A abordagem estética e temática concebida pelo diretor
Michelangelo Frammartino para “As quatro voltas” (2010) se insere dentro uma
tradição cara ao cinema italiano, que é aquela vertente que busca uma linguagem
mais crua e realista. Isso pode ser verificado tanto no fundamental movimento
do neo-realismo, proeminente nas décadas de 40 e 50, quanto em obras clássicas
como “Pai Patrão” (1977) e “A árvores dos tamancos” (1978). O filme de
Frammartino, mesmo não estando no mesmo nível artístico das obras-primas
mencionadas, é uma produção de vigor e de caráter personalíssimo. Propõe uma
insólita combinação entre ficção e documentário a um ponto que fica difícil
separar um do outro. A forma com que as situações da trama são filmadas sugere
naturalismo e um tom quase casual, mas na realidade é encenação. E o que se
pressupõe aleatório em um primeiro momento se mostra como um rigor estético de
Frammartino, em meio a longos planos sequência que registram a ação da maneira
obsessiva em seus detalhes. Esse formalismo minucioso se revela fundamental
para realçar um dos aspectos mais fascinantes de “As quatro voltas” que é o seu
intrincado simbolismo, em que as trajetórias de três protagonistas
(um pastor, uma cabra e uma árvore) correm em paralelo e refletem a conflituosa
relação do homem com a natureza.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quarta-feira, abril 03, 2013
terça-feira, abril 02, 2013
Depois de Lúcia, de Michel Franco ***1/2
Em uma primeira impressão, pode-se perceber uma pretensa
abordagem formal e temática contida por parte da produção mexicana “Depois de Lúcia”
(2012) – ausência de trilha sonora, edição de cortes sóbrios, narrativa de dinâmica
serena e que se apóia por vezes em longos planos sequência. Tais escolhas do
diretor Michel Franco poderiam levar à conclusão de que o filme seria uma análise
séria sobre a questão do bulling entre adolescente. Ocorre, entretanto, que há
uma perversidade que beira o irônico em determinadas nuances da obra à medida
que o roteiro se desenrola. As cenas de violência psicológica e física cometida
contra a protagonista Alejandra (Tessa Ia) por
seus colegas de escola são perturbadoras, mas também trazem uma conotação
exagerada que lembra muito o contexto de produções exploitation típicas dos
anos 70. Interessante também que o roteiro de “Depois de Lúcia” traz uma carga
simbolista notável que vai muito além do simples retrato de um problema
contemporâneo. A figura de Roberto (Hernán Mendoza), pai de Alejandra, traz um
significado que está mais para tragédia grega de caráter universal do que para
um exemplar de pai classe média do século XXI – imerso em dor e culpa pela
morte da esposa, o personagem parece encontrar uma possibilidade de redenção e
de extravasar suas frustrações quando descobre os abusos sofridos pela filha.
Sua sinistra e politicamente incorreta vingança na conclusão do filme é catártica,
como se o próprio espectador se sentisse com a alma lavada depois de todos os
tormentos que Roberto e Alejandra sofreram. De certa forma, é quase como se “Desejo
de matar” fosse atualizado para os tempos atuais e ainda com uma certa aura
cult!!
segunda-feira, abril 01, 2013
Parker, de Taylor Hackford ***
O diretor norte-americano Taylor Hackford nunca se notabilizou
por inovações formais ou polêmicas temáticas em seus filmes. Pode-se dizer dele
que é um competente artesão. Isso não quer dizer, entretanto, que ele seja um
nome a se menosprezar no atual panorama. Prova disso foi a cinebiografia “Ray”
(2004), obra que foi uma bela tradução audiovisual do impacto da vida e da música
fundamental de Ray Charles. Em “Parker” (2012), sua obra mais recente, Hackford
não apresenta nada de novo e nem atinge o mesmo patamar de excelência artística
de “Ray”, mas mesmo assim apresenta uma produção bastante acima da média do que
tem sido feito no gênero ação nos últimos anos, pelo menos no que se trata
daquilo vindo das grandes estúdios de Hollywood. Mesmo com as típicas obviedades
narrativas e de roteiro, o que predomina é uma elegância no filmar que sabe
valorizar tanto a tensão (principalmente nas seqüências que envolvem os metódicos
e espetaculares roubos) quanto a pancadaria desenfreada – nesse último aspecto,
com destaque absoluto para as cenas de luta entre o protagonista
Parker (Jason Statham) e um assassino casca grossa num quarto de hotel, resultando
num clímax absurdo de porradaria e sangue. Para aqueles que já estão cansados
de filmes de ação em que não se entende o que está acontecendo em cena, “Parker”
chega a ser um alívio...
sexta-feira, março 29, 2013
Disparos, de Juliana Reis *1/2
Dá para dizer que o diretor norte-americano Robert
Altman ditou os parâmetros dos filmes mosaicos – aquelas narrativas em que há
uma multiplicidade de personagens e subtramas (que geralmente se interligam, de
forma tênue ou não), sem que haja um protagonista definido. Obras clássicas
como “Nashville” (1975), “Cerimônia de casamento” (1978) e “Short cuts” (1993) são
referenciais na filmografia de Altman dentro dessa linha cinematografia e até
se tornaram bastante influentes. Alguns aprenderam direitinho a lição e até
fizeram algumas obras interessantes (caso de Paul Thomas Anderson no extraordinário
“Magnólia”). Outros, entretanto, limitaram-se a macaquear de forma equivocada e
sem inspiração os preceitos de Altman. Exemplo máximo desse último caso é “Crash”
(2004) de Paul Haggis. E parece que é justamente “Crash” o modelo inspirador de
“Disparos” (2011). No roteiro do filme da cineasta Juliana Reis até se insinua
uma espécie de protagonista na figura do fotógrafo Henrique (Gustavo Machado),
mas ao longo da narrativa a trama vai se dissipando em ramificações um tanto
disparatadas e que se resolvem de forma gratuita e forçada. Isso faz com que a
tensão promissora da premissa de Henrique ser sufocado pelo submundo kafkaniano
de marginais e policiais corruptos acabe se esvaziando. O filme insiste na
tecla de pequenos burgueses angustiados e sufocados pelo cotidiano de solidão e
violência (nesse sentido, evocando novamente o politicamente correto “Crash”),
o que dilui ainda mais a sua densidade dramática
quinta-feira, março 28, 2013
Vai que dá certo, de Mauricio Farias **1/2
Um dos males dos quais assola o cinema brasileiro contemporâneo
é a necessidade de formatá-lo de acordo com aquilo que pode ser “vendável”. Um
seriado televisivo faz sucesso? Ora, vamos lançá-lo como filme!! Isso sem
contar a absorção de maneirismos típicos da TV para o cinema. É claro que há
boas chances de tal tática render bem nas bilheterias, mas também é inegável
que gera uma série de obras descartáveis e medíocres. E se agora a onda é a comédia
stand up, por que não fazer um filme utilizando os preceitos de tal linguagem? O
resultado é esse “Vai que dá certo” (2012), que utiliza por base o roteiro de
alguns cômicos do gênero stand up que estão em evidência. O curioso é que
apesar de um roteiro equivocado pelo uso exagerado de “espertezas”, a produção
até consegue ser envolvente, graças a direção mais equilibrada de Mauricio
Farias. Sua condução de narrativa consegue, por vezes, gerar tensão, ainda que
a trama seja constantemente interrompida por diálogos engraçadinhos com citações
de cultura pop (sim, tem gente que ainda acha isso muito inteligente...) e
intervenções performáticas que mais caberiam num palco do que num filme
policial (ainda que com elementos cômicos). E se as atuações de Bruno Mazzeo, Gregório
Duvivier, Fábio Porchat e Felipe Abib enchem o saco pelo tom histriônico e de
densidade zero, por outro lado chega a impressionar o desempenho de Lúcio Mauro
Filho, que consegue fazer a sua persona cômica habitual “sumir” na sua composição
dramática.
quarta-feira, março 27, 2013
Os croods, de Chris Sanders e Kirk DeMicco ***1/2
Nas animações contemporâneas, é inegável que a Pixar é a
grande referência em termos artísticos e tecnológicos, o estúdio em que a
grande maioria se mira. É dali que vem boa parte das inovações e das tendências.
Dito isso, “Os Croods” (2013), da Dreamworks, não estabelece novos parâmetros
para o gênero, como era de se esperar. A produção se limita a seguir uma
cartilha, mas faz isso com notável competência e nisso acaba se sobressaindo,
mostrando-se até acima da média. O roteiro é muito bem engendrado, combinando
as tradicionais doses de humor, aventura e sentimentalismo com um subtexto de
forte teor questionador, oferecendo uma visão crítica sobre comodismo e a
defesa arraigada de tradições obsoletas. Já em termos gráficos, o filme
impressiona tanto pela beleza do traço quanto pelo nível de realismo – por vezes
se tem a impressão de se estar vendo uma obra de live action – trazendo um
efeito encantador peculiar para o seu visual. De se destacar ainda uma narrativa
muito envolvente, repleta de sequências de ação estonteantes na sua dinâmica,
aliadas a um aguçado senso de tensão que oferece tanto para as situações como
para os personagens uma dimensão dramática cativante.
terça-feira, março 26, 2013
Os miseráveis, de Tom Hooper **1/2
O romance “Os miseráveis” de Vitor Hugo é uma das grandes
obras literárias a tratar sobre o humanismo. O livro trafega de forma constante
num tênue limite, em que seu caráter fortemente dramático e emocional parece
sempre à beira de descambar para o sentimentalismo excessivo, coisa que a pena
afiada do escritor não permite. Essa versão mais recente (2012) do romance é
baseada num musical da Broadway que adaptou o romance em questão. Devido a tal
origem, é evidente que há o perigo que predomine o exagero kitsch – e é o que
acaba acontecendo, com o diretor Tom Hooper transformando a trágica trajetória
do protagonista Jean Valjean (Hugh Jackman)
num exagerado espetáculo embregalhado, repleto de grandiloquentes e melosas
canções de gosto duvidoso e uma encenação destituída de qualquer senso de
sutileza. Além disso, Hooper por vezes se equivoca ao apelar para uma concepção
visual digna de vídeo clips da MTV. “Os miseráveis”, entretanto, está longe de
ser esse desastre completo que se anda comentando entre público e crítica. A
reconstituição estilizada da Paris do século XIX revela certo encanto visual, e
por vezes o filme até consegue ser divertido ao apresentar uma narrativa de
eventuais tons delirantes. Mesmo o elenco apresenta algumas atuações
cativantes, principalmente no caso de Jackman, Helena Bonham Carter e Sacha Baron
Cohen. No final das contas, fica valendo como curiosidade, apesar da frustração
de não conseguir captar com alguma fidelidade a essência do brilhante original
de Vitor Hugo (ao contrário, por exemplo, da extraordinária versão cinematográfica
de “Anna Karenina” concebida por Joe Wright, também lançada em 2012).
segunda-feira, março 25, 2013
A fuga, de Stefan Ruzowizky ***
A narrativa de “A fuga” (2012) se estabelece a partir de uma
estrutura bem definida: é uma obra do gênero ação que se desenrola a partir de
uma trama cujo foco são relações mal resolvidas em três núcleos familiares.
Assim, todo o sangue e brutalidade que saltam das telas funcionam, em níveis
simbólicos, como uma espécie de expiação das culpas que exalam dessas relações
familiares disfuncionais. Nesse sentido, quando envereda para o drama, o filme
se mostra um tanto frágil enquanto narrativa, insistindo em um psicologismo de
araque. A obra se mostra se mostra efetivamente convincente quando envereda
para a ação propriamente dita. As seqüências na neve, tanto nas de lutas
corporais quanto em tiroteios e perseguições, trazem um registro visual
poderoso, com a direção de fotografia conseguindo captar a beleza bruta de uma
natureza árida e inóspita (nesse aspecto, os efeitos metafóricos são mais
eficientes, em que as paisagens geladas funcionam como reflexo da própria
condição existencial embrutecida dos personagens), além da encenação do diretor
alemão Stefan Ruzowizky, aliada a uma edição de talhe clássico, ser bastante
precisa e clara no detalhamento dos embates entre seus personagens. Em tais
momentos, a dimensão dramática do protagonista
Addison (Eric Bana) cresce de forma admirável. Os diálogos entre ele e a menina
que salva do padrasto violento, por exemplo, evocam uma espécie de conto de
fadas estranho e perturbador.
sexta-feira, março 22, 2013
Killer Joe - Matador de aluguel, de William Friedkin ****
Assim como em “Bug – Possuídos” (2006), o diretor William
Friedkin usa como base de trama em “Killer Joe – Matador de aluguel” (2012) uma
peça teatral. Mas isso não quer dizer que temos puro teatro filmado. Ainda mais
que Friedkin é um dos grandes mestres vivos da manipulação da linguagem
cinematográfica. Nesse seu filme mais recente, o cineasta não esquece as raízes
de dramaturgia de seu roteiro. É visível em várias passagens do filme uma
atmosfera que não se limita ao naturalismo, em uma narrativa cujo tom exagerado
por vezes beira o delirante. Assim, por mais que se evoque uma linha temática
que descenda da sordidez típica do policial noir (e, por conseqüência, lembre
algumas produções dos Irmãos Coen), “Killer Joe” possui uma estética muito própria.
Os personagens se arrastam em cena como se estivessem em um drama grego trágico
clássico, onde cada diálogo e cada gesto carregam uma simbologia obscura. O
efeito sensorial é desconcertante, até porque Friedkin não se priva de abusar
de uma violência grotesca e até cômica. A sua noção de utilização de recintos
fechados é igualmente criativa e perturbadora – a composição cênica, os
enquadramentos e a iluminação compõem um todo imagético de forte teor
estilizado, remetendo a uma metáfora visual de que os personagens
progressivamente rumam para seus infernos pessoais. Nesse sentido, a noção do
desenrolar dramático da narrativa é de condução exemplar, chegando a uma
conclusão climática de pura catarse negativista. A impressão final aparente que
se pode ter é de uma espécie de cruzamento bastardo entre o onirismo enviesado
de David Lynch com o virtuosismo típicos de Brian De Palma e dos já mencionados
Coen. No final das contas, entretanto, é apenas Friedkin se voltando cada vez
mais para padrões autorais muito particulares, mas essenciais para o cinema
contemporâneo.
quinta-feira, março 21, 2013
Super Nada, de Rubens Rewald **
Sem querer parecer maniqueísta, mas atualmente pode ser
percebida uma diferenciação estético-ideológica entre as escolas cinematográficas
nacionais de acordo com o Estado de que elas provem. Nesse sentido, Pernambuco,
por exemplo, é marcado por produções que enveredam por uma visão temática
bastante questionadora, por vezes até anárquica, e marcada por ousadias
formais. Em contraponto, São Paulo tem apresentado um cinema mais asséptico e blasé,
adotando um discurso niilista e irônico de
formato um tanto engessado. “Super Nada” (2012) é bem emblemático desse jeito
paulista contemporâneo de fazer cinema. A gente pode perceber as boas idéias, a
necessidade de captar o zeitgeist desse milênio, mas a forma com que as coisas
se desenvolvem na tela é de um academicismo e previsibilidade irritantes – tudo
parece seguir um manual típico de faculdades de cinema. Para retratar a
atmosfera de mediocridade e letargia de seu protagonista,
um ator na pindaíba financeira e moral, o diretor Rubens Rewald opta por uma
abordagem estética árida e sem atrativos, que pode até ser coerente com a trama
do filme, mas que por outro lado em nenhum momento se mostra capaz de causar
algum arrebatamento para o espectador.
quarta-feira, março 20, 2013
Anna Karenina, de Joe Wright ****
Seria muito reducionista tentar analisar essa mais recente
versão cinematográfica de “Anna Karenina” (2012) pelo ângulo de uma simples
comparação com o original literário de Léon Tolstoi. Até porque não haveria
como condensar todos os detalhes de um romance de 800 páginas em um filme de
pouco mais de duas horas. Na realidade, a pretensão do diretor Joe Wright é
muito mais ousada do que uma simples transcrição visual daquilo que está no
livro. Assim como já havia feito no extraordinário “Orgulho e preconceito” (2005),
o que o cineasta elaborou foi uma tradução sensorial da história concebida por
Tolstoi, condensando no roteiro aquilo que há de essencial. Para isso, recorre
a um aparato estético fortemente barroco e até intrincado, mas que se mostra em
perfeita sintonia com os ideais do escritor russo. A fusão que se dá entre
cinema e teatro não é gratuita, evidenciando até uma verve irônica perversa –
afinal, o teatro era um dos principais pontos da vida social da sociedade russa
no século XIX. O filme sugere que as relações humanas naquele meio eram tão
cerimoniosas e hipócritas que na realidade acabavam se configurando como
encenação da própria vida. Para ilustrar tais preceitos de estilização da
narrativa, Wright transforma “Anna Karenina” em um show de virtuosismo, repleto
de planos sequências estonteantes, uso de sons ambientais que evocam um insólito
tom de musical, fotografia de iluminação que beira o irreal e edição cujos
cortes e fusões de imagem enfatizam ainda mais o caráter algo delirante da
narrativa. O aparente exagero de truques formais não faz com que “Anna Karenina”
caia no hermetismo estéril. Pelo contrário – propicia ao espectador que entre
no imaginário tanto de uma época quanto da mente de um escritor tão brilhante
quanto Tolstoi. Quem dera que a maioria das adaptações para o cinema de um
livro fosse assim...
terça-feira, março 19, 2013
A busca, de Luciano Moura **1/2
O cinema brasileiro parece ainda estar em busca de um novo “Central
do Brasil” (1998). Esse pensamento é que me veio à mente quanto assisti à “A
busca” (2013). Toda a estrutura narrativa do filme de Luciano Moura parece uma
espécie de tributo espiritual à obra mais conhecida de Walter Salles. A
progressão é basicamente a mesma: protagonista
é obrigado a sair da cidade e viajar pelo interior do Brasil, e nesse processo
acaba fazendo uma viagem de autodescoberta, tornando-se um ser humano melhor.
Também como naquela produção de Salles, a trajetória do personagem principal
serve como uma metáfora para o atual contexto social/político/existencial do
Brasil, pregando uma necessidade de revalorização de certos princípios. Há
aquela velha dicotomia – é necessário se desligar do ambiente corrompido e
confuso das grandes metrópoles e retomar os sentimentos puros e simples
inerentes ao homem do campo. Como o próprio Salles gostar de alardear, é a
busca do Brasil profundo... A formatação e o discurso de “A busca” podem ser um
tanto manjados, refletindo a necessidade de uma parcela de nossos cineastas e
roteiristas em buscar sair de uma certa zona de conforto em termos criativos.
Estão aí filmes extraordinários como “A febre do rato” (2011) e “O som ao redor”
(2012) mostrando que há diferentes caminhos a serem percorridos. É inegável,
entretanto, que a obra de Luciano Moura revele uma capacidade de se mostrar
envolvente como espetáculo em alguns momentos, ainda que repise nos seus clichês
dramáticos. Na sua meio hora inicial, há uma atmosfera que até por vezes beira
o tenebroso na sua carga sombria e negativista. Com o desenrolar da trama, aos
poucos isso se dissipa, evoluindo para um incômodo tom edificante, chegando-se
à conclusão que evoca mais do mesmo.
segunda-feira, março 18, 2013
Barbara, de Christian Petzold ***
O rigor estético típico do cinema alemão presente em “Barbara”
(2012) se estende de forma notável para a própria temática do filme.
Formalmente, a produção dirigida por Christian Petzold adota
uma postura clássica e elegante – não propicia grandes arrebatamentos visuais,
mas a sua coerência narrativa é precisa ao caracterizar de forma sóbria o
ambiente sufocante que envolve a protagonista
do título. A trilha sonora, em boa parte das cenas, é inexistente,
valorizando-se os silêncios como fator de tensão. Nesse sentido, o roteiro da
obra se mostra em sintonia com a abordagem de Petzold, enfatizando diálogos que
mantém um bem arquitetado equilíbrio dramático entre o sugerido e o ostensivo.
Toda essa formatação arquitetada pelo cineasta abarca uma visão ética e social
surpreendente na sua ausência de maniqueísmos óbvios. Por mais que sejam
realçados os instrumentos de opressão de um Estado totalitário
como a Alemanha Oriental da época da cortina de ferro, “Barbara” está longe de
ser um manifesto pelo “capitalismo democrático”. Com sutileza, são inseridos
elementos de dúvida ao longo da trajetória da personagem principal, fazendo com
que seus desejos fiquem mais difusos em relação ao que realmente quer para si
(fugir ou não para o lado ocidental). Assim, as soluções não se apresentam fáceis,
deixando o filme ainda mais instigante.
sexta-feira, março 15, 2013
A parte dos anjos, de Ken Loach ***1/2
Assistindo a “A parte dos anjos” (2012), do cineasta
britânico Ken Loach, a conexão que mais me veio à mente foi com um dos
primeiros longas de ficção do próprio Loach, “Kes” (1969). Em ambos os filmes, há
a presença de um protagonista desajustado
perante os padrões comportamentais da sociedade, mas que dentro de si esconde
um dom insuspeito. Na visão de Loach, a falha maior não está na incapacidade de
seus personagens em se adaptarem às comunidades em que se encontram, mas sim na
falta de sensibilidade das pessoas em poder reconhecer as potencialidades
desses indivíduos. A insistência do diretor na abordagem de temáticas
semelhantes não se configura como mera repetição, mas sim com uma admirável
coerência artística de Loach, além de revelar a perenidade de seu cinema.
“A parte dos anjos” também revela muito da extraordinária
capacidade narrativa de Loach. Nas mãos de um diretor qualquer, a trama do
filme poderia cair facilmente no campo do sentimentalismo ostensivo ou de
artificiais tons edificantes. Já pelo olhar de “Loach”, o roteiro da produção
ganha um tratamento formal sóbrio, mas também encantador. O registro visual é
objetivo, por vezes beirando o documental, mas esse tratamento estético acentua
de forma considerável a dramaticidade das situações, assim como a empatia com os
personagens. Impressiona também como numa trama de forte caráter social, a
expor a falta de perspectivas para a juventude nas periferias de Glasgow, Loach
consegue inserir com naturalidade uma dinâmica de gênero de “thriller”, sem que
a obra perca o seu tom humanista. Isso é recorrente na cinematografia do cineasta:
a capacidade de ser reflexivo (ou até mesmo panfletário) sobre os problemas
sociais contemporâneos, mas com afiadas noção e dinâmica de espetáculo
cinematográfico.
quinta-feira, março 14, 2013
O quarteto, de Dustin Hoffman **1/2
Dentro do gênero comédia dramática com velhinhos fofinhos, “O
quarteto” (2012) consegue mostrar algumas surpresas, ainda que preso a algumas
fórmulas narrativas. Mesmo não apresentando grandes voos criativos, Dustin
Hoffman até que se revela um diretor com alguma sensibilidade, principalmente
no que diz respeito à direção do seu elenco. O fato da trama se passar num lar
de idosos direcionados a músicos aposentados permite que o filme apresente
algumas cenas memoráveis. Há sequências expressivas na utilização da música,
que conseguem dar uma dimensão inebriante para as cenas. Os dilemas da velhice
são expostos, por vezes, com algumas cruezas inquietantes. Nesse sentido, há
uma bela sacada do roteiro ao fazer com que no asilo existam algumas belas e
jovens mulheres que lá trabalham que fazem um contraste um tanto perturbador
com a velhice dos protagonistas, realçando
tanto uma serena melancolia como um sentimento de impotência. Ou seja, no final
das contas, o cineasta Dustin Hoffman pode não ter a mesma grandeza artística
que tem como ator, mas com o “O quarteto” até desperta a curiosidade para um próximo
trabalho.
quarta-feira, março 13, 2013
Amor é tudo o que você precisa, de Susanne Bier *1/2
Os primeiros filmes que vi da cineasta dinamarquesa Susanne
Bier, “Corações livres” (2002) e “Brothers” (2004), eram obras bastante
vigorosas, que revelavam influências claras da estética crua e das temáticas
impactantes do movimento Dogma 95, que teve entre seus principais criadores o
irrequieto Lars Von Trier. Com o tempo, entretanto, a diretora foi perdendo o
seu gume cortante de sua abordagem, o que acabou resultando em obras cada vez
mais genéricas e óbvias. “Amor é tudo o que você precisa” (2011) representa a
triste coroação dessa despersonalização do cinema de Bier. A diretora recicla idéias
e concepções já utilizadas em algumas de suas produções anteriores e formaliza
tudo como uma comédia romântica. O resultado é desajeitado e por vezes
constrangedor – aquele registro visual cru e de viés naturalista entra em
descompasso com a narrativa formulaica. É claro que Bier dá uma disfarçada na trama,
colocando uns detalhes um pouco mais insólitos aqui e ali (câncer, homossexualismo),
mas isso não tira os deméritos de um roteiro marcado por incongruências, apelações
e diálogos que beiram o infantil. E ainda tem o “mérito” de extrair uma das
piores atuações da vida de Pierce Brosnan.
terça-feira, março 12, 2013
Oz, mágico e poderoso, de Sam Raimi ***
A trajetória artística do cineasta norte-americano Sam Raimi
é bastante emblemática no sentido de representar as contradições da indústria
cinematográfica contemporânea nos Estados Unidos. No seu início de carreira,
foi um dos grandes nomes do cinema independente de seu país, em que as condições
modestas de produção contrastavam com o alto nível de criatividade estética. A
sua trilogia “Evil Dead” é o ápice dessa fase. Quando ingressou no ritmo dos
grandes estúdios e teve à sua disposição uma infra-estrutura maior, Raimi
conseguiu em alguns momentos preservar a sua assinatura autoral, resultando em
algumas obras antológicas (“Darkman”, “Um plano simples”, “Homem-aranha 2” e “Arrasta-me
para o inferno”). Em algumas outras ocasiões, entretanto, a pressão dos produtores
para entregar um filme de acordo com os padrões médios do mercado falou mais
alto. “Oz, mágico e poderoso” (2013) se encaixa nesse último caso. Não que o
filme seja completamente descaracterizado de traços estilísticos típicos de
Raimi. Em algumas seqüências, dá para ver a boa mão do diretor para o cinema
fantástico – o pique alucinado e cartunesco de determinadas seqüências de ação
(em que há uma interessante conjugação entre a encenação live action com animação)
e a personalíssima caracterização visual de personagens e cenários fazem valer
o ingresso. Além disso, Raimi consegue extrair algumas interpretações
fortemente carismáticas de seu elenco, principalmente no caso de James Franco e
Michelle Williams. O que impede “Oz” de vôos criativos mais altos é uma
narrativa por vezes demasiadamente convencional, que faz com que a tensão dramática
seja de baixa densidade. No final das contas, é uma produção curiosa, mas que
deixa a permanente sensação de que poderia ter sido muito melhor.
segunda-feira, março 11, 2013
Hitchcock, de Sacha Gervasi ***1/2
É claro que os aspectos históricos da trama biográfica de “Hitchcock”
(2012) são saborosos, configurando um forte atrativo para cinéfilos e neófitos.
A grande força do filme de Sacha Gervasi, entretanto, está na sua construção
estética. A trama da obra se desenvolve a partir de um processo tortuoso e
fascinante – o caso real dos múltiplos assassinatos cometidos pelo psicopata Ed
Gein se transformou no livro ficcional chamado “Psicose” que foi adaptado por
Hitchcock no clássico do suspense de 1960 e, por fim, todas essas ramificações
se unem no roteiro da produção de Gervasi. Essa atribulada trajetória não é
recriada por um viés necessariamente naturalista ou exatamente fieis aos fatos.
O que se apresenta na tela é muito mais os aspectos lendários que rondam o
nosso imaginário cinematográfico sobre Hitchcock e “Psicose”, sem que, contudo,
a produção deixe de ser muito esclarecedora sobre os mecanismos de realização e
dos interesses que envolviam (e ainda envolvem) a indústria de cinema em
Hollywood.
No seu formalismo, há uma grande sacada estética por parte
de Gervasi em “Hitchcock” – apesar de biográfico, ele formata o filme como se
fosse uma obra de suspense, na melhor tradição de seu protagonista.
As viradas do roteiro, as ambientações tensas, a trilha sonora quase paródica a
emular temas de Bernard Herrmann, habitual colaborador de Hitchcock – tudo funciona
como uma espécie de caricatura irônica do próprio estilo do cineasta. Essa
viagem pelas concepções artísticas do diretor, por vezes, chega às raias do
perturbador, vide as seqüências oníricas (ou mesmo delirantes) em que Hitchcock
interage com Ed Gein tanto como pesquisa para “Psicose” como para
aconselhamentos pessoais.... É por essa abordagem insólita que “Hitchcock” se
impõe como umas das obras recentes mais contundentes a discutir o fazer
cinematográfico, além de valorizar de forma perspicaz o gênio estilístico de um
dos maiores mestres do cinema.
sexta-feira, março 08, 2013
A hora mais escura, de Kathyn Bigelow ****
Assim como no filme anterior da diretora Kathyn Bigelow, “Guerra
ao terror” (2008), não dá para dizer exatamente que “A hora mais escura” (2012)
seja uma obra ufanista ou não perante os conflitos dos Estados Unidos com o
Oriente Médio. O filme até tem um estudo histórico preciso e rigoroso ao
mostrar a trajetória das atividades de inteligência e militar dos EUA do início
da década passada até hoje visando a caçada a Osama Bin Laden. A ênfase temática
de Bigelow, entretanto, desloca-se com sutileza para um aspecto mais intimista –
é como se a cineasta estivesse mais interessada nos efeitos que a caçada
obsessiva ao terrorista provocou nos envolvidos, principalmente na protagonista,
a agente Maya (Jessica Chastain). Quando as polêmicas sequências de tortura
surgem, de encenação seca e brutal, o roteiro sugere a contradição em que a
busca da defesa dos valores democráticos acaba utilizando meios que levam à
desumanização de seus praticantes. Por esse ângulo, como falar que o filme pode
justificar a tortura?
A riqueza artística de “A hora mais escura” não se restringe
a sua sobriedade temática. Bigelow volta a demonstrar a sua excelente mão para
o cinema de ação. Ainda que boa parte da trama se desenvolva em gabinetes e
escritórios, com longas cenas de diálogos, a dinâmica da narrativa é
eletrizante, tanto na tensão quanto na violência gráfica. O rigor objetivo da
encenação revela influências de um estilo documental de filmar, mas a diretora
tem a sabedoria de conciliar com nuances dramáticas e emocionais impactantes, o
que não significa uma concessão ao sentimentalismo. Pelo contrário. As escolhas
estéticas de Bigelow vão se revelando cada vez mais coerentes, sendo que a brilhante
meia-hora final do filme, com a operação de invasão ao esconderijo de Bin Laden
e sua execução, é uma aula de concisão cinematográfica.
quinta-feira, março 07, 2013
Caverna dos sonhos esquecidos, de Werner Herzog ***1/2
Para os desavisados, o
documentário “Caverna dos sonhos esquecidos” (2010), nas suas primeiras cenas,
pode fazer pressupor uma obra de caráter institucional e educativo a expor as
descobertas científicas relativas a uma caverna no interior da França onde se
encontram as mais antigas pinturas rupestres. À medida que a narrativa se
desenvolve, entretanto, as particulares concepções artísticas do cineasta
Werner Herzog afloram de forma contundente. Os registros audiovisuais obtidos
no local são pioneiros – Hergoz e sua equipe foram os primeiros a terem
autorização para filmar a caverna. Por outro lado, esse acesso foi limitado em
termos temporais, com Herzog e companheiros tendo apenas algumas horas diárias
para fazer toda a sua filmagem. Para o alemão, tais dificuldades são normais
quando ele envereda para o cinema verdade, vide outras produções antológicas
que dirigiu no gênero. Herzog transforma as dificuldades em elemento dramático,
por vezes se torna ele mesmo personagem, afastando assim o filme do simples
registro objetivo e jornalístico. Até os depoimentos de cientistas e estudiosos
ganham uma conotação de transcendência filosófica
e existencial, extravasando os limites didáticos. A ambientação criada por
Herzog a partir de sua abordagem temática/formal ganha um caráter entre o
solene e o reflexivo – tentar entender o que se passou há milhares de anos
naquela caverna é também procurar a compreensão do próprio comportamento humano
no decorrer da história. E para referendar ainda mais a etiqueta “imperdível”
para “Caverna dos sonhos esquecidos”, pode-se caracterizá-lo como uma das mais
expressivas utilizações da tecnologia 3D no cinema.
terça-feira, março 05, 2013
Colegas, de Marcelo Galvão **
O fato de usar como protagonistas
um trio de portadores de Síndrome de Down não parece ter influenciado de forma
positiva o diretor Marcelo Galvão na realização de “Colegas” (2012). Não que os
referidos atores sejam o ponto fraco do filme. Pelo contrário: as atuações dramáticas
deles são muito boas, oferecendo à obra alguns de seus melhores momentos. O
fato é que o filme sofre de auto-indulgência. A direção de Galvão é frouxa,
padecendo da falta de um maior apuro formal e de um roteiro mais consistente. É
como se o cineasta tivesse juntado uma série de seqüências cômicas, que oscilam
entre o bobo e o efetivamente engraçado, e algumas citações cinematográficas
disparatadas e amarrasse tudo numa narrativa frágil e trôpega. Não há a mínima
tensão no filme, fruto de uma encenação que está mais para um rascunho metido a
engraçadinho do que para cenas bem acabadas formalmente. Talvez a intenção de
Galvão fosse buscar uma singeleza naif nas suas concepções artísticas, mas o
resultado é apenas a evocação de um amadorismo por vezes constrangedor e de
anemia criativa, isso quando não descamba para um sentimentalismo barato pela
narração despropositada na voz over de Lima Duarte (que tira qualquer espaço
para sutileza temática do filme).
segunda-feira, março 04, 2013
Meu amigo Cláudia, de Dácio Pinheiro ***
Nas primeiras seqüências de “Meu amigo Cláudia” (2009),
pode-se ter a impressão de uma obra de alcance muito específico. Afinal, a
narrativa fica concentrada na biografia do transexual Cláudia Wonder, focando
mais os aspectos intimistas da sua figura protagonista.
Com o desenvolver do documentário, entretanto, o filme vai ganhando uma conotação
mais abrangente. Afinal, Cláudia participou de alguns filmes da ativa indústria
de filmes eróticos nos anos 70 e 80, além de ter sido vocalista de bandas roqueiras
que militavam no underground paulista da década de 80. Assim, o diretor Dácio
Pinheiro consegue oferecer um interessante panorama cultural e comportamental
da época, mostrando muitos dos dilemas e contradições de uma geração que recém
saía da sombra tenebrosa da ditadura e se via diante de possibilidades
criativas que antes lhes eram vedadas, caindo assim num período de alta efervescência
artística e também de muitos excessos em todos os sentidos. Uma das mais
interessantes contraposições do filme é mostrar que esse período de intensa
atividade cultural e comportamental revelava uma concepção de arte que fugia
dos compromissos com um certo padrão de bom gosto e de assepsia que hoje em dia
ditam muito dos caminhos artísticos. Nesse sentido, Pinheiro parece fazer uma
declaração de fé de sua admiração por aqueles padrões artísticos oitentistas ao
utilizar uma abordagem estética mais suja, em que por vezes a imagem evoca as imperfeições
de uma gravação em VHS, além da edição buscar um estilo de colagem de imagens
de arquivo e depoimentos recentes.
sexta-feira, março 01, 2013
De coração aberto, de Marion Laine ***1/2
Em uma obra cuja temática gira em torno de questões como
gravidez, alcoolismo e relacionamento amoroso instável, há sempre o perigo de
que uma perspectiva de sentimentalismo e de lugares comuns acabe afetando a
narrativa. Pois em “De coração aberto” (2012) a cineasta francesa Marion Lane
se afasta dessas armadilhas a partir de uma abordagem bastante incisiva. Sua
encenação prima pelo visceral – na relação entre o casal de protagonistas
Mila (Juliette Bichoce) e Javier (Edgar Ramirez) também há espaço para a
ternura quanto para uma crueza incômoda. A diretora procura contrastes sutis e
desconcertantes ao concentrar a ação no ambiente asséptico de um hospital de
transplante e no apartamento do casal, local esse último que se deteriora de
forma simultânea à própria relação de Mila e Javier que entra em violenta crise
emocional. O requinte e o rigor na filmagem de operações de transplantes,
explicitando sangues e órgãos, parece aludir à forte carnalidade e à intensidade
na forma com que os personagens principais se relacionam. O formalismo de Laine
apresenta aparentemente uma preferência pelo naturalismo, mas nos momentos
finais do filme é inserida na narrativa uma estética simbolista, entre o onírico
e o delirante, o que aumenta ainda mais o impacto sensorial da obra.
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
O dobro ou nada, de Stephen Frears **1/2
Herdeiro do cinema realista britânico dos anos 60 e 70, o
diretor Stephen Frears teve como principal mote da sua filmografia uma
visceralidade, tanto formal quanto temática, nas suas concepções artísticas.
Isso era patente tanto nas comédias e dramas de cunho social que dirigia no seu
país natal (“Minha adorável lavanderia”, “O amor não tem sexo”, “Sammy e Rosie”,
“A grande família”) quanto nas recriações de gêneros que realizou nos Estados
Unidos, onde fez trabalhos notáveis em drama de época (“Ligações perigosas”),
noir (“Os imorais”) e comédia estilo Frank Capra (“Herói por acidente”). Nos últimos
anos, entretanto, o gume cortante do cinema de Frears diminuiu
consideravelmente, resultando em obras que beiram o anódino. E esse é o caso
justamente desse “O dobro ou nada” (2012). É claro que o cineasta revela competência
narrativa, típica de quem está anos na estrada, além de por vezes criar uma
interessante atmosfera de ambigüidade moral e de evidenciar a sua boa mão na
direção de atores. O que incomoda em “O dobro ou nada” é a acomodação criativa
de Frears – não há no filme qualquer momento de arrebatamento que possa
efetivamente tornar o filme uma experiência memorável.
quarta-feira, fevereiro 27, 2013
Duro de matar - Um bom dia para morrer, de John Moore *
Por mais oportunistas que possam ser como exemplares de uma franquia
lucrativa, podia-se dizer que as continuações do clássico da ação “Duro de
matar” lançado em 1988 não chegavam a um nível de ruindade. Sempre houve uma
preocupação em seguir alguns preceitos estéticos do primeiro filme, assim como
um roteiro razoável que justificasse com alguma propriedade os tiros, as explosões
e a pancadaria típicos da série. Tudo isso, entretanto, é jogado no lixo nesse
recente “Duro de matar – Um bom dia para morrer” (2013). No geral, é como se o
protagonista John McClane (Bruce Willis)
tivesse sido jogado numa produção de ação qualquer carente de personalidade e
estilo. Pior: às vezes temos até a impressão de que McClane virou personagem do
game GTA. Afinal, a impressão que se tem é que a referência do diretor John
Moore para perseguições automobilísticas é um monte de carros se batendo e
destruindo tudo que vem pelo caminho. Esse formalismo equivocado e medíocre,
aliado a uma trama burra e destituída de qualquer espécie de sutileza, jogam o
filme para um nível muito baixo no quesito “horrível”. O mito McClane merecia
um pouco mais de respeito...
terça-feira, fevereiro 26, 2013
O voo, de Robert Zemeckis ***
Há pelo menos dois bons motivos para se assistir a “O voo”
(2012). O primeiro seria a sequencia do acidente de avião, logo no início do
filme, um exercício notável cinematográfico de técnica e efeitos aliado a uma
atmosfera poderosa de tensão. E o outro fator de atrativo para a obra seria o
desempenho de Denzel Washington, numa atuação dramática que concilia com precisão
carisma e intensidade. É de se considerar positivamente também nessa obra mais
recente do diretor Robert Zemeckis um inquietante clima de ambiguidade moral a
abordar temas polêmicos como culpa e uso de drogas. A abordagem formal de
Zemeckis chama atenção, principalmente pela dinâmica bem executada de planos e
enquadramentos que dão uma ambientação um tanto sufocante ao filme. Nesse
sentido, a edição do filme reforça essa sensação, principalmente na forma com
que encaixa a excelente trilha cancioneira roqueira nas cenas, configurando por
vezes uma narrativa vertiginosa impregnada de hedonismo e tentativas de expiação.
Todo esse panorama contraditório de “O voo” acaba esvaziado, entretanto, quando
o roteiro envereda no seu final para uma conclusão moralista e estapafúrdia,
revelando uma incômoda falta de sintonia com toda a proposta estético-formal
que o filme havia usado como base.
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
As sessões, de Ben Lewin ***1/2
Há em “As sessões” (2012) uma intrincada combinação de
elementos em sua trama, em que lirismo poético, sexo, culto apolíneo à beleza e
beatitude religiosa se integram de forma insólita e consistente. A abordagem
formal do diretor Ben Lewin é mais do que acertada: com um roteiro que em mãos
menos sutis poderia render uma produção lacrimosa e genérica, o que se tem como
produto final é uma obra singular. A emoção brota
ao natural na encenação, mas quase nunca de forma manipuladora ou excessiva.
Tendo um deficiente físico como protagonista,
cujo maior ambição é a realização sexual, o filme envereda por um viés em que o
hedonismo ganha uma aura que beira o sacro. As mulheres que circundam o personagem
principal são retratadas a partir de um olhar que começa pelo objetivo e que
aos poucos lhes dá uma dimensão quase mágica. É uma sensualidade um tanto
esquisita justamente porque busca o seu encanto de um prosaico cotidiano. O
efeito sensorial chega a ser desconcertante em alguns momentos. O grande clímax
do filme está numa seqüência de sexo que envolve um orgasmo recíproco, que
parece sintetizar o espírito criativo do filme – a consumação do ato sexual ganha
uma certa dimensão épica tanto pela sua carnalidade quanto por uma transcendência
espiritual. A jornada de descoberta do protagonista
extrapola a questão dele ser deficiente – o que importa é a tradução do sexo
dentro de sua particular ótica religiosa e lírica.
sexta-feira, fevereiro 22, 2013
E se vivêssemos todos juntos?, de Stéphane Robelin **1/2
Dentro do gênero de dramas que tratam das agruras da
terceira idade, “E se vivêssemos todos juntos?” (2010) até que acaba
surpreendendo, ainda que se adeque dentro de um formato elaborado para não
assustar muito as plateias desavisadas. O filme tem aquele pique de melancolia
devido aos dilemas típicos dos idosos aliado a um incômodo tom de “lições de
vida” em alguns momentos. Para compensar, a diretora Stéphane Robelin consegue
inserir em determinadas cenas um toque entre o irônico e o objetivo,
principalmente quando retrata a sexualidade, exposta até de uma forma bem crua
que o habitual nesse tipo de obra. Valoriza também a produção o elenco
principal de atores maduros, em atuações que variam bem entre o vigor e a
sutileza. Nesse sentido, o filme tem ainda um caráter emblemático em mostrar em
boa forma dramática as atrizes Jane Fonda e Geraldine Chaplin, que por volta
das décadas de 70 e 80 foram bastante ativas e representativas de um cinema
mais contundente.
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
Espia só, de Saturnino Rocha ***
Em um documentário sobre música, um dos grandes méritos de
quem o concebe é conseguir fazer o espectador se interessar, a partir do filme,
pelo artista ou estilo focado a ponto de correr atrás de um disco (ou de um
arquivo, nesses tempos virtuais...). Pois “Espia só” (2012) atinge esse
objetivo – pelo menos comigo, afinal logo após ver tal produção fiquei
imediatamente interessado em conseguir algum disco com as composições de Octávio
Dutra, notável instrumentista e autor de chorinhos porto-alegrense que teve o
seu auge comercial e artístico nas primeiras décadas do século XX. O diretor
Saturnino Rocha elaborou aquele feijão com arroz básico dentro do gênero, mas
fez com bastante classe, combinando vários depoimentos de estudiosos, músicos e
parentes do biografado com admirável apuro formal na encenação de belos e afiados números de instrumentistas contemporâneos
tocando algumas das principais canções de Dutra, tendo por resultado um
documentário repleto de momentos inebriantes de sutis e vibrantes melodias e
harmonias, além de oferecer um retrato apurado do cenário cultural da Porto
Alegre do início do século passado.
quarta-feira, fevereiro 20, 2013
Possessão, de Ole Bornedal *1/2
Confesso que o gênero terror é um dos meus favoritos no
cinema. Acho que alguns dos primeiros filmes que realmente curti na minha vida
vieram dessa linha. Mas é de se perguntar por que falo de tão poucas produções de
horror aqui no blog... As respostas não são tão difíceis assim. Primeiro: se
colocarmos na ponta da caneta, chegam poucas obras de terror nos nossos cinemas
(dramas, comédias e aventuras aparecem aos borbotões, por exemplo), ao contrário
do que acontecia nas décadas de 70 e 80. Segundo: o pouco que chega no gênero,
em sua maioria, não é bom. E esse é o caso de “Possessão” (2012). Ok, tem a sua
dose de sangue, de algum suspense, a premissa do roteiro é interessante e
algumas trucagens são bem feitas. Mas tudo é filtrado por uma concepção formal
e temática tão asséptica e “família” que sensações como medo ou choque passam
longe daqui.
terça-feira, fevereiro 19, 2013
A luz do Tom, de Nelson Pereira dos Santos **
O principal ponto que joga contra “A luz do Tom” (2013) é
que se trata na verdade de um filme institucional (o que os créditos iniciais
revelam logo de cara). Assim, trata-se de uma grande loa à figura de Tom Jobim,
não havendo espaço para contradições e nem para um maior aprofundamento dramático.
Sua formatação asséptica também atrapalha, com uma direção de fotografia estilo
cartão postal emoldurando a narrativa. Dentro dessa concepção utra comportada,
talvez o momento mais constrangedor seja aquele em que Helena Jobim fica
respondendo perguntas óbvias (“Tom era muito namorador?” e daí para baixo) de
um grupo de jovens em estado catatônico. Por outro lado, dá até para estranhar
um documentário sobre música brasileira em que não estejam presentes os
onipresentes Tarik de Souza, Ricardo Cravo Albim e Nelson Motta. Mas esse dado
insólito acaba se perdendo no fato de que o filme se concentra exclusivamente
nas entrevistas com a irmã Helena, a ex-mulher Thereza e a viúva Ana Lontra,
cujos principais focos são algumas informações biográficas protocolares, além
de historinhas prosaicas. Podem servir como curiosidade, mas não dão a dimensão
real da grandeza do artista. Apesar dessas previsibilidades, não há como não se
perguntar por que o diretor Nelson Pereira dos Santos travestiu Helena como uma
espécie de sósia de Tom, o que aliado a sua forma de falar literária, como se
tivesse decorado os trechos da biografia de Tom escrito por ela, traz um
estranho efeito estético.
Apesar dos equívocos aqui apontados, confesso que não
consigo dizer que “A luz do Tom” é uma obra dispensável. Isso porque a produção
traz a grande vantagem de vir embalada com algumas das mais belas pérolas do
cancioneiro jobiniano. Tanto que logo que terminou o filme, me de uma vontade
danada de chegar em casa para ouvir os discos do cara. E talvez não fosse essa a
grande intenção do filme?
segunda-feira, fevereiro 18, 2013
O lado bom da vida, de David O. Russell ***
Em seu filme a anterior, o extraordinário “O vencedor”
(2010), o diretor David O. Russell conseguia uma forte simbiose entre uma forte
trama baseada em fatos reais com uma abordagem formal bastante crua e
contundente. Em sua obra mais recente, “O lado bom da vida” (2012), Russell usa
uma abordagem estética semelhante, mas embalando um roteiro de típica comédia
romântica, ainda que com uns toques mais naturalistas. Esse descompasso
compromete a narrativa – por mais que o cineasta se esforce para emprestar
vigor para o filme, tudo acaba ficando preso à lógica de um formato bastante
convencional. Isso se reflete até mesmo nas boas interpretações de seus
principais atores: são caracterizações carismáticas, mas destituídas de maiores
profundidades. Apesar de tais considerações, “O lado bom da vida” está longe de
ser um mau filme, muito pelo contrário, é uma produção com algumas cenas memoráveis
e mostra a habitual classe artística de Russell como diretor. Mas é justamente
o passado expressivo dele como cineasta que deixa um certo gostinho de decepção.
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
Selvagens, de Oliver Stone ***1/2
Depois de passar alguns anos engajado em obras de cunho político,
tanto em documentários quanto em filmes baseados em fatos reais, o diretor
norte-americano deixa as ideologias, aprincípio, um pouco de lado e envereda em
“Selvagens” (2012) novamente pelo gênero ação/policial (nos moldes dos marcantes
“Assassinos por natureza” e “Reviravolta). É claro que em se tratando dele não
dá para esperar algo muito tradicional, ainda que estejam lá a violência e a
adrenalina inerente a essa linhagem cinematográfica. Stone mostra a velha
classe formal, com uma direção de fotografia de tons estourados e montagem de
dinâmica frenética, mas que não faz com que o filme caia naquele estilo “videoclipeiro”.
Pelo contrário: as opções estéticas do cineasta acentuam um certo tom sinistro
e uma atmosfera de pesadelo que permeiam a produção. Tal abordagem apresenta sintonia
com a temática um tanto intrincada que emana do roteiro de “Selvagens” – por trás
da trama aparentemente tradicional envolvendo policiais e traficantes, há também
um certo comentário sócio-político sobre a sociedade ocidental, em que os velhos
conceitos de bem e mal parecem cada vez mais difusos e um saudável hedonismo amoral
não parece uma solução tão impossível... No final das contas, Stone mostra que
ainda continua a ser um cara difícil de ser domado.
quinta-feira, fevereiro 14, 2013
Elefante branco, de Pablo Trapero ***
Tanto a estética quanto a temática dos filmes dirigidos por
Pablo Trapero passam por uma certa crueza – por vezes quase se aproximando do
documental, num estilo que evoca um forte naturalismo. Ainda que isso não
represente algo de especialmente novo, pelo menos se afasta do tom asséptico
que marca a grande maioria da produção argentina contemporânea. “Elefante branco”
(2012) confirma essa coerência autoral de Trapero. O roteiro busca a contundência
da denúncia social, mas não cai no puro panfletarismo – há espaço até para uma
dimensão intimista inquietante. A abordagem estética também não fica muito atrás
em termos de dureza. Trapero impõe uma objetividade seca num registro visual
que dispensa maiores rebuscamentos, mas sem cair naquele estilo desnecessário
de câmeras tremidas como se quisesse buscar um “cinema reportagem”. No cômputo
geral, “Elefante branco” não chega a ser uma experiência cinematográfica
especialmente memorável. Tem, entretanto, a capacidade inegável de estabelecer
uma narrativa tensa que prende o espectador.
Caça aos gângsteres, de Ruben Fleischer ***
Não dá para negar que a pretensão de Ruben Fleischer em
“Caça aos gângsteres” (2012) não tenha sido grande. Sua proposta de
revitalização do gênero dos filmes de gângsteres parte de uma aposta na forte
estilização temática. Assim, o roteiro da produção é um pastiche simplificado
de literatura noir, não havendo uma trama tão bem lapidada quanto, por exemplo,
aquela do extraordinário “Los Angeles: Cidade proibida” (1997). Por vezes, a
opção estética de Fleischer apresenta alguns resultados expressivos, tanto pela
direção de arte que beira o irreal no sentido da recriação de uma Los Angeles
dos anos 40 que é puro imaginário quanto pelo uso em profusão de modernosas
filmagens em câmera lenta (que estão muito mais para “Matrix” do que para os
clássicos de Sam Peckinpah). Outra bela sacada do diretor está no seu elenco,
em performances que enveredam pelo icônico, deixando de lado grandes
profundidades psicológicas. Nesse sentido, o grande destaque é Josh Brolin, que
com seu rosto de pedra mostra ter nascido para fazer o papel do tira durão e
inflexível – aliás, o efeito de vê-lo contracenar ao lado de Nick Nolte é
desconcertante, pois é como se enxergasse a mesma pessoa em dois papéis (ou
épocas) diferentes.
As soluções narrativas e formais de Fleischer fazem supor
que sua intenção era a de fazer um “Os intocáveis” (1987) para o século XXI. E
é justamente aí que residem os problemas de “Caça aos gângsteres”. Afinal,
Fleischer é um bom diretor, mas está muito longe do gênio virtuosista de Brian
De Palma. O frustrante clímax final da obra mais recente é a evidência perfeita
dessa constatação – os tiroteios são espetaculosos e barulhentos, mas são
normais, quase burocráticos, não chegando nem perto daquela orgia visual que representa
a clássica seqüência do tiroteio no metrô do clássico de De Palma. E mesmo o
duelo final a socos entre John O’Mara (Brolin) e Mickey Cohen (Sean Penn) se
mostra tão pouco imaginativo a ponto de soar irrelevante. Ou seja, no final das
contas, “Caça aos gângsteres” é até um bom filme, mas se o espectador quiser
algo recente no gênero efetivamente memorável, o melhor é ver ou rever “Os
infratores” (2012), pérola dirigida por John Hillcoat.
quinta-feira, fevereiro 07, 2013
Magic Mike, de Steven Soderbergh ***1/2
Apesar de abordar o universo dos strippers, o cineasta norte-americano
evita o escândalo fácil em “Magic Mike” (2012). Sua visão tende muito mais para
uma certa sobriedade, tanto formal quanto temática, o que é quase uma constante
na sua trajetória como diretor. Isso não quer dizer, entretanto, que ele
enverede pela assepsia – seu sintético estilo de filmar permite a elaboração de
uma atmosfera sensual e até bem humorada, principalmente nas seqüências noturnas
e, em especial, nos espetáculos da rapaziada em ação. Nesse sentido,
impressiona a capacidade de Soderbergh em extrair atuações convincentes e
carismáticas de habituais canastrões como Matthew McConaughey e Channing Tatum.
Além disso, “Magic Mike” apresenta uma tendência irônica a explorar alguns
motes clássicos inerentes ao gênero de filmes em que um grande artista é
substituído (ou passado para trás) por um pupilo talentoso, numa linhagem de
produções que vai de “A malvada” (1950) a “Showgirls” (1995). Muito da essência
do cinema de Soderbergh vem justamente desse aspecto: a de explorar clichês
narrativos a partir de uma concepção formal particular, o que acaba resultando
numa aura de estranhamento, ainda que uma impressão de familiaridade permeie
sempre a sua obra.
quarta-feira, fevereiro 06, 2013
Jorge Mautner - O filho do Holocausto, de Pedro Bial e Heitor D'Alincourt ***1/2
É claro que se pode implicar com Pedro Bial por apresentar o
Big Brother ou por escrever uma biografia chapa branca do patrão Roberto
Marinho, além de outros projetos questionáveis. Por outro lado, pode-se dar um
crédito para ele depois de se assistir a “Jorge Mautner – O filho do holocausto”
(2012). No meio de tantos documentários nacionais que se dedicam a cinebiografar
figuras ligadas à música, esse filme co-dirigido por Bial e Heitor D’Alincourt
surpreende por uma abordagem peculiar, apesar de utilizar alguns preceitos
caros ao gênero. Estão lá os tradicionais depoimentos e imagens de arquivo, mas
isso apenas pontua uma visão muito lírica por parte de seus autores em relação
ao seu protagonista – na verdade, até dá para
dizer que se encontra em sintonia artística com o próprio universo cultural de
Mautner. A música dele é o centro da narrativa – não à toa, a produção é
pontuada por números musicais, que abarcam um espectro amplo do cancioneiro de
Mautner que se relaciona sutilmente com a trajetória do artista que se
desenvolve na tela através de imagens e entrevistas. Tais números musicais,
tendo Mautner acompanhado pelo velho companheiro Nelson Jacobina e alguns músicos
da Orquestra Imperial, recebem um tratamento formal que oscila entre o teatral
e o sóbrio. Essa opção dos diretores revela que a preferência deles não é pela
objetividade, mas sim pela percepção de mundo mui peculiar de Mautner. Assim,
em determinadas seqüências, quem conduz a narrativa é o poeta/cantor em questão,
que lê num tom dramático passagens expressivas de sua autobiografia. O efeito
sensorial é de estranhamento e encanto.
Lembro que ao comentar no blog sobre o documentário “Tropicália”
(2012) eu mencionava a capacidade de Caetano Veloso em ser um convincente ator de
si mesmo. Isso também me veio à lembrança ao assistir a “Jorge Mautner”, não só
pela participação de Veloso (junto com Gilberto Gil), mas também pelo fato de
que Mautner conservar uma aura de mistério, mesmo que revele alguns fatos de
suas vidas. É como se o essencial ele ainda escondesse, estimulando o
espectador a encontrar essa verdade na sua arte. E talvez aquele seu choro no
final, aparentemente redentor, talvez esconda outros motivos obscuros e
fascinantes.
segunda-feira, fevereiro 04, 2013
Frankenweenie, de Tim Burton ****
O diretor norte-americano Tim Burton não é um artista que
tem a necessidade de se renovar a cada trabalho. Seus filmes geralmente gravitam
em torno de algumas obsessões temáticas e estéticas, ainda que por alguma
eventualidade ele assuma uma produção mais comercial como “O planeta dos
macacos” (2001) ou “Alice nos país das maravilhas” (201). Em “Frankenweenie”
(2012), Burton confirma essa tendência – é a mesma coisa de sempre, mas
elaborada com uma classe fenomenal. O conceito da obra – a de um cão que é
ressuscitado como uma espécie Frankenstein canino – parece influenciar a própria
concepção do filme: cada detalhe narrativo soa como se fosse um pedaço/referência
de alguma obra influência de Burton ou de uma produção do próprio cineasta em
questão (tanto que o longa na realidade é a extensão de um curta do início da
carreira de Burton). Mas esse caldeirão de citações e reciclagens não revela um
homem estagnado com sua arte – na verdade, é apenas reflexo da sua coerência
autoral, além de revelar seu amadurecimento como cineasta (afinal, “Frankenweenie”
é uma experiência cinematográfica bem mais satisfatória que a animação anterior
de Burton, “A noiva cadáver”). Mesmo que possamos já ter visto cenas
semelhantes em outros filmes, ainda sim tais momentos em “Frankenweenie” conseguem
se revelar ora perturbadores, ora encantadores. A mistura das técnicas de
animação stop motion com uma ambientação gótica de toques irônicos gera uma
obra de raro arrebatamento visual, com uma trama lapidar na sua combinação intrínseca
e orgânica de conto de fadas, horror e aventura.
sexta-feira, fevereiro 01, 2013
Sudoeste, de Eduardo Nunes ***1/2
Se fosse para tentar definir “Sudoeste” a grosso modo em
algumas palavras, daria para dizer que seria algo como “David Lynch encontra o
regionalismo brasileiro”. É claro que a definição é imprecisa, mas a obra de
Eduardo Nunes impressiona justamente ao buscar uma narrativa delirante em meio
a um cenário agreste e interiorano, conseguindo um resultado bastante orgânico
e envolvente. A longo da trama, pequenos detalhes da história servem como um
esqueleto para que imagens e sons construam um sentido insólito, mas que
adquire aos poucos uma estranha coerência. Os padrões temporais se confundem e dissolvem
a linearidade – uma protagonista que é
criança, mas que em um piscar de olhos se converte em adulta e numa caminhada
por uma estrada atinge a velhice. Mas que também com um breve sono pode voltar à infância. Com o foco narrativo concentrado numa personagem que reúne mãe e
filha na mesma figura, mas que também se dividem em duas, até um ponto que se
possa ter um fragmento da verdade. Tudo isso para que o presente possa sugerir
o que tenha acontecido no passado e quem sabe até corrigir algo. Na verdade,
nada fica muito claro em “Sudoeste”, mas também nem é tão necessário que isso
ocorra. A direção fotografia de movimentos lentos e expressivos e o jogo de
montagem que estabelece o elemento fantástico da produção de acordo com sutis
truques de edição formam um conjunto formal em perfeita sintonia com a temática
de tons simbolistas do filme.
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