Num primeiro momento, tanto lendo a sinopse quanto assistindo
às suas primeiras cenas, pode-se pensar que “A família” (2013) seria uma espécie
de paródia/homenagem a alguns clássicos filmes sobre a Máfia. O fato de ter
Robert De Niro como protagonista além de uma seqüência
envolvendo um debate num cineclube sobre a obra-prima “Os bons companheiros” (1990),
reforça também essa impressão. Um olhar mais atento, entretanto, revela que
essa produção dirigida pelo francês Luc Besson tem um alcance maior na sua
proposta. Mais do que um mero pastiche, a obra sugere uma visão do que compõe o
nosso imaginário em relação a filmes sobre gângsteres. Assim, a trama revela um
alto grau de exagero na caracterização de situações e personagens, pendendo
mais para o caricatural e grotesco do que para alguma profundidade psicológica.
Ocorre que tal abordagem distorcida acaba gerando um filme de momentos
efetivamente divertidos, repletas de perverso humor negro e violência que beira
o cartunesco. Nas boas seqüências de ação e brutalidade, Besson mostra que
ainda tem boa mão estética, fazendo lembrar por vezes até o seu grande magnum
opus, “O profissional” (1994).
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
terça-feira, outubro 29, 2013
segunda-feira, outubro 28, 2013
Elysium, de Neill Blomkamp **1/2
Uma das coisas que mais me agradava em “Distrito 9” (2009), o ótimo filme que
projetou mundialmente o diretor sul-africano Neill Blomkamp, era o visual sujo
e a atmosfera sórdida que permeava sua narrativa. No meio de uma trama de ficção
cientifica de ritmo alucinante, o cineasta também conseguia traçar uma
contundente metáfora para a questão do racismo no mundo. Em “Elysium” (2013),
sua estreia nas produções norte-americanas, pode-se perceber que o gume do seu
cinema perdeu parte considerável do seu corte, ainda que possa se perceber
eventualmente algum traço da sua marca autoral. Num primeiro momento, fica
evidente que Blomkamp cria uma concepção visual na construção visual de um
futuro distópico que procura fugir da assepsia imagética que predomina nas
recentes produções norte-americanas do gênero. Colabora também para isso que a
violência de algumas cenas seja explícita e brutal, dando para o filme um certo
ar de produção B. O grande problema da obra, contudo, está na falta de uma genuína
tensão na narrativa, de um roteiro mais elaborado e menos esquemático, de um
elenco que fuja do padrão piloto automático (com exceção de Wagner Moura, que
por mais over que esteja em alguns momentos, pelo menos oferece uma atuação
mais viva). Do jeito que ficou, a impressão que se tem é que Blomkamp sucumbiu
a pressões parar formatar o seu cinema de acordo com padrões mais palatáveis.
sexta-feira, outubro 25, 2013
Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz ****
Os limites entre a literatura e o cinema são muito tênues em
“Mistérios de Lisboa” (2010). Não dá para dizer que a primeira é simplesmente
adaptada a uma linguagem cinematográfica, pois em vários momentos do filme
sentimos que a própria sonoridade dos diálogos e as narrações possui um texto
carregado típico de um romance. Na verdade, é como se o diretor Raúl Ruiz
fizesse questão de não submeter o texto original a uma adaptação rígida. Isso
explica a longa duração do filme (mais de quatro horas). Mas é aí que reside
uma das forças criativas do filme: a sua narrativa tem um estranho encanto hipnótico,
em que mesmo os exageros românticos do roteiro parecem fazer sentido de forma
incrivelmente coerente. Ruiz estabelece um universo próprio em que os detalhes
da trama até têm lógica realista, mas a encenação obedece a uma coreografia de
falas e ações que pertencem a uma outra esfera de plano narrativo. Diante dessa
abordagem artística, o cineasta encontra o pretexto ideal para que enverede em
um barroquismo estético estonteante, repleto de nuances que exigem forte atenção
do espectador, indo de truques e efeitos visuais de contundente caráter simbólico
até uma direção de fotografia de enquadramentos de grande beleza pictórica. E
por mais que as ousadias formais de Ruiz estejam impressas em várias passagens
de “Mistérios de Lisboa”, a obra está longe de se enquadrar em mero experimento
– a dinâmica da sua edição cria uma tensão impactante, fazendo com que a longa
metragem do filme dê a impressão de até passar sem que se perceba isso.
quinta-feira, outubro 24, 2013
Las acacias, de Pablo Giorgelli **1/2
Em termos gerais, a trama de “Las acacias” (2011), que se
desenvolve em uma narrativa realista e linear, pode ser resumida da seguinte
forma: caminhoneiro solitário e de poucas palavras dá uma carona para uma
desconhecida com seu bebê em longa viagem do Paraguai para a Argentina, a
convivência entre eles acaba humanizando o motorista e faz com que ele se abra
expondo seus desejos e mágoas; e por fim ambos se descobrem apaixonados. Parece
meio previsível, não é? E é mesmo. O diretor Pablo Giorgelli dá um acabamento
mais “artístico”, abusando de uma abordagem pretensamente mais sutil,
valorizando silêncios, tomadas de plano fixo de caráter reflexivo e as
interpretações naturalistas do elenco. O formalismo da produção é correto e
competente, mas a verdade é que se trata de uma obra que está longe de empolgar
ou arrebatar – não há uma seqüência sequer que efetivamente seja capaz de se
grudar no imaginário. Se um norte-americano dirigisse de forma menos cerebral
passaria até por uma dessas comédias românticas que tem as pencas por aí. No
final das contas, funciona como uma curiosidade cinematográfica, mas de caráter
descartável.
quarta-feira, outubro 23, 2013
A coleção invisível, de Bernard Attal **1/2
A maior virtude de “A coleção invisível” (2012) é a
sobriedade da sua concepção e realização. Lidando com temas espinhosos como a
morte e a velhice, o filme do diretor Bernard Attal evita exageros
sentimentais. Há uma certa elegância na sua encenação e a fotografia e a edição
são competentes. De se destacar ainda as boas atuações do elenco, com destaque para
a surpreendente interpretação de Vladimir Britcha como protagonista.
Apesar de tais virtudes, a produção é frustrante pela frouxidão de sua
narrativa. A coerência formal e temática da obra acaba sendo uma camisa de
força criativa – por vezes, tudo soa muito artificial e esquemático demais,
como se pudéssemos enxergar todos os mecanismos estéticos do filme. Mesmo a sua
linguagem de simbologias que configura “A coleção invisível” como se fosse uma
fábula moral parece funcionar de forma acadêmica em demasia. Faltou maior
contundência e ousadia na abordagem de Attal, o que torna a produção um melancólico
canto do cisne para Walmor Chagas.
terça-feira, outubro 22, 2013
Rush - No limite da emoção, de Ron Howard ***1/2
O diretor norte-americano Ron Howard nunca se notabilizou
por ser especialmente ousado em termos estéticos, assim como sua carreira se
pautou por uma incômoda irregularidade – afinal o mesmo cara que dirigiu o
antológico “O tiro que não saiu pela culatra” (1989) concebeu o horroroso “Anjos
e demônios” (2009). Diante desse contexto, é o típico nome que não desperta
grandes expectativas. “Rush – No limite da emoção” (2013) é uma obra que volta
a dar crédito para Howard. Mesmo com as simplificações do roteiro e alguns
excessos de convencionalismo formal, é um filme que fascina na sua recriação da
mitologia da Fórmula 1 nos anos 70. A atmosfera elaborada pelo cineasta evoca
algo entre o sonhador e o hedonista, acentuando a nostalgia e uma certa
ingenuidade num período menos politicamente correto e também quando o esporte em
questão não estava tão dominado pelos interesses corporativos. Além disso,
Howard revela boa mão para a ação cinematográfica: as sequências de corrida são
alucinantes e brutais no registro detalhista de curvas, ultrapassagens e
violentos acidentes. Mesmo o fato da trama ser um tanto superficial na
caracterização psicológica das situações e seus personagens não se torna um
grande empecilho, pois o foco de Howard passa por um viés mitológico, icônico.
Assim, talvez “Rush” não seja o tratado cinematográfico definitivo sobre a Fórmula
1, mas mesmo assim acaba se tornando uma produção memorável pela carga visceral
inesperada da encenação de Howard.
segunda-feira, outubro 21, 2013
Lovelace, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman **
É impossível não pensar na obra-prima “Boogie Nights” (1997),
uma espécie de cinebiografia disfarçada do astro pornô John Holmes, quando se vê
“Lovelace” (2013), outra cinebiografia, só que autorizada, da vida de Linda
Lovelace, a estrela do clássico “Garganta profunda” (1972). Mas se o filme de Paul
Thomas Anderson era um épico sórdido sob o submundo da indústria pornográfica
setentista, tomado por uma atmosfera hedonista e formalismo virtuoso, esse
trabalho dos diretores Rob Epstein e Jeffrey Friedman assume um direcionamento
bem frustrante. Por vezes, até se evoca algo da estética exagerada e cafona dos
anos 70, mas nos geral “Lovelace” mais parece um telefilme mofado e bem-comportado.
De certa forma, dá para dizer pelo menos que tal abordagem se revela em
sintonia com o roteiro da produção, moralista até a medula.
sexta-feira, outubro 18, 2013
Dose dupla, de Baltasar Kormákur ***
A origem de “Dose dupla” (2013) é comum a várias produções
recentes vindas de Hollywood – é baseada em uma história em quadrinhos
(curiosamente, desenhada por um gaúcho, Matheus Santolouco). E isso fica
evidente no filme: é uma história policial bastante movimentada, com idas e vindas
no tempo, com cenas de ação violentas tendendo para o cartunesco, além de um
roteiro repleto de exageros que descambam para inverossimilhança. Isso não quer
dizer, entretanto, que o diretor Baltasar Kormákur apele para uma edição
videoclipeira ou mesmo de câmera tremida. O seu senso de encenação e montagem
se vincula ao tradicionalismo, mas essa preferência pelo convencional é benéfica
para a produção – há uma clareza narrativa notável nas coreografias de lutas,
tiroteios, perseguições e explosões. É claro que não se trata de nenhuma
obra-prima da violência cinematográfica na linha Sam Peckimpah. Ainda sim,
perto do que faz no gênero ação ultimamente, acaba se sobressaindo. E como bônus,
vale mencionar as atuações bastante carismáticas de Denzel Washington e Mark Wahlberg.
quinta-feira, outubro 17, 2013
Invocação do mal, de James Wan **1/2
A maioria das críticas e comentários que se faz em relação à
“Invocação do mal” (2013) defende que essa produção dirigida por James Wan
representaria um oásis no atual panorama do gênero de horror. Isso porque o
filme não se vale da estética da câmara subjetiva e também por não enveredar
pelos caminhos do horror explícito. Nessa ótica, a obra em questão
representaria uma espécie de volta à essência do terror, enfocando muito mais a
tensão e aquilo que não é visto. Na minha visão isso tudo é um grande exagero,
além de descambar para o reducionismo. O fato de um filme adotar
uma determinada abordagem não quer dizer que necessariamente ele será bom ou não.
Assim como no estilo de câmera subjetiva apareceram algumas produções
relevantes e criativas (“Rec”, “O último exorcismo”) e naquela linha de tripas
e sadismos por vezes surgiram obras de qualidade artística considerável (“Alta tensão”,
“Viagem maldita”, “O albergue”), também ocorreu de que abordagens mais clássicas
trouxessem resultados frustrantes. E nesse último caso, daria para enquadrar “Invocação
do mal”. Dá para dizer que na sua primeira metade o filme até surpreende,
principalmente por um certo virtuosismo de Wan – há planos-sequência realizados
de forma convincente, a edição e fotografia trazem elegância formal. Na metade
final, entretanto, tudo parece se converter num pastiche insosso de “O
exorcista” (1973) e seus derivados. Toda aquele pretensão de sutileza e tensão se
esvai em nome de barulhentos e inócuos sustos, lutas e possessões. Falta a “Invocação
do mal” uma efetiva atmosfera de sordidez e de mistério. Do jeito que ficou,
está mais para as dúzias de produções de horror assépticas que vêm de Hollywood
todos os anos.
quarta-feira, outubro 16, 2013
Beijos de emergência, de Philippe Garrel ****
O intimismo do cinema de Philippe Garrel ganha uma conotação
ainda mais inesperada em “Beijos de emergência” (1989). Ao focar a história de
um cineasta (interpretado pelo próprio Garrel) que se vê num dilema conjugal ao
resolver filmar um roteiro de forte conotação
autobiográfica, o diretor propõe uma narrativa que se pauta por um naturalismo
poético. Impressiona muito a fluência que beira o despudorado com que Garrel
estabelece a sua encenação. Não é à toa que os intérpretes da esposa, do pai e
do filho do protagonista sejam justamente
aqueles que desempenham tais papéis na vida real do diretor. Nesse sentido, é
como se o filme sugerisse que as fronteiras entre a arte e a vida fossem muito
tênues para Garrel. Diante dessa lógica, não é uma obra que se desenvolva através
de grandes reviravoltas – dilemas e conflitos se firmam com a fluência típica
da vida, os personagens têm comportamentos que variam entre o impulsivo e o
resignado. O estilo de filmar de Garrel é aquele característico de boa parte do
melhor de sua filmografia – as elipses que reduzem a narrativa ao essencial, o
formalismo de teor contemplativo, a trama que se configura como um pedaço
inconclusivo da vida de suas criaturas. Garrel não oferece ao espectador soluções
fáceis para aquilo que questiona ao longo da produção. E é justamente esse não
compromisso em amarrar todas as pontas que torna “Beijos de emergência” uma
obra tão inquietante e de encanto perene.
terça-feira, outubro 15, 2013
Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão ***1/2
O diretor pernambucano Daniel Aragão demonstra em seu longa
de estréia “Boa sorte, meu amor” (2012) ter uma espécie de sintonia existencial
e artística com seus colegas conterrâneos Cláudio Assis e Kleber Mendonça Filho.
Afinal, seu filme traz uma notável combinação de visão crítica da sociedade
ocidental contemporânea com uma estética que se desenvolve a partir de uma
abordagem em que predomina o sensorial. Nesse sentido, Aragão valoriza, às
vezes de forma precisa, outras vezes exagerada, aspectos diversos da linguagem
cinematográfica – lentos e exasperantes planos-sequência, uso insólito do som,
narrativa simbolista, atmosferas delirantes. Até a direção de elenco revela um
caráter diferenciado, em que a beleza da protagonista
Maria (Christiana Ubach) parece refletir uma inesperada inocência em meio a
sordidez moral que a rodeia, enquanto a interpretação inexpressiva Vinicius
Zinn na realidade cai como uma luva para o personagem Dirceu, um jovem
pequeno-burguês bunda-mole (e por vezes prepotente) que acaba engolido por um
destino que está muito além da sua confortável rotina de rapaz de bem. A ambição
temática de Aragão também chama a atenção – sua saga que varia entre o
intimista, o surreal e o político junta na mesma obra o urbano/moderno e o
rural/arcaico, retratando uma sociedade que se pretende cosmopolita e avançada,
mas que na realidade ainda é regida por velhos mecanismos excludentes. Se toda
essa pretensão em alguns momentos esbarra em excessos formais e textuais incômodos,
em outras passagens encanta pela sua contundência desconcertante.
segunda-feira, outubro 14, 2013
Já não ouço a guitarra, de Philippe Garrel ****
Muito se fala em cinema autoral e pessoal, mas poucos são
aqueles cineastas que conseguem gerar uma obra de marca tão indelével e
particular quanto o diretor Philippe Garrel logrou em “Já não ouço a guitarra”
(1991). Trata-se de uma produção ficcional, mas o próprio Garrel revela que o
roteiro é bastante inspirado em fatos de sua vida amorosa com a cantora e
modelo alemã Nico, que além de uma expressiva discografia solo também teve
participação antológica no fundamental primeiro disco do Velvet Underground.
Nesse sentido, é fascinante como um aspecto intimista da vida de Garrel, e que
ele aborda de forma bastante visceral, ganha uma dimensão universal no sentido
que seu drama amoroso ganha ressonância no imaginário coletivo (afinal, Nico representa
um capítulo relevante na história cultural dos últimos 50 anos). Nesse sentido,
a habitual estética de Garrel, aqui num de seus momentos de apuro mais elevado,
é o veículo mais que ideal para abarcar o seu relato emocional e amargo de um
relacionamento que se desintegra. Como entre outras obras do cineasta, sua
narrativa não é detalhista . A trama se divide em momentos cujo espaçamento de
tempo é aleatório – tanto podem se passar algumas horas entre eles quanto
semanas, meses, anos... Em cada um desses trechos, o enfoque é no estado anímico
dos personagens e não no contexto histórico deles. Essa sensação de elipses
temporais é desconcertante, mas também é muito verdadeiro em termos de construção
das situações e personagens. Nessa formatação, não interessa se falar em final
feliz ou não para os indivíduos. O que o espectador vê é apenas uma fração das suas
vidas, sendo que a conclusão em aberto de “Já não ouça a guitarra” ganha uma
conotação de brutal coerência formal e temática.
sexta-feira, outubro 11, 2013
O nascimento do amor, de Philippe Garrel ***1/2
As coisas no cinema de Philippe Garrel parecem seguir um
ritmo próprio, como se fizessem parte de um universo particular do cineasta. “O
nascimento do amor” (1993) é obra sintomática desse direcionamento artístico. A
trama se desenvolve num tempo indefinido, sendo que a estética concebida por
Garrel acentua ainda mais essa ideia de atemporalidade. Num primeiro momento, o
formalismo da produção alude aos anos áureos da Nouvelle Vague – fotografia em
preto e branco, além da edição e narrativa repletas de elipses. Na realidade,
Garrel é contemporâneo de Godard e Truffaut, sendo que começou a dar seus
primeiros passos no cinema justamente durante o célebre movimento cinematográfico
francês. Até mesmo o roteiro traz em si a noção “fora do tempo e do espaço”; os
protagonistas Paul (Lou Castel) e Marcus
(Jean-Pierre Leaud, em personagem que se mostra em sintonia com o antológico
Antoine Doinel) são homens maduros, mas apresentam comportamentos oscilantes e inconseqüentes.
Garrel faz a crônica de uma eterna juventude, da imaturidade inconstante. Suas
criaturas vagam pela vida num cruzamento entre o hedonismo e a melancolia. E no
meio dessa abordagem nostálgica e amarga e das referências mencionadas, fica
uma obra de encanto hipnótico e envolvente.
quinta-feira, outubro 10, 2013
O ataque, de Roland Emmerich **1/2
Numa dessas coincidências típicas de Hollywood, calhou que
em 2013 aparecessem duas produções grandiosas a retratar a Casa Branca sendo atacada
e parcialmente destruída. As próprias tramas, inclusive, são muito parecidas
entre si: basicamente, o presidente dos Estados Unidos tem a sua guarda
massacrada e sua única tábua de salvação é um agente desacreditado e sagaz. “Ataque
à Casa Branca”, de Antoine Fuqua, já comentado neste blog, resgata a estética
oitentista no gênero ação, caprichando na violência e na grafismo
sanguinolento. Este “O ataque”, de Roland Emmerich, apesar de bastante
barulhento e movimentado, é mais politicamente correto e asséptico na sua
brutalidade, além de sua veia patriótica ser bem mais exacerbada. É quase como
uma produção da franquia Rambo que pudesse ser visto por toda a família. Assim,
no saldo final, Fuqua acabou se saindo bem melhor que o seu colega Emmerich:
seu filme é bem mais casca grossa e sincero, além de melhor resolvido no seu
formalismo.
quarta-feira, outubro 09, 2013
Se puder... dirija!, de Paulo Fontenelle ½ (meia estrela)
Para quem conhece e admira o ator Luis Fernando Guimarães
pelo seu trabalho marcante em momentos chaves da comédia nacional como o
irreverente grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone e o ácido programa
televisivo oitentista TV Pirata, chega a ser constrangedor vê-lo participando
de uma produção tão inócua, tosca e babaca como “Se puder... dirija!” (2012). Pense
no programa cômico mais sem graça da atual programação da televisão brasileira
e imagine isso formatado num filme de uma hora e meia (e que parece que tem o
dobro do seu tempo), mas com a pretensão de trazer uma lição de moral
edificante. E o pior é que nem dá para dizer que de tão ruim chega a ser
engraçado. Não, pelo contrário: de tão mambembe, o filme é chato de uma forma
excruciante. Basicamente, o filme aparente ser a reunião de sketches humorísticos
reunidos num fio de história. Não há unidade na narrativa, a encenação é
desajeitada e o elenco está no piloto automático (com o “bônus” de contar com a
pior interpretação infantil dos últimos anos). Ah, talvez essa ostensiva falta
de inspiração e competência podia ser apenas pressuposto para o uso da
tecnologia 3D, mas a trucagem passa praticamente desapercebida. Ou seja, “Se
puder... dirija!” é candidato a maior embuste do ano nos cinemas.
terça-feira, outubro 08, 2013
A filha do meu melhor amigo, de Julian Farino **
Há em “A filha do meu melhor amigo” (2012) uma pretensão de
ser “alternativo”. Tem aquele jeitão “indie”, roteiro que se pretende
questionador do comportamento da típica família pequeno-burguesa norte
americana, evoca algo daquelas comédias acre-doce dos anos 70. Não se engane.
No final das contas, o filme é apenas “mais do mesmo”, sendo tão (ou mais)
superficial que a média das produções escapistas e comerciais que provém de
Hollywood. Está muito mais para uma morna produção oriunda da televisão – não há
a mínima ousadia formal na obra em questão, sendo que mesmo a trama que ostenta
uma aura contestadora envereda por um conservadorismo incômodo na sua resolução.
É um passatempo agradável por vezes, com um elenco até carismático (ainda que
caricatural em sequências importantes). Nada, entretanto, que seja
especialmente memorável. Aqueles que desejam ver algo mais contundente em
termos de ironia às mazelas da família moderna podem ler ou assistir a alguma
peça de Nelson Rodrigues – seria uma experiência bem mais substanciosa e
impactante do que esse mediano “A filha do meu melhor amigo”.
segunda-feira, outubro 07, 2013
A espuma dos dias, de Michel Gondry ***
“Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), a grande
obra-prima do diretor francês Michel Gondry, marcava uma união que se mostrava
em sintonia brilhante: o roteiro surreal e muito bem amarrado de Charlie
Kaufman (talvez o melhor roteirista norte-americano surgido nos últimos 20
anos) e as criativas concepções visuais de Gondry. Em “A espuma dos dias”
(2013), obra mais recente de Gondry, a falta de um roteiro mais focado parece
ser o fator preponderante para que o filme em questão se mostre como uma
narrativa tão irregular. O diretor ainda se mostra afiado em criar cenas de uma
atmosfera imagética delirante – a Paris de Gondry parece pertencer a uma dimensão
paralela, em que o retrô, o futurista e o onírico se colidem de forma
constante. Dá para dizer que a primeira metade da produção se desenrola como um
sonho desajeitado e simpático, com efeitos especiais e detalhes temáticos que
lembram alguns trabalhos de Jean-Pierre Jeunet (impressão reforçada também pela
presença no elenco de Audrey Tautou, musa de Jeunet). Já a segunda parte do
filme envereda por uma atmosfera sufocante de pesadelo – nesse sentido, a
sensação de bad trip se estabelece justamente quando o filme busca o seu vínculo
maior com a realidade. O problema de “A espuma dos dias” é que essa
multiplicidade sensorial é obrigada a se formatar numa trama de matiz
convencional. O roteiro por vezes se contenta com um certo banalismo, deixando
de explorar vários pontos interessantes que a sua temática tangencia (totalitarismo,
convenções sociais distorcidas). As limitações de uma “love story” levam Gondry
a excessos estéticos que acabam tirando muito do impacto do filme. Mesmo assim,
é uma obra instigante no seu barroquismo exacerbado, mostrando que Gondry ainda
é um nome a se prestar atenção.
sexta-feira, outubro 04, 2013
Casa da mãe Joana 2, de Hugo Carvana *1/2
Não tem como escapar do típico clichê da crítica cinematográfica:
de tão capenga, “Casa da mãe Joana 2” (2013) até consegue ser engraçado. O
diretor Hugo Carvana já é veterano no cinema brasileiro, então não dá para
dizer que desaprendeu a fazer filmes. O que acontece que é o seu estilo soa
datado e pouco fluente, fazendo com que a produção tenha a aparência de algum
sketch do “Zorra total” alongado, ainda que
filtrado por um nostálgico bom humor carioca. É provável que Carvana e equipe
tenham se divertindo na realização, pois a impressão é que não há rigor na
direção. Tudo é muito solto, como um trem desgovernado, dependendo muito mais
de alguma boa intervenção dos atores. O trio de protagonistas
composto por José Wilker, Paulo Betti e Antônio Pedro está longe de ser
inexpressivo, mas a ausência de um direcionamento mais específico resulta em
atuações caricaturais em excesso. No final das contas, a narrativa frouxa e
desajeitada dá um aspecto mambembe para tudo, o que não deixa de angariar
alguma simpatia para o espectador no meio de todas essas comédias assépticas
globais que grassam nos nossos cinemas. Impede, porém, de que “Casa da mãe
Joana 2” seja uma obra memorável.
quinta-feira, outubro 03, 2013
Jobs, de Joshua Michael Stern *
Sem querer forçar a barra, mas dá para dizer que os nerds mais
sem critérios têm mais uma trilogia a acrescentar entre os seus objetos de
culto: a de filmes inspirados em grandes marcas da Internet. “A rede social”
(2010) mostrou os bastidores das origens e ascensão do Facebook, enquanto “Os
estagiários” (2013) tem uma trama fictícia cujo pano de fundo é uma espécie de
propaganda dos ideais do Google. Já esse “Jobs” (2013) pelo título já é
auto-explicativo: trata-se de uma cinebiografia do criador da Apple, Steve
Jobs. É interessante observar que cada uma de tais produções possui uma
abordagem diferente. “A rede social” se formata como uma ácida e brilhante crônica
de costumes da sociedade ocidental desse século. Já “Os estagiários”, apesar do
seu caráter marqueteiro, é uma competente e previsível “comédia universitária”.
“Jobs” envereda no gênero da cinebiografia clássica. Seus equívocos,
entretanto, não têm necessariamente relação com o seu convencionalismo. O que
irrita no filme é um tenebroso descompasso entre o que o roteiro se propõe (uma
análise crítica sobre a trajetória profissional de seu protagonista)
e a estrutura narrativa proposta pelo diretor Joshua Michael Stern, que parece
escolher um tom entre o laudatório e o edificante. Assim, prevalece uma
inconveniente e constante trilha sonora melosa (temos a permanente sensação de
se estar assistindo a uma grandiosa obra de caráter cívico), roteiro esquemático
e previsível, fotografia e edição sem a mínima criatividade, interpretações que
oscilam entre o medíocre e o constrangedor (francamente, semelhança física com
pessoais reais não deveria ser a condição principal na escolha do elenco).
Todos essas questionáveis escolhas artísticas levam a uma obra de sentido mais
que confuso – seria algo como “olha, o Jobs era um sociopata, mas no fundo era
um cara legal, afinal ganhou tanta grana....”.
quarta-feira, outubro 02, 2013
O casamento do ano, de Justin Zackham *1/2
Por mais que o diretor Justin Zackham diga ter usado no
roteiro memórias pessoais e tenha um pretenso verniz de ousadia temática
(afinal se fala em adultério, homossexualismo, hipocrisia religiosa), a verdade
é que “O casamento do ano” (2013) é uma obra destituída de ousadia e
personalidade. Tudo no filme cheira a naftalina – da trama superficial de teor
edificante à abordagem formal de Zackham, que abusa de uma estética cartão-postal.
Com alguma boa vontade, dá para salvar as atuações carismáticas de Robert De
Niro, Diane Keaton e Susan Sarandon, ainda que em relação a isso se tenha uma
certa sensação de melancolia em pensar que eles já participaram de produções
mais criativas e contundentes.
terça-feira, outubro 01, 2013
Os estagiários, de Shawn Levy **1/2
Na formatação da sua narrativa, dá para dizer que “Os estagiários”
(2013) se enquadra naquele gênero de “comédias universitárias”: os principais
personagens devem se superar para atingir seus objetivos, em algumas passagens
sofrerão bullying, em outras darão umas paqueradas e farão umas festas, até
chegar a um clímax em que seus talentos serão reconhecidos e eles ganharão os
respeitos de seus colegas e a admiração definitiva de seus respectivos interesses
amorosos. O que tem de diferente no filme em questão é que a trama se passa no
ambiente de trabalho da Google, com os protagonistas
Billy (Vince Vaughan) e Nick (Owen Wilson) tendo por metas se tornarem
empregados fixos da empresa em questão. Assim, o filme é até razoavelmente
competente dentro de tal gênero – é efetivamente engraçado em algumas cenas,
Vaughan e Wilson têm interpretações carismáticas e a narrativa é agradável. Mas
nada muito além disso: por mais que o roteiro louve a capacidade criadora de
quem trabalha na Google, tudo na produção é rigorosamente previsível. Mas o que
mais incomoda em “Os estagiários” é que no final das contas o filme soa quase
como uma espécie de peça publicitária a exaltar o Google, distante, assim, por
exemplo, da visão lúcida e crítica que o brilhante “A rede social” (2010) expressou
ao radiografar a ascensão do Facebook.
segunda-feira, setembro 30, 2013
Flores raras, de Bruno Barreto ***
Os primeiros 10 minutos de “Flores raras” (2013) são
claudicantes: a encenação parece um tanto forçada, como se o diretor Bruno
Barreto não se sentisse à vontade para filmar nos Estados Unidos. Quando a
trama passa a se desenvolver no Brasil, entretanto, o filme adquire força e
desenvoltura surpreendentes. Mesmo com uma narrativa convencional, o filme
cativa pela maturidade na forma com que o roteiro enfoca as relações humanas,
contando ainda com uma visão política e histórica que foge das obviedades e dos
reducionismos simplistas. O estilo de filmar de Barreto é simples e elegante,
captando sutis nuances na dinâmica entre os personagens. Lota
(Glória Pires), por exemplo, tem uma noção bastante liberal sobre as cirandas
amorosas em que se envolve, mas ao mesmo tempo é fortemente reacionária e
oportunista em suas opiniões e escolhas políticas. Já sua amante, a poeta
Elisabeth Bishop (Miranda Otto), mostra uma sensibilidade à flor da pele na sua
arte enquanto age de forma seca em relação às pessoas que a cercam. Assim, por
mais que a história tenha os seus momentos de romantismo, o que prevalece é um
tom melancólico e pouco idealizado do amor romântico, o que dá uma dimensão
humana bastante contundente para “Flores raras”. Colaboram também para o
impacto considerável do filme as atuações da dupla de protagonista:
enquanto Glória Pires privilegia um registro visceral, Miranda Otto adota
uma contenção dramática admirável – as diferenças nas interpretações garantem a
tensão necessária de forma mais que convincente.
sexta-feira, setembro 27, 2013
Wrong, de Quentin Dupieux *1/2
A influência principal do diretor francês Quentin Dupieux em
“Wrong” (2012) é evidente em cada fotograma: o cara queria ser David Lynch. Mas
apenas emular um estilo não quer dizer necessariamente que se vá reproduzir a
mesma genialidade. E Dupieux acha que a estética lyncheana se resume a
bizarrices engraçadinhas. Não há aquela combinação marcante e de alto impacto
sensorial entre surrealismo e virtuosismo cinematográfico típica das melhores
produções de Lynch. O filme se limita a uma trama absurda e rasa formatada em
cenas esquisitas que estão muito mais para o besteirol de algumas comédias clássicas
dos irmãos Zucker (só que sem a mesma inspiração).
quinta-feira, setembro 26, 2013
Quarto 237, de Rodney Ascher ****
É difícil dizer exatamente sobre o que se trata o documentário
“Quarto 237” (2012). Pode-se considerar que o diretor Rodney Ascher quis
abarcar uma série de obsessões temáticas e estéticas – a capacidade do filme “O
iluminado” (1980) despertar as mais esquisitas e absurdas teorias, a
genialidade de Stanley Kubrick, a cinefilia, o poder da edição cinematográfica.
O impressionante é que Ascher juntou tudo isso com coerência formal
impressionante, tendo por resultado final uma obra que traz uma lógica
singular. O documentarista não tem a pretensão de fazer com que o espectador
acredite nas teorias meio amalucadas dos fãs do horror de Kubrick (no mais das
vezes, tratam-se de algumas explicações estapafúrdias para alguns erros de
continuidade ou mesmo de verossimilhança da produção em questão). Para Ascher, parece
mais divertido visualizar as ideias expostas pelos entrevistados. E é nesse
ponto que vem um dos aspectos mais fascinantes de “Quarto 237”: a brilhante e
minuciosa montagem que recorta com precisão cenas de “O iluminado”, outras películas
de Kubrick, imagens de arquivo em geral, alguns gráficos digitais. Ascher não
mostra sequer uma cena filmada por ele. Seu filme é um produto exclusivo da sua
imaginação e da sala de montagem. Talvez seja uma das manifestações fílmicas mais
contundentes sobre a importância primordial da edição numa obra cinematográfica.
Tal concepção pode ser discutível para alguns, mas é inegável a sedução
sensorial que a narrativa elaborada por Ascher proporciona.
quarta-feira, setembro 25, 2013
Nocturna, de Adrià Garcia e Victor Maldonado **1/2
A animação espanhola “Nocturna” (2007) apresenta uma série
de elementos que a diferencia das produções norte-americanas no gênero,
mostrando mais até uma sintonia com a filmografia de mestre japonês Hayao Miyazaki.
Há uma atmosfera entre o onírico e o conto de fada sombrio, prevalecendo um
traço menos rebuscado e mais estilizado, em detrimento do grafismo realista. O
roteiro explora uma mitologia atraente para o imaginário infantil – a de como
funciona o mundo quando estamos dormindo. Assim, há uma variedade de tipos
estranhos e por vezes encantadores. O que impede “Nocturna” de ser uma experiência
efetivamente memorável é sua narrativa um tanto truncada, que não tem a mesma
leveza e agilidade das obras Miyazaki. Mesmo assim, não deixa de ser uma
curiosidade a ser conferida pelos apreciadores de animações.
terça-feira, setembro 24, 2013
Confissões de um jovem apaixonado, de Sylvie Verheyde **1/2
Peter Doherty, vocalista e guitarrista da extinta banda
Libertines, sempre encarnou uma espécie de atualização para o nosso presente dos
jovens poetas ultra-românticos do século XIX: de feições entre o inocente e o blasé,
comportamento polêmico e autodestrutivo e arte intensa à flor da pele. Dessa
forma, foi uma bela sacada da diretora Sylvie Verheyde colocá-lo como protagonista
em “Confissões de um jovem apaixonado” (2012), versão cinematográfica para um
romance situado em 1830, cuja trama traz Octave (Doherty), rapaz que após uma
desilusão amorosa entra num vórtice de autopiedade, hedonismo e culpa. Verheyde
revela alguma sensibilidade plástica ao construir cenas impregnadas de
fotografia esmaecida e etérea, o que acaba rendendo uma atmosfera estranha que
varia entre o ascético e o sensual. O problema da produção é que a equação
entre cinema e literatura não consegue atingir uma melhor desenvoltura – a abordagem
formal da cineasta é naturalista, mas narração e diálogos trazem uma
literalidade e solenidade que tornam a fluência da narrativa bastante truncada,
induzindo por vezes à monotonia.
segunda-feira, setembro 23, 2013
A sorte em suas mãos, de Daniel Burman **
A presença do cantor Jorge Drexler no papel de protagonista
em “A sorte em suas mãos” (2012) não é gratuita. Sua atuação entre o aéreo e o
inexpressivo encaixa bem com o personagem Uriel, um contumaz jogador de pôquer
que estende o blefe e a mentira, artifícios naturais do jogo, para a sua vida e
acaba tendo por isso dificuldades em seus relacionamentos pessoais. Tal
premissa é bastante interessante, no sentido da possibilidade de manter uma
constante atmosfera de ambigüidade. Ocorre que o problema do filme é que o
diretor Daniel Burman se envereda por caminhos mais comportados. O tratamento
que dá para a narrativa é a de uma típica comédia romântica, o que tira muito
do inicial gume cortante da trama. Assim, a produção é até agradável por alguns
momentos engraçados, mas no geral prevalece uma insipidez criativa, daquelas
que tornam o filme fácil de ver e ainda mais fácil de esquecer.
sexta-feira, setembro 20, 2013
Repare bem, de Maria de Medeiros ***
É claro que se pode dizer que “Repare bem” (2013) não traz
maiores novidades para o gênero “documentário sobre a ditadura militar no
Brasil”. Mas é provável que isso nem fosse a intenção da diretora portuguesa
Maria de Medeiros ao realizar esse filme. Afinal, ela foi convidada a dirigir
tal obra por uma instituição ligada a pesquisa e investigação sobre o período
histórico em questão. O resultado final, entretanto, está muito longe de ser um
mero trabalho institucional. A cineasta soube aproveitar bem a contundente matéria
prima que tinha em mãos e concebeu um filme vigoroso e de forte teor emocional.
Medeiros concentrou sua narrativa nos depoimentos da protagonista Denise
Crispim, que viveu na clandestinidade nos tempos de chumbo e teve o marido Eduardo
“Bacuri”, também guerrilheiro, preso, torturado e morto. Seus relatos são
detalhados e vívidos, compondo um amplo panorama que mistura sem cerimônia o
intimismo de seu drama pessoal com um retrato brutal do cenário político e social
do Brasil dos anos 60 e 70, além de evidenciar que as sequelas e traumas
daquele período atribulado ainda são feridas abertas no imaginário daqueles que
vivenciaram na carne as agruras da repressão.
quinta-feira, setembro 19, 2013
Gente grande 2, de Dennis Dugan *
O primeiro “Gente grande” (2010) era um filme interessante.
Conseguia um equilíbrio razoável entre a comédia física ostensiva e um certo
tom de crônica nostálgica. Essa continuação, de 2013, tem uma abordagem muito
diferente da obra que a precedeu. É puro humor grotesco e escatológico. A
impressão é que o roteirista se preocupou apenas em criar um fio de história
para servir de mero pretexto para uma sucessão de cenas grosseiras, com o
diretor Dennis Dugan formatando tudo como se fosse um longo episódio do Zorra Total.
O resultado final é muito ruim, mas o negócio é tão tosco e forçado que a
produção acaba até ganhando uma aura de curiosidade tamanho o exagero e cara de
pau de suas ideias e concepções.
quarta-feira, setembro 18, 2013
Frances Ha, de Noah Baumbach ***
Nos seus filmes anteriores, principalmente naquele que é
considerado o seu melhor trabalho, “A lula e a baleia” (2005), o estilo do
diretor Noah Baumbach era marcado por um naturalismo objetivo. Em sua obra mais
recente, “Frances Ha” (2012), entretanto, o cineasta resolveu dar uma variada. Por
mais que a temática de tal produção seja contemporânea, há uma atmosfera no
filme fortemente retrô. A estética elaborada por Baumbach remete aos primeiros
filmes da Nouvelle Vague: tudo parece mais livre, solto, quase como se o
roteiro estivesse sendo escrito de acordo com a evolução da trama, a partir de
lembranças, citações, referências. A trilha sonora acentua o tom de farsa – a trajetória
da personagem-título é marcada por momentos dramáticos, até mesmo depressivos,
mas o tratamento oferecido por Baumbach faz tudo parece uma comédia meio
amalucada (ainda que por vezes amarga). É claro que a influência francófila
pode dar uma impressão de deja vu, mas a estrutura narrativa menos rígida dá um
certo frescor à obra, ainda mais se comparada com a anemia criativa da maioria
do que se faz no gênero atualmente no cinema norte-americano.
terça-feira, setembro 17, 2013
Rugas, de Ignacio Ferreras ***
O traço simples e a narrativa tradicional representam uma
superfície que esconde com sutileza os grandes méritos inquietantes da animação
espanhola “Rugas” (2011). A trama é centrada num asilo, tendo como protagonistas
dois idosos que encaram de forma nada idealizada as agruras da velhice
(abandono, doenças, decadência física). A abordagem do diretor Ignacio Ferreras
por vezes se permite uma razoável dose de bom humor e ironia, mas o que
prevalece é um certo tom amargo nessa crônica crepuscular. O fato do cineasta
ter preferido enveredar pelo desenho animado para contar a história ampliou as
possibilidades criativas do filme, pois possibilitou convincentes e belas cenas
envolvendo sonhos, delírios e recordações, todas situações que são inerentes à
condição dos personagens. E nesse sentido, “Rugas” acaba sendo fortemente
humano e contundente na forma com que retrata o desenvolvimento do Mal de Alzheimer
em um dos personagens. Entretanto, apesar de toda essa melancolia, o filme se
permite a um final de caráter discretamente redentor e que revela uma serena coerência
com a abordagem temática da obra.
segunda-feira, setembro 16, 2013
Bling Ring: A gangue de Hollywood, de Sofia Coppola ***
Assim como se fazia supor em “Um lugar qualquer” (2010), o
estilo de Sofia Coppola parece estar mais descarnado em “Bling Ring: A gangue
de Hollywood” (2013). É como se a diretora quisesse lapidar a sua estética de
excessos, preferindo reduzir seu cinema a um essencial básico. Isso é até
curioso, no sentido de que seu pai, Francis Ford Coppola, é um autor marcado
por um virtuosismo que por vezes até envereda pelo operístico. Essa abordagem
da cineasta encontra um material temático com o qual estabelece uma sintonia
bastante coerente. Afinal, a história que conta as aventuras contraventoras de
um bando de jovens de classe média alta que se divertem furtando casas de ricos
e famosos em Hollywood recebe um tratamento de distanciamento emocional e sem
glamourizações. O registro de Sofia é marcado pela frieza e objetividade, mesmo
quando ela obtém cenas memoráveis ao conceber uma atraente atmosfera de
hedonismo. E é de se ressaltar ainda a ótima mão dela na direção de atores – o trio
protagonista (Emma Watson, Katie Chang e Israel
Broussard) tem desempenhos antológicos. No geral, as escolhas artísticas de Sofia
podem frustrar aqueles que esperam maiores arrebatamentos sensoriais, mas é
inegável que dão à “Bling Ring” um forte conteúdo emblemático de sua época.
sexta-feira, setembro 13, 2013
Red 2 - Aposentados e ainda mais perigosos, de Dean Parisot **
Pelo menos um mérito dá para creditar para “Red 2 –
Aposentados e ainda mais perigosos” (2013): é bem melhor que a primeira parte.
É verdade, também, que para isso não precisava muito esforço, pois aquela
produção de 2010 era uma das piores coisas disparadas lançadas naquele ano (e
ainda tinha o inquestionável demérito de ser infinitamente inferior à HQ
original escrita por Warren Ellis na qual se baseou). Talvez por não ter esse peso
da comparação com a HQ, afinal se trata de roteiro original, essa continuação
pareça mais palatável. Mesmo assim, não vai muito além disso... Trata-se de uma
obra que é competente em algumas sequências de ação, mas a tensão dramática é
nula. Culpa da tendência do roteiro em querer fazer tudo parecer cool e engraçadinho,
fazendo o filme ter uma cara constante de farsa/paródia do gênero ação. Tanto
que apesar de todas as explosões, tiroteios e brigas que a trama contém, quase
não há sangue, dando à produção uma cara de violência asséptica, propícia para
dar aquele caráter família e baixar a faixa etária da audiência (condição muito
importante para se ter uma boa bilheteria). É como se o diretor Dean Parisot
tivesse vergonha de fazer um típico filme de ação. Dá até uma saudade com os
ossos quebrados e do sangue em profusão de alguns clássicos do cinema porrada
dos anos 80...
quinta-feira, setembro 12, 2013
Os sabores do palácio, de Christian Vincent **1/2
Assim como há os “filmes paisagem”, aqueles em que os
diretores adoram fazer enquadramentos mostrando as belas localidades onde a
trama se desenvolve (e que poderiam até funcionar como excelente peça
promocional de imobiliárias), há também aquelas produções que podem se
enquadrar no gênero “filmes gourmet”. Seriam aquelas que por vários momentos
enfatizam pratos apetitosos sendo elaborados e servidos (poderiam também ser
utilizados como material de marketing, nesse caso por restaurantes). É claro
que há exceções em que obras se utilizando desse expediente podem revelar
expressivas inquietações artísticas, como “A festa de Babette” (1987) ou “Ratatouille”
(2007), mas no geral os tais “filmes gourmet” mais revelam a propensão para a
assepsia formal do que para alguma improvável ousadia. E é nesse caso que “Os
sabores do palácio” (2012) se enquadra. É claro que os tais pratos parecem
deliciosos, há alguns momentos engraçados e o elenco tem certo carisma. O
filme, contudo, foge pouco dessa previsibilidade e bom-mocismo. Mesmo o comentário
político do seu subtexto é superficial e pouco desafiador. Ou seja, tudo fácil
de ver e de esquecer, ainda que possa dar vontade de ir a algum restaurante...
quarta-feira, setembro 11, 2013
As horas vulgares, de Vitor Graize e Rodrigo de Oliveira *1/2
A trilha sonora repleta de temas de jazz, a fotografia em
preto e branco e o tom existencialista da trama são elementos que deixam bem
claras as influências dos diretores Vitor Graize e Rodrigo de Oliveira em “As
horas vulgares” (2011). Passam pelas obsessões estéticas e temáticas de
Michelangelo Antonioni na Trilogia da Incomunicabilidade e de Ingmar Bergman na
Trilogia do Silêncio, pelas atmosferas rarefeitas dos filmes de Philippe Garrel
e pela sutileza melancólica do extraordinário “Trintas anos esta noite” (1963).
O resultado final do referido filme brasileiro, entretanto, fica bem longe do
alto padrão artístico de suas fontes inspiradoras. A produção até tem uma
fotografia caprichada, além do elenco trazer alguns atores de recursos dramáticos
expressivos. “As horas vulgares” não funciona é como narrativa mesmo – tudo soa
muito truncado, forçado, não havendo naturalidade em sua encenação. Culpa disso
também é também de um roteiro equivocado, em que não há espaço para a construção
de um subtexto, de uma possibilidade de interpretação por parte do espectador;
os personagens dizem tudo o que sentem e também o significado do que sentem,
configurando um texto de caráter ingênuo. Num comparativo, o filme me parece o
equivalente cinematográfico do disco “4” dos Los Hermanos: a gente até sente
que os caras tem talento, mas a pretensão em ser “profundo” e “sério” acaba
gerando uma obra aborrecida e carente de personalidade definida.
terça-feira, setembro 10, 2013
Vendo ou alugo, de Betse Paula **
As influências de Betse Paula em “Vendo ou alugo” (2012) são
bastante visíveis. A diretora procura resgatar aquela estética descompromissada
e popular das comédias/chanchadas setentistas, principalmente na vertente que
exaltava o alto-astral carioca, cujo modelo maior são algumas produções
dirigidas por Hugo Carvana. Ocorre que hoje em dia, como se pode em filmes
recentes do próprio Carvana, tal concepção formal soa bastante datada. É claro
que por vezes pode-se simpatizar com o tom de fuleiragem de algumas cenas, com
algumas atuações carismáticas, com o interessante contraste/complementação que
se estabelece entre o ambiente das favelas com a decadência classe-média (nesse
sentido, daria até para dizer que ocorre um registro emblemático da atual
conjuntura brasileira). O que predomina, entretanto, em “Vendo ou alugo” é a
sensação de que sempre está faltando alguma coisa no meio de uma encenação que
beira o mambembe e da ausência de uma efetiva tensão dramática, o que faz com
que a obra seja incapaz de apresentar alguma seqüência memorável para o imaginário
do espectador.
segunda-feira, setembro 09, 2013
Círculo de fogo, de Guillermo Del Toro ***1/2
Em um primeiro momento, “Círculo de fogo” (2013) pode
lembrar o genial “Tropas estelares” (1997). Afinal, as tramas de ambos
apresentam em comum jovens militares combatendo monstros alienígenas. Só que no
filme de Paul Verhoeven, o tom era de farsa sutil, trazendo um comentário irônico
velado sobre os excessos de uma sociedade militarizada. Já a produção dirigida
por Guillermo Del Toro é aventura puramente escapista. O roteiro é divertido,
mas na verdade é mero pretexto para exageradas cenas de ação. E nesse campo, “Círculo
de fogo” é um trabalho de fôlego. Os efeitos visuais são caprichados nos seus
detalhes visuais – os robôs gigantes, por exemplo, são muito mais convincentes
que aqueles da franquia “Transformers”. O design das criaturas que vêm das
profundezas marítimas revela um senso plástico elevado – são monstros efetivamente
asquerosos e assustadores. Del Toro aproveita muito bem essa expressiva matéria
prima: as cenas de batalhas são movimentadas e brutais na medida certa. Uma das
formas que dá para encarar essa ficção científica é pensar naqueles velhos
seriados japoneses de monstros (tipo Ultraman e Spectreman), cheios de
porradaria mas de estética fuleira, e vê-los devidamente recauchutados por um
orçamento milionário e um cineasta empolgado pelo gênero. O resultado é uma
releitura que se equilibra bem entre a nostalgia e a modernidade.
sexta-feira, setembro 06, 2013
As aventuras do Kon Tiki, de Joachim Ronning e Espen Sandberg ***
Os diretores noruegueses Joachim Ronning e Espen Sandberg obtém
uma síntese narrativa bastante eficiente em “As aventuras de Kon Tiki” (2012).
Tendo por base uma história real, o filme combina de forma harmoniosa drama
histórico, aventura e uma densidade psicológica aguçada tanto nas situações do
roteiro quanto na caracterização dos personagens. As paisagens exóticas são bem
valorizadas pela competente direção de fotografia, assim como a direção de arte
revela esmero na reconstituição de época. Mas a efetiva força criativa do filme
está em algumas sequências de ação empolgantes, principalmente naquelas
envolvendo tempestades marítimas e nos enfrentamentos alucinados contra tubarões.
E o filme não se prende nas soluções fáceis do tipo lições de vida e superação.
O que fica mais evidente é um caráter obsessivo, beirando o doentio, nas
atitudes dos personagens – tanto pode ser a vontade de provar alguma teoria
científica obscura quanto o simples desejo quase suicida de desafiar a natureza
e a morte. As figuras do filme parecem se mover mais por desejos atávicos do
que por algum impulso de moralidade. E isso acaba sendo mais assustador e
inquietante que os perigos enfrentados por eles no mar aberto.
quinta-feira, setembro 05, 2013
Não toque no machado, de Jacques Rivette ****
A obsessão na junção entre cinema e literatura de Jacques
Rivette atinge um alto grau de excelência artística em “Não toque no machado”
(2007). O cineasta francês preserva da obra original de Balzac aquilo que ela
tem de essencial: os diálogos que fluem entre o solene e o poético, a
dramaticidade que navega entre o sombrio e a ironia sutil. Nesse encruzilhada
de mídias, Rivette elabora uma narrativa realista de cunho muito particular –
as situações focadas no roteiro, as relações humanas, tudo sugere uma abordagem
que foge do idealismo romântico, mas ao mesmo tempo parece que se assiste a uma
obra cujo naturalismo pertence a uma outra dimensão. Talvez seja um plano de
realidade que se vincule ao universo resultante das fusões das concepções
formais e temáticas próprias tanto de Balzac quanto de Rivette. Até o trabalho
de direção de arte e figurino mais se relacionam a uma noção de imaginário de
uma época do que a um rigor histórico. A atuação do casal protagonista
está em sintonia com o ideário estético da obra, sendo que tanto Jeanne Balibar
como Guilaume Depardieu trazem caracterizações extraordinária na aura de
melancolia e alienação que imprimem em seus respectivos papéis. Dizem que
Rivette anda bem doente e que em razão disso dificilmente voltará a filmar. Se
isso realmente se concretizar, é inegável que “Não toque no machado” seria uma
contundente síntese dos preceitos artísticos que sempre nortearam a sua
filmografia.
quarta-feira, setembro 04, 2013
Augustine, de Alice Winocour ***
A temática da psiquiatria não é uma novidade no cinema,
principalmente no que diz respeito a roteiros inspirados em fatos reais. Do
emblemático “Freud além da alma” (1962) até o recente “Um método perigoso” (2011), o estudo
das doenças e meandros da mente renderam algumas obras de interesse. Nesse
caso, também pode ser enquadrada a produção francesa “Augustine” (2012), cuja
trama é baseada nos estudos sobre a histeria do professor Jean-Martin Charcot
(aqui interpretado com a habitual sobriedade de Vincent Lindon). A narrativa é
até bastante convencional e o próprio formalismo do filme não chega a
transcender dos limites do competente, além do roteiro por vezes enveredar por
um certo romantismo incômodo. Apesar de tais limitações, entretanto, o filme
ganha interesse pela sutileza com que expões contradições e dilemas. A
atmosfera sombria e rigorosa de “Augustine” traz em seu bojo a velha discussão
(mas ainda muito atual) do conflito entre o obscurantismo religioso contra a
busca da ciência por respostas mais verossímeis e humanas para os distúrbios
mentais. Na visão do filme, por mais que os métodos de Charcot possam ser
severos e por vezes de resultados duvidosos, ainda sim representam uma busca
mais digna do que o simples conformismo mistificador.
terça-feira, setembro 03, 2013
Amor louco, de Jacques Rivette ****
Um filme com mais de quatros horas de duração já faz o
espectador desavisado pensar em algum épico histórico ou algo semelhante. De
certa forma, até dá para dizer que Jacques Rivette fez uma espécie de épico em “Amor
louco” (1969), mas direcionado a um relacionamento amoroso. No filme em questão,
a trama se foca em dois planos – nos ensaios de uma peça e na decadência do
relacionamento amoroso do diretor da referida montagem com sua esposa, atriz
afastada da montagem mencionada. A ligação entre teatro e cinema é recorrente
na filmografia de Rivette e aqui atinge um ponto extraordinário em sua fluência
narrativa. As tomadas das passagens de texto, das discussões, dos laboratórios,
trazem ângulos e enquadramentos que oferecem uma dimensão inusitada para as
duas mídias. No cerne da produção fica evidente que o interesse maior de
Rivette está no registro do processo criativo de uma montagem teatral e não
tanto no resultado final (o que faz lembrar o recente e extraordinário “César
deve morrer”). A evolução artística da montagem, entretanto, parece
corresponder à degradação da vida pessoal de seu principal artífice. Nesse
sentido, a longa duração de “Amor louco” se justifica para além da mera
excentricidade. Rivette esmiúça os passos da dissolução mental da protagonista
Claire (Bulle Ogier) em cenas de uma crueza emocional exasperante. Nada parece
acontecer de forma gratuita, sendo que a decadência do relacionamento dos
amantes se estende e consolida de forma indelével. Seu melancólico ocaso, não à
toa, coincide com o ápice criativo da encenação que é a outra tônica da produção,
numa conclusão de perversa ironia de Rivette.
segunda-feira, setembro 02, 2013
Tabu, de Miguel Gomes ****
Num primeiro momento, a estética peculiar da produção
portuguesa “Tabu” (2012) pode sugerir um certo hermetismo. Afinal, o diretor
Miguel Gomes estabelece inextricável formalismo envolvendo citações e referências
cinematográficas e abordagem literária, principalmente no segundo momento da
trama. O que ocorre, entretanto, é que o filme impressiona justamente pela fluência
da narrativa em meio a suas experiências estéticas. Gomes perverte as noções de
dramaticidade e de tempo. Na primeira história que se desenvolve, predomina a
atmosfera de melancolia no meio de temas de viés triste como a solidão e a
velhice. No subtexto, pairam questões como o preconceito e a tradição
colonialista de Portugal. Gomes foge do óbvio, inserindo sutis traços irônicos,
mesmo quando a morte e a decrepitude vão se tornando mais evidentes. Quando a
trama passa para a segunda parte, a visão artística do cineasta se torna ainda
mais particular. É como se tratassem de lembranças do narrador. Sua voz parece
impertubável com as memórias que evoca, dando a impressão de quase recitar suas
falas. Essa prosa poética produz um contraste admirável e perturbador com as
imagens de tons nostálgicos que emanam da tela. Como se tratam de lembranças,
fotografia e direção de arte não se vinculam a uma predisposição ao realismo.
Ao contrário – a estilização fala mais alto, com direito a números musicais que
dão a impressão da reconstituição distorcida das antigas produções de Hollywood.
Raras vezes as paisagens africanas pareceram tão sedutoras e até mesmo oníricas,
mas o senso de sarcasmo perverso de Gomes nunca deixar cair “Tabu” no simples
contemplar de uma beleza visual superficial. A trágica história de amor
proibido que é o centro do roteiro, no final das contas, é mais um sintoma de
alienação dos colonizadores perante a realidade de exploração econômica e
social entre os europeus e os nativos do continente.
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