baseada em uma história em quadrinhos (curiosamente, desenhada por um gaúcho, Matheus Santolouco). E isso fica evidente no filme: é uma história policial bastante movimentada, com idas e vindas no tempo, com cenas de ação violentas tendendo para o cartunesco, além de um roteiro repleto de exageros que descambam para inverossimilhança. Isso não quer dizer, entretanto, que o diretor Baltasar Kormákur apele para uma edição videoclipeira ou mesmo de câmera tremida. O seu senso de encenação e montagem se vincula ao tradicionalismo, mas essa preferência pelo convencional é benéfica para a produção – há uma clareza narrativa notável nas coreografias de lutas, tiroteios, perseguições e explosões. É claro que não se trata de nenhuma obra-prima da violência cinematográfica na linha Sam Peckimpah. Ainda sim, perto do que faz no gênero ação ultimamente, acaba se sobressaindo. E como bônus, vale mencionar as atuações bastante carismáticas de Denzel Washington e Mark Wahlberg.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Invocação do mal, de James Wan **1/2


A maioria das críticas e comentários que se faz em relação à “Invocação do mal” (2013) defende que essa produção dirigida por James Wan representaria um oásis no atual panorama do gênero de horror. Isso porque o filme não se vale da estética da câmara subjetiva e também por não enveredar pelos caminhos do horror explícito. Nessa ótica, a obra em questão representaria uma espécie de volta à essência do terror, enfocando muito mais a tensão e aquilo que não é visto. Na minha visão isso tudo é um grande exagero, além de descambar para o reducionismo. O fato de um filme adotar uma determinada abordagem não quer dizer que necessariamente ele será bom ou não. Assim como no estilo de câmera subjetiva apareceram algumas produções relevantes e criativas (“Rec”, “O último exorcismo”) e naquela linha de tripas e sadismos por vezes surgiram obras de qualidade artística considerável (“Alta tensão”, “Viagem maldita”, “O albergue”), também ocorreu de que abordagens mais clássicas trouxessem resultados frustrantes. E nesse último caso, daria para enquadrar “Invocação do mal”. Dá para dizer que na sua primeira metade o filme até surpreende, principalmente por um certo virtuosismo de Wan – há planos-sequência realizados de forma convincente, a edição e fotografia trazem elegância formal. Na metade final, entretanto, tudo parece se converter num pastiche insosso de “O exorcista” (1973) e seus derivados. Toda aquele pretensão de sutileza e tensão se esvai em nome de barulhentos e inócuos sustos, lutas e possessões. Falta a “Invocação do mal” uma efetiva atmosfera de sordidez e de mistério. Do jeito que ficou, está mais para as dúzias de produções de horror assépticas que vêm de Hollywood todos os anos.

quarta-feira, outubro 16, 2013

Beijos de emergência, de Philippe Garrel ****


O intimismo do cinema de Philippe Garrel ganha uma conotação ainda mais inesperada em “Beijos de emergência” (1989). Ao focar a história de um cineasta (interpretado pelo próprio Garrel) que se vê num dilema conjugal ao resolver filmar um roteiro de forte conotação autobiográfica, o diretor propõe uma narrativa que se pauta por um naturalismo poético. Impressiona muito a fluência que beira o despudorado com que Garrel estabelece a sua encenação. Não é à toa que os intérpretes da esposa, do pai e do filho do protagonista sejam justamente aqueles que desempenham tais papéis na vida real do diretor. Nesse sentido, é como se o filme sugerisse que as fronteiras entre a arte e a vida fossem muito tênues para Garrel. Diante dessa lógica, não é uma obra que se desenvolva através de grandes reviravoltas – dilemas e conflitos se firmam com a fluência típica da vida, os personagens têm comportamentos que variam entre o impulsivo e o resignado. O estilo de filmar de Garrel é aquele característico de boa parte do melhor de sua filmografia – as elipses que reduzem a narrativa ao essencial, o formalismo de teor contemplativo, a trama que se configura como um pedaço inconclusivo da vida de suas criaturas. Garrel não oferece ao espectador soluções fáceis para aquilo que questiona ao longo da produção. E é justamente esse não compromisso em amarrar todas as pontas que torna “Beijos de emergência” uma obra tão inquietante e de encanto perene.

terça-feira, outubro 15, 2013

Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão ***1/2


O diretor pernambucano Daniel Aragão demonstra em seu longa de estréia “Boa sorte, meu amor” (2012) ter uma espécie de sintonia existencial e artística com seus colegas conterrâneos Cláudio Assis e Kleber Mendonça Filho. Afinal, seu filme traz uma notável combinação de visão crítica da sociedade ocidental contemporânea com uma estética que se desenvolve a partir de uma abordagem em que predomina o sensorial. Nesse sentido, Aragão valoriza, às vezes de forma precisa, outras vezes exagerada, aspectos diversos da linguagem cinematográfica – lentos e exasperantes planos-sequência, uso insólito do som, narrativa simbolista, atmosferas delirantes. Até a direção de elenco revela um caráter diferenciado, em que a beleza da protagonista Maria (Christiana Ubach) parece refletir uma inesperada inocência em meio a sordidez moral que a rodeia, enquanto a interpretação inexpressiva Vinicius Zinn na realidade cai como uma luva para o personagem Dirceu, um jovem pequeno-burguês bunda-mole (e por vezes prepotente) que acaba engolido por um destino que está muito além da sua confortável rotina de rapaz de bem. A ambição temática de Aragão também chama a atenção – sua saga que varia entre o intimista, o surreal e o político junta na mesma obra o urbano/moderno e o rural/arcaico, retratando uma sociedade que se pretende cosmopolita e avançada, mas que na realidade ainda é regida por velhos mecanismos excludentes. Se toda essa pretensão em alguns momentos esbarra em excessos formais e textuais incômodos, em outras passagens encanta pela sua contundência desconcertante.

segunda-feira, outubro 14, 2013

Já não ouço a guitarra, de Philippe Garrel ****


Muito se fala em cinema autoral e pessoal, mas poucos são aqueles cineastas que conseguem gerar uma obra de marca tão indelével e particular quanto o diretor Philippe Garrel logrou em “Já não ouço a guitarra” (1991). Trata-se de uma produção ficcional, mas o próprio Garrel revela que o roteiro é bastante inspirado em fatos de sua vida amorosa com a cantora e modelo alemã Nico, que além de uma expressiva discografia solo também teve participação antológica no fundamental primeiro disco do Velvet Underground. Nesse sentido, é fascinante como um aspecto intimista da vida de Garrel, e que ele aborda de forma bastante visceral, ganha uma dimensão universal no sentido que seu drama amoroso ganha ressonância no imaginário coletivo (afinal, Nico representa um capítulo relevante na história cultural dos últimos 50 anos). Nesse sentido, a habitual estética de Garrel, aqui num de seus momentos de apuro mais elevado, é o veículo mais que ideal para abarcar o seu relato emocional e amargo de um relacionamento que se desintegra. Como entre outras obras do cineasta, sua narrativa não é detalhista . A trama se divide em momentos cujo espaçamento de tempo é aleatório – tanto podem se passar algumas horas entre eles quanto semanas, meses, anos... Em cada um desses trechos, o enfoque é no estado anímico dos personagens e não no contexto histórico deles. Essa sensação de elipses temporais é desconcertante, mas também é muito verdadeiro em termos de construção das situações e personagens. Nessa formatação, não interessa se falar em final feliz ou não para os indivíduos. O que o espectador vê é apenas uma fração das suas vidas, sendo que a conclusão em aberto de “Já não ouça a guitarra” ganha uma conotação de brutal coerência formal e temática.

sexta-feira, outubro 11, 2013

O nascimento do amor, de Philippe Garrel ***1/2


As coisas no cinema de Philippe Garrel parecem seguir um ritmo próprio, como se fizessem parte de um universo particular do cineasta. “O nascimento do amor” (1993) é obra sintomática desse direcionamento artístico. A trama se desenvolve num tempo indefinido, sendo que a estética concebida por Garrel acentua ainda mais essa ideia de atemporalidade. Num primeiro momento, o formalismo da produção alude aos anos áureos da Nouvelle Vague – fotografia em preto e branco, além da edição e narrativa repletas de elipses. Na realidade, Garrel é contemporâneo de Godard e Truffaut, sendo que começou a dar seus primeiros passos no cinema justamente durante o célebre movimento cinematográfico francês. Até mesmo o roteiro traz em si a noção “fora do tempo e do espaço”; os protagonistas Paul (Lou Castel) e Marcus (Jean-Pierre Leaud, em personagem que se mostra em sintonia com o antológico Antoine Doinel) são homens maduros, mas apresentam comportamentos oscilantes e inconseqüentes. Garrel faz a crônica de uma eterna juventude, da imaturidade inconstante. Suas criaturas vagam pela vida num cruzamento entre o hedonismo e a melancolia. E no meio dessa abordagem nostálgica e amarga e das referências mencionadas, fica uma obra de encanto hipnótico e envolvente.

quinta-feira, outubro 10, 2013

O ataque, de Roland Emmerich **1/2


Numa dessas coincidências típicas de Hollywood, calhou que em 2013 aparecessem duas produções grandiosas a retratar a Casa Branca sendo atacada e parcialmente destruída. As próprias tramas, inclusive, são muito parecidas entre si: basicamente, o presidente dos Estados Unidos tem a sua guarda massacrada e sua única tábua de salvação é um agente desacreditado e sagaz. “Ataque à Casa Branca”, de Antoine Fuqua, já comentado neste blog, resgata a estética oitentista no gênero ação, caprichando na violência e na grafismo sanguinolento. Este “O ataque”, de Roland Emmerich, apesar de bastante barulhento e movimentado, é mais politicamente correto e asséptico na sua brutalidade, além de sua veia patriótica ser bem mais exacerbada. É quase como uma produção da franquia Rambo que pudesse ser visto por toda a família. Assim, no saldo final, Fuqua acabou se saindo bem melhor que o seu colega Emmerich: seu filme é bem mais casca grossa e sincero, além de melhor resolvido no seu formalismo.

quarta-feira, outubro 09, 2013

Se puder... dirija!, de Paulo Fontenelle ½ (meia estrela)


Para quem conhece e admira o ator Luis Fernando Guimarães pelo seu trabalho marcante em momentos chaves da comédia nacional como o irreverente grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone e o ácido programa televisivo oitentista TV Pirata, chega a ser constrangedor vê-lo participando de uma produção tão inócua, tosca e babaca como “Se puder... dirija!” (2012). Pense no programa cômico mais sem graça da atual programação da televisão brasileira e imagine isso formatado num filme de uma hora e meia (e que parece que tem o dobro do seu tempo), mas com a pretensão de trazer uma lição de moral edificante. E o pior é que nem dá para dizer que de tão ruim chega a ser engraçado. Não, pelo contrário: de tão mambembe, o filme é chato de uma forma excruciante. Basicamente, o filme aparente ser a reunião de sketches humorísticos reunidos num fio de história. Não há unidade na narrativa, a encenação é desajeitada e o elenco está no piloto automático (com o “bônus” de contar com a pior interpretação infantil dos últimos anos). Ah, talvez essa ostensiva falta de inspiração e competência podia ser apenas pressuposto para o uso da tecnologia 3D, mas a trucagem passa praticamente desapercebida. Ou seja, “Se puder... dirija!” é candidato a maior embuste do ano nos cinemas.

terça-feira, outubro 08, 2013

A filha do meu melhor amigo, de Julian Farino **


Há em “A filha do meu melhor amigo” (2012) uma pretensão de ser “alternativo”. Tem aquele jeitão “indie”, roteiro que se pretende questionador do comportamento da típica família pequeno-burguesa norte americana, evoca algo daquelas comédias acre-doce dos anos 70. Não se engane. No final das contas, o filme é apenas “mais do mesmo”, sendo tão (ou mais) superficial que a média das produções escapistas e comerciais que provém de Hollywood. Está muito mais para uma morna produção oriunda da televisão – não há a mínima ousadia formal na obra em questão, sendo que mesmo a trama que ostenta uma aura contestadora envereda por um conservadorismo incômodo na sua resolução. É um passatempo agradável por vezes, com um elenco até carismático (ainda que caricatural em sequências importantes). Nada, entretanto, que seja especialmente memorável. Aqueles que desejam ver algo mais contundente em termos de ironia às mazelas da família moderna podem ler ou assistir a alguma peça de Nelson Rodrigues – seria uma experiência bem mais substanciosa e impactante do que esse mediano “A filha do meu melhor amigo”.

segunda-feira, outubro 07, 2013

A espuma dos dias, de Michel Gondry ***


“Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), a grande obra-prima do diretor francês Michel Gondry, marcava uma união que se mostrava em sintonia brilhante: o roteiro surreal e muito bem amarrado de Charlie Kaufman (talvez o melhor roteirista norte-americano surgido nos últimos 20 anos) e as criativas concepções visuais de Gondry. Em “A espuma dos dias” (2013), obra mais recente de Gondry, a falta de um roteiro mais focado parece ser o fator preponderante para que o filme em questão se mostre como uma narrativa tão irregular. O diretor ainda se mostra afiado em criar cenas de uma atmosfera imagética delirante – a Paris de Gondry parece pertencer a uma dimensão paralela, em que o retrô, o futurista e o onírico se colidem de forma constante. Dá para dizer que a primeira metade da produção se desenrola como um sonho desajeitado e simpático, com efeitos especiais e detalhes temáticos que lembram alguns trabalhos de Jean-Pierre Jeunet (impressão reforçada também pela presença no elenco de Audrey Tautou, musa de Jeunet). Já a segunda parte do filme envereda por uma atmosfera sufocante de pesadelo – nesse sentido, a sensação de bad trip se estabelece justamente quando o filme busca o seu vínculo maior com a realidade. O problema de “A espuma dos dias” é que essa multiplicidade sensorial é obrigada a se formatar numa trama de matiz convencional. O roteiro por vezes se contenta com um certo banalismo, deixando de explorar vários pontos interessantes que a sua temática tangencia (totalitarismo, convenções sociais distorcidas). As limitações de uma “love story” levam Gondry a excessos estéticos que acabam tirando muito do impacto do filme. Mesmo assim, é uma obra instigante no seu barroquismo exacerbado, mostrando que Gondry ainda é um nome a se prestar atenção.

sexta-feira, outubro 04, 2013

Casa da mãe Joana 2, de Hugo Carvana *1/2


Não tem como escapar do típico clichê da crítica cinematográfica: de tão capenga, “Casa da mãe Joana 2” (2013) até consegue ser engraçado. O diretor Hugo Carvana já é veterano no cinema brasileiro, então não dá para dizer que desaprendeu a fazer filmes. O que acontece que é o seu estilo soa datado e pouco fluente, fazendo com que a produção tenha a aparência de algum sketch do “Zorra total” alongado, ainda que filtrado por um nostálgico bom humor carioca. É provável que Carvana e equipe tenham se divertindo na realização, pois a impressão é que não há rigor na direção. Tudo é muito solto, como um trem desgovernado, dependendo muito mais de alguma boa intervenção dos atores. O trio de protagonistas composto por José Wilker, Paulo Betti e Antônio Pedro está longe de ser inexpressivo, mas a ausência de um direcionamento mais específico resulta em atuações caricaturais em excesso. No final das contas, a narrativa frouxa e desajeitada dá um aspecto mambembe para tudo, o que não deixa de angariar alguma simpatia para o espectador no meio de todas essas comédias assépticas globais que grassam nos nossos cinemas. Impede, porém, de que “Casa da mãe Joana 2” seja uma obra memorável.

quinta-feira, outubro 03, 2013

Jobs, de Joshua Michael Stern *


Sem querer forçar a barra, mas dá para dizer que os nerds mais sem critérios têm mais uma trilogia a acrescentar entre os seus objetos de culto: a de filmes inspirados em grandes marcas da Internet. “A rede social” (2010) mostrou os bastidores das origens e ascensão do Facebook, enquanto “Os estagiários” (2013) tem uma trama fictícia cujo pano de fundo é uma espécie de propaganda dos ideais do Google. Já esse “Jobs” (2013) pelo título já é auto-explicativo: trata-se de uma cinebiografia do criador da Apple, Steve Jobs. É interessante observar que cada uma de tais produções possui uma abordagem diferente. “A rede social” se formata como uma ácida e brilhante crônica de costumes da sociedade ocidental desse século. Já “Os estagiários”, apesar do seu caráter marqueteiro, é uma competente e previsível “comédia universitária”. “Jobs” envereda no gênero da cinebiografia clássica. Seus equívocos, entretanto, não têm necessariamente relação com o seu convencionalismo. O que irrita no filme é um tenebroso descompasso entre o que o roteiro se propõe (uma análise crítica sobre a trajetória profissional de seu protagonista) e a estrutura narrativa proposta pelo diretor Joshua Michael Stern, que parece escolher um tom entre o laudatório e o edificante. Assim, prevalece uma inconveniente e constante trilha sonora melosa (temos a permanente sensação de se estar assistindo a uma grandiosa obra de caráter cívico), roteiro esquemático e previsível, fotografia e edição sem a mínima criatividade, interpretações que oscilam entre o medíocre e o constrangedor (francamente, semelhança física com pessoais reais não deveria ser a condição principal na escolha do elenco). Todos essas questionáveis escolhas artísticas levam a uma obra de sentido mais que confuso – seria algo como “olha, o Jobs era um sociopata, mas no fundo era um cara legal, afinal ganhou tanta grana....”.

quarta-feira, outubro 02, 2013

O casamento do ano, de Justin Zackham *1/2


Por mais que o diretor Justin Zackham diga ter usado no roteiro memórias pessoais e tenha um pretenso verniz de ousadia temática (afinal se fala em adultério, homossexualismo, hipocrisia religiosa), a verdade é que “O casamento do ano” (2013) é uma obra destituída de ousadia e personalidade. Tudo no filme cheira a naftalina – da trama superficial de teor edificante à abordagem formal de Zackham, que abusa de uma estética cartão-postal. Com alguma boa vontade, dá para salvar as atuações carismáticas de Robert De Niro, Diane Keaton e Susan Sarandon, ainda que em relação a isso se tenha uma certa sensação de melancolia em pensar que eles já participaram de produções mais criativas e contundentes.

terça-feira, outubro 01, 2013

Os estagiários, de Shawn Levy **1/2


Na formatação da sua narrativa, dá para dizer que “Os estagiários” (2013) se enquadra naquele gênero de “comédias universitárias”: os principais personagens devem se superar para atingir seus objetivos, em algumas passagens sofrerão bullying, em outras darão umas paqueradas e farão umas festas, até chegar a um clímax em que seus talentos serão reconhecidos e eles ganharão os respeitos de seus colegas e a admiração definitiva de seus respectivos interesses amorosos. O que tem de diferente no filme em questão é que a trama se passa no ambiente de trabalho da Google, com os protagonistas Billy (Vince Vaughan) e Nick (Owen Wilson) tendo por metas se tornarem empregados fixos da empresa em questão. Assim, o filme é até razoavelmente competente dentro de tal gênero – é efetivamente engraçado em algumas cenas, Vaughan e Wilson têm interpretações carismáticas e a narrativa é agradável. Mas nada muito além disso: por mais que o roteiro louve a capacidade criadora de quem trabalha na Google, tudo na produção é rigorosamente previsível. Mas o que mais incomoda em “Os estagiários” é que no final das contas o filme soa quase como uma espécie de peça publicitária a exaltar o Google, distante, assim, por exemplo, da visão lúcida e crítica que o brilhante “A rede social” (2010) expressou ao radiografar a ascensão do Facebook.

segunda-feira, setembro 30, 2013

Flores raras, de Bruno Barreto ***


Os primeiros 10 minutos de “Flores raras” (2013) são claudicantes: a encenação parece um tanto forçada, como se o diretor Bruno Barreto não se sentisse à vontade para filmar nos Estados Unidos. Quando a trama passa a se desenvolver no Brasil, entretanto, o filme adquire força e desenvoltura surpreendentes. Mesmo com uma narrativa convencional, o filme cativa pela maturidade na forma com que o roteiro enfoca as relações humanas, contando ainda com uma visão política e histórica que foge das obviedades e dos reducionismos simplistas. O estilo de filmar de Barreto é simples e elegante, captando sutis nuances na dinâmica entre os personagens. Lota (Glória Pires), por exemplo, tem uma noção bastante liberal sobre as cirandas amorosas em que se envolve, mas ao mesmo tempo é fortemente reacionária e oportunista em suas opiniões e escolhas políticas. Já sua amante, a poeta Elisabeth Bishop (Miranda Otto), mostra uma sensibilidade à flor da pele na sua arte enquanto age de forma seca em relação às pessoas que a cercam. Assim, por mais que a história tenha os seus momentos de romantismo, o que prevalece é um tom melancólico e pouco idealizado do amor romântico, o que dá uma dimensão humana bastante contundente para “Flores raras”. Colaboram também para o impacto considerável do filme as atuações da dupla de protagonista: enquanto Glória Pires privilegia um registro visceral, Miranda Otto adota uma contenção dramática admirável – as diferenças nas interpretações garantem a tensão necessária de forma mais que convincente.

sexta-feira, setembro 27, 2013

Wrong, de Quentin Dupieux *1/2


A influência principal do diretor francês Quentin Dupieux em “Wrong” (2012) é evidente em cada fotograma: o cara queria ser David Lynch. Mas apenas emular um estilo não quer dizer necessariamente que se vá reproduzir a mesma genialidade. E Dupieux acha que a estética lyncheana se resume a bizarrices engraçadinhas. Não há aquela combinação marcante e de alto impacto sensorial entre surrealismo e virtuosismo cinematográfico típica das melhores produções de Lynch. O filme se limita a uma trama absurda e rasa formatada em cenas esquisitas que estão muito mais para o besteirol de algumas comédias clássicas dos irmãos Zucker (só que sem a mesma inspiração).

quinta-feira, setembro 26, 2013

Quarto 237, de Rodney Ascher ****


É difícil dizer exatamente sobre o que se trata o documentário “Quarto 237” (2012). Pode-se considerar que o diretor Rodney Ascher quis abarcar uma série de obsessões temáticas e estéticas – a capacidade do filme “O iluminado” (1980) despertar as mais esquisitas e absurdas teorias, a genialidade de Stanley Kubrick, a cinefilia, o poder da edição cinematográfica. O impressionante é que Ascher juntou tudo isso com coerência formal impressionante, tendo por resultado final uma obra que traz uma lógica singular. O documentarista não tem a pretensão de fazer com que o espectador acredite nas teorias meio amalucadas dos fãs do horror de Kubrick (no mais das vezes, tratam-se de algumas explicações estapafúrdias para alguns erros de continuidade ou mesmo de verossimilhança da produção em questão). Para Ascher, parece mais divertido visualizar as ideias expostas pelos entrevistados. E é nesse ponto que vem um dos aspectos mais fascinantes de “Quarto 237”: a brilhante e minuciosa montagem que recorta com precisão cenas de “O iluminado”, outras películas de Kubrick, imagens de arquivo em geral, alguns gráficos digitais. Ascher não mostra sequer uma cena filmada por ele. Seu filme é um produto exclusivo da sua imaginação e da sala de montagem. Talvez seja uma das manifestações fílmicas mais contundentes sobre a importância primordial da edição numa obra cinematográfica. Tal concepção pode ser discutível para alguns, mas é inegável a sedução sensorial que a narrativa elaborada por Ascher proporciona.

quarta-feira, setembro 25, 2013

Nocturna, de Adrià Garcia e Victor Maldonado **1/2


A animação espanhola “Nocturna” (2007) apresenta uma série de elementos que a diferencia das produções norte-americanas no gênero, mostrando mais até uma sintonia com a filmografia de mestre japonês Hayao Miyazaki. Há uma atmosfera entre o onírico e o conto de fada sombrio, prevalecendo um traço menos rebuscado e mais estilizado, em detrimento do grafismo realista. O roteiro explora uma mitologia atraente para o imaginário infantil – a de como funciona o mundo quando estamos dormindo. Assim, há uma variedade de tipos estranhos e por vezes encantadores. O que impede “Nocturna” de ser uma experiência efetivamente memorável é sua narrativa um tanto truncada, que não tem a mesma leveza e agilidade das obras Miyazaki. Mesmo assim, não deixa de ser uma curiosidade a ser conferida pelos apreciadores de animações.

terça-feira, setembro 24, 2013

Confissões de um jovem apaixonado, de Sylvie Verheyde **1/2


Peter Doherty, vocalista e guitarrista da extinta banda Libertines, sempre encarnou uma espécie de atualização para o nosso presente dos jovens poetas ultra-românticos do século XIX: de feições entre o inocente e o blasé, comportamento polêmico e autodestrutivo e arte intensa à flor da pele. Dessa forma, foi uma bela sacada da diretora Sylvie Verheyde colocá-lo como protagonista em “Confissões de um jovem apaixonado” (2012), versão cinematográfica para um romance situado em 1830, cuja trama traz Octave (Doherty), rapaz que após uma desilusão amorosa entra num vórtice de autopiedade, hedonismo e culpa. Verheyde revela alguma sensibilidade plástica ao construir cenas impregnadas de fotografia esmaecida e etérea, o que acaba rendendo uma atmosfera estranha que varia entre o ascético e o sensual. O problema da produção é que a equação entre cinema e literatura não consegue atingir uma melhor desenvoltura – a abordagem formal da cineasta é naturalista, mas narração e diálogos trazem uma literalidade e solenidade que tornam a fluência da narrativa bastante truncada, induzindo por vezes à monotonia.

segunda-feira, setembro 23, 2013

A sorte em suas mãos, de Daniel Burman **


A presença do cantor Jorge Drexler no papel de protagonista em “A sorte em suas mãos” (2012) não é gratuita. Sua atuação entre o aéreo e o inexpressivo encaixa bem com o personagem Uriel, um contumaz jogador de pôquer que estende o blefe e a mentira, artifícios naturais do jogo, para a sua vida e acaba tendo por isso dificuldades em seus relacionamentos pessoais. Tal premissa é bastante interessante, no sentido da possibilidade de manter uma constante atmosfera de ambigüidade. Ocorre que o problema do filme é que o diretor Daniel Burman se envereda por caminhos mais comportados. O tratamento que dá para a narrativa é a de uma típica comédia romântica, o que tira muito do inicial gume cortante da trama. Assim, a produção é até agradável por alguns momentos engraçados, mas no geral prevalece uma insipidez criativa, daquelas que tornam o filme fácil de ver e ainda mais fácil de esquecer.

sexta-feira, setembro 20, 2013

Repare bem, de Maria de Medeiros ***

É claro que se pode dizer que “Repare bem” (2013) não traz maiores novidades para o gênero “documentário sobre a ditadura militar no Brasil”. Mas é provável que isso nem fosse a intenção da diretora portuguesa Maria de Medeiros ao realizar esse filme. Afinal, ela foi convidada a dirigir tal obra por uma instituição ligada a pesquisa e investigação sobre o período histórico em questão. O resultado final, entretanto, está muito longe de ser um mero trabalho institucional. A cineasta soube aproveitar bem a contundente matéria prima que tinha em mãos e concebeu um filme vigoroso e de forte teor emocional. Medeiros concentrou sua narrativa nos depoimentos da protagonista Denise Crispim, que viveu na clandestinidade nos tempos de chumbo e teve o marido Eduardo “Bacuri”, também guerrilheiro, preso, torturado e morto. Seus relatos são detalhados e vívidos, compondo um amplo panorama que mistura sem cerimônia o intimismo de seu drama pessoal com um retrato brutal do cenário político e social do Brasil dos anos 60 e 70, além de evidenciar que as sequelas e traumas daquele período atribulado ainda são feridas abertas no imaginário daqueles que vivenciaram na carne as agruras da repressão.

quinta-feira, setembro 19, 2013

Gente grande 2, de Dennis Dugan *


O primeiro “Gente grande” (2010) era um filme interessante. Conseguia um equilíbrio razoável entre a comédia física ostensiva e um certo tom de crônica nostálgica. Essa continuação, de 2013, tem uma abordagem muito diferente da obra que a precedeu. É puro humor grotesco e escatológico. A impressão é que o roteirista se preocupou apenas em criar um fio de história para servir de mero pretexto para uma sucessão de cenas grosseiras, com o diretor Dennis Dugan formatando tudo como se fosse um longo episódio do Zorra Total. O resultado final é muito ruim, mas o negócio é tão tosco e forçado que a produção acaba até ganhando uma aura de curiosidade tamanho o exagero e cara de pau de suas ideias e concepções.

quarta-feira, setembro 18, 2013

Frances Ha, de Noah Baumbach ***


Nos seus filmes anteriores, principalmente naquele que é considerado o seu melhor trabalho, “A lula e a baleia” (2005), o estilo do diretor Noah Baumbach era marcado por um naturalismo objetivo. Em sua obra mais recente, “Frances Ha” (2012), entretanto, o cineasta resolveu dar uma variada. Por mais que a temática de tal produção seja contemporânea, há uma atmosfera no filme fortemente retrô. A estética elaborada por Baumbach remete aos primeiros filmes da Nouvelle Vague: tudo parece mais livre, solto, quase como se o roteiro estivesse sendo escrito de acordo com a evolução da trama, a partir de lembranças, citações, referências. A trilha sonora acentua o tom de farsa – a trajetória da personagem-título é marcada por momentos dramáticos, até mesmo depressivos, mas o tratamento oferecido por Baumbach faz tudo parece uma comédia meio amalucada (ainda que por vezes amarga). É claro que a influência francófila pode dar uma impressão de deja vu, mas a estrutura narrativa menos rígida dá um certo frescor à obra, ainda mais se comparada com a anemia criativa da maioria do que se faz no gênero atualmente no cinema norte-americano.

terça-feira, setembro 17, 2013

Rugas, de Ignacio Ferreras ***


O traço simples e a narrativa tradicional representam uma superfície que esconde com sutileza os grandes méritos inquietantes da animação espanhola “Rugas” (2011). A trama é centrada num asilo, tendo como protagonistas dois idosos que encaram de forma nada idealizada as agruras da velhice (abandono, doenças, decadência física). A abordagem do diretor Ignacio Ferreras por vezes se permite uma razoável dose de bom humor e ironia, mas o que prevalece é um certo tom amargo nessa crônica crepuscular. O fato do cineasta ter preferido enveredar pelo desenho animado para contar a história ampliou as possibilidades criativas do filme, pois possibilitou convincentes e belas cenas envolvendo sonhos, delírios e recordações, todas situações que são inerentes à condição dos personagens. E nesse sentido, “Rugas” acaba sendo fortemente humano e contundente na forma com que retrata o desenvolvimento do Mal de Alzheimer em um dos personagens. Entretanto, apesar de toda essa melancolia, o filme se permite a um final de caráter discretamente redentor e que revela uma serena coerência com a abordagem temática da obra.

segunda-feira, setembro 16, 2013

Bling Ring: A gangue de Hollywood, de Sofia Coppola ***


Assim como se fazia supor em “Um lugar qualquer” (2010), o estilo de Sofia Coppola parece estar mais descarnado em “Bling Ring: A gangue de Hollywood” (2013). É como se a diretora quisesse lapidar a sua estética de excessos, preferindo reduzir seu cinema a um essencial básico. Isso é até curioso, no sentido de que seu pai, Francis Ford Coppola, é um autor marcado por um virtuosismo que por vezes até envereda pelo operístico. Essa abordagem da cineasta encontra um material temático com o qual estabelece uma sintonia bastante coerente. Afinal, a história que conta as aventuras contraventoras de um bando de jovens de classe média alta que se divertem furtando casas de ricos e famosos em Hollywood recebe um tratamento de distanciamento emocional e sem glamourizações. O registro de Sofia é marcado pela frieza e objetividade, mesmo quando ela obtém cenas memoráveis ao conceber uma atraente atmosfera de hedonismo. E é de se ressaltar ainda a ótima mão dela na direção de atores – o trio protagonista (Emma Watson, Katie Chang e Israel Broussard) tem desempenhos antológicos. No geral, as escolhas artísticas de Sofia podem frustrar aqueles que esperam maiores arrebatamentos sensoriais, mas é inegável que dão à “Bling Ring” um forte conteúdo emblemático de sua época.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Red 2 - Aposentados e ainda mais perigosos, de Dean Parisot **


Pelo menos um mérito dá para creditar para “Red 2 – Aposentados e ainda mais perigosos” (2013): é bem melhor que a primeira parte. É verdade, também, que para isso não precisava muito esforço, pois aquela produção de 2010 era uma das piores coisas disparadas lançadas naquele ano (e ainda tinha o inquestionável demérito de ser infinitamente inferior à HQ original escrita por Warren Ellis na qual se baseou). Talvez por não ter esse peso da comparação com a HQ, afinal se trata de roteiro original, essa continuação pareça mais palatável. Mesmo assim, não vai muito além disso... Trata-se de uma obra que é competente em algumas sequências de ação, mas a tensão dramática é nula. Culpa da tendência do roteiro em querer fazer tudo parecer cool e engraçadinho, fazendo o filme ter uma cara constante de farsa/paródia do gênero ação. Tanto que apesar de todas as explosões, tiroteios e brigas que a trama contém, quase não há sangue, dando à produção uma cara de violência asséptica, propícia para dar aquele caráter família e baixar a faixa etária da audiência (condição muito importante para se ter uma boa bilheteria). É como se o diretor Dean Parisot tivesse vergonha de fazer um típico filme de ação. Dá até uma saudade com os ossos quebrados e do sangue em profusão de alguns clássicos do cinema porrada dos anos 80...

quinta-feira, setembro 12, 2013

Os sabores do palácio, de Christian Vincent **1/2


Assim como há os “filmes paisagem”, aqueles em que os diretores adoram fazer enquadramentos mostrando as belas localidades onde a trama se desenvolve (e que poderiam até funcionar como excelente peça promocional de imobiliárias), há também aquelas produções que podem se enquadrar no gênero “filmes gourmet”. Seriam aquelas que por vários momentos enfatizam pratos apetitosos sendo elaborados e servidos (poderiam também ser utilizados como material de marketing, nesse caso por restaurantes). É claro que há exceções em que obras se utilizando desse expediente podem revelar expressivas inquietações artísticas, como “A festa de Babette” (1987) ou “Ratatouille” (2007), mas no geral os tais “filmes gourmet” mais revelam a propensão para a assepsia formal do que para alguma improvável ousadia. E é nesse caso que “Os sabores do palácio” (2012) se enquadra. É claro que os tais pratos parecem deliciosos, há alguns momentos engraçados e o elenco tem certo carisma. O filme, contudo, foge pouco dessa previsibilidade e bom-mocismo. Mesmo o comentário político do seu subtexto é superficial e pouco desafiador. Ou seja, tudo fácil de ver e de esquecer, ainda que possa dar vontade de ir a algum restaurante...

quarta-feira, setembro 11, 2013

As horas vulgares, de Vitor Graize e Rodrigo de Oliveira *1/2


A trilha sonora repleta de temas de jazz, a fotografia em preto e branco e o tom existencialista da trama são elementos que deixam bem claras as influências dos diretores Vitor Graize e Rodrigo de Oliveira em “As horas vulgares” (2011). Passam pelas obsessões estéticas e temáticas de Michelangelo Antonioni na Trilogia da Incomunicabilidade e de Ingmar Bergman na Trilogia do Silêncio, pelas atmosferas rarefeitas dos filmes de Philippe Garrel e pela sutileza melancólica do extraordinário “Trintas anos esta noite” (1963). O resultado final do referido filme brasileiro, entretanto, fica bem longe do alto padrão artístico de suas fontes inspiradoras. A produção até tem uma fotografia caprichada, além do elenco trazer alguns atores de recursos dramáticos expressivos. “As horas vulgares” não funciona é como narrativa mesmo – tudo soa muito truncado, forçado, não havendo naturalidade em sua encenação. Culpa disso também é também de um roteiro equivocado, em que não há espaço para a construção de um subtexto, de uma possibilidade de interpretação por parte do espectador; os personagens dizem tudo o que sentem e também o significado do que sentem, configurando um texto de caráter ingênuo. Num comparativo, o filme me parece o equivalente cinematográfico do disco “4” dos Los Hermanos: a gente até sente que os caras tem talento, mas a pretensão em ser “profundo” e “sério” acaba gerando uma obra aborrecida e carente de personalidade definida.

terça-feira, setembro 10, 2013

Vendo ou alugo, de Betse Paula **


As influências de Betse Paula em “Vendo ou alugo” (2012) são bastante visíveis. A diretora procura resgatar aquela estética descompromissada e popular das comédias/chanchadas setentistas, principalmente na vertente que exaltava o alto-astral carioca, cujo modelo maior são algumas produções dirigidas por Hugo Carvana. Ocorre que hoje em dia, como se pode em filmes recentes do próprio Carvana, tal concepção formal soa bastante datada. É claro que por vezes pode-se simpatizar com o tom de fuleiragem de algumas cenas, com algumas atuações carismáticas, com o interessante contraste/complementação que se estabelece entre o ambiente das favelas com a decadência classe-média (nesse sentido, daria até para dizer que ocorre um registro emblemático da atual conjuntura brasileira). O que predomina, entretanto, em “Vendo ou alugo” é a sensação de que sempre está faltando alguma coisa no meio de uma encenação que beira o mambembe e da ausência de uma efetiva tensão dramática, o que faz com que a obra seja incapaz de apresentar alguma seqüência memorável para o imaginário do espectador.

segunda-feira, setembro 09, 2013

Círculo de fogo, de Guillermo Del Toro ***1/2


Em um primeiro momento, “Círculo de fogo” (2013) pode lembrar o genial “Tropas estelares” (1997). Afinal, as tramas de ambos apresentam em comum jovens militares combatendo monstros alienígenas. Só que no filme de Paul Verhoeven, o tom era de farsa sutil, trazendo um comentário irônico velado sobre os excessos de uma sociedade militarizada. Já a produção dirigida por Guillermo Del Toro é aventura puramente escapista. O roteiro é divertido, mas na verdade é mero pretexto para exageradas cenas de ação. E nesse campo, “Círculo de fogo” é um trabalho de fôlego. Os efeitos visuais são caprichados nos seus detalhes visuais – os robôs gigantes, por exemplo, são muito mais convincentes que aqueles da franquia “Transformers”. O design das criaturas que vêm das profundezas marítimas revela um senso plástico elevado – são monstros efetivamente asquerosos e assustadores. Del Toro aproveita muito bem essa expressiva matéria prima: as cenas de batalhas são movimentadas e brutais na medida certa. Uma das formas que dá para encarar essa ficção científica é pensar naqueles velhos seriados japoneses de monstros (tipo Ultraman e Spectreman), cheios de porradaria mas de estética fuleira, e vê-los devidamente recauchutados por um orçamento milionário e um cineasta empolgado pelo gênero. O resultado é uma releitura que se equilibra bem entre a nostalgia e a modernidade.

sexta-feira, setembro 06, 2013

As aventuras do Kon Tiki, de Joachim Ronning e Espen Sandberg ***


Os diretores noruegueses Joachim Ronning e Espen Sandberg obtém uma síntese narrativa bastante eficiente em “As aventuras de Kon Tiki” (2012). Tendo por base uma história real, o filme combina de forma harmoniosa drama histórico, aventura e uma densidade psicológica aguçada tanto nas situações do roteiro quanto na caracterização dos personagens. As paisagens exóticas são bem valorizadas pela competente direção de fotografia, assim como a direção de arte revela esmero na reconstituição de época. Mas a efetiva força criativa do filme está em algumas sequências de ação empolgantes, principalmente naquelas envolvendo tempestades marítimas e nos enfrentamentos alucinados contra tubarões. E o filme não se prende nas soluções fáceis do tipo lições de vida e superação. O que fica mais evidente é um caráter obsessivo, beirando o doentio, nas atitudes dos personagens – tanto pode ser a vontade de provar alguma teoria científica obscura quanto o simples desejo quase suicida de desafiar a natureza e a morte. As figuras do filme parecem se mover mais por desejos atávicos do que por algum impulso de moralidade. E isso acaba sendo mais assustador e inquietante que os perigos enfrentados por eles no mar aberto.

quinta-feira, setembro 05, 2013

Não toque no machado, de Jacques Rivette ****


A obsessão na junção entre cinema e literatura de Jacques Rivette atinge um alto grau de excelência artística em “Não toque no machado” (2007). O cineasta francês preserva da obra original de Balzac aquilo que ela tem de essencial: os diálogos que fluem entre o solene e o poético, a dramaticidade que navega entre o sombrio e a ironia sutil. Nesse encruzilhada de mídias, Rivette elabora uma narrativa realista de cunho muito particular – as situações focadas no roteiro, as relações humanas, tudo sugere uma abordagem que foge do idealismo romântico, mas ao mesmo tempo parece que se assiste a uma obra cujo naturalismo pertence a uma outra dimensão. Talvez seja um plano de realidade que se vincule ao universo resultante das fusões das concepções formais e temáticas próprias tanto de Balzac quanto de Rivette. Até o trabalho de direção de arte e figurino mais se relacionam a uma noção de imaginário de uma época do que a um rigor histórico. A atuação do casal protagonista está em sintonia com o ideário estético da obra, sendo que tanto Jeanne Balibar como Guilaume Depardieu trazem caracterizações extraordinária na aura de melancolia e alienação que imprimem em seus respectivos papéis. Dizem que Rivette anda bem doente e que em razão disso dificilmente voltará a filmar. Se isso realmente se concretizar, é inegável que “Não toque no machado” seria uma contundente síntese dos preceitos artísticos que sempre nortearam a sua filmografia.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Augustine, de Alice Winocour ***


A temática da psiquiatria não é uma novidade no cinema, principalmente no que diz respeito a roteiros inspirados em fatos reais. Do emblemático “Freud além da alma” (1962) até o recente “Um método perigoso” (2011), o estudo das doenças e meandros da mente renderam algumas obras de interesse. Nesse caso, também pode ser enquadrada a produção francesa “Augustine” (2012), cuja trama é baseada nos estudos sobre a histeria do professor Jean-Martin Charcot (aqui interpretado com a habitual sobriedade de Vincent Lindon). A narrativa é até bastante convencional e o próprio formalismo do filme não chega a transcender dos limites do competente, além do roteiro por vezes enveredar por um certo romantismo incômodo. Apesar de tais limitações, entretanto, o filme ganha interesse pela sutileza com que expões contradições e dilemas. A atmosfera sombria e rigorosa de “Augustine” traz em seu bojo a velha discussão (mas ainda muito atual) do conflito entre o obscurantismo religioso contra a busca da ciência por respostas mais verossímeis e humanas para os distúrbios mentais. Na visão do filme, por mais que os métodos de Charcot possam ser severos e por vezes de resultados duvidosos, ainda sim representam uma busca mais digna do que o simples conformismo mistificador.

terça-feira, setembro 03, 2013

Amor louco, de Jacques Rivette ****


Um filme com mais de quatros horas de duração já faz o espectador desavisado pensar em algum épico histórico ou algo semelhante. De certa forma, até dá para dizer que Jacques Rivette fez uma espécie de épico em “Amor louco” (1969), mas direcionado a um relacionamento amoroso. No filme em questão, a trama se foca em dois planos – nos ensaios de uma peça e na decadência do relacionamento amoroso do diretor da referida montagem com sua esposa, atriz afastada da montagem mencionada. A ligação entre teatro e cinema é recorrente na filmografia de Rivette e aqui atinge um ponto extraordinário em sua fluência narrativa. As tomadas das passagens de texto, das discussões, dos laboratórios, trazem ângulos e enquadramentos que oferecem uma dimensão inusitada para as duas mídias. No cerne da produção fica evidente que o interesse maior de Rivette está no registro do processo criativo de uma montagem teatral e não tanto no resultado final (o que faz lembrar o recente e extraordinário “César deve morrer”). A evolução artística da montagem, entretanto, parece corresponder à degradação da vida pessoal de seu principal artífice. Nesse sentido, a longa duração de “Amor louco” se justifica para além da mera excentricidade. Rivette esmiúça os passos da dissolução mental da protagonista Claire (Bulle Ogier) em cenas de uma crueza emocional exasperante. Nada parece acontecer de forma gratuita, sendo que a decadência do relacionamento dos amantes se estende e consolida de forma indelével. Seu melancólico ocaso, não à toa, coincide com o ápice criativo da encenação que é a outra tônica da produção, numa conclusão de perversa ironia de Rivette.

segunda-feira, setembro 02, 2013

Tabu, de Miguel Gomes ****


Num primeiro momento, a estética peculiar da produção portuguesa “Tabu” (2012) pode sugerir um certo hermetismo. Afinal, o diretor Miguel Gomes estabelece inextricável formalismo envolvendo citações e referências cinematográficas e abordagem literária, principalmente no segundo momento da trama. O que ocorre, entretanto, é que o filme impressiona justamente pela fluência da narrativa em meio a suas experiências estéticas. Gomes perverte as noções de dramaticidade e de tempo. Na primeira história que se desenvolve, predomina a atmosfera de melancolia no meio de temas de viés triste como a solidão e a velhice. No subtexto, pairam questões como o preconceito e a tradição colonialista de Portugal. Gomes foge do óbvio, inserindo sutis traços irônicos, mesmo quando a morte e a decrepitude vão se tornando mais evidentes. Quando a trama passa para a segunda parte, a visão artística do cineasta se torna ainda mais particular. É como se tratassem de lembranças do narrador. Sua voz parece impertubável com as memórias que evoca, dando a impressão de quase recitar suas falas. Essa prosa poética produz um contraste admirável e perturbador com as imagens de tons nostálgicos que emanam da tela. Como se tratam de lembranças, fotografia e direção de arte não se vinculam a uma predisposição ao realismo. Ao contrário – a estilização fala mais alto, com direito a números musicais que dão a impressão da reconstituição distorcida das antigas produções de Hollywood. Raras vezes as paisagens africanas pareceram tão sedutoras e até mesmo oníricas, mas o senso de sarcasmo perverso de Gomes nunca deixar cair “Tabu” no simples contemplar de uma beleza visual superficial. A trágica história de amor proibido que é o centro do roteiro, no final das contas, é mais um sintoma de alienação dos colonizadores perante a realidade de exploração econômica e social entre os europeus e os nativos do continente.