sexta-feira, novembro 29, 2013

Lost in La Mancha, de Keith Fulton e Louis Pepe ***1/2


Raras obras foram tão reveladoras dos bastidores da indústria cinematográfica quanto “Lost in La Mancha” (2012). E também da própria paixão pelo cinema. A intenção dos diretores Keith Fulton e Louis Pepe era fazer o registro das filmagens da versão para as telas do clássico literário “Dom Quixote” pela ótica muito particular do cineasta Terry Gillian. Acabaram, entretanto, documentando as etapas que levaram a produção em questão ao fracasso de não se realizar. Apesar do conteúdo melancólico de sua história, “Lost in La Mancha” empolga pela dimensão épica e trágica do calvário de Gillian para colocar em ação aquilo que habitava o seu imaginário. Por vezes, pode-se ver o que o filme poderia ter sido caso tivesse se efetivado, principalmente nas seqüências em que Gillian utiliza alguns nativos da região onde filma como gigantes. E isso acentua ainda mais a frustração tanto do diretor quanto dos apreciadores de cinema. Os empecilhos que surgem são de natureza diversa: uma tempestade que destrói um set de filmagens, atrasos na chegada de membros do elenco, falta de dinheiro, logística que se mostra insuficiente, o ator principal que acaba ficando doente gravemente. Aqueles que acham que fazer um filme se limita a inspiração e questões artísticas terão uma dura desilusão, pois “Lost in la mancha” evidencia que questões administrativas se mostram tão vitais para uma obra cinematográfica quanto a criatividade de um diretor.

quinta-feira, novembro 28, 2013

O planeta dos vampiros, de Mario Bava ***


É inegável que “O planeta dos vampiros” (1965) pareça bastante datado para os dias de hoje. É uma obra que transita entre o horror e a ficção científica, mas que se mostra incapaz de gerar tensão ou medo para as platéias contemporâneas, ao contrário de outros trabalhos do diretor italiano que até hoje mantém o poder perturbador e inquietante como “Kill, Baby, Kill” (1966) e “Lisa e o demônio” (1973). O que mantém o interesse de “O planeta dos vampiros” é a sua construção visual. A partir de recursos típicos de filmes B, a produção é marcante pelas atmosferas góticas e pela fotografia de tons pictóricos, que geram um estranho encanto estético, e que faz até pensar se Ridley Scott não utilizou a obra em questão como referência formal na concepção do extraordinário “Prometheus” (2012).

quarta-feira, novembro 27, 2013

Gravidade, de Alfonso Cuarón ***1/2


Boa parte dos comentários que foram feitos em relação à “Gravidade” (2013) faz supor que o filme representa para a ficção científica deste século o que “2011 – Uma odisséia no espaço” (1968) representou para o gênero no século passado. É claro que se trata de um grande exagero. As propostas de tais produções são bem diferentes entre si. A referida obra dirigida por Stanley Kubrick era um drama espacial de cunho existencial e filosófico, enquanto o filme concebido pelo diretor mexicano Alfonso Cuarón se enquadra, em essência, entre a ficção científica e a aventura, com toques de melodrama. A propensão para o escapismo, entretanto, não constitui demérito para “Gravidade”. No campo sensorial, trata-se realmente de um trabalho de peso: a beleza gráfica da criativa direção de fotografia (que varia com elegância e ousadia entre movimentos “gravidade zero” e momentos de pura contemplação) e dos efeitos especiais parecem jogar o espectador no meio do espaço sideral, representando um novo estágio técnico e artístico para o gênero e mostrando que realismo e diversão podem conviver sem problemas. Por outro lado, a narrativa emperra em alguns momentos, pois a trama pedia uma abordagem mais naturalista e por vezes as coisas caem para um misto de intimismo lacrimoso e épico excessivo. Numa trama que se baseia em uma astronauta que se encontra à deriva no espaço, há diálogos e música demais. Faz imaginar que o estilo mais seco e objetivo de um Herzog seria mais adequado. Mesmo com essas ressalvas, “Gravidade” é uma obra memorável e que traz de bônus o indiscutível mérito de Cuarón em ter extraído uma interpretação bastante expressiva de Sandra Bullock.

terça-feira, novembro 26, 2013

O capital, de Costa-Gavras ***1/2


Os admiradores mais radicais do diretor grego Costa-Gavras podem considerar sua obra mais recente, “O capital” (2012), um tanto convencional. Na verdade, desde os anos 80 os filmes do cineasta passam por uma espécie de suavização. Isso, claro, se compararmos tais obras com aquelas produções clássicas setentistas que ele dirigiu como “Z”, “Estado de sítio” e “Sessão especial de justiça”, em que combinava temática política com um formalismo seco, beirando o estilo documental. Mas mesmo dentro de uma abordagem mais tradicional Costa-Gavras consegue se mostrar acima da média. “O capital” se formata como um thriller de suspense tendo como trama intrigas no mundo corporativo dos grandes bancos mundiais. O assunto do roteiro, assim, é bastante oportuno, afinal se relaciona com um dos grandes temas contemporâneos, a crise econômica mundial que predomina desde 2080 até os dias de hoje. Não há a pretensão de se fazer explicações sobre as causas de tal crise, com a história tendo mais uma função simbólica sobre os valores e interesses de uma sociedade marcada pela ganância e ascensão econômica. Costa-Gavras trabalha com boa parte dos clichês do gênero thriller, com direito a viradas inesperadas na trama (que na realidade nem são tão surpreendentes assim), trabalhando tais obviedades, entretanto, com ironia e precisão estética. Assim, mesmo dentro de uma confortável maturidade artística, o cineasta mostra que ainda tem lenha para queimar.

segunda-feira, novembro 25, 2013

Por que você partiu?, de Eric Belhassen **1/2


A proposta artística do documentário “Por que você partiu?” (2012) é interessante e tem algo de original – a trama trata das trajetórias pessoais e profissionais de sete chefs de cozinha franceses que se estabeleceram no Brasil, servindo tanto quanto um panorama social sobre a atividade de profissional culinário estrangeiro num país como o nosso quanto o retrato intimista desses seres “exilados”. A partir disso, o próprio diretor Eric Belhassen, um francês radicado em terras brasileiras, faz uma espécie de acerto de contas sentimental com a família e o passado para tentar entender o motivo pelo qual deixou o seu país e se estabeleceu por aqui. O tratamento formal da produção não tem muita criatividade formal, estando distante do interesse que a originalidade de sua temática desperta, mas o documentário não deixa de ser uma obra curiosa e com alguns momentos memoráveis. As figuras dos cozinheiros são marcantes e cada um deles apresenta peculiaridades comportamentais e históricos pessoais diferenciados, o que ajuda a compor um mosaico amplo. E por mais que a função do cinema não seja a de ser meramente informativo, não deixa de ser uma qualidade do filme o seu caráter didático no sentido de mostrar como funciona pelo menos parte dos mecanismos de ascensão da alta culinária no Brasil.

sexta-feira, novembro 22, 2013

Rebobine isso!, de Josh Joshson **1/2


A temática de “Rebobine isso!” (2013) é bastante curiosa: a trajetória histórica do VHS. Em meio a tantas notícias atuais envolvendo novas tecnologias para ver filme, tal assunto, em um primeiro momento, pode beirar o anacronismo. Isso sem contar que em termos formais o documentário em questão deixa a desejar: não há praticamente ousadias estéticas e por vezes a produção se perde como narrativa, enfatizando longos depoimentos de alguns entrevistados que beiram o desinteressante. A obra, entretanto, acaba gerando empatia por alguns detalhes bastante particulares. Primeiramente por uma questão nostálgica: vários cinéfilos na faixa dos 30 a 40 anos (inclusive este que vos escreve) desenvolveram o seu gosto por filmes através de várias sessões com fitas VSH na sua juventude. Tal formato também se vinculou a determinados gêneros de filmes, como produções baratas e/ou obscuras de ficção científica, horror, fantasia, ação e até artes marciais. Assim, é inegável que uma certa aura de magia envolva as recordações sobre o período em que as fitas estiveram no auge de uso e popularidade. Nesse sentido, “Rebobine isso!” consegue estabelecer um interessante painel de fãs e profissionais do cinema que tiveram uma ligação muito forte com o mercado dos VHS. Além disso, o documentário extrapola o mero interesse sentimental sobre o assunto, conseguindo contextualizar a importância da tecnologia junto à própria indústria do cinema da época, bem como estabelece a comparação entre a decadência e fim inexoráveis do VHS com os atuais preceitos comerciais e administrativos da referida indústria. No final das contas, ao falar sobre um passado nem tão distante, “Robobine isso!” se torna bastante emblemático dos tempos atuais.

quinta-feira, novembro 21, 2013

É o fim, de Seth Rogen e Evan Goldberg ***1/2


Seth Rogen é um cara esperto. Com freqüência, ele é acusado de sempre interpretar o mesmo tipo de papel, e de que os seus roteiros têm um conteúdo auto-referencial e machista. E daí o que ele decide fazer em sua estréia como diretor? Ora, ele simplesmente trabalha em cima de uma trama em que ele e seus melhores amigos-atores interpretam a si mesmo, fazendo com que tudo aquilo do qual lhe acusavam como defeito seja encarado como legítima matéria-prima para o seu filme. O resultado, entretanto, está longe do mero exercício de narcisismo. “É o fim” (2013) é uma explosiva mistura de metalinguagem e tiração de sarro. Em meio a um pastiche de roteiro de temática apocalíptica, Rogen, ao lado do codiretor Evan Goldberg, ironiza de forma ácida o meio artístico em que vive, pleno de hedonismo, megalomania e vazio existencial, mas fazendo questão de deixar claro que também brinca com o imaginário da platéia (afinal, quem nunca quis ter a vida de astro de Hollywood?). A caracterização do elenco que interpreta a si mesmo é caricatural, exagerada: Rogen e sua turma trabalham mais com a idéia a qual o público e imprensa fazem deles como pessoa do que com algum conceito da realidade de como eles são efetivamente em suas vidas particulares. Nessa onda, as citações e referências a outros filmes que eles tenham participado podem soar nerd ou geek, mas na realidade também dão à obra uma espécie de aura de crônica comportamental a refletir uma época específica. Além disso, Rogen e Goldberg encontram soluções formais inquietantes, em que o tom de filmagem caseira bem feita de algumas sequências se mostre em sintonia admirável com a ambientação de horror apocalípticos de outras cenas. Todos esses aspectos estéticos e temáticos dão a “É o fim” um caráter delirante, mas sem que o filme perca a sua noção de comédia popular. Tanto que a conclusão do filme, com os Backstreet Boys caracterizados como anjos e promovendo um tremendo baile no paraíso, reflete com precisão essa natureza híbrida, esquisita e divertida da obra.

quarta-feira, novembro 20, 2013

Mato sem cachorro, de Pedro Amorim **1/2

Enquadrado no gênero das comédias românticas, “Mato sem cachorro” (2013) por vezes envereda pelos equívocos comuns de tal tipo de filme. Por outro lado, é inegável que a produção traz uma tensão criativa ausente na grande maioria das obras cômicas brasileiras que tem aparecido nos cinemas, principalmente naquelas oriundas da Globo Filmes (por sinal, o filme em questão também tem essa origem). No meio dos quiproquós habituais, dá para sentir um olhar um pouco mais agudo sobre os relacionamentos amorosos. Os motivos que levam o casal Zoé (Leandra Leal) e Deco (Bruno Gagliasso) a se separar são bem humanos e pertinentes aos nossos tempos. Afinal, fala-se muito em comodismo, no desgaste natural do tempo, o que faz com que a obra ganhe uma empatia maior. Além disso, em algumas cenas, o diretor Pedro Amorim consegue integrar essa temática mais crua com a formatação cômica com alguma naturalidade. Também colabora o elenco: Gagliasso e Gabriela Duarte fogem daqueles registros insossos habituais da televisão e oferecem certa visceralidade em seus papéis, enquanto Leandra Leal mostra que é capaz de dar consistência e encanto para qualquer papel – sua presença cênica é simplesmente magnética.

terça-feira, novembro 19, 2013

A bela que dorme, de Marco Bellochio ***1/2


Depois do barroquismo arrojado de “Vincere” (2009) e da simplicidade tocante de “Irmãs jamais” (2010), o diretor italiano Marco Bellochio enveredou por caminhos mais tradicionais em “A bela que dorme” (2010). Dentro desse aparente convencionalismo, o cineasta engedra uma narrativa sóbria e elegante, que por vezes até resvala num tom de melodrama, e acaba criando um panorama bastante crítico da atual sociedade italiana. A eutanásia é o mote central da trama e a partir de tal assunto o filme se equilibra entre o intimismo e questionamentos sociais e políticos, sem soar necessariamente panfletário. Para Bellochio não interessa agitar uma bandeira, mas sim enfocar as contradições e dilemas de um país dividido por crenças religiosas e jogadas políticas. Se o filme não traz as ousadias formais de outras obras do diretor, por outro lado se torna memorável pela serena contundência de sua abordagem.

segunda-feira, novembro 18, 2013

O verão do Skylab, de Julie Delpy ****


As relações que se estabelecem entre “O verão do Skylab” (2011) com outras produções que estrearam em Porto Alegre em 2013 tanto podem parecer coincidências como também podem sugerir conseqüências naturais. No primeiro caso, não há como não lembrar do extraordinário “Depois de maio” (2012), que fazia um retrato poético e amargo dos primeiros anos após o conturbado maio de 1968 na França, enquanto o filme de Julie Delpy focaliza um dia na virada entre 1979 e 1980 e mostra ainda, através do microcosmo de uma reunião familiar, uma sociedade dividida entre aqueles impregnados por um ideário libertário e outros bastante críticos e conservadores sobre tais ideais. Já “Antes da meia-noite” (2013) mostrou muito da capacidade autoral de Julie Delpy, que além de atuar também colaborou de forma decisiva no roteiro. Tais referências enriquecem ainda mais a apreciação de “O verão do Skylab”, mas tal obra pode ser apreciada perfeitamente prescindindo de tais comparações. Trata-se de uma produção de admirável maturidade em sua concepção. Delpy se vale de uma premissa já utilizada várias vezes (a reunião familiar que oscila entre a diversão, a nostalgia e a ironia) e ainda assim entrega um filme vigoroso e arejado. O filme é divertido ao extremo mostrando as brincadeiras, piadas e brigas típicas nesse tipo de reunião, assim como traz a dose de certa de melancolia ao focalizar as ilusões perdidas de alguns personagens. E nesse conjunto de um drama familiar, apresenta com sutileza um subtexto de forte conteúdo político e social ao radiografar os valores e contradições da sociedade francesa. E é claro que não daria para esquecer o fenomenal trabalho de direção de elenco, com um destaque especial para a ala infanto-juvenil – Delpy se coloca com honras numa tradição do cinema francês de cineasta que retratam com doçura e contundência o universo de crianças e adolescente, vide obras como “Zero de comportamento” (1933), “Os incompreendidos” (1959) e “Ponette” (1996).

quinta-feira, novembro 14, 2013

Uma viagem com Martin Scorsese pelo cinema americano, de Martin Scorsese e Michael Henry Wilson ****

É claro que para muitos (inclusive esse que vos escreve) “Uma viagem com Martin Scorsese pelo cinema americano” (1995) cumpre uma espécie de função didática. Afinal, o documentário consegue ser bastante abrangente e aprofundado sobre a fascinante temática que aborda. Além disso, Scorsese e o co-diretor Michael Henry Wilson conseguem dar uma dinâmica diferenciada para a produção em termos de roteiro e edição. Colabora também a paixão e o conhecimento de causa que o genial cineasta norte-americano coloca em cada palavra nos seus depoimentos. Mas ainda mais interessante do que encarar o documentário como uma aula sobre a história do cinema norte-americano e ver como se ele se relaciona com a própria filmografia de Scorsese e a sua história pessoal. É como se em cada um dos filmes que ali são analisados pudéssemos ver fragmentos das inspirações e obsessões temáticas e formais que posteriormente compuseram alguns clássicos do cinema como “Caminhos perigosos” (1973), “O touro indomável” (1980), “A época da inocência” (1993) e “Os infiltrados” (2006). No final das contas, não deixa de ser uma viagem pela mente criativa de um dos maiores criadores da cinematografia contemporânea.

quarta-feira, novembro 13, 2013

Tá chovendo hamburguer 2, de Cody Cameron e Kris Pearn **1/2

Pode ser que para alguns o mote de “Ta chovendo hambúrguer 2” (2013), assim como na primeira parte, possa parecer um tanto cretino. Mas pense nessa premissa: numa ilha, alimentos ganham vida, tanto podendo ser novos tipos de vegetais quanto os mais esquisitos animais. Dependendo das cabeças criativas envolvidas, daria para criar um verdadeiro épico surrealista, algo na linha da versão genial da Disney para “Alice no país das maravilhas” (1951). O problema é que não era exatamente isso que os diretores Cody Cameron e Kris Pean pensaram para a animação em questão... A produção até encanta eventualmente pela sua beleza gráfica, por uma certa estilização que foge por vezes dos padrões habituais contemporâneos do gênero. Mas o que predomina é um convencionalismo incômodo. Por mais que as boas ideias apareçam aqui e ali, tudo acaba tendo se formatar para os limites restritivos típicos de uma obra infanto-juvenil vinda de um grande estúdio. E se até a outrora criativa Pixar vem padecendo de tais limitações, o que dirão os outros estúdios – claro que há as honrosas exceções, como demonstra o extraordinário “Detona Ralph” (2012).

terça-feira, novembro 12, 2013

Eu, Anna, de Barnaby Southcombe ***

Em termos de roteiro e narrativa, dá para dizer que o diretor Barnaby Southcombe navega em mares tranquilos e previsíveis em “Eu, Anna” (2011). É evidente também, entretanto, que faz isso com considerável elegância. Um dos pontos fortes do filme está na construção de atmosfera – por mais que se saiba que o mistério que envolve a figura da protagonista nem seja tão surpreendente assim, a tensão climática que envolve a trama chega a ser perturbadora na sua combinação de sensualidade, sordidez, culpa e expiação. Southcombe sabe alternar suspense sóbrio com momentos de violência gráfica impactante. O outro trunfo da produção está no seu par de atores principais, Charlotte Rampling e Gabriel Byrne, que com atuações calculadamente contidas se mostram em perfeita sintonia com a natural sutileza da obra.

quinta-feira, novembro 07, 2013

Cinemania, de Angela Christlieb e Stephen Kijak ****

O título desse documentário, sua sinopse e mesmo os primeiros momentos do filme podem fazer supor que se verá uma espécie de declaração de amor ao cinema, ou quem sabe haverá discussões e comentários interessantes sobre clássicas produções ou pérolas obscuras. Pois bem, “Cinemania” (2002) até tem um pouco disso tudo, mas na essência é algo como uma sombria e irônica crônica sobre desajustados e perturbados. Como o documentário se passa em Nova Iorque, dá para dizer que se trata do outro lado do american way of life. Em algumas oportunidades os cinéfilos focados são bem articulados em suas considerações, em outras nem tanto, mas o que fica em evidência na maioria das cenas é uma relação compulsiva com o ato de ver filmes. Quando eles falam sobre isso, pode-se perceber que raramente há uma efetiva reflexão sobre o que assistem nas telas, com os cinéfilos apenas enumerando produções, contando causos excêntricos sobre suas relações obsessivas com cinema. O que predomina no documentário são criaturas solitárias, tristes, por vezes engraçadas, em outras até assustadoras. E os diretores Angela Christlieb e Stephen Kijak não se limitam a apenas colher depoimentos reveladores – eles têm senso cinematográfico notável nos registros ambientais que fazem, tanto das residências sujas e repletas de quinquilharias dos seus protagonistas como deles se movendo em seu “habitat natural” (no caso, salas de cinema). 

quarta-feira, novembro 06, 2013

CQ, de Roman Coppola ***

Tanto atuando roteirista como cineasta, Roman Coppola pauta sua carreira cinematográfica pela ironia, por um certo distanciamento emocional e pelo culto a estilização formal. “CQ” (2001) é um exemplar bem acabado dessas suas obsessões artísticas. Tendo por trama as desventuras de um norte-americano que vive na mítica Paris de 1969 e pretende ser um cineasta autoral reconhecido, Roman encontra o pretexto ideal para homenagear algumas de suas fontes inspiradoras: o existencialismo, a estética pop art de “Barbarella”, a Nouvelle Vague. Enfim, um culto tanto a ver filmes como a fazer filmes. Às vezes pode parecer meio superficial e sem densidade dramática, mas é inegável que em outras oportunidades essa viagem nostálgica de Roman gera sequências de forte encanto visual. 

terça-feira, novembro 05, 2013

Vivendo no abandono, de Tom DiCillo ***

Na história do cinema, há filmes que por seus méritos artísticos não chamam tanto a atenção, mas que com o tempo acabam ganhando um status diferente por serem emblemáticos de uma época. “Vivendo no abandono” (1995) é um bom exemplo desse tipo de produção, pois acaba sendo um retrato bastante fiel de uma época muito fervilhante para o cinema independente norte-americano (no presente caso, a década de 90). Tanto que a trama ficcional da obra versa justamente sobre a conturbada realização de um filme de baixo orçamento. O roteiro traz até citações e referências a nomes expressivos da cinematografia dos EUA na época, indo de piadas sobre Quentin Tarantino e chegando numa formatação narrativa que evoca algo do surrealismo particular de David Lynch (aliás, tem até uma tiração de sarro explícita com a célebre sequência de sonho com um anão de “Twin Peaks”). Isso sem contar que encabeça o elenco um ator que foi chave para esse tipo de cinema praticado na época, o excelente Steve Buscemi. Cabe ressaltar, entretanto, que “Vivendo no abandono” não se limita apenas a citações e piadinhas. O diretor Tom DiCillo consegue dar unidade para esse mar de referências, tendo como resultado final uma obra que se mostra uma sardônica e singular declaração de amor às agruras e delícias de se fazer um filme.

segunda-feira, novembro 04, 2013

R.I.P.D. - Agentes do além, de Robert Schwentke *1/2

É claro que não dá para condenar um filme simplesmente por ele ser genérico. Há várias obras que abusam dos clichês e mesmo assim impactam positivamente pela competência e vigor da sua realização. Bem, esse não é o caso de “R.I.P.D. – Agentes do além” (2013). O filme é uma colcha de retalho mal-costurada de lugares comuns e chupações descaradas. Dá para dizer que basicamente se trata de uma mistura indigesta entre “Homens de preto” (1997) e “Ghost – Do outro lado da vida” (1990). Mas o negócio não vinga não por uma falta de originalidade, mas sim pela flagrante incapacidade do diretor Robert Schwentke em criar uma narrativa envolvente ou pelo menos algumas sequências de efetiva tensão, predominando uma encenação desprovida de qualquer vigor. O filme tem alguns efeitos especiais interessantes, além de contar no elenco com os carismáticos Jeff Bridges e Kevin Bacon (apesar do espectador se indagar de forma constante por que eles se meteram nessa presepada), mas é muito pouco para compensar os vários equívocos que apresenta. Pelo menos, serve para confirmar que Schwentke é um cineasta que não tem salvação mesmo – afinal, é o mesmo cara que concebeu outros abacaxis como “Plano de vôo” (2004) e “Red – Aposentados e perigosos” (2013).

sexta-feira, novembro 01, 2013

Aconteceu em Saint-Tropez, de Danièle Thompson ***

Na superfície, “Aconteceu em Saint-Tropez” (2012) se formata e desenvolve como uma comédia romântica repleta daqueles clichês recorrentes: mal-entendidos, coincidências, paixões fulminantes, algumas lições de moral. O trunfo do filme, entretanto, está em pegar essas bobices e frivolidades e dar-lhes uma verve bastante sarcástica e espirituosa. A encenação proposta pela diretora Daniele Thompson combina leveza e uma pegada cerebral de forma equilibrada. Assim, a trama se permite, por vezes, um tom sombrio e até mórbido sem que pareça que a produção entre em descompasso. Fundamental para que Thompson mantenha esse frágil e tênue equilíbrio cômico-dramático é o desempenho de seu elenco, que sabe variar de forma admirável entre o tom caricatural e uma certa densidade dramática.

quinta-feira, outubro 31, 2013

Família do bagulho, de Rawson Marshall Thurber ***

Em algumas oportunidades, filmes comerciais e escapistas conseguem trazer em sua essência uma visão muito mais contestadora e irônica em relação aos costumes da sociedade moderna do que muitas produções pretensamente sérias e artísticas. “Família do bagulho” (2013) é exemplo claro de tal situação. Formatada como uma comédia romântica, com eventuais toques escatológicos e de humor físico grosseiro, tendo direito inclusive a um certo tom de fábula moral, a obra dirigida por Rawson Marshall Thurber traz com sutileza uma abordagem crítica e ácida do moralismo tipicamente norte-americano. A falsa família composta por desajustados (traficante, stripper, delinquente juvenil e virgem bobalhão) até tem direito a uma redenção na conclusão do filme, mas traz também dentro de si um certo tom de desafio aos padrões de normalidade. A sequência, por exemplo, em que o garoto virginal é treinado pela “irmã” e pela “mãe” para saber beijar traz uma dose inusitada de ironia perversa para esse tipo de produção. Assim, mesmo estando longe da fúria cômica icoloclasta de um Monty Python, “Família do bagulho” não deixa de representar um salutar desafio ao carolismo dos blockbusters contemporâneos.

quarta-feira, outubro 30, 2013

Muito barulho por nada, de Joss Whedon ***


Depois do estrondoso sucesso comercial de “Os vingadores” (2012), o diretor Joss Whedon parece ter resolvido enveredar por uma vertente bastante diversa em “Muito barulho por nada” (2012). No conjunto geral, essa versão para a peça cômica de Shakespeare  é menos ousada e grandiosa do que aquele concebida por Kenneth Brannagh em 1993. Trata-se de uma produção de pequeno orçamento, mas que adota uma perspectiva inusitada – preserva-se praticamente na íntegra o texto original da obra e o contexto histórico da trama, sendo que a encenação e a direção de arte usam elementos contemporâneos. É como se Whedon estivesse dedicado a provar a atemporalidade da arte do bardo inglês, valorizando ao extremo a fluência e a ironia dos diálogos e as espirituosas atuações do seu elenco. O cineasta não propõe nada de novo na conjunção entre cinema e teatro, o que pode causar um estranhamento pela atmosfera não naturalista e pelo ritmo narrativo mais pausado típico dos palcos. Mesmo assim, Whedon preserva a fluência da trama com edição ágil e fotografia eficiente em preto e branco.

terça-feira, outubro 29, 2013

A família, de Luc Besson ***


Num primeiro momento, tanto lendo a sinopse quanto assistindo às suas primeiras cenas, pode-se pensar que “A família” (2013) seria uma espécie de paródia/homenagem a alguns clássicos filmes sobre a Máfia. O fato de ter Robert De Niro como protagonista além de uma seqüência envolvendo um debate num cineclube sobre a obra-prima “Os bons companheiros” (1990), reforça também essa impressão. Um olhar mais atento, entretanto, revela que essa produção dirigida pelo francês Luc Besson tem um alcance maior na sua proposta. Mais do que um mero pastiche, a obra sugere uma visão do que compõe o nosso imaginário em relação a filmes sobre gângsteres. Assim, a trama revela um alto grau de exagero na caracterização de situações e personagens, pendendo mais para o caricatural e grotesco do que para alguma profundidade psicológica. Ocorre que tal abordagem distorcida acaba gerando um filme de momentos efetivamente divertidos, repletas de perverso humor negro e violência que beira o cartunesco. Nas boas seqüências de ação e brutalidade, Besson mostra que ainda tem boa mão estética, fazendo lembrar por vezes até o seu grande magnum opus, “O profissional” (1994).

segunda-feira, outubro 28, 2013

Elysium, de Neill Blomkamp **1/2

Uma das coisas que mais me agradava em “Distrito 9” (2009), o ótimo filme que projetou mundialmente o diretor sul-africano Neill Blomkamp, era o visual sujo e a atmosfera sórdida que permeava sua narrativa. No meio de uma trama de ficção cientifica de ritmo alucinante, o cineasta também conseguia traçar uma contundente metáfora para a questão do racismo no mundo. Em “Elysium” (2013), sua estreia nas produções norte-americanas, pode-se perceber que o gume do seu cinema perdeu parte considerável do seu corte, ainda que possa se perceber eventualmente algum traço da sua marca autoral. Num primeiro momento, fica evidente que Blomkamp cria uma concepção visual na construção visual de um futuro distópico que procura fugir da assepsia imagética que predomina nas recentes produções norte-americanas do gênero. Colabora também para isso que a violência de algumas cenas seja explícita e brutal, dando para o filme um certo ar de produção B. O grande problema da obra, contudo, está na falta de uma genuína tensão na narrativa, de um roteiro mais elaborado e menos esquemático, de um elenco que fuja do padrão piloto automático (com exceção de Wagner Moura, que por mais over que esteja em alguns momentos, pelo menos oferece uma atuação mais viva). Do jeito que ficou, a impressão que se tem é que Blomkamp sucumbiu a pressões parar formatar o seu cinema de acordo com padrões mais palatáveis.

sexta-feira, outubro 25, 2013

Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz ****


Os limites entre a literatura e o cinema são muito tênues em “Mistérios de Lisboa” (2010). Não dá para dizer que a primeira é simplesmente adaptada a uma linguagem cinematográfica, pois em vários momentos do filme sentimos que a própria sonoridade dos diálogos e as narrações possui um texto carregado típico de um romance. Na verdade, é como se o diretor Raúl Ruiz fizesse questão de não submeter o texto original a uma adaptação rígida. Isso explica a longa duração do filme (mais de quatro horas). Mas é aí que reside uma das forças criativas do filme: a sua narrativa tem um estranho encanto hipnótico, em que mesmo os exageros românticos do roteiro parecem fazer sentido de forma incrivelmente coerente. Ruiz estabelece um universo próprio em que os detalhes da trama até têm lógica realista, mas a encenação obedece a uma coreografia de falas e ações que pertencem a uma outra esfera de plano narrativo. Diante dessa abordagem artística, o cineasta encontra o pretexto ideal para que enverede em um barroquismo estético estonteante, repleto de nuances que exigem forte atenção do espectador, indo de truques e efeitos visuais de contundente caráter simbólico até uma direção de fotografia de enquadramentos de grande beleza pictórica. E por mais que as ousadias formais de Ruiz estejam impressas em várias passagens de “Mistérios de Lisboa”, a obra está longe de se enquadrar em mero experimento – a dinâmica da sua edição cria uma tensão impactante, fazendo com que a longa metragem do filme dê a impressão de até passar sem que se perceba isso.

quinta-feira, outubro 24, 2013

Las acacias, de Pablo Giorgelli **1/2


Em termos gerais, a trama de “Las acacias” (2011), que se desenvolve em uma narrativa realista e linear, pode ser resumida da seguinte forma: caminhoneiro solitário e de poucas palavras dá uma carona para uma desconhecida com seu bebê em longa viagem do Paraguai para a Argentina, a convivência entre eles acaba humanizando o motorista e faz com que ele se abra expondo seus desejos e mágoas; e por fim ambos se descobrem apaixonados. Parece meio previsível, não é? E é mesmo. O diretor Pablo Giorgelli dá um acabamento mais “artístico”, abusando de uma abordagem pretensamente mais sutil, valorizando silêncios, tomadas de plano fixo de caráter reflexivo e as interpretações naturalistas do elenco. O formalismo da produção é correto e competente, mas a verdade é que se trata de uma obra que está longe de empolgar ou arrebatar – não há uma seqüência sequer que efetivamente seja capaz de se grudar no imaginário. Se um norte-americano dirigisse de forma menos cerebral passaria até por uma dessas comédias românticas que tem as pencas por aí. No final das contas, funciona como uma curiosidade cinematográfica, mas de caráter descartável.

quarta-feira, outubro 23, 2013

A coleção invisível, de Bernard Attal **1/2


A maior virtude de “A coleção invisível” (2012) é a sobriedade da sua concepção e realização. Lidando com temas espinhosos como a morte e a velhice, o filme do diretor Bernard Attal evita exageros sentimentais. Há uma certa elegância na sua encenação e a fotografia e a edição são competentes. De se destacar ainda as boas atuações do elenco, com destaque para a surpreendente interpretação de Vladimir Britcha como protagonista. Apesar de tais virtudes, a produção é frustrante pela frouxidão de sua narrativa. A coerência formal e temática da obra acaba sendo uma camisa de força criativa – por vezes, tudo soa muito artificial e esquemático demais, como se pudéssemos enxergar todos os mecanismos estéticos do filme. Mesmo a sua linguagem de simbologias que configura “A coleção invisível” como se fosse uma fábula moral parece funcionar de forma acadêmica em demasia. Faltou maior contundência e ousadia na abordagem de Attal, o que torna a produção um melancólico canto do cisne para Walmor Chagas.

terça-feira, outubro 22, 2013

Rush - No limite da emoção, de Ron Howard ***1/2


O diretor norte-americano Ron Howard nunca se notabilizou por ser especialmente ousado em termos estéticos, assim como sua carreira se pautou por uma incômoda irregularidade – afinal o mesmo cara que dirigiu o antológico “O tiro que não saiu pela culatra” (1989) concebeu o horroroso “Anjos e demônios” (2009). Diante desse contexto, é o típico nome que não desperta grandes expectativas. “Rush – No limite da emoção” (2013) é uma obra que volta a dar crédito para Howard. Mesmo com as simplificações do roteiro e alguns excessos de convencionalismo formal, é um filme que fascina na sua recriação da mitologia da Fórmula 1 nos anos 70. A atmosfera elaborada pelo cineasta evoca algo entre o sonhador e o hedonista, acentuando a nostalgia e uma certa ingenuidade num período menos politicamente correto e também quando o esporte em questão não estava tão dominado pelos interesses corporativos. Além disso, Howard revela boa mão para a ação cinematográfica: as sequências de corrida são alucinantes e brutais no registro detalhista de curvas, ultrapassagens e violentos acidentes. Mesmo o fato da trama ser um tanto superficial na caracterização psicológica das situações e seus personagens não se torna um grande empecilho, pois o foco de Howard passa por um viés mitológico, icônico. Assim, talvez “Rush” não seja o tratado cinematográfico definitivo sobre a Fórmula 1, mas mesmo assim acaba se tornando uma produção memorável pela carga visceral inesperada da encenação de Howard.

segunda-feira, outubro 21, 2013

Lovelace, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman **


É impossível não pensar na obra-prima “Boogie Nights” (1997), uma espécie de cinebiografia disfarçada do astro pornô John Holmes, quando se vê “Lovelace” (2013), outra cinebiografia, só que autorizada, da vida de Linda Lovelace, a estrela do clássico “Garganta profunda” (1972). Mas se o filme de Paul Thomas Anderson era um épico sórdido sob o submundo da indústria pornográfica setentista, tomado por uma atmosfera hedonista e formalismo virtuoso, esse trabalho dos diretores Rob Epstein e Jeffrey Friedman assume um direcionamento bem frustrante. Por vezes, até se evoca algo da estética exagerada e cafona dos anos 70, mas nos geral “Lovelace” mais parece um telefilme mofado e bem-comportado. De certa forma, dá para dizer pelo menos que tal abordagem se revela em sintonia com o roteiro da produção, moralista até a medula.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Dose dupla, de Baltasar Kormákur ***


A origem de “Dose dupla” (2013) é comum a várias produções recentes vindas de Hollywood – é baseada em uma história em quadrinhos (curiosamente, desenhada por um gaúcho, Matheus Santolouco). E isso fica evidente no filme: é uma história policial bastante movimentada, com idas e vindas no tempo, com cenas de ação violentas tendendo para o cartunesco, além de um roteiro repleto de exageros que descambam para inverossimilhança. Isso não quer dizer, entretanto, que o diretor Baltasar Kormákur apele para uma edição videoclipeira ou mesmo de câmera tremida. O seu senso de encenação e montagem se vincula ao tradicionalismo, mas essa preferência pelo convencional é benéfica para a produção – há uma clareza narrativa notável nas coreografias de lutas, tiroteios, perseguições e explosões. É claro que não se trata de nenhuma obra-prima da violência cinematográfica na linha Sam Peckimpah. Ainda sim, perto do que faz no gênero ação ultimamente, acaba se sobressaindo. E como bônus, vale mencionar as atuações bastante carismáticas de Denzel Washington e Mark Wahlberg.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Invocação do mal, de James Wan **1/2


A maioria das críticas e comentários que se faz em relação à “Invocação do mal” (2013) defende que essa produção dirigida por James Wan representaria um oásis no atual panorama do gênero de horror. Isso porque o filme não se vale da estética da câmara subjetiva e também por não enveredar pelos caminhos do horror explícito. Nessa ótica, a obra em questão representaria uma espécie de volta à essência do terror, enfocando muito mais a tensão e aquilo que não é visto. Na minha visão isso tudo é um grande exagero, além de descambar para o reducionismo. O fato de um filme adotar uma determinada abordagem não quer dizer que necessariamente ele será bom ou não. Assim como no estilo de câmera subjetiva apareceram algumas produções relevantes e criativas (“Rec”, “O último exorcismo”) e naquela linha de tripas e sadismos por vezes surgiram obras de qualidade artística considerável (“Alta tensão”, “Viagem maldita”, “O albergue”), também ocorreu de que abordagens mais clássicas trouxessem resultados frustrantes. E nesse último caso, daria para enquadrar “Invocação do mal”. Dá para dizer que na sua primeira metade o filme até surpreende, principalmente por um certo virtuosismo de Wan – há planos-sequência realizados de forma convincente, a edição e fotografia trazem elegância formal. Na metade final, entretanto, tudo parece se converter num pastiche insosso de “O exorcista” (1973) e seus derivados. Toda aquele pretensão de sutileza e tensão se esvai em nome de barulhentos e inócuos sustos, lutas e possessões. Falta a “Invocação do mal” uma efetiva atmosfera de sordidez e de mistério. Do jeito que ficou, está mais para as dúzias de produções de horror assépticas que vêm de Hollywood todos os anos.

quarta-feira, outubro 16, 2013

Beijos de emergência, de Philippe Garrel ****


O intimismo do cinema de Philippe Garrel ganha uma conotação ainda mais inesperada em “Beijos de emergência” (1989). Ao focar a história de um cineasta (interpretado pelo próprio Garrel) que se vê num dilema conjugal ao resolver filmar um roteiro de forte conotação autobiográfica, o diretor propõe uma narrativa que se pauta por um naturalismo poético. Impressiona muito a fluência que beira o despudorado com que Garrel estabelece a sua encenação. Não é à toa que os intérpretes da esposa, do pai e do filho do protagonista sejam justamente aqueles que desempenham tais papéis na vida real do diretor. Nesse sentido, é como se o filme sugerisse que as fronteiras entre a arte e a vida fossem muito tênues para Garrel. Diante dessa lógica, não é uma obra que se desenvolva através de grandes reviravoltas – dilemas e conflitos se firmam com a fluência típica da vida, os personagens têm comportamentos que variam entre o impulsivo e o resignado. O estilo de filmar de Garrel é aquele característico de boa parte do melhor de sua filmografia – as elipses que reduzem a narrativa ao essencial, o formalismo de teor contemplativo, a trama que se configura como um pedaço inconclusivo da vida de suas criaturas. Garrel não oferece ao espectador soluções fáceis para aquilo que questiona ao longo da produção. E é justamente esse não compromisso em amarrar todas as pontas que torna “Beijos de emergência” uma obra tão inquietante e de encanto perene.

terça-feira, outubro 15, 2013

Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão ***1/2


O diretor pernambucano Daniel Aragão demonstra em seu longa de estréia “Boa sorte, meu amor” (2012) ter uma espécie de sintonia existencial e artística com seus colegas conterrâneos Cláudio Assis e Kleber Mendonça Filho. Afinal, seu filme traz uma notável combinação de visão crítica da sociedade ocidental contemporânea com uma estética que se desenvolve a partir de uma abordagem em que predomina o sensorial. Nesse sentido, Aragão valoriza, às vezes de forma precisa, outras vezes exagerada, aspectos diversos da linguagem cinematográfica – lentos e exasperantes planos-sequência, uso insólito do som, narrativa simbolista, atmosferas delirantes. Até a direção de elenco revela um caráter diferenciado, em que a beleza da protagonista Maria (Christiana Ubach) parece refletir uma inesperada inocência em meio a sordidez moral que a rodeia, enquanto a interpretação inexpressiva Vinicius Zinn na realidade cai como uma luva para o personagem Dirceu, um jovem pequeno-burguês bunda-mole (e por vezes prepotente) que acaba engolido por um destino que está muito além da sua confortável rotina de rapaz de bem. A ambição temática de Aragão também chama a atenção – sua saga que varia entre o intimista, o surreal e o político junta na mesma obra o urbano/moderno e o rural/arcaico, retratando uma sociedade que se pretende cosmopolita e avançada, mas que na realidade ainda é regida por velhos mecanismos excludentes. Se toda essa pretensão em alguns momentos esbarra em excessos formais e textuais incômodos, em outras passagens encanta pela sua contundência desconcertante.

segunda-feira, outubro 14, 2013

Já não ouço a guitarra, de Philippe Garrel ****


Muito se fala em cinema autoral e pessoal, mas poucos são aqueles cineastas que conseguem gerar uma obra de marca tão indelével e particular quanto o diretor Philippe Garrel logrou em “Já não ouço a guitarra” (1991). Trata-se de uma produção ficcional, mas o próprio Garrel revela que o roteiro é bastante inspirado em fatos de sua vida amorosa com a cantora e modelo alemã Nico, que além de uma expressiva discografia solo também teve participação antológica no fundamental primeiro disco do Velvet Underground. Nesse sentido, é fascinante como um aspecto intimista da vida de Garrel, e que ele aborda de forma bastante visceral, ganha uma dimensão universal no sentido que seu drama amoroso ganha ressonância no imaginário coletivo (afinal, Nico representa um capítulo relevante na história cultural dos últimos 50 anos). Nesse sentido, a habitual estética de Garrel, aqui num de seus momentos de apuro mais elevado, é o veículo mais que ideal para abarcar o seu relato emocional e amargo de um relacionamento que se desintegra. Como entre outras obras do cineasta, sua narrativa não é detalhista . A trama se divide em momentos cujo espaçamento de tempo é aleatório – tanto podem se passar algumas horas entre eles quanto semanas, meses, anos... Em cada um desses trechos, o enfoque é no estado anímico dos personagens e não no contexto histórico deles. Essa sensação de elipses temporais é desconcertante, mas também é muito verdadeiro em termos de construção das situações e personagens. Nessa formatação, não interessa se falar em final feliz ou não para os indivíduos. O que o espectador vê é apenas uma fração das suas vidas, sendo que a conclusão em aberto de “Já não ouça a guitarra” ganha uma conotação de brutal coerência formal e temática.

sexta-feira, outubro 11, 2013

O nascimento do amor, de Philippe Garrel ***1/2


As coisas no cinema de Philippe Garrel parecem seguir um ritmo próprio, como se fizessem parte de um universo particular do cineasta. “O nascimento do amor” (1993) é obra sintomática desse direcionamento artístico. A trama se desenvolve num tempo indefinido, sendo que a estética concebida por Garrel acentua ainda mais essa ideia de atemporalidade. Num primeiro momento, o formalismo da produção alude aos anos áureos da Nouvelle Vague – fotografia em preto e branco, além da edição e narrativa repletas de elipses. Na realidade, Garrel é contemporâneo de Godard e Truffaut, sendo que começou a dar seus primeiros passos no cinema justamente durante o célebre movimento cinematográfico francês. Até mesmo o roteiro traz em si a noção “fora do tempo e do espaço”; os protagonistas Paul (Lou Castel) e Marcus (Jean-Pierre Leaud, em personagem que se mostra em sintonia com o antológico Antoine Doinel) são homens maduros, mas apresentam comportamentos oscilantes e inconseqüentes. Garrel faz a crônica de uma eterna juventude, da imaturidade inconstante. Suas criaturas vagam pela vida num cruzamento entre o hedonismo e a melancolia. E no meio dessa abordagem nostálgica e amarga e das referências mencionadas, fica uma obra de encanto hipnótico e envolvente.

quinta-feira, outubro 10, 2013

O ataque, de Roland Emmerich **1/2


Numa dessas coincidências típicas de Hollywood, calhou que em 2013 aparecessem duas produções grandiosas a retratar a Casa Branca sendo atacada e parcialmente destruída. As próprias tramas, inclusive, são muito parecidas entre si: basicamente, o presidente dos Estados Unidos tem a sua guarda massacrada e sua única tábua de salvação é um agente desacreditado e sagaz. “Ataque à Casa Branca”, de Antoine Fuqua, já comentado neste blog, resgata a estética oitentista no gênero ação, caprichando na violência e na grafismo sanguinolento. Este “O ataque”, de Roland Emmerich, apesar de bastante barulhento e movimentado, é mais politicamente correto e asséptico na sua brutalidade, além de sua veia patriótica ser bem mais exacerbada. É quase como uma produção da franquia Rambo que pudesse ser visto por toda a família. Assim, no saldo final, Fuqua acabou se saindo bem melhor que o seu colega Emmerich: seu filme é bem mais casca grossa e sincero, além de melhor resolvido no seu formalismo.

quarta-feira, outubro 09, 2013

Se puder... dirija!, de Paulo Fontenelle ½ (meia estrela)


Para quem conhece e admira o ator Luis Fernando Guimarães pelo seu trabalho marcante em momentos chaves da comédia nacional como o irreverente grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone e o ácido programa televisivo oitentista TV Pirata, chega a ser constrangedor vê-lo participando de uma produção tão inócua, tosca e babaca como “Se puder... dirija!” (2012). Pense no programa cômico mais sem graça da atual programação da televisão brasileira e imagine isso formatado num filme de uma hora e meia (e que parece que tem o dobro do seu tempo), mas com a pretensão de trazer uma lição de moral edificante. E o pior é que nem dá para dizer que de tão ruim chega a ser engraçado. Não, pelo contrário: de tão mambembe, o filme é chato de uma forma excruciante. Basicamente, o filme aparente ser a reunião de sketches humorísticos reunidos num fio de história. Não há unidade na narrativa, a encenação é desajeitada e o elenco está no piloto automático (com o “bônus” de contar com a pior interpretação infantil dos últimos anos). Ah, talvez essa ostensiva falta de inspiração e competência podia ser apenas pressuposto para o uso da tecnologia 3D, mas a trucagem passa praticamente desapercebida. Ou seja, “Se puder... dirija!” é candidato a maior embuste do ano nos cinemas.

terça-feira, outubro 08, 2013

A filha do meu melhor amigo, de Julian Farino **


Há em “A filha do meu melhor amigo” (2012) uma pretensão de ser “alternativo”. Tem aquele jeitão “indie”, roteiro que se pretende questionador do comportamento da típica família pequeno-burguesa norte americana, evoca algo daquelas comédias acre-doce dos anos 70. Não se engane. No final das contas, o filme é apenas “mais do mesmo”, sendo tão (ou mais) superficial que a média das produções escapistas e comerciais que provém de Hollywood. Está muito mais para uma morna produção oriunda da televisão – não há a mínima ousadia formal na obra em questão, sendo que mesmo a trama que ostenta uma aura contestadora envereda por um conservadorismo incômodo na sua resolução. É um passatempo agradável por vezes, com um elenco até carismático (ainda que caricatural em sequências importantes). Nada, entretanto, que seja especialmente memorável. Aqueles que desejam ver algo mais contundente em termos de ironia às mazelas da família moderna podem ler ou assistir a alguma peça de Nelson Rodrigues – seria uma experiência bem mais substanciosa e impactante do que esse mediano “A filha do meu melhor amigo”.

segunda-feira, outubro 07, 2013

A espuma dos dias, de Michel Gondry ***


“Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), a grande obra-prima do diretor francês Michel Gondry, marcava uma união que se mostrava em sintonia brilhante: o roteiro surreal e muito bem amarrado de Charlie Kaufman (talvez o melhor roteirista norte-americano surgido nos últimos 20 anos) e as criativas concepções visuais de Gondry. Em “A espuma dos dias” (2013), obra mais recente de Gondry, a falta de um roteiro mais focado parece ser o fator preponderante para que o filme em questão se mostre como uma narrativa tão irregular. O diretor ainda se mostra afiado em criar cenas de uma atmosfera imagética delirante – a Paris de Gondry parece pertencer a uma dimensão paralela, em que o retrô, o futurista e o onírico se colidem de forma constante. Dá para dizer que a primeira metade da produção se desenrola como um sonho desajeitado e simpático, com efeitos especiais e detalhes temáticos que lembram alguns trabalhos de Jean-Pierre Jeunet (impressão reforçada também pela presença no elenco de Audrey Tautou, musa de Jeunet). Já a segunda parte do filme envereda por uma atmosfera sufocante de pesadelo – nesse sentido, a sensação de bad trip se estabelece justamente quando o filme busca o seu vínculo maior com a realidade. O problema de “A espuma dos dias” é que essa multiplicidade sensorial é obrigada a se formatar numa trama de matiz convencional. O roteiro por vezes se contenta com um certo banalismo, deixando de explorar vários pontos interessantes que a sua temática tangencia (totalitarismo, convenções sociais distorcidas). As limitações de uma “love story” levam Gondry a excessos estéticos que acabam tirando muito do impacto do filme. Mesmo assim, é uma obra instigante no seu barroquismo exacerbado, mostrando que Gondry ainda é um nome a se prestar atenção.

sexta-feira, outubro 04, 2013

Casa da mãe Joana 2, de Hugo Carvana *1/2


Não tem como escapar do típico clichê da crítica cinematográfica: de tão capenga, “Casa da mãe Joana 2” (2013) até consegue ser engraçado. O diretor Hugo Carvana já é veterano no cinema brasileiro, então não dá para dizer que desaprendeu a fazer filmes. O que acontece que é o seu estilo soa datado e pouco fluente, fazendo com que a produção tenha a aparência de algum sketch do “Zorra total” alongado, ainda que filtrado por um nostálgico bom humor carioca. É provável que Carvana e equipe tenham se divertindo na realização, pois a impressão é que não há rigor na direção. Tudo é muito solto, como um trem desgovernado, dependendo muito mais de alguma boa intervenção dos atores. O trio de protagonistas composto por José Wilker, Paulo Betti e Antônio Pedro está longe de ser inexpressivo, mas a ausência de um direcionamento mais específico resulta em atuações caricaturais em excesso. No final das contas, a narrativa frouxa e desajeitada dá um aspecto mambembe para tudo, o que não deixa de angariar alguma simpatia para o espectador no meio de todas essas comédias assépticas globais que grassam nos nossos cinemas. Impede, porém, de que “Casa da mãe Joana 2” seja uma obra memorável.

quinta-feira, outubro 03, 2013

Jobs, de Joshua Michael Stern *


Sem querer forçar a barra, mas dá para dizer que os nerds mais sem critérios têm mais uma trilogia a acrescentar entre os seus objetos de culto: a de filmes inspirados em grandes marcas da Internet. “A rede social” (2010) mostrou os bastidores das origens e ascensão do Facebook, enquanto “Os estagiários” (2013) tem uma trama fictícia cujo pano de fundo é uma espécie de propaganda dos ideais do Google. Já esse “Jobs” (2013) pelo título já é auto-explicativo: trata-se de uma cinebiografia do criador da Apple, Steve Jobs. É interessante observar que cada uma de tais produções possui uma abordagem diferente. “A rede social” se formata como uma ácida e brilhante crônica de costumes da sociedade ocidental desse século. Já “Os estagiários”, apesar do seu caráter marqueteiro, é uma competente e previsível “comédia universitária”. “Jobs” envereda no gênero da cinebiografia clássica. Seus equívocos, entretanto, não têm necessariamente relação com o seu convencionalismo. O que irrita no filme é um tenebroso descompasso entre o que o roteiro se propõe (uma análise crítica sobre a trajetória profissional de seu protagonista) e a estrutura narrativa proposta pelo diretor Joshua Michael Stern, que parece escolher um tom entre o laudatório e o edificante. Assim, prevalece uma inconveniente e constante trilha sonora melosa (temos a permanente sensação de se estar assistindo a uma grandiosa obra de caráter cívico), roteiro esquemático e previsível, fotografia e edição sem a mínima criatividade, interpretações que oscilam entre o medíocre e o constrangedor (francamente, semelhança física com pessoais reais não deveria ser a condição principal na escolha do elenco). Todos essas questionáveis escolhas artísticas levam a uma obra de sentido mais que confuso – seria algo como “olha, o Jobs era um sociopata, mas no fundo era um cara legal, afinal ganhou tanta grana....”.

quarta-feira, outubro 02, 2013

O casamento do ano, de Justin Zackham *1/2


Por mais que o diretor Justin Zackham diga ter usado no roteiro memórias pessoais e tenha um pretenso verniz de ousadia temática (afinal se fala em adultério, homossexualismo, hipocrisia religiosa), a verdade é que “O casamento do ano” (2013) é uma obra destituída de ousadia e personalidade. Tudo no filme cheira a naftalina – da trama superficial de teor edificante à abordagem formal de Zackham, que abusa de uma estética cartão-postal. Com alguma boa vontade, dá para salvar as atuações carismáticas de Robert De Niro, Diane Keaton e Susan Sarandon, ainda que em relação a isso se tenha uma certa sensação de melancolia em pensar que eles já participaram de produções mais criativas e contundentes.

terça-feira, outubro 01, 2013

Os estagiários, de Shawn Levy **1/2


Na formatação da sua narrativa, dá para dizer que “Os estagiários” (2013) se enquadra naquele gênero de “comédias universitárias”: os principais personagens devem se superar para atingir seus objetivos, em algumas passagens sofrerão bullying, em outras darão umas paqueradas e farão umas festas, até chegar a um clímax em que seus talentos serão reconhecidos e eles ganharão os respeitos de seus colegas e a admiração definitiva de seus respectivos interesses amorosos. O que tem de diferente no filme em questão é que a trama se passa no ambiente de trabalho da Google, com os protagonistas Billy (Vince Vaughan) e Nick (Owen Wilson) tendo por metas se tornarem empregados fixos da empresa em questão. Assim, o filme é até razoavelmente competente dentro de tal gênero – é efetivamente engraçado em algumas cenas, Vaughan e Wilson têm interpretações carismáticas e a narrativa é agradável. Mas nada muito além disso: por mais que o roteiro louve a capacidade criadora de quem trabalha na Google, tudo na produção é rigorosamente previsível. Mas o que mais incomoda em “Os estagiários” é que no final das contas o filme soa quase como uma espécie de peça publicitária a exaltar o Google, distante, assim, por exemplo, da visão lúcida e crítica que o brilhante “A rede social” (2010) expressou ao radiografar a ascensão do Facebook.

segunda-feira, setembro 30, 2013

Flores raras, de Bruno Barreto ***


Os primeiros 10 minutos de “Flores raras” (2013) são claudicantes: a encenação parece um tanto forçada, como se o diretor Bruno Barreto não se sentisse à vontade para filmar nos Estados Unidos. Quando a trama passa a se desenvolver no Brasil, entretanto, o filme adquire força e desenvoltura surpreendentes. Mesmo com uma narrativa convencional, o filme cativa pela maturidade na forma com que o roteiro enfoca as relações humanas, contando ainda com uma visão política e histórica que foge das obviedades e dos reducionismos simplistas. O estilo de filmar de Barreto é simples e elegante, captando sutis nuances na dinâmica entre os personagens. Lota (Glória Pires), por exemplo, tem uma noção bastante liberal sobre as cirandas amorosas em que se envolve, mas ao mesmo tempo é fortemente reacionária e oportunista em suas opiniões e escolhas políticas. Já sua amante, a poeta Elisabeth Bishop (Miranda Otto), mostra uma sensibilidade à flor da pele na sua arte enquanto age de forma seca em relação às pessoas que a cercam. Assim, por mais que a história tenha os seus momentos de romantismo, o que prevalece é um tom melancólico e pouco idealizado do amor romântico, o que dá uma dimensão humana bastante contundente para “Flores raras”. Colaboram também para o impacto considerável do filme as atuações da dupla de protagonista: enquanto Glória Pires privilegia um registro visceral, Miranda Otto adota uma contenção dramática admirável – as diferenças nas interpretações garantem a tensão necessária de forma mais que convincente.

sexta-feira, setembro 27, 2013

Wrong, de Quentin Dupieux *1/2


A influência principal do diretor francês Quentin Dupieux em “Wrong” (2012) é evidente em cada fotograma: o cara queria ser David Lynch. Mas apenas emular um estilo não quer dizer necessariamente que se vá reproduzir a mesma genialidade. E Dupieux acha que a estética lyncheana se resume a bizarrices engraçadinhas. Não há aquela combinação marcante e de alto impacto sensorial entre surrealismo e virtuosismo cinematográfico típica das melhores produções de Lynch. O filme se limita a uma trama absurda e rasa formatada em cenas esquisitas que estão muito mais para o besteirol de algumas comédias clássicas dos irmãos Zucker (só que sem a mesma inspiração).